domingo, 7 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Espaço para a queda dos juros se reduziu

Por Folha de S. Paulo

Impacto inflacionário da guerra no Oriente Médio e do El Niño se soma ao de medidas eleitoreiras de Lula

Cenário torna complexa a próxima decisão do BC; política monetária mais dura aumentará o estresse financeiro da população e do governo

Novamente, o cenário econômico brasileiro se deteriora de forma visível, o que tende a frustrar a expectativa de que a taxa Selic, do Banco Central, pudesse cair de modo mais consistente ao longo deste 2026.

O que parecia um ciclo de afrouxamento monetário controlado deu lugar, em poucas semanas, a um estreitamento dramático do espaço para alívio.

Os fatores externos ajudam a explicar o aumento do risco inflacionário. Como resultado do conflito no Oriente Médio, o barril de petróleo Brent tem se mantido acima de US$ 90, elevando os custos de diesel, fertilizantes e de insumos industriais em geral.

Ao mesmo tempo, o fenômeno climático El Niño promete impacto na produção e nos preços de alimentos. Projeções de mercado já apontam para encarecimento da alimentação no domicílio em torno de 7%, o dobro do esperado no início do ano.

As interferências na luta eleitoral, por Míriam Leitão

O Globo

A democracia fica vulnerável quando a extrema direita faz uso da religião como estratégia política. A Justiça Eleitoral tem dificuldade de punir a prática

Começou a temporada do uso político de Deus, uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração de Flávio Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”, se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.

Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.

O mal-estar social, por Merval Pereira

O Globo

Joaquim Falcão diz que mal-estar social é quando a lei passa a servir de instrumento de manutenção do status quo, e não de transformação, os interesses particulares se sobrepõem aos públicos

As oligarquias são arranjos sociais que se aproveitam do processo democrático para se beneficiar, a história registra. Mas, pela primeira vez ela “é produzida pelo Estado dentro dele próprio. Vem das autoridades, das ambições internas. Do progressivo descolamento entre o eleitor e o Estado Democrático de Direito”. Este é o ponto de partida, e também de chegada, do novo livro do jurista Joaquim Falcão “A Oligarquia dos Poderes”, que estará nas livrarias no dia 2 de julho pela História Real, um selo da editora Intrínseca.

Não haveria melhor momento, diante da crise da democracia que estamos vivenciando, nem melhor autor, para desvendar esse processo. Falcão é membro da Academia Brasileira de Letras, foi um dos fundadores do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criou e dirigiu por anos a Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas no Rio, responsável por um estudo seminal sobre o STF, o “Supremo em números”, que revelou pela primeira vez a exorbitância do uso das medidas monocráticas que desvirtuaram o colegiado. Ele explica no livro como os oligarcas da atualidade “capturam a lei pelo texto, pela aplicação e pela interpretação”.

O custo dos agrotrogloditas, por Elio Gaspari

O Globo

Relatório dos EUA cita Moratória da Soja pelo qual grandes exportadoras se comprometem a não comprar commodity plantada em área de desmate

Está entendido que Donald Trump fará o que estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia 15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.

Passada a barulheira da semana passada, entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.

O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente.” (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)

Era no tempo do Lalau, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em testemunho inédito, ex-presidente narra manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha

Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914, a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder.

“Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se.

Algo de novo no ar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com a crise nacional de lideranças, Ricardo Couto surge como novidade justamente no sofrido Rio

Mais um governador do Rio de Janeiro desembarca de pires na mão em Brasília nesta semana, mas este, o desembargador Ricardo Couto, parece bem diferente de sete anteriores que tiveram problemas na Justiça, cinco deles sendo presos. O Brasil busca desesperadamente sangue novo na política e na gestão, vamos ser otimistas?

Não só por Couto ser desembargador, porque o precedente de Wilson Witzel, que caiu no meio do mandato, é uma vergonha para a magistratura e um dos traumas do Estado. Mas Witzel é Witzel, Couto é Couto, buscou os apoios certos e parece determinado a fazer a diferença.

Tarifaço e a oportunidade para o Brasil, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

As pressões tarifárias do governo Trump abrem oportunidade histórica para o Brasil reduzir de forma negociada suas barreiras comerciais, que fazem mais mal aos brasileiros que aos próprios americanos. A demagogia do governo Lula e a influência política dos setores industriais beneficiados pelo protecionismo me dão a triste certeza de que isso não vai acontecer. Os segmentos mais dinâmicos da economia brasileira serão castigados, mais uma vez.

