Asfixia financeira é melhor método para combater PCC
O Globo
Operação contra a facção mostra que, com
inteligência e cooperação, é possível sufocar crime organizado
Foi exemplar a operação deflagrada nesta quinta-feira por uma força-tarefa incluindo Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo, com o objetivo de asfixiar financeiramente a facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, considerada a maior do tipo já realizada no país, visa a desmantelar redes usadas para lavar dinheiro do crime organizado. A operação mobilizou mais de 1.400 agentes em oito estados e mirou 350 alvos de busca e apreensão, alguns no centro financeiro paulistano, a Avenida Faria Lima.
Os detalhes revelados pelas investigações são
estarrecedores. Não só pelos volumes expressivos envolvidos, mas pela forma
como o crime se infiltrou em instituições dos mais diversos setores da
economia. A rede criminosa usava 1.500 postos de combustíveis e controlava 40
fundos de investimentos com patrimônio de R$ 30 bilhões. Tudo o que os postos
recebiam — R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024 — era destinado ao PCC. Só os
impostos sonegados são estimados em R$ 8,7 bilhões. O dinheiro era lavado e
chegava ao sistema financeiro por meio de fintechs. Apenas uma delas, acusada
de atuar como banco paralelo do PCC, movimentou R$ 46 bilhões entre 2020 e
2024. Uma das investigadas tem ações negociadas na Bolsa de Valores B3.
O elo entre fintechs e crime organizado já
estava na mira das autoridades. Reportagem do GLOBO publicada no mês passado
mostrou que algumas foram suspensas pela Justiça, acusadas de lavagem de
dinheiro para PCC e Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas
do país. Suspeita-se que R$ 28 bilhões do tráfico de drogas e de armas tenham
sido movimentados nos últimos seis anos por meio dessas instituições. A
participação das facções é investigada também no esquema que desviou mais de R$
800 milhões de oito instituições financeiras que integram o sistema Pix.
Os tentáculos da rede criminosa desbaratada
pela força-tarefa são extensos. Segundo as investigações, os fundos de
investimentos controlados pelo esquema compraram um terminal portuário, quatro
usinas de cana-de-açúcar (outras duas estavam em aquisição), 1.600 caminhões
para transporte de combustíveis e mais de cem imóveis. A organização negociava
metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol. Os combustíveis vendidos eram
adulterados.
Facções criminosas atuam em todo o país e no
exterior. As disputas sangrentas pelo controle de rotas do tráfico e pontos de
venda de drogas costumam ter impacto nos índices de violência. Mas há muito
elas deixaram de agir apenas no mercado ilegal, infiltrando-se em atividades da
economia formal. Além de postos de gasolina e fintechs, o PCC mantém
participação em imóveis, agências de automóveis, casas de apostas, igrejas,
negócios ligados ao futebol e empresas de ônibus.
Considerando o poder das facções e o alcance
de suas atividades criminosas, a forma mais eficaz de combatê-las é pela
asfixia financeira. Isso exige longas investigações, envolvendo cooperação e
equipes especializadas, já que os esquemas usam artifícios para dificultar o
rastreamento do dinheiro sujo. Mas não há outro caminho. A despeito de
suspeitas de vazamento e disputas políticas, a operação contra o PCC mostra ser
possível reduzir o poder das organizações criminosas mirando em suas finanças.
Para combatê-las, o método mais eficaz é atacá-las com inteligência onde são
mais vulneráveis.
Pacote da impunidade traz risco à democracia
e deve ser esquecido
O Globo
Motta fez bem em adiar votação. Como
presidente da Câmara, ele tem o dever de engavetar as propostas
Fez bem o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB),
em adiar a votação do pacote da impunidade, conjunto de propostas legislativas
cujo objetivo é tão somente livrar os parlamentares de processos na Justiça.
Elas subvertem dois princípios essenciais da democracia: o Judiciário deve ter
autonomia para julgar, e ninguém deve estar acima da lei. Se aprovadas,
tornariam o Congresso porto seguro para toda sorte de criminosos.
O pacote ressuscita projetos como a PEC da
Blindagem, que exige aprovação do Congresso para abertura de processos contra
parlamentares, ou a PEC do Foro, que tira do Supremo Tribunal Federal (STF) a
prerrogativa de julgar deputados e senadores, além de outras ideias
estapafúrdias. A iniciativa de reuni-las surgiu para encerrar o motim
oposicionista que paralisou o plenário por 30 horas no início do mês.
