quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Vera Magalhães – Governo vê índios como estorvo

O Globo

Não começou no governo Jair Bolsonaro a discussão a respeito da adoção da tese do marco temporal como vinculante para a demarcação de terras indígenas, decisão fundamental para o futuro do Brasil que, de tão intrincada, o Supremo Tribunal Federal pode de novo adiar nesta quarta-feira.

Mas foi neste governo que esse tema virou mais uma daquelas bandeiras que o presidente brande para se contrapor de forma sempre brutal a qualquer direito de minorias com que não tem qualquer empatia nem qualquer compromisso como governante.

O marco temporal virou um passaporte para Bolsonaro impulsionar uma política de subjugar os povos indígenas e lhes tirar direitos, e é essa a dimensão que o julgamento do STF adquiriu, com a maior mobilização pela vida já organizada em Brasília por representantes de várias etnias.

Foi ainda no julgamento da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, concluída em 2009, que a tese do marco temporal ganhou corpo, incluída entre 19 condicionantes apresentadas pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito ao voto histórico de Carlos Ayres Britto que reconhecia a demarcação contínua da área no Estado de Roraima.

Bernardo Mello Franco – Reféns do medo

O Globo

Em três dias, Jair Bolsonaro admitiu duas vezes que está com medo da cadeia. No sábado, ele disse ver três alternativas para o próprio futuro: “estar preso, ser morto ou a vitória”. Acrescentou que “a primeira alternativa, preso, não existe”. Faltou explicar o motivo: ausência de crime ou de espaço no xadrez?

Na segunda-feira, o capitão voltou ao tema. Garantiu que o Supremo Tribunal Federal estaria decidido a mandá-lo para a tranca. “O que eles querem? Aguardar o momento para me aplicar uma sanção restritiva, quem sabe quando eu deixar o governo lá na frente”, afirmou. Pelo que indicam as pesquisas, o “lá na frente” deve chegar mais cedo do que ele gostaria.

Bolsonaro tem razões para perder o sono. Até aqui, ele é alvo de quatro investigações simultâneas no Supremo. Os inquéritos apuram a eventual prática de crimes no exercício do mandato, da interferência indevida na Polícia Federal à prevaricação no escândalo da Covaxin. A conta não inclui outros delitos ligados à gestão da pandemia, que serão listados no relatório final da CPI da Covid.

Luiz Carlos Azedo - Estratégia do fracasso

Correio Braziliense

A transformação do 7 de Setembro num Rubicão pode não ter sido uma boa ideia por parte de Bolsonaro, simplesmente porque as legiões não pretendem acompanhá-lo

Em 8 de março do ano passado, a caminho de Washington, onde se encontraria com o então presidente Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro fez uma escala em Roraima e foi recepcionado por 400 apoiadores, ocasião em que anunciou a convocação de seus partidários para uma grande manifestação em 15 de março. Objetivo: pressionar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). “É um movimento espontâneo, e o político que tem medo da rua não serve para ser político”, disse. Na verdade, nada era espontâneo, tudo estava sendo convocado pelas redes sociais, por um exército de robôs comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro, o seu filho 02, que exerce o mesmo papel até hoje.

Pretendia pressionar o Congresso a votar seus projetos de regulamentação da execução de emendas parlamentares e politizar a pandemia da covid-19 e o fracasso da sua política econômica, que havia resultado num crescimento de apenas 1,1% do PIB em 2019. Uma retrospectiva do que veio depois mostra que deu tudo errado. A pandemia não era uma “gripezinha”, já se aproxima de 600 mil mortos e ainda nos ronda; a pressão sobre o Congresso fracassou, resultou num acordo com o Centrão, no qual boa parte dos investimentos do Orçamento da União ficou sob controle do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o homem que tem na gaveta os pedidos de impeachment do presidente da República.

Ricardo Noblat - Liberdade de expressão, o novo nome de crimes contra a democracia

Blog do Noblat / Metrópoles

Se aprovado, novo Código Eleitoral deixará em maus lençóis Bolsonaro e os que se comportam como ele

Está marcada para amanhã a votação em primeiro turno na Câmara dos Deputados do novo Código Eleitoral. Se ele for aprovado ali e, depois, no Senado, o presidente Jair Bolsonaro, seus devotos e quem mais hostiliza a democracia e distribui notícias falsas terão muito com o que se preocupar.

Há seis artigos no Código que tratam do combate à desinformação em período eleitoral. O artigo 882 prevê pena de 1 a 4 anos de reclusão para quem divulgar ou compartilhar notícias falsas. Torna-se crime a propagação de fatos inverídicos ou gravemente descontextualizados com a intenção de influenciar eleições.

Se a conduta for praticada com a finalidade de “atingir a integridade dos processos de votação, apuração e totalização de votos para promover a desordem ou estimular a recusa social dos resultados eleitorais”, a pena é acrescida de metade a dois terços do seu tamanho. Se o Código vigorasse, Bolsonaro estaria ferrado.

Rosângela Bittar - Armadilhas

O Estado de S. Paulo

O presidente está sob a pressão de três problemas que quer abafar, ao seu modo

A morte e a insanidade seguem Jair Bolsonaro e ele cultiva bem tais companhias. No calendário deste setembro, que começa hoje, o presidente já acionou as armadilhas do seu inesgotável arsenal de desvios de poder. Barrou manifestos de apoio à paz e à democracia, por ele ameaçados. Convocou seus eleitores a irem às ruas, no patriótico dia 7, em apoio a ele próprio. Com a autorização, emitida em público, a comparecerem armados de fuzis. Tomara que não se precipitem antes de uma ordem de ataque.

Famílias de bom senso não devem expor suas crianças a uma multidão sem controle. Não haverá aquele desfile militar lúdico dos inesquecíveis tempos normais.

