sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Educação reprova governo do Rio e aprova o do Pará

O Globo

Escolas fluminenses foram as que mais caíram em ranking; as paraenses, as que mais subiram

No próximo dia 4 de outubro, mais de 150 milhões de brasileiros comparecerão às urnas para escolher deputados distritais e estaduais, vice-governadores, governadores, deputados federais, senadores, vice-presidente e presidente. Os atuais governadores serão candidatos ou apoiarão candidatos à própria sucessão. Antes de votar, portanto, é fundamental o eleitor avaliar o desempenho dos governos estaduais na área mais crítica para o desenvolvimento do país — a educação.

A ONG Todos Pela Educação analisou uma amostra de 16 estados brasileiros cujos governadores estão no poder há mais de quatro anos — nenhum poderá argumentar que não teve tempo de pôr em prática suas ideias para melhorar a educação. As 16 unidades da Federação levadas em conta na análise formam um quadro representativo da situação do ensino médio no Brasil. Há mais de um estado por região: Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro no Sudeste; Paraná e Rio Grande do Sul no Sul; Goiás e Mato Grosso no Centro-Oeste; Paraíba e Rio Grande do Norte no Nordeste; Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins no Norte; além do Distrito Federal. Juntos, são estados onde vive mais da metade da população brasileira.

O maior destaque negativo é o Rio de Janeiro. Foi o único estado a registrar, entre 2017 e 2023, retrocesso no indicador de aprendizagem adotado para medir a evolução do ensino médio, elaborado com a ajuda do conjunto de testes conhecido como Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). E foi o estado que caiu mais posições entre todas as unidades da Federação, do 15º lugar para o vexatório 25º.

A última bateria de provas do Saeb foi realizada no fim de 2025, e seus resultados serão divulgados provavelmente apenas depois das eleições. É possível que a avaliação mais recente, ainda inédita, acabe revelando um quadro diferente ao comparar 2023 com 2025. Mas, com os dados disponíveis, a conclusão é uma só: o governo do Rio de Janeiro está reprovado em educação.

Os estados cuja nota do Saeb subiu acima da média nacional entre 2017 e 2023 são, em contraste, considerados destaques positivos. O Pará, apesar da nota ainda abaixo da média nacional, apresentou o maior avanço entre todas as unidades federativas analisadas. Saiu da vergonhosa 27ª posição para a 16ª. A trajetória da Paraíba foi semelhante. Registrou o segundo maior avanço, do 23º lugar para o 18º.

Goiás chegou ao topo do ranking, depois de ocupar a terceira colocação em 2017. Também entre os melhores índices do país, o Paraná avançou do sétimo ao segundo lugar. Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais continuaram acima da média nacional, mas obtiveram melhoras tímidas e perderam posições. Os capixabas caíram do primeiro ao terceiro lugar, os gaúchos do segundo ao quarto, e os mineiros do quarto ao sétimo. Rondônia, Acre, Distrito Federal, Mato Grosso e Tocantins também obtiveram desempenho positivo, mas ainda insuficiente para alcançar a média nacional. É preciso que os futuros governadores saibam se inspirar em todos os exemplos positivos. No caso do Rio, é dever do governo eleito recuperar o tempo perdido e afastar o espectro do retrocesso.

Desenrola para microempreendedor não combate causa do endividamento

Por O Globo

Desequilíbrio fiscal é principal razão para a necessidade de sucessivos programas de redução de dívidas

O governo prepara uma nova versão do programa Desenrola Brasil. Desta vez, o foco serão micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais (MEIs). A intenção é oferecer entre R$ 1,7 bilhão e R$ 1,8 bilhão para refinanciar dívidas, com descontos negociados na plataforma do programa. Os empréstimos terão respaldo do Fundo de Garantia de Operações, administrado pelo Banco do Brasil. É mais uma tentativa de impulsionar a economia facilitando o crédito. E mais uma tentativa de atenuar os efeitos, em vez de combater as causas do endividamento.

Em 2023, depois de lançado, o Desenrola permitiu que 15 milhões de pessoas físicas renegociassem dívidas de R$ 53,2 bilhões. A estatística é eloquente, mas o principal motivo dos calotes continua intocado: a resistência do governo à responsabilidade fiscal acarreta a necessidade de manter juros altos para conter a inflação. Novos Desenrola virão enquanto houver desequilíbrio nas contas públicas.