Os argumentos do governo, de que o Brasil aplica efetivamente tarifas médias de 3% sobre os produtos americanos, e de que os EUA usufruem de superávit no comércio bilateral, são falaciosos. As alíquotas brasileiras sobre bens industrializados costumam partir de 20%, chegando a 35% no caso dos automóveis. Os produtos americanos não pagam esses impostos porque eles cumprem a função para a qual foram criados: bloquear as importações.

Faltam cinco meses para as eleições. E aí? Por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

Chegamos a um paradoxo perigoso: os partidos podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se odeiam muito mais

Há mais de uma década, pesquisadores se debruçam sobre um fenômeno que corrói as democracias por dentro: a polarização afetiva, distinta da polarização ideológica e da partidária. Enquanto o debate político tradicional foca nessas últimas, a afetiva se revela mais complexa. A gasolina para a invasão da Praça dos Três Poderes vem exatamente daí. O conceito é direto e brutal: o adversário político deixa de ser alguém com quem apenas se discorda para se tornar um inimigo existencial. Na polarização afetiva, o outro na sociedade é uma ameaça que não se tolera e com a qual não se quer conviver.

É o FIB, estúpido! Por Elias Gomes*

É possível melhorar as condições de trabalho no Brasil sem comprometer o crescimento econômico, sem provocar uma queda do PIB e sem colocar em risco a competitividade das empresas. Mais do que isso: é possível construir uma sociedade mais saudável, mais equilibrada e mais feliz.

Afinal, a economia é fundamental, mas não é tudo. O ser humano não existe para servir aos números. O PIB não abraça filhos, não participa de aniversários, não cuida da saúde mental e não devolve o tempo perdido. Precisamos trabalhar para viver, e não viver para trabalhar.

O debate sobre o fim da escala 6×1, atualmente em discussão no Congresso Nacional, trouxe à tona uma questão muito mais profunda do que a simples organização da jornada de trabalho. O que está em jogo é a qualidade de vida de milhões de brasileiras e brasileiros que dedicam a maior parte de seus dias ao trabalho e dispõem de apenas um único dia para descansar, cuidar da casa, conviver com a família, resolver problemas pessoais e tentar recuperar as energias para recomeçar tudo novamente.

Flávio Bolsonaro contra o Pix, por Celso Rocha de Barros*

Folha de S. Paulo

Bolsonarismo conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição

Graças à influência da quinta coluna bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump

Com a ajuda da Casa Branca, o bolsonarismo tornou-se o único movimento político que conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição.

Para piorar, o "Tariflávio" de Trump incluiu uma ameaça explícita ao Pix: é como se Trump tivesse dado a Lula uma versão anabolizada do vídeo de Nikolas Ferreira do ano passado —e agora a ameaça ao Pix é real.

Para não deixar dúvida de que o bolsonarismo pretende matar o Pix por ordem de Trump, Eduardo Bolsonaro gravou vídeo sugerindo que o Brasil negociasse com os Estados Unidos a adoção do Zelle, um sistema de pagamentos americano que é mais lento, exige que se abra conta em um grande banco americano (que compensa nas tarifas a "gratuidade" do sistema) e tem uso muito mais restrito.

O mundo corre na IA, Brasil atola em juros letais, crime no poder e conversa irrelevante, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Discussão sobre últimos avanços da IA se torna pop e tema político-eleitoral nos EUA

Por aqui, juros altos eternos ameaçam sobrevivência de empresas, que dirá alguma inovação

O mundo corre, o Brasil atola. Por um lado, temos problema tão bárbaro quanto o dos americanos, que lidam com o "duce" da corrupção geral dos costumes, da democracia e do que resta de civilização, Donald Trump. Por aqui, uma versão moleque, corrupta e mais caricata do "duce" quer o poder em 2027.

Até problemas com juros nos afligem no mesmo momento, embora no Brasil se trate da perspectiva de longo atoleiro, com asfixia de empresas, investimento e crescimento baixo por muitos anos. Não dá para pensar nem mesmo em adoção de inovação, que dirá inovar.

O conto do vigário do terror, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Classificar PCC e CV como organizações terroristas é decisão política, não técnica

O que se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira

Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.

Formação do Parlamento é tarefa da sociedade, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O país tem a chance de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior

Quanto mais poder tem o Legislativo, mais importantes são as escolhas para a Câmara e o Senado

O crescimento do poder do Parlamento não serviu só para inverter o equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo. Servirá nesta eleição para dar chance ao eleitorado de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior.

