terça-feira, 1 de julho de 2008

PPS VERSUS GOVERNO LULA

Gilvan Cavalcanti de Melo


O PPS deveria não só apostar no êxito, mas compartilhar, garantir a governabilidade, no Congresso, na sociedade e no Executivo, como parte autônoma e construtor desse presidencialismo de coalizão. A posição foi correta. Afinal, o PT venceu as eleições assumindo a cultura política de “frente” do PCB/PPS, não foi pouca coisa. A responsabilidade do PPS era ajudar que essa transformação fosse irreversível.

É evidente que foi política a decisão do PPS de participar da gestão do governo Lula. A opção estava sustentada no compromisso de um projeto de mudança, cujas linhas centrais foram definidas no XIII Congresso Nacional do PPS: “a) defesa e ampliação da democracia, com a incorporação crescente da sociedade nos destinos do país; b) reforma democrática do Estado; c) arrojada política de desenvolvimento social, apoiada em uma nova política econômica que não só mantenha estabilidade da moeda, mas leve o país à retomada do desenvolvimento econômico; d) política externa independente; e) presença competitiva e soberana da economia brasileira no mercado mundial”. Esta foi minha argumentação em defesa da participação do PPS no governo Lula.

Dentro da mesma visão o nosso Diretório Nacional afirmava: ”O PPS lutará para que o governo Lula desenvolva uma nova forma de fazer política em nosso país, tendo como pano de fundo a mais ampla tolerância democrática e a perspectiva de mudança de modelo de desenvolvimento e as reclamadas reformas estruturais e políticas, bandeiras que sempre estiveram no centro da concepção mudancista do PPS. (...) ”A questão da governabilidade, nesse contexto, se coloca como um objetivo a ser buscado com determinação”. (Brasília, 10/11/2002)

O que vem ocorrendo? Em vez de iniciar as mudanças o governo radicalizou os fundamentos da política que foi derrotada em 2002. Essa política continuísta acaba de ser referendada pela Direção Nacional do PT, festejada pelos setores dos grandes empresários financeiros e da mídia: “Venceu o bom senso no diretório nacional do PT” alardeou o editorial do jornal o Globo (23/11/2004). Quem tinha dúvida pode começar a se acostumar: o governo, o presidente Lula, o PT optaram, definitivamente, em manter e aprofundar a política macroeconômica, iniciada nos anos de 1990. Quem falar em mudança será, a partir de agora, considerada pela direção do PT e pelo governo como “uma bobagem”.

As alterações em curso – reforma ministerial – buscam preservar as alianças partidárias para manter esta política e levar o presidente Lula à reeleição em 2006. Este é o sentido de abertura de mais espaço, no governo, aos setores notoriamente fisiológicos do PP, PTB e PMDB. Em outras palavras, o governo Lula inicia o terceiro ano de seu mandato com a fisionomia totalmente distinta de quando assumiu com as palavras: “a esperança venceu o medo”.

Neste cenário cabe algum papel importante ao PPS está ligado, formalmente, ao governo? Minha resposta: em primeiro lugar, não devemos abandonar nosso compromisso republicano com a governabilidade, no Congresso e na sociedade. Em segundo lugar, a partir de hoje, o projeto de mudança rumo a democratizar a economia, o Estado e nossa vocação nacional, vai está em conflito com o projeto da centralização administrativa, do aparelhamento partidário e da política macroeconômica. Em terceiro e por fim, devemos ficar sem vinculo formal com o governo, isto é, sem representação partidária no executivo federal.

Rio de Janeiro, 23/11/2004





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