Sempre que vai passar por um aperto, Bolsonaro cobra apoio explícito. Os bolsonaristas tanto podem se ater a um conveniente clamor por liberdade como atender ao convite à invasão do Congresso e do Supremo. Seja o que for, o evento já deu resultados. A manifestação que Bolsonaro convocou para enfrentar as diferentes crises é uma crise em si mesma.

José Nêumanne* - Bolsonaro não é louco, mas um estúpido coerente

O Estado de S. Paulo

Disparates sem sentido do presidente fazem parte de seu projeto de matar para mandar

“Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Aí tem um idiota: ‘Ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se você não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”, disse o presidente da República, em 27 de agosto, para fãs que se reúnem diariamente à espera da ocasião propícia para bajulá-lo.

É comum atribuir suas patacoadas sem nexo a impulsos de insanidade. Muita gente boa e lúcida propõe convocar uma junta de psiquiatras para decretar a interdição de Jair Bolsonaro. Isso condiz a lógica, porque, ao longo de sua vida de mau militar e parlamentar em ócio permanente, ele nada produziu de útil.

De farda, resumiu sua passagem pela caserna a reclamar de baixo soldo. Sob acusação de terrorismo por ter planejado atentados à bomba em quartéis e numa adutora do Guandu, como expôs o repórter Luiz Maklouf Carvalho no primoroso livro O Cadete e o Capitão, foi convidado a cair fora da vida militar, que resumiu numa frase dita em Porto Alegre em 2017: “Minha especialidade é matar, não é curar ninguém”.

Em 30 anos de política, como vereador no Rio e deputado federal, sua improdutividade parlamentar facilitou a narrativa com a qual venceu a disputa pela Presidência em 2018: a de nunca ter sido um político de verdade. De sua passagem pela Câmara deixou duas obras: uma é o projeto da “pílula do câncer”, em parceria com o médico e sindicalista do PT Arlindo Chinaglia, sancionada pela petista Dilma Rousseff, outra personagem do folclore do absurdo infeliz. A segunda, o voto pelo impeachment da ex-guerrilheira, em que saudou como herói o torturador e assassino Brilhante Ustra, acusado de tê-la torturado. Em ambos os casos, elegeu a covardia e uma aparente contradição. Neste caso, será útil lembrar que cumpriu o que sempre quis na vida pública: amealhar patrimônio pessoal, garantir a própria impunidade e deixar uma polpuda herança para o pagador de impostos sustentar a própria prole. Os “rolos” imobiliários do filho senador e do adolescente festeiro, de um descaramento atroz para pagadores das contas da famiglia, são evidências que talvez Nelson Rodrigues preferisse definir como “atordoantes”, em vez de “ululantes”.

Fábio Alves - Ameaça à confiança

O Estado de S. Paulo

O ambiente político poderá afetar a trajetória da dívida e ameaçar o teto de gastos

Em meio à alta da inflação e dos juros, além do risco de apagão ou de alguma medida de racionamento de energia elétrica em razão da piora da crise hídrica, os índices de confiança devem engatar uma nova tendência de queda nos próximos meses.

E não faz tanto tempo assim que esses índices se recuperaram do tombo causado pela forte contração da economia durante o auge da pandemia de covid. A deterioração no sentimento agora deve atingir particularmente os consumidores – afetados pela visível perda do poder de compra nos últimos meses – e os empresários do setor industrial.

Já os do setor de serviços ainda se mostram otimistas com o futuro próximo em meio ao relaxamento das medidas de distanciamento social, diante da queda no número de casos e de mortes por covid e também do avanço da vacinação. Mas poderá a confiança no setor de serviços resistir a tantas incertezas no cenário macroeconômico e político do Brasil?

Em agosto, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), caiu 0,4 ponto ante julho, interrompendo quatro meses de alta. O da Indústria (ICI) recuou 1,4 ponto, também após uma sequência de quatro altas seguidas.

Enquanto a confiança do comércio registrou leve queda de 0,1 ponto, a do setor de serviços avançou 1,3 ponto, para 99,3 pontos, seu maior nível desde setembro de 2013.

Fernando Exman - Que fique claro: agora não haverá anistia

Valor Econômico

Bolsonaro está sob pressão e cada vez mais isolado

Desta vez, não haverá anistia. É a mensagem presente nas entrelinhas daqueles que se dirigem à ala mais radical do bolsonarismo às vésperas dos atos marcados para o 7 de setembro.

Uma mensagem direta e objetiva. Necessária. Até porque tudo indica que os atos em gestação não serão estritamente em defesa do governo federal e do presidente Jair Bolsonaro. Eles tendem a servir de cenário para mais ataques às instituições, agressões aos Poderes Legislativo e Judiciário e renovadas ameaças ao estado democrático de direito.

Em tempo: se neste ano Bolsonaro já aproveita uma data cívica para promover os próprios interesses políticos, é de se perguntar o que será capaz de fazer no ano que vem, no bicentenário da independência. É difícil imaginar que esta administração aproveite a efeméride para promover a união nacional. O embate e a radicalização são as forças motrizes de Bolsonaro, um presidente cada dia mais isolado e sob crescente pressão do Supremo Tribunal Federal (STF) e da CPI da Covid.

Nos últimos dias, o chefe do Executivo falou que não se trata especificamente de levantar a espada, numa clara referência a uma ação armada, mas chamou o próximo 7 de setembro de “oportunidade” para mudar o rumo do país dentro do que equivocadamente considera as quatro linhas da Constituição.

