sábado, 17 de janeiro de 2026

Purgatório ou inferno: é pegar ou largar. Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A democracia que conhecemos, por pior que seja em dezenas de países, não é uma reles caixinha de papelão

Com um tresloucado na Casa Branca e as duas outras principais potências tendo chefes de Estado com robustas credenciais totalitárias, não estranha que praticamente todo dia intelectuais e jornalistas anunciem o fim do regime democrático representativo.

Qualquer dos três – Trump, Putin e Xi Jinping – dispõe de mísseis nucleares suficientes para espatifar o planeta e deixar 1 trilhão de caquinhos voando eternamente pelo universo. Com um milésimo do que qualquer deles dispõe, a bomba lançada sobre Hiroshima em 1945 pulverizou, fez desaparecer instantaneamente, cerca de 50 mil pessoas, o mesmo fez a outra, lançada sobre Nagasaki. Havia uma terceira cidade nos planos, mas a bomba reservada para ela não foi lançada devido ao mau tempo. Reparem que empreguei o verbo “lançar”. Foi literalmente isso o que aconteceu: lançadas em caixas (suponho que de ferro) pelas janelas dos aviões.

Toffoli age como novo delegado no STF. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Ministro atropela autonomia da Polícia Federal na investigação, determina até tempo para depoimentos e quem fará perícias em aparelhos apreendidos

A pressa é inimiga da perfeição. O ditado popular se encaixa nas decisões que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), está tomando à frente da relatoria do caso Master. Nesta sexta-feira, 16, a novidade foi ele limitar o tempo que os investigadores terão para tomar todos os depoimentos. Apenas dois dias consecutivos.

O cordão de isolamento do escândalo Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Operação abafa não interessa ao Brasil

Abafadores podem largar a mão de Vorcaro com cordão de isolamento da crise

É preciso um desfecho contundente ao escândalo do Banco Master. Se está em curso uma operação para abafar o escândalo do banco e blindar autoridades e políticos influentes em Brasília (como parece ser), ela não interessa ao Brasil.

As especulações de agentes do mercado financeiro, antes da venda da insituição financeira ao Banco de Brasília, de que havia algo de muito errado no crescimento do Master e na sua atuação agressiva na venda de CDBs e de carteiras de consignado vão se confirmando.

Será que ele é? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Tarcísio diz que sai para governador, mas mantém uma pontinha de ambiguidade em relação a pleito presidencial

Se Lula vencer, talvez precise agradecer a Trump, pela queda do dólar, e a Jair, por indicar Flávio para sucedê-lo

O governador Tarcísio de Freitas afirma e reafirma que é candidato à reeleição em São Paulo, mas mantém deliberada ambiguidade em relação ao pleito presidencial. É secundado nessa tarefa pela própria esposa e por Michelle Bolsonaro. Não dá para dizer que o cálculo de Tarcísio esteja errado.

Memória da ditadura está viva no Rio, apesar do negacionismo. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tombado, prédio do antigo Dops abrigou tortura e execução de presos

Lei prevê instalação de placas com a identificação de locais ligados aos crimes da repressão

O tombamento do antigo Palácio da Polícia, com a provável criação no local de um centro de debates sobre repressão política e tortura nos anos da ditadura Vargas e sobretudo durante o regime militar, encerra uma disputa de mais de 20 anos. De um lado, a memória que precisa ser lembrada para defender o presente e o futuro da democracia; de outro, o negacionismo e até mesmo, em tempos recentes, a apologia de torturadores.

A democracia de direita. Por Cristovam Buarque

Veja

A esquerda preferiu culpar os eleitores a indagar: por que falhamos?

Há cinquenta anos, a direita chilena precisou de um golpe militar para derrotar a esquerda no poder. No mês passado, uma direita ainda mais conservadora chegou ao governo democraticamente: nem o golpe militar de 1973 nem a vitória democrática de 2025 são exceções chilenas. Por décadas, a esquerda foi eleitoralmente imbatível; agora, vem sendo derrotada em diversas partes do mundo. Em 2018, ocorreu no Brasil, por pouco não se repetiu em 2022 e pode acontecer em 2026.

Sem adjetivos, sem concessões. Por Marcus Pestana

Nunca foi tão urgente. Nunca foi tão necessário. O mundo do século XXI parece, às vezes, teatro do absurdo, realismo fantástico, um sanatório geral.