Motta não participou da negociação que
embalou o pacote da impunidade, mas aceitou colocá-lo em votação afirmando ser
direito do Congresso discutir temas relacionados à independência dos
parlamentares. Ora, a discussão nada tem a ver com a liberdade de exercício do
mandato. Os congressistas já contam com amplas prerrogativas para defender suas
ideias. As medidas em debate têm outra dimensão. Blindam suspeitos ou acusados
de crimes, retiram da Justiça a autonomia para julgar, incentivam a tomada do
Parlamento pelo crime organizado e, ao institucionalizar a impunidade, põem em
risco a democracia.
Tome-se a PEC da Blindagem, cuja votação foi
adiada. Seria um retrocesso de grandes proporções exigir a aprovação do
Congresso para a abertura de processo contra parlamentares por crime comum, na
prática uma garantia de imunidade. Não é difícil imaginar um cenário em que as
facções do crime organizado financiam candidatos para usufruí-la.
Desgraçadamente, o pacote não para nesse
ponto. Aprofunda ainda mais a impunidade. Condenações de parlamentares
exigiriam dois terços de votos favoráveis no Supremo. Prisões preventivas
seguiriam a mesma regra e ainda dependeriam de aprovação da Câmara e do Senado,
revisada a cada 90 dias. Os parlamentares teriam até poder de veto sobre
inquéritos, manietando os organismos de investigação. A proposta que tira do
STF e dá à primeira instância a competência de julgar casos envolvendo
autoridades cria dificuldades para coibir a corrupção e abusos em emendas
parlamentares. Não satisfeitos em se proteger dos tribunais, os defensores do
pacote também querem ficar livres da polícia. Uma das medidas estabelece que a
abertura de investigações também passaria a depender de aprovação do
Parlamento. Nada disso, é óbvio, tem o menor cabimento.
Motta jamais deveria ceder à chantagem da bancada oposicionista e dos parlamentares que articularam o pacote da impunidade. Como presidente da Câmara, ele tem a autonomia e a prerrogativa de decidir a pauta de votação. Deve, portanto, esquecê-lo em definitivo e engavetar todas as propostas para que o Brasil evite uma tragédia.
Mudanças no PL da isenção do IR podem trazer
mais déficits
Valor Econômico
Um Congresso rebelado e uma oposição destrutiva ameaçam rejeitar a taxação dos contribuintes de maior renda
O lance eleitoral que o presidente Lula
guardou para o fim de sua gestão, já pensando na reeleição, corre o risco de
ser um desastre para os cofres públicos. Um Congresso rebelado e uma oposição
destrutiva ameaçam de várias maneiras o projeto de isenção de Imposto de Renda
para quem ganha até R$ 5 mil, para impedir que o Planalto tire os dividendos
políticos esperados. O risco mais grave é de que a taxação dos contribuintes de
maior renda, que compensaria a ampliação da isenção, seja rejeitada. O governo
espera com ela cobrir uma perda de arrecadação estimada em R$ 25 bilhões.
O relator do projeto de lei 1087, deputado
Arthur Lira (PP-AL), foi dúbio a respeito da aprovação integral da taxação de
até 10% dos que têm renda acima de R$ 50 mil e apontou haver objeções
disseminadas a ela. Uma parte do PP sugere substituir a carga sobre as maiores
rendas pelo aumento da taxação das instituições financeiras. O União Brasil
também quer evitar aumento de impostos, enquanto a oposição bolsonarista,
alojada no PL, pretende colocar bombas fiscais nas mãos do Executivo. Uma das
ideias ventiladas é aprovar a isenção e rejeitar a tributação dos dividendos e
a alíquota complementar para os ricos. Ou ainda, agir na outra ponta e estender
a isenção do IR para bem além dos R$ 5 mil. Embora possam machucar o governo,
os prejuízos maiores recairiam sobre as contas públicas e, no final, sobre
todos os contribuintes.
Lula planejou as mudanças no Imposto de
Renda, promessa eleitoral do pleito de 2022, para vigorarem no ano eleitoral de
2026. Os argumentos de aliviar a carga dos mais pobres e aumentar a progressividade
do Imposto de Renda, elevando a carga sobre as faixas de maior renda, são
sedutores e até fazem sentido, mas existem formas menos nocivas e demagógicas
para se atingir os objetivos anunciados.
A isenção atual, até dois salários mínimos,
engloba 70% da população com renda. Cálculos do Fundo Monetário Internacional
apontam que sua extensão à faixa de R$ 5 mil acrescentaria 10 milhões de
pessoas ao total de isentos, que corresponderia a 85% de todos os trabalhadores
do país. Segundo o Fundo, esse percentual supera largamente o dos países da
OCDE. Além disso, os técnicos do Fundo apontam que, ao contrário da intenção, a
mudança “contribuirá para reduzir a progressividade, beneficiando as faixas de
alta e média renda, já que as pessoas de baixa e média renda ganham bem abaixo
do limite”.
Da importância de aumentar a progressividade
da carga do IR não decorre a necessidade de reduzir o peso das faixas de menor
renda. Ao não cobrar o imposto de quem tem rendimentos de até R$ 3.036, mais de
dois terços dos potenciais contribuintes já estão isentos. Ao unir medidas que
poderiam estar separadas, o governo avaliou que, dada a popularidade da
isenção, o Congresso não se negaria a aprová-la. Mas o Planalto tem cada vez
menos segurança de que seus projetos passem na Câmara e no Senado, como a forte
derrota na lei do licenciamento ambiental demonstrou. Os partidos do Centrão
estão cada vez mais relutantes em aumentar impostos.
Existem maneiras justas de aliviar o peso do
IR. A primeira delas seria atualizar a tabela do IR pela inflação todo ano.
Antes de Lula assumir a Presidência, a tabela estava congelada desde 2015, uma
forma fácil, segura e esperta de elevar o imposto de renda de todos os
assalariados. Seria preciso ampliar as faixas para graduar melhor o imposto. Na
declaração do IR de 2025, referente a ganhos em 2024, as alíquotas mudam a cada
R$ 1 mil, mais ou menos, de 5% para 15%, 22,5% e 27,5%. Assim, um cidadão que
tivesse rendimentos alguns reais a mais que R$ 4.665, apenas R$ 2,3 mil acima
da faixa de isenção, foi enquadrado na maior alíquota, 27,5%. Faixas
intermediárias poderiam ser criadas, assim como alíquotas maiores para pessoas
com altos rendimentos.
Concentrar muito a arrecadação do imposto
sobre a renda nas camadas com rendimento maior, as que têm mais meios de eludir
o tributo, não é recomendável. Nos países desenvolvidos, a tendência é de dar
primazia tributária sobre rendas e posses e reduzir a carga sobre o consumo. No
Brasil, caminha-se no sentido contrário. Dispensa-se quem tem capacidade
contributiva do imposto sobre a renda e taxa-se o consumo com a maior alíquota
do mundo, como indica o IVA de 27,5%-28% que deverá vigorar com a reforma
tributária.
Há espaço para aumentar a arrecadação e torná-la mais progressiva, eliminando brechas do IR, por exemplo, que só beneficiam pessoas de renda média para cima, e ampliando os impostos sobre o Simples, problema que o projeto de lei ataca lateralmente ao taxar os dividendos. Sempre haverá oposição a qualquer mudança no status quo dos impostos. Um dos problemas em relação a mudanças planejadas, graduais e racionais é que elas não rendem votos. O governo Lula envolveu um número vistoso, R$ 5 mil, na bandeira da justiça social, como se fosse o único meio de realizá-la. Há boas chances de que a conta final da isenção, depois de passar pelo Congresso, redunde em mais déficit fiscal.
Não é preciso agência para defender infância
nas redes
Folha de S. Paulo
Projeto aprovado no Congresso tem méritos,
mas peca ao prever um novo órgão fiscalizador na burocracia
Direitos fundamentais dependem da atuação de
policiais, promotores e juízes, e não de mais uma repartição ocupada por
indicados de políticos
Não é porque a lei criminaliza o homicídio
que se deve criar uma agência especial para fiscalizar seu cumprimento. O
exemplo serve para ilustrar um equívoco dos legisladores que, nesta
quarta-feira (27), aprovaram
projeto para aumentar a proteção de crianças e adolescentes em
ambiente digital.
O diploma avalizado pelo Senado —que
prossegue para sanção ou veto presidencial— parte de uma motivação nobre,
embora menos calcada em evidências do que na comoção. A integridade de menores
de idade deve ser objeto de atenção e tutela extraordinária de famílias e
comunidades.
O fato de imagens de crianças em situações de
exploração serem encontradas na internet sem
muita dificuldade pode decorrer da falta de legislação para coibir essas
práticas, da deficiência da aplicação das leis existentes ou de uma mistura
desses dois fatores.
O Estatuto da Criança e
do Adolescente, que completou 35 anos, estabelece penas rígidas para quem abusa
e para quem explora ou veicula imagens de exploração sexual de menores. As
cautelas administrativas e civis para preservar a dignidade, a honra e a imagem
dos jovens cidadãos brasileiros também são abrangentes.
Não seria preciso lei nova para enquadrar e
punir autores e propagadores dos vídeos abjetos que circulam no ambiente
online.