Para isso é preciso observar alguns pré-requisitos na escolha de deputados e senadores. Renúncia ao pertencimento a bolhas ideológicas é um deles, mas há outros: atenção máxima ao cardápio de candidatos, prioridade semelhante à dada aos postulantes à Presidência e abandono de badulaques tais como carisma e venda de terrenos na Lua.

Um escândalo em Königsberg, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro reconstitui passos de julgamento envolvendo os Muckers, seita religiosa alemã do século 19

Processo envolveu fake news e opôs religiosidade popular a abordagem mais racionalista

Sir Christopher Clark é um dos grandes historiadores em atividade. Seu "Os Sonâmbulos", sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, publicado em 2012, já virou clássico. Foi com avidez, portanto, que li "A Scandal in Königsberg", assim que soube da existência do livro.

As duas obras não poderiam ser mais diferentes. Se a primeira trata de um episódio literalmente global, a segunda investiga um caso obscuro que se passou numa área provinciana da Prússia do século 19. Mas Clark consegue extrair lições universais desse escândalo envolvendo religiosos na cidade natal de Kant.

Poesia | Canção para ninar mulher, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Atrás da Porta - Chico Buarque

 

sábado, 6 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Há saídas para Brasil enfrentar tarifas americanas

Por O Globo

Além de ampliar lista de exceções, país pode diversificar exportações para China e, sobretudo, Europa

Não há como menosprezar o impacto da investida tarifária disparada pelos Estados Unidos na direção do Brasil. Se vingarem as duas ondas — a primeira derivada de uma investigação específica de práticas comerciais brasileiras, a segunda com base em acusações de uso de trabalho forçado dirigidas a 60 países —, produtos brasileiros serão submetidos a taxas de até 37,5% para entrar no mercado americano. Mas também não se deve menosprezar a capacidade de adaptação da economia brasileira para mitigar os efeitos dessas medidas. Há duas vias de escape às tarifas, e ambas vêm sendo desbravadas.

A primeira via é a lista de exceções aberta pelo próprio governo americano na investigação que recomenda as tarifas, incluindo commodities como carne e café, além de dezenas de outros produtos que interessa aos Estados Unidos continuar comprando do Brasil — na prática, as tarifas mais elevadas recaem sobre algo como um quinto das exportações brasileiras, a maioria industriais. Enquanto essa lista não estiver fechada, os negociadores do Itamaraty e grupos empresariais farão todo tipo de pressão para ampliá-la. Os americanos já se disseram abertos e poderão ceder em vários mercados.

Vai, Brasa! Por Eduardo Affonso

O Globo

O traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso

Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso.

É que você, torcedor ingrato, não capta as referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que importa é o conceito.

Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.

O avesso do cuidado, por Flávia Oliveira

O Globo

O que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização - o avesso do cuidado

Foi uma semana devastadora para quem acredita, como reza o provérbio africano, que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A frase diz respeito à atribuição compartilhada por família, comunidade, escola, Estado, para garantir vida saudável, confortável, digna a meninas e meninos, Brasil e mundo afora. Neste limiar de junho, o que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização — o avesso do cuidado, enfim.

A misoginia não matou Henry, por Thaís Oyama

O Globo

Ao invocar conceitos como misoginia e discriminações de gênero, juíza introduziu uma categoria ideológica como parte da decisão penal

Quando Henry Borel, de 4 anos, deu entrada no hospital carioca Barra D’Or já sem sinais vitais, sua mãe, Monique Medeiros, endossou a versão do namorado, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, segundo a qual a criança havia caído da cama. Na quinta-feira passada, Dr. Jairinho, como é conhecido, foi condenado a 43 anos de prisão pela morte de Henry. Sete laudos concluíram que o menino morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causada por ação contundente. Peritos descartaram a hipótese de acidente doméstico.

Mais alguns anos com uma inútil polaridade? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Se Lula e Flávio Bolsonaro tivessem um pingo de patriotismo, abdicariam de suas candidaturas

Os últimos números da economia, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam um crescimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026, resultado puxado pelo agronegócio e pelo consumo das famílias.

Em bom português, deverse-ia dizer nada, mas dentro da série de 19 meses iniciada no terceiro trimestre de 2021, o tom dos comentaristas é positivo, qualificando tal resultado como “de expansão”. Mas, cada um a seu modo, todos fazem severas ressalvas. A primeira, de que dificilmente o PIB crescerá 2% em 2027, devido ao cenário internacional adverso, graças aos diversos efeitos Trump, às incertezas criadas pela guerra no Oriente Médio e, não menos importante, no plano doméstico, à continuação da polarização política nas eleições de outubro.

