Concessão se firma no transporte como política de Estado
Por O Globo
Governo prevê para este ano 14 leilões de
rodovias e oito de ferrovias, com R$ 300 bilhões em investimentos
Estão previstos para este ano 14 leilões de rodovias federais e oito de ferrovias, pacote que deve gerar investimentos de R$ 300 bilhões ao longo dos contratos. Para atrair investidores, o governo tem apostado no BNDES como fonte de financiamentos. O banco encerrou 2025 com uma carteira de empréstimos estimados em R$ 22 bilhões para concessionárias de rodovias e em R$ 3,7 bilhões para as de ferrovias. O objetivo do BNDES é superar tais valores neste ano.
Faz sentido econômico que um banco estatal de
fomento ofereça crédito a projetos de interesse público, em especial para
investimentos de longo prazo de maturação, como as obras de infraestrutura.
O importante é garantir que sejam projetos bem formatados do ponto de vista
financeiro, já que o setor privado só entra em negócios que sejam rentáveis.
Num modelo bem estruturado de concessões, o Tesouro não é instado a arcar com
custos ou prejuízos de obras faraônicas, as contas públicas são poupadas — e o
país ganha com investimentos para recuperar estradas precárias ou construir
ferrovias necessárias.
Que um partido como o PT — historicamente
resistente a privatizações e a investimentos privados — tenha se rendido à
realidade é uma notícia alvissareira. Significa que o país sedimenta uma
política de Estado num setor crítico, a infraestrutura de transportes. Como as
concessões ao setor privado estão consolidadas, o secretário executivo do
Ministério dos Transportes, George Santoro, assegura que as eleições marcadas
para este ano em nada afetarão o calendário de licitações.
O BNDES será responsável pela estruturação de
quatro leilões rodoviários: a Rota dos Sertões (BR-116, entre Bahia e
Pernambuco); Rota Gerais (BRs-070 e 251, em Minas); Rota Agro-Central (BRs-070,
174 e 364, entre Mato Grosso e Rondônia); e Rota Integração do Sul (BRs-116,
158, 290 e 392, no Rio Grande do Sul). Além desses, estão previstos vários
outros, alguns com a participação das atuais concessionárias. No campo
ferroviário, haverá concessões para Corredor MG-RJ, Anel Ferroviário Sudeste,
Malha Oeste, Corredor Leste-Oeste, Ferrogrão, Malha Sul (três trechos) e
Ferrovia Norte-Sul. Está prevista até licitação para transporte de passageiros
entre Brasília e Luiziânia.
A qualidade precária das rodovias
brasileiras, exposta na última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte,
mostra por que os investimentos serão bem-vindos. Apenas 32,5% dos mais de 114
mil quilômetros de estradas analisados (52,6% das pavimentadas no Brasil e 6,6%
de toda a malha rodoviária) são considerados de “ótima” qualidade. Outros 19,5%
são vistos como “ruins” ou “péssimos”. As vias com melhor avaliação costumam ser
aquelas sob gestão privada, pois recebem mais investimentos em manutenção. O
indicador que sintetiza melhor a situação diz respeito aos problemas no
pavimento: eles ocorrem em 64,4% das estradas sob gestão pública e em 34,4% das
vias sob concessão.
Por certo, o setor privado só assumirá as
estradas com tráfego razoável. Há muitas vias de baixa circulação, mas vitais
para a população do interior. Elas têm de ser mantidas com recursos públicos.
Para isso, o governo tem o dever de manter uma gestão fiscal responsável e um
plano coerente que lhe permita arcar com os investimentos necessários.
Uso de IA na escola traz riscos, mas pode ser
meio para recuperar atraso
Por O Globo
Cerca de 70% dos alunos afirmam usar robôs,
mas apenas 32% dizem ter recebido instruções dos professores
A disseminação veloz das ferramentas de inteligência
artificial (IA) tem trazido turbulência aos sistemas educacionais. A
IA tem obrigado escolas e instituições de ensino a lidar com situações
imprevistas no aprendizado e na avaliação dos alunos. Não se trata apenas de
garantir a lisura de provas e trabalhos — hoje infestados de conteúdos
fraudulentos gerados por robôs. É preciso que a pedagogia avance no
desenvolvimento de métodos capazes de extrair da nova tecnologia o que ela tem
de melhor. Várias empresas têm desenvolvido sistemas de IA para disseminá-los
nas redes escolares. Professores devem estar capacitados a aproveitar a IA no
aperfeiçoamento de suas aulas e a instruir os alunos para que a usem do modo
mais produtivo.
Há, é verdade, alguns efeitos negativos.
