Derrotar facções criminosas exige política nacional
O Globo
Mais de um quarto da população brasileira
está sujeito às leis do crime, revelou estudo americano
Durante muito tempo se acreditou que o domínio de vastas extensões do território nacional por organizações criminosas fosse um problema restrito às comunidades e regiões conflagradas do Rio de Janeiro e uma ou outra cidade brasileira. Um estudo recente de pesquisadores das universidades de Chicago e do Wisconsin, publicado pela Cambridge University Press, desfaz esse mito. A pesquisa estima que aproximadamente 26% da população brasileira, entre 50,6 milhões e 61,6 milhões, está submetida às regras das facções do crime organizado — algo como uma Itália sob o jugo das máfias. De acordo com a análise, realizada com base em sondagens do Latinobarómetro, o Brasil é disparado o país com a maior presença de facções criminosas no continente (a segunda colocada é a Costa Rica, com 13% da população sujeita ao governo do crime).
Há várias explicações para a persistência
dessa realidade trágica. As organizações criminosas ocupam o espaço do Estado
em várias dimensões. Não só no controle de serviços públicos, como fornecimento
de gás, coleta de lixo, transporte ou sinal de telefonia e internet. Mas também
pela imposição de leis e “tribunais” próprios, de um sistema de governança que
anula a principal prerrogativa do Estado — o monopólio do uso legítimo da
força.
Paradoxalmente, quando consolidam poder, as
facções acabam por reduzir a violência.
Não é outro o motivo, dizem os pesquisadores, para haver conexão entre a queda
das mortes violentas em São Paulo nos anos 2000 e a expansão do Primeiro
Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do país. A hegemonia da facção
estabelece uma “paz” negociada com outros grupos, impõe maior silêncio às
comunidades e facilita acordos espúrios com as autoridades policiais. Mata-se e
rouba-se menos, para que os negócios ilegais transcorram sem atropelo. O
fluminense Comando Vermelho (CV) usa os mesmos métodos. A pesquisa relata a
expulsão, no Amazonas, de dois homens punidos pelo CV por bater em suas
mulheres. Não interessam ao crime ocorrências que exijam a presença da polícia.
A pesquisa também constata outro paradoxo: a
associação entre o aumento da repressão pelo Estado e a ampliação dos domínios
do crime. Na esteira de operações policiais sem critério nem planejamento, cujo
objetivo é apenas demonstrar força e cujo resultado costumam ser tiroteios
irresponsáveis que matam moradores, a população passa a aceitar a aparente
tranquilidade do controle pelas facções, mesmo que falsa.
A operação movida na semana passada contra o
PCC aponta um caminho promissor para derrotar as facções. O estudo fornece
ainda mais argumentos para que o poder público combata o crime organizado com
base na cooperação entre diferentes esferas do governo, em investigações e
inteligência, dando prioridade ao sufocamento das finanças das quadrilhas. É um
trabalho que precisa ser executado com apoio de outros países, dada a expansão
internacional do crime. A pesquisa mostra, por fim, por que é urgente e
necessária a agenda legislativa que permita coordenação no combate ao crime. Em
especial, a PEC da Segurança, que promove articulação entre governos federal e
estaduais, e a nova Lei Antimáfia, que cria mecanismos para enfrentar uma
criminalidade hoje mais organizada que o próprio Estado.
Novo PAC corre risco de deixar legado de
obras paradas ou mal executadas
O Globo
Quando políticas públicas se tornam reféns do
calendário eleitoral, quem paga o preço é a população
Um das principais apostas do presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva para a eleição do ano que vem é o Novo Programa de Aceleração do
Crescimento, o Novo PAC. Sob a
coordenação do ministro Rui Costa, da Casa Civil, ele reúne um sem-número de
projetos e obras que planejam movimentar, entre investimentos públicos e
privados, R$ 1,3 trilhão. O risco, para Lula, é deixar um legado de obras
paralisadas.
O que preocupa o governo nem são os grandes
projetos, invariavelmente sujeitos a toda sorte de exigência, mas
especificamente obras financiadas em áreas de alto interesse popular, como
educação e saúde. É o caso de hospitais, policlínicas, postos de saúde, escolas
ou creches, em geral indicados por prefeitos e governadores. Até agora, como
revelou reportagem do GLOBO, o governo federal reservou R$ 111 bilhões para
essas obras e liberou R$ 94,3 bilhões. Os R$ 16,7 bilhões restantes ainda estão
retidos porque falta a comprovação de realização das despesas.