Congressualismo dos interesses, por Miguel Reale Júnior*

O Estado de S. Paulo

Perdeu-se o pudor: agora é a consagração da compra disfarçada de votos dos beneficiários da emenda parlamentar

Da promulgação da Constituição até os dias de hoje, a corrupção tem sido a marca da vida política. Aconteceu paulatinamente, tendo sua origem no seio da própria Assembleia Constituinte, quando se instaurou o princípio “franciscano” do “dando é que se recebe”.

Assim, a Assembleia Constituinte traz como mancha indelével a compra de votos pelo governo Sarney, visando a impor a vitória da Emenda Coletiva que instaurava o presidencialismo e os cinco anos de mandato.

Nasceu ali o Centrão, composto pelos constituintes anônimos que pouco participaram do processo de decisão, e obtiveram, no final dos trabalhos, a mudança do regimento instalando uma “revolução”, ao se admitir que uma Emenda de Capítulo assinada por 280 constituintes passava a ser o texto a ser votado, não vigorando apenas se rejeitado pela maioria absoluta. A emenda coletiva desfazia o trabalho anterior, para se dar voz à maioria silenciosa e pouco participativa.

Por amizade, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...

Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?

Quando a humanidade virou negócio, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de uma família – a menos que nós mesmos o entreguemos

Uma cena muito comum hoje é um casal com uma filha durante o almoço, num restaurante, quando o pai e mãe estão entretidos com os seus smartphones e a criança assistindo a um vídeo. A imagem pode num primeiro instante se mostrar lúdica, afinal a criança está distraída, não dando trabalho algum, e os pais, também, distraídos, envoltos consigo mesmos. Quadro que ilustra bem o argumento trazido por Eugênio Bucci no seu artigo O Papa e a técnica, quando ele diz que uma criança diante de uma tela não está apenas consumindo mídia; está participando de uma engrenagem econômica que transforma atenção em receita; dados, em valor; e comportamento, em lucro.

A primeira vítima, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O autor do livro "A primeira vítima", o inglês Phillip Knightley, afirma que, em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, Donald Trump dá razão ao autor

Há um livro clássico sobre o exercício do jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre na sua guerra contra o Irã.

No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.

Fim do Pix? Um debate que não deveria existir, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Por mais que a opinião pública esteja muito firme no seu apoio ao meio de pagamento brasileiro, o simples fato de que um expoente do bolsonarismo, filho de Jair Bolsonaro e irmão do pré-candidato, se sinta autorizado a colocar a possibilidade na mesa deveria causar espanto

Depois do anúncio de mais um tarifaço e da classificação de duas organizações criminosas brasileiras como terroristas, temos um outro tema no centro das tensões entre Estados Unidos e Brasil: o Pix. Os americanos já manifestam há algum tempo seu descontentamento com o meio de pagamento que se popularizou por aqui: considerado uma ameaça ao lucro das empresas de cartão de crédito, o Pix foi inserido por Donald Trump num caldo confuso que envolve combate ao crime organizado e debate sobre equilíbrio da balança comercial.

Que as medidas tenham sido anunciadas logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro não é uma surpresa. A correlação entre visita e sanções é notória, e nem precisaríamos da foto publicada pelo próprio presidente americano no dia da revelação do tarifaço para perceber o esforço do bolsonarismo em instrumentalizar sanções para fins eleitorais.

Eduardo Bolsonaro colocou a digital contra o Pix e foi tudo gravado, por Adriana Fernandes


Folha de S. Paulo

Ao citar o Zelle, um sistema privado de pagamentos e transferências operado por bancos americanos, Eduardo Bolsonaro propôs negociar com os Estados Unidos

Não há nada a negociar. O Pix é hoje a marca mais forte admirada pelos brasileiros

Eduardo Bolsonaro colocou a digital contra o Pix e foi tudo gravado. Ao citar o Zelle, um sistema privado de pagamentos e transferências operado por bancos americanos, o ex-deputado federal cassado propôs negociar com os Estados Unidos.

Ele disse literalmente: "Os Estados Unidos, né, têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle. É o Pix dos Estados Unidos. Aqui é o Zelle. Então dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá para você sentar, dá para negociar."

