domingo, 31 de agosto de 2025

Megaoperação no mercado é aval para a PEC da segurança pública, por Raul Jungmann*

Correio Braziliense

O crime organizado no Brasil não é um fenômeno isolado, mas um sofisticado ecossistema transnacional. Trata-se de uma estrutura transversal que exige respostas igualmente amplas

A operação de combate ao crime organizado realizada na última quinta-feira (29) foi, provavelmente, a maior da história do país, tanto pelo seu volume quanto pelo seu impacto estratégico na segurança pública. Seu sucesso deve-se principalmente à integração entre a Polícia Federal (PF), o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal, além de outros órgãos públicos de diversas esferas. Esse trabalho conjunto foi, sem dúvida, o fator decisivo para o êxito da operação.

Ao todo, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 350 alvos, incluindo pessoas físicas e jurídicas, em sete estados. O saldo foi expressivo: 41 indivíduos detidos, 255 empresas investigadas, além do sequestro de R$ 1 bilhão, 1.500 veículos, 192 imóveis, 21 fundos de investimento e duas embarcações de luxo. 

Isso representa parte do patrimônio obtido ilegalmente, por meio de esquemas de sonegação, desvios de recursos e outras práticas ilícitas, afora valores menores apreendidos nos locais das buscas. O que torna esse resultado pontualmente mais relevante é a recuperação imediata de parcela do prejuízo causado ao Estado, na forma desses bens bloqueados. 

No entanto, o ganho maior talvez seja a clara demonstração de que a PEC 18/25, que propõe a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), é não apenas parte da solução para o combate ao crime organizado, mas providência que já passou da hora de ser tratada com prioridade máxima pelo Congresso Nacional.

A operação recente é um reflexo do que um sistema permanente poderia alcançar, com a integração da União, dos estados e dos municípios. Não por acaso, a entrevista coletiva para avaliação da operação contou com a presença de representantes da PFl, do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reforçando a importância da cooperação entre diferentes esferas do governo.

Em artigo publicado no mês passado neste mesmo espaço do Correio Braziliense, destaquei os números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que revelam que grande parte dos R$ 348 bilhões movimentados pelo crime organizado no Brasil circula dentro da economia formal. 

Esses números relacionados à atuação dessa rede criminosa são alarmantes. Para ficar em dois, entre muitos exemplos, entre 2015 e 2020, cerca de 40% da produção de ouro do país apresentaram indícios de ilegalidade, com o produto sendo lavado no próprio mercado legal.

No setor de combustíveis, foco principal da operação da última quinta-feira, as fraudes fiscais geraram perdas de até R$ 23 bilhões por ano, com 13 bilhões de litros de combustível comercializados ilegalmente em 2022 — o que corresponde a 8,7% do mercado total, o suficiente para abastecer toda a frota do Brasil por três semanas.

É uma contabilidade que representa apenas a ponta do iceberg de uma rede criminosa muito mais complexa e diversificada. Esse cenário só é possível graças ao envolvimento de agentes do Estado e do mercado, o que levanta uma questão ainda mais grave: a infiltração do crime na estrutura pública e a extensão da corrupção no setor privado.

O crime organizado no Brasil não é um fenômeno isolado, mas um sofisticado ecossistema transnacional. Ele envolve redes interconectadas de fornecedores, agentes estatais corruptos, operadores financeiros especializados em lavagem de dinheiro, organizações logísticas e mercados consumidores globais.

Trata-se de uma estrutura transversal que exige respostas igualmente amplas. Combatê-la com ações fragmentadas, desconectadas entre si, apenas alimenta o sentimento de impotência que já se espalhou pela população.

O Estado, por sua vez, também precisa ser transversal. A rede criminosa permeia todos os ambientes de gestão, desde a segurança pública até a Justiça, passando por áreas como economia, meio ambiente, infraestrutura, transportes, comunicação, diplomacia, planejamento, minas e energia e outros ministérios e órgãos de governo.

Por mais que a operação recente tenha sido uma conquista significativa, ela deve ser parte de um esforço contínuo até sua consolidação. É possível que ainda existam dúvidas entre os leigos e na opinião pública em geral, mas não há motivos legítimos, no universo político e econômico, para que se mantenha uma oposição à União como elo central na coordenação da segurança pública. A PEC 18/25 é o primeiro passo necessário para a construção de um sistema integrado e eficaz de combate ao crime organizado.

*Raul Jungmann, ex-ministro da Reforma Agrária, da Defesa e da Segurança Pública, ex-presidente do Ibama e atual diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram)

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