A maior virtude do projeto aprovado por
deputados e senadores está na previsão de ferramentas para que os pais controlem
com mais facilidade o que seus filhos acessam nas plataformas e
com quem podem interagir. O texto também estimula a comunicação expedita às
autoridades de alertas de violações.
Outro dispositivo elogiável é o de bloquear
as chamadas caixas de recompensas nos jogos digitais, mecanismos que emulam e
atiçam a febre das apostas num público imaturo para lidar com suas
consequências.
Na questão de como fazer essas ideias
legiferantes saírem do papel repousa o maior defeito do projeto. Ele determina
a criação, por lei posterior, de uma autoridade administrativa fiscalizadora
autônoma para a proteção de direitos infantis no meio digital.
A repartição terá o poder de monitorar, fixar
regulamentos infralegais e aplicar multas —que podem chegar a 10% do
faturamento da empresa ou R$ 50 milhões— sobre organizações que não cumprirem a
nova legislação.
Na melhor das hipóteses, vai-se erguer mais
uma burocracia dispendiosa e ineficiente em Brasília,
quando o correto seria diminuí-las. Na pior, seus agentes indicados pela
política partidária absorverão prerrogativas e exercerão arbitragens que
deveriam ser reservadas exclusivamente ao Poder neutro do Judiciário.
Agências funcionam para regular setores
monopolistas da economia ou
para assegurar a qualidade de produtos sensíveis, como medicamentos. Direitos
fundamentais, como o à vida ou a uma infância digna, precisam ser defendidos
pela atuação eficaz de policiais, promotores e juízes.
Mundo distante da universalização do
saneamento
Folha de S. Paulo
Meta da ONU para acesso global a água e
esgoto pode não ser cumprida; posição do Brasil é vexatória
A cobertura mundial de nível seguro em saneamento foi de 58% em 2024. Aqui, ficou em 55%, enquanto o vizinho Chile alcançou 95%
Em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu
os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, um conjunto de 17 metas globais a
serem cumpridas até 2030. Dentre elas, está garantir a universalização de
serviços básicos de água e saneamento.
Desde lá, houve avanços. A cinco anos do fim
do prazo, contudo, o objetivo provavelmente não será alcançado no tempo
estipulado, deixando bilhões de pessoas com acesso precário a esse direito
humano essencial.
É o que diz o relatório "Progresso no Abastecimento de Água Potável e Saneamento Domiciliar
2000–2024: foco especial em desigualdades", lançado na terça
(26) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e
pela Unicef.
Em relação à água, cinco níveis são
considerados na pesquisa: seguro (água potável no local, livre de contaminação
fecal ou química), básico (acesso a fonte adequada em menos de 30 minutos),
limitado (fonte adequada, mas com espera mais longa), não adequado (poço ou
fonte sem proteção) e, por fim, água superficial (rios, lagoas e canais).
A cobertura de água potável gerida de forma
segura no mundo subiu de 68% para 74% entre 2015 e 2024, mas 2,1 bilhões de
pessoas —1 em cada 4— ainda não têm
acesso a esse nível de serviço, incluindo 696 milhões sem o nível
básico e 106 milhões que usam fontes superficiais não tratadas.
A África é
o continente que enfrenta as piores condições. Lá estão 28 países nos quais 1
em cada 4 pessoas não tem nem sequer acesso ao patamar básico.
Nesse quesito, o Brasil está bem posicionado.
A disponibilidade de água potável gerida de forma segura aqui chegou a 99% em
áreas urbanas e 98% nas rurais.
Já no saneamento, o nível seguro indica
instalações não compartilhadas com outros domicílios e onde os dejetos são
descartados com segurança no local ou removidos e tratados fora dele.
A cobertura mundial desse tipo de serviço
aumentou de 48% para 58%. No Brasil, houve alta de 2015 a 2024 de 47% para 55%,
o que inclui 44% de dejetos direcionados a estações de tratamento de esgoto. No
vizinho Chile,
a gestão segura atende 95% da população, com 89% de tratamento.
Após décadas de controle estatal do setor, o
Brasil pouco conseguiu avançar. Mas o cenário está em mudança. A gestão por
algum tipo de atuação privada cresceu 525% nos últimos seis anos, alcançando
32,7% dos municípios.
Espera-se que, com a expansão de privatizações e de parcerias público-privadas, facilitadas pelo Marco do Saneamento de 2020, o país saia dessa posição vexatória.