O calendário eleitoral não tem ajudado. O
governo acredita que vários prefeitos têm retardado o andamento de obras para
inaugurá-las o mais próximo possível de 2028, quando haverá eleição municipal.
Só que a presidencial é no ano que vem, por isso Lula tem mandado a Casa Civil
pressionar os prefeitos. “Não temos mais muito tempo, a gente vai disputar uma
eleição”, afirmou.
Uma das maiores fontes de preocupação para o
Planalto são as 1.884 obras previstas no âmbito da educação. Apenas 4% estão em
execução, e 82% estão ainda em licitação. Nenhum dos 102 institutos federais
para ensino médio prometidos por Lula na campanha foi inaugurado. Menos da
metade (41) está em obras, e a licitação só foi aberta para mais 31. Vinte e
dois aguardam a abertura de concorrência, e o terreno que abrigará outros oito
nem foi regularizado. Calcula-se que esses projetos podem levar de nove a 18 meses
para ficar prontos. Há uma difícil corrida contra o relógio. Na área da saúde,
também de grande apelo eleitoral, há 1.910 obras, das quais 73% estão em
andamento, 19% em licitação e 2,5% em análise. O Ministério da Saúde informa
que põe à disposição de estados e municípios projetos de engenharia e
arquitetura, modelos de licitação, canais abertos de comunicação via WhatsApp e
conversas ao vivo para orientações técnicas.
Em todo projeto de cunho eleitoral, há o risco de interesses políticos sobrepujarem critérios técnicos. Não é diferente com o Novo PAC. Fica a cada dia mais difícil para Lula evitar deixar um legado de obras paralisadas, atrasadas ou mal executadas. É o que acontece quando políticas públicas se tornam reféns do calendário eleitoral.
Julgamento de Bolsonaro deve atestar solidez
institucional
Folha de S. Paulo
Evidências robustas baseiam acusação de
tentativa de golpe; punição precisa desencorajar novas conspiratas
Outros cinco militares são réus. A conformação das Forças Armadas a seu papel constitucional é uma conquista a ser consolidada
Um marco histórico da redemocratização do
país vai se materializar a partir da terça-feira (2), com o julgamento de Jair
Bolsonaro (PL) e outros sete acusados
de tramar um golpe de Estado em 2022.
Os réus integram o núcleo central de um
esquema investigado pela Polícia
Federal e descrito pela denúncia da Procuradoria-Geral da
República (PGR) —não obstante controvérsias ao longo do processo, as evidências
são robustas.
Tanto o são que Bolsonaro, para fins de
avaliação política, pode se considerar condenado. Ainda assim, caberá ao
Supremo Tribunal Federal (STF) o desafio
de conduzir um julgamento tecnicamente sólido e equilibrado, sob pressões que
vão da opinião pública nacional até o governo dos Estados
Unidos.
A tarefa, que caberá à Primeira Turma, seria
mais bem desempenhada pelo plenário da corte, com maior margem de
questionamento e divergência. A opção adotada privilegia a celeridade.
Não é obviamente motivo de satisfação ter um
ex-presidente e próceres militares julgados por atentar contra o período mais
duradouro de normalidade democrática da história brasileira. Cabe o regozijo,
isso sim, com o fato de a conspirata não ter prosperado e de seus personagens
terem sido alcançados pela Justiça —pela primeira vez em um país com triste
passado de quarteladas.
Se considerado culpado, como se afigura
provável, o ex-mandatário deve ser punido na medida justa da lei, uma garantia
do Estado de Direito inexistente na ditadura
militar por ele incensada.
As penas máximas para os crimes de que é
acusado —tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta da democracia,
organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio
tombado— somam 43 anos, dos quais até 7 teriam de ser cumpridos em regime
fechado. Em razão de sua idade e problemas de saúde, deve ser considerada a
prisão domiciliar.
A dosimetria precisa ser objeto de debate
aprofundado entre os cinco magistrados que compõem a Primeira Turma, a começar
pelo relator do processo, o ministro Alexandre de
Moraes. O fundamental é que a certeza de punição se torne
desestímulo a novas aventuras golpistas.
