Valor Econômico
Julgamento e a tarifa de 50% sobre as
exportações brasileiras darão o tom das manifestações neste ano
O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro
pela tentativa de golpe de Estado, com início na próxima semana, terá a festa
da Independência no meio do caminho, e o simbolismo da data, tão caro ao
bolsonarismo, ofuscado pelo cinza chumbo do tarifaço americano. Haja verde e
amarelo para resgatar o azul anil do céu da pátria brasileira.
Os bolsonaristas sairão às ruas no dia 7 de Setembro para protestar em defesa da liberdade, da democracia, e cobrar do Congresso a lei da anistia, que favoreceria Bolsonaro, os demais réus na ação da trama golpista e os presos pelos atos de 8 de janeiro. Da mesma forma, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, partidos de esquerda e movimentos sociais sairão às ruas, na mesma data, para protestar em defesa da democracia, da soberania nacional e contra a anistia.
O duelo nas ruas no Dia da Independência
aguça a memória. A visita ao passado recente nos leva ao 7 de Setembro de 2022,
quando Bolsonaro, do alto de um trio elétrico na Esplanada, após um beijo na
primeira-dama Michelle, puxou o insuperável coro de “imbrochável”.
Recuando algumas casas, chegamos ao 7 de
Setembro de 2021, uma comemoração mais tensa, sem pitadas de humor, em que
Bolsonaro, do alto de um palanque na Avenida Paulista, insultou o ministro
Alexandre de Moraes e ameaçou o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF),
Luiz Fux. “Acabou o tempo dele, sai, Alexandre de Moraes, deixa de ser
canalha”, xingou. Voltando-se à cúpula da Corte, desafiou: “Ou o chefe desse poder
enquadra o seu [Alexandre de Moraes] ou esse poder pode sofrer aquilo que nós
não queremos.”
Quatro anos depois, Bolsonaro, atualmente em
prisão domiciliar e usando tornozeleira eletrônica, e ao lado de mais sete
réus, começará a ser julgado no dia 2 de setembro, pelos crimes de: tentativa
de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano
qualificado pela violência, organização criminosa armada, e grave ameaça e
deterioração de patrimônio tombado.
Autor da acusação, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, sustenta que o grupo liderado por Bolsonaro, e composto
por integrantes do governo, das Forças Armadas e de órgãos de inteligência,
desenvolveu um plano sistemático de ataque às instituições democráticas, com a
finalidade de prejudicar a “alternância legítima de poder nas eleições de 2022
e minar o livre exercício dos demais poderes constitucionais”. Bolsonaro e os
demais réus negam com veemência as acusações.
O julgamento e a tarifa de 50% sobre as
exportações brasileiras imposta por Donald Trump, após articulação do deputado
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), darão o tom das manifestações de 7 de Setembro neste
ano. As atenções de Bolsonaro vão se dividir entre o STF e o que considera um
“julgamento das ruas”, ante a expectativa de adesão maciça aos atos convocadas
pelo Pastor Silas Malafaia, com a palavra de ordem “Reaja, Brasil”, chamando
seus apoiadores para ocuparem as ruas em defesa da anistia e contra o que
classificam de “perseguição política”.
Há dúvida se a busca e apreensão da Polícia
Federal (PF), que teve Malafaia como alvo, no dia 20 de agosto, e o vazamento
de áudios polêmicos de conversas entre ele e Bolsonaro, vão impactar a
capacidade de mobilização do líder religioso. Segundo a PF, Malafaia aparece
nas investigações como “orientador e auxiliar das ações de coação e obstrução”
do processo da trama golpista, promovidas por Eduardo e Jair Bolsonaro".
Em contraponto, ao contrário dos anos
anteriores, as forças de esquerda também se preparam para ocupar as ruas, e
disputar com os bolsonaristas o discurso de defesa da pátria e da democracia. A
expectativa é que as imagens geradas pelos atos provocarão embates nas redes
sociais sobre qual lado levou mais gente às ruas, e darão munição às campanhas.
O PT orientou as direções estaduais,
municipais, as bancadas parlamentares e a militância a saírem às ruas neste 7
de Setembro, junto com os movimentos sociais e centrais sindicais, como as
Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
(MST) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). A palavra de ordem da esquerda
será “Quem manda no Brasil é o povo brasileiro”. Um dos principais ativistas da
esquerda, o deputado Guilherme Boulos (Psol-SP) alertou que a festa da
Independência não pode ser monopólio da “extrema direita”, sobretudo no
tarifaço. “Quem vai para a rua é só quem está atuando para trair o país? É um
contrassenso”, provocou.
Em geral, as manifestações da esquerda não
enchem as ruas. Mas o ato organizado por Boulos e pelos mesmos movimentos no
dia 10 de julho lotou a Avenida Paulista em reação ao tarifaço e com bandeiras
como a taxação dos super ricos e pelo fim da escala 6x1. O cálculo foi de 15,1
mil pessoas naquele ato, segundo o Monitor do Debate Político do Cebrap.
Se este fosse um espaço de ficção, onde
escritores ou autores de novelas criassem diálogos para o “personagem Alexandre
de Moraes”, uma de suas falas seria uma reflexão do jagunço Riobaldo: “Vingar,
digo ao senhor, é lamber, frio, o que o outro cozinhou quente demais”. No mundo
real, contudo, o juiz deverá se guiar pelas leis e pela neutralidade, bússolas
de um Estado Democrático de Direito.
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