domingo, 31 de agosto de 2025

Julgamento de Bolsonaro é recado para candidatos a ditador, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Democracia precisa provar que tem mira melhor que a do fascismo

No próximo dia 2 começa o julgamento de Jair Bolsonaro. Ele é culpado.

Se tivesse sido bem-sucedido, seus adversários não estariam em uma mansão paga pelo PL esperando julgamento: já teriam perecido nos porões sob tortura. Suas tornozeleiras seriam as cordas do pau-de-arara.

Mas o julgamento não é só sobre a democracia brasileira, muito menos sobre as manobras dos pré-candidatos a presidente em 2026.

Desde que Trump declarou guerra ao Brasil por causa do julgamento, o mundo notou que somos um campo de batalha importante na luta internacional pela democracia.

A revista britânica The Economist publicou uma matéria sobre o julgamento de Bolsonaro com o título "O que o Brasil pode ensinar aos Estados Unidos". O texto mostra como o Brasil lidou muito melhor com Bolsonaro do que os Estados Unidos com Trump. E conclui: "ao menos por enquanto, o papel de adulto democrático do hemisfério migrou para o Sul".

Trump também parece concordar com a The Economist: acredita que o julgamento de Jair tem implicações para seu próprio movimento autoritário. É por isso que o Brasil sofre um embargo comercial e Alexandre de Moraes foi punido com as sanções da Lei Magnitsky.

Se a Suprema Corte e o Congresso americanos tiverem 10% da coragem do STF brasileiro, Trump não vai conseguir implementar a ditadura que deseja nos Estados Unidos.

Por que o Brasil ocupou esse lugar central na luta global pela democracia?

Faz mais sentido do que parece: o Brasil é desenvolvido o suficiente para ter um Judiciário razoável, mas subdesenvolvido o suficiente para ter uma memória recente de viver sob o autoritarismo.

Essa memória, aliás, foi constantemente reativada pelos próprios bolsonaristas, com a idolatria ao torturador Brilhante Ustra, os elogios recorrentes à ditadura militar, a Pinochet e Stroessner, as ameaças de novo AI-5, as ofensas às vítimas de torturas.

Como Jair vinha dessa linhagem política de militares golpistas, suas ameaças à democracia eram mais evidentes: Jair Bolsonaro foi um golpista mais "old school" que Trump em seu primeiro mandato, o que o tornou mais reconhecível como ameaça à democracia.

A mídia internacional, aliás, deveria pesquisar a opinião de Eduardo Bolsonaro, filho do Jair e atual xodó do Departamento de Estado de Trump, sobre o 6 de janeiro americano.

Em entrevista de 2021, Eduardo disse que se os invasores do Capitólio fossem mais organizados, teriam matado "os policiais e os congressistas que eles tanto odeiam". E acrescentou, já pensando no que seu pai faria: "No dia em que a direita for 10% da esquerda, a gente vai ter guerra civil em todos os países do Ocidente".

No primeiro mandato de Trump, era errado chamar Bolsonaro de "Trump tropical": Jair era muito mais fascista que Donald, ao menos até o 6 de janeiro. Agora, no segundo mandato, é que o presidente americano parece disposto a se tornar um "Jair do Norte", desmontando a democracia americana com velocidade alarmante.

Os ministros que julgarão Jair devem ter consciência do que estão fazendo: além de punir quem ameaçou a democracia brasileira, darão um recado para candidatos a ditador mundo afora. A democracia precisa provar que demora mais para apertar o gatilho, mas tem mira melhor que a do fascismo.

 

Nenhum comentário: