Naquele mundo marcado pelo fim da Guerra Fria
e com o voraz apetite da política neoliberal, Collor mesclou com sagacidade os
elementos da tradição brasileira – o messianismo de origem católica rural, como
se vê na aliança do jovem então candidato com Frei Damião – com propostas
disruptivas como aquelas que atribuíam ao Estado o centro da crise econômica e
social do Brasil nos anos 1980.
O Estado personalista e patrimonialista (uma crítica da direita e esquerda) era o catalisador do atraso. A nova ordem burguesa tinha apetites que primavam o consumidor acima do cidadão, uma perspectiva crítica à Carta de 1988, portanto, a candidatura Collor seria a reposta da coragem, da inovação, da ousadia diante de um Estado anacrônico, corrupto e corruptor; de uma parte da elite covarde e ineficiente(1) e da classe política que seria cúmplice deste estado de coisas e com lideranças oposicionistas defensoras do deficitário Estado de Bem-Estar Social.
Nas filigranas do documentário percebe-se que
o programa de Collor – similar a de outros candidatos, mas com menor inibição
na agenda neoliberal, como sobre as privatizações – era o desmonte do Welfare
State tupiniquim varguista. Collor era o representante de uma ordem privada
amadurecida – sob a égide do Estado seja em Vargas, seja no desenvolvimentismo
JK-Ditadura Militar – com a pauta do interesse, do individualismo, de um
Executivo que denunciava – e queria se sobrepor – partidos, Congresso,
Judiciário, o que hoje se chama de “sistema”(2).
Os episódios são claros que Collor foi eleito
por uma combinação bem-sucedida de um aparato midiático liderado pela maior
emissora do país com agências de publicidade que souberam captar o “espírito do
tempo” resolvendo em parte a ausência de capilaridade do partido de Collor, o
nanico PRN. Seria de bom tom estudos futuros que se acerca do impacto de
novelas como Que Rei Sou Eu? e Salvador da Pátria no
imaginário popular coletivo da época. O destaque apresentado é o clichê quanto
à edição do debate no segundo turno no Jornal Nacional, algo que o
distanciamento crítico do tempo nos permite ver que no debate inteiro Collor
foi melhor que o oponente, Lula.
O tom da narrativa fica dramático desde o
anúncio do malfadado e improvisado Plano Collor, a única bala contra o tigre da
inflação e tem seu ápice na narrativa quase em tom bíblico do conflito entre os
irmãos Pedro e Fernando Collor por conta da singular figura de PC Farias e nos
interesses provincianos em Alagoas. Há de se aplaudir a lembrança da RIO 92
feita nesse governo – o mesmo que sancionou os “amaldiçoados” Estatuto da
Criança e do Adolescente e Lei Rouanet.
O documentário nos brinda com um grande
acervo de imagens da época, não se limitando à Globo. E nos brinda com pequenas
esquetes do Casseta e Planeta Urgente, um humor atualmente cancelado e banido
pela sanha neopuritana.
Mas a narrativa ganha outro tom quando há a
presença da política. Instalada uma CPI para averiguar denúncias de corrupção
entre PC Farias e o Presidente, a classe política – que não trouxe prejuízos à
governabilidade no primeiro ano de gestão – começa a se insurgir contra o
farisaísmo de Collor, seu posicionamento antissistema sendo filho
(literalmente) da classe política desde a ARENA passando pelo PMDB. O
documentário desmonta uma lenda urbana que o fim do governo Collor foi a
denúncia do seu irmão na CPI e resgata que o bom jornalismo e a formação de uma
troika – PMDB, PSDB e PT (as principais lideranças aparecem com a triste
ausência de Mário Covas) foram os artífices de uma engenharia, de uma invenção
política: o impeachment, que teve nas ruas o eco de jovens no último movimento
público de massa no século passado que culminou na vitória amarga do
impedimento.
Mas não seria nem o fim da agenda neoliberal, nem do messianismo, nem da funérea ligação entre política e religião, nem dos equívocos das mídias, da perspectiva de um centralismo à direita ou à esquerda. E faz um alerta: precisamos melhorar o Legislativo, poder que não pode se limitar a personagens que fazem greve de fome no plenário ou na discussão sobre sandálias.
1 – Cf. Sallum Jr, Brasílio. O impeachment de
Fernando Collor – sociologia de uma crise. São Paulo: Editora 34, 2015.
2 – Cf. Vianna, Luiz Werneck. De um plano
Collor a outro: estudo da conjuntura. Rio de Janeiro: Revan, 1991.
*Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.

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