Níveis maiores de confiança na IA estão associados a menor capacidade de
pensamento crítico, revelou pesquisa da Microsoft e da Universidade Carnegie
Mellon. Quando um robô de IA executa tarefas essenciais ao aprendizado, o aluno
sai prejudicado. Há também o perigo de ele aprender errado, já que as
ferramentas de IA são abastecidas com dados que não passam por checagens
rígidas, e alucinações, embora tenham se tornado menos frequentes nos modelos
mais recentes, ainda são comuns. A IA deve ser um instrumento de auxílio, e não
um substituto do aprendizado.
A pressão para uso da IA nas escolas tem
crescido. Em dezembro, a xAI, de Elon Musk, anunciou um projeto em El Salvador
para usar o robô Grok em milhares de escolas, onde está matriculado mais de 1
milhão de estudantes. É preciso, contudo, manter um pé atrás em relação às
promessas mais delirantes. Basta lembrar que o programa “um laptop por
criança”, promessa dos anos 1990 e 2000, em nada mudou a capacidade cognitiva
dos alunos, como demonstraram estudos. Embora seja hoje evidente que o
computador pessoal e a internet trouxeram avanços enormes ao aprendizado,
apenas estar à frente de uma tela ou ter acesso a um robô de IA pode não
significar nada.
No Brasil, está prometida para este ano a
inclusão de aulas de educação digital e midiática no currículo do ensino
básico. A iniciativa deve servir para preparar o aluno a interagir com a IA.
Cerca de 70% dos estudantes do ensino médio afirmam já usar IA, mas apenas 32%
dizem ter recebido instruções da escola para aplicar a nova tecnologia, segundo
a última edição da pesquisa Cetic.br.
O Brasil pode se inspirar em experiências de outros países. A Estônia, ao constatar que 90% dos alunos do ensino médio já usavam chatbots e começavam a transferir tarefas para esses robôs, conseguiu que a OpenAI adaptasse o ChatGPT ao uso escolar. Agora o robô responde a questionamentos com novas perguntas, para estimular o aprendizado, e não com respostas diretas. É preciso estar atento a exemplos desse tipo. Quem sabe, em vez de ser um meio para alunos fraudarem provas e trabalhos escolares como afirmam os críticos, a IA não traz uma oportunidade para o Brasil recuperar seu atraso na educação?
Agro dá exemplo raro de produtividade no país
Por Folha de S. Paulo
Safra brasileira de grãos mais que dobra em
13 anos, aumento superior ao da área plantada
Tendência será determinante para o sucesso no
mercado global, se impedir avanço do cultivo sobre as matas nativas
Dados do IBGE divulgados
na última quinta (15) mostram que a safra
brasileira de grãos teve expansão de 113% entre 2012 e 2025. O
percentual impressiona também porque, segundo o instituto, tal desemprenho se
deve mais ao incremento da produtividade do que à ampliação das áreas
cultivadas.
Trata-se de tendência inescapável. A
disponibilidade de terras para o setor hoje é menor do que na década passada, e
seus preços, maiores. O uso da parcela não ocupada no período será cada vez
mais limitado por proibições de importação de itens cultivados em áreas
desmatadas.
Em 2025, o total de grãos colhidos alcançou
346,1 milhões de toneladas, com impactos positivos na taxa anual de inflação
(4,26% no ano passado) e na balança comercial. O IBGE aponta que a produção foi
favorecida pelas boas condições climáticas e pela ampliação de áreas de cultivo
de algodão, arroz, soja, milho e sorgo.
Neste 2026, estima-se redução de 1,8%, para
339,8 milhões de toneladas. Ainda assim, uma vez confirmada, será superado o
dobro da safra de grãos de 2012, que somou 162 milhões de toneladas —volume
menor do que a colheita apenas de soja no ano passado (166,1 milhões de
toneladas).
O terreno plantado apresentou aumento
considerável de 66,8% no período, passando de 48,9 milhões para 81,6 milhões de
hectares. Pelas estatísticas do IBGE, contudo, tal evolução não acompanhou o
velocidade da expansão do volume colhido de grãos.
Investimentos privados em tecnologias mais
avançadas capazes de extrair o máximo potencial produtivo das plantações foram
decisivas, assim como o desenvolvimento de variedades de grãos adaptadas aos
biomas do país, em especial pela Embrapa, caso raro de estatal que dá algum
retorno ao dinheiro público.
As apostas nesses dois vetores —modernização
de culturas e pesquisa científica— serão ainda mais importantes nos próximos
anos para elevar a colheita e a competitividade dos grãos brasileiros,
principalmente diante de mudanças já antecipadas no mercado internacional,
sobretudo em relação à soja.
