Educação reprova governo do Rio e aprova o do Pará
O Globo
Escolas fluminenses foram as que mais caíram
em ranking; as paraenses, as que mais subiram
No próximo dia 4 de outubro, mais de 150
milhões de brasileiros comparecerão às urnas para escolher deputados distritais
e estaduais, vice-governadores, governadores, deputados federais, senadores,
vice-presidente e presidente. Os atuais governadores serão candidatos ou
apoiarão candidatos à própria sucessão. Antes de votar, portanto, é fundamental
o eleitor avaliar o desempenho dos governos estaduais na área mais crítica para
o desenvolvimento do país — a educação.
A ONG Todos Pela Educação analisou uma amostra de 16 estados brasileiros cujos governadores estão no poder há mais de quatro anos — nenhum poderá argumentar que não teve tempo de pôr em prática suas ideias para melhorar a educação. As 16 unidades da Federação levadas em conta na análise formam um quadro representativo da situação do ensino médio no Brasil. Há mais de um estado por região: Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro no Sudeste; Paraná e Rio Grande do Sul no Sul; Goiás e Mato Grosso no Centro-Oeste; Paraíba e Rio Grande do Norte no Nordeste; Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins no Norte; além do Distrito Federal. Juntos, são estados onde vive mais da metade da população brasileira.
O maior destaque negativo é o Rio de Janeiro.
Foi o único estado a registrar, entre 2017 e 2023, retrocesso no indicador de
aprendizagem adotado para medir a evolução do ensino médio, elaborado com a
ajuda do conjunto de testes conhecido como Sistema de Avaliação da Educação
Básica (Saeb). E foi o estado que caiu mais posições entre todas as unidades da
Federação, do 15º lugar para o vexatório 25º.
A última bateria de provas do Saeb foi
realizada no fim de 2025, e seus resultados serão divulgados provavelmente
apenas depois das eleições. É possível que a avaliação mais recente, ainda
inédita, acabe revelando um quadro diferente ao comparar 2023 com 2025. Mas,
com os dados disponíveis, a conclusão é uma só: o governo do Rio de Janeiro
está reprovado em educação.
Os estados cuja nota do Saeb subiu acima da
média nacional entre 2017 e 2023 são, em contraste, considerados destaques
positivos. O Pará, apesar da nota ainda abaixo da média nacional, apresentou o
maior avanço entre todas as unidades federativas analisadas. Saiu da vergonhosa
27ª posição para a 16ª. A trajetória da Paraíba foi semelhante. Registrou o
segundo maior avanço, do 23º lugar para o 18º.
Goiás chegou ao topo do ranking, depois de
ocupar a terceira colocação em 2017. Também entre os melhores índices do país,
o Paraná avançou do sétimo ao segundo lugar. Espírito Santo, Rio Grande do Sul
e Minas Gerais continuaram acima da média nacional, mas obtiveram melhoras
tímidas e perderam posições. Os capixabas caíram do primeiro ao terceiro lugar,
os gaúchos do segundo ao quarto, e os mineiros do quarto ao sétimo. Rondônia,
Acre, Distrito Federal, Mato Grosso e Tocantins também obtiveram desempenho
positivo, mas ainda insuficiente para alcançar a média nacional. É preciso que
os futuros governadores saibam se inspirar em todos os exemplos positivos. No
caso do Rio, é dever do governo eleito recuperar o tempo perdido e afastar o
espectro do retrocesso.
Desenrola para microempreendedor não combate
causa do endividamento
Por O Globo
Desequilíbrio fiscal é principal razão para a
necessidade de sucessivos programas de redução de dívidas
O governo prepara uma nova versão do programa
Desenrola Brasil. Desta vez, o foco serão micro e pequenas empresas e
microempreendedores individuais (MEIs). A intenção é oferecer entre R$ 1,7
bilhão e R$ 1,8 bilhão para refinanciar dívidas, com descontos negociados na
plataforma do programa. Os empréstimos terão respaldo do Fundo de Garantia de
Operações, administrado pelo Banco do Brasil. É mais uma tentativa de impulsionar
a economia facilitando o crédito. E mais uma tentativa de atenuar os efeitos,
em vez de combater as causas do endividamento.
Em 2023, depois de lançado, o Desenrola
permitiu que 15 milhões de pessoas físicas renegociassem dívidas de R$ 53,2
bilhões. A estatística é eloquente, mas o principal motivo dos calotes continua
intocado: a resistência do governo à responsabilidade fiscal acarreta a
necessidade de manter juros altos para conter a inflação. Novos Desenrola virão
enquanto houver desequilíbrio nas contas públicas.
