sábado, 25 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova tarifa dos EUA requer aliança do setor privado

Por O Globo

Parceria entre exportadores do Brasil e importadores americanos é a melhor estratégia para pressionar Trump

A política protecionista do presidente americano Donald Trump teve novo capítulo nesta sexta-feira, quando passou a valer uma tarifa de até 12,5% para 60 países, o Brasil inclusive. A alegação é de omissão na imposição e no cumprimento de proibição de importação de produtos feitos a partir de trabalho forçado. O argumento é que parceiros comerciais americanos compram produtos de países com práticas trabalhistas deletérias, incentivando a competição desleal e prejudicando os Estados Unidos.

Entre os atingidos estão Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e a União Europeia (UE). A fragilidade das acusações é evidente, pois a maioria dos atingidos segue as regras internacionais, e não existe uma negligência disseminada em escala global. Para as mercadorias brasileiras, a última sobretaxa se soma aos 25% anunciados na semana passada, também com justificativas débeis. Ao governo brasileiro resta continuar buscando uma negociação aceitável. Os exportadores, porém, têm outra alternativa. Podem considerar a viabilidade de se associar a importadores americanos para questionar as decisões em tribunal nos Estados Unidos ou tomar outras medidas que façam Trump reconsiderá-las.

Morin e o Futuro (I), por Elimar Nascimento

Revista Será?

O Inevitável Transformador

Edgar Morin[1] é claro e contundente sobre os estudos prospectivos. Em geral, estes pecam por fazer previsões lineares que não têm pertinência. Isso pelo simples fato de que o futuro não é a continuidade do presente, sua reprodução ampliada. O futuro é uma trajetória complexa que reúne continuidades, descontinuidades e a criação de novos eventos e processos.

É impossível dizer quais tendências, que verificamos em um determinado momento, existirão após uma década ou menos, e o que de novo irá surgir. Em 1987, ninguém imaginava que a URSS iria ruir dois anos depois e que a Guerra Fria iria se encerrar abruptamente. Quando a internet foi criada, alguns CEOs de empresas de informática diziam que não passava de mais um fracasso tecnológico. Hoje, bilhões de pessoas a utilizam. Em 1980, ninguém previa que a China seria a segunda potência do mundo 35 anos depois.

A fúria dos eleitores ao redor do mundo, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

De Londres a Tóquio, governos estão fracassando em atender às expectativas modernas

A democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade

Nesta semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?

A violência onipresente, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

Estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências

Quando falamos em violência, vem-nos à mente, antes de tudo, a violência explícita, ostensiva, aquela em que o sangue jorra e vidas são destruídas. Guerras, assassinatos, agressões selvagens, armas de fogo, facas, drones e canhões. Nem sempre consideramos as demais formas de violência que se manifestam em nosso cotidiano. A fome é violenta, assim como as desigualdades e a falta de serviços públicos de qualidade. Há outras, aparentemente pequenas. Não as processamos porque estão normalizadas: convivemos com elas como se fossem paisagens ou eventos entranhados no dia a dia. Violências quase invisíveis, às quais nos habituamos a ponto de as desprezarmos como problema.

Rabo preso, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça autorizou a abertura de inquérito para apurar o trânsito dos dinheiros de Vorcaro destinados a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A forma da movimentação dos recursos se encaixa no padrão de dissimulações da rede vorcárica. A PF suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Falamos de US$ 10,6 milhões captados por Flávio Bolsonaro, grana disparada – de fevereiro a maio de 2025 – por meio de empresa de fachada, a Entre, e que chegaria aos EUA pousando no fundo Havengate, administrado por advogado amigo de Eduardo Bolsonaro.

