sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Hoje sabemos que Platão e Aristóteles foram a culminação, não o início, do pensamento filosófico grego, cujo vôo se iniciou quando a Grécia atingiu ou estava prestes a atingir o seu clímax. O que permanece verdadeiro, porém é que Platão e Aristóteles vieram a ser o início da tradição filosófica ocidental e que esse início, diferentemente do início do pensamento filosófico grego, ocorreu quando a vida política grega já se aproximava realmente do seu fim. Talvez não exista em toa a tradição do pensamento filosófico, e em particular do pensamento político, um fator de importância e influência tão avassaladora sobre tudo o que viria depois do que o fato de Platão e Aristóteles terem escrito no século IV a.C. o pleno impacto de uma sociedade política decadente.

Surgia assim o problema de como o homem, se tem de viver numa polis, pode viver fora da política. Esse problema, que por vezes apresenta uma estranha semelhança com a nossa própria época, muito rapidamente se converteu na questão de como é possível viver sem pertencer a nenhuma comunidade politicamente organizada, vale dizer, em condições de apolitismo ou o que diríamos em condições de não-cidadania. Ainda mais sério foi o abismo que imediatamente se abriu, e desde então nunca mais se fechou, entre pensamento e ação. Todo pensamento que não seja o mero cálculo dos meios necessários para se obter um fim pretendido ou desejado, mas se ocupe do significado no sentido mais geral, veio a desempenhar o papel de um ”pós-pensamento”, isto é, um pensamento posterior à ação que decidiu e determinou a realidade. A ação, por sua vez, foi relegada à esfera sem significado do aleatório e do fortuito. “

*Hannah Arendt (1906-1975). ‘A promessa da política’, pp.45-6, Difel, Rio de Janeiro, 2008

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula quer fazer diplomacia com dinheiro do BNDES

Por O Globo

Era incensada por ele foi período de escândalos de corrupção e calotes cobertos com recursos do contribuinte

Na visita que fez a Moçambique no final de novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou “estar trabalhando” para que o BNDES volte a financiar a “internacionalização” de empresas brasileiras. Na prática, Lula deseja a volta dos anos em que empreiteiras brasileiras, estimuladas pelo governo, lançaram-se a executar projetos em Cuba, Moçambique ou Angola, com financiamento do BNDES. Várias dessas operações, realizadas em seus dois primeiros mandatos e na gestão Dilma Rousseff, resultaram em calotes, bancados pelo Tesouro — ou seja, pelo contribuinte.

A era incensada por Lula foi também um período de escândalos de corrupção envolvendo essas empreiteiras, desmascarados pela Operação Lava-Jato. Denúncias de pagamento de propinas no exterior, em torno de projetos financiados pelo Brasil, causaram crises políticas profundas nos países onde as empreiteiras brasileiras atuavam. No Peru, dois ex-presidentes — Alejandro Toledo e Ollanta Humala — foram condenados por receber propina da Odebrecht. Na gestão Toledo, o alvo da empreiteira era o projeto de construção de trechos da rodovia Interoceânica Sul. Com Humala, Odebrecht e OAS eram as fontes do financiamento ilegal de campanhas. Outro presidente peruano, Alan Garcia, foi investigado sob a acusação de receber propinas para favorecer a Odebrecht, mas se matou em 2019, quando sua prisão preventiva foi decretada.

As costuras do PT pela reeleição de Lula. Por César Felício

Valor Econômico

Candidaturas a governador encabeçadas pelo número 13 não devem passar de nove

A divisão da oposição e o foco do bolsonarismo na disputa pelo Senado criaram uma janela de oportunidade para o lulismo avançar na construção de palanques regionais que poderão dar sustentação à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.

Nos últimos meses, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, peregrinou pelo país, tentando tecer esse entramado. Já ficou definido que poucas serão as candidaturas a governador encabeçadas pelo número 13. Não devem passar de nove. São ambições partidárias modestas, dado que em 2022, disputando na oposição, o PT teve cabeça de chapa em 13 Estados. Ou, por outro ângulo, há mais ambição nas alianças.

A revolução urbana na favela. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Heliópolis, que recentemente ganhou um teatro de alto padrão para sua sinfônica, tem se beneficiado de uma sucessão de iniciativas de origem popular

Um mês antes deste Natal, a favela de Heliópolis, em São Paulo, inaugurou o Teatro Baccarelli, com 530 lugares, de acústica de alto padrão. Ali é a casa da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, regida pelo maestro Isaac Karabtchevsky, e do Coral Jovem Heliópolis, regido pelo maestro Otávio Piola.

A orquestra tem se apresentado em diferentes salas de concerto da cidade de São Paulo, do estado e de outros estados. A competência profissional de seus músicos tem atraído a visita de grandes nomes da música interessados em conhecer a experiência.