No ano passado, o governo promoveu o
Desenrola Pequenos Negócios, com renegociação de R$ 7,5 bilhões em dívidas de
mais de 122 mil MEIs, micro e pequenas empresas com instituições financeiras.
Houve incentivos tributários para que bancos oferecessem condições favoráveis
aos devedores. Os descontos variaram entre 20% e 90%. Apesar disso, pelos dados
do Banco Central, a proporção de empréstimos a micro, pequenas e médias
empresas com atraso de 90 dias ou mais só aumentou de janeiro a outubro — de
4,5% para 5,6%. De acordo com a Serasa Experian, há 7,9 milhões de CNPJs com
alguma dívida em atraso, a maioria empresas de menor porte. Os atrasados somam
mais de R$ 200 bilhões. Na média, são dívidas de R$ 24 mil que acumulam 7,2
prestações não pagas, cada uma ao redor de R$ 3,3 mil. O maior credor é setor
de serviços, seguido de bancos e cartões de crédito.
Desta vez, todo tipo de crédito em atraso
poderá ser repactuado na nova plataforma do governo. Na versão até agora
conhecida, menos generosa, o programa deverá representar um alívio para as
empresas mais necessitadas. Na renegociação, a taxa estipulada é de cerca de
20% ao ano, para uma inflação que roda na faixa de 4,5% —ou mais de 15% em
termos reais.
O maior risco desse tipo de programa é criar aquilo que os economistas chamam de “risco moral”, um incentivo para que os beneficiados contraiam ainda mais dívidas, já que cedo ou tarde confiam poder renegociá-las a juros mais baixos. Quem paga o custo desse tipo de distorção é o resto do mercado, que arca com prestações em dia, e o contribuinte, chamado a financiar a bondade do governo. Com juros reais entre os mais altos do mundo, é esperado que a inadimplência cresça no futuro. Tal situação não será resolvida pelos programas Desenrola de vários tipos, por mais bem-intencionados que sejam. Só quando houver equilíbrio nas contas públicas e uma política fiscal sustentável o juro poderá cair, reduzindo o risco de calote para todos — a começar pelo próprio governo.
Desemprego em queda, seguro-desemprego em
alta
Por Folha de S. Paulo
Programa eleva gastos mesmo com mercado de
trabalho aquecido, sinalizando ineficiência da política social
Proteção aos mais carentes deve ser
prioridade num país tão desigual, mas é preciso mais foco e menos redundância
no combate à pobreza
A taxa brasileira de desemprego caiu a 5,2%
no trimestre encerrado em novembro, menor cifra registrada na série
histórica do IBGE que começa em 2012. O indicador segue trajetória de queda
quase ininterrupta desde o início de 2021, quando marcava 14,9% ainda sob o
impacto da pandemia.
É paradoxal que, num momento tão favorável do
mercado de trabalho, os gastos públicos com seguro-desemprego estejam em alta.
Segundo dados do Tesouro Nacional corrigidos pela inflação,
esses desembolsos somaram R$ 57,5 bilhões nos 12 meses encerrados em novembro,
ante um total de R$ 47,2 bilhões em 2022 —ano que fechou com desocupação em
torno de 8%.
Parte da explicação para a distorção está em
conhecidos problemas nas regras do programa, que motivaram ajustes parciais há
pouco mais de uma década. Num exemplo, trabalhadores podem considerar vantajoso
passar temporariamente para a informalidade a acumular os rendimentos da nova
atividade com o seguro-desemprego.
Outro fator a inflar os gastos é a política
do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
de conceder reajustes
acima da inflação para o salário mínimo, ao qual estão vinculados
benefícios trabalhistas, previdenciários e assistenciais.
Nos dois casos se veem ineficiências da
despesa social —que, corretamente, é a prioridade do Estado num país de
desigualdades vexaminosas. O gasto é elevado, mas por vezes de modo
insustentável e nem sempre destinado às devidas prioridades.
Por metodologia que permite comparações
internacionais, o setor público brasileiro despende o equivalente a 16,8% do
Produto Interno Bruto em proteção social. Numa amostra de países selecionados
em relatório do Tesouro, a cifra supera a média das economias avançadas (15,2%
do PIB)
e, por larga margem, a das emergentes para as quais há dados disponíveis
(8,9%).
Entretanto nossos recursos são concentrados
na terceira idade (9,1% do PIB), em razão principalmente do pagamento de
aposentadorias acima dos padrões globais. Esses montantes hoje são inflados
pelos aumentos reais do salário mínimo, mais caros e menos eficazes no combate
à pobreza que o Bolsa Família —por sinal elevado de 0,4% para 1,4% do produto
nos últimos anos.