Tiago Cavalcanti* - Pilares de uma sociedade

Valor Econômico

Focar gastos nos mais pobres e na formação das pessoas são princípios fundamentais

Apesar de trabalhar na mesma universidade e Faculdade de Economia onde John Maynard Keynes - um dos economistas mais influentes do século XX - estudou e lecionou, nunca fui keynesiano. Pelo contrário, até minha pesquisa tem certa distância em relação às questões que Keynes se preocupava. Isso, contudo, não implica que deixo de ter admiração por alguns de seus pensamentos e sua trajetória como acadêmico e homem público.

Uma das famosas frases de Keynes é a de que “no longo prazo todos estaremos mortos”. Ele escreveu esta frase em seu livro “A Tract on Monetary Reform” de 1923. É importante entender o contexto da célebre tirada. Keynes criticava a teoria econômica defensora de que as crises econômicas seriam passageiras e fariam parte do sistema econômico, assim os governos não deveriam intervir com políticas contra-cíclicas de curto prazo, já que a economia tenderia, no longo prazo, para um equilíbrio de pleno emprego. Essa batalha, na prática, foi vencida por Keynes, já que a quase totalidade dos governos passaram a implementar políticas para manter o emprego e a renda no curto prazo.

Bruno Boghossian – O marketing do golpe

Folha de S. Paulo

Presidente para em 'oportunidade para o povo', mas principal preocupação é com ele mesmo

Jair Bolsonaro usou mais um evento oficial para fazer um chamado para os protestos golpistas de 7 de setembro. No interior de Minas Gerais, ele subiu no palanque e disse que a data será uma "oportunidade para o povo brasileiro". O presidente exagerou no marketing: o único objetivo dos atos é intimidar outros Poderes e proteger seu grupo político.

A máquina de propaganda bolsonarista quer mascarar os protestos como um movimento em defesa do que chama de liberdade, como se houvesse um espírito nobre na defesa de sujeitos que falam em "botar fogo no Tribunal Superior Eleitoral". O próprio presidente já deixou claro, no entanto, que a liberdade que o preocupa é a dele mesmo.

Na crise política fabricada pelo Palácio do Planalto, Bolsonaro já disse ver três alternativas para o futuro: "estar preso, ser morto ou a vitória". Dias depois, explicou que, ao fazer aquela declaração, ele se referia a um ambiente de muita pressão. "Quando falamos em voto impresso, passou a ser crime. Quando falamos em tratamento precoce, passou a ser crime", afirmou.

Mariliz Pereira Jorge - Por que Bolsonaro quer se reeleger?

Folha de S. Paulo

Para não ser preso, porque sabe que ultrapassou as quatro linhas da Constituição

Para não ser preso. Ele sabe que já ultrapassou as quatro linhas da Constituição, apenas não tinha deixado claro que está ciente das possíveis consequências, ainda que as negue. Num encontro com líderes evangélicos, no último sábado (28), disse o seguinte: "Eu tenho três alternativas para meu futuro: estar preso, estar morto ou a vitória. Pode ter certeza que a primeira não existe".

Na atual conjuntura, não existe mesmo. Blindado pelas leis, pelo cargo, pela Procuradoria-Geral da República e por Arthur Lira, só resta a ele continuar escondido atrás da faixa presidencial para diminuir as chances de responder por seus crimes e de não poder mais usar a máquina do governo para proteger seus filhos, que talvez já estivessem em cana.

Roberto DaMatta - Sherlock no Brasil de Bolsonaro

O Globo / O Estado de S. Paulo

Não há nada pior do que assistir a uma conspiração contra instituições. Ver as molduras que organizam a vida ser atacadas. Quando Shakespeare diz que o mundo é um palco, e todos somos atores, revela o elo entre o todo (o roteiro como instituição) e a parte (a encenação como sua manifestação).

Encenar é interpretar. Nossas falas não seriam entendidas se não falássemos todos a língua portuguesa. Para que o drama se cumpra, ele tem de existir antes dos atores que o encenam e dos espectadores capazes de “deduzir” de suas cenas o significado que nele se encerra.

Somos simultaneamente demarcadores e demarcados por molduras e nos assustamos quando elas são rompidas. Imagine um juiz arrotando depois de uma sentença; um senador arrumando a dentadura numa CPI; ou um presidente ameaçando dar porrada em jornalistas...

Molduras revelam níveis de realidade. Indicam o que é e o que não é. O que você deduz quando, em Chicago, vê uma cena de perseguição policial? Perplexo, você exige uma moldura para assentar o que testemunhou. Foi um assalto? Não, diz alguém o acalmando, é o Brian De Palma refilmando “Os intocáveis”.

A resposta, roubada de um livro do sociólogo Erving Goffman, satisfaz seu senso de realidade. A expressão “é sério” faz parte de um mundo infiltrado por brincadeiras, mentiras, trotes e fake news de todos os tipos de moldura.

O golpe pode ser lido como uma moldura implantada numa hora de indecisão. O que hoje amedronta é a confusão de molduras promovendo insuportáveis inseguranças. Quando sentenças e operações contra uma corrupção abusiva são neutralizadas, e poderosos são inocentados, cria-se um paradoxo porque foi justamente sua exposição que elegeu o “supremo mandatário da nação”, que hoje atua numa clara desconstrução institucional da República.

Elio Gaspari - O vexame da Fiesp

O Globo / Folha de S. Paulo

A turma do agro falou

Lembra aquele pato amarelo que ficava em frente à Fiesp durante as jornadas de manifestações contra o comissariado petista? O doutor Paulo Skaf, que ainda preside a instituição, poderia recolocá-lo na calçada da Avenida Paulista. Ou poderia pendurar seu plástico murcho na fachada.

Quem imaginou a Fiesp de Skaf pedindo qualquer coisa que desagrade ao governo, inclusive democracia, comprou um lote na Lua. O texto que ele segurou informa que o triângulo tem três ângulos.

