terça-feira, 26 de outubro de 2021

Luiz Werneck Vianna* - Mais uma hora e mais uma vez para o liberalismo político

Filhos que somos das relações entre o latifúndio e a escravidão, noutras palavras do jacaré com cobra d’água, até que, 5 séculos depois, não fazemos má figura no concerto das nações civilizadas, embora sempre sob ameaça, em certos períodos mais que noutros, de ceder terreno a barbárie, como no tempo presente. Na hora da nossa fundação como sociedade independente mal ou bem conhecemos os valores e instituições do liberalismo político que tinham encontrado animação em movimentos como os da Inconfidência mineira e o da revolução pernambucana de 1817, entre tantos outros, que se vão fazer presentes na Assembleia Constituinte de 1823 cujo texto foi recusado pelo imperador que outorgou, em 1824, a nossa primeira Carta constitucional. Data daí com a introdução do Poder Moderador exercido pelo imperador, que trazia para si a soberania em detrimento da representação política, o batismo da nossa experiência com o autoritarismo político que em estado larvar seguirá presente em nossa história.

Malgrado essa grave limitação, sobretudo no segundo reinado, o ideário liberal persistirá como influente, atuando como o fermento revolucionário, nas palavras de Florestan Fernandes, nos processos de mudanças modernizadoras do país, mesmo em setores ligados à monarquia, como Joaquim Nabuco e outros, especialmente nas lutas abolicionistas que darão ensejo à aparição da opinião pública como nova presença na política brasileira. Com o advento da república, que nasce sob a fachada liberal da Carta de 1891, emerge a questão social e novos personagens na cena política como empresários e a corporação militar, ao lado da influência crescente dos ideais positivistas com o seu cientificismo em matéria de organização social, particularmente entre os militares, que logo farão as vezes de um poder moderador na cena política.

Merval Pereira - Presidente a ser impedido

O Globo

O ex-presidente José Sarney cunhou a expressão “liturgia do cargo” para definir a responsabilidade perante a população de um presidente da República no cargo que ocupa. Das palavras ditas ao comportamento pessoal, tudo tem seu peso político. Mas há distinções entre comportamentos popularescos e aqueles espontâneos, especialmente quando a espontaneidade revela um político excêntrico, mas vencedor e com visão de história.

Não é o caso de Bolsonaro, que já posou para uma foto oficial de ministério com camisa pirata do Palmeiras, jogging e sandálias Rider. Ou ofereceu pão com leite condensado para um enviado oficial do governo dos Estados Unidos. Já divulgou fotos obscenas em seus aplicativos, já falou palavrão em público, enfim, fez de tudo para não respeitar a “liturgia do cargo”.

Nada disso, porém, é mais grave do que usar suas mensagens presidenciais para difundir notícias falsas, especialmente em época de pandemia como a que ainda vivemos. O mais recente desvario do presidente foi divulgar um suposto estudo que afirmaria que os completamente vacinados contra Covid-19 estariam mais sujeitos a contrair Aids. Isso é de uma gravidade assustadora.

O presidente da República fazer campanha contra vacinação é crime que deveria ser punido rigorosamente, como aliás pede o relatório final da CPI da Covid. Provocar aglomeração de propósito é crime que tem como consequência mortes. Dizer que quem se vacina pode virar jacaré vira piada na internet, mas é um ataque à saúde pública. Mas aproveitar-se de um estudo científico fajuto para dar cunho de verdade a uma mentira é demais, até mesmo para um irresponsável como Bolsonaro.

Luiz Carlos Azedo - Qual é a agenda de Pacheco?

Correio Braziliense

Simbolicamente, o presidente do Senado é o primeiro pré-candidato de centro a sinalizar um projeto nacional, inspirado no governo de Juscelino Kubitschek

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso costuma dizer que a eleição para a Presidência da República precisa ser “fulanizada”, ou seja, é uma disputa entre indivíduos que encarnam alguma coisa e não entre partidos. Traduzindo para a chamada “terceira via”, uma alternativa de poder que se contraponha ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera as pesquisas de opinião, e ao presidente Jair Bolsonaro, que se movimento em função da reeleição, não depende apenas de um nome. Para chegar ao segundo turno, o candidato precisaria encarnar um projeto nacional que se contraponha a ambos.

Na política brasileira, na base da “transa” eleitoral, a “pequena política” obscurece a grande. Quem observa as articulações em curso ainda não consegue identificar um pré-candidato de centro com um projeto robusto para o país. Se sobram candidatos, falta uma plataforma política, muito mais do que uma narrativa. O debate sobre a PEC dos Precatórios, em discussão na Câmara, ilustra bem como há um vazio programático ao centro. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro estão se lixando para o chamado equilíbrio fiscal na campanha eleitoral.

Míriam Leitão - Choque negativo e cortinas de fumaça

O Globo

O custo dos juros pode passar de R$ 300 bilhões, a economia entrará em recessão, a Selic deve ir a dois dígitos, a inflação cairá, mas continuará alta, o desemprego depois de leve queda neste fim de ano voltará a subir. Esse é o cenário da maioria dos economistas para 2022. O ano seria ruim e ficou pior depois que o ministro Paulo Guedes concordou em furar o teto de gastos. Nunca foi pelos pobres. Sempre foi para turbinar a campanha presidencial. É por isso também que, ontem, o governo lançou a isca para o mercado e falou em privatizar a Petrobras. A ação da petrolífera disparou, a bolsa subiu. É cortina de fumaça.