Suas Excelências, os fatos, na crise do tarifaço, por Mauro Vieira*

O Globo

A diplomacia brasileira é conhecida pelo profissionalismo, e já teve êxito na ampliação das exceções ao tarifaço original

Não se espera a unanimidade em regimes democráticos. Mas, diante do novo ataque tarifário dos Estados Unidos contra o Brasil, e suas confessadas motivações políticas desde a carta original do presidente Donald Trump, de julho de 2025, que continha claras ameaças à soberania e à democracia brasileiras e anunciava a abertura da investigação pela seção 301, recém-concluída, não cabem ambiguidades nem falsas equivalências.

O Brasil vem sendo atacado há mais de um ano, e o governo tem sabido defender o interesse nacional com diplomacia e pragmatismo, mas também com firmeza e clareza. E clareza é do que o país mais necessita diante do desafio histórico à soberania brasileira que se tenta impor, de fora para dentro, com ameaças, tarifas e bravatas.

Lula já levou o tetra? Por Thaís Oyama

O Globo

Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelos indecisos

A notícia não é boa para Lula. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, ao mostrar um cenário inalterado em relação a junho, reforçou uma tendência já detectada por outros institutos. Desde maio, diferentes levantamentos vêm registrando desgaste de Flávio Bolsonaro sem um crescimento correspondente de Lula ou dos demais candidatos.

O que a consistência desses dados sugere é que a disputa continua aberta. Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelo contingente de indecisos. Para onde eles migrarão a partir de agora é a questão que pode definir a eleição.

Nunca é só futebol, por Flávia Oliveira

O Globo

Há uma lição que mulheres negras aprendemos e reaprendemos. Recitamos, repetimos e insistimos. Não esquecemos. No discurso tido como marco do feminismo negro, durante uma convenção sobre direitos da mulher nos Estados Unidos, em 1851, Sojourner Truth, negra, ex-escravizada e ativista, provocou:

— E eu não sou uma mulher?

Lélia Gonzalez, mais de um século depois, em “Racismo e sexismo na sociedade brasileira” (1984), avisou:

— O lixo vai falar, e numa boa.

Uma década atrás, foi a vez de Conceição Evaristo desenhar:

— Não escrevemos para adormecer os da casa grande, mas para acordá-los dos seus sonos injustos.

Todo poder corrompe, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. Pequim passou a realizar suas encomendas no Brasil

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.

O recuo de Flávio, o avanço de Michelle, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Michelle Bolsonaro pavimenta sua relevância no campo da direita mais extremada e cria o cenário para, em 2026, congregar políticas mulheres eleitas ou não que ela ajudou a projetar ou fortalecer

A candidatura de Flávio Bolsonaro apresenta sinais de esgotamento. Esta semana, que antecede as convenções partidárias, foi especialmente amarga para o filho do ex-presidente. Desafios em múltiplos flancos contribuíram para o quadro: as revelações relacionadas ao caso Master, a querela com Michelle Bolsonaro e a inabilidade em costurar alianças viáveis com os partidos do Centrão.

Não se pode estabelecer um paralelo entre as eleições de 2018 e as de 2026: mais dependente de apoio, o filho de Jair Bolsonaro não pode se permitir os excessos que levaram seu pai à presidência. Há dois dias, depois da notícia de que seu escritório de advocacia recebeu uma quantia significativa de empresas ligadas ao Banco Master, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo, pedindo desculpas públicas à ex-primeira-dama.

Compromisso constitucional, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Supremo terá a oportunidade de honrar o compromisso assumido pela nação brasileira com seus povos originários

Regime rigoroso de proteção foi arquitetado para neutralizar as artimanhas legais

Supremo terá a oportunidade, nas próximas semanas, de honrar o compromisso constitucional assumido pela nação brasileira com seus povos originários, ao julgar um conjunto de recursos que definirá o futuro do regime de restituição e preservação das terras indígenas.

Constituição de 1988 reconheceu aos povos indígenas os "direitos originários" sobre as terras que tradicionalmente ocupam, reparando séculos de violência e espoliação. As terras indígenas são "inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis", sendo "nulos e extintos… os atos que tenham por objeto a ocupação" dessas terras. Esse regime rigoroso de proteção foi arquitetado para neutralizar as artimanhas legais daqueles que cobiçam se apropriar das terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas.