Desde o século passado, quando o grão-senhor da “Poderosa” operava uma caixinha que em tese financiava o DOI-Codi, a Fiesp é um apêndice do poder. Como o sapo de Guimarães Rosa, não faz assim por boniteza, mas por precisão. Ela é cevada pelos recursos que o Sistema S suga das folhas de pagamento das empresas. Como São Paulo tem indústrias, chegou-se a pensar que de lá sairia algum documento, ainda que morno. A Federação do Rio de Janeiro antecipou-se à Fiesp, anunciando que não endossaria manifesto algum. Pudera, muitas federações e poucas indústrias os males do Rio são.

O vexame da Fiesp seria mais um capítulo na sua crônica de subserviência e oportunismo, mas foi um marco na história do empresariado nacional. No mesmo dia em que ela se encolheu, sete entidades do agronegócio divulgaram um manifesto em que disseram o seguinte:

— O desenvolvimento econômico e social do Brasil, para ser efetivo e sustentável, requer paz e tranquilidade, condições indispensáveis para seguir avançando na caminhada civilizatória de uma nacionalidade fraterna e solidária, que reconhece a maioria sem ignorar as minorias, que acolhe e fomenta a diversidade, que viceja no confronto respeitoso entre ideias que se antepõem, sem qualquer tipo de violência entre pessoas ou grupos. Acima de tudo, uma sociedade que não mais tolere a miséria e a desigualdade que tanto nos envergonham.

Vinicius Torres Freire - Ataque do governo desorganiza movimento empresarial que já era frágil

Folha de S. Paulo

Dois piparotes do mundo político real bastaram para desarranjar essa rara comunhão da elite econômica

“manifesto” das associações empresariais e das finanças ainda pode sair oficialmente, mas alguns dos grandes envolvidos nesse movimento pendem, por ora, para deixar como está para ver como é que fica. Isto é, deixar a fervura baixar, até porque há grande confusão sobre quais rumos tomar e como decidir o que fazer (quem vai decidir?), além de atritos, decepções e troca de acusações meio furiosas entre quem tomou parte mais ativa da organização do “manifesto” ou “nota”. Muita gente que deu início ao movimento diz agora que os “rachas” e o desarranjo são um “caso lamentável” e que lança “ridículo” sobre movimentos empresariais.

Pode ser que a coisa fique para depois do 7 de Setembro, como transpareceu de uma reunião de banqueiros na noite desta segunda-feira (30) e de conversas entre alguns grandes industriais desde o início envolvidos no “manifesto”, mesmo antes de a Fiesp de Paulo Skaf entrar no jogo. Pelo menos 6 grandes empresários e um banqueiro envolvidos ou informados desde o início assunto nem ao menos sabem em que pé está o “manifesto” ou quem está tomando conta dele ­–alguns, nem mais querem saber disso.

Na noite de segunda-feira, quando o caldo do “movimento” entornou de vez, houve uma reunião entre os presidentes dos maiores bancos públicos, Banco do Brasil e Caixa, com alguns dos presidentes dos maiores bancos privados, Bradesco e Itaú, entre eles e o comando da Febraban.

Zeina Latif - Novamente brincando com fogo

O Globo

Ainda que situações excepcionais levem a algum experimentalismo na política pública, não se pode dispensar uma dose de cautela quando se navega em novos mares. Afinal, correções de rumo costumam ser muito custosas em economias não avançadas.

Um exemplo é a atenção aos limites da responsabilidade fiscal - especialmente em um país que gasta mal os recursos públicos e os financia com tributos distorcivos e dívida pública cara e concentrada no curto-médio prazo.

Como resultado do pouco apreço à disciplina fiscal, de tempos em tempos, levamos sustos com a inflação, pois os excessos fiscais acabam estimulando indevidamente a demanda – enquanto a oferta nem de longe consegue acompanhá-la, por conta do difícil ambiente de negócios –, e a elevada e crescente dívida pública gera desconfiança de investidores e pressão no câmbio.

Os políticos não costumam perder a oportunidade para elevar gastos e conceder benefícios tributários, mas não seria justo culpá-los unicamente. Muitas vezes, analistas ignoram os manuais de boas práticas de gestão fiscal por conta de objetivos ou interesses de curto prazo. Acabam por conceder o beneplácito ao oportunismo.

Ao longo de 2020, por exemplo, não faltaram recomendações para elevar os gastos públicos (pior, financiá-los com emissão monetária) como se não houvesse amanhã – ou como se não houvesse risco de volta da inflação. Deu errado: a inflação está em 9,3%. Ao menos, a Câmara não abraçou propostas criativas na chamada PEC do orçamento de guerra.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Governo se mobiliza contra um manifesto de conciliação

Valor Econômico

O presidente e seus aliados criam um clima corrosivo também para os negócios

Não foi o primeiro e, se depender do presidente Jair Bolsonaro, não será o último manifesto por paz na República e atenção às regras democráticas o que duas das mais poderosas organizações de empresários do país, a Federação Brasileira de Bancos e a Fiesp, prepararam. A diferença em relação aos outros foi que ele não veio a público - embora seu conteúdo principal tenha sido amplamente divulgado.

O governo federal interveio para isso. O ministro Paulo Guedes disse que alguém lhe tinha dito que não se tratava da defesa da democracia, mas de um ataque da Febraban ao governo. As direções do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal entraram em ação e ameaçaram deixar a associação. O convite final ao silêncio veio do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que solicitou a Paulo Skaf, presidente da Fiesp e ex-aliado de Bolsonaro, que postergasse o documento para depois do 7 de Setembro. Não houve iniciativa semelhante do deputado em relação ao presidente da República, que incentivou a convocação de atos públicos nesta data cujas palavras de ordem são ataques ao Supremo Tribunal Federal.

