sexta-feira, 29 de agosto de 2025

É hora de esmiuçar quem é o "andar de cima" do PCC, por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

A megaoperação desta quinta-feira demonstrou que o foco deve ser a asfixia financeira, pois é o dinheiro que impulsiona a evolução e a expansão do crime

Como a italiana Mãos Limpas, a megaoperação Carbono Oculto, ao lado da Quasar e da Tank, tem tudo para ser um ponto de virada no combate ao crime organizado no Brasil. Mais do que uma simples ação policial, a operação desvendou a mais ambiciosa e sofisticada estratégia de uma organização criminosa que não se limita ao tráfico de drogas e à violência urbana. O que emergiu dessa investigação é a imagem de uma verdadeira máfia brasileira, que opera não nas vielas e morros, mas nas salas de diretoria de empresas e nos corredores do mercado financeiro.

É, sem dúvida, uma mudança de paradigma em relação à atuação do Estado. Ao atingir o "andar de cima" do crime organizado, como enfatizou o ministro Fernando Haddad, as autoridades demonstraram que o combate efetivo não se limita a prisões, mas à desarticulação dos esquemas financeiros. Essa abordagem é a única capaz de enfrentar uma organização que se comporta como uma empresa.

A infiltração na economia formal é a tese que sustenta essa nova máfia. O Primeiro Comando da Capital (PCC) demonstrou uma surpreendente capacidade de evolução, passando de uma facção criminosa para uma rede de negócios. Ao terceirizar o tráfico de drogas, a organização focou em crimes mais complexos, como a lavagem de dinheiro em escala industrial. Para isso, o PCC recrutou um exército de "associados", profissionais com grande conhecimento técnico em áreas como finanças, direito e contabilidade, que não são batizados pela facção, mas são cruciais para sua sobrevivência e crescimento.

Já a atuação do PCC no setor de combustíveis é a prova mais gritante da capacidade de lesar a sociedade em múltiplas frentes. Ao controlar toda a cadeia, desde a importação de insumos químicos para adulteração, como o metanol, até a distribuição em postos de gasolina, a organização criminosa gerou uma fraude em larga escala. A estimativa de que 30% dos postos em São Paulo foram abastecidos com combustível adulterado é alarmante, revelando uma sonegação fiscal de mais de R$ 7,6 bilhões e, ao mesmo tempo, expondo a população a riscos ambientais e de segurança.

Há, ainda, relatos de que a facção comprava empresas e postos a preços subfaturados. Pagava apenas as parcelas iniciais do negócio e passava a ameaçar os antigos donos de morte, caso levassem as denúncias às autoridades.

A megaoperação desta quinta-feira demonstrou que o foco deve ser a asfixia financeira, pois é o dinheiro que impulsiona a evolução e a expansão do crime. Ao mirar no capital, o Estado atinge a verdadeira fonte de poder das redes criminosas, indicando que a lei pode, finalmente, alcançar o "andar de cima" e chegar naqueles que os protegem: os integrantes da classe política.

 

Nenhum comentário: