Correio Braziliense
A megaoperação desta quinta-feira demonstrou
que o foco deve ser a asfixia financeira, pois é o dinheiro que impulsiona a
evolução e a expansão do crime
Como a italiana Mãos Limpas, a megaoperação Carbono Oculto, ao lado da Quasar e da Tank, tem
tudo para ser um ponto de virada no combate ao crime organizado no Brasil. Mais
do que uma simples ação policial, a operação desvendou a mais ambiciosa e
sofisticada estratégia de uma organização criminosa que não se limita ao
tráfico de drogas e à violência urbana. O que emergiu dessa investigação é a
imagem de uma verdadeira máfia brasileira, que opera não nas vielas e morros,
mas nas salas de diretoria de empresas e nos corredores do mercado financeiro.
É, sem dúvida, uma mudança de paradigma em relação à atuação do Estado. Ao atingir o "andar de cima" do crime organizado, como enfatizou o ministro Fernando Haddad, as autoridades demonstraram que o combate efetivo não se limita a prisões, mas à desarticulação dos esquemas financeiros. Essa abordagem é a única capaz de enfrentar uma organização que se comporta como uma empresa.
A infiltração na economia formal é a tese que
sustenta essa nova máfia. O Primeiro Comando da Capital (PCC) demonstrou uma
surpreendente capacidade de evolução, passando de uma facção criminosa para uma
rede de negócios. Ao terceirizar o tráfico de drogas, a organização focou em
crimes mais complexos, como a lavagem de dinheiro em escala industrial. Para
isso, o PCC recrutou um exército de "associados", profissionais com
grande conhecimento técnico em áreas como finanças, direito e contabilidade,
que não são batizados pela facção, mas são cruciais para sua sobrevivência e
crescimento.
Já a atuação do PCC no setor de combustíveis
é a prova mais gritante da capacidade de lesar a sociedade em múltiplas
frentes. Ao controlar toda a cadeia, desde a importação de insumos químicos
para adulteração, como o metanol, até a distribuição em postos de gasolina, a
organização criminosa gerou uma fraude em larga escala. A estimativa de que 30%
dos postos em São Paulo foram abastecidos com combustível adulterado é
alarmante, revelando uma sonegação fiscal de mais de R$ 7,6 bilhões e, ao mesmo
tempo, expondo a população a riscos ambientais e de segurança.
Há, ainda, relatos de que a facção comprava
empresas e postos a preços subfaturados. Pagava apenas as parcelas iniciais do
negócio e passava a ameaçar os antigos donos de morte, caso levassem as
denúncias às autoridades.
A megaoperação desta quinta-feira demonstrou que o foco deve ser a
asfixia financeira, pois é o dinheiro que impulsiona a evolução e a expansão do
crime. Ao mirar no capital, o Estado atinge a verdadeira fonte de
poder das redes criminosas, indicando que a lei pode, finalmente, alcançar o
"andar de cima" e chegar naqueles que os protegem: os integrantes da
classe política.
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