terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regras para criar novos municípios precisam ser rígidas

Por O Globo

Nada há de errado em distritos se emanciparem, mas eles não podem se tornar sorvedouros de recursos

É compreensível que certas localidades se queixem de ficar esquecidas pelas prefeituras responsáveis por elas, apesar de contribuírem com impostos e recursos. Essa insatisfação tem sido traduzida em centenas de movimentos de emancipação em diferentes regiões do país. Pelo menos 462 distritos em 17 estados reivindicam o direito de se tornar independentes, como mostrou reportagem do GLOBO. É preciso cautela, porém, para que tais aspirações não criem uma nova leva de emancipações, dando origem a cidades que mal conseguem se sustentar. O Brasil já viveu uma onda de criação de municípios, e o resultado deixa sequelas até hoje nas contas públicas.

Candidatos sem visão. Por Merval Pereira

O Globo

Esquerda e direita se debatem em incoerências porque não conseguem ver de forma holística a geopolítica mundial

Da mesma maneira que a esquerda brasileira se acha na obrigação de defender um banqueiro como Daniel Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias, apenas porque ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são apontados como seus protetores, também a direita aplaude o presidente americano Donald Trump pela invasão da Venezuela e pelo sequestro de Nicolás Maduro porque o ex-ditador é de esquerda. Esquerda e direita se debatem em incoerências porque não conseguem ter uma visão holística da situação geopolítica do mundo, enquanto Estados Unidos, China e Rússia vão armando um acordo tripartite para dividi-lo a seu gosto.

Futuro incerto da Venezuela. Por Fernando Gabeira

O Globo

Trump mencionou apenas o petróleo, como se tudo se limitasse à troca de comando nessa importante indústria

A História me deu uma rasteira no sábado. Três dias gripado, sonhava com um mergulho matinal. Maduro foi capturado pelos americanos. O dever profissional me chamava. Não foi surpresa total para mim. Contava com uma ação espetacular. Não imaginava que fosse tão fácil.

O modelo que tinha na cabeça foi a captura de Bin Laden no Paquistão. Ele vivia numa casa, mas não sabia que havia sido descoberto. Maduro esperava algo a qualquer momento. Não dormia no mesmo lugar. Estava cercado de guardas cubanos e controlava a estrutura de segurança do Estado. Tudo foi para o espaço.

Interesse de Trump vai além do petróleo. Por Míriam Leitão

O Globo

Estados Unidos é autossuficiente em petróleo, com a agressão à Venezuela manda recados para China, Irã, Rússia e Cuba

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela não se explica só pelo petróleo. A cotação do produto caiu fortemente nos últimos anos e os Estados Unidos tornaram-se autossuficientes. Não há falta de suprimento. O produto está sobrando no mundo. Donald Trump quis mostrar, e mostrou, seu poder ao mesmo tempo à China, maior cliente do petróleo venezuelano, à Rússia, grande fornecedora de armas para a Venezuela, ao Irã, fornecedor de armas e drones, e a Cuba, que fazia a segurança de Nicolás Maduro. Dos mortos na operação de sequestro e prisão do presidente venezuelano, 32 eram agentes cubanos.

Ao sequestrar Maduro, Trump manda um recado ao mundo. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Trump vê a Venezuela como cabeça de ponte da China, da Rússia e do Irã para controlar a América Latina. E não esconde o interesse nas reservas petrolíferas e de terras raras venezuelanas

A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, seguida de sua apresentação algemado em um tribunal de Nova York, não é apenas um ato de força na crise venezuelana. O presidente Donald Trump sinaliza que considera o Hemisfério Ocidental sua área de influência direta e o continente americano um ativo econômico e de segurança dos Estados Unidos. A operação — executada sem autorização do Congresso e justificada como ação contra o narcotráfico — foi celebrada publicamente por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, como prova de que Washington está disposto a “sustentar palavras com ação militar”.

