sexta-feira, 5 de junho de 2026

Breves notas sobre a política de Maquiavel, por Antonio Gramsci*

O caráter fundamental do Príncipe é o de não ser um tratado sistemático, mas um livro “vivo”, no qual a ideologia política e a ciência política fundem-se na forma dramática do “mito”.  Entre a utopia e o tratado escolástico, formas nas quais se configurava a ciência política até Maquiavel, este deu à sua concepção a forma da fantasia e da arte, pela qual o elemento doutrinário e racional personifica-se em um condottiero, que representa plástica e “antropomorficamente” o símbolo da “vontade coletiva”. O processo de formação de uma determinada vontade coletiva, para um determinado fim político, é representado não através de investigações e classificações pedantes de princípios e critérios de um método de ação, mas como qualidades, traços característicos, deveres, necessidades de uma pessoa concreta, o que põe em movimento a fantasia artística de quem se quer convencer e dá uma forma mais concreta às paixões políticas. (Deve-se pesquisar, nos escritores políticos anteriores a Maquiavel, se existem textos configurados como o Príncipe. Também o final do Príncipe está ligado a este caráter “mítico” do livro; depois de ter representado o condottiero ideal, Maquiavel — num trecho de grande eficácia artística — invoca o condottiero real que o personifique historicamente: esta invocação apaixonada reflete-se em todo o livro, conferindo-lhe precisamente o caráter dramático. Nos Prolegomeni de L. Russo, Maquiavel é chamado de artista da política e, numa ocasião, chega-se mesmo a encontrar a expressão “mito”, mas não exatamente no sentido acima indicado).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

CNJ adota medida bem-vinda contra supersalários

Por Folha de S. Paulo

Contracheque único para juízes é avanço contra penduricalhos, mas solução definitiva depende do Congresso

A desfaçatez é tanta que, enquanto o STF debatia o tema, magistrados de SP embolsaram em média R$ 132 mil em março, quase o triplo do teto

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) enfim adotou uma providência bastante óbvia para aumentar a transparência no Judiciário: trata-se da criação do contracheque único para magistrados, cujo objetivo é padronizar rubricas e vedar folhas de pagamento paralelas.

Por trás dessa resolução, aprovada de forma unânime no fim de maio, está a necessidade de centralizar em um mesmo documento diversas remunerações que hoje têm aparecido dispersas, como diárias, ajuda de custo, gratificações, indenização de férias e valores retroativos pendentes.

Bolsonaros são soldados do trumpismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.

Jornada de trabalho ou de liberdade? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O tempo social do que disseram na Câmara veio dos tempos da escravidão, um embate situado em tempos longínquos: a justiça social é aqui tardia e pendente

Na votação contra a jornada de 6 x 1, na Câmara dos Deputados, o projeto acabou sendo aprovado. A principal questão em debate não foi a da duração da jornada semanal de trabalho. Os que ganham com a jornada arcaica foram derrotados economicamente para não perder politicamente. Os desencontros foram sociologicamente reveladores, na função desconstrutiva dos avessos.

Nesse caso, o tempo social do que as pessoas disseram veio dos tempos da escravidão. Um embate situado em tempos longínquos. E nos diz que a justiça social é aqui tardia e pendente.

Trump prende o Brasil no ‘Dia da Marmota’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Bolsonaro não tem apoio, mas a agenda de reformas tem

E por falar em Estados Unidos, a sensação é de que estamos presos em um looping, nós, brasileiros, sob a ofensiva tarifária, que se repetiu quando parecia superada; eles, americanos, movidos por uma megalomania que um mundo multipolar já não comporta mais. A sensação é de que, há tempos, dormimos e acordamos no mesmo Dia da Marmota, como naquela reprise da Sessão da Tarde. Com a singularidade de que não existem marmotas no Brasil. Quem não se lembra de Bill Murray no filme “Feitiço do tempo”, de 1993, que, no papel de um jornalista especializado em clima, vai cobrir o Dia da Marmota - Groundhog day, no original, em inglês - festa que leva milhares de turistas a uma pequena cidade da Pensilvânia.