'Efeito Gabrielli' mostra o velho na política de Lula, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Durigan foi escalado para atuar como bombeiro após conversas de bastidor de coordenador de programa de governo

Mas se quiser convencer, ministro da Fazenda deveria dar pistas mais claras do que pode vir por aí

Substituto de Fernando Haddad na Fazenda, Dario Durigan atuou como bombeiro na campanha para a reeleição do presidente Lula, na tentativa de apagar os ruídos provocados por conversas de bastidores de representantes da Faria Lima com Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo.

O ministro buscou consertar o "efeito Gabrielli" ao afirmar que o governo não pretende adotar medidas de controle de capitais. Para completar, disse que vai "melhorar o fiscal, custe o que custar" ao defender medidas para conter as despesas obrigatórias.

Farra de Eduardo Cunha vigora há mais de 10 anos no Congresso, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Esquema das emendas tem potencial de ser o maior escândalo de corrupção do país

Deputados e senadores dão uma banana para a sociedade e legislam em causa própria

Fim da escala 6x1PEC da Segurança Pública, projetos sobre criminalização da misoginia, minerais críticos e regulação da inteligência artificial. Pautas importantes e controversas que, com o recesso do Congresso Nacional e o funcionamento reduzido do Legislativo durante a campanha eleitoral, só deverão ser analisadas após o pleito de outubro.

É um retrato do crescimento —cujo combustível é a farra das emendas— do poder do Parlamento, que faz o que quer, muitas vezes legislando em causa própria, sem se importar com o que a sociedade pensa ou deseja.

Peguemos um caso esquecido em meio à avacalhação. Quase um ano depois do motim da Câmara, em reação à prisão domiciliar de Bolsonaro, não houve desfecho para o processo disciplinar contra os deputados Marcel van Hattem (Novo-RS), Zé Trovão (PL-SC) e Marcos Pollon (PL-MS), que ocuparam a mesa diretora da Casa, inviabilizando os trabalhos por cerca de 30 horas.

Na maior auditoria já realizada sobre emendas parlamentares, o Tribunal de Contas da União identificou superfaturamento, indícios de fraude em licitações, pagamentos sem comprovação, desvio de finalidade, falhas de transparência e rastreabilidade. De 100 emendas Pix auditadas, a fiscalização encontrou problemas em 82. O relatório sugere que a PF, o MP e a CGU apurem o esquema criminoso, que revela a degradação das finanças públicas, com potencial de ser o maior escândalo de corrupção da história do país.

O Congresso (des)controla o Orçamento. De 2015 até o ano passado, as emendas pularam de R$ 5,7 bilhões para R$ 47 bilhões. Como se a fuzarca fosse pouca, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, são suspeitos de atuar no direcionamento de verbas. O ministro Flávio Dino, do Supremo, mandou bloquear R$ 6,1 milhões de Cunha e R$ 119 milhões de Valdemar. Os dois —que não têm mandato!— seriam autores de mais de duas dezenas de repasses.

Não à toa, Eduardo Cunha, durante o governo Temer, foi o principal arquiteto do emendismo.

 

Datafolha: Lula tem 48%, e Flávio Bolsonaro, 43% no segundo turno, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra estabilidade na corrida após mês de más notícias na campanha do filho de ex-presidente

No primeiro turno, presidente marca 40% e senador do PL-RJ, 32%; rivais estão todos embolados abaixo de 4%

Nova pesquisa do Datafolha sobre a corrida pelo Planalto mostra o presidente Lula (PT) com 48% das intenções de voto no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), que marca 43%. O cenário é de estabilidade ante junho, mostrando baixo impacto em intenção de voto da crise política da campanha do senador pelo Rio.