A pressão dos Estados Unidos para que a China
aumente as importações de soja americana tende a afetar os volumes embarcados
pelo Brasil a esse mercado. Em contrapartida, a implementação do acordo de
livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, esperada
para ocorrer neste ano, abre a possibilidade de ampliação das exportações de
grãos ao parceiro —ainda mais de soja, que é isenta de cotas.
Há condicionantes, porém. A UE exigirá dos
exportadores a anuência a seu Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento,
conforme os termos do acordo, e o rastreamento dos produtos destinados a seu
mercado até o final deste ano.
Qualquer que seja o cenário futuro, a
produção agrícola do país depende da união do aumento de produtividade com
manejo ambiental sustentável.
A privatização que o PT aprende a aceitar
Por Folha de S. Paulo
Concessões em transportes batem recorde sob
Lula 3, movidas a escassez de recursos para investir
Desde 1995, foram 160 delas em rodovias,
ferrovias portos e aeroportos, das quais 95, nos últimos dois governos de
ideologias opostas
Avessas à venda de empresas estatais por
ideologia estatista e afinidade corporativista, as administrações petistas ao
menos aprenderam a aceitar outra modalidade de privatização —a concessão de
serviços públicos, especialmente no setor de infraestrutura.
Essas desestatizações são mais palatáveis à
esquerda por não envolverem mudanças patrimoniais para o Estado e, sobretudo,
por haver menos interesses sindicais envolvidos. Entregar uma rodovia federal à
exploração privada em troca de investimentos e melhorias, por exemplo, não
envolve maior perda de empregos privilegiados no aparato estatal.
Quaisquer que sejam as motivações e
convicções, é positivo que este terceiro governo Luiz Inácio Lula da
Silva já tenha batido um recorde histórico com 50 concessões na área de
transportes, aí incluídos rodoviário, ferroviário, portuário e
aeroportuário, como noticiou
a Folha.
Superam-se as 45 do quadriênio de Jair
Bolsonaro (PL) e, com boa folga, as 26 dos dois mandatos
de Fernando
Henrique Cardoso (PSDB), quando as operações tiveram início sob
a legislação atual. É notável, ademais, que Lula só tenha iniciado as
concessões nesses setores em 2007, já em seu segundo governo.
Desde a aprovação da Lei de Concessões, em
1995, foram 160 delas em transportes, das quais 95, quase 60%, nos últimos dois
governos de ideologias opostas. Essa concentração, como se vê, não reflete
pensamento econômico —trata-se de necessidade.
Os primeiros governos petistas tentaram
reviver, ainda que em escala menor, o modelo desenvolvimentista de crescimento
econômico impulsionado por investimento público que imperou entre os anos 1950
e 1980. Depois do colapso orçamentário de Dilma
Rousseff e da brutal recessão de 2014-16, porém, essa ilusão se
tornou insustentável.
Nos tempos da ditadura militar, o
investimento com dinheiro do Tesouro chegou a ultrapassar 2% do Produto Interno
Bruto; sob Lula 2 e Dilma 1, rondou 1% do PIB; hoje, mesmo com a disposição perdulária
de Lula 3, está na casa de 0,5% —cifra que tende a cair com o avanço das
despesas obrigatórias com Previdência e pessoal sobre o Orçamento.
Resta, pois, recorrer ao capital privado para manter, ampliar e reformar rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, o que já deveria ter ocorrido há mais tempo, com regulação e contratos adequados. Ainda há, infelizmente, um enorme atraso a superar na venda de estatais, como o demonstra de forma calamitosa a derrocada dos Correios.
Um mundo sob riscos geoeconômicos
Por O Estado de S. Paulo
Relatório do Fórum Econômico Mundial alerta
para a perigosa escalada da rivalidade entre potências e mostra como
transformar a economia em arma ameaça a estabilidade global
O Global Risks Report 2026, nova edição do
tradicional relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial a partir de uma
consulta a mais de 1.300 líderes públicos, executivos e especialistas, oferece
um retrato inquietante – e cada vez mais familiar – do estado do mundo. Pela
primeira vez, os conflitos geoeconômicos encabeçam a lista dos maiores riscos
globais no curto prazo, superando guerras convencionais e ameaças ambientais
imediatas. Não se trata de um detalhe técnico menor, mas de um sinal eloquente
de que a economia deixou de ser apenas um terreno de interdependência para se
tornar um instrumento de poder, coerção e disputa estratégica.
Quase 40% dos entrevistados projetam um
período de elevada instabilidade nos próximos dois anos, marcado por
desinformação, polarização social, eventos climáticos extremos e conflitos
entre países. O dado, por si só, seria alarmante em qualquer contexto. Torna-se
mais grave num mundo mais fragmentado, menos cooperativo e progressivamente
hostil às regras que sustentaram, com todas as suas imperfeições, a ordem
internacional das últimas décadas.