Bolsonaro será naturalmente o centro das
atenções, mas não se pode esquecer que, além do capitão reformado, estarão no
banco dos réus outros cinco militares, quatro deles com a patente de
oficial-general. A conformação das Forças
Armadas a seu papel constitucional é uma conquista democrática
a ser consolidada.
O Supremo decerto cometeu excessos e
heterodoxias nos últimos anos, mas cumpre seu papel ao escrutinar os graves
acontecimentos que vão do desfecho das eleições de 2022 ao ataque de
bolsonaristas às sedes dos Poderes em 8 de janeiro de 2023.
Sairá fortalecido, assim como as demais instituições
nacionais, ao não ceder nem à complacência nem a ímpetos de desforra sob a
ridícula chantagem do governo de Donald Trump.
Os riscos previsíveis da politização do IR
Folha de S. Paulo
Aposta eleitoral de Lula, isenção de
rendimentos até R$ 5.000 é alvo da oposição, que ameaça ampliar déficit
Reformas amplas do IR são delicadas, e não
por acaso o petista escolheu um atalho. Resta esperar que tema seja retomado no
próxima governo
Reformar o Imposto de
Renda é tarefa das mais delicadas politicamente. Trata-se de um
tributo de custo evidente para cada contribuinte, à diferença dos incidentes
sobre o consumo e incorporados aos preços de bens e serviços. Assim, qualquer
aumento de cobrança gera reação imediata, ainda mais quando afeta setores
influentes.
Não por acaso, o governo Luiz Inácio Lula da
Silva, de base frágil no Congresso
Nacional, abandonou os planos iniciais de uma reforma ampla e
ambiciosa do IR —tarefa que o petista não levou adiante nem quando desfrutava
de grande popularidade e apoio partidário em seus dois primeiros mandatos. Em vez
disso, optou por um atalho, ainda assim arriscado.
Em busca de índices maiores de aprovação,
Lula seguiu uma promessa eleitoral reciclada da campanha do adversário Jair Bolsonaro (PL) e propôs a isenção
do imposto para rendimentos até R$ 5.000 por mês. Para evitar a
perda de receita, previu-se uma cobrança mínima sobre ganhos a partir de R$ 50
mil mensais.
O projeto tem méritos ao mirar a
progressividade dos impostos, onerando os mais ricos e beneficiando estratos
que, embora não possam ser considerados pobres, não estão no topo da pirâmide
social. A administração petista, no entanto, não faz segredo de que essa é
também, ou sobretudo, uma aposta político-eleitoral.
Não surpreende, portanto, que haja má vontade
da oposição e de boa parte do centrão com o texto —por mais difícil que seja
rejeitar uma medida de claro apelo popular. Como era de esperar, a tramitação
corre o risco de ser contaminada por demagogia e irresponsabilidade
orçamentária.
Basta o exemplo do líder do PL, Sóstenes
Cavalcante (RJ), que candidamente defende estender a isenção do IR para
rendimentos até R$ 10 mil e acabar com a
tributação compensatória sobre os mais ricos. A primeira parte do
plano visa rebater a acusação de ser contra a benesse do projeto; a segunda
atende a interesses de alcance suprapartidário.
Desnecessário dizer que alterações no texto
nesse sentido seriam nefastas para o Tesouro e, em consequência, para a
economia do país. Calcula-se que o alívio tributário vá custar em torno de R$
30 bilhões no próximo ano. O que não for coberto pela receita adicional será
somado ao déficit federal, projetado em R$ 23 bilhões na proposta de Orçamento
divulgada na sexta (29).
A esta altura, a politização do tema parece irreversível. Resta esperar que o impacto fiscal não seja desastroso —e que se possa fazer uma reforma mais criteriosa do IR no próximo governo.
O veneno da antipolítica
O Estado de S. Paulo
Pesquisa mostra que frustração com a política
dita tradicional abre espaço para ‘outsiders’ que oferecem salvação, mas
entregam desordem. País precisa da política e de políticos sérios
A história republicana do País demonstra que
a supremacia da emoção sobre a razão abre um perigoso espaço, de tempos em
tempos, para a ascensão de aventureiros políticos. Na atual quadra, a
insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste
provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula da Silva e
Jair Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders, aqueles que se
apresentam como elixir contra um “sistema” que supostamente degrada tudo o que
toca. A tentação de seguir essa gente, como bem se sabe, é grande. Mas é também
perigosa.