STF é panela prestes a explodir, por Vera Magalhães

O Globo

Para além das divergências sobre o papel do Judiciário, existe o caso Master

Passada a semana do feriado, a volta ao trabalho presencial deverá ser acompanhada por um clima para lá de pesado no Supremo Tribunal Federal (STF). As tensões que vêm se acumulando entre os ministros nos últimos meses, em razão de divisões internas e discordâncias quanto ao papel do Judiciário no jogo institucional, tendem a deixar os bastidores e resultar em algum tipo de confrontação explícita.

O globetrotter dos direitos humanos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Brasileiro se despede da ONU após 15 anos à frente de comissão que investiga crimes de guerra na Síria

Em março de 2011, a Primavera Árabe chegou à Síria com manifestações pacíficas pelo fim da ditadura de Bashar al-Assad. O regime reprimiu os protestos com violência, e o país mergulhou numa sangrenta guerra civil.

Em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU acionou um brasileiro para observar o conflito. “No início, os refugiados queriam saber em quantos dias os filhos poderiam voltar à escola. Pensavam que a guerra não iria durar muito. Durou quase 14 anos”, espanta-se Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação Internacional Independente sobre a Síria.

Assimétrico sim, mas por que? por Pablo Ortellado

O Globo

A saída para a crise é torná-las mais plurais e discutir amplamente orientações normativas, buscando um nível maior de consenso social antes de passarmos a impor regras

Tornou-se lugar-comum em meios de esquerda dizer que a polarização política “não existe” — ou, se existe, que é “assimétrica”. O argumento é que, nos últimos anos, a esquerda não foi para a extrema-esquerda, mas para a centro-esquerda, enquanto a direita se moveu para a extrema direita. Não cabe, desse ponto de vista, falar em polarização. Ou deveríamos chamar essa polarização de “assimétrica”, já que um lado está no meio, o outro no extremo.

O argumento chama a atenção para um fato: enquanto a referência estabelecida da direita é hoje o bolsonarismo, tido como ultraconservador e com posições antidemocráticas, a referência da esquerda é o PT, visto como partido moderado e democrático. O equivalente do bolsonarismo na esquerda, em termos de distância do centro, seriam partidos muito pequenos como UP, PCB ou PSTU.

Tempo fechado nas relações EUA–Brasil, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes e trabalhar com a hipótese de que os EUA já não serão o mesmo parceiro do passado

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington – a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25% – têm de ser analisadas com frieza. No mesmo dia em que Jamieson Greer, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Tudo, menos mexer no Pix! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao encenar que defende o Pix com Trump, Flávio admite o risco para sua campanha

Os EUA podem até ameaçar duplamente com mais tarifas, pela Seção 301 e por alegação de “trabalho forçado”, mas não se atrevam a mexer com uma coisa: o Pix, que mais de 170 milhões de brasileiros (93% dos adultos do País) usam e não aceitariam voltar para as velhas notas amassadas, desagradáveis, que exigem troco, algo cada vez menos disponível.

Gente que faz negócio sujo é que gosta de dinheiro vivo, gente trabalhadora ou empreendedora não abre mão do Pix. Donald Trump tende a dividir o Brasil, na mesma proporção da polarização política, ao declarar PCC e CV como “terroristas” e se autoconceder o direito de pintar e bordar por aqui, como fez na Venezuela. Mas ameaçar o Pix não divide, e sim une de lulistas a bolsonaristas.

Trump não olhou o próprio umbigo, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Maior escravizador das Américas, Estados Unidos querem punir o Brasil

No seu afã protecionista, o presidente Donald Trump decidiu remontar seu arsenal tarifário, mas se esqueceu de olhar para o próprio umbigo.

Partiu de uma premissa louvável: punir países que produzem ou importam mercadorias que utilizam trabalho escravo.

Porém, produziu um absurdo: taxou em cerca de 12,5% mais de 80 países, incluindo Noruega, Suíça e todos os europeus. Lá no meio da lista está o Brasil.

