quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Cora Rónai – Ninguém sonha com exílio

O Globo

Descobri recentemente Hakim. E fiquei contente por os três volumes já estarem publicados; teria sido aflitivo esperar o desenrolar da história

Não gosto do termo graphic novel. Ele define, em tese, histórias em quadrinhos com pretensões literárias, mas essa definição não funciona, a começar pela expressão “pretensões literárias”. Graphic novels não têm “pretensões literárias”. Elas são uma outra forma de arte, em que o desenho tem peso tão ou mais importante do que as palavras. Elas não precisam ser o que não são para brilhar no mundo.

Infelizmente não posso jogar fora o termo porque ainda não existe outro para definir graphic novels, que são histórias em quadrinhos que vão além das HQs clássicas como as conhecemos das bancas e dos jornais — seja em tamanho, seja em profundidade filosófica; histórias em quadrinhos com um ou dois pés no romance, na História, na ficção científica ou na autobiografia; histórias em quadrinhos, pois, com... pretensões literárias?

(Entra aqui aquele emoji de olhinhos virados para cima, que desistiu de buscar lógica no mundo. Estão vendo como a arte visual é importante para a comunicação?)

Graphic novels vivem no seu cantinho particular no fundo das livrarias, para onde convergem as crianças e os aficionados. O resto dos leitores passa batido, “ah, são só quadrinhos”. Ainda não foram fisgados.

É compreensível. Enquanto outras formas de contar histórias existem há séculos, as graphic novels são relativamente recentes, e ainda precisam de apresentação. Não parecem coisa para adultos.

(Toda vez que indico uma, aliás, acabo escrevendo um texto como esse, para desarmar o espírito de leitores que ficam desapontados com a recomendação. Não fiquem: deem uma chance ao gênero.)

O Oriente Médio e seus personagens são quase um subgênero no mundo das graphic novels: “Persépolis”, de Marjane Satrapi, “O árabe do futuro”, de Riad Sattouf, “Crônicas de Jerusalém”, de Guy Delisle, “Habibi“, de Craig Thompson... A lista é enorme.

Descobri recentemente “A odisseia de Hakim”, de Fabien Toulmé, cujo terceiro (e último) volume chegou às livrarias brasileiras em março deste ano, com tradução de Fernando Scheibe para a editora Nemo. Fiquei contente em ter feito essa descoberta quando os três volumes já estavam publicados; teria sido muito aflitivo aguardar o desenrolar da história.

No começo do primeiro volume, Hakim trabalha com o pai no negócio da família, um viveiro de plantas em Damasco. Aos 25 anos já conseguiu comprar carro e dar entrada num belo apartamento. Apesar dos incontáveis problemas que enfrenta no cotidiano de um regime repressivo e corrupto, adora sua terra e não imagina outra vida — até que é envolvido pela violência e pela guerra.

De um dia para o outro tudo desmorona à sua volta e ele se vê obrigado a fugir. Pula de cidade em cidade e de país em país, mas ninguém quer saber de imigrantes sírios. Não há emprego em lugar nenhum.

Anos se passam até que consiga chegar à França, onde Fabien Toulmé o conhece. Os três livros da odisseia são o resultado de um conjunto de longas entrevistas.

Hakim não é apenas Hakim; Hakim é o homem comum vítima do caos, o jardineiro que perde as suas raízes. Hakim é sírio mas poderia ser haitiano, rohingya, líbio, etíope, afegão, venezuelano.

Hakim é qualquer um de nós.

 

 

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