segunda-feira, 20 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

Na dívida pública, Lula 3 repete Dilma

Por Folha de S. Paulo

Governo projeta passivo de 86% do PIB; sem mudar política fiscal, país estará em risco de novo colapso

É enganoso o argumento de que EUA e Japão possuem dívidas maiores; eles têm capacidade superior de crédito, e gastos com juros são menores

Dada a mixórdia de artifícios contábeis utilizados na apuração dos resultados do Tesouro Nacional ao longo dos últimos anos, hoje o indicador mais claro e confiável para avaliar a política fiscal é a evolução da dívida pública —e ela aponta um fracasso alarmante neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

De acordo com as projeções do recém-divulgado projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), os passivos de União, estados e municípios atingirão o equivalente a 86% do Produto Interno Bruto em 2027. A cifra, se confirmada, mostrará alta de 14,3 pontos percentuais ante os 71,7% do PIB do final de 2022.

Efeitos não antecipados da corrupção, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

No caso do Banco Master não há efeitos mitigadores do impacto dos malfeitos

No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia que tem sido mobilizada

Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: "Estamos em campanha e tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção... Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita".

A disputa pelo Senado e a armadilha da dispersão, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Dados de 1998 a 2022 mostram que candidatos da coligação do governador têm muito mais chance

Desafio é não permitir que votos dos eleitores se diluam entre muitos nomes de um mesmo grupo político

Na última semana, a disputa pelo Senado passou a ocupar mais espaço no debate político. Seja pela pressão de alguns partidos em busca de espaço nas chapas num ano em que estarão em disputa duas cadeiras por estado, seja ainda pela indefinição sobre quem serão os candidatos em alguns estados. A isso se soma o uso abertamente eleitoreiro que o senador Alessandro Vieira fez do relatório da CPI do Crime Organizado.

Voto negro tem poder, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Qual o projeto político dos candidatos para a população negra brasileira?

A realidade já deixou evidente que a falta de consciência social e de letramento étnico-racial afeta diretamente o povo

Com a proximidade das eleições gerais, a pergunta que não sai da minha cabeça é: Ei, senhor(a) candidato(a), qual o seu projeto político para a população negra brasileira?

Indagação semelhante me ocorre em relação a propostas voltadas à proteção, segurança e bem-estar das mulheres. Como se sabe, o público feminino vem sendo atacado sistematicamente em nosso país —a média de feminicídios foi de 4 mortes ao dia em 2025.

Como se lê o kkkkkk em Portugal, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Comparado com os sonoros rárárá, rêrêrê, ririri, rôrôrô e rururu, o kkkkkk é só um cacarejo

Se você escrever kkkkk para sua namorada lisboeta, ela lerá kappakappakappakappa

Os leitores mais regulares desta coluna sabem de minha aversão pelo kkkkkk com que muitas pessoas encerram suas mensagens pela internet. Sabem também de minhas razões para isto. Primeiro, na vida real, ninguém ri kkkkkk, mas de outras maneiras, muito mais ricas. A começar pelo rá-rá-rá, uma explosão aberta e sonora, um brado de bem-estar no mundo. Ou o rê-rê-rê, um riso de desprezo, de ironia. E o ri-ri-ri, uma forma afetiva de rir, embutindo uma crítica ao que se ouviu. E não para por aí.

A íntegra do discurso histórico de Lula em Barcelona

 

Poesia | Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Joao Gilberto & Tom Jobim - Corcovado

 

domingo, 19 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas das famílias espelham gastos de Lula

Por Folha de S. Paulo

Em pesquisa Datafolha, 67% dizem ter passivos financeiros, e 28%, contas de consumo em atraso

Acesso a crédito contribuiu para o fenômeno, mas alta necessárias das taxas de juros do Banco Central para conter inflação foi determinante

Nas últimas semanas, dívidas das famílias tomaram as discussões econômicas e políticas no país.

A degradação da qualidade do crédito era um fenômeno visível desde ao menos o início de 2025 e previsível desde que as taxas de juros passaram a subir, no final de 2024. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, pareceu surpreso ou, ao menos, demonstrou preocupação maior com o tema apenas com a onda de declínio do prestígio do presidente.

A baixa da avaliação presidencial não vem de hoje, mas desde o início do ano passado. Além do mais, as queixas do eleitorado são diversas, como o nível elevado de preços, impostos, insegurança e corrupção, que causam desconfiança geral no sistema político.