Por fim, crescem de forma acelerada os gastos
com benefícios de prestação continuada (BPC) para idosos e deficientes de baixa
renda, que em valores corrigidos chegaram a R$ 126,3 bilhões nos 12 meses
encerrados em novembro, ante R$ 78,8 bilhões em 2022.
A política social precisa de mais foco e
menos redundância, pois não será possível elevar eternamente as despesas com
todos os programas. Na situação atual o governo já não consegue fechar suas
contas mesmo com expressiva alta das receitas, o que pressiona a inflação e
obriga o Banco Central a
manter juros nas
alturas —prejudicando, sobretudo, os estratos mais carentes.
Mais um ano de clima extremo
Por Folha de S. Paulo
Fenômenos graves de calor e chuvas marcaram
2025; é preciso aliar descarbonização e crescimento econômico
Foram registrados 157 eventos meteorológicos
extremos no mundo; dos 22 analisados, em 17 a influência da mudança climática
foi detectada
Eventos climáticos extremos são os sinais
mais evidentes e funestos do aquecimento global incitado pela queima de
combustíveis fósseis.
O mais recente relatório de avaliação do
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU mostra que secas,
chuvas e ondas de calor começaram
a ficar mais frequentes e intensas em meados do século 20, com aceleração desde
2000.
No ano recém-encerrado, não foi diferente.
Estudo do World Weather Attribution, consórcio de cientistas liderado pela
universidade britânica Imperial College, registrou
157 eventos extremos no mundo em 2025. Dos 22 analisados, em 17 a
influência da mudança
climática foi detectada.
Ondas de calor (49) e inundações (49)
representam 62% do total, seguidas por tempestades (38), incêndios florestais
(11), secas (7) e ondas de frio (3).
Segundo a Organização Meteorológica Mundial,
o período de 2015 a 2024 foi o mais quente desde 1850, com recorde em 2024.
Estima-se que 2025 foi o segundo ou terceiro ano mais quente.
O Acordo de
Paris estabeleceu a meta de manter a alta
da temperatura média global abaixo de 2°C até 2100,
preferencialmente abaixo de 1,5ºC, em relação ao período pré-industrial
(1850-1900).
Já é consenso que esse objetivo provavelmente
não será alcançado, e a elevação rondará 2,6ºC. Sem o acordo, porém, o cenário
seria ainda pior (4ºC). Atualmente, o planeta está 1,3ºC acima do intervalo de
referência.
Por meio de modelos projetivos, o WWA
confirma a influência das emissões de carbono.
A onda de calor que atingiu o Sudão em
2025, com 40ºC em sete dias, seria menor em 4ºC antes do início da mudança
climática e chegaria a 42ºC no futuro estimado com alta de aquecimento global
de 2,6ºC. O evento, que na era pré-industrial ocorreria a cada 1.600 anos, hoje
pode se dar a cada biênio e, no futuro, ser anual.
O relatório alerta ainda para desigualdades.
O impacto desses fenômenos é maior em países pobres ou em desenvolvimento, que
também carecem de tecnologias de monitoramento de dados.
Por isso os maiores desafios na
descarbonização, necessária para cumprir o Acordo de Paris, são aliá-la ao
crescimento econômico nessas regiões e alcançar consenso sobre financiamento
por parte dos países ricos. Enquanto as emissões só crescem, governos precisam
agir com planos de adaptação e mitigação, o que também exige recursos.
Sem um esforço global mais pragmático e efetivo nesse sentido, a crise do clima produzirá tragédias a cada novo ano.
É preciso valorizar as instituições
Por O Estado de S. Paulo
Executivo, Legislativo e Judiciário dão
razões para o ceticismo social, mas cabe à sociedade reagir com engajamento
cívico, em vez de sucumbir ao canto destrutivo dos inimigos da democracia
A desconfiança nas instituições republicanas
deixou de ser um sentimento difuso para se tornar um fato indisputável da vida
nacional. Basta olhar para a Praça dos Três Poderes para encontrar, em cada
edifício, razões que alimentam o ceticismo de amplos segmentos da sociedade.
Executivo, Legislativo e Judiciário passam por crises próprias, mas
convergentes em dois pontos fundamentais: o distanciamento dos interesses
nacionais e o desdém pela opinião pública, como se pairassem olimpicamente
acima de controles, limites e críticas. O resultado é o desgaste da democracia
representativa.
