O Globo
Em mais de cinco décadas, cronista comentou
eleições, escândalos e guerras sem perder a piada
No Brasil, o fundo do poço é apenas uma
etapa. O poder em Brasília é apenas uma forma hierarquizada de solidão. Todo
brasileiro é igual perante a lei, contanto que não seja pé de chinelo, porque
aí é culpado mesmo. As frases são de Luis Fernando Verissimo, mestre de dizer
tudo com poucas palavras. Em mais de cinco décadas na imprensa, ele escreveu
sobre eleições, privatizações, guerras e escândalos variados. Sem nunca perder
a piada.
O cronista debutou em 1969, tempo de arbítrio e repressão. “Um dia escrevi sobre teoria da evolução do Darwin. A crônica foi censurada. Até hoje não sei se o censor era um criacionista anti-Darwin ou se apenas visse na teoria que somos descendentes de macacos uma alusão a gorilas, logo militares”, ironizou, tempos depois.
Quando a ditadura agonizava nas mãos do
general Figueiredo, Verissimo criou uma de suas personagens inesquecíveis: a
Velhinha de Taubaté, que acreditava em todos os governos desde Getulio Vargas.
Em 1987, o cronista decretou pela primeira vez a morte da senhora. Depois de
confiar cegamente no Plano Cruzado, ela havia pedido a fé no bigode do Sarney.
Dois anos depois, o país recuperou o direito
de eleger um presidente e escolheu Collor. “Muitos acham que foi um erro
instaurar a República, especialmente depois dos resultados de quarta-feira”,
comentou Verissimo, dias depois de o caçador de marajás vencer o primeiro
turno.
No governo FH, o cronista continuou a usar o
humor como arma de protesto. Contestou a aliança com a direita, a rendição ao
neoliberalismo e o abandono das ideias que ele defendia como sociólogo. “O
Collor sempre foi meio assustador, o Éfe Agá é um homem civilizado e simpático
com o qual você gostaria de conversar sobre tudo que houve depois que ele
deixasse a Presidência, de preferência na semana que vem”, escreveu.
Nesse tempo, Verissimo foi uma voz constante
em defesa do MST, demonizado pelas elites nativas. “Os sem-terra cometeram
vários crimes que justificam sua execução sumária. O primeiro foi o de
existir”, escreveu, depois do massacre de Eldorado. “Alguns não só existiam
como se manifestavam. Outros foram ainda mais longe: se transformaram em
vítimas. Morreram, num claro desafio à ordem estabelecida. Em muitos casos, de
tocaia, só para aparecer mais”, arrematou.
Na campanha de 2002, o cronista ironizou as
reações exaltadas à notícia de que o candidato do PT havia tomado um vinho
francês. “Quem o Lula pensa que é, tomando Romanée-Conti? Gente! O que é isso?
Onde é que estamos? Romanée-Conti não é pro teu bico não, ó retirante. Vê se te
enxerga, ó pau-de-arara. O teu negócio é cachaça”, escreveu.
Muitos leitores não entenderam o deboche, e
choveram cartas indignadas ao GLOBO. “Quando o leitor não entende o que o
jornalista escreveu, a culpa é sempre do jornalista. Peço desculpa”, respondeu
Verissimo. Em outra crônica, ele defendeu que os gramáticos criassem o ponto de
ironia para evitar mal-entendidos.
Em 2005, no auge do escândalo do mensalão, o
cronista publicaria um novo obituário da Velhinha de Taubaté. “Ela morreu na
frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia”, escreveu.
Quando Bolsonaro subiu a rampa, Verissimo se espantou com os sinais de volta ao passado. “São tantos os militares no governo que tem gente perguntando quem está cuidando dos quartéis”, anotou, no segundo mês de governo. O autor das “Comédias da Vida Pública” fazia falta desde que sofreu um AVC e parou de escrever, em 2021. Agora fará mais ainda.
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