Se a China invadir Taiwan. Por Pedro Doria

O Globo

Chineses assumiriam o controle do negócio da IA no mundo

Se a China invadir Taiwan, terá nas mãos o controle quase absoluto da produção internacional de microprocessadores de ponta. Chips de computador. O cérebro digital por trás da inteligência artificial. A Nvidia, empresa americana que se alterna com Apple e Microsoft no posto de companhia mais valiosa do mundo, estaria de joelhos. Ela desenha os chips usados por OpenAI, Anthropic e outras. Mas são empresas de Taiwan que manufaturam esses chips. Para passar do projeto ao objeto, é preciso aquilo que apenas Taiwan tem. Mesmo o Google, que cria os próprios chips, depende da manufatura da ilha. A China assumiria o controle do negócio da IA no mundo. E não só da IA. Tudo depende de microchips. Carros modernos não abrem sequer a porta sem microchips. Geladeiras, micro-ondas. A geopolítica mundial seria redesenhada por completo. Mas por que a China invadiria Taiwan?

A Venezuela e o problema com a doutrina Donroe. Por Gideon Rachman

Valor Econômico / Financial Times

A satisfação evidente do presidente americano com o sucesso inicial da operação na Venezuela sugere que ele poderá passar a cultivar um gosto por intervenções no “quintal” dos EUA, definido de forma cada vez mais abrangente

“A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos em muito, muito mesmo. Eles agora a chamam de ‘Doutrina Donroe’”. Assim disse Donald Trump algumas horas depois que forças americanas depuseram Nicolás Maduro do poder na Venezuela.

A operação venezuelana é uma demonstração dramática da determinação do governo Trump de estabelecer a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Essa ideia está no centro da estratégia de segurança nacional anunciada no mês passado. A satisfação evidente do presidente americano com o sucesso inicial da operação na Venezuela sugere que ele poderá passar a cultivar um gosto por intervenções no “quintal” dos EUA, definido de forma cada vez mais abrangente.

Instable Coin, ou o fim da soberania monetária. Por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

Valor Econômico

Será que o sonho de Friedrich Hayek, que preconizava o fim da moeda fiduciária de curso legal, será realizado pelos criptoativos?

Donald Trump lançou um projeto para aumentar a demanda por criptomoedas. O Genius Act de Trump é um incentivo ao setor privado a emitir stablecoins, como instrumento de garantir o dólar como moeda de reserva internacional. Manter a soberania do dólar e enfraquecer as demais moedas.

O correto é chamar de criptoativos, e não de criptomoedas. Não têm aceitação geral; não são unidades de conta em nenhum balanço no mundo. São ativos financeiros, uns lastreados em algoritmos e outros em outras moedas, de preferência o dólar americano.

Os dados são imprecisos, mas estima-se que hoje existam entre 9.000 e 20 mil criptoativos diferentes. Esse número cresce a cada dia. Essa ansiedade diária de criação crescente e constante, a possibilidade de vingarem no mercado e se transmutarem realmente em moeda. Nessa feira cibernética de algoritmos e tokens tem de tudo, desde stablecoins até memes.

Pisando em ovos. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Como Delcy Rodríguez, Brasil condena ataque à Venezuela, mas não explode pontes com Trump

Apesar da situação totalmente diferente, Brasil e Venezuela têm uma prioridade ao reagir ao ataque de Donald Trump e à deposição e à prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores: manter a altivez e defender firmemente a soberania da região e de seus países, mas não explodir pontes com os EUA, maior potência política, econômica e bélica e, com Trump, escancaradamente imperialista e ameaçadora.

O chavismo ianque. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Quase como ato primeiro da administração coercitiva-remota que pretendem para a Venezuela, Donald Trump e Marco Rubio apressaram-se em desqualificar – descartar mesmo – as lideranças representativas da oposição na Venezuela. A memória da eleição presidencial ilegítima de 2024, que dá concretude à fragilidade da soberania venezuelana e compôs os fundamentos para a ação militar americana, torna-se agora – extirpado Nicolás Maduro – complexo deletério para “os interesses nacionais dos EUA”.

