domingo, 31 de agosto de 2025

A particularidade das tarifas ao Brasil, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Não é do interesse do Brasil introduzir novos ingredientes políticos na negociação com EUA

A abertura de análise sobre retaliação contra as tarifas americanas não ajudará o Brasil a superar a crise com os EUA. Todo país tem direito à reciprocidade. Mas a experiência mostra que esse caminho não leva aos objetivos almejados.

No dia 1.º de fevereiro, o governo Trump impôs tarifa de 10% sobre todos os produtos chineses. A resposta da China veio três dias depois, com 15% de tarifas sobre carvão, gás natural liquefeito, óleo e máquinas agrícolas dos EUA.

Em 3 de março, Trump aplicou mais 10%. A China reagiu com tarifas de 10% a 15% sobre produtos agrícolas. Em 2 de abril, o “Dia da Libertação”, Trump elevou as tarifas em mais 34%, resultando em 54%, para todos os produtos chineses. Em resposta, a China impôs tarifas retaliatórias de 84% sobre produtos americanos em 9 de abril. Trump reagiu no mesmo dia, ampliando a alíquota para 125%. Não contente, no dia seguinte, anunciou tarifa de 145%.

REPETIÇÃO. A dinâmica foi parecida com o Canadá, embora em menor escala. No dia 4 de março, Trump impôs tarifas de 25% sobre a maioria das importações canadenses e de 10% sobre produtos de energia, explicando que era para reduzir o déficit comercial e frear o tráfico de fentanil – praticamente inexistente naquela fronteira.

O Canadá retaliou imediatamente, com 25% de tarifas sobre US$ 22 bilhões em produtos dos EUA, e uma segunda fase de mais US$ 91 bilhões a vigorar dentro de 21 dias. Além disso, Doug Ford, premiê de Ontário, província mais populosa do Canadá, elevou em 25% a tarifa sobre as exportações de eletricidade para os EUA. Trump ameaçou dobrar suas tarifas sobre aço e alumínio canadenses, de 25 %para 50 %.Ford recuou.

Trump concedeu isenções para produtos incluídos no acordo de livre-comércio USMC, que representam 38% das exportações canadenses – num movimento similar à lista de isenções à tarifa de 50% sobre o Brasil, que beneficiou 44% das exportações brasileiras.

Em 31 de julho, Trump elevou novamente a tarifa sobre produtos não cobertos pelo

USMCA, de 25% para 35%.

Canadá e China até hoje não concluíram acordo com os EUA. Reino Unido, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Vietnã e Filipinas não retaliaram, e concluíram. Há um ingrediente político nas sanções americanas contra o Brasil, ausente em relação a outros países. Isso eleva a dificuldade das negociações. Mas não é do interesse brasileiro introduzir outros ingredientes políticos. Ao contrário. O Brasil deveria acenar com reduções de suas barreiras comerciais. •

 

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