quinta-feira, 23 de julho de 2020

A metamorfose – Editorial | Folha de S. Paulo

Resta saber se a paz relativa no Planalto é aquela que antecede a tempestade

Perto de completar seu 19º mês de mandato, a Presidência Jair Bolsonaro parece ter derivado para um estágio de acomodação relativamente diverso do qual iniciou a jornada, após os terremotos políticos que a aventura provocou.

A aprovação na Câmara dos Deputados da emenda constitucional que estende e amplia o Fundeb —que custeia a instrução de crianças e adolescentes no país— consolida a imagem de um governo pouco preocupado com questões estruturais da política pública.

A entrada tardia e estabanada na discussão do Ministério da Economia, e não da ausente pasta da Educação, deu-se pela urgência de cavoucar recursos para o que o governo entende agora ser sua tábua de salvação: a extensão, a título de alguma ampliação do Bolsa Família, do chamado auxílio emergencial.

Quem com frequência tachava de eleitoreiros, perdulários e “socialistas” os programas de transferência de renda desenvolvidos durante os últimos 20 anos lança-se agora, com volúpia incomum, a tentar elevar seu volume e alcance.

Nem mesmo o teto dos gastos federais, mecanismo outrora louvado pela equipe econômica, parece capaz de deter a sanha dos neoconvertidos ao assistencialismo estatal. O espírito do limite de despesas teria sido subvertido caso prevalecesse a proposta da Economia de financiar os cheques aos mais pobres com verba da educação.

A nova configuração da administração federal afastou das posições de comando um pedaço da franja de lunáticos que promoveu arruaças e confusões nos últimos meses. Esse movimento, entretanto, só ganhará mais completude se os quadros exóticos nos ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente forem substituídos.

Os militares, embora mais presentes do que nunca no governo federal desde a redemocratização, parecem imbuídos de evitar que servidores da ativa permaneçam no primeiro escalão.

Após Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) passar à reserva, falta resolver a questão, incômoda para as Forças, do general Eduardo Pazuello na Saúde.

Parlamentares do centrão, a massa amorfa de partidos sempre propensos a participar de governos, são premiados com cargos e verbas. A perspectiva de nomeação próxima de dois ministros para o Supremo Tribunal Federal adocica ânimos em parte do meio jurídico.

O Jair Bolsonaro que ergue a caixa de cloroquina perante meia dúzia de fanáticos restringiu-se a esse papel patético, mas menos danoso do que quando, além disso, também afrontava os outros Poderes.

Prevalece uma paz relativa no Planalto Central. Resta saber se é apenas mais uma calmaria que antecede a próxima tempestade.

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