Folha de S. Paulo
O desvario trumpista é momento para uma
rearticulação de mercados e de objetivos
Num arroubo cândido, Lula se disse inclinado a ser "mais esquerdista". Antes, um rumor desse tinha bastado para que o temor ganhasse vozes públicas. Tudo ao vento, tão flutuante é o sentido de esquerda. Leve e solta, a palavra é como liberdade sem o vetor da pretensa libertação. "Liberdade de expressão" passa por direito de uso de miséria moral contra a dignidade alheia, senão de cogitação golpista para o assassinato de autoridades. Já esquerda, como flutuação de ânimo, é ingresso no imaginário da política
Ponto real a se considerar é a era de caos e
bifurcação que o sistema-mundo atravessa há décadas por oscilações estruturais.
A existência da economia-mundo capitalista perdura há meio milênio, desde o
núcleo euro-americano, como único sistema histórico do planeta. Seu motor
básico é a acumulação incessante de capital, que permeia todas as instituições
por meio de dispositivos universalistas, como a geocultura dominada pelo
liberalismo centrista. Para o historiador Immanuel Wallerstein, esse sistema
mostrou-se capaz de favorecer uma taxa de expansão sem precedentes em termos de
tecnologia e de riqueza, "mas ao custo de uma polarização cada vez maior
do sistema-mundo, entre uma faixa superior de 20% e uma inferior de 80%
—polarização ao mesmo tempo econômica, política, social e cultural" (em
"L´Universalisme Européen").
A polarização econômica, porém, é muito maior
em países como o Brasil, com abissal desigualdade entre ricos e pobres. Capital
financeiro e neoliberalismo são indiferentes a formas produtivas e includentes.
Qualquer verdadeira inclinação à esquerda implicaria reformas política,
judiciária e tributária, ou seja, uma mudança estrutural suscetível de reduzir
a polarização. Neoliberalismo é outro nome para o aumento de peso da geocultura
centrista nas orientações político-econômicas, com força de cooptação das
"inclinações" esquerdistas. Quando Lula diz que "o Estado
Democrático de Direito para nós é coisa sagrada", frente ao direito
sagrado da loucura de não ver o mal à frente, age como estadista de referência
mundial. Mas os mandatos de centro-esquerda no eixo do poder brasileiro têm
sido alheios a mudanças. Foi-se a linguagem emancipatória.
Daí o espaço conquistado pela centro-direita
rentista e pela ultradireita,
horda de rapina à espreita das sobras do caos, em modo golpista permanente. O
sistema de poder equilibra-se no centro, ao qual interessa, em princípio, a
democracia, ou suas aparências. Mas, nos porões parlamentares, o fisiologismo
abole fronteiras ideológicas. Algo identificável como "esquerda"
seria propriamente fazer política restaurativa do vazio de palavras com
sentido, o vazio do caos. Uma política de consolidação democrática, com pejo de
blindagem em malversações de fundos. Mais, vontade de poder para um projeto
nacional articulado a tecnologia e conhecimento competitivos, secundado por
educação de ponta. E de imediato uma frente de combate ao ecossistema criminoso
no país.
O desvario
trumpista é momento para uma rearticulação de mercados e de
objetivos. O Executivo e o Judiciário têm contido até agora a agressão
imperial. Numa desejável frente ampla, porém, vale rever o anacrônico léxico
político, discurso é chave do contato popular. O "nós contra eles",
mote funcional em 2006, pode despertar militância e recuperar bases com Lula à
frente nas pesquisas, sem apontar, entretanto, para qualquer reordenação de
rumos. É dose de ódio calibrada na medida das redes. Mas soa também a bravata,
sopro de gogó ao vento.
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