sábado, 29 de novembro de 2025

Girando em falso, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A insistência em viver a disputa eleitoral como um choque entre polos enraivecidos dificulta que forças de mediação entrem em campo

Numa bela passagem de Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco estampou um pensamento que permanece instigante mesmo depois de ter atravessado tempos e gerações. Escreveu: “Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como o movimento da Terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na política são poucos os que têm consciência do primeiro, no entanto esse é, talvez, o único que não é uma pura agitação”.

A frase famosa pode nos ajudar a refletir sobre o Brasil.

Fazemos parte da política que se movimenta, mas não supomos estar parados. Imaginamos estar na vanguarda dela, conduzindo-a. Na verdade, mais colidimos do que interagimos com ela. Os mais dinâmicos e espertos fazem da política uma via de ascensão. Nossa política é movimento permanente, desatento ao que importa.

Falta algo. Poder material temos de sobra: uma grande população, território invejável, economia agrária potente, riquezas minerais, florestas e água. Também somos ricos em criatividade cultural. Bons políticos são raros, mas existem. Porém, abraçados à atual classe política, majoritariamente tosca e provinciana, terminam por agir com critérios equívocos. O poder político é ruim.

Ocorre que não temos uma ideia do rumo a seguir. A política se move, excita paixões e interesses, mas no fundo é mais agitação do que aquele lento trabalho de perfurar as tábuas duras da História de que falou certa vez Max Weber. A frase de Nabuco talvez sugira que nos faltam paciência, senso de responsabilidade e comedimento, que somos feitos de uma matéria que nos inquieta o tempo todo. Não paramos para pensar, calcular o próximo passo. Vamos ao sabor de ritmos que não controlamos.

Somos adictos do segundo movimento mencionado por Nabuco. O que significaria? Antes de tudo, que estamos sempre dispostos a agir. Mas “partir de nós mesmos” pode significar “pura agitação”, ou seja, não ser ação produtiva. Falar bastante. Fazer barulho e estardalhaço, mas pouco realizar. Prometer mundos e fundos, mas nada entregar para o futuro. Criticar o tempo todo, desafiar amigos e adversários, mas ser incapaz de formar blocos sociais que sustentem avanços para frente.

O Brasil não está em regressão. Está em marcha lenta. Somos uma democracia. Imperfeita, mas resiliente. Há conquistas na saúde e na educação, temos uma rede de proteção social, uma adequada matriz energética, a indústria e o agronegócio prosperam. Nossas telecomunicações movem e coligam o País.

Mas há buracos que não se fecham. O problema fiscal não é equacionado, sugerindo gargalos mais à frente. O saneamento básico não chega a boa parte da população. A transição energética caminha devagar. A violência e a insegurança assustam. As desigualdades sociais são brutais. Mesmo onde os serviços funcionam (SUS, ensino fundamental), há necessidade de mais investimentos e cuidados.

Os Poderes de Estado não se entendem. Vivem às turras. A política não mobiliza, é repetitiva e carece de brilho. São sempre os mesmos a disputar votos. As propagandas copiam as anteriores. Os candidatos vertem indignação e ousadia, anunciam sem convencer. Um manto de desalento recobre a sociedade, como se fosse um signo agourento de estagnação.

Estamos a poucos dias de 2026, um ano eleitoral. Políticos, partidos e intelectuais deveriam estar atiçados para forjar o novo, aquela pedra que possibilitaria a estabilização de um novo salto para frente. Mas não. O silêncio prevalece, entremeado por negociações eleitorais que não cuidam do fundamental. Novos nomes surgem no horizonte, mas tendem a ser engolidos pelos polos dominantes. Desidratam. A agitação política cresce, aguardam-se sofregamente as urnas, a população meio indiferente.

A insistência em viver a disputa eleitoral como um choque entre polos enraivecidos dificulta que forças de mediação entrem em campo. Anestesia-as. Embota a criatividade e trava o surgimento de ideias novas. Iniciativas renovadoras evaporam antes mesmo de decolar.

Nossa democracia sofre com a pobreza de lideranças e a inoperância da sociedade civil. Ações participativas e lutas sociais existem, mas não chegam aonde deveriam chegar, não têm potência para mudar o jogo. O País pouco se ressente da presença delas, como se tivesse optado por girar em falso em vez de engatar uma marcha e acelerar.

O Brasil é uma sociedade potente, graças a seus atributos geográficos e socioculturais. Tem unidade territorial e poucos problemas de fronteiras, ao menos enquanto o crime organizado se contém. Possuímos muitas vantagens comparativas, e não estamos sabendo utilizá-las.

Já imaginaram os leitores até onde chegaríamos se cá houvesse um bloco social progressista, liberal e democrático enraizado na população e distante dos polos tóxicos que travam a sociedade?

Tal bloco não cairá do céu nem surgirá por motu proprio. Terá de ser composto peça por peça, tarefa que somente lideranças democráticas desprovidas de partis pris paralisantes poderão empreender. •

 

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