O cálculo de risco de Flávio, a oposição e a política de Trump, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Responsabilizar Lula pelos ataques provenientes dos EUA mostra-se uma estratégia perigosa, pois coloca no palanque eleitoral questões ligadas aos interesses nacionais, e não propriamente à batalha partidária

A estratégia de pegar carona na política norte-americana para abafar o envolvimento no escândalo Master e turbinar a disputa eleitoral contra o presidente Lula é uma jogada perigosa de Flávio Bolsonaro. O cálculo do senador repete a estratégia adotada no ano passado, quando o governo Trump lançou um conjunto de medidas que atingiam não apenas a economia brasileira, mas igualmente autoridades do Executivo e do Judiciário. É incerto, todavia, se essa articulação internacional resultará no objetivo final de Flávio Bolsonaro em 2026: sair vitorioso das urnas.

Gente grande ainda acredita que a crise do petróleo vai ser feia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Guerra e suas consequências econômicas vão sumindo do notíciário, mas ainda são veneno

OCDE, FMI, OMC, Banco Mundial e negociantes de petróleo alertam para baixa de estoques

Na segunda-feira, terão passado cem dias desde que começou a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os mortos mereceram pouca atenção desde o início da desgraça, mas por algum tempo o choque econômico era assunto. Agora, resiste em governos, rodas de economistas e similares. A história vai sumindo do noticiário.

Um choque estaria nos espiando escondido, na próxima esquina? Grandes empresas negociadoras de petróleo têm dito por estes dias que a calmaria relativa abafa alertas de risco de escassez depois de junho, caso o estreito de Ormuz continue praticamente fechado.

Trump é pé-frio eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Interferência em pleitos no exterior já levou a derrotas históricas de candidatos apoiados pela Casa Branca

Em eleições na América Latina, placar é um pouco mais favorável ao presidente norte-americano

Tratando-se de Donald Trump, presumir intenções e cálculo estratégico é um exercício arriscado. Não que ele não tenha preferências e objetivos políticos, mas nem sempre é capaz de hierarquizá-los e definir rotas coerentes para efetivá-los.

Embora Trump tenha desenvolvido um relacionamento até cordial com Lula, não há dúvida de que seu coração é bolsonarista. Tivemos uma prova disso na semana passada, quando o presidente americano não só recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca como também acedeu a seu pedido para classificar PCC e CV como organizações terroristas.

Troca de insultos entre candidatos rebaixa o debate eleitoral, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Candidatos põem Trump no centro de uma campanha que deveria se concentrar nos problemas do Brasil

A real defesa do Pix pode ser feita com apoio à emenda que amplia a autonomia do Banco Central

O aguado caldo de racionalidade que ainda poderia haver no debate eleitoral entornou de vez com a divisão da cena entre Luiz Inácio da Silva (PT) como defensor da soberania, antagonista de Trump, e Flávio Bolsonaro (PLno lugar de entreguista, traidor da pátria a serviço do americano.

Nossos ingratos amigos, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Marco Rubio disse que o Brasil não está entre os amigos dos EUA e continuou no emprego

Nos últimos 130 anos, ninguém se beneficiou tanto da amizade do Brasil quanto os EUA

Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump —só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Bolsonaro y las consecuencias de una traición, por Fernando de la Cuadra

El Clarin (Chile)

Para salir del centro de las atenciones por sus vínculos con el “banquero” Daniel Vorcaro, jefe del grupo criminal asociado a la mayor estafa financiera de la historia republicana, el senador Flavio Bolsonaro recurrió a un encuentro con Donald Trump para discutir –según él- algunos temas importantes para el país. Después de la mentada visita, el gobierno de Estados Unidos tomó 3 medidas que afectan de lleno en la soberanía e independencia de Brasil.

La primera de ellas fue atribuirle el estatus de terroristas a dos facciones del narcotráfico local, el Comando Vermelho (CV) y el Primer Comando de la Capital (PCC), lo cual puede significar que las instituciones norteamericanas, como la DEA, pueden intervenir en territorio brasileño para combatir a ambos grupos, caracterizados ahora por el gobierno Trump como narcoterroristas.

Uma lúcida e oportuna ponderação, por Ivan Alves Filho*

Sérgio Augusto de Moraes é autor de duas obras importantes para a compreensão da marcha da História nas últimas décadas. Vamos lá, pela ordem cronológica. A primeira delas é Viver e morrer no Chile, um relato pungente a respeito da experiência da Unidade Popular (UP), movimento capitaneado por Salvador Allende entre 1970 e 1973, voltado para a construção do socialismo pela chamada via democrática. Sérgio Moraes analisa as dificuldades enfrentadas por Allende e seus companheiros de luta, em uma época marcada pela truculência política norte-americana e seu fascismo de exportação. Não deu outra: a investida golpista de Augusto Pinochet, a 11 de setembro de 1973, mergulharia o Chile em uma repressão das mais sangrentas, acarretando na morte, por fuzilamentos e torturas, de milhares de pessoas. 

Poesia | João Cabral de Melo Neto (1/2) - De Lá Pra Cá - 28/09/2009

 

Música | Teresa Cristina - Feitio de Oração (Noel Rosa)

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca*

“Não há dúvida de que as “ideologias” têm para Gramsci peso maior do que para qualquer outro pensador marxista, mas afirmar que “tornam-se o momento primário da história” equivale a inserir seu pensamento nos quadros conceituais da “filosofia do espírito” de Benedetto Croce. É verdade que Bobbio aplica ao pensamento gramsciano um paradigma dicotômico (estrutura/superestrutura) que não se lhe adapta. A “distinção entre sociedade política e sociedade civil” – escreve Gramsci – é uma “distinção metodológica”, não “orgânica”. “Sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos”. É um dos trechos mais conhecidos do Caderno 13, no qual Gramsci polemiza com o liberalismo porque, considerando “orgânica” o que deveria ser uma distinção “metodológica”, contrapõe o mercado ao Estado, ignorando que “também o liberismo é uma ‘regulamentação’ de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva”[1]. Além disso, para Gramsci, a distinção entre estrutura e superestrutura é de caráter “metodológico”, tanto que a “metáfora arquitetônica”, em certo momento, cede o passo a outras conceituações.

*Giuseppe Vacca, Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci, Brasília/ Rio de Janeiro: FAP/ Contraponto, 2016, p. 267


[1] A. Gramsci, Quaderni del carcere, cit., p. 1592.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com novos pretextos, Trump renova ameaça de tarifaço

Por Folha de S. Paulo

Casa Branca recorre a argumentos como corrupção e Pix para outra ofensiva protecionista contra o Brasil

Ataque comercial será inevitavelmente utilizado como arma eleitoral; espera-se que governo Lula acione diplomacia para mitigar as medidas

Movido por crenças equivocadas, o governo de Donald Trump novamente ataca parceiros comerciais com ameaça de novas tarifas.

Em mais um capítulo da sua cruzada protecionista, a Casa Branca agora mira o Brasil com medidas que, se não têm o caráter de chantagem política explícita do tarifaço de 2025, não deixam de revelar uma estratégia de hostilidade sistemática.

A investigação da chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, aberta em julho do ano passado e recém-concluída, é o principal instrumento dessa nova ofensiva, que pode resultar em impostos de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros.

Segundo a consultoria MB Associados, o impacto recairia sobre 27% das exportações nacionais para os Estados Unidos —cerca de US$ 9,5 bilhões dos US$ 37,7 bilhões exportados para o parceiro comercial em 2025.

Lula reage ao realismo internacional, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

É improvável que as preocupações de Lula em relação ao multilateralismo produzam impacto na corrida eleitoral. Será mais importante mostrar o que o governo brasileiro tem feito para dirimir as ameaças tarifárias

Na abertura da reunião ministerial no Palácio do Planalto, o presidente Lula voltou a abordar um problema crônico nas relações internacionais: a crise do multilateralismo. O chefe do governo brasileiro considera fundamental uma mudança na ordem mundial, marcada pela ação unilateral de grandes potências, de modo a alimentar sucessivas crises e guerras.

Lula pretende renovar o alerta para a crise do multilateralismo em breve — possivelmente, em 15 de junho. "Eu nem ia ao G7. Agora eu vou. Porque é preciso alguém tentar colocar ordem nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU", argumentou o presidente.

Quem politizou o comércio exterior, por Míriam Leitão

O Globo

Há muitas digitais nas taxações impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar

A sucessão dos eventos deixa claro que essa nova guerra tarifária está vinculada à família Bolsonaro e ao lobby feito por eles. O presidente Donald Trump, antes de anunciar o primeiro ataque, em julho do ano passado, acusou o Brasil de estar fazendo uma suposta “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Na época, Eduardo Bolsonaro poescreveu em rede social: “Obrigado presidente Donald J. Trump”. Nesta semana, entre o primeiro e o segundo anúncio de sanções contra o Brasil, Trump postou a foto do encontro com Flávio Bolsonaro. Há muitas digitais. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar.

O que será? Por Merval Pereira

O Globo

Lula ganhou de presente o tema da “traição da pátria” e os ataques do governo dos Estados Unidos ao Pix

A questão de “traição da pátria” volta e meia entra na discussão política porque a globalização coloca quase diariamente diante dos líderes de governos questões delicadas que não se limitam mais a seus países, mas à geoeconomia expandida. Os bolsonaristas são críticos da globalização, mas se colocam à disposição do governo dos Estados Unidos na maioria das situações. O mesmo acontece com o próprio Trump: assumiu o governo dizendo que não meteria o país em novas guerras, mas só faz isso. A globalização que tanto critica é a razão de acionar a metralhadora giratória para todos os lados.

Governo dos EUA tenta dar uma mãozinha à oposição , por Julia Duailibi

O Globo

É verdade que algumas, isoladamente, não são um ato contra o Brasil. É o caso das tarifas de 12,5% para quem importa mercadorias de locais que usam trabalho forçado

As últimas 48 horas esfriaram a relação, que parecia caminhar pelos trilhos da racionalidade, entre Brasil e Estados Unidos. Depois da insensatez da Lei Magnitsky e afins, promovida pelo escritório avançado do bolsonarismo em Miami, Lula e Trump puseram as coisas nos eixos e passaram a negociar uma pauta comercial concreta. Na reunião entre eles em Washington, em maio, o Brasil dizia cobrar dos americanos tarifa média de 2,7%, e os americanos rebatiam dizendo que era cerca de 12%. Uma divergência dentro das regras do jogo. Lula e Trump mandaram suas equipes ir para casa resolver a pendenga, e tudo parecia correr bem. Até que a conversa descarrilou.

Afagos e pontapés, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula mal cabe em si no papel de que mais gosta, o de grande estadista mundial, no qual sua torrente incessante de palavras contrasta com seus efeitos práticos – ou seja, a capacidade de realizar o que diz. Mas é o papel que seus adversários insistem em dar-lhe de presente.

Jair Bolsonaro nunca teve inteligência estratégica, vide onde foi parar. Seus dois filhos conseguem ser piores. Enxergam em Donald Trump uma espécie de Guia Genial da superpotência americana, cuja condição de hegemonia planetária ele se empenha em diminuir.

Em relação ao Brasil, porém, os interesses de Trump estão definidos. Somos um tipo de peão fornecedores de commodities, especialmente as de importância geopolítica, e irritantes cerceadores das atividades de empresas americanas (ênfase no setor financeiro e digital) que precisam ser disciplinados.

Intervenção sem tiro nem bomba, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Medidas de Trump mudam foco do debate para beneficiar Flávio e dificultar reeleição de Lula

Sem tiro nem bomba, os Estados Unidos iniciaram uma intervenção política no processo eleitoral brasileiro. Se o assunto da semana passada era a fortuna que Flávio Bolsonaro recebeu do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, as manchetes agora se ocupam de decisões de Donald Trump que miram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva – o principal concorrente de Flávio na disputa.

Parte da cúpula do Judiciário considera que a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas foi o primeiro passo na interferência dos EUA nas eleições deste ano, porque prende Lula a uma saia justa: se clamar pela soberania nacional, pode ser interpretado como defensor de bandido.