No ano passado, o governo promoveu o Desenrola Pequenos Negócios, com renegociação de R$ 7,5 bilhões em dívidas de mais de 122 mil MEIs, micro e pequenas empresas com instituições financeiras. Houve incentivos tributários para que bancos oferecessem condições favoráveis aos devedores. Os descontos variaram entre 20% e 90%. Apesar disso, pelos dados do Banco Central, a proporção de empréstimos a micro, pequenas e médias empresas com atraso de 90 dias ou mais só aumentou de janeiro a outubro — de 4,5% para 5,6%. De acordo com a Serasa Experian, há 7,9 milhões de CNPJs com alguma dívida em atraso, a maioria empresas de menor porte. Os atrasados somam mais de R$ 200 bilhões. Na média, são dívidas de R$ 24 mil que acumulam 7,2 prestações não pagas, cada uma ao redor de R$ 3,3 mil. O maior credor é setor de serviços, seguido de bancos e cartões de crédito.

Desta vez, todo tipo de crédito em atraso poderá ser repactuado na nova plataforma do governo. Na versão até agora conhecida, menos generosa, o programa deverá representar um alívio para as empresas mais necessitadas. Na renegociação, a taxa estipulada é de cerca de 20% ao ano, para uma inflação que roda na faixa de 4,5% —ou mais de 15% em termos reais.

O maior risco desse tipo de programa é criar aquilo que os economistas chamam de “risco moral”, um incentivo para que os beneficiados contraiam ainda mais dívidas, já que cedo ou tarde confiam poder renegociá-las a juros mais baixos. Quem paga o custo desse tipo de distorção é o resto do mercado, que arca com prestações em dia, e o contribuinte, chamado a financiar a bondade do governo. Com juros reais entre os mais altos do mundo, é esperado que a inadimplência cresça no futuro. Tal situação não será resolvida pelos programas Desenrola de vários tipos, por mais bem-intencionados que sejam. Só quando houver equilíbrio nas contas públicas e uma política fiscal sustentável o juro poderá cair, reduzindo o risco de calote para todos — a começar pelo próprio governo.

Desemprego em queda, seguro-desemprego em alta

Por Folha de S. Paulo

Programa eleva gastos mesmo com mercado de trabalho aquecido, sinalizando ineficiência da política social

Proteção aos mais carentes deve ser prioridade num país tão desigual, mas é preciso mais foco e menos redundância no combate à pobreza

A taxa brasileira de desemprego caiu a 5,2% no trimestre encerrado em novembro, menor cifra registrada na série histórica do IBGE que começa em 2012. O indicador segue trajetória de queda quase ininterrupta desde o início de 2021, quando marcava 14,9% ainda sob o impacto da pandemia.

É paradoxal que, num momento tão favorável do mercado de trabalho, os gastos públicos com seguro-desemprego estejam em alta. Segundo dados do Tesouro Nacional corrigidos pela inflação, esses desembolsos somaram R$ 57,5 bilhões nos 12 meses encerrados em novembro, ante um total de R$ 47,2 bilhões em 2022 —ano que fechou com desocupação em torno de 8%.

Parte da explicação para a distorção está em conhecidos problemas nas regras do programa, que motivaram ajustes parciais há pouco mais de uma década. Num exemplo, trabalhadores podem considerar vantajoso passar temporariamente para a informalidade a acumular os rendimentos da nova atividade com o seguro-desemprego.

Outro fator a inflar os gastos é a política do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de conceder reajustes acima da inflação para o salário mínimo, ao qual estão vinculados benefícios trabalhistas, previdenciários e assistenciais.

Nos dois casos se veem ineficiências da despesa social —que, corretamente, é a prioridade do Estado num país de desigualdades vexaminosas. O gasto é elevado, mas por vezes de modo insustentável e nem sempre destinado às devidas prioridades.

Por metodologia que permite comparações internacionais, o setor público brasileiro despende o equivalente a 16,8% do Produto Interno Bruto em proteção social. Numa amostra de países selecionados em relatório do Tesouro, a cifra supera a média das economias avançadas (15,2% do PIB) e, por larga margem, a das emergentes para as quais há dados disponíveis (8,9%).

Entretanto nossos recursos são concentrados na terceira idade (9,1% do PIB), em razão principalmente do pagamento de aposentadorias acima dos padrões globais. Esses montantes hoje são inflados pelos aumentos reais do salário mínimo, mais caros e menos eficazes no combate à pobreza que o Bolsa Família —por sinal elevado de 0,4% para 1,4% do produto nos últimos anos.