O relatório organiza os riscos globais em
grandes categorias – geopolíticos, econômicos, sociais, ambientais e
tecnológicos –, mostrando como eles se interligam e se reforçam. Além da
confrontação geoeconômica, figuram entre os principais riscos de curto prazo os
conflitos armados entre Estados, crises econômicas, polarização política e os
impactos de eventos climáticos extremos. No horizonte de longo prazo, seguem
dominando as preocupações com a mudança do clima, a perda de biodiversidade, o
colapso de ecossistemas e os riscos associados ao uso desregulado de
tecnologias emergentes, como a inteligência artificial.
Há, porém, uma tensão evidente entre o
diagnóstico e a realidade. O documento insiste, corretamente, na necessidade de
cooperação internacional, responsabilidade compartilhada e diálogo multilateral
como únicas respostas viáveis a riscos que não respeitam fronteiras. A prática
global, contudo, segue em sentido oposto.
Grandes potências estão empenhadas em
assegurar e expandir suas esferas de influência, recorrendo cada vez mais a
instrumentos econômicos, comerciais e tecnológicos como armas geopolíticas. De
um lado estão os Estados Unidos, conduzidos pela lógica de um imperialismo
redivivo pela doutrina trumpista, que combina protecionismo agressivo, negação
do multilateralismo e uso seletivo de sanções e tarifas. De outro, o eixo
sino-russo, que articula autoritarismo político, revisionismo geopolítico e
contestação aberta às normas liberais do pós-guerra fria. A inspiração
autocrática de lado a lado parece ser a tônica.
O resultado é o enfraquecimento das
instituições multilaterais, a erosão de mecanismos de coordenação global e o
recrudescimento do protecionismo, com impactos diretos sobre cadeias de
suprimento, segurança alimentar, transição energética e estabilidade
financeira. Em vez de cooperação, prevalece a lógica do jogo de soma zero. Há
intimidação econômica explícita onde deveria haver diálogo. No lugar de regras
comuns, a lei do mais forte.
Longe de ser futurologia alarmista, o Global Risks Report 2026 é um
espelho desconfortável de um mundo que parece ter aprendido pouco com crises
recentes – pandemia, guerras regionais, emergência climática, crises
financeiras em escala global e a explosão da desinformação como estratégia
deliberada de ação pública de tribos ideológicas.
Ignorar esse diagnóstico seria um erro grave.
Mais grave é que governos com poder para mitigar esses riscos seguem adotando
estratégias que os aprofundam. Ao privilegiar rivalidades geoeconômicas,
agendas protecionistas e projetos de hegemonia que solapam a cooperação, as
grandes potências tornam cada vez mais improvável a construção das respostas
coletivas de que o mundo precisa. Entre o discurso protocolar do diálogo e a
prática recorrente da confrontação, a ordem internacional avança para um
período prolongado de instabilidade, afastando-se perigosamente das soluções
para crises que afirma querer evitar. O Brasil precisa saber como resguardar
seus melhores interesses nesse contexto.
Os desafios da vacinação no Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Só 2 das 21 vacinas para crianças de até 2
anos atingiram meta de cobertura de 95% em 2025, o que indica que o trabalho de
restaurar a confiança da população na ciência está longe do fim
Os dados preliminares da vacinação de
crianças no Brasil ao longo de 2025 indicam que o trabalho de restauração da
confiança da população na ciência está longe do fim. Segundo o Painel de
Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde, entre as 21 vacinas disponíveis no
Programa Nacional de Imunizações (PNI) para crianças de até 2 anos, só 2
atingiram a meta – 95% de cobertura – definida para seu público-alvo. As
crianças brasileiras receberam a contento somente a BCG, que protege contra a
tuberculose (96,8%), e a vacina contra a hepatite B para crianças com menos de
30 dias (95,11%).
São imunizantes garantidos gratuitamente a
todas as crianças, em todas as cidades do País, por meio da rede pública de
saúde. Para proteger os menores contra doenças infecciosas preveníveis, mães,
pais ou responsáveis devem levá-los a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) a fim
de atualizarem suas cadernetas de vacinação. Mas, como atestam os números, esse
cuidado tem sido negligenciado.
Indicadores acumulados até novembro do ano
passado ilustram esse preocupante descuido. Apenas 86,60% do público-alvo
recebeu a vacina injetável contra a poliomielite, doença causadora da paralisia
infantil. A segunda dose da tríplice viral, que combate o sarampo, a rubéola e
a caxumba, registrou cobertura de 78,91%. Não à toa, nas Américas, foram
registrados novos surtos de sarampo, moléstia que há muito havia sido
erradicada da região.
