O Estado de S. Paulo
Não é do interesse do Brasil introduzir novos ingredientes políticos na negociação com EUA
A abertura de análise sobre retaliação contra
as tarifas americanas não ajudará o Brasil a superar a crise com os EUA. Todo
país tem direito à reciprocidade. Mas a experiência mostra que esse caminho não
leva aos objetivos almejados.
No dia 1.º de fevereiro, o governo Trump impôs tarifa de 10% sobre todos os produtos chineses. A resposta da China veio três dias depois, com 15% de tarifas sobre carvão, gás natural liquefeito, óleo e máquinas agrícolas dos EUA.
Em 3 de março, Trump aplicou mais 10%. A
China reagiu com tarifas de 10% a 15% sobre produtos agrícolas. Em 2 de abril,
o “Dia da Libertação”, Trump elevou as tarifas em mais 34%, resultando em 54%,
para todos os produtos chineses. Em resposta, a China impôs tarifas
retaliatórias de 84% sobre produtos americanos em 9 de abril. Trump reagiu no
mesmo dia, ampliando a alíquota para 125%. Não contente, no dia seguinte,
anunciou tarifa de 145%.
REPETIÇÃO. A dinâmica foi parecida com o
Canadá, embora em menor escala. No dia 4 de março, Trump impôs tarifas de 25%
sobre a maioria das importações canadenses e de 10% sobre produtos de energia,
explicando que era para reduzir o déficit comercial e frear o tráfico de
fentanil – praticamente inexistente naquela fronteira.
O Canadá retaliou imediatamente, com 25% de
tarifas sobre US$ 22 bilhões em produtos dos EUA, e uma segunda fase de mais
US$ 91 bilhões a vigorar dentro de 21 dias. Além disso, Doug Ford, premiê de
Ontário, província mais populosa do Canadá, elevou em 25% a tarifa sobre as
exportações de eletricidade para os EUA. Trump ameaçou dobrar suas tarifas
sobre aço e alumínio canadenses, de 25 %para 50 %.Ford recuou.
Trump concedeu isenções para produtos
incluídos no acordo de livre-comércio USMC, que representam 38% das exportações
canadenses – num movimento similar à lista de isenções à tarifa de 50% sobre o
Brasil, que beneficiou 44% das exportações brasileiras.
Em 31 de julho, Trump elevou novamente a
tarifa sobre produtos não cobertos pelo
USMCA, de 25% para 35%.
Canadá e China até hoje não concluíram acordo
com os EUA. Reino Unido, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Indonésia,
Vietnã e Filipinas não retaliaram, e concluíram. Há um ingrediente político nas
sanções americanas contra o Brasil, ausente em relação a outros países. Isso
eleva a dificuldade das negociações. Mas não é do interesse brasileiro
introduzir outros ingredientes políticos. Ao contrário. O Brasil deveria acenar
com reduções de suas barreiras comerciais. •
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