No primeiro turno, o petista marca 40%, ante 32% do primogênito do ex-presidente preso por golpe de Estado Jair Bolsonaro. Apesar de semelhante ao aferido na rodada anterior, a comparação direta não é possível porque a ficha com nome de pré-candidatos mudou, chegando a 12 nomes. Já o tira-teima é comparável.

Em votos válidos, forma de contagem do dia da eleição que exclui brancos e nulos, Lula tem 45% e Flávio, 36%. É preciso 50% mais um voto para vencer, mas o dado precisa ser lido com cautela, pois os 8% de nulo/branco/ninguém apontados agora tendem a cair perto do pleito.

O peso dos houthis, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Com o bloqueio do Estreito de Bab al-Mandab, o grupo iemenita ganhou ainda mais relevância no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio

Antes do genocídio em Gaza, pouco se falava sobre os ­houthis na imprensa ocidental, de modo geral, e na brasileira, em particular. À época, eles dispararam mísseis e drones contra Israel e realizaram bloqueios no Mar Vermelho. Com a guerra no Irã, a mídia voltou a lembrar dos ­houthis, pois o grupo é aliado estratégico do país atacado por Washington e Tel Aviv.

Nos últimos dias, sua importância aumentou ainda mais, já que os houthis anunciaram o bloqueio do Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Trata-se de uma importante rota de escoamento de petróleo, principalmente para a Arábia Saudita. Com a guerra instaurada no Estreito de Ormuz, Bab al-Mandab assumiu uma relevância ainda maior.

Um degrau acima, por Carlos Drummond

CartaCapital

O crescimento do PIB e do emprego melhora a vida de milhões e repercute nas pesquisas eleitorais

Foram 18 meses seguidos de desaprovação do governo Lula superior à aprovação até a quarta-feira 15, quando a pesquisa Quaest apontou uma leve virada, na margem de erro: 48% dos entrevistados tinham uma imagem positiva da administração, contra 47% negativa. O instituto atribuiu os resultados aos efeitos do programa “Desenrola 2”, para renegociação de dívidas, da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais e do avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1.

Esses fatores contribuíram para a mudança, mas um fenômeno mais abrangente teve, entretanto, peso determinante na inversão da avaliação por parte do eleitor, a retomada da mobilidade social. Segundo estudo do economista Waldir Quadros, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Cesit, o governo Lula chegou ao fim do terceiro ano com melhora expressiva nesses indicadores. Os dados da PNAD Contínua anual indicam retração das camadas mais pobres e crescimento dos segmentos médios entre 2022 e 2025.

A finança abarrota os plutocratas, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Em todos os episódios históricos de estouro de bolhas, à derrocada deles seguiu-se a reiteração do poder trilionário

Nos idos de 2018, o ex-presidente democrata Barack Obama prestou homenagem a Nelson Mandela na celebração dos 100 anos de seu nascimento. O líder sul-africano nasceu em 1818 e faleceu em 2013. Obama fez um discurso digno dos melhores pronunciamentos de Franklin Delano ­Roosevelt. Discorreu sobre as transformações ocorridas nos últimos 40 anos na economia e na sociedade globalizadas.

“Praticamente em todos os países”, afirmou, “o poder econômico desproporcional dos que estão por cima lhes outorgou influência desmedida na vida política e na mídia, com capacidade para decidir as políticas prioritárias e os interesses que devem ser menosprezados (…) Nessa nova elite internacional, muitos se consideram progressistas, cosmopolitas e modernos.”

Carta ao futuro presidente, por Murillo de Aragão

Revista Veja

O cenário será ainda mais desafiador que o de 2023

Não é a primeira vez que escrevo uma carta ao futuro presidente. Em 2021, afirmei nesta coluna que o eleito de 2022 teria menos poder — fosse quem fosse. O ambiente institucional havia mudado: orçamento impositivo, emendas turbinadas, autonomia do Banco Central. O mandato iniciado em 2023 encontraria condições muito diferentes das de FHC em 1995 ou de Lula em 2003. A palavra final pertenceria ao Legislativo e ao Judiciário. Sem ainda usar o termo, antecipei os contornos da pentarquia que governa o Brasil — Executivo, Legislativo, Judiciário, Banco Central e mídia.