Já é sabido que apenas a manutenção de uma
cobertura vacinal abrangente assegura a proteção de um número maior de
crianças. A erradicação de uma doença não é sinônimo de desaparecimento na
natureza. Famílias e autoridades, cada qual na medida de suas
responsabilidades, não podem baixar guarda na vacinação das crianças – gesto
simples que, comprovadamente, salva vidas.
O próprio PNI é a prova da eficiência de uma
política de saúde pública de Estado, não de governos. Criado ainda no regime
militar, o programa atravessou gerações e se consolidou na democracia,
tornando-se referência mundial de programa de vacinação universal e gratuita.
Graças à adesão histórica da sociedade ao PNI, o Brasil praticamente acabou com
a mortalidade infantil por doenças infecciosas preveníveis e aumentou a
expectativa de vida. Por tudo isso, é lamentável constatar que uma parte
considerável de cidadãos passou a ignorar esse legado, simbolicamente
materializado pelas campanhas de vacinação protagonizadas pelo “Zé Gotinha”.
Grande parte dessa descrença na ciência é
atribuível a um movimento antivacina que passou a vicejar a partir de 2015,
pondo em risco a saúde de milhões de crianças mundo afora. O Brasil não passou
incólume por essa onda obscurantista, culminando na campanha contra as vacinas
encampada pelo então presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.
Desde então, ganharam tração notícias falsas sobre supostos efeitos adversos
dos mais diferentes imunizantes. O estrago foi grande: no caso da covid-19,
apenas 3,49% das crianças que poderiam ter sido imunizadas contra a doença
receberam a vacina ao longo do ano passado.
A despeito das promessas do presidente, o
governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda não conseguiu restabelecer os
patamares de cobertura vacinal para todos os imunizantes do PNI. As famílias
têm o dever de imunizar suas crianças, haja vista que, à luz da lei, a
apresentação da caderneta de vacinação atualizada é requisito para uma série de
atos da vida civil, como a matrícula nas escolas das redes pública e privada
para menores de 18 anos. Ao poder público, por sua vez, cabe a adoção de ações
estratégicas, como, por exemplo, busca ativa para chegar até as crianças
suscetíveis a contrair doenças evitáveis, além de reforço nas campanhas de
comunicação.
O Brasil acumulou experiência suficiente com
o PNI para voltar a ocupar um lugar de destaque no cenário global de cobertura
vacinal de sua população. Desperdiçar essa conquista é um ato de
irresponsabilidade com as futuras gerações de brasileiros.
Corte tímido nas emendas
Por O Estado de S. Paulo
Veto à parte ínfima de recursos à mão do
Congresso mostra que Lula mal finge ser austero
A irrelevância do veto a R$ 392,8 milhões em
emendas parlamentares no Orçamento de 2026, que acaba de ser sancionado pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode ser medida pelo fato de não haver a
mínima chance de o corte abrir uma nova crise com o Congresso, que ignorou
olimpicamente a tesourada presidencial. Pudera, deputados e senadores já haviam
garantido, em acordo com o próprio Planalto, o pagamento de R$ 19 bilhões em
emendas até o fim do primeiro semestre, antes, portanto, das restrições
impostas pela legislação eleitoral.
Nesse faz de conta, Lula mal finge que é
fiscalmente austero e os parlamentares mal afetam indignação, com um ou outro
protesto. E assim o Orçamento segue seu curso, conduzido por um Legislativo que
domina cerca de 80% das verbas discricionárias – aquelas que, em tese, o
Executivo teria liberdade de decidir como dispor.
Durante a campanha eleitoral de 2022, Lula classificou
essa captura orçamentária pelo Congresso de “bandidagem”, entre outras
designações duras para o orçamento secreto. Mas, de lá para cá, a situação não
só se consolidou, como se agravou.
A bem da verdade, o presidente continua a
espernear contra o protagonismo do Congresso na destinação de bilhões de reais
em recursos públicos. No mês passado, durante reunião do Conselhão, Lula chamou
de “erro histórico” o fato de o Congresso “sequestrar 50% do Orçamento da
União”, mas disse que isso só vai acabar quando “mudar quem governa e aprova” a
peça orçamentária. Ora, não foi exatamente isso o que Lula prometeu fazer
depois de eleito?