O ECA Digital é um bom avanço
O Estado de S. Paulo
Felizmente o Congresso expurgou os riscos
autoritários, e o resultado é um arcabouço sólido de proteção infantil nas
redes. Mas ainda há lacunas e ambiguidades que precisam ser enfrentadas
O Congresso aprovou o Projeto de Lei
2.628/2022, batizado de “Estatuto da Criança e do Adolescente Digital”, que
aguarda a sanção do Executivo. Entre a versão que foi ao plenário da Câmara e a
que saiu para a aprovação do Senado, o texto passou por transformações que
merecem ser reconhecidas: afastaram-se riscos claros e imediatos à liberdade de
expressão e foram refinadas medidas de proteção mais consistentes para crianças
e adolescentes. No balanço geral, o resultado é positivo, mas poderia ter sido
melhor, e, pelos riscos incorridos numa tramitação desnecessariamente atabalhoada,
resta uma sensação de alívio por ter-se evitado um desastre.
A Câmara quase entregou um arcabouço que
permitiria remoções indiscriminadas de conteúdo, sem ordem judicial, a partir
de denúncias genéricas. Quase concedeu ao Executivo poderes para suspender
redes inteiras por ato administrativo. Quase institucionalizou uma guerra de
denúncias, abrindo a porta à censura privada. Esses desastres foram revertidos,
felizmente, por pressão da oposição: a legitimidade de denúncia foi limitada a
vítimas, responsáveis e órgãos competentes, e a suspensão de plataformas ficou
restrita ao Judiciário.
Mas a tramitação açodada deixou lacunas e
ambiguidades. Persistem conceitos vagos, como a exigência de evitar o “uso
compulsivo”, que pode ser interpretado de múltiplas maneiras. Permanecem
dúvidas sobre a futura “autoridade nacional” responsável por regulamentar e
fiscalizar a lei: terá autonomia real, ou será capturada pelo governo de turno?
Como se sabe, o diabo mora nos detalhes – mas também, às vezes, na falta deles.
Um marco regulatório só se sustenta se for tecnicamente sólido e
institucionalmente blindado contra arbitrariedades.
Além disso, é preciso reconhecer que leis,
sozinhas, não resolverão o problema. A exploração infantil nas redes é real e
abjeta, mas não será contida apenas por notificações de conteúdo. A inépcia das
polícias, do Ministério Público e dos tribunais permanece escandalosa. O avanço
regulatório sobre as plataformas não pode servir de pretexto para aliviar
responsabilidades desses agentes, transferir culpas e alimentar a ilusão de que
a vigilância digital substitui a investigação criminal. Proteger os menores
exige corresponsabilidade: família, escola, instituições públicas e empresas
precisam agir em conjunto, cada qual no âmbito de sua função.
Outro desafio é não asfixiar a arquitetura
aberta da internet. A verificação etária, se imposta de forma indiscriminada,
pode ameaçar a privacidade dos usuários e fortalecer monopólios, pois só
grandes plataformas teriam meios para cumpri-la. O risco é concentrar ainda
mais poder e reduzir a diversidade de serviços digitais. A regulamentação
infralegal terá de ser precisa para não converter boas intenções em barreiras
de entrada ou em coleta excessiva de dados pessoais.
O projeto avançou ao reforçar controles
parentais, exigir configurações protetivas por padrão, restringir publicidade
manipuladora e proibir práticas viciantes em jogos. Mas ainda ficou aquém na
regulação da lógica algorítmica e nos incentivos econômicos que sustentam o
modelo de engajamento compulsivo dos jovens, comportando riscos de ansiedade e
depressão entre adolescentes.
O Parlamento entregou um marco melhor do que
se temia, mas não tão bom quanto seria possível com mais cuidado e menos
açodamento. Agora, o desafio se desloca para a regulamentação infralegal. Será
preciso garantir clareza conceitual, transparência procedimental e mecanismos
de revisão periódica. O risco de arbitrariedades e capturas políticas continua
presente.
O Brasil tem a chance de implementar uma
regulação que concilie a proteção integral da infância com o respeito às
liberdades. Para tanto, precisará resistir às tentações do sentimentalismo e do
voluntarismo, e assumir que nenhum texto legal substituirá a “aldeia inteira”
necessária para educar e proteger crianças. Uma lei robusta é um começo. Mas
sua aplicação exigirá vigilância, prudência e a coragem de corrigir rumos
quando for preciso.
