sábado, 3 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas

“Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países..

Aparentemente, esses novos tipos de regimes autoritários não podem ser atribuídos às circunstâncias particulares de uma transição fracassada das formas de governo pós-soviéticas.

Provavelmente, são mais como precursores do desmantelamento, democraticamente legitimado, da democracia mais antiga da Terra e da rápida construção e expansão de uma forma de governo libertário-capitalista, administrada tecnocraticamente. O que estamos observando nos EUA é a mesma transição de um “sistema” para outro — nem mesmo particularmente gradual, mas sim discreta diante de uma oposição mais ou menos paralisada: a última ou penúltima eleição democrática foi o início, há muito anunciado, de uma rápida expansão arbitrária e autocrática de um poder executivo que foi simultaneamente reduzido e expurgado.

Trump está abusando desse poder sem levar em consideração as objeções de um sistema jurídico que agora se encontra em um vácuo e vem sendo gradualmente esvaziado de cima para baixo. O presidente primeiro usurpou poderes legislativos do Congresso com sua rigorosa política tarifária e está tentando restringir gradualmente a independência da imprensa e do sistema universitário. Em seguida, intimidou a oposição por meio do envio não solicitado da Guarda Nacional para grandes cidades como Los Angeles, Washington e Chicago. A mera presença deles sinaliza a disposição do governo de usar o exército — já subjugado em seus altos escalões — contra seus próprios cidadãos, se necessário.”

*Jürgen Habermas (1929), é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pente-fino nos CACs não precisava ter demorado tanto

Por O Globo

Na posse, Lula assinou decretos revogando armamentismo, mas até agora não conseguiu controlar arsenal

No dia de sua posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto revogando atos do governo Jair Bolsonaro que facilitavam o acesso a armas. Até agora, porém, três anos depois, o governo se revelou incapaz de reduzir o arsenal em poder da população. Cadastrados legalmente como colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) se tornaram uma das principais fontes de suprimento dos arsenais do crime organizado. Depois de uma demora injustificável, a Polícia Federal (PF) se prepara enfim para realizar um pente-fino no cadastro de 1,5 milhão de donos de armas que expiram em 2026. Já não era sem tempo.

Bolsonaro estava escrito nas estrelas? Por Thaís Oyama

O Globo

Consultas recentes mostram que ex-presidente expressa crenças, preocupações e ressentimentos de boa parte dos brasileiros

Em 2011, quase ninguém dava bola para Jair Bolsonaro. Desprezado pelos jornais, o deputado do baixo clero contentava-se em ser entrevistado em programas humorísticos e de auditório, cuja audiência ajudava a levantar com respostas do tipo: não, ele não participaria de uma parada gay, acreditava “em Deus e na preservação da família” e não tinha o hábito de promover “maus costumes”. Eram falas sem grandes consequências porque Bolsonaro não era levado a sério —tratava-se praticamente de um zé-ninguém.

E como um zé-ninguém continuava sendo visto por seus pares em Brasília e por boa parte da imprensa quando, no final de 2016, passou a ser recebido nos aeroportos do país por multidões que o carregavam nos ombros e o chamavam de “mito”. Em 2018, candidato a presidente, foi primeiro ridicularizado; depois, subestimado. Com o crescimento de seu nome, analistas entraram em negação. Era uma piada que logo perderia a graça. Uma bolha das redes. Um Cacareco que atingira seu teto.

Nas miudezas, a vida. Por Flávia Oliveira

O Globo

Luiz Antonio Simas, autodefinido como historiador das miudezas, estuda, escreve, ensina sobre foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, cordelistas, meninos descalços, goleiros frangueiros, romances de subúrbio. O rol está em “Pedrinhas miudinhas – Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros” (Mórula, 2013), que voltei a folhear pensando no meu próprio inventário de virada de ano.