A religião, a loteria e o ópio da miséria, por Antonio Gramsci*

Nas Conversazioni criitiche & (Série 11, p. 300-301), Croce busca a "fonte" do Paese di Cuccaga’, de Matilde Serao, e a encontra num pensamento de Balzac. Na narrativa La Rabouilleuse, escrita em 1841 e depois intitulada Un ménage de garçon, falando de Madame Descoings, que há vinte e um anos apostava numa famosa sequência de três números, o "romancista sociólogo e filósofo" observa: "Essa paixão, tão universalmente condenada, nunca foi estudada. Ninguém ainda compreendeu o ópio da miséria. A loteria, a mais poderosa fada do mundo, não desenvolvia esperanças mágicas? A jogada de roleta, que acenava aos jogadores com montões de ouro e de prazeres, n5o durava mais que um clarão; ao passo que a loteria dava uma duração de cinco dias a esse magnífico clarão. Qual é, atualmente, a potência social que pode, por quarenta soldos, tornar-vos felizes durante cinco dias e conceder-vos idealmente todas as felicidades da civilização?"  

Ao lado de Sanches, Lula sobe o tom contra Trump em evento na Espanha, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima ao presidente dos Estados Unidos e uma escalada retórica desnecessária que pode acarretar retaliações da Casa Branca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom nas críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por causa da guerra do Irã, ontem, durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona. Durante o evento, ao lado do presidente da Espanha, Pedro Sanches, Lula criticou as guerras e o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). "Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo dia à noite com um tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra" , disse.

Embora o ambiente fosse favorável a um discurso em defesa da paz, o tom das críticas a Trump sinaliza que pretende trazer para o debate eleitoral a relação com os Estados Unidos, em meio a negociações com a Casa Branca sobre o Pix e à iminente adoção de novas tarifas contra o Brasil pelo governo norte-americano. O contexto político interno, muito impactado pelos efeitos econômicos da guerra do Irã e a sua ultrapassagem por Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, sugere essa mudança de tática.

O Papa e o imperador, por Bernardo de Mello Franco

O Globo

Pontífice é comparado a Pio VII, que peitou Napoleão, por não se dobrar ao imperador laranja

Foi no período de sede vacante, o intervalo entre a morte de um Papa e a escolha do sucessor. A uma semana do início do conclave, o presidente dos Estados Unidos arriscou uma piada sobre o perfil ideal do substituto de Francisco. “Eu gostaria de ser Papa. Seria minha escolha número um”, gracejou.

Três dias depois, Donald Trump voltou à carga. Divulgou uma montagem em que aparecia no trono, vestido de pontífice. A provocação revoltou católicos de todo o mundo. Em Roma, foi recebida como sinal de novos atritos entre a Casa Branca e a Santa Sé.

Trump travou uma série de embates com Francisco, crítico de sua política de deportações em massa. “Quem pensa em construir muros, e não em construir pontes, não é cristão”, sentenciou em 2016, quando o americano prometia erguer uma barreira contra imigrantes na fronteira com o México.

Os Supremos, por Merval Pereira

O Globo

Agora já não é mais um governo autoritário que ameaça o Supremo, é o Supremo que ameaça a democracia

A fórmula mais usada em governos autoritários, de esquerda ou de direita, para controle da democracia sem que suas instituições deixem de funcionar na aparência é o domínio do que aqui se denomina Supremo Tribunal Federal (STF). Por ser a última instância da Justiça, é a que pode definir quem está certo ou errado, especialmente no Brasil, onde qualquer tipo de ação vai parar lá. Por isso mesmo, um governo como o de Bolsonaro, que claramente tinha o objetivo de dar um golpe de Estado, atacava seus representantes, para criar na população uma ojeriza à sua atuação.

Roubalheiras antigas, por Dorrit Harazim

O Globo

Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de ‘Os miseráveis’

Na semana passada, a Assembleia Nacional da França aprovou, por rara unanimidade, o Projeto de lei que agiliza a devolução de obras de arte e bens culturais saqueados ao longo de 157 anos. O limite temporal da medida (entre 1815, ano da queda de Napoleão, e 1972, data da entrada em vigor de convenção da Unesco sobre restituições) restringe o caráter universal inicialmente pretendido. O texto tampouco abriga a palavra-chave envergonhada da questão: “colonização”. Ainda assim, com nove longos anos de atraso, a medida veio cumprir uma promessa de 2017 feita pelo presidente Emmanuel Macron.

