Folha de S. Paulo
Ele deu de ir a Moscou sem plano nem
propósito, numa hora crispada no Leste Europeu
Diferentes chefes de governo têm se
envolvido com menos ou mais apetite na política externa de suas nações. Embora
a responsabilidade final sempre caiba ao primeiro mandatário, a formulação de
objetivos, bem como a sua efetivação, depende do capital político do chanceler
de turno e da elite do corpo diplomático profissional.
Fala-se em diplomacia presidencial quando é
marcante o papel do titular do Executivo na condução dos assuntos estrangeiros,
respaldando a imagem nacional que se queira projetar, assim como as prioridades
do país em suas relações com o mundo. Basta lembrar a força simbólica da ida do
pragmático Richard Nixon à China, em 1971, inaugurando o degelo das relações
dos Estados Unidos com o império do revolucionário Mao Tse-tung e mudando o
mundo.
Na nossa história recente, Fernando Henrique e Lula desempenharam com maestria o papel de presidentes diplomatas, personificando —cada qual a seu modo— o Brasil democrático em busca de mais protagonismo internacional.
No primeiro caso, o intelectual que vencera a hiperinflação bancava a
disposição do país de abrir sua economia e aproveitar as oportunidades criadas
pela globalização. No segundo caso, o líder sindical transformado em dirigente
político de um grande partido social-democrata exibia a face de um Brasil
empenhado em combater a pobreza e as desigualdades de poder no sistema
internacional.
Provados na oposição ao autoritarismo, um e outro estavam credenciados a afiançar o compromisso do país com as instituições livres, o respeito aos direitos humanos, o multilateralismo, o acatamento das regras internacionais e a ênfase em soluções pacíficas para os conflitos.
Em benefício de uma política externa com metas e meios definidos, acumularam
vasta milhagem para se fazer presentes em foros mundiais ou cultivar os
interesses bilaterais. Começaram sempre pela vizinha Argentina, pilar da
presença brasileira na região. Ambos foram ainda à Rússia, parceira comercial
de certa monta e, como o Brasil, membro fundador da coalizão dos Brics.
Já agora, instigador do isolamento
internacional do país, sem a mais remota ideia do que hoje move a grande agenda
planetária, muito menos do que seria uma política externa à altura dos
imperativos nacionais, Bolsonaro deu de ir a Moscou sem plano nem propósito,
numa hora especialmente crispada no Leste Europeu.
Na melhor das hipóteses, seu beija-mão a Putin renderá ao Brasil benefícios semelhantes aos da incursão a Nova York de seu secretário da Cultura, Mario Frias —para encontrar dois produtores da Broadway e um astro do jiu-jitsu.
Um comentário:
O que é uma jornalista imparcial,deu a devida relevância ao FHC e Lula,ponto para a articulista.
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