Folha de S. Paulo
Para o Brasil, fica claro que não será aceito
o papel de mediador em questões locais prioritárias para Trump, prejudicando
sua liderança regional
Não existe mais em Washington qualquer visão
sobre democracia liberal; é a política do poder em sua pura expressão
Muda-se tudo na política sul-americana a
partir dos fatos ocorridos neste sábado (3). Mas, mais do que isso, muda-se
mais ainda no xadrez da política internacional.
Donald
Trump, com a invasão à Venezuela e
o sequestro de Nicolás
Maduro e Cilia
Flores, ambos
ilegais sob quaisquer legislações que se escolha, e independentemente
do quão urgente fosse o fim do regime autoritário venezuelano, já tem uma
guerra —e uma vitória— para chamar de sua.
Haverá questionamentos jurídicos e, certamente, influenciarão as midterms,
eleições de meio de mandato que definirão, neste ano, se
Trump se consolidará como um autocrata eleitoral ou se a sociedade e
as instituições estadunidenses trabalharão para frear sua ascensão totalitária.
Um sacrifício de um peão para um avanço agressivo.
Mas, para Trump, será uma vitória da narrativa de "winner", que tanto
permeia a paranoia política do presidente e que, após um ano de mandato, ele
não havia conseguido lograr: não ganhou o Nobel; não acabou com a guerra
na Ucrânia; as taxações geraram mais dores de cabeça do que ganhos
políticos expressivos bilaterais; e o genocídio vai muito bem em Gaza,
obrigado. Trump precisava manter a sua narrativa de ganhador para seu ethos
totalitário ter eco, e a derrubada de Maduro, ainda que à revelia das leis
internacionais e dos próprios EUA, foi simplesmente o caminho mais fácil para
isso.
Legalistas se incendiarão nos debates jurídicos e políticos dos Estados
Unidos, mas esses já eram amplamente críticos ao presidente. Haverá um
impacto imediato eleitoral em uma parcela relevante da população —exatamente os
imigrantes que, fugindo da ditadura venezuelana, se asilaram nos EUA, e que o
discurso trumpista espantava com as políticas migratórias. E há uma parcela
significativa desses migrantes que, exaustos de anos de exílio, verão com bons
olhos a tirada à força de Maduro. Existem também os ganhos internacionais —e
esses, na visão da "grande América" que permeia o totalitarismo do
século 21, serão muitos.
Primeiro, está consolidada a mudança
de perfil político dos EUA. Não existe mais em Washington ou em seu
posicionamento internacional qualquer visão sobre democracia liberal. É a
política do poder em sua pura expressão, a realpolitik.
Em segundo lugar, pelo silêncio respeitoso do longo aliado Vladimir
Putin e pela forma como os EUA rifaram sem qualquer piedade um aliado
histórico como a Ucrânia para dar ao russo a sua vitória (um acordo tácito
entre os dois "macho-leaders" foi acertado no Alasca). Cada um fica
em sua região. Lembram da Doutrina Monroe? A América para os americanos...
Para a América
Latina, é mais desastroso do que a política do "big stick"
("grande porrete"), que previa falar manso e agir com firmeza.
Significa um domínio sem precedentes sobre as lideranças políticas opositoras a
Trump. Uma coisa é governos indesejados serem (também ilegalmente) derrubados e
democracias funcionais, como a chilena e a brasileira, propositalmente
terminadas, como houve nos anos 1960. Outra bem diferente é um precedente de um
desafeto político, chefe de Estado incumbente, ter seu país invadido e ser
sequestrado para ser julgado nos EUA. Isso muda qualquer cálculo político.
Para o Brasil, fica demarcada a posição que
não será aceito qualquer papel de mediador em questões locais que sejam
prioritárias para Trump, o que prejudica a capacidade de liderança regional
brasileira. E mata qualquer possibilidade de diálogo democrático.
Em terceiro lugar, abre espaço para o que já parece ser o desenho da grande
estratégia de Trump: redistribuir o mundo com Putin e com Xi Jinping.
E não apostaria nada que a recompensa chinesa será bem, digamos, Taiwan...
Não sei sobre vocês, mas estou botando minhas barbas brancas de molho. Dividir para governar é tática antiga na política, e nossas preocupações agora precisam ser em outro nível. A cooperação internacional entre democracias é mais premente do que nunca, o que reforça a importância de acordos como o do Mercosul com a União Europeia —dois locais onde, ao menos até agora, a democracia ainda insiste em resistir ao xeque. Há peças que podem ajudar a manter o jogo democrático —que sigamos com essa meta neste ano.

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