O contraste entre o comedimento de um lado e o radicalismo de outro merece atenção. Quem acredita que a associação dos bancos é incendiária comete o mesmo erro descomunal de quem acredita que Jair Bolsonaro é um liberal. O manifesto que se engendrava era bem mais comedido do que seus antecessores e, em essência, assentava-se no pressuposto de que a harmonia entre os Poderes está inscrita na Constituição e que por isso “é primordial que todos os ocupantes de cargos relevantes da República sigam o que a Constituição nos impõem”. Em seguida, pregava “serenidade, diálogo, pacificação política e estabilidade institucional”.

Enquanto os organizadores do manifesto faziam malabarismos para não colocar em suas frases o sujeito oculto - aquele que não anda fazendo o que manda a Constituição - e igualava as condutas dos demais Poderes, que não estão provocando balbúrdia, o presidente dizia no sábado em Goiânia que não deseja rupturas, “mas tudo tem limite” e que não aceitará uma derrota nas eleições de 2022. Deu três chances sobre seu futuro: “Estar preso, morto ou a vitória”. Bolsonaro afirmou, a mais de um ano da votação, que pacificamente, pelas normas do jogo democrático, não entregará o poder.

Poesia | Bertolt Brecht - Aos que virão depois de nós

 

Música | Paraíso do Tuiuti 2018 - Samba na voz de Grazzi Brasil

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Merval Pereira - Fora do tom

O Globo

A crise desencadeada pela intenção de instituições como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) de divulgar manifesto supostamente contra o governo, mas que, na prática, defende mesmo a necessidade de diálogo entre os Poderes da República, mostra bem a que ponto chegamos no debate político no país.

O documento final é neutro, e o governo, que teve vitória na pressão para mudar o teor original, ou está interpretando errado, ou quer criar mais uma confusão. O documento, ao pedir diálogo, admite que Bolsonaro queira fazê-lo. O presidente já rompeu todas as promessas de conversas que foram tentadas, até pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux.

Desde o começo da iniciativa, houve marchas e contramarchas para encontrar o tom correto do texto, a ser apresentado não apenas a representantes das entidades econômicas e financeiras, mas à sociedade civil como um todo. O que nasceu com a ideia de ser um protesto contra o rumo que estavam tomando os embates do governo federal com o STF foi sendo amainado por pressões diversas, não apenas políticas, mas econômicas também. Acabou se transformando num manifesto anódino colocando em pé de igualdade o Judiciário e o Legislativo como responsáveis, tanto quanto o Executivo, pela crise institucional que vivemos.

Míriam Leitão - Os riscos do país, segundo Persio

O Globo

O economista Persio Arida acha que o Brasil precisa agora de uma agenda de reparação e recuperação do Estado. “Nosso Estado foi destruído e mal tratado, olha o que aconteceu com o Ibama, o que está acontecendo com a Ciência e Tecnologia.” Alerta para o risco de se deixar a inflação aumentar e chama a atenção para o avanço da pobreza. “Paulo Guedes devia andar na rua e não precisa ser em bairros pobres”. Sua grande preocupação no momento é com a defesa da democracia.

Persio Arida integrou o grupo do Plano Real. É liberal, mas nunca se viu representado pela agenda de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Assinou um manifesto de economistas e empresários contra o governo, mas suas críticas a Bolsonaro e Paulo Guedes começaram antes das eleições. Eu o entrevistei na Globonews sobre os riscos econômicos e institucionais:

— Muitos, para evitar um suposto mal maior, ou seja, a volta do PT, votaram em Bolsonaro. Agora há um movimento de rejeição às ameaças de golpe, de ruptura da ordem democrática, rejeição a este processo de intimidação e erosão das instituições democráticas.

O economista acha que entre os que votaram em Bolsonaro, na elite empresarial e financeira brasileira, há arrependimento e decepção. Sobre a frustrada agenda liberal, ele também sempre alertou que era um engodo:

— Havia quem acreditasse que Bolsonaro encontrou Paulo Guedes na estrada de Damasco e se converteu. Foi um engano extraordinário. Bolsonaro votou contra o Plano Real, defendeu a tortura, disse que Fernando Henrique tinha que ser fuzilado porque privatizou a Vale, por que de repente acreditaram que ele defenderia o liberalismo? Paulo Guedes tem uma parte nisso. Ele criou uma narrativa e acreditou nela, a de que todos os problemas anteriores derivavam de ele não estar no governo. Foram dois erros: as pessoas não se perguntaram quem era Bolsonaro, nem quem era Paulo Guedes. Quiseram acreditar numa miragem. Uma miragem perigosa.

Luiz Carlos Azedo - O bicentenário

Correio Braziliense

O Brasil vive um cenário de incertezas, tendo como falso deadline o próximo 7 de Setembro, no qual o presidente Jair Bolsonaro promete armar um grande barraco político

Ao resenhar a obra do historiador José Honório Rodrigues, Conciliação e reforma no Brasil (Senac), de 1965, o embaixador Alberto Costa e Silva destacou que a chave para entender a história do Brasil é a conciliação: “Entre os que se foram tornando o povo brasileiro — os índios convertidos e os selvagens; os negros escravos, libertos, africanos e crioulos; os brancos reinóis e os mazombos; os mamelucos; os mulatos e os cafuzos; tão diversos entre si, tantas vezes conflitantes e, na aparência, irredutíveis —, venceram os conciliadores sobre a violência dos intransigentes”.

