domingo, 31 de agosto de 2025

A democracia pede passagem: o cidadão como protagonista no palco das políticas públicas, por Vital do Rêgo*

Correio Braziliense

Em meio à crise de confiança nas instituições, o fortalecimento da participação cidadã se torna essencial para a democracia brasileira. O TCU tem se mostrado grande aliado nesse processo de reconexão entre o Estado e a sociedade

Nascida sob os ventos da redemocratização, a Constituição Federal de 1988 — a nossa Constituição Cidadã — não apenas restabeleceu direitos e garantias fundamentais, como também colocou o cidadão no centro da vida política nacional. Mais do que destinatário das políticas públicas, o brasileiro passou a ser reconhecido como agente ativo, com o direito e o dever de participar, opinar, fiscalizar e transformar.

Quase quatro décadas depois, vivemos um período delicado, no Brasil e no mundo, em que a credibilidade das instituições públicas vem sofrendo um processo de erosão, marcado por desconfiança, desinformação, polarização e consequente afastamento entre governantes e governados.

Nesse cenário, o Tribunal de Contas da União (TCU) adotou a participação cidadã como diretriz prioritária de sua atuação, com o objetivo de transformar o cidadão brasileiro em parceiro ativo das fiscalizações, desde a definição das auditorias até o acompanhamento das políticas públicas. Essa iniciativa teve inspiração nas ações do Tribunal de Contas da França, que apontou a necessidade de "curar a indiferença democrática" e reconectar a população com as instituições.

Para isso, definimos um marco teórico e prático com a publicação do Referencial de Participação Cidadã 2025, um guia com princípios, diretrizes e boas práticas para envolver a sociedade, que foi elaborado a partir de consulta pública, com sugestões da sociedade civil, e ainda foi enriquecido com boas práticas internacionais com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Percebemos que era urgente chamar o brasileiro para uma parceria efetiva. Assim, por meio do Portal de Participação Cidadã, garantimos, de forma inédita, voz ativa à sociedade para escolher temas de auditorias. Somente na primeira semana, o portal teve mais de 10 mil acessos, o que refletiu o anseio genuíno do cidadão pela oportunidade de nos dizer onde o calo aperta — os problemas que afetam diretamente sua vida e que precisam ser enfrentados pelo Tribunal. Obras de saúde paralisadas, imóveis públicos ociosos, filas do INSS para perícia médica, mudanças climáticas e rodovias federais em mau estado. Essas foram as dificuldades mais votadas pelos cidadãos e cidadãs participantes da pesquisa, e serão objeto de fiscalização do TCU ainda em 2025.

Criamos, em parceria com o Observatório Social do Brasil, a Força-Tarefa Cidadã, por meio da qual estamos transformando os cidadãos em auditores sociais de temas relevantes para o país. Neste momento, o foco está na retomada de obras paralisadas de creches e escolas. O TCU, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e cerca de mil cidadãos inscritos voluntariamente estão acompanhando, lado a lado, a situação de mais de 3.700 obras de creches e escolas paralisadas. A auditora cidadã e o auditor cidadão nos ajudarão a fiscalizar e a cobrar a conclusão dessas obras, que garantirão mais de 700 mil vagas a crianças e jovens na educação básica e profissionalizante.

O TCU também ouviu a população sobre a qualidade e a segurança das cerca de 6 mil pontes em rodovias federais de todo o país, sobre aspectos, como iluminação, sinalização, largura das vias, rachaduras, entre outros. As informações coletadas auxiliaram na realização de auditoria sobre a gestão de manutenção da malha rodoviária federal.

Queremos caminhar com o cidadão. Para tanto, promovemos os Diálogos Públicos a fim de aproximar o Tribunal das gestões municipais e demais órgãos de controle. O objetivo é fomentar a troca de experiências e a busca por soluções para os desafios enfrentados na administração pública local, a qual deve estar orientada ao bem-estar do cidadão. Nessa mesma linha, também está em andamento o projeto-piloto do TCU itinerante, iniciativa que abre canal a outro tipo de diálogo construtivo, com a finalidade de escutar o cidadão e conhecer a realidade na ponta, de modo a alcançar soluções customizadas para cada localidade.

Essas iniciativas não representam apenas boas práticas administrativas, mas demonstram, sobretudo, plena sintonia com a nossa Constituição e representam instrumentos de aprofundamento democrático, permitindo que o cidadão participe ativamente da engrenagem que movimenta o país.

A democracia se fortalece no gesto cotidiano de cada cidadão que exerce, com consciência, seus direitos e responsabilidades. Quando priorizamos o envolvimento da população, abrimos caminho para reconstruir a confiança nas instituições. É nesse diálogo que as pessoas se sentem ouvidas, suas propostas valorizadas e seus direitos respeitados, renovando, a cada dia, o vínculo vivo entre o Estado e a sociedade.

Os frutos e os resultados da participação cidadã começam a ser colhidos. A democracia pede passagem e o lugar do cidadão é na linha de frente. O Tribunal de Contas da União é um verdadeiro parceiro nessa conquista.

*Vital do Rêgo — presidente do Tribunal de Contas da União (TCU)

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