domingo, 4 de janeiro de 2026

Razões mais profundas. Por Merval Pereira

O Globo

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada por Trump para a intervenção militar na Venezuela.

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada hoje pelo presidente Trump para a intervenção militar na Venezuela. Embora o narcoterrorismo seja a base das acusações, a questão econômica foi defendida pelo governo americano como razão fundamental para a ação, desde a alegada compensação pela estatização do petróleo, radicalizada pelo governo Hugo Chávez nos anos 2000, até a necessidade de exploração petrolífera mais eficiente devido à politização da PDVSA, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

O fato de o regime de Maduro ser uma ditadura sanguinária, ou de ter roubado a eleição presidencial para se manter no poder, tudo isso foi posto em lugar secundário por Trump e seus assessores horas depois do sequestro do ditador venezuelano e de sua mulher, que serão julgados em Nova York pelas leis americanas. “Conspiracy”, uma das acusações oficiais, significa mais a nossa definição de “formação de quadrilha” do que propriamente conspiração. Nada justificaria a invasão americana, nem daria direito ao presidente Trump de afirmar que vai administrar a Venezuela até que considere que chegou a hora para uma transição segura.

Mas a explicitação de que o petróleo é a fonte primária para a intervenção demonstra que Trump quer voltar a ter a região da América Latina como “quintal” dos Estados Unidos, e se considera no direito de fazer isso. Com ele, os Estados Unidos voltam ao capitalismo selvagem em que o poder da força militar decide quem vence a guerra. O governo petista do Brasil, sempre que se apresenta uma situação dessas com um dirigente de esquerda, fica em situação difícil. Não poderia aceitar uma invasão territorial na região que teoricamente lidera, mas não teve a mesma postura quando a Rússia invadiu a Ucrânia.

Como o governo Trump também retrocedeu na sua visão de mundo, sem levar em conta questões como a crise climática, nem valores éticos ou morais que alimentam a democracia, o petróleo ganha nova dimensão, como uma das bases fundamentais da política externa: garantia de acesso a recursos vitais para a economia global. Trump continua achando que, a longo prazo, entre esses recursos, nenhum terá papel tão central quanto o petróleo. Controlar as regiões produtoras e as rotas de abastecimento equivaleria a controlar a engrenagem da economia mundial.

Em 1953, no Irã, os Estados Unidos participaram ativamente do golpe que derrubou o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh após a nacionalização do petróleo iraniano. Havia o temor de que um país estratégico escapasse da órbita ocidental e desafiasse os interesses das grandes companhias petrolíferas. Na Guerra do Golfo de 1991, o Iraque invadiu o Kuwait e passou a controlar uma fatia gigantesca das reservas mundiais. Permitir que um único ator hostil controlasse tamanha parcela do petróleo era inaceitável para Washington — e para seus aliados. A importância estratégica de um país com uma das maiores reservas de petróleo do planeta, localizado no coração do Oriente Médio, acabou gerando uma segunda guerra na região em 2003.

Oficialmente, armas de destruição em massa foram a razão para a derrubada de Saddam Hussein, o que nunca foi provado. Na prática, o controle geopolítico de uma das maiores reservas do mundo. O petróleo é um fator estrutural da estratégia global dos EUA, como elemento de segurança energética; instrumento de poder geopolítico; fator de estabilidade do sistema financeiro internacional. Mas quase sempre combinado com disputas de poder; ideologia (anticomunismo, antiterrorismo); alianças regionais; interesses militares e industriais. O presidente Donald Trump está preocupado em garantir para os Estados Unidos os minerais necessários para predominar no mundo. Por isso também se interessa por terras raras de vários países, como a Ucrânia e o Brasil, até porque a China detém a maior parte dessas terras no mundo.

 

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