Filho de Bolsonaro vai de Rachadinha a Tariflávio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O tarifaço 2.0 é um desastre para a campanha bolsonarista

Aumenta a desconfiança de que está em curso uma ofensiva dos EUA nas eleições

Para afastar o caso "Dark Horse" de seus calcanhares, Flávio Bolsonaro decidiu bajular Donald Trump. Conseguiu a foto no salão oval e um elogio do bufão —"garoto inteligente"—, mas o problema está longe de terminar.

Além da operação da polícia de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, novas mensagens obtidas pelo site Intercept Brasil indicam que, após as cobranças de Flávio, o "irmãozão" Daniel Vorcaro deu prioridade aos pagamentos que teriam sido destinados ao filme.

Fundos de pensão, Banco Master e boa governança, por Marcus Pestana

Assegurar dignidade a todos aqueles que se dedicaram décadas ao trabalho e aposentam foi uma preocupação crescente ao longo do século XX. O primeiro sistema previdenciário de âmbito nacional foi criado antes disso, por Bismarck, na Alemanha, em 1883.

A ideia era reunir uma poupança financeira a partir de contribuições de patrões, trabalhadores e do governo, para socorrer as pessoas impossibilitadas, temporária ou definitivamente, de ganhar a vida com seu trabalho, graças a um agravo de saúde, acidente de trabalho, invalidez, envelhecimento, desemprego. No Brasil, a Lei Eloy Chaves data de 1923. Foi a base inicial de nosso sistema previdenciário, permitindo a organização de diversas Caixas de Aposentadorias e Pensões de ferroviários, bancários, entre outros.

Nossa “Escolha de Sofia”, por Cristovam Buarque

Revista Veja  

Milhões de brasileiros são abandonados à margem da educação

Dos 2,5 milhões de brasileiros nascidos em 2025, no máximo 300000 concluirão, em 2043, a educação básica com a qualidade necessária para enfrentar e usufruir do mundo contemporâneo, dispondo do mapa para buscar sua felicidade pessoal e das ferramentas para construir um país melhor. A cada ano, o Brasil escolhe 2 milhões de seus recém-nascidos e os deixa para trás, abandonados por uma espécie de “Escolha de Sofia”.

No livro de William Styron, depois levado ao cinema, a mãe, obrigada por soldados nazistas a escolher qual de seus dois filhos sobrevive, fica traumatizada e termina sua vida em suicídio. O Brasil sacrifica milhões de suas crianças como se não houvesse escolha: abandonadas pela lógica de que seus pais não têm recursos para pagar uma boa escola privada ou porque não conseguem vaga em uma das raras públicas de excelência, quase sempre federais. Como se fosse um destino natural que define quem recebe boa educação e o direito à inclusão social, e quem é abandonado.

O impacto externo e as eleições, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Em uma disputa apertada, a crise com os EUA poderá ser decisiva

Pelo menos desde 1945 não há registro de eleições brasileiras tão influenciadas por fatores externos. Naquele ano, a ditadura de Getúlio Vargas foi derrubada a partir de uma situação paradoxal: o Brasil lutava contra regimes totalitários, ao lado das democracias clássicas, sendo ele próprio uma ditadura. Tinha sido arrastado ao conflito mundial em razão de seu valor estratégico como fornecedor de matérias-primas aos aliados.

Oitenta anos depois, estamos no meio de uma guerra tarifária, de uma disputa geopolítica pelas nossas terras-raras e ainda somos atingidos por decisões como a declaração de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. As questões nos colocam no turbilhão geopolítico contemporâneo.

Trump ataca, por Pedro Serrano

CartaCapital

A classificação de facções criminosas domésticas como terroristas e a ameaça de um novo tarifaço não são atos isolados, e sim uma ofensiva contra a soberania brasileira

Os mais recentes ataques trumpistas à soberania brasileira, ao classificar facções criminosas domésticas como terroristas e ao propor um novo tarifaço por supostas práticas comerciais desleais, não são atos isolados, mas tentáculos de um autoritarismo nefasto. As formas autoritárias do século XXI possuem determinadas especificidades, quando comparadas com as do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as manifestações dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um governo de exceção, em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

Patrulha no quintal, por Jamil Chade

CartaCapital

Trump apressa a militarização do subcontinente, com o beneplácito dos governos locais de extrema-direita

A América Latina, “quintal” dos Estados Unidos, nunca esteve tão vigiada. Em apenas 17 meses no poder, Donald Trump impôs acordos bilaterais a 17 países do subcontinente para garantir aliança militar, uso do espaço aéreo, instalação de bases, imunidade para soldados e espiões e troca de informações dos serviços de inteligência. A decisão de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas não foi gesto isolado. Desde o ano passado, o objetivo de Washington é retomar, de qualquer maneira, a influência política, militar e econômica na região, palco da nova disputa com a China.