Os Estados Unidos no caminho da servidão
O Estado de S. Paulo
O capitalismo de Estado de Trump, um filho
bastardo do que há de pior no estatismo chinês e no populismo latino-americano,
ameaça o modelo de prosperidade e democracia nos EUA
Donald Trump se vende como paladino do
conservadorismo americano, mas dilapida o legado literalmente mais valioso
dessa tradição: a defesa do livre mercado. Aumentar impostos por meio de
tarifas generalizadas, intervir em companhias privadas, flertar com
estatizações ou pressionar o banco central são iniciativas mais familiares ao
repertório de demagogos latino-americanos conhecidos por arruinar suas
economias à força de decretos. A Casa Branca está sendo transformada numa
espécie de fundo de investimento estatal comandado pelo humor do presidente.
Sua barganha com a Intel – ora exigindo a saída do CEO, ora oferecendo aportes
bilionários em troca de participação acionária – lembra menos as convicções
capitalistas de Ronald Reagan e mais a prática surrada de Brasília de eleger
“campeões nacionais” à custa do contribuinte.
À luz das evidências históricas, as políticas
comerciais e industriais de Trump só podem ser descritas como uma espécie de
masoquismo econômico. A crença de que tarifas protegem empregos foi
desmoralizada repetidas vezes. Elas encarecem insumos, corroem margens de lucro
e destroem mais postos de trabalho do que geram. A ilusão de que o governo pode
cultivar indústrias “estratégicas” com subsídios e participação acionária já
produziu fiascos memoráveis, de fábricas fantasmas a empresas zumbis
sustentadas apenas por favores políticos. No Brasil, esse é um filme antigo e
monótono: décadas de protecionismo criaram indústrias complacentes, incapazes
de competir fora de seus muros tarifários, mas habilíssimas em cultivar
clientelas em Brasília. O resultado foi atraso tecnológico e um fardo
inflacionário para o consumidor. Ao abraçar a cartilha dirigista, Trump sufoca
o dinamismo do mercado e alimenta o que jurava combater: o pântano de privilégios.
O mito de que o “modelo chinês” é um atalho
para a prosperidade só agrava o equívoco. O “milagre” que retirou centenas de
milhões da pobreza nasceu não do controle estatal de Pequim, mas sim, ao
contrário, das reformas liberalizantes iniciadas por Deng Xiaoping, que
desobstruíram a energia empreendedora do povo, permitindo que o capital e as
ideias circulassem. A China cresceu apesar do estatismo centralizador, não por
causa dele, e o voluntarismo intervencionista de Xi Jinping, com a repressão a
empresas e a onipresença do Partido Comunista, ameaça destruir esse legado.
Emular essas amarras é como invejar o prisioneiro pelo tamanho da cela.
Nada mais revelador que o endosso do
esquerdista radical Bernie Sanders aos intervencionismos de Trump: ambos sonham
com uma Intel transformada em repartição pública dos semicondutores, sustentada
por subsídios e dirigida ao sabor de agendas políticas. O socialismo de Sanders
e o nacionalismo de Trump compartilham da mesma fantasia: a de que políticos e
burocratas podem pilotar o setor produtivo melhor que milhões de agentes
livres. Os extremos se unem na caricatura do capitalismo de Estado.
A diferença é que Trump não dispõe nem dos
instrumentos nem da disciplina de Xi. Não pode instalar células partidárias nas
empresas nem impor alinhamento ideológico a seus executivos. Seu método é mais
errático: uma mistura de bravata pública e chantagem privada, tarifas
anunciadas de manhã e suspensas à tarde, favores concedidos a quem se curva e
ameaças a quem resiste. A boa notícia é que seu poder para subjugar o setor
privado não é absoluto nem irrevogável. A má é que sua imprevisibilidade já
mina a confiança em ativos americanos, encarece investimentos e enfraquece a
competitividade da indústria.
O verdadeiro caminho para enfrentar a
competição global não é copiar os vícios da China nem reciclar as mazelas do
Brasil, mas reafirmar o que sempre fez dos EUA um país próspero: livre
comércio, descentralização, competição e Estado de Direito. O capitalismo de
Estado de Trump não é alternativa ao socialismo; é sua versão caricata, tingida
de vermelho, branco e azul. Ao insistir em tarifas, subsídios e intervenções,
Trump inaugura não um “Dia da Libertação”, mas uma noite longa, fria e
tenebrosa, e coloca sua “América” não no rumo da grandeza, mas, como já
alertava Hayek, no caminho da servidão.
A pegadinha da deflação
O Estado de S. Paulo
Petistas festejam queda circunstancial de
preços em agosto, mas índice ainda está longe da meta
A deflação de 0,14% em agosto no IPCA-15,
prévia da inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA), em nada muda o cenário inflacionário do País. Primeiro porque não
foi uma queda real de preços o que levou ao saldo negativo, mas o efeito
pontual do chamado “bônus de Itaipu”, que aliviou as contas de luz de usuários
de baixo consumo. Sem o bônus, que valeu apenas para agosto, o resultado do mês
teria sido de avanço na inflação.