Haverá no ano que vem uma solitária notícia boa no cenário econômico, vinda do campo. É possível que a agricultura cresça e haja uma boa safra. Isso alivia também a inflação, mas não será suficiente para melhorar muito o PIB que o Itaú projetou em queda de 0,5%, e a MB Associados, em zero. Vários outros bancos e consultorias estão revisando os cenários para pior. A inflação sobe no Focus há 29 semanas. As revisões são sempre para tornar o quadro mais difícil.

Carlos Andreazza - O próprio Daniel Silveira da Faria Lima

O Globo

Está completo o processo de radicalização de Paulo Guedes. Encontrou ali, no catalisador de ressentimentos do bolsonarismo, as condições para o pleno exercício de sua natureza. A dinâmica dessa relação é perversa. O ministro seria alvo, segundo ele próprio, da política. Seria a política, esse ente difuso, a lhe interditar o trabalho; a operar por matá-lo.

Mas o que será essa política, que criminaliza, senão o próprio Bolsonaro, que venera? Guedes dissimula — também para si — a identidade de seu senhor. Não é bonito o lugar em que se coloca. É consciente que o faz, contudo. Há confiança no trato; a satisfação segundo a qual, ao aperto do couro, seguir-se-á o relaxamento. A retomada do ar. Prova de prestígio. Um “ele me deixa respirar, afinal”. O humilhador que se junta ao humilhado para ouvi-lo explicar — dando-se nota oito — por que rasteja; e que ri ante a perdição do envergado.

É o presidente quem age para subjugar o ministro; que, no entanto, sente-se protegido pelo estrangulador; que, depois de lhe impingir mais um afogamento, leva-o a ver passarinhos.

Guedes, humilhado, é grato ao humilhador; porque a humilhação não lhe terá custado o cargo, assento caro ao ressentido que enfim tem a vez que o establishment lhe negava. Gratidão que expressa na forma adesista de radicalização.

Hélio Schartsman - Bolsonaro e a sua grande torneira de asneiras

Folha de S. Paulo

Pessoas acreditarem em tolices não é exatamente novidade

A vacina contra a Covid causa Aids. Quem disse essa asneira foi o presidente da República, em "live" posteriormente retirada do ar pelo Facebook e pelo Instagram dados o tamanho e a gravidade do disparate.

Pessoas acreditarem em tolices não é exatamente novidade. Pode-se até afirmar que é o estado normal da humanidade. É disseminada, por exemplo, a crença no poder de cura dos santos e em milagres em geral. Para os que gostam de dar números às coisas, algumas pesquisas antigas do Datafolha. Sondagem de 2010 mostrou que 25% dos brasileiros creem em Adão e Eva e numa Terra com menos de 10 mil anos.

Levantamento de 2019 revelou que 26% não acreditam que o homem esteve na Lua e 7% pensam que a Terra é plana. A proporção dos terraplanistas não parece tão elevada, mas ainda assim constitui uma horda de quase 15 milhões de pessoas.

Cristina Serra - Um banqueiro e dois golpes

Folha de S. Paulo

A fala de André Esteves desnuda o país refém de meia dúzia de espertalhões

O portal de notícias Brasil 247 publicou o áudio de animada conversa entre o banqueiro André Esteves e um grupo de clientes. É uma aula sobre os donos do poder no Brasil, entrecortada por risadas típicas de quem está ganhando muito dinheiro, ainda que o país esteja uma desgraça.

O banqueiro faz questão de exibir sua influência junto às mais altas instâncias do poder político, com uma mistura de cinismo e boçalidade envernizada, própria de quem se acha educado só porque sabe usar os talheres. Esteves jacta-se de seu prestígio junto ao presidente da Câmara, Arthur Lira. Gaba-se do acesso ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a ponto de este tê-lo consultado sobre o nível da taxa de juros, atitude que é um escândalo de relações carnais entre o público e o privado.

Vangloria-se de ter influenciado a decisão do STF favorável à independência do Banco Central, informando ter conversado com alguns ministros antes do julgamento. Só não revelou quais. E expõe o motivo de tanto empenho. Se Lula for eleito, "vamos ter dois anos de Roberto Campos". Esteves considera que Bolsonaro, se "ficar calado" e trouxer "tranquilidade institucional para o establishment empresarial", será o "favorito" em 2022.

Alvaro Costa e Silva - Bolsonaro, Guedes e o novo milagre brasileiro

Folha de S. Paulo

Convertidos à causa dos pobres, são Jair e são Guedes vão acabar com a seca, a carestia e a fome

Desde a semana passada, há nos oratórios do país a imagem de dois homens pios que, só pelas promessas feitas para amenizar o sofrimento do povo, já deveriam ter sido canonizados: Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, os novos são Cosme e são Damião, enviados de Deus para acabar com a peste, a seca, a fome e a carestia.

Não pense você que foi fácil alcançar o estado de graça atual. O caminho da iluminação foi marcado por perdições e desvios, enfim suplantados pela fé em que, apesar do horizonte pessimista, ainda é possível ganhar as eleições e evitar a chegada ao poder do demônio barbudo ou de um falso profeta vestindo o manto da terceira via.

Andrea Jubé - Duelo entre Fazenda e políticos é histórico

Valor Econômico

Guedes fica porque ainda não desistiu das reformas

Foi revelador o ato falho do ministro da Economia, Paulo Guedes, durante entrevista coletiva na sexta-feira, quando anunciou, em segundos de visível confusão, que André Esteves, fundador do BTG Pactual, assumiria a Secretaria de Tesouro e Orçamento.

“Sai o [Bruno] Funchal e entra o André Esteves”, atrapalhou-se. “O André Colnago. É porque é o André Esteves Colnago. Ele não tem o André?”, indagou.