Realismo, por José Casado

Revista Veja  

Eleitores já não confiam no governo, no Congresso nem no Judiciário

Nunca tantos desconfiaram tanto do governo, do Legislativo e do Judiciário. Há uma miríade de sondagens de opinião demonstrando que, para a maioria dos eleitores, os governos têm sido ruins, o Supremo Tribunal Federal não merece confiança e o Congresso representa mal o povo. Na média, quase sete em cada dez brasileiros que vão às urnas em outubro julgam de forma negativa os políticos, inclusive aqueles que aparecem vestindo togas nos plenários dos tribunais superiores.

Quatro décadas depois da redemocratização, as utopias estão pulverizadas, a conexão dos representantes com os representados está rarefeita e o Estado passou a ser dirigido como se fosse propriedade privada. Esse processo de liquefação política tem contornos bem delineados em dois livros recém-lançados.

De porretes a tarifas, a soberania cerceada, por Roberto Amaral*

Tanto a preeminência inglesa sobre o Brasil quanto, na sua sucessão, o imperialismo estadunidense, que se instala nas primeiras décadas da nossa República — nas pegadas da decadência britânica — para chegar a estes dias com a fúria trumpista, têm sido objeto de estudos e de reflexão mais aprofundada a partir da formação de pesquisadores universitários, fruto da criação de cursos de Ciência Política e Relações Internacionais e, concomitantemente, do maior acesso a documentação.

Ao lado do papel das universidades (vale mencionar a UnB, a PUC-Rio, a USP e o antigo IUPERJ, hoje hospedado na UERJ), é de mencionar o estímulo à pesquisa e às dissertações de mestrado e doutorado, bem como o acesso facilitado a fontes primárias, propiciado pela abertura de arquivos norte-americanos, franceses, ingleses e portugueses. Igual relevância se deve aos intercâmbios internacionais e aos incentivos e bolsas de estudo financiados por agências nacionais, como o CNPq e a Capes, e mesmo por organizações internacionais, caso das Fundações Ford, Rockefeller e Fulbright, além da USAID. Assinale-se, igualmente, ainda neste contexto, a contribuição dos chamados brasilianistas, como Thomas Skidmore, Alfred Stepan, Kenneth Maxwell, Leslie Bethell e Alan K. Manchester.

Consabidamente, parte do financiamento internacional às ciências sociais esteve inserida no contexto da Guerra Fria e da disputa de influência política dos EUA na América Latina. Mesmo assim, muito de relevante foi produzido.

Riscos e impactos do desempenho das estatais e do PROPAG, por Marcus Pestana

No Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) nº 114 da IFI lançamos o foco na análise de dois tópicos específicos e relevantes para a análise da situação fiscal: o comportamento das estatais e a renegociação da dívida dos estados.

O primeiro tema trazido à baila aborda os riscos fiscais para a União com a deterioração financeira verificada em estatais federais. Existem empresas públicas integralmente pertencentes à União, com 100% do capital estatal. São os casos da Caixa e do BNDES. Outras são sociedades de economia mista, que têm o capital aberto, mas com o controle da União. São os casos da Petrobras e do Banco Brasil. Por outro lado, há empresas dependentes do Tesouro Nacional, como a Embrapa, ou independentes, caso dos Correios. Desde a década de 1990, várias empresas estatais foram privatizadas nas áreas de mineração, telecomunicações e energia. Das remanescentes, há aquelas com bom desempenho financeiro, gerando inclusive dividendos para o Tesouro; aquelas que, por definição, demandam subvenções do Tesouro, complementares às suas receitas próprias para a consolidação de seus orçamentos; e, aquelas que, dependentes ou não, dão sinais preocupantes de baixo desempenho, configurando riscos fiscais futuros.