A necessidade urgente de reduzir o abuso na
indicação de emendas parlamentares nem de longe é contemplada pelo
insignificante volume do veto presidencial. Recorde-se que, duas semanas antes
da sanção do Orçamento, Lula sancionou a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO),
que projetou para este ano nada menos que R$ 61 bilhões em emendas
parlamentares. Desse total, em torno de R$ 12 bilhões são de emendas de
comissão, sob gestão, em tese, dos ministérios. A prática política tem
demonstrado que esses recursos só têm servido a barganhas nada republicanas
entre Legislativo e Executivo.
Criadas para dar participação a deputados e
senadores em decisões de investimento público, as emendas se agigantaram em tal
grau nos últimos anos que se converteram numa aberração institucional que mudou
o eixo do poder político, virou atalho para fraudes e desvio de dinheiro
público e, ademais, fez letra morta da Constituição. Julgado inconstitucional
pelo Supremo Tribunal Federal, o orçamento secreto só foi extinto em teoria. Na
prática, a opacidade continua a ditar o caminho das emendas, infladas ainda
mais neste ano eleitoral.
O Planalto ainda poderá bloquear recursos, o que justificaria a redução modesta como um meio de fugir da derrubada do veto pelo Congresso, algo previsível levando-se em conta que o apoio político ao governo no Congresso é frágil. Diante disso, a recomendação feita por Lula de mudar “quem governa e quem aprova” para dar fim à desordem orçamentária até parece ajuizada, mas é traída por suas próprias ações.
Dívida pública acelera no Brasil e no mundo
Por Valor Econômico
Presidente Lula deve encerrar mandato com aumento de 11 pontos percentuais na relação dívida/PIB
A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) em
relação ao Produto Interno Bruto (PIB) não mais se estabilizará em 2028, como o
Tesouro previa, mas acelerará até 2029 e encerrará o horizonte de projeção, em
2035, muito maior do que no cenário anterior. O Brasil não está sozinho nesse
cenário de maior endividamento governamental. A dívida pública global atingiu o
recorde de US$ 102 trilhões em 2024, segundo dados da Unctad, e deverá atingir
100% do PIB até 2029, de acordo com projeção do FMI. Mas no Brasil a situação é
pior, porque sobre uma dívida crescente incide uma das maiores taxas de juro do
mundo.
A relação dívida/PIB deve atingir, segundo o
Tesouro, 83,6% este ano, acima dos 82,3% projetados em julho. O indicador
alcançará o pico de 88,6% do PIB em 2032. A piora na trajetória, de acordo com
o relatório, decorre da mudança nos parâmetros macroeconômicos - que
incorporaram em média juros mais elevados e menor crescimento nominal do PIB -
mas, sobretudo, de um resultado primário pior em relação ao relatório anterior.
As projeções de mercado e da Instituição
Fiscal Independente do Senado indicavam que a trajetória ascendente não seria
interrompida em 2028, como previa o Tesouro, e, em muita delas, seguiria
crescendo até 2033, pelo menos. A situação se deteriorou pela ausência de
superávits primários que permitissem abater parte do principal da dívida, e
pelas sucessivas retiradas de gastos primários da contabilidade das metas. Com
aprovação legislativa, em 2027 R$ 96,1 bilhões em precatórios deixarão de ser
incluídos para a consecução dos objetivos fiscais.
Mais que isso, os novos números do Tesouro
pioram ainda mais o legado do atual governo. Ao terminar seu mandato, o
presidente Lula deixará um endividamento de 83,6% em relação ao PIB e não de
82,3%, como previsto em julho. Será um aumento de quase 11 pontos percentuais
em apenas quatro anos, uma deterioração fiscal apenas um pouco menor que a
desastrosa atuação do governo de Dilma Rousseff, quando a relação aumentou pelo
menos 14 pontos, ainda que considerados cinco anos e meio de gestão.
No mundo, as consequências da crise
financeira global 2007-08, a pandemia de covid-19 e a crise energética após a
invasão da Ucrânia pela Rússia aumentaram drasticamente a dívida pública, e a
perspectiva é de que ela continue subindo, em meio a sinais de desaceleração no
crescimento econômico global, elevação das taxas de juros para conter a
inflação, maior protecionismo comercial e turbulência geopolítica.
Muitas das principais economias mundiais têm
dívida pública superior (ou com previsão de ultrapassar) 100% do PIB, como
China, França, Itália, Japão e Estados Unidos. Porém, no geral, esses países
possuem mercados de títulos soberanos profundos e líquidos e opções de
políticas públicas mais amplas, o que ajuda a mitigar o risco fiscal.
