quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Maria Hermínia Tavares: Do nada para coisa alguma

Folha de S. Paulo

Ele deu de ir a Moscou sem plano nem propósito, numa hora crispada no Leste Europeu

Diferentes chefes de governo têm se envolvido com menos ou mais apetite na política externa de suas nações. Embora a responsabilidade final sempre caiba ao primeiro mandatário, a formulação de objetivos, bem como a sua efetivação, depende do capital político do chanceler de turno e da elite do corpo diplomático profissional.

Fala-se em diplomacia presidencial quando é marcante o papel do titular do Executivo na condução dos assuntos estrangeiros, respaldando a imagem nacional que se queira projetar, assim como as prioridades do país em suas relações com o mundo. Basta lembrar a força simbólica da ida do pragmático Richard Nixon à China, em 1971, inaugurando o degelo das relações dos Estados Unidos com o império do revolucionário Mao Tse-tung e mudando o mundo.

Na nossa história recente, Fernando Henrique e Lula desempenharam com maestria o papel de presidentes diplomatas, personificando —cada qual a seu modo— o Brasil democrático em busca de mais protagonismo internacional.

No primeiro caso, o intelectual que vencera a hiperinflação bancava a disposição do país de abrir sua economia e aproveitar as oportunidades criadas pela globalização. No segundo caso, o líder sindical transformado em dirigente político de um grande partido social-democrata exibia a face de um Brasil empenhado em combater a pobreza e as desigualdades de poder no sistema internacional.

Provados na oposição ao autoritarismo, um e outro estavam credenciados a afiançar o compromisso do país com as instituições livres, o respeito aos direitos humanos, o multilateralismo, o acatamento das regras internacionais e a ênfase em soluções pacíficas para os conflitos.

Em benefício de uma política externa com metas e meios definidos, acumularam vasta milhagem para se fazer presentes em foros mundiais ou cultivar os interesses bilaterais. Começaram sempre pela vizinha Argentina, pilar da presença brasileira na região. Ambos foram ainda à Rússia, parceira comercial de certa monta e, como o Brasil, membro fundador da coalizão dos Brics.

Já agora, instigador do isolamento internacional do país, sem a mais remota ideia do que hoje move a grande agenda planetária, muito menos do que seria uma política externa à altura dos imperativos nacionais, Bolsonaro deu de ir a Moscou sem plano nem propósito, numa hora especialmente crispada no Leste Europeu.

Na melhor das hipóteses, seu beija-mão a Putin renderá ao Brasil benefícios semelhantes aos da incursão a Nova York de seu secretário da Cultura, Mario Frias —para encontrar dois produtores da Broadway e um astro do jiu-jitsu.

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

O que é uma jornalista imparcial,deu a devida relevância ao FHC e Lula,ponto para a articulista.