A terceira via existe? Por Elio Gaspari

O Globo

Tentar ler numa pesquisa de abril o comportamento do eleitorado em outubro é pouco mais que um exercício de quiromancia, sobretudo quando a Genial/Quaest registrou que há 62% de indecisos.

Há meses, todas as pesquisas trazem notícias ruins para Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o, (42% x 40%) dentro da margem de erro e em um cenário estimulado. O sabor amargo dessa pesquisa está na rejeição. Lula tem 55% e Flávio tem 52%, novamente dentro da margem de erro.

A terceira via tem dois candidatos: Romeu Zema, o ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. No cenário de uma disputa do segundo turno, Lula patina na faixa dos 40%, enquanto os dois têm leve viés de alta. Zema tem 36% e Caiado, 35%.

Como a guerra chega na eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Um recorte exclusivo da pesquisa Genial/Quaest mostra que apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis.

A guerra contra o Irã atingiu diretamente o Brasil, por isso, a perspectiva de fim do conflito, que se abriu na sexta-feira, é uma excelente notícia também para o governo brasileiro. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis. O evento bagunça o cenário e aumenta a distância entre percepção e fato na economia. O país tem bons indicadores, mas o eleitor não sente isso. Para 38%, o principal causador dos preços dos combustíveis é a guerra do Irã e a situação internacional, porém o segundo vilão escolhido, com 25%, é o “governo Lula e suas decisões na economia”.

Nas asas da Panair, ops!, da FAB, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É fácil viajar de graça no Brasil! Basta ter um cargo importante em qualquer poder

Enquanto milhões de brasileiros vivem com seus filhos em barracos, amontoados em morros, sem esgoto, higiene e o mínimo de segurança e conforto, os ricos e poderosos cruzam os céus do País – e do mundo – em jatinhos e jatões, próprios, alugados ou “emprestados”. Baratinho não é.

Os muitíssimo ricos do setor privado compram aviões para uso pessoal, se exibir por aí, fazer negócios e paparicar quem lhes possa garantir algum tipo de vantagem. Os poderosos do serviço público aproveitam seus 15 minutos de fama para usufruir do bom e do melhor, como, por exemplo, os jatinhos da FAB e seus brindes caprichados.

O castelo de areia de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os acordos de reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e de cessar-fogo entre Israel e o Líbano não passam de encenações. A queda no preço do petróleo e as altas nos mercados de ações são movimentos especulativos.

O que o Irã “aceitou” foi manter aquilo que já havia imposto: os cargueiros têm de passar por corredores estabelecidos pela marinha iraniana. O Esquema de Separação de Tráfego (TSS), que funcionou tão bem desde os anos 60, está comprometido pelas minas lançadas pelo Irã.

Pancadas sobre o turismo, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Tempo de guerra é sempre ruim para o turismo. Desta vez, não é diferente. Mas o setor vem levando pauladas há mais tempo, por uma conjunção de fatores.

Turismo é atividade relativamente nova da economia global. Viagens sempre houve, como houve peregrinações e deslocamentos em busca de contatos, de atividades econômicas e de conhecimento. Mas o desfrute em massa de outras culturas e de prazeres proporcionados pela natureza é mais recente.

A promessa de arrocho de Flávio Bolsonaro e o risco de bananismo autoritário, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato da extrema direita quer 'tesouraço' nos gastos e menos impostos ao mesmo tempo

Se houver protesto contra um governo Bolsonaro 2, haverá cenoura diversionista ou chicote?

O vago plano econômico de Flávio Bolsonaro é em tese impopular, ao menos quanto a contas do governo. Prega redução de impostos e cortes de despesas. Quanto menos tributação, maior o tamanho da contenção de gastos. A rigor, porém, há promessa de aumento de impostos, de início (corte de gasto tributário é isso).

O risco de protesto é evidente, do topo ao chão da escala de renda. A questão fiscal será problema para qualquer governo, mas o modus operandi bolsonarista em relação à divergência é problema ainda maior. Quanto ao mais, o candidato a Bolsonaro Segundo diz que as "diretrizes e lições" são as do governo Bolsonaro Primeiro.

O plano é apenas em tese impopular. Javier Milei, na Argentina, inspiração bolsonarista, fez ajuste fiscal inédito, afora aqueles de tempos de grande guerra ou de hiperinflação terminal, chegando a cortar em 30% o valor real de rendas de pessoas que recebiam pagamento do Estado. Milei começa a cair pelas tabelas, mas a "motosserra" autoritária não levou seu prestígio a nível negativo nem impediu vitória eleitoral nos primeiros dois anos.