Por outro lado, muitos mercados emergentes e
países de baixa renda enfrentam desafios fiscais mais complexos, apesar de suas
dívidas em geral alcançarem menos de 60% do PIB. Mas suas opções de políticas e
de acesso a financiamento são limitadas. A dívida pública dos países em
desenvolvimento cresceu duas vezes mais rápido que a das economias avançadas
desde 2010, atingindo US$ 31 trilhões. Os custos da dívida permanecem desproporcionalmente
altos, comprometendo recursos para gastos com desenvolvimento. Somente em 2024,
esses países gastaram US$ 921 bilhões com pagamentos de juros, um aumento de
10% em termos anuais.
Isso reflete a drástica mudança na dinâmica
da dívida pública nos últimos anos. Não se trata apenas de seu tamanho, mas
também do seu custo. Da crise financeira global até o período da covid-19, o
aumento da dívida ocorreu em um ambiente de juros muito baixo, até negativos,
resultando em despesa financeira estável no orçamento. Mas a situação agora é
diferente. A alta da inflação pós-covid (2022-23) levou a uma onda de aperto
monetário global. O FMI estima que os gastos com juros subiram para 2,9% do PIB
em 2025, ante 2% em 2020, e a previsão é de que continuem a subir até o fim da
década. O ambiente financeiro também é desafiador, com as avaliações dos ativos
financeiros em níveis elevados. Eventualmente, uma correção de mercado pode
ocorrer.
As pressões sobre os gastos públicos decorrem
de múltiplas fontes, da crescente necessidade de ações de defesa e resposta a
eventos climáticos severos à pressão das populações por mais acesso a saúde,
educação e habitação. Mais recentemente, com disputas geopolíticas exacerbadas
pelo presidente Donald Trump e pela invasão russa da Ucrânia, há pressão
adicional por gastos com defesa, que começaram a subir rapidamente.
No caso do Brasil, a pressão por mais gastos para ganhos no curto prazo vem dos três poderes. O ajuste das contas públicas para colocar a dívida em uma trajetória sustentável exige a formulação de políticas públicas sustentáveis de longo prazo. Se reeleito, o presidente Lula disse que essa não é sua agenda, o que aumenta a vulnerabilidade do país a crises externas, que virão.
Uma experiência do usuário cada vez pior
Por Correio Braziliense
Se antes éramos reféns dos canais de TV por
assinatura, passamos a ter liberdade de escolha com o sempre disponível
catálogo da Netflix, Max, Prime etc.
Quando o mundo dos streamings surgiu, houve
amplo reconhecimento à mudança no paradigma do consumo do conteúdo audiovisual
trazida por essas plataformas. Se antes éramos reféns dos canais de TV por
assinatura, que na maior parte das vezes ofereciam muitas produções que sequer
eram de nosso interesse, passamos a ter liberdade de escolha com o sempre
disponível catálogo da Netflix, Max, Prime etc.
A grande vantagem também era a possibilidade
de consumir aquilo que nos interessava de maneira personalizada. Poder escolher
entre as opções dublada e legendada e, até mesmo, a fonte, tamanho e cor da
tradução simultânea. O conteúdo sob demanda destruiu o modelo de negócio das
grandes operadoras de TV a cabo, hoje tão atrasadas quanto as velhas locadoras.
No entanto, o que parece acontecer nos
últimos anos com a maior parte dos streamings é uma inversão da lógica de
prevalência inegociável da melhor experiência do usuário. Ao mesmo tempo que
passaram a vender publicidade nos planos mais baratos de seus serviços, as
plataformas oferecem, cada vez menos, qualidade. São frequentes as quedas de
sinal, sobretudo em momentos de alta de audiência, como finais de competições
de futebol, novelas ou realities shows.
Ao adotar a venda de espaços publicitários e
comercializar a atenção do seu usuário, as plataformas abrem mão do que era o
principal diferencial do serviço: uma experiência amigável a quem paga por
aquela assinatura. Não se trata de inovação de um modelo de negócio já
milionário, mas de retrocesso.
Os olhos mais especializados em conteúdos
audiovisuais já entenderam que a crise entre os serviços e seus clientes vai
além e já atinge a própria qualidade das produções em cartaz. O cardápio
continua farto, mas não mais com a mesma assertividade de outrora. Tudo parece
feito para cérebros cada vez mais sedentos por respostas prontas, por uma conclusão
sem reflexão.
O mundo repercutiu, por exemplo, os episódios
finais da decenal série Stranger things, criada pelos irmãos Matt e Ross
Duffer. Se no início a produção ficou marcada por trazer a temática do terror e
do suspense sob uma ótica infantojuvenil e nostálgica, sua despedida teve muito
mais caráter saudosista do que uma trama que realmente sustentasse algo novo.
Ainda que no cinema a última impressão nem sempre é a que fica, o desfecho
deixou a desejar para a maioria.