Uma pesquisa Genial/Quaest realizada entre os
dias 13 e 17 deste mês, à qual o jornalista César Felício, do Valor Econômico, teve acesso,
revelou que 27% dos eleitores consideram ideal para o Brasil, em 2026, a
eleição de “alguém de fora da política” para a Presidência da República. Já
para 28% o melhor cenário é a reeleição de Lula, ante 19% que acreditam que o
melhor para o País é a vitória de Bolsonaro, malgrado o ex-presidente estar
inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se da comprovação
estatística de que cresce na sociedade uma “demanda por novidade”, como
salientou Felício. Essa “novidade” confunde-se com a negação da política. Isso
deveria preocupar todos os que, como este jornal, têm compromisso inarredável
com os valores democráticos e princípios republicanos.
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do
eleitor. É apenas o termômetro de uma patologia social à qual não deu causa: o
descaso de políticos profissionais pelos reais anseios da sociedade.
Parlamentares e governantes, ao priorizarem seus interesses pessoais e
partidários em detrimento das necessidades prementes da população, afastam-se
da missão essencial de exercer o poder com responsabilidade e espírito público.
Diante disso, pouco resta ao eleitor a não ser pautar suas decisões pela
descrença. O erro, portanto, não é do eleitorado, mas daqueles que traem o
mandato por enxergarem a política como patrimônio, não como serviço.
Convém lembrar: não há solução civilizada
fora da política. Rejeitar a política é abrir caminho para a barbárie e para o
arbítrio. A política, com todas as suas imperfeições, é a única via de
concertação civilizada entre a miríade de interesses em jogo numa sociedade
complexa como a brasileira. Não é por outra razão que a Constituição estabelece
a filiação partidária como condição de elegibilidade. Mas outsiders, por definição, são
incontroláveis. Ao não se submeterem às regras escritas e não escritas que
regem a vida pública, em particular a vida partidária, transformam a atividade
política em terreno instável, hostil ao debate democrático e nocivo ao
desenvolvimento político, social e econômico do País.
Os partidos políticos, por sua vez, ao invés
de se fortalecerem como instituições que filtram, preparam e disciplinam
lideranças públicas, têm se deixado capturar pelo canto de sereia das
candidaturas oportunistas. Movidos pelo desejo imediato de conquistar o poder –
e ter acesso a nacos cada vez mais robustos do Fundo Partidário –, oferecem
legenda a figuras notoriamente desqualificadas para a política, mas que, por
seu apelo midiático ou carismático, acabam capturando atenções e passam a
submeter a máquina partidária a seus desígnios pessoais. O resultado é a
degradação do próprio modelo de representação política democrática.
Os outsiders não
são prejudiciais apenas para as legendas, mas sobretudo para o País. A
curtíssimo prazo, os choques que buscam dar nas instituições e nos modelos de
governança podem até gerar resultados que vão ao encontro dos anseios daqueles
que os elegeram. Mas a imprevisibilidade e o personalismo logo cobram seu
preço. Afinal, como fazer negócios e prover segurança jurídica a cidadãos e
empresas em um ambiente sem regras estáveis, vale dizer, suscetível aos humores
do governante de turno?
A antipolítica nunca foi solução para nossas
mazelas. É veneno. O Brasil precisa de líderes capazes de resgatar a confiança
da sociedade na política como instrumento de mudança. A alternativa a isso é a
aventura – e aventureiros, como a experiência comprova, só trazem desordem e
frustração.
Porteira aberta para o crime
O Estado de S. Paulo
Uso de fintechs para lavar dinheiro ilícito
foi facilitado pela ineficiência do Estado em regular um mercado que explodiu
em uma década, impulsionado pela baixa bancarização no País
No mesmo dia em que três operações
simultâneas da Polícia Federal revelaram a infiltração do crime organizado no
setor financeiro formal, a Secretaria da Receita Federal anunciou uma nova
regulação das fintechs, empresas que oferecem serviços financeiros de
pagamento, crédito e investimentos, mas não são classificadas como bancos. Em
questão de horas, o Diário
Oficial da União publicava a nova instrução normativa que
submete todas essas operações aos mesmos controle e fiscalização aplicados ao
sistema bancário.