Por fim, crescem de forma acelerada os gastos com benefícios de prestação continuada (BPC) para idosos e deficientes de baixa renda, que em valores corrigidos chegaram a R$ 126,3 bilhões nos 12 meses encerrados em novembro, ante R$ 78,8 bilhões em 2022.

A política social precisa de mais foco e menos redundância, pois não será possível elevar eternamente as despesas com todos os programas. Na situação atual o governo já não consegue fechar suas contas mesmo com expressiva alta das receitas, o que pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter juros nas alturas —prejudicando, sobretudo, os estratos mais carentes.

Mais um ano de clima extremo

Por Folha de S. Paulo

Fenômenos graves de calor e chuvas marcaram 2025; é preciso aliar descarbonização e crescimento econômico

Foram registrados 157 eventos meteorológicos extremos no mundo; dos 22 analisados, em 17 a influência da mudança climática foi detectada

Eventos climáticos extremos são os sinais mais evidentes e funestos do aquecimento global incitado pela queima de combustíveis fósseis.

O mais recente relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU mostra que secas, chuvas e ondas de calor começaram a ficar mais frequentes e intensas em meados do século 20, com aceleração desde 2000.

No ano recém-encerrado, não foi diferente. Estudo do World Weather Attribution, consórcio de cientistas liderado pela universidade britânica Imperial College, registrou 157 eventos extremos no mundo em 2025. Dos 22 analisados, em 17 a influência da mudança climática foi detectada.

Ondas de calor (49) e inundações (49) representam 62% do total, seguidas por tempestades (38), incêndios florestais (11), secas (7) e ondas de frio (3).

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o período de 2015 a 2024 foi o mais quente desde 1850, com recorde em 2024. Estima-se que 2025 foi o segundo ou terceiro ano mais quente.

Acordo de Paris estabeleceu a meta de manter a alta da temperatura média global abaixo de 2°C até 2100, preferencialmente abaixo de 1,5ºC, em relação ao período pré-industrial (1850-1900).

Já é consenso que esse objetivo provavelmente não será alcançado, e a elevação rondará 2,6ºC. Sem o acordo, porém, o cenário seria ainda pior (4ºC). Atualmente, o planeta está 1,3ºC acima do intervalo de referência.

Por meio de modelos projetivos, o WWA confirma a influência das emissões de carbono.

A onda de calor que atingiu o Sudão em 2025, com 40ºC em sete dias, seria menor em 4ºC antes do início da mudança climática e chegaria a 42ºC no futuro estimado com alta de aquecimento global de 2,6ºC. O evento, que na era pré-industrial ocorreria a cada 1.600 anos, hoje pode se dar a cada biênio e, no futuro, ser anual.

O relatório alerta ainda para desigualdades. O impacto desses fenômenos é maior em países pobres ou em desenvolvimento, que também carecem de tecnologias de monitoramento de dados.

Por isso os maiores desafios na descarbonização, necessária para cumprir o Acordo de Paris, são aliá-la ao crescimento econômico nessas regiões e alcançar consenso sobre financiamento por parte dos países ricos. Enquanto as emissões só crescem, governos precisam agir com planos de adaptação e mitigação, o que também exige recursos.

Sem um esforço global mais pragmático e efetivo nesse sentido, a crise do clima produzirá tragédias a cada novo ano.

É preciso valorizar as instituições

Por O Estado de S. Paulo

Executivo, Legislativo e Judiciário dão razões para o ceticismo social, mas cabe à sociedade reagir com engajamento cívico, em vez de sucumbir ao canto destrutivo dos inimigos da democracia

A desconfiança nas instituições republicanas deixou de ser um sentimento difuso para se tornar um fato indisputável da vida nacional. Basta olhar para a Praça dos Três Poderes para encontrar, em cada edifício, razões que alimentam o ceticismo de amplos segmentos da sociedade. Executivo, Legislativo e Judiciário passam por crises próprias, mas convergentes em dois pontos fundamentais: o distanciamento dos interesses nacionais e o desdém pela opinião pública, como se pairassem olimpicamente acima de controles, limites e críticas. O resultado é o desgaste da democracia representativa.

No Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta a ser assombrado pelo tema que mais sensivelmente marca os governos do PT: corrupção. As suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, na fraude aos aposentados e pensionistas do INSS – ainda que o primogênito do presidente da República não seja investigado – aguçam a memória de milhões de brasileiros. A mera possibilidade de ter havido relações impróprias entre operadores do esquema criminoso, como o tal “Careca do INSS”, e um de seus filhos impõe a Lula o dever de dar explicações. Não se trata aqui de condenar ninguém previamente, mas de enfatizar que a credibilidade do chefe de Estado e de governo não admite sombras.

No Congresso, a crise é estrutural e antiga. O manejo de bilhões de reais em emendas parlamentares, frequentemente sem transparência ou coerência programática, transformou o Orçamento em instrumento de poder corporativo de deputados e senadores. Some-se a isso reiteradas manifestações do espírito de corpo consubstanciadas em medidas de autoproteção, como a infame PEC da Blindagem, que, malgrado ter sido engavetada por pressão social, foi concebida para dificultar investigações policiais contra parlamentares.

O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, enfrenta o mais severo abalo em sua credibilidade em toda a história republicana. A expansão de competências, com avanços sobre prerrogativas dos demais Poderes, tem alimentado a percepção de um ativismo aparentemente sem freios. A isso se somam comportamentos incompatíveis com a sobriedade exigida dos membros da Corte, como a presença em eventos empresariais regados a conflitos de interesses, entrevistas à imprensa opinando sobre tudo e sobre todos e suspeitas recentes envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e o Banco Master. Nenhum tribunal pode prescindir da confiança dos jurisdicionados – e esta depende tanto da correção de suas decisões quanto da aparência de imparcialidade de seus magistrados.

Diante de tudo isso, a descrença parece compreensível. Mas é precisamente aí que reside o perigo maior para a democracia representativa. A desconfiança generalizada nas instituições é o sonho dourado dos liberticidas, dos que pregam a destruição da ordem constitucional em nome de soluções purgadoras que mal disfarçam o autoritarismo. A história recente do País demonstra aonde esse caminho pode levar. Sem instituições sólidas, não há liberdade, há arbítrio.

É preciso recordar o óbvio: nenhuma autoridade exerce seu cargo na República por acaso. Presidentes e parlamentares foram eleitos pelo voto popular; ministros do Supremo chegaram à Corte por indicação do chefe do Executivo e aprovação do Senado. As instituições são imperfeitas porque humanas, mas são elas que estruturam o pacto social consagrado na Constituição. Desacreditá-las, portanto, é enfraquecer os próprios instrumentos de correção de seus desvios.

Nesse sentido, a depuração institucional não passa pela negação da política, mas por seu exercício mais qualificado. Cabe aos cidadãos transformar a descrença em energia cívica, não em apatia. Em termos práticos, isso significa votar com responsabilidade, mobilizar organizações da sociedade civil, exigir transparência e mais responsabilidade de seus representantes. Ademais, apoiar a imprensa profissional, livre e vigilante. Não há atalhos.

Ao mesmo tempo, é imperativo que os Poderes recobrem o prumo. O Executivo deve governar pelo exemplo. O Legislativo precisa reencontrar sua função representativa tendo o interesse público como norte. E o Judiciário tem a obrigação de respeitar seus limites institucionais.

Um milagre chamado Embrapa

Por O Estado de S. Paulo

Laboratório que alavanca a economia e exemplo no ecossistema das estatais, a empresa enfrenta um teste duro: recuperar investimentos, blindar a ciência e preservar 50 anos de conquistas

Um estudo de pesquisadores das universidades MIT, Princeton e Notre Dame, além do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), oferece o retrato mais preciso já feito sobre o papel da pesquisa e desenvolvimento na revolução agrícola brasileira. As cifras impressionam: em cinco décadas, a produtividade agrícola aumentou extraordinariamente. E o investimento público em pesquisa respondeu por mais da metade desse salto. Para cada R$ 1 investido, o retorno foi de R$ 17. O Brasil é um caso exemplar de como uma política pública pode transformar um país em desenvolvimento. E esse caso tem nome: Embrapa.

Criada em 1973, a estatal rompeu com o padrão de burocracias ineficientes e adotou métodos que ainda hoje soam revolucionários: meritocracia radical, envio maciço de pesquisadores para doutorados no exterior, autonomia científica, cooperação internacional e uma rede descentralizada de 43 unidades espalhadas por zonas ecológicas. Os pesquisadores demonstraram que, se a Embrapa tivesse seguido o modelo centralizado típico de tantos órgãos brasileiros, teria produzido menos da metade de seus ganhos.