CPI pega STF e livra políticos, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Relatório não indiciou quem roubou, ganhou dinheiro e tentou salvar o Master com dinheiro público

Se tivesse contado a história toda, texto teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4

O relatório da CPI do Crime Organizado escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro público.

A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.

Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em uma CPI sobre bingos.

STF se enreda na própria teia, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não há solução à vista para a recuperação do alto grau de desconfiança da população no Supremo

Cabe ao tribunal decidir se faz autocrítica para salvar a instituição ou se ignora as evidências e aprofunda a crise

Na sexta-feira (17), Edson Fachin e Cármen Lúcia respiraram fundo e foram ao cerne da questão: a crise de confiança que assola o Judiciário, em particular o Supremo Tribunal Federal, é grave e precisa ser enfrentada pelos próprios juízes.

O presidente e a ministra vocalizaram o que diz a população nas pesquisas que registram o alto grau de desconfiança na corte. Minados internamente, partiram para o desabafo externo na tentativa de mostrar aos colegas a necessidade de reconhecer o óbvio e virar essa página nefasta na história do STF.

Dejetos apocalípticos da guerra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, Trump alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos

Frágil é a trégua no Oriente Médio; certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno

Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à "slopaganda" ("sloppy propaganda") iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu "eme".

Poesia | Inconfesso Desejo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Billy Blanco - "A Banca do Distinto" - A Bossa de Billy Blanco

 

sábado, 18 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ameaça de Gilmar Mendes a senador é desproporcional

Por Folha de S. Paulo

Reação do ministro do STF viola o princípio constitucional que protege palavras e votos dos parlamentares

Mendes e colegas optam por fechar-se em copas e contra-atacar com superpoderes os críticos que cobram limites e compostura no tribunal

Para um ministro do Supremo Tribunal Federal, há dois modos de lidar com a crise de credibilidade que atinge o colegiado. O mais razoável é admitir que existem problemas de condutas de juízes e de excesso de poder da corte e, a partir daí, entabular uma agenda para corrigi-los com cuidado e equilíbrio.

O segundo é o encastelamento. Faz-se de conta que toda crítica a um colega ou ao modo de operação do tribunal compõe um complô para acabar com a democracia. A partir daí, a receita manda contra-atacar, valendo-se de todo o amplo arsenal hoje acessível a um integrante do STF.

A crueldade como política, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Não tem sido fácil cumprir as ambiciosas promessas da democracia

Orbán inspirou líderes populistas e autoritários como Trump, Erdogan, Modi e Bolsonaro

Democratas ao redor do mundo foram tomados por enorme euforia com a derrota de Viktor Orbán nas eleições desta semana na Hungria, após 16 anos no poder. A ascensão de Orbán, em 2010, interrompeu a chamada "terceira onda de democratização", desencadeada pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, a partir da qual dezenas de países ao redor do mundo transitaram para a democracia.

A democratização de países como Argentina, Chile, Brasil, Polônia, Hungria ou África do Sul não se limitou a almejar o estabelecimento de eleições livres e competitivas. Como contraposição à crueldade, à tortura, à censura, ao racismo ou ao arbítrio, inerentes aos regimes autoritários que sucederam, o Estado de Direito, os freios e contrapesos e os direitos humanos tornaram-se elementos constitutivos das novas democracias constitucionais.

Mandantes e mandatários, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A quarta fase da Operação Compliance Zero foi a primeira disparada sobre bases da delação de Daniel Vorcaro. É informação relevante; porque não será pequena a tentação para que nos satisfaçamos já à primeira oferta de delatados. Paulo Henrique Costa estava dado – cabeça à mesa – fazia tempo. O ex-presidente do BRB – a quem se pagaria propina de R$ 140 milhões – era burocrata cujo poder executivo, num banco público, não lhe dava autonomia para decidir negócio de bilhões. A conta não fecha.

Dívida sai da periferia; chega ao centro, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A nova era da dívida dos países está criando uma geografia da desigualdade

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente reduziu a projeção de crescimento de 2026 do PIB mundial de 3,4% para 3,1% no seu cenário base. Outros cenários apresentam que crescimento pode cair para 2,5% ou até 2%. Alertando que a economia global está sendo testada por choques, enfrentando riscos crescentes e pode entrar em cenário adverso rapidamente. Traduzindo em miúdos: O mundo ainda não entrou em recessão – mas passou a caminhar perigosamente para ela.