Poesia | Soneto da Fidelidade, de Vinicius de Moraes por Paulo Autran

Música | Geraldo Azevedo - Sempre Valeu" (Geraldo Azevedo e Pippo Spera)

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desinformação de Flávio sobre urnas exige vigilância do TSE

Por O Globo

Pré-candidato à Presidência alimentou teoria conspiratória contra integridade do sistema eleitoral

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, demonstra dificuldade em aprender a lição dada pelas instituições brasileiras desde o início desta década. Repetidas decisões reafirmaram o caráter inegociável da democracia garantida pela Constituição. Tentativas de erodir a confiança nas urnas, sem apresentar indício algum, meramente por cálculo político em benefício próprio, são inaceitáveis. Copiando comportamento de seu pai, foi exatamente o que fez Flávio em encontro em Brasília com a presença de membros do corpo diplomático.

Autofagia eleitoral bolsonarista, por Flávia Barbosa*

O Globo

O Master feriu de morte a premissa de Jair ao escolher Flávio. Colou o clã a um gigantesco caso de corrupção, decepcionou parte da base e repeliu aliados

Sete meses após ser ungido pelo pai candidato à Presidência, e três meses após aparecer na liderança da corrida ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro desidrata. Uma sucessão de crises, iniciada em 13 de maio com a descoberta da multimilionária contribuição de Daniel Vorcaro à cinebiografia de Jair, somada a erros de estratégia política, vem transformando o Zero Um numa opção tóxica às vésperas da convenção que o confirmará candidato do PL. Hoje, cabe a pergunta: a quem interessa sua vitória em outubro?

Por que Flávio questiona as urnas? Por Pablo Ortellado

O Globo

É um comportamento persistente que não nasce de evidências

Flávio Bolsonaro questionou a confiabilidade das urnas brasileiras em evento com diplomatas estrangeiros na última terça-feira. O episódio lembra o encontro com embaixadores convocado pelo então presidente Jair Bolsonaro em julho de 2022 no qual também atacou as urnas.

O caso levou à inelegibilidade do ex-presidente. Embora Jair Bolsonaro fosse à época presidente da República e tivesse convocado os embaixadores usando a estrutura de governo e Flávio seja apenas pré-candidato, convidado a um evento privado com diplomatas, o paralelo se impõe.

Do ponto de vista da estratégia eleitoral, há duas explicações para o movimento arriscado de Flávio.

Daniel Ortega escancarou nova ditadura familiar na Nicarágua, por Bernardo Mello

O Globo

Líder da Revolução Sandinista de 1979 imita métodos de autocrata que ajudou a derrubar

O aviso foi dado por Daniel Ortega, presidente da Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”. O líder da Revolução Sandinista discursava em Manágua, no último domingo. Depois do anúncio, explicou: vai proibir o voto porque a oposição não pode chegar ao poder.

Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.

Pesquisa ou adivinhação? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

A proposta do presidente do TSE é apenas um gesto de policiamento indireto, que nem aponta os problemas estatísticos nem os resolve

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral convocou dirigentes de institutos de pesquisa de opinião para discutir procedimentos de investigação que neutralizem a interferência das pesquisas nos resultados da eleição. Criou um prêmio para as pesquisas que sejam confirmadas no resultado eleitoral.

Provavelmente o correto e seguro teria sido convocar um seminário de especialistas em matemática e estatística das boas universidades. E ouvi-los. Conhecedores que são das várias e diferentes mediações da pesquisa científica baseada em quantificação e das interferências que podem intencional ou acidentalmente sofrer.

Esses pesquisadores poderiam explicar que o conhecimento quantitativo nessa área não é adivinhação, nem é loteria ou aposta. Não expressa o acaso e o fortuito, mas o provável.

Quem seria o ‘único Bolsonaro’ com mandato em 2027, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Flávio teve de fazer mais de um vídeo e mais de um gesto para se aproximar de Michelle

Uma máxima, ouvida com frequência em Brasília, diz que “a política não é para amadores”. Tradicionalmente dirigido às raposas do Centrão, pode ser aplicada, agora, sem titubear, à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que emergiu altiva da crise com o enteado, o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ).

A propósito, é curiosa a deferência de alguns à ex-primeira-dama. Internamente, ela é chamada de “dona Michelle”. Porém, mesmo fora da presidência do PL Mulher, o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, se dirige a ela como “presidente Michelle”.

Zanin autoriza PF a investigar suposta venda de sentenças no STJ, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Decisões atribuídas ao gabinete de Moura Ribeiro supostamente favoreceram interesses ligados ao lobista Andreson Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro

A advertência de James Madison de que “se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos” não se destinava apenas a justificar a existência de um poder central para as antigas 13 colônias inglesas, mas estabelecer um princípio que viria ser essencial para a democracia ocidental: todo poder exercido por seres humanos precisa ser submetido a controles. No ensaio nº 51 de “O federalista”, Madison mostrou a dificuldade de habilitar o governo a controlar os governados; depois, obrigá-lo a controlar a si mesmo.

É mais ou menos esse o sentido da insistência com que o presidente do Supremo Tribunal federal, ministro Édson Fachin, adverte sobre a necessidade de autocontenção do Judiciário. O poder dos ministros dos tribunais superiores é imenso e a responsabilidade deles maior ainda. Magistrados não dependem diretamente do voto popular, contam com garantias funcionais e têm a prerrogativa de decidir sobre a liberdade, o patrimônio e os direitos dos cidadãos. Mas para isso precisam conquistar a liderança moral da sociedade.

Líder, liderança, por José Sarney*

Correio Braziliense

A grande crise política do Brasil é a desintegração dos partidos, vítimas da ausência de democracia interna.

Em 1958, eu, deputado federal no Rio de Janeiro (a sede da Câmara ainda era lá); e Afonso Arinos, líder da oposição ao governo de Juscelino Kubitschek, propôs o meu nome para vice-líder da UDN. Eu tinha apenas 28 anos, mas já construíra minha reputação combatendo o governo e exercendo uma presença forte em nossa bancada. 

A vice-liderança representa uma função de muita responsabilidade. Uma das principais tarefas confiadas aos vice-líderes consiste em emitir um parecer preliminar para orientar os deputados — servindo como recomendação oficial do partido para a bancada. Naturalmente, ouvíamos as bancadas estaduais, consultávamos os estatutos e o próprio líder — naquele tempo, o meu era Carlos Lacerda — sobre a orientação política. Todos, com disciplina, seguiam a orientação oficial. Quando alguém divergia e queria votar diferente, só o fazia depois de autorizado, após examinadas e aprovadas as razões de consciência. 

O custo dos 37,5% para Flávio, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Quanto Flávio Bolsonaro vai pagar pelos novos 37,5% de Trump? E que candidato vai lucrar?

Duas perguntas rondam a política e as eleições de outubro no Brasil. Quanto as novas tarifas de 37,5%, aplicadas por Donald Trump a produtos brasileiros, vão custar a Flávio Bolsonaro, que será formalizado candidato do PL neste sábado? E quem pode se beneficiar com a fragilidade crescente de Flávio, só Lula?

O novo ataque de Trump é um desastre histórico, empurra o Brasil mais e mais para a China e novos mercados e não pode, nem vai passar em branco nas eleições, como o próprio Flávio percebeu e tentou reverter, sem sucesso.

PF complica Flávio, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Investigação sobre filme chega num momento de uma maré de notícias negativas

A Polícia Federal suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas dos recursos utilizados para financiar o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O valor vultoso e o complexo caminho do dinheiro despertaram dúvidas entre os investigadores.