Sensibilizado por um incêndio, ocorrido em 1996, que destruiu barracos na favela, o maestro Silvio Baccarelli, mineiro, ex-padre, professor de música, morador das proximidades, começou a dar aulas de música para crianças do lugar. A iniciativa expandiu-se e deu nascimento ao Instituto Baccarelli.

Master, ameaça sistêmica à superestrutura financeira e jurídica do país. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao entrar no coração de uma crise bancária ainda em investigação, o STF corre o risco de ser associado não à solução, mas à amplificação do problema

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para suspender a acareação determinada no caso do Banco Master e manteve a audiência entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Esse procedimento é utilizado em investigações policiais e processos judiciais para confrontar pessoas que apresentaram versões diferentes sobre os mesmos fatos.

Aplique-se a lei de Heloísa. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

“Quem for podre que se quebre”, disse deputada ao defender abertura de CPI

Ao reassumir um mandato parlamentar depois de 18 anos, Heloísa Helena defendeu a abertura de uma CPI para investigar as traficâncias do Banco Master. A deputada justificou a ideia com um ditado do sertão: “Quem for podre que se quebre”.

O escândalo do Master não se limita à aventura de Daniel Vorcaro. O banqueiro só fez o que fez porque contava com cúmplices no mercado e na política. Ao que tudo indica, sua teia também chegou ao Judiciário.

A Faria Lima já lavou as mãos. Corretoras que indicaram títulos podres do Master embolsaram o lucro e terceirizaram o prejuízo. Quem investiu mais de R$ 250 mil não poderá apelar ao Fundo Garantidor de Créditos para reaver o que perdeu.

Crise do Supremo invade o Natal. Por Pablo Ortellado

O Globo

O STF parece contar com a gratidão que julga merecer por ter julgado com determinação os golpistas do 8 de Janeiro. Mas isso não lhe garante imunidade contra erros

A semana do 25 de dezembro costumava ser uma semana “morta” no jornalismo. O jornalista que ficava de plantão via esses dias como ônus duplo: privação do convívio com a família, mas também uma espécie de sacrifício profissional, porque em geral nada de relevante acontecia. A regra não se aplica a 2025: cassação de Ramagem e Eduardo Bolsonaro, ação da PF contra fraude no INSS, adiamento da assinatura do acordo UE-Mercosul, tudo isso a uma semana ou menos do Natal.

Mas o assunto mais grave destes últimos dias é a crise do Supremo. O STF tem se envolvido em escândalos sucessivos, num momento em que vive crise de confiança aguda. A condução das investigações e do julgamento das “mobilizações antidemocráticas” colocou a Corte no centro do conflito político brasileiro. A dinâmica da polarização fez com que tenha ganhado apoio e confiança de parte da cidadania e, no mesmo movimento, rejeição e desconfiança da outra parte.

O Estado e a insegurança pública. Por Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

O Estado de S. Paulo

Reação estatal encobre a deficiência do sistema de Segurança Pública e dá a falsa impressão de que o Estado está ativo na impropriamente chamada ‘luta contra o crime’

É inacreditável, chega às raias da irracionalidade, a movimentação que o Estado brasileiro faz em face do crime, em especial aquele que abala a opinião pública. Basta uma retrospectiva para verificar a exatidão desse fato. Crime ocorrido, reação do Legislativo imediata, na forma de leis punitivas mais rigorosas. O Executivo as promulga e o Judiciário as cumpre, por vezes, mesmo que inconstitucionais.

Essa já histórica reação tem por objetivo lançar uma cortina de fumaça sobre o olhar da sociedade. Ela encobre a deficiência do sistema de Segurança Pública e passa a dar a falsa impressão de que o Estado está ativo na impropriamente chamada “luta contra o crime”.

Ensinem os filhos a não atropelar meninas. Por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Na véspera do Natal, morreu Tainara Souza Santos, aos 31 anos, mãe de dois filhos, vítima de feminicídio. Ela sofreu por quase um mês, após ter sido atropelada e arrastada por quase um quilômetro na Marginal do Tietê, ter as duas pernas amputadas e passar por diversas cirurgias.

O nome do assassino é Douglas Alves da Silva. Ele não nega o atropelamento, só diz que não tinha relacionamento com a vítima. O caso é brutal, mas está longe de ser isolado. O Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que o crime foi tipificado em 2015. É uma média de quatro mulheres assassinadas todos os dias. É uma epidemia.