Num arroubo de sinceridade, Guedes esclareceu que o ato falho se deu porque soubera que ministros da ala política haviam consultado Esteves sobre nomes para substitui-lo.

 “Sei que muita gente da ala política andou oferecendo nome e fazendo pescaria”, acusou. A ironia, sublinham interlocutores de Guedes, é que seus colegas do primeiro escalão sondaram justamente amigos de Guedes para o seu lugar.

Com o desabafo, Guedes, jogou luz sobre o embate interno travado há meses entre a equipe econômica e a ala política do governo. Já eram notórias as trocas de farpas entre o titular da Economia e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.

Agora sabe-se que Marinho ganhou reforços para seu time, em movimento que teve como mote o benefício de R$ 400 do novo programa social do presidente Jair Bolsonaro.

Os atritos entre ministros políticos e a equipe econômica sucedem-se na história brasileira. Para nos atermos à história recente, remontam, pelo menos, à Era Vargas.

Fabio Graner - Entre o pânico e a melhora nos dados fiscais

Valor Econômico

Brasil está na idade da pedra lascada no debate sobre tributação, diz o professor Eduardo Fagnani, um dos organizadores de um fórum internacional sobre o tema

O drible no teto de gastos para levar o Auxílio Brasil para R$ 400 empurrará a despesa total da União de 17,5% para 18,1% do Produto Interno Bruto (PIB). O cálculo feito pelo economista e especialista em política fiscal Manoel Pires a pedido do Valor mostra que, mesmo com gastos novos, o país caminha para o nível mais baixo de despesas em relação ao PIB desde 2014.

Além disso, ela ficará bem inferior ao que havia antes da pandemia e no fim do governo Temer, e, descontada a inflação, deve ter queda ante 2021.

As estimativas estão em linha com o que foi mencionado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que, em meio pânico no mercado, tentou destacar que vai entregar as despesas abaixo do que recebeu, fato incomum na história recente do país.

Com base nesses dados é natural que se questione se o mercado não estaria exagerando em sua reação aos eventos da semana passada, como indicam Guedes e assessores próximos a ele. Ainda mais porque o movimento agora, quando se burlou o teto para melhorar a situação dos menos favorecidos (ainda que com intenções e soluções eleitoreiras), foi muito mais violento do que quando se enviou a controversa PEC dos Precatórios ao Congresso.

Eliane Cantanhêde - Das boquinhas às boconas

O Estado de S. Paulo

Depois de TSE e MP, Congresso mira o Itamaraty. Sem contar a Polícia Federal...

Assim como a Câmara meteu a mão na Justiça Eleitoral e depois no Ministério Público, o Senado mira num novo alvo: a diplomacia brasileira. Nos três casos, legislando cinicamente em causa própria.

Ex-presidente do Senado e atual da poderosa CCJ, o senador Davi Alcolumbre bloqueia há mais de cem dias a sabatina de André Mendonça para o Supremo e agora batalha por mais uma boquinha – ou bocona – para políticos. Para ele próprio?

Não é preciso ser diplomata de carreira para assumir embaixadas, missões e delegações permanentes no exterior, mas, desde a Constituição de 1937, deputados e senadores têm de optar: mandato ou embaixada. Alcolumbre apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para que apenas se licenciem. Um pé lá fora, outro no Congresso e optam pelo mais conveniente – ou lucrativo.

Pedro Fernando Nery - Casamento às cegas

O Estado de S. Paulo

O que não é liberal são apropriações de recursos e sabotar máscaras ou vacinação

Shayan xingou Ana de retardada e idiota. Foi por trás das câmeras, segundo ela expôs. “Você me chamou de porco”, retrucou o iraniano. Uma pena, porque Shay e Ana pareciam o casal mais simpático – talvez o Cameron e Lauren da versão brasileira. Estou falando, claro, de Casamento às Cegas.

No reality show da Netflix, inicialmente as pessoas se dividem em cabines para conversar com alguém do sexo oposto, que está em outra cabine atrás da parede. É assim, apenas conversando, que decidem se são feitos um para o outro – daí o título. Entre dezenas de participantes, alguns casais se formam. São os que toparam casar com alguém que nunca viram, apenas ouviram. Apaixonam-se por uma ideia.

Os que noivam podem se ver e passam a morar juntos – é nesta convivência que as projeções se desmancham. A decisão final deve ser feita em um altar, com os trajes devidos e na frente de família e amigos. Shay e Ana disseram não. Mas ressaltaram que viveram uma história de amor linda e avassaladora – nas cabines. Quando estavam divididos por uma parede.

Ana Carla Abrão - Vamos falar a verdade?

O Estado de S. Paulo

Ao rasgar a fantasia da responsabilidade fiscal, o governo escancara tudo aquilo que nunca foi

O Bolsonarismo triunfou por uma combinação de ojeriza ao PT e seus vergonhosos casos de corrupção com a crença de que uma agenda liberal e reformista seria encabeçada por um presidente que se dizia a antítese do sistema. Esta última parte, além de incompatível com a trajetória retrógrada e corporativista do longevo deputado Jair Bolsonaro, vinha fantasiada de um discurso de humilde ignorância em Economia.

Inflou-se – no tamanho e no ego – um vistoso Ministério da Economia que levaria a cabo reformas e corrigiria décadas de erros de política econômica. Faríamos jus, finalmente, ao papel que a história nos reservava. Respeito à responsabilidade fiscal, privatizações de 1 trilhão, déficit público zerado, abertura comercial e choque de gestão. Além do fim da corrupção e dos conchavos políticos obscuros. Seria a redenção de um País que vivia havia gerações de joelhos. Seria a pátria revivida. Ledo engano daqueles que acreditaram.