Pelourinhos, quilombos, motins, revoltas, repressões sangrentas, fuzilamentos, enforcamentos, esquartejamentos, guerras e mais guerras, desde a Independência, foram 200 anos sangrentos, mas prevaleceu a unidade nacional e a conciliação no seio do povo, à qual devemos “o fato de ter o Brasil, desde cedo, deixado de ser uma caricatura de Portugal nos trópicos” e possuir um substrato novo, “apesar do europeísmo e lusitanismo vitorioso e dominante na aparência das formas sociais”, como destacou Honório Rodrigues.

Não haveria futuro com recusa ao diálogo, desrespeito aos opositores, intolerância mútua e intransigência. Muito mais do que às elites, ao povo se deve a integridade territorial; a unidade linguística; a mestiçagem; a tolerância racial, cultural e religiosa; e as acomodações que acentuaram e dissolveram muitos dos antagonismos grupais e fizeram dos brasileiros um só povo que, como se reconhece e autoestima, delas também recebeu as melhores lições de rebeldia contra uma ordem social injusta e estagnada, avalia.

Ricardo Noblat - Mistério em torno do que Bolsonaro dirá em Brasília e em São Paulo

Blog do Noblat / Metrópoles

Ganha um fim de semana com tudo pago em Cabul quem for capaz de antecipar suas falas no dia 7 de setembro

Nem dona Michelle que divide a cama com ele, nem o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria do Governo, capaz de literalmente ajoelhar-se aos seus pés com as mãos atrás da nuca, fazem a menor ideia do que o presidente Jair Bolsonaro dirá nas manifestações de 7 de setembro em Brasília e em São Paulo.

Por conhecerem bem a peça, poderão supor que o discurso em Brasília pela manhã será mais ameno do que o discurso que Bolsonaro fará à tarde na Avenida Paulista, mas é só. Alguns auxiliares do presidente o aconselham a não se deixar contaminar pelo ardor das multidões e os dizeres dos cartazes e faixas.

Bolsonaro ouve, mas nada responde. Decidirá na hora e levará em conta as circunstâncias. Põe fé no seu faro. Não quer decepcionar seus devotos. Não pode dar-se ao luxo de perder votos porque a moderação não combina com seu perfil. Cuidará apenas de não falar o que possa acarretar-lhe novos processos.

Nos últimos dois dias, afirmou três vezes que seu destino poderá ser a prisão depois que deixar a presidência da República. Soa a medo? Medo pode ser de fato. Mas é uma forma de se martirizar e de clamar por mais apoio dos que o idolatram. Seu maior temor é que um dos seus filhos seja preso. Aí ele perderá a cabeça.

Eliane Cantanhêde - Vergonha alheia!

O Estado de S. Paulo

Por que o ‘PIB nacional’ desistiu de pedir serenidade, diálogo, paz e estabilidade? Por covardia?

Não foi preciso nem um cabo e um soldado para cancelar um manifesto cheio de obviedades, articulado pela poderosa Febraban, encampado pela igualmente poderosa Fiesp e com mais de 200 assinaturas. Realmente, o Brasil não é para amadores. E está se tornando ridículo diante dos brasileiros e do mundo com um presidente da República que ameaça a democracia por palavras e atos e com um “PIB nacional” covarde.

O que há de tão grave e assustador em cinco parágrafos defendendo a “aproximação e a coordenação” entre Executivo, Legislativo e Judiciário? Pedindo “serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional”? Só num país conflagrado, nervoso, apavorado com a ideia de golpes e guerras, isso pode mobilizar tantos e desaguar no adiamento do manifesto.

Isso, aliás, é parte do ridículo. A publicação oficial, que seria paga pela Fiesp, foi adiada “para depois do 7 de Setembro”. Mas a publicação extraoficial, de graça, foi feita ontem mesmo, com um dia de antecedência, por toda a mídia. Logo, o texto foi suspenso, mas não foi, todo mundo leu.

Felipe Salto - Solução para os precatórios

O Estado de S. Paulo

Todas as alternativas consideradas têm riscos não desprezíveis. A solução difícil, cortar gastos, ninguém quer

O episódio dos precatórios revela a preferência por contornar o teto de gastos. O risco de não pagar despesas obrigatórias já foi elucidado no meu último artigo. Dólar, inflação, juros e dívida para cima. Proponho uma solução para preservar o teto, ampliar o Bolsa Família e quitar todos os precatórios em 2022.

O governo informou, recentemente, que haverá R$ 89,1 bilhões de sentenças judiciais e precatórios a pagar no ano que vem. Não deveria surpreender-se, já que a Advocacia-geral da União faz o mapeamento sistemático dos riscos. Na Lei de Diretrizes Orçamentárias e no Balanço-geral da União constam as informações agregadas. Supõe-se ser a soma dos dados pormenorizados de cada ação judicial. Antes, previa-se algo como R$ 57 bilhões.

A diferença, de R$ 32,1 bilhões (89,1 menos 57), precisará caber no teto e no Orçamento. O Projeto de Lei Orçamentária Anual será apresentado hoje e, até o momento em que este artigo foi escrito, não havia solução anunciada. A PEC dos Precatórios é um erro com potencial de prejudicar a economia via aumento do risco. Retirar o gasto do teto ou fixar um limite máximo anual de pagamento seriam saídas igualmente problemáticas.

Hélio Schwartsman - Resistência jurídica

Folha de S. Paulo

Essas decisões do STF, apesar de controversas, podem ser descritas como reações legítimas ao vandalismo institucional de Bolsonaro e seus apoiadores

Roberto Jefferson poderia ter sido preso? Inquéritos abertos pelo STF para investigar apoiadores de Jair Bolsonaro são teratomas jurídicos? O deputado Daniel Silveira pode ser considerado um preso político? Os ministros do Supremo estão extrapolando? Essas perguntas comportam dois níveis de respostas.