Ficar por quê, por Flávia Oliveira

O Globo

O desemprego é o menor da série histórica do IBGE, iniciada em 2012; a recuperação da renda é constante

Esta não é uma coluna sobre Big Brother Brasil, o reality show da TV Globo que adentrou a reta final da 26ª edição. Mas o critério de eliminação do programa cai como uma luva na análise eleitoral a que me proponho. Toda semana, o BBB reúne os integrantes indicados, por voto, ao paredão, e Tadeu Schmidt — a quem abraço e à família pela perda de Oscar, ídolo de todos nós, torcedores do esporte brasileiro — os convida a declarar em meio minuto por que cada um deve permanecer na casa hipervigiada pelo prêmio de R$ 5 milhões. Quem decide é o eleitor — digo, o público.

Matar um para assustar cem, por Thaís Oyama

O Globo

Susto é endereçável não apenas a Alessandro Vieira, mas também aos candidatos que disputarão a eleição para o Senado

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes quer que o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) seja investigado por abuso de autoridade por ter defendido, no relatório da CPI do Crime Organizado, o indiciamento dele e de outros colegas da Corte. O pedido de Gilmar deixou juristas perplexos, dado que a Constituição garante a parlamentares imunidade por suas opiniões. Tendo sido o relatório de Vieira rejeitado pela CPI, o que o senador ali escreveu não passou, dizem, de ponto de vista. Inexiste qualquer “ato de poder” que possa ser qualificado como abusivo.

O vão entre as palavras, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez consigamos produzir similar nacional para a palavra de primeira necessidade neste país

Alguém comentou no X (onde mais?) que blackface é um problema tão grave no Brasil que nem sequer existe palavra em português para designá-lo. Procede. Mas nem tanto.

A falta de timing é um caso sério entre nós, e tampouco encontramos um jeito nosso de expressar essa “sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo, ou senso de oportunidade quanto à duração de um processo, uma ação etc.”. Perdão, Houaiss, mas timing é melhor.

Brasília 66, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Brasília assistiu a rebeliões e golpes de Estado. Hoje é uma cidade grande, com os desafios inerentes ao seu tamanho, com atividade política própria. O tempo da aventura no Planalto Central terminou

O presidente Juscelino Kubitschek foi objetivo. Concluiu apenas os principais prédios da nova capital da República na data da inauguração: 21 de abril de 1960. Foram terminados o Palácio da Alvorada, o do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, o esqueleto da Catedral, os ministérios, a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, as duas asas — Sul e Norte —, o Lago Paranoá e poucas superquadras. Os pioneiros terminaram de construir a cidade que hoje é a terceira maior do Brasil, depois de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Na década de sessenta, no século passado, Brasília era uma aspiração. O presidente Jânio Quadros, que governou por apenas oito meses e alguns dias, renunciou a seu cargo, fugiu para São Paulo, onde ficou homiziado na base aérea de Cumbica.  Dali foi para o exílio. Quando saiu de Brasília, disse que jamais voltaria a "esta cidade malsinada". Fez uma única obra em Brasília. Ordenou a construção de um pombal na praça dos Três Poderes. João Goulart, o Jango, também não fez nada em favor da cidade. Ele governou do Palácio das Laranjeiras, no Parque Guinle, no Rio de Janeiro.

Quem liderará o futuro do Ceará? Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Ainda não sabemos como se dará a disputa ao governo estadual no Ceará daqui a alguns meses. Embora seja esperado que as definições definitivas das candidaturas se arrastem até o limite do prazo, quando todos os atores podem ponderar os riscos e articular suas composições, observamos, no Ceará, algo além e mais complexo do que o simples manejo do tempo disponível. Em verdade, partidos e lideranças partidárias ainda estão lidando com os efeitos do racha político vivenciado entre PT e PDT no pleito de 2022, e com as consequências disso para os projetos pessoais.

Ex-presidente do BRB pode tentar correr com delação no caso Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Aconselhado a delatar antes, Paulo Henrique Costa foi preso na 4ª fase da operação Compliance Zero

Suspeita-se que ele possa ter recebido vantagens financeiras ou de outro tipo para não delatar antes.