Lula poderia acender uma vela para o dólar fraco e para o Banco Central. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Inflação da comida caiu muito ao longo do ano, o que deu uma força ao prestígio do governo

Moeda fraca dos EUA, arrocho de juros, queda do preço mundial da comida e China ajudaram

inflação da comida chegou 8,8% ao ano em dezembro de 2024. Ficou entre 7% e 8% de outubro do ano passado a maio deste 2025. Terminou o ano em menos de 2%, na medida do IPCA-15. Deve ficar pouco acima de 1%, na medida do IPCA, que sai em janeiro.

Quem sabe no Natal o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha feito um agradecimento pela baixa mundial do dólar e do preço da comida e ao Banco Central, que contribuíram para conter o preço dos alimentos e a inflação em geral.

No primeiro semestre a popularidade de Lula raspava no fundo do tacho e a oposição dava tapas e rasteiras no governo. A campanha da direita com mentiras sobre o pix e impostos sangrara o prestígio presidencial em janeiro. A carestia fazia uma outra parte do estrago.

Lula deixa direita no chinelo, mas erros vão ser cobrados. Por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Correios, escândalo do INSS e contas públicas são problemas do governo que estarão presentes na eleição de 2026

Presidente tem acertos e vai bem em pesquisas, mas se não sinalizar correções poderá ser ameaçado até por candidatura biruta

Embora as pesquisas de intenção de voto mostrem que Lula vai deixando, em todos os sentidos, a direita no chinelo, o governo, com méritos a reconhecer, está longe de ser uma maravilha —como mencionei na coluna passada ao comentar problemas do chamado mercado e da oposição no cenário para 2026.

Mesmo entre progressistas, alguns equívocos de Lula 3 chamam a atenção. São conhecidas, por exemplo, as reações ao descaso do presidente em relação à diversidade, com a escassa indicação de negros e mulheres para funções de maior destaque. Ambientalistas também têm seus motivos para críticas, caso da polêmica exploração de petróleo na Foz do Amazonas, para ficar no mais clamoroso.

Lula critica, mas cede ao Congresso. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente condena volume de emendas, mas aceita o aumento do valor em troca de folga fiscal no Orçamento

Se há motivo de revolta contra atos do Legislativo, há também razão para desconfiar da boa-fé dos ataques do Executivo

Mobilizações populares são bem-vindas, úteis e diria mesmo indispensáveis quando é o caso defender a legalidade, preservar ou reivindicar direitos ou protestar contra abusos do poder público em quaisquer instâncias da República.

Mas há sempre o risco de a massa se prestar a manobras de cunho político/eleitoral. Convém, portanto, aos frequentadores desses eventos cívicos avaliar se os legítimos pleitos estarão ou não a serviço de um grupo específico.

A jornalista e o juiz. Por Alex Solnik

Justiça não aceita “off”

Minha colega de profissão, Malu Gaspar, tem todo o direito de afirmar, sem provas, que nas conversas entre o Juíz Alexandre de Moraes e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, houve menção ao Banco Master. O “off” é permitido nas regras do Jornalismo. Os jornalistas são protegidos pelo “segredo da fonte”.

Para a Justiça, no entanto, as regras são outras. Não há “off”, nem “segredo da fonte”. Se Malu, uma hipótese, disser a um juíz que “uma fonte” lhe passou essa informação, ele vai perguntar, primeiramente: quem foi? Mas não só isso. Para a Justiça não basta dizer que Fulano disse isso. O juíz vai perguntar: que provas o Fulano tem? Há uma gravação? Há uma mensagem de texto?

A Justiça trabalha com provas concretas. Ninguém pode ser condenado porque Fulano disse isso ou aquilo. Se não provar.

O “furo” da Malu não tem valor jurídico. Começa e termina nas páginas do jornal. Vira assunto de conversa, às vezes até brigas, não mais que isso.

De outra parte, tanto Galípolo quanto Moraes têm o direito de processar a jornalista por calúnia. E ela terá de mostrar as provas ou, se não as tiver, desmentir seu “furo” para se livrar da condenação."

Malu Gaspar, o Grupo Globo e a Folha: jogo jogado. Por Cláudio Guedes

A ofensiva deste "lacerdismo tardio" procura criar um clima de inquietação no país, além dos momentos de alta tensão após o julgamento e a condenação dos golpistas, e a tentativa de anulação do processo no Congresso Nacional.

Buscam uma Lava-Jato 2. O objetivo é quebrar o STF, logo após o tribunal se afirmar como guardião da Constituição e da Democracia. 

Em seguida, criar um novo quadro, de país à deriva, para as eleições do ano que vem.

Nada de novo, no ataque às instituições, na pauta a reciclada e velha bandeira de combate à "corrupção". Reúne quase os mesmos operadores do passado. 

Poesia | Manuel Bandeira - Vou me embora pra Pasárgada

 

Música | Velho ateu, por Roberto Riberti