No Palácio do Planalto, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva volta a ser assombrado pelo tema que mais sensivelmente
marca os governos do PT: corrupção. As suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da
Silva, o Lulinha, na fraude aos aposentados e pensionistas do INSS – ainda que
o primogênito do presidente da República não seja investigado – aguçam a
memória de milhões de brasileiros. A mera possibilidade de ter havido relações
impróprias entre operadores do esquema criminoso, como o tal “Careca do INSS”,
e um de seus filhos impõe a Lula o dever de dar explicações. Não se trata aqui
de condenar ninguém previamente, mas de enfatizar que a credibilidade do chefe
de Estado e de governo não admite sombras.
No Congresso, a crise é estrutural e antiga.
O manejo de bilhões de reais em emendas parlamentares, frequentemente sem
transparência ou coerência programática, transformou o Orçamento em instrumento
de poder corporativo de deputados e senadores. Some-se a isso reiteradas
manifestações do espírito de corpo consubstanciadas em medidas de autoproteção,
como a infame PEC da Blindagem, que, malgrado ter sido engavetada por pressão
social, foi concebida para dificultar investigações policiais contra
parlamentares.
O Supremo Tribunal Federal, por sua vez,
enfrenta o mais severo abalo em sua credibilidade em toda a história
republicana. A expansão de competências, com avanços sobre prerrogativas dos
demais Poderes, tem alimentado a percepção de um ativismo aparentemente sem
freios. A isso se somam comportamentos incompatíveis com a sobriedade exigida
dos membros da Corte, como a presença em eventos empresariais regados a
conflitos de interesses, entrevistas à imprensa opinando sobre tudo e sobre todos
e suspeitas recentes envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli
e o Banco Master. Nenhum tribunal pode prescindir da confiança dos
jurisdicionados – e esta depende tanto da correção de suas decisões quanto da
aparência de imparcialidade de seus magistrados.
Diante de tudo isso, a descrença parece
compreensível. Mas é precisamente aí que reside o perigo maior para a
democracia representativa. A desconfiança generalizada nas instituições é o
sonho dourado dos liberticidas, dos que pregam a destruição da ordem
constitucional em nome de soluções purgadoras que mal disfarçam o
autoritarismo. A história recente do País demonstra aonde esse caminho pode
levar. Sem instituições sólidas, não há liberdade, há arbítrio.
É preciso recordar o óbvio: nenhuma
autoridade exerce seu cargo na República por acaso. Presidentes e parlamentares
foram eleitos pelo voto popular; ministros do Supremo chegaram à Corte por
indicação do chefe do Executivo e aprovação do Senado. As instituições são
imperfeitas porque humanas, mas são elas que estruturam o pacto social
consagrado na Constituição. Desacreditá-las, portanto, é enfraquecer os
próprios instrumentos de correção de seus desvios.
Nesse sentido, a depuração institucional não
passa pela negação da política, mas por seu exercício mais qualificado. Cabe
aos cidadãos transformar a descrença em energia cívica, não em apatia. Em
termos práticos, isso significa votar com responsabilidade, mobilizar
organizações da sociedade civil, exigir transparência e mais responsabilidade
de seus representantes. Ademais, apoiar a imprensa profissional, livre e
vigilante. Não há atalhos.
Ao mesmo tempo, é imperativo que os Poderes
recobrem o prumo. O Executivo deve governar pelo exemplo. O Legislativo precisa
reencontrar sua função representativa tendo o interesse público como norte. E o
Judiciário tem a obrigação de respeitar seus limites institucionais.
Um milagre chamado Embrapa
Por O Estado de S. Paulo
Laboratório que alavanca a economia e exemplo
no ecossistema das estatais, a empresa enfrenta um teste duro: recuperar
investimentos, blindar a ciência e preservar 50 anos de conquistas
Um estudo de pesquisadores das universidades
MIT, Princeton e Notre Dame, além do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), oferece o retrato mais preciso já feito sobre o papel da pesquisa e
desenvolvimento na revolução agrícola brasileira. As cifras impressionam: em
cinco décadas, a produtividade agrícola aumentou extraordinariamente. E o
investimento público em pesquisa respondeu por mais da metade desse salto. Para
cada R$ 1 investido, o retorno foi de R$ 17. O Brasil é um caso exemplar de
como uma política pública pode transformar um país em desenvolvimento. E esse
caso tem nome: Embrapa.
Criada em 1973, a estatal rompeu com o padrão
de burocracias ineficientes e adotou métodos que ainda hoje soam
revolucionários: meritocracia radical, envio maciço de pesquisadores para
doutorados no exterior, autonomia científica, cooperação internacional e uma
rede descentralizada de 43 unidades espalhadas por zonas ecológicas. Os
pesquisadores demonstraram que, se a Embrapa tivesse seguido o modelo
centralizado típico de tantos órgãos brasileiros, teria produzido menos da
metade de seus ganhos.