Três anos depois, privatizações não houve, déficit zerado tampouco, reformas viraram contrarreformas e a abertura comercial ficou esquecida. Destacam-se solitárias e positivamente a agenda de modernização do sistema financeiro pelo Banco Central e sua autonomia. Mas uma andorinha só não faz verão. Ainda mais agora, sobrevoando sob chuva um mar repleto de tubarões.

Felipe Salto - Motivação para fim do teto não foi o social

O Estado de S. Paulo

A motivação para o fim do teto de gastos nunca foi o social, nem foi pelos mais pobres ou pelo bem comum

A quem servirá o cavalo de pau na política fiscal? O desmonte do teto de gastos e do Bolsa Família é revelador. A responsabilidade fiscal e a responsabilidade social são simultaneamente atacadas, quando deveriam andar de mãos dadas. O argumento é de que não haveria outro caminho. Sempre há. A conta será paga pelos mais pobres.

Antes de tudo, registre-se: não há regra fiscal perfeita. Esse tipo de construto jamais teria o condão de transformar a miséria do nosso desenvolvimento econômico e das políticas mal-ajambradas da última década. Para isso, seria preciso ter projeto, liderança, compromisso e ação, sob regras de restrição orçamentária, claro.

O fim do teto de gastos, que denunciei neste espaço em 28 de setembro, sempre foi fonte de preocupação da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal. Em agosto de 2020, o Conselho Diretor da IFI alertou, em documento, sobre os riscos de mudar voluntariosamente o teto de gastos.

Política é poder, ensinou Norberto Bobbio. Nas democracias, delega-se poder a um grupo, por meio do voto, para que conduza o país à luz da Constituição e das leis, isto é, dos objetivos da coletividade. Quando a elite dirigente se perde em meio à falta de objetivos e de sensibilidade social e aposta no vale-tudo para manter-se no poder, essa lógica desmorona.

Se as veleidades pessoais se sobrepõem ao interesse comum, prejudica-se a discussão democrática de regras, de políticas públicas e de como financiar o Estado. Não por outra razão, membros da área técnica do Ministério da Economia deixaram a equipe.

Rubens Barbosa* - Desaparecimento do centro: o exemplo do Peru

O Estado de S. Paulo

Quando a classe política e a sociedade no Brasil passarem a se concentrar no pleito de 2022, devem pensar na eleição que ocorreu em abril naquele país

A um ano das eleições presidenciais, continua forte o ceticismo em relação ao surgimento de um movimento que crie condições para evitar a divisão e superar a radicalização eleitoral. A baixa presença na manifestação de 12 de setembro contra o governo e as pesquisas de opinião reforçam a percepção de que o cenário eleitoral já está consolidado. Muitos consideram como definitiva a predominância de duas candidaturas dos extremos do espectro político nacional, contrapondo duas visões de mundo e de solução para os impasses que a sociedade brasileira enfrenta. A confrontação e o acirramento dos ânimos durante a campanha eleitoral e, depois, com o novo governo, a partir de 1.º de janeiro de 2023, seriam inevitáveis como consequências naturais deste cenário de polarização.

Essa percepção, hoje majoritária, traz à mente o que aconteceu na eleição presidencial que ocorreu no Peru em abril passado. O país viveu uma série de crises políticas, econômicas, sociais e de corrupção (que envolveu a Odebrecht), que trouxe forte instabilidade interna e uma profunda divisão do país. Neste contexto, a campanha eleitoral acirrou a radicalização política e surgiram mais de 15 candidatos à presidência, desde a esquerda radical, com candidato do Partido Comunista, até a extrema-direita, passando por mais de dez candidatos que se apresentavam como distantes dos dois polos políticos.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O irresponsável

Folha de S. Paulo

Bolsonaro volta a incentivar desconfiança nas vacinas ao difundir teoria absurda na internet

O Brasil alcançou outro marco significativo na campanha de vacinação contra a Covid-19 na semana passada. Mais de metade da população está imunizada contra o coronavírus, e o declínio de infecções e mortes enseja alívio em toda parte.

Coube ao país, no entanto, a triste condição de ser governado na crise sanitária por um presidente que prefere desempenhar o papel de primeiro propagandista da ignorância e não cansa de semear desconfiança contra as vacinas.

Na última quinta (21), numa transmissão ao vivo na internet, o mandatário difundiu uma teoria estapafúrdia que circula nas redes sociais e sugeriu que pessoas que se imunizaram podem ter adquirido também o vírus da Aids.

O presidente irresponsável orientou os apoiadores a buscar informações sobre o disparate e disse que não faria mais comentários, para evitar complicações com as políticas adotadas pelas plataformas da internet para conter a desinformação em seus domínios.

Na noite de domingo (24), Facebook e Instagram retiraram do ar o vídeo com o pronunciamento de Bolsonaro, acusando-o de violar os termos de uso das duas empresas ao espalhar mentiras sobre os efeitos colaterais dos imunizantes.

Não foi a primeira vez que o Facebook tomou providências desse tipo contra o presidente. Em março do ano passado, no início da pandemia, foi removido um vídeo em que Bolsonaro defendia tratamentos inúteis contra a Covid e o fim das políticas de isolamento social.

Poesia – Joaquim Cardozo – Salinas de Santo Amaro

Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.

Terra crescida, plantada
De muita recordação.