A combinação desses fatores gerou algo inédito: ciência tropical de ponta, capaz de adaptar sementes, corrigir solos, fixar nitrogênio e reinventar o Cerrado, transformando o Brasil de importador crônico em potência agrícola. Em poucas décadas, o País se tornou referência mundial de produtividade em clima tropical – um feito raro, reconhecido até por concorrentes internacionais.

Essa trajetória contrasta com a anemia da indústria nacional após décadas de protecionismo, reservas de mercado e políticas industriais erráticas. Enquanto fábricas se tornavam menos produtivas, o agro – ancorado em ciência, competição e empreendedorismo – abriu mercados, bancou a dívida externa e sustentou o crescimento do País. A lição é cristalina: quando o Estado desenha instituições racionais e se afasta da tentação dirigista, o Brasil prospera.

Mas o estudo chega num momento desconfortável. A Embrapa vive sua década mais difícil. Há dez anos, o custeio anual ultrapassava R$ 800 milhões. Em 2023 e 2024, caiu para a casa de R$ 250 milhões. Não surpreendem os relatos de laboratórios atrasando contas de luz e pesquisadores comprando insumos do próprio bolso. Iniciativas meritórias de parcerias privadas confundem-se com ofertas de fundos pouco transparentes, que podem distorcer prioridades e submeter uma instituição de vocação pública à lógica de grupos específicos. Para um país cuja vantagem estratégica depende de ciência agrícola, essa negligência é um ato de miopia que beira a irresponsabilidade.

Num mundo pressionado por mudanças climáticas, insegurança alimentar e tensões geopolíticas, o Brasil possui uma vantagem rara: pode expandir a produção agrícola sem expandir o desmatamento. Mas isso exige exatamente o que hoje falta: pesquisa, inovação, biotecnologia, inteligência artificial aplicada ao campo, novos cultivos tolerantes ao estresse climático. A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, alerta que, sem pelo menos R$ 500 milhões anuais de investimentos estáveis, o País sentirá os efeitos em cinco ou dez anos – quando será tarde demais.

Felizmente, Brasília dá sinais de ter compreendido a dimensão do risco. Em 2025, os repasses federais para custeio e pesquisa subiram para R$ 370 milhões, e a previsão para 2026 é de R$ 410 milhões.

A escolha, para o Brasil, é simples. Ou trata a Embrapa como o ativo estratégico que ela é – financiando-a com previsibilidade, blindando sua governança e permitindo que continue a produzir ciência tropical de classe mundial – ou aceita perder a liderança construída ao longo de meio século. “A necessidade faz o sapo pular”, dizia Eliseu Alves, mentor da instituição. Hoje, a necessidade é do Brasil, que depende dessa engrenagem científica para sustentar sua segurança alimentar, suas exportações e sua reputação ambiental.

Se quisermos salvar o futuro, precisamos antes salvar a Embrapa, celebrando seu legado e garantindo os recursos para que ela continue a fazer aquilo que o Brasil, como poucos países – ou nenhum –, conseguiu: combinar produtividade, sustentabilidade e inclusão tecnológica numa das maiores histórias de sucesso do mundo em desenvolvimento.

Renda comprometida

Por O Estado de S. Paulo

Vivendo para pagar dívidas, brasileiro sonha com guardar dinheiro em 2026

Pesquisa recente do Datafolha revelou que o principal objetivo do brasileiro para 2026 é conseguir guardar dinheiro. Para 44% dos entrevistados pelo instituto, economizar é a grande meta para o novo ano, à frente de outras prioridades como passar mais tempo com a família e amigos (37%) e iniciar uma atividade física (25%).

A grande prioridade da população para este ano está fortemente relacionada ao estado de aperto financeiro dos cidadãos do País.

De acordo com o Banco Central, o endividamento das famílias em outubro situou-se em 49,3%, maior nível desde novembro de 2022. Já o comprometimento de renda dos lares brasileiros em outubro atingiu 29,4%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2011.

Por comprometimento entende-se o quanto da renda mensal de uma família já está destinado ao pagamento de dívidas, por exemplo. O maior comprometimento de renda captado pelo Banco Central ocorre em um momento de juros elevados e de grande disponibilidade de crédito.

É verdade que o estoque de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) vem desacelerando, mas em ritmo lento. A expansão no período de 12 meses encerrado em novembro foi de 9,5%, ainda bastante elevada.

