sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Com que boné andas? Eu te direi quem és, por Ruth de Aquino

O Globo

"O Brasil é dos brasileiros" ou "MAGA - Make America Great Again" ? Escolha seu acessório para o verão

“O Brasil é dos brasileiros”. Ou dos americanos? Boné azul ou vermelho? O verão pré-eleição pode alçar o boné a acessório indispensável da moda praia, não pela proteção solar, mas pelo filtro ideológico. O MAGA – “Make America Great Again” – ameaça mofar nas prateleiras tropicais. Até o Tarcísio guardou seu boné no armário, depois que Eduardo o peitou.

Nessa guerra de egos, desconfio que ninguém com o boné vermelho MAGA do Trump tem condições de vencer a eleição presidencial do Brasil em 2026. Não sou estrategista política, mas está na cara – ou na cabeça – que o slogan trumpista se tornou tóxico por aqui após a chantagem do tarifaço. Reduziu em 50% as chances eleitorais da direita extremista e colonizada.

Lula foi amplamente criticado pela performance com os 38 ministros usando bonezinho azul nacionalista em torno da mesa. Populismo. Verdade. A sina da América Latina é eleger populistas. Seria ignorância política não aproveitar o presentão dado por Eduardo e Tarcísio, que posaram de traidores da pátria e estão brigando entre si pelo legado bolsonarista.

Analistas sérios dirão que o boné não passa de um detalhe. Que é ridículo etecetera e tal. Mas o pesquisador Gustavo Berti diz que o boné pode servir como “meio de propagação ideológica”. Por condensar “ideias e conceitos complexos num objeto versátil”. Berti estuda em Apucarana, no Paraná. A cidade produz por mês 3 a 4 milhões de bonés – 70% da produção nacional.

O boné foi popularizado com os times de beisebol nos EUA no século XIX. Passou para a cabeça de artistas, cantores de hip hop, jogadores de futebol, torcedores. Ajudou a promover marcas. No Brasil e no mundo, o boné também foi vulgarizado por bandidos – para escapar das câmeras de segurança.

O boné reforça identidades, como a do MST – e agora, a dos trumpistas, bolsonaristas e lulistas. Por ficar junto aos olhos, à boca, às expressões do rosto, é um acessório útil para passar qualquer mensagem. Como “A vida presta”, da Fernanda Torres.

Lula foi investigado por usar boné com a sigla CPX. Diziam que era uma facção do crime organizado, ou até uma gíria de criminosos, “cupinxa” (sic). Mas era o Complexo do Alemão, a comunidade que Lula visitava e que o presenteou.

As empresas estão acelerando a produção de bonés azuis com a frase “O Brasil é dos brasileiros”. Acham que vai pegar nesse verão. Porque os EUA despencaram em popularidade entre nós, após as taxas injustas e as ações hostis contra brasileiros, quanta imaturidade hein Eduardo, seus tiros saindo pela culatra.

Mas, atenção, há outro chapéu que pode disputar a primazia, como adereço no carnaval. O “viking do Capitólio”. Se você não lembra, foi um dos apoiadores extremistas de Trump que invadiram o Congresso americano em 2021, em reação ao que consideravam vitória fraudulenta de Biden. É um adereço peludo com chifres de bisão. O rosto do militante exibia as cores da bandeira dos EUA. Ele levava uma lança!

A revista britânica The Economist colocou Bolsonaro na capa, com chapéu de viking, e rosto pintado de verde e amarelo. A revista diz que o julgamento de Bolsonaro é “lição de democracia para os EUA”, porque nossos políticos tradicionais querem seguir as regras. O “Trump dos trópicos” deve ser condenado, segundo The Economist: “O golpe fracassou por incompetência, e não por intenção”.

Quase nunca uso bonés, com exceção do Botafogo – e mesmo assim, raramente. Mas entendo o boné como estratégia válida de comunicação. Entre esses adereços políticos disponíveis, algum faz a sua cabeça? Diga-me com qual andas e te direi quem és.

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