Lições de um Nobel no Fórum de Lisboa, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

A novidade do professor Mokyr está no avanço teórico em relação aos novos institucionalistas

Joel Mokyr é professor da Northwestern University e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025. Seus estudos avançaram enormemente nos temas: desenvolvimento econômico, instituições e inovação tecnológica. A questão central que o motiva é: como aumentar a prosperidade num contexto de inovações tecnológicas, cujo ritmo é exponencial.

A 14.ª edição do Fórum de Lisboa, iniciativa por vezes tão criticada por setores viciados da imprensa e da opinião pública no Brasil, trouxe o professor Mokyr para uma palestra magna no último dia do evento. Foi uma oportunidade única para ouvir e registrar as lições de uma das mentes mais privilegiadas do mundo. A mesa foi mediada pelo próprio ministro Gilmar Mendes e pela presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin), Cristiane Coelho Galvão.

Subserviência dos Bolsonaros a Trump é inimiga do país, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Não é da natureza do Brasil um alinhamento incondicional a nenhuma potência

Flávio Bolsonaro expôs sua absoluta ignorância sobre as relações entre Brasil e EUA

Ainda não se conhecem as consequências da decisão do governo Trump de incluir o PCC e o Comando Vermelho nas listas de Grupos Terroristas Especialmente Designados e de Organizações Terroristas Estrangeiras. O duplo enquadramento soma sanções financeiras a medidas penais e restrição migratória.

Em consequência, o combate às facções deixa de ser problema policial do Brasil e passa a ser questão de segurança nacional dos Estados Unidos, abrindo brechas para sanções e ações unilaterais —como operações secretas ou mesmo o uso de força militar— fora do controle brasileiro.

Especialistas se dividem quanto à extensão do dano que aquela medida unilateral poderá trazer para a cooperação policial entre os dois países, já bem estabelecida há tempos, bem como para o setor financeiro e para empresas nacionais que operam nos Estados Unidos.

Vai chover no feriado e em Vorcaro, Flávio, Lula, na Bolsa, no petróleo e no Neymar; ou não, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Previsões para o destino de política e economia vão se desfazendo, como de costume

Prever é preciso, mas se presta menos atenção a problemas de fundo e menos noticiosos

O Ibovespa chegaria aos 200 mil pontos em maio —está perto de 170 mil. O "investidor estrangeiro", não raro brasileiro com dinheiro lá fora, não estaria dando a mínima para a eleição. A delação de Daniel Vorcaro seria explosiva e "tirava o sono de Brasília", que dorme com Vorcaro e vorcarettes.

A negociação do governo brasileiro com o americano derrubaria o "tarifaço", dadas a "química" de Donald Trump com Luiz Inácio Lula da Silva e as ações da diplomacia pública e privada do Brasil.
Levaria tempo para Flávio Bolsonaro alcançar Lula nas pesquisas. Flávio ultrapassaria Lula em breve. Flávio seria um Bolsonaro "moderado".

As digitais bolsonaristas no novo tarifaço, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Gênese do atual ataque dos EUA ao Brasil está bem descrita na carta que Trump enviou ao presidente Lula

Republicano dissolveu as fronteiras entre política e economia na relação do Brasil com os EUA; não será Flávio que conseguirá redesenhá-las

O senador Flávio Bolsonaro tenta se dissociar da proposta de um novo tarifaço dos Estados Unidos, mas o movimento eleitoral do pré-candidato à Presidência carece de verdade histórica.

gênese do ataque dos Estados Unidos à economia brasileira está bem descrita na carta que Donald Trump enviou ao presidente Lula em julho do ano passado, para anunciar uma sobretaxa de 50%.

Dizia o texto, logo no 1º parágrafo: "Conheci e tratei com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o respeitava muito, assim como a maioria dos outros líderes de países. A maneira como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma desgraça internacional. Este julgamento [no STF] não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve terminar IMEDIATAMENTE!"