Se estivéssemos numa espécie de playground kelseniano, onde as normas jurídicas são aplicadas de forma totalmente abstrata, eu faria restrições a várias das decisões da corte ou, pelo menos, cobraria fundamentações mais detalhadas. Não há dúvida de que Jefferson ameaçou ministros, mas estamos lidando com ameaças críveis ou com um caso psiquiátrico? Será que o STF não alargou demais o dispositivo do regimento interno (RI) que autoriza a abertura de inquéritos “ex officio”? O artigo 43 do RI, afinal, limita essa capacidade a infrações cometidas “na sede ou dependências do tribunal”.

O ponto é que não estamos num universo de puras abstrações. No mundo em que vivemos, essas decisões do Supremo, apesar de controversas, podem ser descritas como reações legítimas ao vandalismo institucional de Jair Bolsonaro e seus apoiadores, que não serão contidos pelo respeito abstrato à lei.

Joel Pinheiro da Fonseca - Quem é o intolerante?

Folha de S. Paulo

Sociedade não pode permitir a incitação ao golpe de Estado e à quartelada

A tolerância, embora um valor central do mundo democrático e respeitador dos direitos individuais, precisa de uma dose de intolerância para não sucumbir. A formulação canônica do “paradoxo da tolerância” foi feita pelo filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) em uma nota de rodapé de seu clássico “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.

Diz o filósofo: “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e com eles a tolerância”.

Cristina Serra - Violência contra os indígenas

Folha de S. Paulo

O marco temporal é uma desonra para quem acredita que o Brasil pode ser um país decente

O Supremo Tribunal Federal retoma nesta semana, finalmente (!), o julgamento de controvérsia que precisa ser pacificada para que os povos indígenas tenham segurança jurídica sobre a posse de seus territórios.

O cerne da discussão é o chamado marco temporal, conceito que reconhece apenas o direito às terras ocupadas pelos indígenas até a data da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988. O marco temporal distorce o texto constitucional e ignora histórico secular de agressões contra os povos originários, banidos de suas terras, caçados e mortos como animais.

Andrea Jubé - O “idiota” russo e o brasileiro “idiota”

Valor Econômico

Campos Neto é “candidato dos sonhos” do Centrão

Era 1867 e o escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881), embalado pelo sucesso de “Crime e castigo”, havia recebido uma grande soma de dinheiro de seus editores como adiantamento pelo novo romance, ainda em gestação.

Para despistar os credores, o autor embarcou com sua segunda esposa, Anna Grigórievna, para uma temporada de quatro anos no exterior, revezando endereços na Alemanha, Áustria, Suíça e Itália.

Em cartas enviadas aos editores, o autor revelou que em meio a esse autoexílio, pretendia finalmente dedicar-se à concepção de seu maior personagem, aquele que encarnasse a perfeição humana, com potencial para fascinar leitores contemporâneos e os futuros apreciadores da obra.

Segundo Paulo Bezerra - um dos raros tradutores das obras de Dostoiévski que transpôs o original russo direto para o português -, o escritor confidenciou, em carta de 1868, que a ideia central daquele novo romance seria “representar um homem positivamente belo”.

Fabio Graner - O peso do festival de ruídos do governo

Valor Econômico

Mercado deve ter miniciclos de piora e melhora daqui até as eleições, prevê Nelson Barbosa

Nos últimos dois meses, os juros dos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional subiram tanto que voltaram aos níveis praticados no fim do ano eleitoral de 2018. Mesmo com alguma melhora na semana passada, as taxas dos títulos de longo prazo oscilaram próximo dos níveis do período em que o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, estavam prestes a tomar posse. Era um cenário cheio de dúvidas sobre como se sairia o novo governo.

No último dia 26, o papel de dez anos foi vendido pelo Tesouro com taxa de 10,3% ao ano, e o com vencimento em 2035 atrelado à inflação, a 4,8%. Em dezembro de 2018, foram comprados por investidores a taxas de 9,2% e 4,9%, respectivamente.

Mercado deve ter miniciclos de piora e melhora, diz Barbosa

Para ter mais clareza do tamanho da piora, no fim de 2020, com os efeitos da pandemia e o maior gasto da história, esses títulos saíam a 6,9% (dez anos) e 3,8% (2035) ao ano.

Na vida real das pessoas, isso pode se traduzir em crédito mais escasso e caro e ajuda a explicar por que boa parte dos analistas vê um cenário pior para o crescimento do país. Se a mediana para 2022 já caiu para 2% de alta no PIB, há economistas enxergando uma expansão ainda menor. A disparada nos juros tem importância para as perspectivas de atividade econômica em um país com um volume tão grande de desempregados e que também sofre com a alta do dólar e seu efeito deletério nos preços.

Carlos Andreazza - Tiozão do Zap

O Globo

‘Temos de enfrentar. Não adianta ficar sentado chorando’ — uma fala que, no escuro, atribuiríamos a Bolsonaro. Fala de Paulo Guedes, homem de poupança em que sentar. Referia-se à taxa extra na conta de luz sobre o lombo do que vende o almoço para jantar — o que, afinal, enfrenta.

Não surpreende. Não terá sido a primeira demonstração do Guedes mais bolsonarista que o mito. Caso em que aquele que deveria — conforme o estelionato eleitoral — trazer razão ao enfrentamento do problema vai capturado pela linguagem depredadora do bolsonarismo. Isso na hipótese generosa. Isso se Guedes não tiver encontrado na cancha bolsonarista as condições para exercer o que é. Não acredito na hipótese generosa. São muitos os daniéis-silveiras da Faria Lima; o ministro sendo apenas mais um.

É também aquele que, símbolo de um governo que diminuiria a superfície do Estado, e que venderia — por exemplo — a Granja do Torto, foi morar na Granja do Torto; onde, claro, não paga pela luz.