A entronização de Maria Corina Machado e turma daria muito trabalho. E a intervenção foi concebida – talvez sob otimismo excessivo – para efeito pontual, prático e imediato. Maduro não negociava. Não era confiável. Não aceitava a presença-influência de Washington. Removido esse empecilho, haveria – sem traumas estruturais – com quem conversar e pactuar entre graduados de seu governo. Essas tratativas serão – terão sido – mais fluentes sob o compromisso de não repatriamento de Edmundo Gonzales, etc.

É cedo para comemorar a queda de Maduro e muita coisa ainda pode dar errado para a Venezuela. Por Nicholas Kristof

The New York Times / O Estado de S. Paulo

O Afeganistão e o Iraque deveriam ter nos ensinado um pouco de prudência

Após ação militar na Venezuela, Trump diz que uma nova operação, contra Colômbia, 'soa bem'

Na minha última visita à Venezuela, em 2019, vi crianças morrendo de fome por causa da cleptocracia comandada por Nicolás Maduro.

Na favela pobre e violenta de La Dolorita, em Caracas, conheci Alaska, uma menina de 5 anos extremamente magra. Sua mãe me contou que Alaska, pesando apenas 12 quilos e à beira da morte por desnutrição, foi recusada em quatro hospitais ​​por falta de vagas.

Outra mãe chorava ao dizer que sua filha de 8 meses, Daisha, morreu depois de três hospitais terem recusado seu atendimento.

Em nome de Trump, direita outra vez se precipita. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Antes de comemorar, oposição brasileira deveria esperar para ver o que vai dar a intervenção na Venezuela

Governadores erraram no tarifaço e podem ter errado de novo ao não se dobrarem à prudência e à legalidade

Ainda é cedo para saber como as coisas vão se desenrolar na Venezuela, e por isso mesmo é possível afirmar que a direita brasileira se precipitou no entusiasmo pela captura de Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump.

Esse pessoal já havia levado na cabeça ao festejar o tarifaço, mas não aprendeu uma lição básica do episódio: interferências estrangeiras fora da diplomacia, da Justiça e/ou da negociação política são condenáveis e geram consequências imprevisíveis, não raro péssimas para seus autores.

Transição transada na Venezuela e as motivações de Donald Trump. Por Aldo Fornazieri

Folha de S. Paulo

Mudanças no país serão movidas a interesses de Trump por petróleo, minérios e energia, além de disputa com a China

Ação deve ser feita em conjunto com o atual governo, agora comandado pela líder interina Delcy Rodríguez

ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Maduro e sua esposa, violando a soberania e o Direito Internacional, são acontecimentos que ainda estão sendo decantados e que envolvem vários graus de incerteza. Mas as entrevistas de Donald Trump e de seu staff de secretários no último dia 3 de janeiro apresentam indicações importantes. A mais relevante é aquela que sustenta que haverá uma transição na Venezuela. Nem Trump nem seus conselheiros mencionaram a palavra democracia. Será uma transição movida a interesses: petróleo, minérios, energia e disputa com a China.

Maduro não vale uma missa, mas sistema de regras sem força bruta vale. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Regime chavista que instalou ditadura na Venezuela e arruinou a economia do país não deixará saudades

Intervenção militar ordenada por Trump viola leis internacionais e americanas e torna mundo menos seguro

Nicolás Maduro não vale uma missa, mas o sistema internacional baseado em regras, não só na força bruta, vale.

O regime chavista é indefensável. O leitor pode escolher quando o "socialismo do século 21", que surgiu como mais um daqueles populismos que assolam a América Latina, se converteu em autocracia. Não faltam marcos potenciais. Pode ter sido ainda sob Hugo Chávez, em 2004, quando o caudilho interveio no Tribunal Supremo de Justiça, na prática anulando o Judiciário como Poder independente, ou em 2009, quando ele convocou o plebiscito que eliminou os limites à reeleição.

Venezuela sob Trump: continua o chavismo, mas sem o petróleo? Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Presidente dos EUA não falou em democracia ou liberdade para venezuelanos

Cuba é a bola vez da projeto intervencionista, que pode atingir Colômbia e Brasil

"Nossas grandes petrolíferas vão entrar e fazer dinheiro." A sinceridade de Donald Trump é escandalosa. Sinceridade que se confunde com arrogância e desconexão. No show midiático, é difícil distinguir uma das outras.