Música | Nara Leão - Odeon (Ernesto Nazareth e Vinicius de Moraes)

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Fernando Gabeira - Para chorar no banheiro

O Globo

Quando saiu o relatório da CPI da Covid, Flávio Bolsonaro disse que seu pai o receberia com uma gargalhada típica do Bolsonaro. Não há graça nenhuma em ser acusado de crimes contra a humanidade, algo tipificado pela Convenção de Roma e adotado pela ONU.

Depois daquela frase “minha vida aqui é uma desgraça”, Bolsonaro confessou, recentemente, que chora no banheiro. Esconde da mulher, que o acha o machão dos machões e, estupidamente, perde uma chance de chorar no ombro dela. Mas o que esperar do machão dos machões?

O único consolo que Bolsonaro pode encontrar nessa acusação é a chance de responder a quem o chama de genocida: “Alto lá! Genocida não, apenas cometi alguns crimes contra a humanidade”.

Embora tenha explicado aqui, usando até Freud na sua visão de negacionismo, até hoje não entendo bem por que Bolsonaro e tantos seguidores se recusaram a dar importância ao vírus.

Creio que houve nessa negação muito de guerra cultural: se os adversários se preocupam tanto com o coronavírus, uma maneira de enfrentá-los é desmistificar o perigo.

O ex-ministro Ernesto Araújo via na pandemia um perigoso processo de dominação autoritária internacional. O próprio Bolsonaro insistiu no tema da liberdade e, na célebre reunião de abril de 2020, chegou a desejar a luta armada contra as medidas de distanciamento social.

Miguel de Almeida - A morte da política

O Globo

O que matou a política? Virou moda acusar as redes sociais pela intolerância e pela visão binária da realidade: Bozo ou Lula? Esquerda ou direita?

Há um engano aí.

Antes da tragédia Facebook e agregados, existiu o marketing político. As pesquisas qualitativas, quando se testam temas e reações de grupos de eleitores, levaram os marqueteiros a polir seus candidatos rumo a inesperadas (e indesejáveis, digo eu) vitórias.

Em poucos exemplos, as catástrofes: Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo; Lula, Collor e Bozo na Presidência da República. E, principalmente, a eleição para o segundo mandato de Dilma Rousseff.

O marketing político forjou o personagem Lulinha Paz e Amor, além de sua Carta aos Brasileiros. Levou José Serra a ter posição dúbia sobre o aborto e Marta Suplicy a levantar dúvidas sobre a orientação sexual de Kassab. Políticos de centro-esquerda, por causa de oportunistas pesquisas eleitorais, terminaram na direita. Tudo pelo voto, mesmo que a biografia fosse jogada no lixo. Perderam as eleições de quatro.

Em casos recentes, que jamais devemos esquecer, ocorreu o BolsoDoria (responsável pela vitória de João Doria em São Paulo). Ou a relutância de Eduardo Leite em reconhecer o Bozo como um desastre em tempo real. E a juntar num spot político (perceba a ideia de jerico) Chico Buarque e Sérgio Reis! — como se fossem irmãos siameses e houvesse lugar para questionar a circunferência da Terra. Coisa de marqueteiro.

Denis Lerrer Rosenfield* - Tripé ‘liberal’

O Estado de S. Paulo

A social-democracia empreendeu, no poder, medidas de cunho liberal, enquanto os “liberais” atuais estão se mostrando discípulos dos petistas

O governo “liberal” de Bolsonaro inovou em seu liberalismo ao inventar um novo tripé: o bolsa eleitoral, dito “Auxílio Brasil”; o bolsa caminhoneiro, denominado por um de seus líderes de bolsa “esmola”; e o bolsa “Centrão, conhecido por emendas parlamentares dos mais diferentes tipos, além de cargos governamentais.

Tais iniciativas são todas paliativas, algumas tidas por temporárias, quando vieram para ficar, numa aparente obediência às regras legais e constitucionais; outras almejam a permanência do grupo no poder, tendo como objetivo assegurar a reeleição do atual presidente. O mesmo uso que se faz de ajuda aos pobres, embora necessária, encobre uma desmedida política, que não hesita diante de nada para alcançar as suas finalidades, a custo de produzir o desmoronamento fiscal, econômico e social do País. O que mais espanta é o desaparecimento de qualquer perspectiva de trabalho pelo bem comum, esquartejado nos interesses particulares e corporativos.

Evidentemente, os pobres devem ser ajudados. Trata-se de respeito moral com o próximo e obediência política à Constituição. Ocorre, porém, que tal argumento está sendo empregado para furar o teto da lei dos gastos públicos, como se essa infração fosse condição deste atendimento social. Atente-se para o fato de que o alvo do governo consiste em abrir a porteira para o estouro da boiada, pois, em ato imediatamente seguinte, o presidente anunciou que, com a folga obtida, criaria o bolsa esmola para os caminhoneiros e pagaria e ou aumentaria as emendas parlamentes. Ou seja, estabelece como regra a irresponsabilidade fiscal, hipoteca o futuro e aumenta a espiral dos juros e da inflação, com péssimas consequências para os investimentos privados nacionais e estrangeiros. Os mesmos pobres atendidos hoje pagarão por isso amanhã.

Marcus André Melo* - Ocaso do populismo iliberal

Folha de S. Paulo

A sobrevivência da democracia assume formas surpreendentes

Anunciada com grande alarde, a morte da democracia nunca aconteceu. Como afirmou a esta Folha o cientista político Adam Przeworski, ela "virou bordão para atrair imprensa". Mas, se a democracia não morreu, o que está perecendo é o populismo iliberal; pelo menos é o que sugere a trajetória de suas lideranças canônicas: Trump, Orbán, Salvini, Bolsonaro, Modi, Babis.

