quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

William Waack: O mundo de sempre

O Estado de S. Paulo

A crise na Ucrânia abrange questões fundamentais para o futuro das relações internacionais

O que Vladimir Putin está fazendo com a Ucrânia equivale a um choque elétrico em quem pensa e acompanha relações internacionais. Cobri para o Estadão a queda do Muro de Berlim, em 1989, e confesso que também fui contagiado pelo sentimento geral de que ali nascia um “mundo melhor”.

Era entendido como um mundo no qual não mais se tolerariam mudanças de fronteiras pelo emprego da força bruta, e no qual os Estados teriam soberania para fazer escolhas. A esse “mundo melhor” o fotógrafo Hélio Campos Mello e eu assistimos na linha de frente quando ampla coligação internacional, apoiada inclusive por Moscou e comandada pelos americanos, expulsou em 1991 do Kuwait o exército invasor do ditador iraquiano Saddam Hussein.

Seria o tal “fim da História”, ou a predominância de um sistema internacional que coroava a ordem liberal liderada pelos Estados Unidos desde 1945. No fundo, nossas vidas de repórteres empolgados com a ação, as violentas emoções e nossas experiências de combate em primeira mão acabaram tornando difícil entender qual mundo ali na verdade continuava.

De Tucídides (Guerra do Peloponeso, 411 a.c.) a Hans Morgenthau (Politics Among Nations ”, 1949), o pai da moderna disciplina das relações internacionais é o mundo descrito pelas relações de poder e emprego de força entre as potências. Para adeptos da escola do hiper-realismo, como Henry Kissinger, não existe outra coisa entre países senão o desejo por segurança e, em consequência, a luta pelo poder.

Nesse sentido, importam pouco sistema econômico, crenças religiosas ou filosofias políticas e ideológicas de cada potência – mas, sim, seu “interesse nacional”, subordinado, em primeiro lugar, à segurança. Note-se que é exatamente esse conceito, o da “segurança indivisível”, que os russos estão colocando em primeiro plano nas negociações em torno da crise da Ucrânia.

Não é à toa que se “desenterrou” artigo de Kissinger de 2014 no qual ele já antecipava que a solução da crise da Ucrânia é a submissão (gostem os ucranianos ou não) desse país a um estado de “neutralidade” imposto pela Rússia. E foi tão lido o artigo da semana passada do historiador Noah Harari, segundo o qual a crise da Ucrânia levanta como questão central saber se as relações internacionais evoluem para evitar (e não viver de) guerras.

É uma pergunta crucial cuja resposta vai sair da maneira como China (e Rússia) vão moldar a ordem internacional na qual os Estados Unidos não mandam mais sozinhos. A História humana é a da mudança para melhor (Harari) ou a da inevitabilidade da tragédia (Kissinger)? Até aqui, os fatos estão dando razão a Kissinger.

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu creio numa terra melhorada,o expurgo já começou - Os mansos herdarão a terra,só reencarnará no planeta os espíritos comprometidos com a moderação e o equilíbrio.