quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A batalha real de 2026 será pelo Senado. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A próxima eleição decisiva do país pode não ser para presidente, mas para o Legislativo

Maioria no Senado permite que se avance uma agenda independentemente de quem governe

A próxima eleição decisiva no país será a batalha pelo Senado. O argumento parece esquisito, mas é preciso considerar duas coisas. A primeira é que, desde 2018, houve uma virada ideológica no voto brasileiro, na direção da direita radical.

Aquele centrão descrito como pragmático, disposto a trocar votos por cargos e grana, é hoje apenas uma ficção na cabeça dos jornalistas. O voto que deu bancadas a partidos como PL, Progressistas, União Brasil e Republicanos não é transacional; é ideológico e de matriz bolsonarista. Os detentores desses mandatos precisam provar, o tempo todo, fidelidade à base que os elegeu. O pragmatismo residual migrou para um espaço muito mais estreito, ocupado sobretudo pelo PSD, que não é centrão. O resto opera sob vigilância ideológica permanente.

Além disso, o descolamento entre direita e extrema direita, tão esperado após a derrota de Bolsonaro, simplesmente não aconteceu. Hoje é muito difícil imaginar uma direita competitiva que esteja mais próxima do centro do que da extrema direita. A direita eleitoralmente viável é hoje uma direita radicalizada que disputa a herança do bolsonarismo.

O caso de Tarcísio é ilustrativo. Apresentado por muitos como a possibilidade de uma direita republicana, moderada e eleitoralmente viável, ele se recusa sistematicamente a fazer essa travessia —por hesitação doutrinária, mas também por cálculo eleitoral. Tarcísio é Maga, é Bolsonaro e faz questão de parecer radical. Sabe que seu voto é bolsonarista e não o desafia.

Por isso, a disputa decisiva não será entre esquerda e direita moderada, mas entre esquerda e centro, de um lado, e direita e extrema direita, de outro. E essa disputa se dará, sobretudo, no Senado. Não só porque as direitas não encontraram um novo Bolsonaro, mas porque todos aprenderam que o controle do Senado se tornou tão decisivo quanto a Presidência.

Num sistema em que o Congresso emparelhou forças com o Executivo e em que presidentes vencem por margens cada vez mais estreitas, a maioria no Senado permite que se avance uma agenda independentemente de quem governe. E convenhamos que, para as direitas, essa é uma tarefa muito mais factível do que vencer a eleição presidencial.

Um Senado adversário do Executivo abre caminho para uma pauta legislativa sem freios, para a fragilização de vetos, para a pressão permanente por impeachment e para o assédio institucional ao Supremo. Sem maioria absoluta, o governo passa a operar sob chantagem estrutural. Crises reais ou fabricadas ganham tração institucional; pedidos de impeachment tornam-se instrumentos ordinários de pressão; e o veto presidencial perde eficácia.

As direitas não precisam dominar o Senado, mas apenas retirar do governo a maioria absoluta. A partir daí, o custo político de governar sobe exponencialmente, e o país entra num terreno em que Câmara e Senado juntos podem dominar o jogo.

Dos 81 senadores, 54 terão seus mandatos renovados. Para qualquer governo sobreviver politicamente, é indispensável manter 41 cadeiras, a maioria absoluta. Considerando o estoque atual que não entrará em disputa, os partidos da base precisariam eleger ao menos 28 das 54 cadeiras em disputa, algo próximo de 52%. Trata-se de um patamar elevado para um governo que entra no ciclo eleitoral sob desgaste natural, polarização intensa e um eleitorado mais favorável à direita nas disputas majoritárias estaduais.

O risco não está em uma derrota acachapante, mas em pequenas perdas mal distribuídas. Hoje, cerca de 33 das cadeiras governistas entram em disputa. Basta que a base perca seis delas, sem reposição, para cair abaixo da maioria absoluta. O que pode ocorrer sem "onda", apenas pela combinação de candidaturas competitivas das direitas, fragmentação do campo governista e erros locais de coordenação.

O Senado vem funcionando, na prática, como o principal freio institucional contra uma virada à direita na política brasileira. Projetos que avançaram na Câmara em 2025 —a flexibilização das penas dos condenados pelo 8 de Janeiro, o pacote de endurecimento penal e combate ao crime organizado, a PEC destinada a dificultar a responsabilização criminal de parlamentares— só não tiveram sucesso porque esbarraram no Senado. Para um governo de centro-esquerda, sem maioria no Senado, nenhuma dessas pautas encontrará obstáculo relevante.

Por isso é que, não importa qual a cor ideológica do próximo governo, será na disputa pelo Senado, fora do foco de quem só vê a eleição presidencial, que o eleitor decidirá em que direção o país vai caminhar.

 

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