Épico
O Globo, 26/09/2013
O
futebol de calçada era com narração, e o próprio jogador fornecia a narração.
Jogava e descrevia sua jogada ao mesmo tempo, e nunca deixava de se
autoentusiasmar. “Sensacional, senhores ouvintes!” (Naquele tempo os locutores
tratavam o público de “senhores ouvintes”).
“Sensacional!
Mata no peito, põe no chão, faz que vai mas não vai, passa por um, por dois...
Fáu! Foi fáu do béque! O juiz não deu! O juiz está comprado, senhores
ouvintes!”
Fáu
era “foul” e béque era “back”, na língua daquela terra estranha, o passado. E o
juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a
começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer
coisa remotamente redonda. O bola número cinco oficial de couro ganha no Natal
não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando
futebol?
Mas
éramos gênios na nossa própria narração.
“Lá
vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta...
Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores
ouvintes ... Só ele joga nesse time!”
A
narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui
a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma
coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de
grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em
cores vivas... Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que
eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heróica.
Faltava o Homero.
Na
calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.
“Atenção.
Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A
bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe
invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A
mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!”
Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.
Fiu-fiu
O Globo, 03/08/2014
Lançaram agora um celular à prova d’água, que
você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar,
por exemplo.
— Bem, não me espere para o jantar...
— Onde você está?
— Sabe a nossa pesca submarina?
— O que houve?
— Pensei que fosse uma garoupa e era um
tubarão. E ele está vindo na minha direção.
— Você ainda está embaixo d’água?!
— Estou.
— E o seu arpão?
— O tubarão engoliu!
— Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que
você pode se ver livre de celulares, e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram
indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais
melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três
estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em
outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o
que dirá se falarem — a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas
entre si, o que é ainda mais triste?
Os celulares podem ser perigosos de várias
maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum
tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem que estes se
dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por
exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio
humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer
hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de
repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não
morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está lá? Um ladrão
ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito
bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção
do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
O
clima
O Globo,01/04/2018
Oi.
—
Como, “oi”?
—
Oi. Olá. Tudo bem?
—
Nós nos conhecemos?
—
Não. Eu só quis ser cortês.
—
Como, “cortês”?
—
Agradável. Cordial com um concidadão. Temos muitas coisas em comum.
—
O que, por exemplo?
—
Bom... Somos dois bípedes da mesma espécie. Dois mamíferos brasileiros, com
mais ou menos a mesma idade, esperando um ônibus. Tivemos uma mãe...
—
Epa.
—
Cada um teve a sua, claro. E um pai.
—
E daí?
—
Estamos na mesma parada de ônibus. Talvez esperando o mesmo ônibus. Eu quis ser
simpático e...
—
Como, “simpático”?
—
Simpático. Civilizado. Afinal, antes de mais nada, somos dois seres humanos...
—
Iiih. Lá vem aquele papo de direitos humanos.
—
Você é contra direitos humanos?
—
Pra bandido, sou. “Humano” virou sinônimo de bandido. Humano, tem que fuzilar.
E “civilizado” é sinônimo de frouxo. Aposto que você não concorda.
—
Não.
—
Eu sabia. Você tem um jeitinho de civilizado. Cuidado. Quando os comunistas
voltarem ao poder no Brasil, vão pegar os civilizados primeiro.
—
Por que a gente não escolhe um assunto no qual podemos concordar? Futebol. Cada
um tem seu time, mas todos torcemos pela seleção do Tite. Não é mesmo? Também
podemos concordar sobre o clima. O outono está chegando, o clima está ótimo...
—
Tá brincando? O clima nunca esteve tão ruim no Brasil... E lá vem o meu ônibus.
—
O meu é outro.
—
Eu já imaginava.
—
Então... Felicidade.
—
Como, “felicidade”?
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