O estímulo ao crédito é uma das marcas das gestões petistas, para quem tudo o que a população mais deseja é gastar como se não houvesse amanhã.

Os dados divulgados pelo Banco Central, porém, deveriam acender, ao menos, um sinal amarelo, uma vez que a economia já está desaquecendo por conta do choque de juros promovido pela autoridade monetária para conter a inflação.

Lentamente, a Selic a 15% ao ano vem trazendo a inflação para baixo, mas ainda muito perto do teto da meta de 4,5%. Com juros em patamar tão elevado, a atividade econômica vem perdendo força, como era de se esperar. É o preço que se paga para conter a sanha gastadora da gestão petista.

Nesse contexto, a pujança do mercado de trabalho também tende a perder força. É ilusório acreditar que os níveis elevados de emprego formal se manterão ao longo dos próximos meses. Além disso, apesar de vir batendo recordes nos últimos trimestres, a renda média da população (R$ 3.528 em outubro) ainda é muito baixa.

Tudo somado, os recordes de renda do trabalho assalariado e do mercado de trabalho não exatamente têm trazido alívio ao bolso da população, que se vê mais endividada mesmo em um cenário pintado como róseo pelo governo.

Não é à toa que o grande desejo dos brasileiros para este ano seja economizar, tarefa que o próprio governo torna mais complicada, uma vez que tudo que a gestão petista faz é criar novas linhas de crédito consignado e direcionado. Mesmo que as taxas dessas modalidades tendam a ser mais baixas, elas também se encontram bastante altas.

Infelizmente, para o brasileiro esperançoso de uma vida financeira mais leve em 2026, o cenário não é lá muito alentador. Ainda que a tendência para a Selic seja de queda, os juros devem seguir acima dos dois dígitos, uma má notícia para famílias com a renda comprometida em uma economia que perde vigor.

Violência no trânsito mata mais, mas tem menos atenção

Por Valor Econômico

Além da tragédia pessoal e familiar, as mortes no trânsito têm elevado impacto econômico para o Brasil

A violência ligada ao crime organizado no Brasil ganhou destaque após a operação policial que resultou num recorde de 122 pessoas mortas (sendo cinco policiais) no Rio de Janeiro, no fim de outubro. A segurança pública se tornou a segunda principal preocupação dos brasileiros, depois da saúde e à frente da economia, segundo pesquisas. Diante do ano eleitoral, os governos estaduais e federal e o Congresso se mobilizam para dar respostas à sociedade. Mas outra forma de morte violenta continua ceifando a vida de dezenas de milhares de brasileiros todos os anos sem que haja o mesmo nível de clamor popular nem reações tempestivas das autoridades. Somos um dos países onde o trânsito mais mata no mundo.

A mortandade no trânsito, por acidentes ou atropelamentos, constitui uma chaga possivelmente menos difícil de resolver, ou ao menos de mitigar, do que a da violência da criminalidade. Ainda assim, enquanto os homicídios estão em queda no Brasil desde 2020, as mortes nas nossas ruas, avenidas e estradas vêm aumentando desde então.

O pico dessas mortes ocorreu em 2012, com 44.812. A partir de 2015 os números melhoraram até atingir 31.945 em 2020. Depois disso houve piora em todos os anos. Em 2023, o país teve 34.881 vítimas mortas no trânsito — último ano para o qual há dados do Ministério da Saúde. Informações de outras fontes sugerem que o número voltou a crescer em 2024. É o que indica o mapa da segurança pública do Ministério da Justiça, que detectou 8,94% a mais de mortes em acidentes de trânsito no ano passado (os números absolutos não são comparáveis com os do Ministério da Saúde). No mesmo sentido, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou em outubro um aumento de quase 10% nas mortes nas rodovias em 2024.

Um estudo do Ipea relacionou o aumento de mortes no trânsito a partir de 2021 à retomada da economia. A melhora na renda gera crescimento da demanda por transporte, o que coloca mais veículos em circulação, e isso acaba gerando mais acidentes fatais. Do mesmo modo, a queda das mortes entre 2015 e 2020 teria tido como principal fator a desaceleração econômica naquele período e a pandemia de covid-19, que reduziu a circulação de veículos.