O efeito foi menor que o esperado por
analistas do mercado financeiro que, já contando com o impacto extraordinário
da energia elétrica, haviam traçado uma queda mediana de 0,21% no IPCA-15 de
agosto, de acordo com levantamento do Projeções Broadcast. Além de não resultar
de um movimento estruturado, a deflação não veio com a intensidade esperada
porque os preços de serviços voltaram a subir forte.
Sendo assim, comemorar o índice porque se
trata da primeira deflação desde julho de 2023 é cair numa pegadinha. Que o PT
faça isso nas redes sociais, celebrando a deflação como um resultado que
“reforça compromisso do governo Lula em garantir comida barata e de qualidade
às famílias”, é compreensível. Mas que o resto do País não se iluda: tudo
continua como antes e, para desalento geral, a taxa no acumulado em 12 meses,
de 4,95%, segue muito acima da meta de 3%. Isso mostra por que o Banco Central
mantém os juros básicos da economia em nível tão alto, ora em 15% ao ano.
A boa notícia é que, além da energia
elétrica, foram verificadas desacelerações em grupos de preços importantes,
como alimentos e bebidas e também em transportes, mas ainda de forma lenta e
irregular, já que, com incentivo frequente do governo, a economia continua a
rodar acima de sua capacidade, com efeitos prejudiciais no consumo e nos
preços.
A redução nos preços da energia elétrica – um
dos cinco itens com maior peso na ponderação do IPCA – poderia ocorrer de forma
relevante e prolongada, se houvesse uma limpeza dos penduricalhos que encarecem
as tarifas para a concessão dos mais diversos incentivos públicos à custa dos
consumidores. Seria um duplo acerto do governo, já que contribuiria para frear
a inflação e cumpriria a promessa recorrente de baratear as contas de luz.
Em vez disso, o bônus de R$ 936,8 milhões que
a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou distribuir em agosto
pelo resultado positivo da Usina de Itaipu em 2024 (R$ 883,1 milhões pelo saldo
efetivo da conta e R$ 53,7 milhões pelos rendimentos de sua aplicação
financeira) tem efeito espetaculoso, mas não passa de paliativo para um mês do
ano – além de ficar restrito às contas de luz de usuários que consumiram até
350 quilowatts-hora (kWh) em ao menos um mês de 2024. Trata-se de um alívio
transitório na conta.
Para reduzir a inflação de fato e finalmente cumprir a meta estabelecida pelo próprio governo, não basta contar com situações excepcionais. É preciso mexer estruturalmente nos gastos públicos que aquecem um mercado incapaz de atender à demanda, como ensina qualquer manual de economia.
O complexo e custoso combate à obesidade
Correio Braziliense
O enfrentamento à obesidade no Brasil precisa
ser estratégico para não se correr o risco de prejudicar outras demandas
prioritárias
A Comissão Nacional de Incorporação de
Tecnologias no SUS (Conitec) divulgou um parecer contrário à incorporação das
canetas emagrecedoras de semaglutida e de liraglutida para o tratamento de
obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Tecnicamente, a Conitec é um órgão
assessor e não tem o poder de proibir, mas de orientar o gestor, no caso o
Ministério da Saúde (MS), responsável por tomar decisões de incorporação de
medicamentos e tecnologias à rede pública. A orientação costuma ser seguida.
Entre as justificativas listadas na decisão
recente da Conitec, está a baixa relação custo-efetividade, diante do alto
impacto orçamentário e fiscal da proposta avaliada. O MS apresentou um estudo
cujo custo estimado para atendimento a pacientes da rede pública pode chegar a
R$ 4,1 bilhões num período de cinco anos. Considerando casos que podem exigir
tratamento contínuo, o valor ultrapassaria R$ 6 bilhões no mesmo
período.
Paralelamente, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) apertou o controle na dispensação das canetas
emagrecedoras no varejo, aplicando regras mais rígidas, como retenção de
receita, além da proibição da manipulação dos princípios ativos por farmácias,
motivada pelo uso fora de indicação e apontando riscos sanitários.
No mundo, em 2022, 2,5 bilhões de adultos
tinham sobrepeso, dos quais 890 milhões viviam com obesidade (cerca de uma em
cada oito pessoas), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E as
projeções indicam um cenário ainda pior. A Federação Mundial de Obesidade
indica um contingente de 1,53 bilhão de adultos com obesidade até 2035.