Obviamente, não foi coincidência, assim como
também não foi por acaso o destaque explícito, no texto da nova norma, ao
caráter de combate ao crime embutido na medida, “inclusive aqueles relacionados
ao crime organizado, em especial a lavagem ou ocultação de dinheiro e fraudes”.
Restou evidente a preocupação do governo em evitar a repetição do estrago
causado pela “crise do Pix”, ainda fresco na memória de todos, durante a
tentativa anterior de criar exigências regulatórias para essas instituições,
que se multiplicaram extraordinariamente em menos de dez anos.
De acordo com as estatísticas do Banco
Central, em 2016 apenas uma instituição de pagamento tinha autorização para
operar; em 2020, ano de criação do Pix, o total passou a 26; em dezembro do ano
passado, chegou a 173; e, em junho deste ano, já somava 189, a maioria (129)
sediada em São Paulo, o maior centro financeiro do País. Esse tipo de empresa
surgiu mundialmente depois de 2008, quando a queda do Lehman Brothers, nos
Estados Unidos, colocou em xeque os bancos e desencadeou a maior crise
financeira mundial desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.
O avanço tecnológico e digital facilitou a
rápida expansão dos meios automáticos de pagamento. Em 2013, o Banco Central
abriu o mercado de pagamentos e carteiras digitais e não demorou a surgirem
empresas especializadas em emissão de moeda eletrônica, por meio de cartão de
débito, maquininhas para pagamento e até cartão de crédito. Para o grande
público, elas parecem bancos, muitas têm nomes que remetem a bancos, mas não
são bancos. São empresas exclusivamente digitais, que não podem, como os
bancos, usar dinheiro de seus clientes para conceder empréstimos e não dispõem
da proteção do Fundo Garantidor de Créditos, do Sistema Financeiro Nacional.
Trouxeram a vantagem do acesso a meios
eletrônicos de pagamentos a uma população historicamente excluída do universo
bancário, ainda que seja incorreto falar em aumento da “bancarização”, já que
não são instituições bancárias. A popularização estrondosa do Pix, contudo,
criou essa impressão, para o bem e para o mal. Hoje, de acordo com o Banco
Central, 937 instituições participam do sistema de pagamento por Pix e outras
35 estão em processo de adesão. Um sucesso inquestionável, que despertou a
rivalidade das multinacionais do crédito e, inclusive, protesto do presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusa o Brasil de “práticas desleais” em
serviços de pagamento eletrônico.
Gritarias à parte, o vácuo regulatório
durante o período de multiplicação das instituições de pagamento funcionou como
passaporte para as operações de lavagem do dinheiro do crime organizado. Como
ressaltou em entrevista ao Estadão a
superintendente da Receita Federal em São Paulo, Marcia Meng, criminosos
recorrem a fintechs para adquirir patrimônio, por meio de fundos de
investimentos, e limpar dinheiro ilícito. Por óbvio, não é prática generalizada
no setor.
A avalanche de fake news que se seguiu à
tentativa anterior de monitorar essas movimentações financeiras – incluindo o
Pix –, feita pela Receita em setembro de 2024, causou pânico e levou o governo
Lula da Silva a um humilhante recuo quatro meses depois, com direito a uma
medida provisória assinada pelo presidente garantindo manter o que já havia: a
não taxação do Pix. As notícias falsas, disseminadas por bolsonaristas,
ganharam ar de credibilidade por causa da sanha arrecadatória do governo e de
sua baixa confiabilidade, agravada por um anúncio pouco transparente. Tomara
que, desta vez, o governo faça a coisa certa.
A vulnerabilidade chinesa
O Estado de S. Paulo
Caso Evergrande ainda assombra a China,
comprometendo o tão necessário consumo interno
As ações da incorporadora imobiliária chinesa
Evergrande acabam de ser oficialmente retiradas da Bolsa de Hong Kong, um fim
desolador, mas também esperado, para uma companhia que começou a ruir em 2020,
escancarando ao mundo as vulnerabilidades da poderosa economia chinesa.