Mas a melhora da renda não é o único fator que explica essa oscilação no balanço de mortes no trânsito. Políticas públicas também influenciam. O aumento do efetivo policial, por exemplo, ajuda a reduzir a taxa de mortes, diz o Ipea. Já a disparada no número de motocicletas em circulação, em parte devido ao crescimento das plataformas de entrega, eleva a mortalidade (quase 39% dos mortos em 2023 eram motociclistas). Outro estudo aponta que a decisão do governo de Jair Bolsonaro, em 2019, de proibir a PRF de fiscalizar a velocidade nas estradas fez crescer o número de acidentes com vítimas naquele ano.

O exemplo mais clamoroso do impacto de políticas públicas é o feito obtido por Helsinki. A capital da Finlândia, que tem cerca de 690 mil habitantes, conseguiu ficar por mais de um ano sem uma única morte no trânsito, entre julho de 2024 e agosto de 2025. Para efeito de comparação, a cidade de Cuiabá, com população similar, teve 49 mortes no trânsito só nos primeiros 7 meses deste ano. Esse resultado excepcional de Helsinki se deve à aplicação do Vision Zero, uma estratégia de segurança viária criada na Suécia nos anos 90 e cujo objetivo é justamente zerar as mortes e ferimentos graves, sob o princípio de que nenhuma morte no trânsito é aceitável.

Entre as principais medidas adotadas estão: a redução dos limites de velocidade urbanos (mais de metade das ruas de Helsinki tem limite de 30 km/h); a reforma da infraestrutura viária para aumentar a segurança de pedestres e ciclistas, o que inclui ciclofaixas segregadas, travessias elevadas, calçadas largas, iluminação melhor e ênfase no transporte coletivo; o reforço de fiscalização, com o uso intensivo de câmeras e radares; e campanhas de informação e conscientização.

Acabar com a alta da mortalidade no trânsito no Brasil também exigirá esse tipo de esforço integrado. Porém, o que se percebe é que não só não tem havido atenção a essas medidas, como algumas delas até mesmo foram afrouxadas pelos vários níveis de governo. Foi o caso da pontuação para ter a CNH suspensa, que foi elevada em 2021. Isso acaba estimulando a infração, ao dificultar a punição. O Atlas da Violência, também do Ipea, destaca ainda que os recursos destinados à segurança no trânsito tiveram cortes significativos nos últimos anos, o que denota a falta de prioridade.

Além da tragédia pessoal e familiar, as mortes no trânsito têm elevado impacto econômico para o Brasil. Somente em 2024, o SUS gastou R$ 449 milhões com internações de vítimas de acidentes de trânsito no Brasil, segundo levantamento do Ipea com base no Datasus. Esse valor inclui desde atendimentos de emergência até reabilitação prolongada e fornecimento de órteses e próteses. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) estima que os acidentes de trânsito consomem entre 1% e 3% do PIB nos países da América Latina.

O sentido de urgência que vem sendo dado ao combate à criminalidade precisa abarcar também a questão da violência no trânsito. E a aceleração das mortes nas ruas e estradas tem de ganhar mais atenção no radar das autoridades.

Crise climática no Brasil: 2026 precisa ser um ano de ações

Por Correio Braziliense

Os ciclos de resultados tímidos devem ser encerrados, abrindo espaço para um processo transparente de transição e preservação

Em 2025, o Brasil esteve no centro das discussões globais sobre o meio ambiente com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, no Pará, no mês de novembro. Mais do que uma honra diplomática, sediar o evento colocou o país, dono da maior floresta tropical do planeta, com a responsabilidade de apresentar alternativas para a preservação. Agora, com o início de 2026, a necessidade de escolher entre retórica e ações se apresenta de forma urgente. A virada de calendário, que renova promessas, também traz a pressão por soluções.

Ontem, já nas primeiras horas do novo ano, os brasileiros enfrentaram altas temperaturas, um dos reflexos da crise do clima que vem se intensificando. Fato é que, pelo imenso território nacional, os eventos extremos se acumulam: são secas prolongadas, enchentes devastadoras e ondas de calor e de frio recordes que deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da rotina da população. Além da percepção do dia a dia, o consenso científico prevalece, os dados surgem em abundância e os alertas são reiterados, comprovando que o que falta não é diagnóstico, mas execução.

Longe de ser um tema abstrato ou ideológico, as alterações climáticas impactam a vida de todos e ignorá-las tem custos econômico, social e humano crescentes. Diante disso, os discursos solenes que se estendem sobre esses problemas já não cabem mais na realidade brasileira. As evidentes contradições espalhadas pelo país, que ainda convive com desmatamento, garimpo ilegal e conflitos socioambientais persistentes, precisam ser sanadas.