O caso mais interessante é o de Orbán, cuja posição é a mais confortável, pois conta com o apoio de 2/3 dos membros do Parlamento húngaro —e as eleições ocorrerão em 2022. Mas a unificação da oposição, que superou o desafio dos quase incontornáveis custos de coordenação, deve causar sua débâcle. A engenharia política envolvida ilumina questões centrais da formação de frentes amplas.

Ao contrário de regimes presidencialistas, o processo envolve os partidos. Sob o parlamentarismo não há espaço para outsiders: o processo de seleção do ocupante da chefia do governo é fundamentalmente parlamentar.

Celso Rocha de Barros - Política por trás do teto deu errado

Folha d S. Paulo

Ministro Paulo Guedes, da Economia, virou um Pazuello de pé chato

Em 2016, Michel Temer ganhou o troféu "assim, até eu" por criar um teto de gastos que só valeria para seus sucessores.

Foi como se dissesse: "Então é isso, pessoal, sejam responsáveis com o dinheiro, é muito importante ser responsável com dinheiro, agora me deem licença que eu vou jantar com o Naji Nahas".

O teto de gastos morreu semana passada. Não morreu na mão de um ministro heterodoxo do PT, morreu na mão de um Chicago boy.

Não morreu porque era preciso gastar mais com pobre, morreu porque continua sendo necessário gastar mais para gastar com pobre. Ninguém conseguiu aumentar imposto de rico, ninguém conseguiu cortar gasto com setores não-pobres, quem decide eleição é pobre, o gasto aumenta.

O projeto político proclamado do teto era forçar a sociedade a discutir suas prioridades.

Catarina Rochamonte - CPI da Pandemia: justiça sem perseguição

Folha de S. Paulo

Não é admissível blindagem a quem quer que seja

A CPI da Pandemia revelou crimes graves, mas fez vista grossa para outros. Ao ignorar um dos seus objetos de investigação —a aplicação de recursos federais por estados e municípios no combate à pandemia—, abriu flanco para as acusações de parcialidade. Houve blindagem, por exemplo, dos envolvidos no contrato fraudulento entre a empresa Hempcare e o Consórcio Nordeste, que pagou R$ 48,7 milhões por 300 respiradores que não foram entregues.

Esse fato, porém, não pode ser usado para deslegitimar a totalidade dos trabalhos da CPI. Da mesma forma, levantar a ficha suja do seu presidente e do seu relator a fim de desqualificá-la é um argumento frágil. A CPI transcorreu em ambiente de transparência e foi conduzida mais pelo conjunto dos membros da comissão do que por sua mesa; devendo-se encarecer a participação da, em muito bom tempo agregada, bancada feminina.

Ana Cristina Rosa - Mercado mesquinho e miserável

Folha de S. Paulo

O problema no Brasil não é falta de alimentos

No celeiro do mundo, uma multidão de 20 milhões de desvalidos passa fome. Feito um bicho qualquer, homens, mulheres e crianças reviram o lixo em busca de sobras de comida, numa demonstração triste e vexatória do fracasso do Estado brasileiro.

Nas duas últimas décadas, o país tornou-se o quarto maior produtor de grãos —soja, arroz, milho, trigo e cevada— do planeta e o segundo maior exportador, abocanhando 19% do mercado internacional. É o que revela estudo da Embrapa intitulado "O Agro no Brasil e no Mundo: uma síntese do período de 2000 a 2020".

Bruno Carazza* - A responsabilidade de quem carrega o piano

Valor Econômico

Episódio Guedes evidencia fraqueza de Jair Bolsonaro

Há muitas métricas para se demonstrar o enfraquecimento de um governo. A ciência política trabalha com votos recebidos em votações importantes no Congresso, quantidade de vetos presidenciais derrubados ou medidas provisórias rejeitadas. E há indicadores mais sutis.

O palco havia sido armado com a intenção de prestigiar Paulo Guedes, alvo de ataques e especulações durante a semana. O presidente saiu do Palácio do Planalto para visitar o ministro da Economia e participar ao seu lado de uma entrevista coletiva. A postura de Bolsonaro no evento de sexta, porém, sugeriu exatamente o contrário.

Enquanto Guedes, por quase 25 minutos, tentava justificar o duplo carpado invertido em suas posições econômicas para derrubar o teto e, assim, viabilizar a estratégia eleitoral de seu chefe, Bolsonaro permanecia impassível, com o olhar perdido no horizonte. Mesmo quando o ministro negou que seu cargo esteve a perigo, ou minimizou os embates entre a equipe econômica e a base política, o presidente sequer balançava a cabeça em sinal de aprovação.

O único sorriso presidencial veio quando Guedes divulgou que nomearia André Esteves como seu número 2 no ministério - ato falho, ele estava se referindo a Esteves Colnago, e não ao banqueiro do BTG. Feito o anúncio, o presidente se levantou e partiu, abandonando um solitário Guedes para se defender das perguntas embaraçosas.

Alex Ribeiro - Como o Copom vai reagir à crise fiscal?

Valor Econômico

Mercado espera aceleração no ritmo de aperto monetário

O mercado financeiro espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que se reúne nos próximos dois dias, reaja com firmeza à crise fiscal causada pelo drible patrocinado pelo governo no teto de gastos. Será que a ação será à altura das expectativas?