São mais de R$ 61 milhões que saem da Entre Investimentos, que pertence a Daniel Vorcaro, do Banco Master, e chegam a um fundo no Texas, controlado por advogado próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, para depois retornar ao Brasil para a Go Up Entertainment, ligada à empresária Karina Ferreira da Gama.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) concordou que era prudente investigar e teve o aval do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Relator do caso Master, Mendonça mostra independência, mesmo tendo sido indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Transparência sem comprometer a integridade das pesquisas eleitorais, por João Francisco Meira*

Folha de S. Paulo

Até a urna, eleitor pode mudar de posição, indecisos podem se decidir e campanhas podem alterar o ambiente

Também merece cautela a proposta de divulgar locais das entrevistas, sob risco de comprometer a amostragem

O Tribunal Superior Eleitoral exerce papel essencial na garantia de eleições livres, limpas e confiáveis. É positiva a mobilização do TSE pela transparência e pelo aprimoramento metodológico das pesquisas. A reunião e o diálogo promovidos pela corte com os institutos é louvável e estamos à disposição para conversar e construir soluções.

As propostas partem de uma intenção legítima: estimular qualidade, transparência e confiança. Precisamos, porém, avaliar seus efeitos, evitando que mecanismos criados para fortalecer as pesquisas comprometam sua integridade científica.

O que querem os Bolsonaros? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Investida de Flávio contra as urnas eletrônicas arranha tentativa de posar de moderado

Se o clã fracassar em mais uma disputa, a marca Bolsonaro já não valerá muito

pregação contra as urnas eletrônicas de Flávio Bolsonaro representa um desafio hermenêutico. Com tal gesto, o jovem Bolsonaro anula ou ao menos enfraquece a imagem de moderação que se esforçava para construir. E esse era um cálculo que fazia sentido, já que, para vencer um eventual segundo turno contra Lula, ele precisará do apoio de eleitores independentes normalmente avessos a radicalismos.

A interpretação mais plausível para a mudança de atitude é que, diante dos percalços por que passa a campanha, Flávio já prepara o discurso para uma derrota. Se Lula triunfar, não terá sido porque recebeu mais votos, mas sim porque o sistema, o "deep state" tupiniquim, conspira contra os Bolsonaros. Uma punição do TSE pelas mentiras sobre as urnas só reforçaria esse discurso.

Direita profissional acha Flávio amador, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Família Bolsonaro acreditou que o centrão daria apoio de graça, por gravidade e identidade ideológica

Enganou-se ao não considerar que esse pessoal atua no mercado futuro da política, de olho na melhor oferta

PL chega à sua convenção nacional sem conseguir atrair parceiros para formar uma coligação. O fato em si não é determinante para o desempenho de candidaturas. Em 2018, o PSDB de Geraldo Alckmin formou a mais ampla das alianças e terminou a eleição com menos de 5% dos votos.

O problema é a razão pela qual a campanha de Flávio Bolsonaro tem recebido explícitas e constrangedoras negativas de adesão por parte da direita profissional, que não se dá bem com amadorismos. Veterano no ramo, Valdemar Costa Neto chamou atenção para o despreparo. O senador e companhias podem ser bons de lacrações, mas são ruins no jogo da política.

Fala golpista e lamaçal no Rio não ajudam Flávio Bolsonaro, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Insinuações sobre urnas eletrônicas repetem mentira do pai que tentou desacreditar eleição

Senador terá de responder sobre relação com acusados de corrupção na política fluminense

A conversa de Flávio Bolsonaro com diplomatas, na qual repete mentiras de seu pai para questionar as urnas eletrônicas e as eleições no Brasil, não pode deixar de ser vista em sua dimensão golpista. O senador, que já havia perdido o entusiasmo de setores da direita democrática, deu mais um passo para despertar desconfianças sobre sua candidatura. Não por acaso, vemos direitistas empurrando suas fichas para 2030.

Além do pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro (que será investigado pela PF), das relações com a Casa Branca e dos atritos com a madrasta Michelle, que geraram problemas com parte do eleitorado feminino e evangélico, a situação de Flávio não é favorecida pelo quadro de contaminação da política do Rio pelo crime organizado.