Nas últimas décadas, planos foram anunciados com prazos longos e resultados insuficientes. Os compromissos firmados se multiplicaram, porém não se concretizaram da maneira esperada e com a emergência que as mudanças climáticas demandam. No papel — e também em projetos bem-sucedidos — o Brasil já demonstrou possuir capacidade para dar respostas à altura dos desafios. Só que não basta debater e elaborar metas, é fundamental que elas sejam contempladas em orçamentos públicos para serem desenvolvidas. Nesse campo, o financiamento, a fiscalização contínua e as políticas de prevenção dependem da integração entre União, estados e municípios.

Do lado da iniciativa privada, a questão não deve se limitar às estratégias de imagem: a preocupação com o verde precisa orientar os investimentos, as cadeias produtivas e a inovação. Da mesma forma, a sociedade deve ser chamada à corresponsabilidade, sem tratar o assunto como agenda futura. Ao contrário. Em mais um ano que começa, os brasileiros têm a chance de exigir que o país se reposicione internamente em relação à crise climática, passando a ser um exemplo para o mundo. Biodiversidade e conhecimento técnico para transformar esse potencial em soluções concretas existem de sobra.

A proteção plena do meio ambiente não pode mais esperar. Os ciclos de resultados tímidos devem ser encerrados, abrindo espaço para um processo transparente de transição e preservação. Colocar esse cuidado na rotina nacional é a saída para garantir qualidade de vida. As escolhas de cada cidadão — especialmente políticas, com o voto nas eleições de outubro próximo — precisam ser tomadas com extrema consciência ambiental.

Os números inaceitáveis dos maus-tratos de animais

Por O Povo (CE)

O quadro levantado pelo O POVO e exposto em material especial assinado pela repórter Gabriela Almeida é mais um dos indicadores da doença social que hoje se espraia pelas áreas diversas e envolve situações variadas na realidade que nos cerca. É inexplicável o aumento de 10% no registro de denúncias de maus-tratos contra animais no Estado no ano de 2025, em comparação com 2024, considerado apenas o período entre janeiro e setembro.

Há possibilidade, portanto, de a situação demonstrar-se ainda pior quando os números forem atualizados. O levantamento da repórter mostra que foram 874 casos em 2025 contra 794 do ano imediatamente anterior, observados, claro, apenas os nove primeiros meses de cada período. Quando o estudo localiza somente o que acontece em Fortaleza o resultado obtido é ainda mais preocupante, com aumento de 13% nas ações do tipo denunciadas.

Os dados oficiais, fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, dizem respeito a vários episódios de maus tratos que se verificaram no cotidiano das cidades cearenses. Parece evidente que a violência contra animais, que se manifesta das formas mais diversas, do simples abandono à agressão física, expressa um quadro que marca o comportamento da sociedade brasileira, trata-se, portanto, de um fenômeno nacional. Embora, claro, estes números apresentados expressem somente a realidade local.

As estatísticas que produzimos quando se trata da temática da segurança pública são preocupantes em praticamente todos os aspectos e parece justo sugerir que se debata o assunto com seriedade maior. Ainda mais porque isso envolve lidar com seres que, em geral, exigem pouco para terem suas necessidades básicas atendidas.

É um problema, dos muitos que temos na sociedade desarranjada dos dias atuais, que como primeiro passo indispensável no rumo de uma solução precisa que façamos, nós mesmos, uma reflexão sobre o comportamento que costumamos adotar diante dele. A partir disso, sim, façamos a cobrança necessária às autoridades e às instituições públicas que têm responsabilidade com o quadro. E até mesmo se ele tem a ver com a falta de leis ou baixa aplicação das que já existem.

Certo mesmo é que não se pode ter como normal mais esse retrato trágico do nosso comportamento social. Parece injusto com abnegados militantes da causa ou com agentes públicos que desenvolvem ações diárias de defesa dos animais, em relação aos maus tratos e violência de que são vítimas, entregar à ação quase heroica que desenvolvem a busca de uma reversão.

Trata-se de uma tragédia que todos podemos ajudar a combater, fazendo cada um a sua parte no dia-a-dia e, quando necessário, denunciando todas situação de que for testemunha. Parece pouco, mas já seria muito. 

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