Arminha de Flávio com Trump acerta no Brasil e ameaça Pix, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Irmãos Bolsonaro usam Casa Branca para atingir Lula, mas tentativas vão saindo pela culatra

Bajulação bolsonarista contempla doutrina Donroe que quer nos transformar em quintal dos EUA

Depois de quase um ano de investigações, o escritório de representação comercial dos Estados Unidos apresentou suas conclusões em documento que propõe novas tarifas sobre exportações brasileiras e condena o Pix.

A manifestação do governo de Donald Trump, personagem deletério bajulado por Eduardo e Flávio Bolsonaro, cita 20 vezes a plataforma eletrônica de transações financeiras criada pelo Brasil e adotada de maneira eficaz, democrática e popular pelo Banco Central.

Os filhos do capitão golpista, condenado e preso, vêm tramando com a potência estrangeira modos de atingir o presidente Lula, mas na realidade estão acertando o Brasil, sua economia, dignidade e soberania. No afã de abafar seus escândalos e tentar ganhar simpatias eleitorais, puxam a arminha, mas o tiro parece estar saindo pela culatra.

Aprenda de uma vez, 01, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro acha que, ao dizer 'Nada a ver! Zero!', ele fará a realidade desaparecer

Mas a matemática, que não falha, ensina que um número elevado a zero é sempre igual a 1

Uma das glórias da matemática é a história de que um número elevado a zero é sempre igual a 1. Como pode? Não faz sentido. É algo que, para nós, leigos, alunos relapsos ou miseravelmente formados em humanas, parece absurdo. No entanto, se tivéssemos prestado atenção à aula onde se ensinou o conceito em vez de ficar olhando para as pernas da professora, veríamos como a questão é simples e coerente. Não vou me deter a explicá-la aqui, nem tenho autoridade para isso, mas vá por mim: qualquer número elevado a zero é 1 mesmo. E não só na matemática, como a família Bolsonaro deve estar descobrindo.

Congresso beneficia estupradores de crianças, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Em menos de 2 minutos Senado derrubou resolução do Conanda

Vítimas de estupro poderão ter gestação forçada enquanto seus abusadores continuarão impunes

Em sessão na terça-feira (2) que durou exatamente 100 segundos, o Senado aprovou um projeto que protege estupradores de crianças e adolescentes. Exagero eu dizer isso? Não para quem conhece a realidade dos abusos sexuais contra vulneráveis. Ao dificultar o acesso ao direito que crianças e adolescentes possuem há décadas de interrupção da gravidez em casos de violência sexual, o Senado facilita que crianças sejam mães.

Dois caminhos e um só autoritarismo, por Ivan Alves Filho*

Volta e meia escrevo sobre a natureza do fascismo, buscando entender este fenômeno em seus múltiplos aspectos e que novamente parece ameaçar a Democracia. Hoje, dou continuidade a esta reflexão, debruçando-me a respeito das duas vias de acesso ao autoritarismo e ao próprio fascismo.

Quando pensamos em autoritarismo e perda das liberdades na América Latina, no pós-guerra, sobretudo, temos imediatamente o modelo do golpe militar na cabeça. Assim, podemos citar o Brasil de 1964, o Chile de 1973 e a Argentina de 1976, exemplos quase acabados disso. Recorrendo quase sempre à violência, esse tipo de intervenção destrói as instituições de fora para dentro, digamos assim.

Ao vivo: Lula promove reunião ministerial

 

Poesia | Consolo na praia, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque canta: Vai Passar

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarifas expõem limite da relação entre Lula e Trump

Por O Globo

Justificativas apresentadas por americanos são frágeis. Brasil ainda tem chance de reverter medida

Menos de uma semana depois de o Departamento de Estado declarar que o governo americano passaria a tratar como terroristas as duas maiores facções criminosas brasileiras, o Itamaraty sofreu outro revés: o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação aberta em 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e recomendou a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros importados. A medida é ainda mais dura que o tarifaço do ano passado — depois suspenso pela Suprema Corte —, pois abre caminho a sanções comerciais específicas contra o Brasil. Ela expõe os limites das investidas diplomáticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua aproximação de Donald Trump.