Única nação do mundo capaz de retaliar na
mesma moeda a escalada tarifária de Donald Trump, a China, até aqui, é tida por
muitos como a vencedora da desorganização do comércio global deflagrada pelo
presidente dos EUA. Enquanto o resto do mundo engole tarifas comerciais
totalmente arbitrárias, China e EUA desfrutam de uma pausa tarifária até 10 de
novembro. Mas o fato de que a China tem poder suficiente para forçar tréguas
renovadas da parte de Trump não significa que Pequim esteja em céu de
brigadeiro. Muito ao contrário, como mostra o caso Evergrande.
Não bastasse ter deixado diversos projetos
imobiliários inacabados por todo o país e credores sem perspectiva de receber o
que lhes é devido, o desmoronamento da Evergrande abalou significativamente a
confiança do consumidor chinês, que tradicionalmente já tem pouca disposição
para gastar.
As razões para isso vão da precária rede de
proteção social chinesa até o fato de que muitos chineses pagaram por imóveis
que jamais foram entregues. E tudo isso sem falar do trauma da política
restritiva que trancafiou a população em casa durante a pandemia de covid-19,
erodindo poupanças pessoais.
Mesmo antes do retorno de Trump à Casa
Branca, Pequim sabe que o modelo de “fábrica do mundo”, que transformou a China
na segunda maior economia do planeta, tem limitações e que a transição para um
sistema no qual a população chinesa passe a consumir com mais vigor é
fundamental até para a sustentabilidade do próprio regime.
Não é à toa que, desde ao menos o ano
passado, Pequim vem intensificando medidas para ampliar a liquidez no mercado
financeiro, outro setor que ainda lida com os destroços do colapso da
Evergrande.
O governo também aposta na inovação digital,
área na qual a China converteu-se em líder, para reorientar os padrões de
compra, ampliando o consumo de serviços.
Apesar disso, os chineses seguem desanimados
a consumir. Para além dos traumas passados, agora eles também se preocupam com
o envelhecimento e até mesmo com o encolhimento da população, e lidam com as
incertezas da guerra comercial de Trump.
De acordo com o Financial Times, o tarifaço já se
faz sentir pela província de Guangdong, o principal centro manufatureiro da
China. Ainda que no momento haja uma trégua tarifária entre Washington e
Pequim, as perspectivas para o comércio global são, na melhor das hipóteses, de
incerteza, o que tem levado ao fechamento de fábricas e ao esvaziamento de
Guangdong.
Como se vê, a China pode muito, mas não pode tudo. Tanto o fantasma da Evergrande quanto a ameaça constante das tarifas de Trump são sinais de que, enquanto não resolver a questão da fraca demanda interna, o futuro da China e, por consequência, da economia global seguirá em suspenso.
Vacina contra HPV é medida essencial
Correio Braziliense
O Brasil tem a meta de eliminar o câncer de
colo de útero como problema de saúde pública. Trata-se de um esforço coletivo
no enfrentamento de uma doença que, a cada ano, registra 630 mil casos novos
pelo mundo
O Brasil tem um desafio pela frente, de
proporções globais. O país é signatário de uma estratégia lançada pela
Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2020, com uma meta a ser alcançada nos
próximos cinco anos: eliminar o câncer de colo de útero como problema de saúde
pública. Trata-se de um esforço coletivo no enfrentamento de uma doença que, a
cada ano, registra 630 mil casos novos pelo mundo. O tumor no colo de útero
responde por 4,5% de todos os cânceres diagnosticados no planeta.
Assim como ocorre com outros tipos de
neoplasias malignas, o combate a essa enfermidade depende de uma ação
importantíssima: a prevenção. E está fundamentada em um tripé: vacina contra o
vírus HPV, rastreamento mais eficiente do patógeno e tratamento adequado de
lesões. Tratam-se de passos fundamentais para evitar o surgimento de 17 mil
casos de câncer de colo de útero por ano no Brasil, além de reduzir custos na
rede pública de atendimento.
É importante salientar que o Sistema
Único de Saúde (SUS) dispõe de um instrumental relevante para avançar nessa
batalha. A primeira ferramenta é a vacina quadrivalente contra o HPV,
disponível na rede pública. Em 2024, o Brasil alcançou 82% de cobertura vacinal
entre meninas de 9 a 14 anos. Registre-se o esforço do Ministério da Saúde não
apenas na imunização das crianças e adolescentes, mas também no resgate vacinal
de jovens de 15 a 19 anos que não se vacinaram anteriormente. Essa meta
específica, contudo, ainda está longe de ser cumprida.