Guedes está em casa com os generais-ramos, com os bibo-nunes. Converteu-se num tiozão do zap. Os que o criticam são militantes. A ver o caso dos precatórios. Em busca de espaço para bancar a reeleição do chefe, o fiscalista do amanhã apresentou um combo de incompetência e chantagem que conjuga calote à dívida e criação de um fundo a ser dependurado teto solar de gastos afora. Projeto horroroso. Dura e justamente esculhambado. Entre os críticos, a Instituição Fiscal Independente (IFI), que assessora o Senado. Para Guedes, uma “ferramenta de militância”.

Edu Lyra - Favela repensada

O Globo

Qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça, leitor, leitora, quando você pensa em favela? Pobreza, responderão uns, apontando para as responsabilidades do Estado ausente. Violência, dirão outros, lembrando-se da criminalidade impulsionada pelo tráfico de drogas.

São associações incontornáveis, sim. Eu, no entanto, que venho da favela, tenho o privilégio de poder olhar para ela por outros ângulos. Para mim, a favela, para além das carências que oprimem seus moradores, é também a mais bem-sucedida startup do Brasil.

Exagero? Acho que não. Anitta é favela. Seu sucesso internacional projeta o subúrbio carioca em que nasceu. KondZilla é favela. Sua bem-sucedida produtora musical deu visibilidade ao melhor do funk. O samba do Rio de Janeiro desceu para a cidade depois de ter nascido nos morros. A feijoada preparada nos barracos com teto de zinco preserva a autenticidade do prato original dos tempos das senzalas. Favela é ainda moda, design, esporte — quantas medalhas olímpicas não trazem a marca de suor das favelas? Até a Faria Lima, em São Paulo, é favela, que deixou sua impressão digital nos imponentes edifícios envidraçados que abrigam boa parte do PIB brasileiro.

O Brasil precisa aprender a valorizar as coisas que tem — e uma delas é a favela. Saudar a favela não é compactuar com a desigualdade social que a gerou. Ao contrário, é enaltecer a resiliência de seus habitantes. A sensação de orgulho tem a ver com o potencial que não se dobra às adversidades. Visitar a favela Marte, projeto-piloto da Gerando Falcões, é conhecer um centro de tecnologias de sobrevivência, um polo de resistência ao Brasil institucional, o Brasil que abandonou os pobres.

Aylê-Salassié F. Quintão* - A moça da limpeza e o jogo das farsas

Ao ser empossada no cargo de Presidente da República, a gerentona teve incorporada iconicamente à sua imagem uma enorme vassoura. Iria limpar tudo. Afinal, tinha compromissos ideológicos programáticos fora do partido que a apoiava. Como ex-guerrilheira, tornara-se uma valentona. Entendeu, de imediato, que precisava fazer uma varredura nas estruturas do Poder, que caíra no seu colo. Mas, moralidade tinha mais a ver com heranças fascistas do que com as teses da esquerda revolucionária.  

Intempestiva, ela anunciou publicamente a limpeza no Estado. A ação repercutiu na Procuradoria Geral da República como uma indicação para o aprofundamento das investigações da Operação Lava Jato. A vassoura parecia de palha mais fina. Acompanhando os rastros dos ratos, foi-se levantando o tapete, gerando prisões de deputados, senadores, governadores e até de antecessores.

Quem viera imediatamente antes da gerontona fizera uma serie de trapalhadas, associando-se a grandes empresas privadas, procurando confundir a população com um discurso fácil, ligeiro e rasteiro para misturar o interesse público com o privado. Ficou a dúvida se se tratava de um despreparo para gerir a máquina pública, ou se eram mesmo ações e intenções de imaginárias conivências. 

Com um mandato presidencial já nas costas e a experiência de ex-chefe da Casa Civil, a moça da limpeza parecia já saber de tudo, embora, ideologicamente, desse a impressão de discordar. Fazia vistas grossas. Emergiu mesmo a dúvida se não era partícipe daquilo. Talvez tenha concluído que era apenas uma peça do xadrez jogado pelas costas.   Terminou varrida, quase como Celso Daniel, e deixou o Poder banida, chorando. Lançou-se o bordão: “Foi golpe!”. E tudo se arrumou.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Setor produtivo deve firmar compromisso com a democracia

O Globo

Teria sido oportuno o manifesto do setor produtivo em defesa da Constituição e do equilíbrio entre os Poderes da República. O documento vinha sendo escrito nos últimos dias como tentativa de transmitir um recado claro de compromisso do empresariado com a democracia diante dos acenos golpistas do presidente Jair Bolsonaro. Foi adiado depois da conversa entre os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. No começo de agosto, economistas, banqueiros e empresários assinaram um documento defendendo as instituições. O manifesto avançava ao somar à assinatura de cidadãos a de entidades. O peso é outro.

Intitulada “A Praça é dos Três Poderes”, a versão do texto a que o GLOBO teve acesso não tem nenhum caráter partidário. Não faz menção à absurda campanha de desinformação contra o voto eletrônico nem às sucessivas ameaças de Bolsonaro a integrantes do Supremo. Reitera apenas que o princípio da harmonia entre os Poderes “está presente de forma clara na Constituição Federal, pilar do ordenamento jurídico do país”. “Diante disso”, prossegue o texto, “é primordial que todos os ocupantes de cargos relevantes da República sigam o que a Constituição nos impõe”. Em seguida, o documento lembra que “o momento exige de todos serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e assim possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população”. E conclui: “Que cada um atue com responsabilidade nos limites de sua competência, obedecidos os preceitos estabelecidos em nossa Carta Magna. Este é o anseio da Nação brasileira”. Nada além de bom senso e serenidade.