O Globo
Nunca houve uma relação oficial tão explícita
com o petróleo como a alegada por Trump para a intervenção militar na
Venezuela.
Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada hoje pelo presidente Trump para a intervenção militar na Venezuela. Embora o narcoterrorismo seja a base das acusações, a questão econômica foi defendida pelo governo americano como razão fundamental para a ação, desde a alegada compensação pela estatização do petróleo, radicalizada pelo governo Hugo Chávez nos anos 2000, até a necessidade de exploração petrolífera mais eficiente devido à politização da PDVSA, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.
O fato de o regime de Maduro ser uma ditadura
sanguinária, ou de ter roubado a eleição presidencial para se manter no poder,
tudo isso foi posto em lugar secundário por Trump e seus assessores horas depois
do sequestro do ditador venezuelano e de sua mulher, que serão julgados em Nova
York pelas leis americanas. “Conspiracy”, uma das acusações oficiais, significa
mais a nossa definição de “formação de quadrilha” do que propriamente
conspiração. Nada justificaria a invasão americana, nem daria direito ao
presidente Trump de afirmar que vai administrar a Venezuela até que considere
que chegou a hora para uma transição segura.
Mas a explicitação de que o petróleo é a
fonte primária para a intervenção demonstra que Trump quer voltar a ter a
região da América Latina como “quintal” dos Estados Unidos, e se considera no
direito de fazer isso. Com ele, os Estados Unidos voltam ao capitalismo
selvagem em que o poder da força militar decide quem vence a guerra. O governo
petista do Brasil, sempre que se apresenta uma situação dessas com um dirigente
de esquerda, fica em situação difícil. Não poderia aceitar uma invasão
territorial na região que teoricamente lidera, mas não teve a mesma postura
quando a Rússia invadiu a Ucrânia.
Como o governo Trump também retrocedeu na sua
visão de mundo, sem levar em conta questões como a crise climática, nem valores
éticos ou morais que alimentam a democracia, o petróleo ganha nova dimensão,
como uma das bases fundamentais da política externa: garantia de acesso a
recursos vitais para a economia global. Trump continua achando que, a longo
prazo, entre esses recursos, nenhum terá papel tão central quanto o petróleo.
Controlar as regiões produtoras e as rotas de abastecimento equivaleria a
controlar a engrenagem da economia mundial.
Em 1953, no Irã, os Estados Unidos
participaram ativamente do golpe que derrubou o primeiro-ministro Mohammed
Mossadegh após a nacionalização do petróleo iraniano. Havia o temor de que um
país estratégico escapasse da órbita ocidental e desafiasse os interesses das
grandes companhias petrolíferas. Na Guerra do Golfo de 1991, o Iraque invadiu o
Kuwait e passou a controlar uma fatia gigantesca das reservas mundiais.
Permitir que um único ator hostil controlasse tamanha parcela do petróleo era
inaceitável para Washington — e para seus aliados. A importância estratégica de
um país com uma das maiores reservas de petróleo do planeta, localizado no
coração do Oriente Médio, acabou gerando uma segunda guerra na região em 2003.
Oficialmente, armas de destruição em massa
foram a razão para a derrubada de Saddam Hussein, o que nunca foi provado. Na
prática, o controle geopolítico de uma das maiores reservas do mundo. O
petróleo é um fator estrutural da estratégia global dos EUA, como elemento de
segurança energética; instrumento de poder geopolítico; fator de estabilidade
do sistema financeiro internacional. Mas quase sempre combinado com disputas de
poder; ideologia (anticomunismo, antiterrorismo); alianças regionais; interesses
militares e industriais. O presidente Donald Trump está preocupado em garantir
para os Estados Unidos os minerais necessários para predominar no mundo. Por
isso também se interessa por terras raras de vários países, como a Ucrânia e o
Brasil, até porque a China detém a maior parte dessas terras no mundo.

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