É bem provável que o Banco Central procure se distanciar do barulho político em torno do mais forte ataque ocorrido, até aqui, à âncora fiscal. O caminho é tomar a política fiscal como um fator exógeno que afeta a inflação, fora do controle do BC, como se fosse uma geada que leva à quebra da safra agrícola.

Em termos práticos, o Copom deverá quantificar, nos seus modelos, o impacto direto do choque na inflação. Depois, verificar se, depois de tudo o que aconteceu, cresceram as chances de a inflação superar o previsto. Por fim, dosar o remédio dos juros para trazer a inflação para a meta. Ainda assim, não será nada fácil, porque terá que julgar o estado atual da política fiscal.

Os economistas do mercado estão fazendo os seus cálculos para tentar replicar a reação da autoridade monetária. Em setembro, o Copom projetou uma inflação de 3,7% em 2022 e disse que esse era o ano mais importante no seu horizonte de política monetária. Feitas as contas, o comitê concluiu que, num passo de alta de juros de um ponto percentual por reunião, seria capaz de cumprir seu objetivo no prazo escolhido.

José Eduardo Faria - O debate entre presidenciáveis, o revigoramento da democracia e o futuro do país*

Blog Horizontes Democráticos

Não fosse o candidato que disputará a reeleição, em 2022, conhecido por sua ignorância, pela compulsão à mentira, pelo desprezo ao diálogo construtivo e pela obsessão em desqualificar adversários, os debates entre os candidatos à presidência da República poderiam recolocar na ordem do dia alguns temas esquecidos, como, por exemplo, os relativos à capacidade organizadora, indutora e administrativa do Estado. Como esses temas são fundamentais para o futuro do País, sua discussão poderia ajudar a revigorar a democracia após a deterioração e a polarização do debate público que marcaram a vida política após o pleito de 2018.

Um dos temas mais importantes é a ideia de planejamento, o que exige a definição de objetivos, a fixação de metas, a formulação de indicadores, o estabelecimento de estratégias de longo prazo e a coordenação das ações necessárias. A ideia de planejamento é fundamental, dados os efeitos sociais dramáticos decorrentes da política de austeridade fiscal sem critérios sociais adotada por este e pelo governo que o antecedeu. Trata-se de uma política que, por estar focada somente na solvência do poder público, promoveu cortes orçamentários sem escalas de prioridade e sem consideração de suas repercussões sociais.

Ao ampliar o alcance da política de privatizações, convertendo em negócio privado o que até então eram determinados serviços públicos, essa política hiper-responsabilizou cada cidadão pelo seu destino, independentemente de sua condição social. A premissa era de que cada cidadão dependeria de suas capacidades, de seu empenho e de seus méritos, o que, no fundo, acaba culpando os mais desvalidos por sua situação. E como isso ocorreu num contexto de reformas trabalhistas, de enxugamento de direitos sociais e de baixas taxas de crescimento econômico, o resultado foi darwinista. Ou seja, preservou o poder dos que já tinham autonomia econômica, financeira e patrimonial e excluiu os que já estavam marginalizados.  

Antonio Risério* - Não posso ser julgado pelo que não está em 'Sinhás Pretas'

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Autor rechaça acusações de que seu livro legitimaria a escravidão

Um autor deve ser julgado por suas próprias palavras e não por palavras alheias – especialmente, em tempos de agressiva irresponsabilidade acadêmico-militante, como o que estamos atravessando.

Lembro isso porque deu pano pra manga um texto publicado aqui na Folha, a propósito do meu livro “As Sinhás Pretas da Bahia: Suas Escravas, Suas Joias”.

Como ficou claro que os contendores não leram o livro e suas disputas tomaram caminhos variados, acabei me vendo no meio de uma confusão, na qual fica parecendo que eu disse coisas que não disse — e que jamais diria.

Os principais absurdos foram os seguintes. Escrevendo sobre negras escravistas que se cobriram de sedas e joias, eu pretenderia duas coisas: arrefecer um ânimo antirracista e, pior, legitimar a escravidão. Nem uma coisa, nem outra. Elas realmente se cobriam de joias e ostentavam sua própria escravaria. Não inventei essa história. E isso nada tem a ver com a luta contra o racismo.

A luta contra a opressão social, que é maior do que a luta contra o racismo, não deve privilegiar a cor da pele de ninguém – ou não teríamos como condenar a atual exploração do negro pelo negro em África ou o “Black Lives Matter”, com seu racismo antijudaico e seus acenos nazistas.

Quanto a legitimar a escravidão, por favor, a imbecilidade não tem o direito de ir tão longe. Mas quero esclarecer alguns pontos.

Mirtes Cordeiro* - Violência doméstica e pobreza, vínculo que não se quebra facilmente

Falou e Disse

Segundo informações do AzMina, durante a pandemia, no Brasil, uma mulher é morta a cada 9 horas.

Para mim, a violência doméstica sempre foi uma questão observada, nunca vivenciada. Isso é o que sempre imaginei, mas agora eu tenho dúvida, após assistir à série americana Maid.

A série conta a história de Alex, uma mulher, filha, mãe e envolve uma criança que antes de completar três anos de idade é obrigada a sair de casa no colo da mãe, no meio da noite, após uma seção de violência psicológica praticada pelo seu pai, em busca de apoio nos abrigos para vítimas de violência doméstica do estado. A mãe, que também é filha, se vê desamparada do apoio da própria família, pois passou pela mesma situação quando criança. Cresceu em um ambiente marcado pela violência, pelas drogas, bebidas e abusos, isso tudo em meio a relação complicada com uma mãe, uma artista local, taxada por alguns como louca e bipolar.