O Brasil segue o fenômeno: dados oficiais
mostram um crescimento contínuo do número de obesos ou com sobrepeso. O Vigitel
2023 reportou 24,3% de adultos com obesidade e 61,4% com excesso de peso —
proporções que tornam a decisão de oferta gratuita universal dessas novas
estratégias farmacológicas impraticável financeiramente.
É bem verdade que a obesidade já causa um
impacto alto nas contas públicas. Estudo do Observatório Brasileiro de Hábitos
Alimentares indica que, se mantida a tendência de aumento de peso na população,
de 2021 a 2030, os gastos com atendimento no SUS — hospitalização e atendimento
ambulatorial — e os custos à economia nacional com a mortalidade precoce
somarão US$ 22 bilhões. Isso considerando complicações associadas ao excesso de
peso, como doenças cardiovasculares, apneia obstrutiva do sono e cânceres.
O enfrentamento a esse grave problema de
saúde pública, porém, precisa ser estratégico, para não se correr o risco de
prejudicar outras demandas prioritárias. E elas são muitas: da atenção primária
(como escassez de profissionais em unidades básicas de saúde e baixa
informatização) aos atendimentos mais complexos, de transplantes a atendimentos
oncológicos.
As políticas públicas de saúde com foco em obesidade e em suas comorbidades precisam mirar na tríade prevenção, ambiente alimentar e monitoramento frequente — estratégias a serem adotadas para além das unidades de saúde. Passam, também, por novas práticas nas escolas, por acesso a alimentos saudáveis, estímulo à prática de atividades físicas, suporte à saúde mental. Em um leque tão abrangente de intervenções, as apostas precisam ser muito bem avaliadas.
PEC oferece proteção indevida a parlamentares
O Povo (CE)
A Câmara faria um favor à democracia e ao
povo brasileiro se, em vez de adiar a votação, enviasse a proposta para o lugar
que ela merece: a lata de lixo
A Câmara dos Deputados adiou a votação da
proposta de emenda à Constituição, a chamada PEC da Blindagem, devido a
divergências a respeito do texto. Adiar foi uma decisão menos danosa do que
votar uma proposta a qual nem deveria estar tramitando, pois os deputados
deveriam estar preocupados com assuntos mais sérios, como isentar da cobrança
de imposto de renda salários até R$ 5 mil.
Os termos da PEC interessam somente aos
parlamentares, aqueles que pretendem criar uma imunidade total, que os eleva
acima da lei, mesmo em caso de cometimento de crimes graves. Eles também
pretendem, com a PEC, tirar das mãos do Supremo Tribunal Federal (STF) a
investigação sobre o destino de cerca de R$ 700 milhões, distribuídos por meio
de "emendas Pix".
Caso a proposta venha a ser aprovada,
processos contra deputados e senadores só poderão ser abertos com autorização
prévia do Congresso Nacional. Dessa forma, o parlamento pode se transformar em
abrigo para o crime organizado, que passará a intervir nas eleições com muito
mais vigor, violência (e dinheiro) do que já faz hoje. Isso porque o
corporativismo tenderá a proteger os seus, negando a abertura de processos
contra deputados e senadores. Será um verdadeiro liberou geral, provocará a
degradação inapelável do poder Legislativo.
O texto ainda estabelece novos requisitos
para a prisão preventiva ou para a aplicação de cautelares. Para determinar
essas medidas, será necessário o voto de dois terços dos ministros do STF e
aprovação da Câmara ou do Senado. Isto é, enquanto no julgamento de um
desprivilegiado qualquer, uma decisão do STF resta aprovada com apenas um voto
de diferença, os congressistas serão tratados como brasileiros especiais, com
garantia de maioria qualificada. E, ainda, a decisão terá de ser submetida ao
crivo parlamentar.
No entanto, isso ainda parece pouco para suas
excelências. Se algum dia, porventura, todos esses obstáculos forem superados
para a determinação de uma preventiva para esses brasileiros excepcionais,
suspeitos de crimes, ela terá de ser revista pela Casa Legislativa a cada 90
dias.
Se restasse um mínimo de consciência aos
parlamentares brasileiros, principalmente os bolsonaristas e seus aliados, eles
desistiriam de propor tamanha excrescência, amplamente rejeitada pela
população, como mostram as pesquisas. Aos nomes que se dá a essa proposta, como
PEC das Prerrogativas, PEC da Blindagem e PEC da Impunidade, poder-se-ia
acrescentar mais um: a PEC da Vergonha.
A Câmara faria um favor à democracia e ao povo brasileiro se, em vez de adiar a votação, enviasse a proposta para o lugar que ela merece: a lata de lixo.
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