A sociedade contemporânea é extremamente fragmentada. É possível discordar sobre questões essenciais ou acessórias. A convivência pressupõe o diálogo entre os diferentes, a contraposição de pontos de vista, a abertura para convencer e ser convencido. Mas há limites em relação a princípios centrais que são verdadeiras cláusulas pétreas da existência, onde não cabem adjetivos, relativizações, concessões ou seletividade.

Golpe dissimulado. Por Pedro Serrano

CartaCapital

O PL da Dosimetria atribui ao Parlamento a função de instância revisora do Supremo, o que é inconstitucional. O presidente Lula fez bem ao vetar o projeto

Existem diversas maneiras de se perpetrar um golpe contra as instituições democráticas – das mais explícitas às mais sutis e ardilosas. Quando, em 8 de janeiro de 2023, um grupo vandalizou o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília, a ameaça à democracia no País era clara e manifesta. Por trás daquele ataque revelou-se a articulação inequívoca de uma tentativa de solapar o Estado Democrático de Direito. As punições impostas aos criminosos nos julgamentos realizados pelo STF em 2025 foram exemplares.

Narciso-Fascismo. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As semelhanças entre os projetos de Trump e do nazismo estão cada vez mais evidentes

imperial-totalitarismo de ­Donald Trump exprime um fenômeno social, apresentado por muitos na mídia como perversidade individual. Não faltam opiniões e análises que privilegiam a personalidade do presidente dos EUA e desconsideram as condições sociopolíticas e econômicas que levaram à emergência do Narciso-Fascismo.

Sigmund Freud, em Mal-Estar da Civilização (1930), desvendou as relações sujeito-objeto em todas as sociedades civilizadas: “Nosso sentimento atual do eu é apenas um resto comprimido de um sentimento de maior abrangência – sim, um sentimento abrangente a que corresponde uma ligação mais íntima do eu com o mundo à sua volta”.

Aliança indecorosa. Por Jamil Chade

CartaCapital

Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin unem-se em ofensiva contra os direitos humanos

Se nas últimas semanas a ação dos EUA contra a Venezuela e a retirada de Washington de 66 organismos internacionais foram descritas como “atos trágicos” para o multilateralismo e para um mundo ordenado pelo direito internacional, a crise pode estar apenas começando. A pressão geopolítica soma-se a desafios financeiros na própria Organização das Nações Unidas: a entidade aprovou um orçamento regular para 2026 perto de 7% menor que o de 2025, em meio a propostas para reduzir gastos em quase 15% e cortar em torno de 19% do quadro de funcionários.

Uma teoria e suas mutações. Por Fábio Mascaro Querido

CartaCapital

Por serem “sonhadoras demais”, as ideias marxistas nunca deixam de soar como ameaça para as classes dominantes

Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895) são conhecidos como os fundadores do “socialismo científico”. Se, antes deles, era comum a elaboração de utopias abstratas, que projetavam o futuro sem considerar as condições do presente, os dois intelectuais alemães inauguraram uma perspectiva socialista fundamentada nas contradições do próprio capitalismo.

Mas isso não significa que, para eles, a vitória do socialismo, assim como o caminho para se chegar até lá, pudesse ser estabelecida de antemão. A teoria é importante porque serve como bússola para a prática. Não cabe a ela, entretanto, definir os contornos exatos de lutas sociais e políticas cujo desfecho é imprevisível.

A revolução pelas beiradas. Por Ivan Alves Filho

A comida é de paz. A palavra companheiro vem do latim cum panis. Platão fez do seu Banquete uma ocasião de confraternização. O próprio Jesus Cristo, um asceta, amava cear com seus apóstolos. Comer é, por excelência, um gesto de convívio humano. E com ares de divindade.

O escritor português José Fialho de Almeida disse uma vez que “um povo que defende os seus pratos nacionais está defendendo o seu território”. Não por acaso, um de seus melhores livros, O país das uvas, uma reunião de contos, se desenrola em parte na área vinícola de Vila de Frades, no seu Alentejo natal. 

Opinião do dia - Karl Marx* - Democracia

“Dignidade pessoal do homem, a liberdade, seria necessário primeiramente despertá-la no peito desses homens. Somente esse sentimento que, com os gregos, desaparece desse mundo, e que, com o cristianismo, se evapora no azul do céu pode de novo fazer da sociedade uma comunidade dos homens, para atingir seus fins mais elevados: um Estado democrático.”

*Karl Marx (1818-1883), Euvres, III, Philosophie, p. 383, citado em “A democracia contra o Estado”, p.54. Editora UFMG, 1998.

Poesia | Poder, de Vladimir Mayakovsky

 

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho ( Capiba)