A combinação desses fatores gerou algo
inédito: ciência tropical de ponta, capaz de adaptar sementes, corrigir solos,
fixar nitrogênio e reinventar o Cerrado, transformando o Brasil de importador
crônico em potência agrícola. Em poucas décadas, o País se tornou referência
mundial de produtividade em clima tropical – um feito raro, reconhecido até por
concorrentes internacionais.
Essa trajetória contrasta com a anemia da
indústria nacional após décadas de protecionismo, reservas de mercado e
políticas industriais erráticas. Enquanto fábricas se tornavam menos
produtivas, o agro – ancorado em ciência, competição e empreendedorismo – abriu
mercados, bancou a dívida externa e sustentou o crescimento do País. A lição é
cristalina: quando o Estado desenha instituições racionais e se afasta da
tentação dirigista, o Brasil prospera.
Mas o estudo chega num momento
desconfortável. A Embrapa vive sua década mais difícil. Há dez anos, o custeio
anual ultrapassava R$ 800 milhões. Em 2023 e 2024, caiu para a casa de R$ 250
milhões. Não surpreendem os relatos de laboratórios atrasando contas de luz e
pesquisadores comprando insumos do próprio bolso. Iniciativas meritórias de
parcerias privadas confundem-se com ofertas de fundos pouco transparentes, que
podem distorcer prioridades e submeter uma instituição de vocação pública à
lógica de grupos específicos. Para um país cuja vantagem estratégica depende de
ciência agrícola, essa negligência é um ato de miopia que beira a
irresponsabilidade.
Num mundo pressionado por mudanças climáticas,
insegurança alimentar e tensões geopolíticas, o Brasil possui uma vantagem
rara: pode expandir a produção agrícola sem expandir o desmatamento. Mas isso
exige exatamente o que hoje falta: pesquisa, inovação, biotecnologia,
inteligência artificial aplicada ao campo, novos cultivos tolerantes ao
estresse climático. A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, alerta que, sem
pelo menos R$ 500 milhões anuais de investimentos estáveis, o País sentirá os
efeitos em cinco ou dez anos – quando será tarde demais.
Felizmente, Brasília dá sinais de ter
compreendido a dimensão do risco. Em 2025, os repasses federais para custeio e
pesquisa subiram para R$ 370 milhões, e a previsão para 2026 é de R$ 410
milhões.
A escolha, para o Brasil, é simples. Ou trata
a Embrapa como o ativo estratégico que ela é – financiando-a com
previsibilidade, blindando sua governança e permitindo que continue a produzir
ciência tropical de classe mundial – ou aceita perder a liderança construída ao
longo de meio século. “A necessidade faz o sapo pular”, dizia Eliseu Alves,
mentor da instituição. Hoje, a necessidade é do Brasil, que depende dessa
engrenagem científica para sustentar sua segurança alimentar, suas exportações
e sua reputação ambiental.
Se quisermos salvar o futuro, precisamos antes
salvar a Embrapa, celebrando seu legado e garantindo os recursos para que ela
continue a fazer aquilo que o Brasil, como poucos países – ou nenhum –,
conseguiu: combinar produtividade, sustentabilidade e inclusão tecnológica numa
das maiores histórias de sucesso do mundo em desenvolvimento.
Renda comprometida
Por O Estado de S. Paulo
Vivendo para pagar dívidas, brasileiro sonha
com guardar dinheiro em 2026
Pesquisa recente do Datafolha revelou que o
principal objetivo do brasileiro para 2026 é conseguir guardar dinheiro. Para
44% dos entrevistados pelo instituto, economizar é a grande meta para o novo
ano, à frente de outras prioridades como passar mais tempo com a família e
amigos (37%) e iniciar uma atividade física (25%).
A grande prioridade da população para este
ano está fortemente relacionada ao estado de aperto financeiro dos cidadãos do
País.
De acordo com o Banco Central, o
endividamento das famílias em outubro situou-se em 49,3%, maior nível desde
novembro de 2022. Já o comprometimento de renda dos lares brasileiros em
outubro atingiu 29,4%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2011.
Por comprometimento entende-se o quanto da
renda mensal de uma família já está destinado ao pagamento de dívidas, por
exemplo. O maior comprometimento de renda captado pelo Banco Central ocorre em
um momento de juros elevados e de grande disponibilidade de crédito.