Logo após a invasão da Venezuela e a abdução de Maduro, planejadas por meses e provavelmente com ajuda interna, o perfil da Casa Branca publicou no Instagram uma imagem de Trump com a sigla FAFO, que significa "fuck around and find out" (em tradução livre, "quem mexe com a gente se ferra").

Os EUA não estão 'libertando' nada na Venezuela (exceto seu petróleo). Por Glenn Greenwald

Folha de S. Paulo

É por isso que Trump não tem interesse em empoderar os líderes da oposição e prefere a vice de Maduro no poder

Já Obama gostava de fingir que ações eram para levar liberdade aos povos, mas basta olhar Líbia e Síria para ver que não

Nos últimos 50 anos, os Estados Unidos travaram mais guerras do que qualquer outro país, de longe. Para vender tantas guerras à sua própria população e ao mundo, é preciso mobilizar uma potente propaganda de guerra — e os EUA, sem dúvida, a possuem.

Grande parte da mídia americana e ocidental está agora convencida de que os recentes bombardeios e a operação de mudança de regime visam "libertar" o povo venezuelano de um ditador repressivo. Que a libertação é o motivo americano —seja na Venezuela ou em qualquer outro lugar— é risível.

Chavismo sem Maduro compõe com Trump, mas dúvidas persistem. Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Se entregaram ditador é incerto, embora provável, mas militares foram em frente com o plano do americano

Resta saber se as divisões internas podem descambar para guerra civil, já que volta da democracia por ora é só propaganda

Com o assentamento da poeira levantada pelos helicópteros americanos e as explosões que sacudiram a Venezuela no sábado (3), um cenário um pouco mais claro se desenha no panorama político do país após o ataque que capturou Nicolás Maduro.

As dúvidas, porém, persistem, e dizem respeito à nebulosa divisão de poder ora vigente em Caracas. O fantasma de uma guerra civil sempre estará presente, embora a usual analogia com o caso do Iraque em 2003 não pareça 100% aplicável.

O populismo, esse inimigo da Democracia. Por Ivan Alves Filho

Com as dificuldades apresentadas atualmente pela concepção marxista, houve um empobrecimento — e eu diria, até: um abastardamento — da prática política no campo democrático e progressista. No Brasil e em outras partes do mundo. Um dos sintomas disso transparece claramente no crescimento das propostas autoritárias e aventureiras, no vácuo ou no recuo daquelas formuladas antes com base no chamado pensamento crítico. Oportunistas de todo o tipo se unem hoje. O populismo —  esse outro nome do fascismo hoje nas Américas e em outros cantos — é uma prova suplementar disso. O ataque do governo dos Estados Unidos à Venezuela, com o consequente sequestro de Nicolás Maduro por um comando enviado por Donald Trump, aponta, inclusive, para um provável acordo entre o governo norte-americano e o governo venezuelano para entregar o ditador.  

Año de elecciones y reconfiguración del tablero político. Fernando de la Cuadra

El Clarin (Chile)

La disputa electoral para elegir Presidente este 2026 en Brasil, debe mantener el guion que se ha venido dibujando hasta ahora, con Lula da Silva concentrando el apoyo de las fuerzas de izquierda y centro izquierda, por un lado, y Jair Bolsonaro –actualmente preso en la Sede de la Policía Federal en Brasilia- manteniéndose como la principal referencia de la derecha y extrema derecha. En donde la derecha tradicional ha sido fagocitada por los sectores radicalizados del bolsonarismo, lo cual impide la emergencia de una tercera vía competitiva que pueda unir a una derecha democrática con los conglomerados más de centro (algunos partidos del llamado centrão), que optaron por rendirse ante la arremetida ideológica regresiva de la ultraderecha y la corrupción sistémica del sistema partidario, es decir, ante el uso de la máquina del Congreso para obtener beneficios económicos con las enmiendas parlamentarias.

Poesia | Verdade, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Simone & Péricles - Separação