O ano de 2026 promete. Por Eduardo Affonso

O Globo

Caso o código de conduta do STF não vingue, a saída pode ser um Supremíssimo, formado por ex-presidentes da Corte aposentados

O ano de 2025 terminou com o pé esquerdo — vide o cancelamento das sandálias que deformam a defesa da democracia, têm cheiro de irresponsabilidade fiscal e não soltam a mão de ninguém (só dos que ousam pensar de forma diferente). É como se os críticos do politicamente correto aprofundassem o gosto pela problematização e, em vez de enxergar racismo, machismo e homofobia em tudo, passassem a farejar viés ideológico. No lugar de Monteiro Lobato, os banidos em 2026 poderão ser Noel Rosa e Vadico — que, com inequívocas segundas intenções, alertaram, 90 anos atrás: Feche a porta da direita/com muito cuidado.

A divisão do tempo. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O primeiro dia do ano não revela nada além do que vinho e espumante permitem sonhar

Quem dividiu o tempo em parcelas trabalhou com muita inteligência. A cada vencimento de ano, as pessoas renovam esperanças na expectativa de que um novo tempo se inicia. Na verdade, o tempo é contínuo, homens e mulheres caminham irreversivelmente para o fim, coisa difícil de imaginar, perceber e sentir. Melhor não pensar nisso. Ficamos todos mais velhos com o simples andar do relógio. Meia-noite, novo tempo, nova idade e novas expectativas que se baseiam nas realidades anteriores. É melhor ter esperança do que se angustiar com a realidade.

Admiráveis novos terrores. Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Nosso enredo é esse. Lá fora é diferente, e há quem se atreva a dizer que é um pouco pior

A partir de agora, em pleno ano eleitoral, o enredo é conhecido. Se os políticos de centro não forem capazes de encontrar um candidato sério, competente e competitivo, Lula, docemente constrangido, aceitará ser reeleito e quem sabe até pleitear um terceiro e um quarto mandato, como vem se tornando regra na América Latina e até nos Estados Unidos. O quilômetro zero da loucura que estamos vivendo foi lá atrás, em 2002, quando Lula, em vez de celebrar o controle de uma série de superinflações que já duravam 33 anos, qualificou-a como a “herança maldita” de Fernando Henrique Cardoso.

Diretrizes para plano de voo. Por Miguel Reale Junior

O Estado de S. Paulo

Se não for por este caminho, será mais do mesmo em 2026, mas com o dobro do descontentamento manifestado nas ruas em 2013

Dois estudos exigem detida análise para se decifrar o que vem a ser o Brasil dos anos 20 do nosso século: o levantamento sobre valores e crenças dos brasileiros, publicado sob o título Brasil no Espelho (Globo Livros), de Felipe Nunes e O Brasil dos Invisíveis, de Pablo Ortellado e Stephen Hawking, pesquisa da More in Common, com nova perspectiva sobre os segmentos políticos.

Não se trata de espelho a refletir apenas a imagem externa, mas de verdadeira tomografia da alma brasileira. Se por uma ideia se morre, mas por uma crença se vive, conforme Ortega y Gasset, é importante decifrar, com perguntas reveladoras das escolhas valorativas, no que crê a nossa gente.

Sobre a criminalização do BC. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O caso Master não existiria – não como o conhecemos – sem aqueles, os políticos, os eleitos, cujas atividades foram decisivas à prosperidade fraudulenta do banco. Não estamos diante apenas de empreendimento criminoso contra o sistema financeiro. Essa conta não fechará sem corrupções, sem coação – sem gestões de quem controla o poder.

Essa conta avança desviada-distraída, com o Banco Central de repente entre os suspeitos. A desqualificação do BC é estratégia de defesa que se tornou influente. A autoridade monetária não está entre os investigados.

A economia da percepção. Por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A economia sentida (pelo cidadão) pesa mais no voto do que a economia medida pelas estatísticas

Como é usual todo início de ano, tentamos enxergar o que nos espera ao longo dos próximos meses. Uns com visões mais otimistas, outros pintando um quadro com cores mais escuras. Mas, algo é comum – a nossa percepção nem sempre corresponde aos fatos e aos dados, principalmente num mundo digital em que as fake news correm à solta.