O desafio permanece igualmente na imunização
do gênero masculino. Entre os meninos de 9 a 14 anos, a taxa de cobertura está
em apenas 67%. É importante lembrar que, além do tumor no colo de útero, o
vírus HPV está associado a cânceres de ânus, pênis, garganta e pescoço. Pode
provocar, ainda, verrugas genitais.
Em relação à vacinação do gênero feminino, o
Brasil obteve importantes avanços nos últimos anos, mas ainda não alcançou a
meta estabelecida pela OMS para 2030. A estratégia global contra o câncer de
colo de útero prevê 90% das meninas vacinadas até os 15 anos. Campanhas de
conscientização são fundamentais, particularmente porque há muita desinformação
em relação ao HPV — existe um temor infundado de que a imunização estimularia
precocemente a iniciação sexual.
Especialistas afirmam que essa ideia
constitui um perigoso equívoco. "A vacina é sobre prevenção de câncer, não
sobre comportamento", esclarece a infectologista Marina Della Negra,
diretora médica da MSD Brasil. A médica explica os benefícios da imunização:
"Quando o indivíduo (vacinado) entra em contato com o HPV, o organismo já
está preparado para combatê-lo e evitar a infecção".
Razões econômicas também justificam o trabalho preventivo. Estudos indicam que a eliminação do câncer de colo de útero redundaria em um ganho de R$ 32 bilhões para o SUS até 2069 — o equivalente a 13% do orçamento previsto para o Ministério da Saúde em 2026. É preciso, portanto, que a sociedade faça a sua parte, em benefício de todos.
Direito a terras é valorização da cultura dos
povos indígenas
O Povo (CE)
O reconhecimento fortalece a luta histórica
dos povos indígenas e representa um considerável avanço na promoção de
políticas públicas voltadas às comunidades tradicionais
É louvável a decisão judicial de garantir ao
povo indígena Pitaguary a propriedade sobre terras no Ceará que hoje estão
ocupadas de maneira irregular. Com a determinação, ocupantes irregulares da
Terra Indígena (TI) Pitaguary, localizada nos municípios cearenses de
Maracanaú e Pacatuba, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), precisarão
deixar o local.
Trata-se do desfecho de uma ação proposta
pelo Ministério Público. A Justiça Federal no Ceará acolheu os
pedidos de uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal
(MPF), no ano de 2022. De acordo com informações do MPF, a terra indígena
estava ocupada, de forma ilegal, por dois homens acusados de vender e doar
lotes a não indígenas. Também são acusados de cometer outras irregularidades,
como cobrar pedágio e estabelecer grupos armados no local.
Além disso, a Justiça determinou que os dois
réus parem, imediatamente, de realizar qualquer negociação, permuta,
empréstimo, garantia ou cessão da área e de suas benfeitorias. Decidiu
também que eles sejam proibidos de expandir, modificar, aumentar, locar e
desfazer-se ou arrendar total ou parcialmente a área, sob pena de multa diária.
Tais ocupantes ilegais, considerados "de má-fé", devem deixar o
território sem direito à indenização.
A decisão impactará ocupantes não indígenas e
indígenas de outras etnias sem reconhecimento pelas lideranças
tradicionais. O processo de desocupação, também chamado de desintrusão, deverá
ser coordenado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
A referida determinação é considerada um
reconhecimento formal de que essas terras pertencem aos povos indígenas, e isso
dá segurança e proteção jurídica aos territórios, preservação dos
modos de vida tradicionais, valorização das culturas ancestrais e o direito à
autodeterminação.
Ademais, é importante ressaltar que o
reconhecimento fortalece a luta histórica dos povos indígenas e
representa um considerável avanço na promoção de políticas públicas voltadas às
comunidades tradicionais.
Destaca-se a relevância da demarcação de terras dos povos indígenas e do acesso legal a esses territórios, visto que é a principal maneira, segundo a Funai, de assegurar direitos básicos, como saúde, segurança, educação e cidadania aos povos indígenas. É também um modo de manutenção das culturas dos povos e de proteção ao meio ambiente. Sem esses direitos respeitados e sujeitos a invasões territoriais, os povos indígenas ficam em situação de vulnerabilidade e expostos à violência.
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