A ausência de memória e de história não é uma
exclusividade brasileira, mas tem em nossa sociedade efeitos colaterais
maléficos às instituições, à democracia, à república e para as gerações mais
jovens. Não deixa de ser um alento o lançamento do documentário Caçador de
Marajás, sobre a ascensão e queda de Fernando Collor de Melo, na Globoplay.
Pode-se ver continuidades e rupturas da tradição política brasileira. Collor
foi o primeiro presidente eleito democraticamente no Brasil depois de outro
fenômeno e similar político, Jânio Quadros (1961).
Naquele mundo marcado pelo fim da Guerra Fria
e com o voraz apetite da política neoliberal, Collor mesclou com sagacidade os
elementos da tradição brasileira – o messianismo de origem católica rural, como
se vê na aliança do jovem então candidato com Frei Damião – com propostas
disruptivas como aquelas que atribuíam ao Estado o centro da crise econômica e
social do Brasil nos anos 1980.
O Estado personalista e patrimonialista (uma
crítica da direita e esquerda) era o catalisador do atraso. A nova ordem
burguesa tinha apetites que primavam o consumidor acima do cidadão, uma
perspectiva crítica à Carta de 1988, portanto, a candidatura Collor seria a
reposta da coragem, da inovação, da ousadia diante de um Estado anacrônico,
corrupto e corruptor; de uma parte da elite covarde e ineficiente(1) e da
classe política que seria cúmplice deste estado de coisas e com lideranças
oposicionistas defensoras do deficitário Estado de Bem-Estar Social.