Se não seguir rigor técnico, TCU sai desmoralizado no caso Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

O ministro relator Jhonatan de Jesus, do TCU, pode querer matar no peito e dar cautelar suspendendo a liquidação

A decisão de conceder ou não a medida é do relator e pode ser feita em qualquer fase do processo

Relator do processo que apura falhas e omissões no caso Master, o ministro do TCU Jhonatan de Jesus pode até querer matar no peito e dar uma cautelar suspendendo a decisão do Banco Central de liquidar o banco sem a análise da área técnica do tribunal.

Promessas de políticos. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula disse várias vezes ao longo da campanha de 2022 que seria presidente de um só mandato

Obrigar legalmente candidatos a cumprir promessas não funcionaria, mas eleitor deveria punir pelo voto quem abusa de falsidades

Às 8h21 do dia 25 de outubro de 2022, o perfil oficial de Lula no X (@LulaOficial) cravou: "Eu se eleito serei um presidente de um mandato só. Os líderes se fazem trabalhando, no seu compromisso com a população". Essa, me parece, foi a mais "oficial" das promessas de Lula de que não disputaria a reeleição, mas não a única. Em entrevistas e em outros posts, deu várias declarações com esse mesmo teor. Devemos exigir de políticos que cumpram suas promessas?

A história que Valdemar quer enterrar, mas não consegue. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Fuga de condenado na trama golpista complica o líder do PL

Explorado nas redes, relatório sobre urnas apontava vitória de Bolsonaro em 2022

Único foragido entre dez condenados pela trama golpista que se tornaram alvos de mandados de prisão após a escapada estilo trapalhão de Silvinei Vasquez, o engenheiro Carlos César Moretzsohn Rocha deixou o champanhe de Ano Novo de Valdemar Costa Neto sem borbulhas e com gosto de vinagre.

Ao lado da minuta que previa a prisão de Alexandre de Moraes e a realização de novas eleições, o relatório sobre as urnas eletrônicas do Instituto Voto Legal, de Carlos Rocha, é um dos mais importantes documentos da participação civil na intentona bolsonarista —documento que pode condenar Valdemar.

Entrevista | Público, de fato

Por Fabíola Mendonça / CartaCapital

A saída é “desprivatizar” o sistema de saúde, defende a pesquisadora Lígia Bahia

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisadora Lígia Bahia não vê outra alternativa para a saúde pública no Brasil a não ser a “desprivatização” do setor. A estudiosa reconhece os esforços do governo Lula para retomar projetos praticamente destruídos por seus antecessores, como o Programa Nacional de Imunização, mas afirma que os avanços estão muito aquém da necessidade da população. Na entrevista a seguir, Bahia defende o fortalecimento do SUS a partir de financiamento que priorize uma saúde pública mais igualitária, a partir de programas como o ­Agora Tem Especialistas, recém-lançado pelo Ministério da Saúde. “A saúde, necessariamente, tem de ser política de Estado, não de governo. Entretanto, ela tem sido política de diversos governos, com interrupções. Precisamos caminhar para um sistema mais articulado ­público-privado, mais ‘desprivatizado’ e com maior controle de preços, que não estimulem a desigualdade social.” A pesquisadora ainda fala sobre o impacto da tecnologia no setor, da necessidade de quebra de patentes e defende para um eventual quarto governo Lula que o Ministério da Saúde não seja o único provedor.

Entrevista | A lei da bala

Por Mauricio Thuswohl / CartaCapital

Décadas de arbitrariedade policial não reduziram a violência no País, ao contrário, lamenta Julita Lemgruber

Ex-ouvidora da polícia do Rio de Janeiro e ex-diretora-geral do sistema penitenciário, além de integrante do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça, Julita Lemgruber acumula experiência no “campo de batalha” e na academia. Uma das criadoras, 25 anos atrás, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), pioneiro nos estudos e pesquisas do tema, Lemgruber lamenta, a despeito do excepcional trabalho desenvolvido pela entidade ao longo do tempo, não ter muito a comemorar. “Houve um agravamento dos principais indicadores de criminalidade, aumento dos homicídios, da letalidade policial e do encarceramento”, resume nesta entrevista ao repórter Maurício Thuswohl. “Ao invés de investimentos em polícia técnica e inteligente, apostamos na barbárie.”

Poesia | O Mar e o Canavial, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Roberta Sá - Eu sambo mesmo