É verdade que o estoque de crédito do Sistema
Financeiro Nacional (SFN) vem desacelerando, mas em ritmo lento. A expansão no
período de 12 meses encerrado em novembro foi de 9,5%, ainda bastante elevada.
O estímulo ao crédito é uma das marcas das
gestões petistas, para quem tudo o que a população mais deseja é gastar como se
não houvesse amanhã.
Os dados divulgados pelo Banco Central,
porém, deveriam acender, ao menos, um sinal amarelo, uma vez que a economia já
está desaquecendo por conta do choque de juros promovido pela autoridade
monetária para conter a inflação.
Lentamente, a Selic a 15% ao ano vem trazendo
a inflação para baixo, mas ainda muito perto do teto da meta de 4,5%. Com juros
em patamar tão elevado, a atividade econômica vem perdendo força, como era de
se esperar. É o preço que se paga para conter a sanha gastadora da gestão
petista.
Nesse contexto, a pujança do mercado de
trabalho também tende a perder força. É ilusório acreditar que os níveis
elevados de emprego formal se manterão ao longo dos próximos meses. Além disso,
apesar de vir batendo recordes nos últimos trimestres, a renda média da
população (R$ 3.528 em outubro) ainda é muito baixa.
Tudo somado, os recordes de renda do trabalho
assalariado e do mercado de trabalho não exatamente têm trazido alívio ao bolso
da população, que se vê mais endividada mesmo em um cenário pintado como róseo
pelo governo.
Não é à toa que o grande desejo dos
brasileiros para este ano seja economizar, tarefa que o próprio governo torna
mais complicada, uma vez que tudo que a gestão petista faz é criar novas linhas
de crédito consignado e direcionado. Mesmo que as taxas dessas modalidades
tendam a ser mais baixas, elas também se encontram bastante altas.
Infelizmente, para o brasileiro esperançoso de uma vida financeira mais leve em 2026, o cenário não é lá muito alentador. Ainda que a tendência para a Selic seja de queda, os juros devem seguir acima dos dois dígitos, uma má notícia para famílias com a renda comprometida em uma economia que perde vigor.
Violência no trânsito mata mais, mas tem
menos atenção
Por Valor Econômico
Além da tragédia pessoal e familiar, as
mortes no trânsito têm elevado impacto econômico para o Brasil
A violência ligada ao crime organizado no
Brasil ganhou destaque após a operação policial que resultou num recorde de 122
pessoas mortas (sendo cinco policiais) no Rio de Janeiro, no fim de outubro. A
segurança pública se tornou a segunda principal preocupação dos brasileiros,
depois da saúde e à frente da economia, segundo pesquisas. Diante do ano
eleitoral, os governos estaduais e federal e o Congresso se mobilizam para dar
respostas à sociedade. Mas outra forma de morte violenta continua ceifando a
vida de dezenas de milhares de brasileiros todos os anos sem que haja o mesmo
nível de clamor popular nem reações tempestivas das autoridades. Somos um dos
países onde o trânsito mais mata no mundo.
A mortandade no trânsito, por acidentes ou
atropelamentos, constitui uma chaga possivelmente menos difícil de resolver, ou
ao menos de mitigar, do que a da violência da criminalidade. Ainda assim,
enquanto os homicídios estão em queda no Brasil desde 2020, as mortes nas
nossas ruas, avenidas e estradas vêm aumentando desde então.
O pico dessas mortes ocorreu em 2012, com
44.812. A partir de 2015 os números melhoraram até atingir 31.945 em 2020.
Depois disso houve piora em todos os anos. Em 2023, o país teve 34.881 vítimas mortas
no trânsito — último ano para o qual há dados do Ministério da Saúde.
Informações de outras fontes sugerem que o número voltou a crescer em 2024. É o
que indica o mapa da segurança pública do Ministério da Justiça, que detectou
8,94% a mais de mortes em acidentes de trânsito no ano passado (os números
absolutos não são comparáveis com os do Ministério da Saúde). No mesmo sentido,
a Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou em outubro um aumento de quase 10%
nas mortes nas rodovias em 2024.
Um estudo do Ipea relacionou o aumento de
mortes no trânsito a partir de 2021 à retomada da economia. A melhora na renda
gera crescimento da demanda por transporte, o que coloca mais veículos em
circulação, e isso acaba gerando mais acidentes fatais. Do mesmo modo, a queda
das mortes entre 2015 e 2020 teria tido como principal fator a desaceleração
econômica naquele período e a pandemia de covid-19, que reduziu a circulação de
veículos.
