Folha de S. Paulo
Democracia precisa provar que tem mira melhor
que a do fascismo
No próximo dia 2 começa o julgamento de Jair
Bolsonaro. Ele é culpado.
Se tivesse sido bem-sucedido, seus
adversários não estariam em uma mansão paga pelo PL esperando
julgamento: já teriam perecido nos porões sob tortura. Suas tornozeleiras
seriam as cordas do pau-de-arara.
Mas o julgamento não é só sobre a democracia
brasileira, muito menos sobre as manobras dos pré-candidatos a presidente em
2026.
Desde que Trump declarou guerra ao Brasil por causa do julgamento, o mundo notou que somos um campo de batalha importante na luta internacional pela democracia.
A revista britânica The
Economist publicou uma matéria sobre o julgamento
de Bolsonaro com o título "O que o Brasil pode ensinar aos Estados
Unidos". O texto mostra como o Brasil lidou muito melhor com Bolsonaro
do que os Estados Unidos com Trump. E conclui: "ao menos por enquanto, o
papel de adulto democrático do hemisfério migrou para o Sul".
Trump também parece concordar com a The Economist:
acredita que o julgamento de Jair tem implicações para seu próprio movimento
autoritário. É por isso que o Brasil sofre um embargo comercial e Alexandre
de Moraes foi punido com as sanções
da Lei Magnitsky.
Se a Suprema Corte e o Congresso americanos
tiverem 10% da coragem do STF brasileiro,
Trump não vai conseguir implementar a ditadura que deseja nos Estados Unidos.
Por que o Brasil ocupou esse lugar central na
luta global pela democracia?
Faz mais sentido do que parece: o Brasil é
desenvolvido o suficiente para ter um Judiciário razoável, mas subdesenvolvido
o suficiente para ter uma memória recente de viver sob o autoritarismo.
Essa memória, aliás, foi constantemente
reativada pelos próprios bolsonaristas, com a idolatria ao torturador Brilhante
Ustra, os elogios recorrentes à ditadura militar, a Pinochet e Stroessner, as
ameaças de novo AI-5, as ofensas às vítimas de torturas.
Como Jair vinha dessa linhagem política de
militares golpistas, suas ameaças à democracia eram mais evidentes: Jair
Bolsonaro foi um golpista mais "old school" que Trump em seu primeiro
mandato, o que o tornou mais reconhecível como ameaça à democracia.
A mídia internacional, aliás, deveria
pesquisar a opinião de Eduardo Bolsonaro, filho do Jair e atual xodó do
Departamento de Estado de Trump, sobre o 6 de janeiro americano.
Em entrevista de 2021, Eduardo disse que se
os invasores do Capitólio fossem mais organizados, teriam matado "os
policiais e os congressistas que eles tanto odeiam". E acrescentou, já
pensando no que seu pai faria: "No dia em que a direita for 10% da
esquerda, a gente vai ter guerra civil em todos os países do Ocidente".
No primeiro mandato de Trump, era errado
chamar Bolsonaro de "Trump tropical": Jair era muito mais fascista
que Donald, ao menos até o 6 de janeiro. Agora, no segundo mandato, é que o
presidente americano parece disposto a se tornar um "Jair do Norte",
desmontando a democracia americana com velocidade alarmante.
Os ministros que julgarão Jair devem ter
consciência do que estão fazendo: além de punir quem ameaçou a democracia
brasileira, darão um recado para candidatos a ditador mundo afora. A democracia
precisa provar que demora mais para apertar o gatilho, mas tem mira melhor que
a do fascismo.
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