Senti vontade de refletir um pouco a partir da produção cinematográfica tão bem conduzida, tratando de uma questão corriqueira no mundo e no nosso país. Na série, a protagonista não chega a ser agredida fisicamente. Já aqui, no Brasil, cansamos de casos extremos de feminicídio.

O Brasil é o quinto país do mundo com a maior taxa de feminicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a média é de 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres. Apenas no primeiro semestre de 2020 foram registrados 648 feminicídios no país, 1,9% a mais do que no mesmo período em 2019. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Governar é possível

O Estado de S. Paulo

Não é preciso um Congresso excepcional para o regime democrático funcionar

Não é preciso ter um Congresso excepcional para que o regime democrático funcione. A separação de Poderes dispensa utópicas perfeições, pois há limites e controles

Na tentativa de justificar a falta de resultados, o governo Bolsonaro difunde a ideia de que as instituições – em especial, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso – impedem o presidente da República de governar. Com os obstáculos e resistências que enfrenta, o chefe do Executivo federal estaria impossibilitado de realizar seu programa de governo.

Para começar, a desculpa não se aplica a Jair Bolsonaro, nem mesmo em tese. Ele nunca apresentou um programa factível de governo, tampouco se envolveu com as pautas que supostamente seu governo apoia, como as privatizações e a reforma da administração pública. De toda forma, muito além do bolsonarismo, há quem pense que, para o presidente da República de fato governar, seria preciso ter outra Constituição, outro Supremo e, muito especialmente, outro Congresso.

O argumento é um tanto perigoso para o regime democrático, uma vez que exclui a responsabilidade do governante em relação ao seu governo e, para piorar, atribui a ineficácia do Executivo à separação de Poderes. Sob essa lógica, tivesse o presidente da República mais poderes e recaíssem sobre ele menos controles, as coisas seriam diferentes. Ou seja, a argumentação encaminha-se, velada ou explicitamente, para o autoritarismo.

A ideia é, no entanto, uma falácia. Quando quer, o presidente da República é capaz de governar, implementando seu programa de governo e suas propostas. Logicamente, não será capaz de realizar tudo aquilo que se propôs. Mas conseguirá promover, a despeito de todas as dificuldades e oposições, muitos projetos e muitas mudanças.

Poesia | Carlos Pena Filho - Soneto oco

Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.

Música - Teresa Cristina - Senhora Tentação

 

domingo, 24 de outubro de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - A direita, o centro e a esquerda no “dia do fico” de Paulo Guedes

A sexta-feira, 22 de outubro, promete ficar conhecida, na crônica política, como o “dia do fico” do ministro Paulo Guedes. O chiste parte, no entanto, de uma premissa no mínimo controversa: a de que ele, em algum momento, pensou em não ficar.

A primeira das interpretações possíveis - aquela que mais diretamente aciona a intuição e os sentidos de quem assistiu à bizarra entrevista coletiva de ontem à tarde – é a de um canastrão ébrio, delirante, inconsciente do seu script. O ex-posto de conveniência de um chefe mais aventureiro do que ele, que de há muito não se abastece com ele e sequer passa por perto dele, posa, tal qual um apóstolo de religião extinta ou um poeta de língua morta, de guardião de um teto de gastos imaginário enquanto se desnuda ensopado pelo aguaceiro político e fiscal que lhe tirou o prumo, a equipe e o que lhe restava de dignidade. Patético agonizar de um paciente terminal, ao qual não faltou uma cena que lembra outra. Em maio de 2020, o então ministro da Saúde, Nelson Teich, também em coletiva, ouviu perplexo, da boca de um repórter, a notícia de uma declaração de Bolsonaro que desmoralizava o que ele, ministro, acabara de afirmar.  Foi constrangedor comparar sua cara de traído, derradeiro sabedor da situação em que se metera, com o riso zombeteiro do general Pazuello, seu futuro sucessor, divertindo-se com a saia justa do condenado. Pois foi do mesmo sarcasmo o sorriso de Bolsonaro quando Guedes errou, ontem, o nome do novo auxiliar que anunciava na cena do “fico”. Sem noção do próprio papel e do lugar subordinado que ocupa, o ministro jactava frases baluartistas sobre um país inexistente e supunha um “acordo” seu com o presidente, a quem não obedece, mas com quem negocia. 

Passado o impacto da impressão que acionou a intuição da agonia pública e indigna de Paulo Guedes, apareceu lugar para um raciocínio mais ajustado à imagem do dia do fico. Dela decorre uma segunda linha de interpretação do episódio e do processo em que ele se insere, a qual, pelo que se pode notar, faz, até aqui, mais fortuna na cobertura da imprensa. Para o bem de poucos e felicidade particular dos que não tem noção do povo e da nação - vítimas reais da pobreza e doença adensadas pela perversidade de um desgoverno - o presidente fez um afago no ministro que é o seu elo com o mundo da economia. Pressionado pelo desastre das bolsas e do câmbio, de um lado e pelo apetite patrimonialista de sua base congressual, de outro, Bolsonaro pisou no freio com os políticos para prestigiar seu ministro, o qual, em retribuição, reviu a suposta inclinação a pedir demissão. Supõe-se que o mercado raciocina que ruim com Guedes, pior sem ele. Nada que signifique perigo do centrão perder a condição objetiva de aliado preferencial do Presidente, na hora do “vamos ver”. É adiamento de um desfecho, o que por si só mostra a simultânea fragilidade da situação política do governo e do próprio Bolsonaro, premidos por um caos econômico, uma crise social e uma alta rejeição popular. Que dizer do futuro de um governo para o qual o ébrio da banca ainda é uma âncora?