Mas a melhora da renda não é o único fator
que explica essa oscilação no balanço de mortes no trânsito. Políticas públicas
também influenciam. O aumento do efetivo policial, por exemplo, ajuda a reduzir
a taxa de mortes, diz o Ipea. Já a disparada no número de motocicletas em
circulação, em parte devido ao crescimento das plataformas de entrega, eleva a
mortalidade (quase 39% dos mortos em 2023 eram motociclistas). Outro estudo
aponta que a decisão do governo de Jair Bolsonaro, em 2019, de proibir a PRF de
fiscalizar a velocidade nas estradas fez crescer o número de acidentes com vítimas
naquele ano.
O exemplo mais clamoroso do impacto de
políticas públicas é o feito obtido por Helsinki. A capital da Finlândia, que
tem cerca de 690 mil habitantes, conseguiu ficar por mais de um ano sem uma
única morte no trânsito, entre julho de 2024 e agosto de 2025. Para efeito de
comparação, a cidade de Cuiabá, com população similar, teve 49 mortes no
trânsito só nos primeiros 7 meses deste ano. Esse resultado excepcional de
Helsinki se deve à aplicação do Vision Zero, uma estratégia de segurança viária
criada na Suécia nos anos 90 e cujo objetivo é justamente zerar as mortes e
ferimentos graves, sob o princípio de que nenhuma morte no trânsito é
aceitável.
Entre as principais medidas adotadas estão: a
redução dos limites de velocidade urbanos (mais de metade das ruas de Helsinki
tem limite de 30 km/h); a reforma da infraestrutura viária para aumentar a
segurança de pedestres e ciclistas, o que inclui ciclofaixas segregadas,
travessias elevadas, calçadas largas, iluminação melhor e ênfase no transporte
coletivo; o reforço de fiscalização, com o uso intensivo de câmeras e radares;
e campanhas de informação e conscientização.
Acabar com a alta da mortalidade no trânsito
no Brasil também exigirá esse tipo de esforço integrado. Porém, o que se
percebe é que não só não tem havido atenção a essas medidas, como algumas delas
até mesmo foram afrouxadas pelos vários níveis de governo. Foi o caso da
pontuação para ter a CNH suspensa, que foi elevada em 2021. Isso acaba
estimulando a infração, ao dificultar a punição. O Atlas da Violência, também
do Ipea, destaca ainda que os recursos destinados à segurança no trânsito
tiveram cortes significativos nos últimos anos, o que denota a falta de
prioridade.
Além da tragédia pessoal e familiar, as
mortes no trânsito têm elevado impacto econômico para o Brasil. Somente em
2024, o SUS gastou R$ 449 milhões com internações de vítimas de acidentes de
trânsito no Brasil, segundo levantamento do Ipea com base no Datasus. Esse
valor inclui desde atendimentos de emergência até reabilitação prolongada e
fornecimento de órteses e próteses. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas)
estima que os acidentes de trânsito consomem entre 1% e 3% do PIB nos países da
América Latina.
O sentido de urgência que vem sendo dado ao combate à criminalidade precisa abarcar também a questão da violência no trânsito. E a aceleração das mortes nas ruas e estradas tem de ganhar mais atenção no radar das autoridades.
Crise climática no Brasil: 2026 precisa ser
um ano de ações
Por Correio Braziliense
Os ciclos de resultados tímidos devem ser
encerrados, abrindo espaço para um processo transparente de transição e
preservação
Em 2025, o Brasil
esteve no centro das discussões globais sobre o meio ambiente com a realização
da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em
Belém, no Pará, no mês de novembro. Mais do que uma honra diplomática, sediar o
evento colocou o país, dono da maior floresta tropical do planeta, com a
responsabilidade de apresentar alternativas para a preservação. Agora, com o
início de 2026, a necessidade de escolher entre retórica e ações se apresenta
de forma urgente. A virada de calendário, que renova promessas, também traz a
pressão por soluções.
Ontem, já nas primeiras horas do novo ano, os
brasileiros enfrentaram altas temperaturas, um dos reflexos da crise do clima
que vem se intensificando. Fato é que, pelo imenso território nacional, os
eventos extremos se acumulam: são secas prolongadas, enchentes devastadoras e
ondas de calor e de frio recordes que deixaram de ser exceção e passaram a
fazer parte da rotina da população. Além da percepção do dia a dia, o consenso
científico prevalece, os dados surgem em abundância e os alertas são reiterados,
comprovando que o que falta não é diagnóstico, mas execução.
Longe de ser um tema abstrato ou ideológico,
as alterações climáticas impactam a vida de todos e ignorá-las tem custos
econômico, social e humano crescentes. Diante disso, os discursos solenes que
se estendem sobre esses problemas já não cabem mais na realidade brasileira. As
evidentes contradições espalhadas pelo país, que ainda convive com
desmatamento, garimpo ilegal e conflitos socioambientais persistentes, precisam
ser sanadas.
