domingo, 31 de agosto de 2025

História em espiral, por Merval Pereira

O Globo

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”, disse Edmund Burke, filósofo irlandês do século XVIII

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”, disse Edmund Burke, filósofo irlandês do século XVIII. A frase me veio à mente assistindo na Academia Brasileira de Letras (ABL) à palestra do cientista político e professor associado do IESP-UERJ Christian Lynch sobre o livro “À margem da história da República”, coletânea organizada em 1924 por Vicente Licinio Cardoso, que reflete principalmente as ideias que ganharão hegemonia na organização institucional e na direção intelectual do Brasil de 1920 a 1980.

Para ele, elas contaminaram a esfera pública na década de 20, a partir do governo de Arthur Bernardes, e ganharam materialidade durante a Era Vargas, dando origem ao estado e às concepções de sociedade brasileira que vão durar até a década de 1990, quando desaparece o mundo que lhes deu origem, ou seja, o curto século XX, na concepção do historiador Éric Hobsbawn.

A obra, considerada “um manifesto político modernista”, é, para Lynch, “tanto um diagnóstico da Primeira República quanto um prenúncio das mudanças que culminariam na Revolução de 1930”. As coincidências com os acontecimentos atuais são muitas, o que, segundo Christian Lynch, evidencia “a necessidade de estudá-las na sua dinâmica histórica, para compreendermos eventualmente o que estamos vivendo hoje”. Ele fez um relato ironicamente sublinhando as repetições históricas, para chamar a atenção da importância de analisá-las.

“Era uma vez uma vez um país latino-americano, o Brasil, que desejara se reinventar contra suas antigas mazelas por meio de um novo regime constitucional progressista. Durante duas décadas tudo pareceu andar bem. Até que, depois de uma eleição presidencial disputada e cujo resultado foi questionado em sua lisura, se impôs uma decepção generalizada. O liberalismo entrou em crise. Os mais avançados denunciavam o já não tão novo regime por sua incapacidade em avançar em suas promessas. Mas a crise do liberalismo não vinha só de dentro.

"De fato, a globalização que organizava o mundo havia décadas colapsara. O incremento do movimento migratório e de mercadorias, com o surgimento concomitante de novas tecnologias, trouxe pânico diante das crises econômicas. O cosmopolitismo e o primado da economia cediam lugar a um nacionalismo agressivo no cenário internacional. Entrementes, uma pandemia paralisou o mundo, matando milhões e milhões de pessoas, gerando mais insegurança e pânico, impondo maiores controles de fronteira e mercadoria.

"Potências emergentes questionavam o status quo tradicional das potências do Atlântico Norte. Um país tradicionalmente vinculado à democracia se converteu ao fascismo. Ao mesmo tempo, a crise levara ao poder no Brasil um desastroso governo comandado por um militar, cujo autoritarismo o fizera chocar-se com o Supremo Tribunal Federal e quase levara o país à ditadura. Ao mesmo tempo, reacionários religiosos, julgados extintos desde a nova Constituição, se rearticularam politicamente em crítica contra a laicidade da República.

"Um novo presidente do Brasil, eleito na esteira do desastroso governo militarista, foi eleito com o objetivo de restaurar o estado anterior de coisas e pacificar o país. Mas o vidro havia se partido. Mesmo conservadores mais moderados criticavam a independência do STF. Outros viam a própria Constituição como excessivamente cosmopolita e permissiva, inadequada aos novos tempos. Foi nesse contexto de transição de época que uma nova geração de intelectuais preocupados com o futuro do país publicou uma coletânea que era um verdadeiro manifesto político dos nossos tempos”.

A Constituição não era a de 1988, mas a de 1891; a eleição não era de 2018, mas de 1909-1910 entre Rui Barbosa e Marechal Hermes da Fonseca; quem não respeitou o STF foi Hermes da Fonseca; a pandemia não era a da COVID, mas a da gripe espanhola. O país democrático que se tornou fascista não era os Estados Unidos, mas a Itália. Se a história não é cíclica, ela anda em espiral, comenta Christian Lynch.

 

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