A decepção com Stranger things se estende a
muitas outras produções que parecem durar muito mais do que deveriam. Mais do
que dar respostas e preencher lacunas, o cinema deve incentivar o imaginário do
espectador. A escolha das plataformas de espremer até a última gota dos seus títulos
mais reconhecidos é mais uma traição ao prometido ganho de experiência trazido
por elas em seus surgimentos há cerca de 15 anos.
São raras decisões como a comunicada pelo
diretor Vince Gilligan, conhecido pelos sucessos Breaking bad e seu spin-off, Better
call Saul. No comando de Pluribus — ficção de sucesso exibida pela Apple TV,
que coloca a protagonista Carol (Rhea Seehorn) em meio a uma humanidade
infectada por uma mente coletiva, incapaz de demonstrar qualquer traço de
infelicidade —, Gilligan nada contra a corrente e já anunciou: "Vou
demorar".
Em uma sociedade faminta por conteúdo a todo
momento, diante da velocidade do consumo de informações na palma da mão, é
comum cobrarmos que nossos artistas preferidos lancem um álbum por ano ou que
nossa série de estimação divulgue logo todos os episódios para iniciarmos a
maratona.
Gilligan, no entanto, vai na contramão. Ao
Hollywood Reporter, quebrou as expectativas: "Sim, sendo honesto, isso vai
frustrar algumas pessoas. Trabalhamos na velocidade em que trabalhamos, muito
parecido com o ritmo em que as geleiras derretem. Portanto, haverá um intervalo
considerável entre as temporadas", disse.
Um alívio em um mundo no qual a essência sempre perde espaço para o acúmulo.
A união é que faz a força
Por O Povo (CE)
O escândalo que envolve o Banco Master é um
cenário desafiador, complexo e que exige uma ação de resposta de Estado que
some todas as forças disponíveis e competentes. No sentido de sabermos o que
aconteceu, quem são os responsáveis e os caminhos legais que podem, e devem,
ser adotados para que as situações provadas sejam devidamente punidas
O escândalo que envolve o Banco Master
insere-se entre os maiores que o Brasil já viu acontecer em seu sistema
financeiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chega a sugerir que a
evolução do que tem sido descoberto pode transformá-lo no maior caso da
história, com bilhões de reais desviados para atender interesses pessoais e
enriquecer o patrimônio pessoal de gente mal intencionada, em especial os
proprietários da instituição envolvida e seus executivos.
O Master teve liquidação extrajudicial
decretada pelo Banco Central em novembro do ano passado, medida extrema adotada
diante de um quadro grave de crise de liquidez e indícios de irregularidades
financeiras. Os reflexos sobre o sistema financeiro são inevitáveis
considerando que apenas na instituição diretamente atingida há um contingente
de 1,6 milhão de clientes prejudicados. É onde a conta nos chega, a todos,
através do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
É um cenário desafiador, complexo e que exige
uma ação de resposta de Estado que some todas as forças disponíveis e
competentes. No sentido de sabermos o que aconteceu, quem são os responsáveis e
os caminhos legais que podem, e devem, ser adotados para que as situações
provadas sejam devidamente punidas. O peso do exemplo será fundamental para garantir,
inclusive, que o sistema se fortaleça para situações futuras.
Infelizmente, ao contrário do que seria o
recomendável, há problemas de convivência entre as instâncias públicas
mobilizadas para investigação. A começar pelo Judiciário, diante das críticas
que têm sido feitas ao comportamento do relator do caso no Supremo Tribunal
Federal (STF), ministro Dias Toffoli, o que tem gerado um quadro tenso nas
relações, em especial, com a Polícia Federal. Infelizmente, cenário que
fragiliza o lado que precisa estar forte para o enfrentamento de interesses que
envolvem figuras poderosas, no ambiente econômico e na estrutura política.
Há necessidade de um freio de arrumação e,
nesse sentido, a iniciativa do presidente da República de chamar para uma
reunião, na semana passada, representantes da Polícia Federal, Banco Central,
Receita Federal e o ministro que responde no momento pela presidência do STF,
Alexandre de Moraes, pode ser um primeiro movimento importante nesse sentido.
Mesmo que, no nosso entendimento, o Ministério Público também devesse fazer
parte da conversa, pelo papel fundamental que lhe cabe na fase de investigação
e, mais adiante, na denúncia contra os que tiverem responsabilidade comprovada.
Não é momento para brigas e desentendimentos, mesmo que não se deva cobrar uma postura de subserviência e que seja importante preservar os espaços de independência e autonomia. O que não pode, e tem sido eventualmente observado, é deixar que se instale um quadro de competição onde deve prevalecer a colaboração na busca do objetivo comum, tratando-se de órgãos públicos com tarefas e competências definidas em lei, de proteger o cidadão.

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