Nas últimas décadas, planos foram anunciados
com prazos longos e resultados insuficientes. Os compromissos firmados se
multiplicaram, porém não se concretizaram da maneira esperada e com a
emergência que as mudanças climáticas demandam. No papel — e também em projetos
bem-sucedidos — o Brasil já demonstrou possuir capacidade para dar respostas à
altura dos desafios. Só que não basta debater e elaborar metas, é fundamental
que elas sejam contempladas em orçamentos públicos para serem desenvolvidas.
Nesse campo, o financiamento, a fiscalização contínua e as políticas de
prevenção dependem da integração entre União, estados e municípios.
Do lado da iniciativa privada, a questão não
deve se limitar às estratégias de imagem: a preocupação com o verde precisa
orientar os investimentos, as cadeias produtivas e a inovação. Da mesma forma,
a sociedade deve ser chamada à corresponsabilidade, sem tratar o assunto como
agenda futura. Ao contrário. Em mais um ano que começa, os brasileiros têm a
chance de exigir que o país se reposicione internamente em relação à crise
climática, passando a ser um exemplo para o mundo. Biodiversidade e conhecimento
técnico para transformar esse potencial em soluções concretas existem de sobra.
A proteção plena do meio ambiente não pode mais esperar. Os ciclos de resultados tímidos devem ser encerrados, abrindo espaço para um processo transparente de transição e preservação. Colocar esse cuidado na rotina nacional é a saída para garantir qualidade de vida. As escolhas de cada cidadão — especialmente políticas, com o voto nas eleições de outubro próximo — precisam ser tomadas com extrema consciência ambiental.
Os números inaceitáveis dos maus-tratos de
animais
Por O Povo (CE)
O quadro levantado pelo O POVO e exposto em
material especial assinado pela repórter Gabriela Almeida é mais um dos
indicadores da doença social que hoje se espraia pelas áreas diversas e envolve
situações variadas na realidade que nos cerca. É inexplicável o aumento de 10%
no registro de denúncias de maus-tratos contra animais no Estado no ano de
2025, em comparação com 2024, considerado apenas o período entre janeiro e
setembro.
Há possibilidade, portanto, de a situação
demonstrar-se ainda pior quando os números forem atualizados. O levantamento da
repórter mostra que foram 874 casos em 2025 contra 794 do ano imediatamente
anterior, observados, claro, apenas os nove primeiros meses de cada período.
Quando o estudo localiza somente o que acontece em Fortaleza o resultado obtido
é ainda mais preocupante, com aumento de 13% nas ações do tipo denunciadas.
Os dados oficiais, fornecidos pela Secretaria
de Segurança Pública e Defesa Social, dizem respeito a vários episódios de maus
tratos que se verificaram no cotidiano das cidades cearenses. Parece evidente
que a violência contra animais, que se manifesta das formas mais diversas, do
simples abandono à agressão física, expressa um quadro que marca o
comportamento da sociedade brasileira, trata-se, portanto, de um fenômeno
nacional. Embora, claro, estes números apresentados expressem somente a
realidade local.
As estatísticas que produzimos quando se
trata da temática da segurança pública são preocupantes em praticamente todos
os aspectos e parece justo sugerir que se debata o assunto com seriedade maior.
Ainda mais porque isso envolve lidar com seres que, em geral, exigem pouco para
terem suas necessidades básicas atendidas.
É um problema, dos muitos que temos na
sociedade desarranjada dos dias atuais, que como primeiro passo indispensável
no rumo de uma solução precisa que façamos, nós mesmos, uma reflexão sobre o
comportamento que costumamos adotar diante dele. A partir disso, sim, façamos a
cobrança necessária às autoridades e às instituições públicas que têm responsabilidade
com o quadro. E até mesmo se ele tem a ver com a falta de leis ou baixa
aplicação das que já existem.
Certo mesmo é que não se pode ter como normal
mais esse retrato trágico do nosso comportamento social. Parece injusto com
abnegados militantes da causa ou com agentes públicos que desenvolvem ações
diárias de defesa dos animais, em relação aos maus tratos e violência de que
são vítimas, entregar à ação quase heroica que desenvolvem a busca de uma
reversão.
Trata-se de uma tragédia que todos podemos ajudar a combater, fazendo cada um a sua parte no dia-a-dia e, quando necessário, denunciando todas situação de que for testemunha. Parece pouco, mas já seria muito.

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