Preso na 4ª fase da operação Compliance Zero da Polícia Federal, Paulo Henrique Costa, o ex-presidente do BRB, pode agora ter incentivos para correr e fechar uma delação até mesmo antes de Daniel Vorcaro, dono do Master, que já assinou um acordo de confidencialidade para iniciar a colaboração.

Acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Costa é suspeito de ter ocultado seis imóveis recebidos como propina, avaliados em R$ 146,5 milhões.

Estamos todos à venda? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corrupção é fenômeno mais disseminado do que gostaríamos de acreditar

Desonestidade é fruto de negociação interna entre ganho material e autoimagem

Sou meio ingênuo para esquemas de corrupção e outras promiscuidades público-privadas. Já há anos me queixo do circuito Elizabeth Arden de palestras e viagens de ministros do STF. Acreditava, talvez tolamente, que os atrativos oferecidos para conquistar a boa vontade de julgadores ficavam mais ou menos limitados à hospitalidade de luxo e outros prazeres efêmeros. A percepção de que os arranjos podem envolver significativo aumento patrimonial foi, para mim, um pouco chocante.

Governador em exercício trava máquina bolsonarista no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ricardo Couto decreta auditoria e exonera aliados de Cláudio Castro

Homem das rachadinhas do filho 01, Queiroz virou subsecretário à beira-mar

Saquarema é um dos principais destinos do surfe no Brasil. Desde o ano passado, quem tira onda por lá é Fabrício Queiroz, o homem das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

O repórter Bernardo Mello revelou que Queiroz, sob o abrigo de aliados do antigo chefe, virou o subsecretário de Segurança e Ordem Pública da cidade. Queimado de sol e com óculos escuros, ele posa de xerife local. A nomeação foi um ajuste entre o ex-prefeito Antonio Peres, que comanda o diretório municipal do PL, e o filho 01.

Vamos conversar sobre o poder do Estado em uma sociedade sem limites claros, por Antônio Márcio Buainain*

Jornal da Unicamp

"A questão, portanto, não é apenas se o Estado sabe o que fazer, mas se ainda consegue, de fato, fazer valer suas decisões"

Nas conversas anteriores neste espaço, discutimos diferentes manifestações de um mesmo problema. Primeiro, o descompasso entre um Estado desenhado para uma realidade que já não existe mais e uma sociedade que mudou de forma acelerada. Depois, a emergência quase permanente governos funcionando sob a pressão de crises sucessivas. Em seguida, as dificuldades da proteção social em um contexto de envelhecimento, transformação do trabalho e reconfiguração das famílias. Em todos esses casos, a conclusão apontava na mesma direção: decisões difíceis precisariam ser tomadas, prioridades precisariam ser estabelecidas, e escolhas precisariam ser sustentadas ao longo do tempo. Mas é justamente isso que, em boa medida, já não estamos conseguindo fazer.

A Guerra do Irã e seus impactos fiscais, por Marcus Pestana

Há mais de seis semanas, a economia mundial sofre os efeitos da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O conflito militar afetou uma área expandida envolvendo Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Iraque, Kuwait e Líbano. O brusco aumento dos preços do petróleo, principal insumo ainda com capacidade de afetar a matriz energética global, as cadeias produtivas e os fluxos comerciais internacionais, lançou a economia em uma espiral de incertezas e temores. O salto da cotação do petróleo Brent de US$ 71 para mais de US$ 100 o barril acendeu a luz amarela sobre a possibilidade de um ciclo marcado por aguçamento da inflação mundial, retração do comércio e da economia, comprometimento das cadeias logísticas, ou mesmo crise energética persistente, a depender do nível de comprometimento da estrutura produtiva petrolífera do Oriente Médio.

Não é (só) a economia, por Cláudio Couto

CartaCapital

Ela importa na decisão de voto, mas não explica tudo

Passada a desincompatibilização dos ocupantes de cargos no Executivo que pretendem concorrer nas eleições, fica claro o quadro da disputa presidencial e nos estados. Salvo surpresas, as candidaturas ao Planalto estão postas: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Cabo Daciolo (Mobiliza), Aldo Rebelo (DC) e Samara Martins (UP). Além da possível postulação de Romeu Zema (Novo), há o balão de ensaio da candidatura de Ciro Gomes (PSDB). É, porém, improvável que o cea­rense desista de uma candidatura forte na disputa pelo governo de seu estado para entrar num jogo embolado e com pouco espaço para crescimento de candidaturas alternativas a Lula e Flávio.