Terras-raras, mentes rarefeitas, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O déficit não é fiscal, é de inteligência. Austeridade já, corte duro e sem dó na estupidez tupiniquim!

Neste país abençoado por Deus e bonito por natureza, com 25% da oferta mundial de terras-raras e 1% de mentes raras, podemos concorrer com os Estados Unidos da América na estupidez, com certeza. Abundante em minérios críticos, raras mentes críticas.

Contra a hiperinflação nacional de estupidez não há regime de metas que salve! Propomos criar metas para a estupidez nacional, uma meta que disciplina não os preços relativos, mas o besteirol exponencial que exala diariamente nas mentes raras. Um corte drástico não de gastos, mas de asneiras. O déficit­ não é fiscal, é de inteligência. Austeridade já, corte duro e sem dó na estupidez tupiniquim.

O derradeiro humanista, por Leneide Duarte-Plon

Carta Capital

O filósofo Edgar Morin rejeitava todo tipo de nacionalismo e xenofobia

Um dos mais respeitados e lidos intelectuais franceses, doutor honoris causa de 40 universidades do mundo, pensador da complexidade e do saber transdisciplinar e humanista, Edgar Morin rejeitava toda forma de espírito clânico, qualquer nacionalismo, toda xenofobia. Costumava dizer que seu espaço era o mundo, todo ser humano era seu igual. Sentia-se cidadão da Terra-Pátria, ameaçada pela ação predadora do homem. Em seu engajamento pela biodiversidade, via “o poder esmagador do dinheiro na origem da degradação do meio ambiente”.

Poesia | Os sapos, de Manuel Bandeira

 

Música | Nara Leão e Fagner - Traduzir-se (Ferreira Gullar)

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Breves notas sobre a política de Maquiavel, por Antonio Gramsci*

O caráter fundamental do Príncipe é o de não ser um tratado sistemático, mas um livro “vivo”, no qual a ideologia política e a ciência política fundem-se na forma dramática do “mito”.  Entre a utopia e o tratado escolástico, formas nas quais se configurava a ciência política até Maquiavel, este deu à sua concepção a forma da fantasia e da arte, pela qual o elemento doutrinário e racional personifica-se em um condottiero, que representa plástica e “antropomorficamente” o símbolo da “vontade coletiva”. O processo de formação de uma determinada vontade coletiva, para um determinado fim político, é representado não através de investigações e classificações pedantes de princípios e critérios de um método de ação, mas como qualidades, traços característicos, deveres, necessidades de uma pessoa concreta, o que põe em movimento a fantasia artística de quem se quer convencer e dá uma forma mais concreta às paixões políticas. (Deve-se pesquisar, nos escritores políticos anteriores a Maquiavel, se existem textos configurados como o Príncipe. Também o final do Príncipe está ligado a este caráter “mítico” do livro; depois de ter representado o condottiero ideal, Maquiavel — num trecho de grande eficácia artística — invoca o condottiero real que o personifique historicamente: esta invocação apaixonada reflete-se em todo o livro, conferindo-lhe precisamente o caráter dramático. Nos Prolegomeni de L. Russo, Maquiavel é chamado de artista da política e, numa ocasião, chega-se mesmo a encontrar a expressão “mito”, mas não exatamente no sentido acima indicado).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

CNJ adota medida bem-vinda contra supersalários

Por Folha de S. Paulo

Contracheque único para juízes é avanço contra penduricalhos, mas solução definitiva depende do Congresso

A desfaçatez é tanta que, enquanto o STF debatia o tema, magistrados de SP embolsaram em média R$ 132 mil em março, quase o triplo do teto

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) enfim adotou uma providência bastante óbvia para aumentar a transparência no Judiciário: trata-se da criação do contracheque único para magistrados, cujo objetivo é padronizar rubricas e vedar folhas de pagamento paralelas.

Por trás dessa resolução, aprovada de forma unânime no fim de maio, está a necessidade de centralizar em um mesmo documento diversas remunerações que hoje têm aparecido dispersas, como diárias, ajuda de custo, gratificações, indenização de férias e valores retroativos pendentes.

Bolsonaros são soldados do trumpismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.