Embora muita gente ainda confunda as duas,
publicidade e propaganda são coisas bem diferentes. Enquanto a publicidade diz
o que as pessoas devem comprar, a propaganda diz o que as pessoas devem pensar.
Numa guerra, a segunda se torna uma arma tão ou mais poderosa que tanques,
aviões e soldados. Nada é mais importante do que uniformizar o pensamento de
todo o país em torno de um objetivo comum. A propaganda não permite versões, se
sobrepõe à verdade criando seus próprios fatos, se autojustifica glorificando
seus atos, enquanto tenta desmoralizar o inimigo e quebrar a sua vontade de
continuar lutando.
A Rússia, nos primeiros dias da invasão, fechou todos os meios de comunicação independentes, expulsou a mídia internacional, decretou uma pena de 15 anos de prisão para quem se desviasse da narrativa oficial. Abusou da mentira usando a mordaça e o medo como instrumentos de convencimento da população. Mas, para surpresa do Ocidente, as sanções impostas por “todos que querem destruir a Rússia” ajudaram a aprovação interna de Putin a bater os 81,6%.
A propaganda não é apenas sinônimo de
mentira oficial. Enquanto os russos, e o mundo, esperavam que Kiev caísse em
questão de dias, o presidente da Ucrânia começou a dar uma aula de propaganda
que o mundo não via desde os tempos de Churchill. Quando Biden ofereceu uma
rota de fuga para ele e sua família, Zelensky respondeu: “Não preciso de carona
para sair do país, preciso de armas”. Nas ruas de Kiev, falando diariamente
para uma audiência mundial, Zelensky parece um David do Tik Tok, com seu
celular enfrentando o Golias russo.
Se Zelensky é o ator principal, o
roteirista é seu ministro de transformação digital, Mykhailo Fedorov. Com
apenas 31 anos, o empreendedor digital foi um dos principais responsáveis pela
eleição de Zelensky em 2019. Antes da guerra, o ministério de Fedorov
desenvolvia projetos revolucionários: fazer um censo virtual, realizar eleições
on-line e digitalizar todos os serviços do governo, fazendo da Ucrânia um país
livre de toda a papelada oficial. Os ucranianos hoje têm seus documentos
pessoais, passaportes e pensões todos digitalizados. Quando a guerra estourou,
a Ucrânia já contava com uma infraestrutura digital poderosa, permitindo que os
4,5 milhões de refugiados estivessem conectados e com seus papéis em dia em
seus celulares.
Fedorov se adaptou rapidamente a uma guerra
que lhe foi imposta. Criou o que chamou de “Exército de TI”. Transformou a infraestrutura digital que
criou numa máquina de propaganda para enfrentar o inimigo. Convocou, entre
representantes da indústria da tecnologia e especialistas em segurança digital,
mais de 300 mil voluntários para enfrentar as tentativas russas de se infiltrar
nas redes e sistemas de mensagens ucranianos. Convocou também milhares de
influencers, instagramers e tik tokers a distribuir conteúdo sobre a guerra.
Desapareceram as dicas de maquiagem, viagens e moda para dar lugar a
informações sobre pessoas perdidas, avisos sobre ataques, estradas seguras para
viajar, onde comprar mantimentos e onde estavam os russos.
Distribuídos por esse exército de
influencers, engenheiros e nerds, filmes curtos de tirar o fôlego pipocaram nos
celulares do mundo inteiro. Na esquina de uma cidade ucraniana, uma senhora é
filmada dando algumas sementes a um soldado russo: “Guarde no seu bolso para,
quando você morrer em solo ucraniano, do seu corpo nascerem girassóis”. Um
soldado ucraniano dança no campo de batalha para acalmar a filha em casa. Uma
mãe escreve com caneta o endereço de parentes no corpo da filha de 5 anos caso
o pior aconteça. Esses, e centenas de outros conteúdos, ajudaram a mobilizar o
mundo a receber refugiados, pressionar governos e empresas a ampliar as sanções
econômicas, chefes de Estado a mandar armas, dando sobrevida a um país que
parecia condenado a deixar de existir.
Como diz o clichê, não importa de que lado
você esteja, a verdade é a primeira vítima da guerra. Mas não dá para negar
que, na propaganda, na disputa pelos corações e mentes de todo o mundo, os
russos estão levando uma sova de Fedorov. Com a sabedoria dos seus 31 anos, ele
sabe que não basta dizer o que as pessoas devem pensar, mas sim o que devem
sentir.
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