terça-feira, 8 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso dá passo correto rumo à economia do futuro

Por O Globo

Leis com incentivos a data centers e regras para minerais críticos são fundamentais para modernizar país

Depois de muita protelação, o Congresso enfim aprovou na semana passada duas leis essenciais para preparar o Brasil aos desafios econômicos do futuro. Na terça-feira, os senadores chancelaram um Projeto de Lei restabelecendo estímulos fiscais à instalação de data centers. No dia seguinte, referendaram o Projeto de Lei dos Minerais Críticos, com regras e incentivos para exploração e beneficiamento de diversos minérios, entre eles as terras-raras.

Com matriz enérgica limpa, o Brasil tem potencial para se tornar um expoente em data centers, o dínamo que armazena e processa informação no mundo digital. Sem eles, não há como acessar aplicativos de banco, chamar carros, ver filmes no streaming, entrar em redes sociais e, sobretudo, usar inteligência artificial (IA). Grandes consumidores de eletricidade e água, os data centers têm sido alvo de protestos em comunidades rurais americanas, sobretudo em razão do aumento do custo da energia. O Brasil tem uma enorme vantagem comparativa no fornecimento de energia e água — e pode atrair para cá o investimento rechaçado por lá.

Lula paga o pato do Master porque erra o alvo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente é pressionado contra André Mendonça, mas alvo a ser desconstruído é Flavio Bolsonaro

O candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, ascendeu para o empate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de 2º turno da Quaest num momento em que cresce a preocupação com o endividamento e com a corrupção. A resposta do governo à primeira deverá ser uma tardia medida provisória restringindo apostas online.

A resposta à segunda passa pela inclusão, igualmente tardia, no programa de governo lulista, de uma reforma do Judiciário que passe pela ampliação da transparência e do controle social. Vai ser suficiente para conter a curva ascendente da candidatura bolsonarista? Uma parte da resposta está nos sinais da manifestação bolsonarista deste 7 de Setembro na Avenida Paulista, recorte do eleitorado do Sudeste em que, assim como em 2022, a eleição está mais aberta.

Impacto de crise no STF tira força de Lula sem fortalecer Flávio, por César Felício

Valor Econômico

Tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado em um intervalo de apenas cinco dias

pesquisa Quaest sobre a eleição presidencial divulgada neste feriado de 7 de Setembro colheu em seu período de entrevistas o pico da reverberação das denúncias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes, cujas relações suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foram expostas pelo colega de Corte, André Mendonça. Não há outro fato relevante entre esta rodada e a anterior, de 2 de setembro. O impacto, como era previsível, foi negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ele fica patente na medida divulgada pelo instituto sobre a aprovação do governo. Ela caiu dois pontos percentuais (45% para 43%), enquanto a desaprovação subiu dois pontos (48% para 50%) . Este “gap” de sete pontos percentuais só é comparável ao quadro de abril, quando a desaprovação superava a aprovação em nove pontos.

A boca do jacaré, por Merval Pereira

O Globo

A sorte de Lula, se é possível falar assim, é que seu principal adversário é Flavio Bolsonaro, também envolvido com Vorcaro no financiamento do filme “Dark Horse”, sobre seu pai

Mais importante do que o empate numérico entre o presidente Lula e o senador Flavio Bolsonaro no segundo turno da eleição, é a tendência que a nova pesquisa Quaest exibe: a chamada “boca do jacaré” fechando em favor da oposição. Essa gíria estatística acontece quando os índices a favor de um candidato vão se aproximando do antigo favorito, desenhando no gráfico uma “boca de jacaré” se fechando. Quando isso acontece, muito mais agora, em que estamos a menos de um mês das urnas, é sinal de que o eleitorado está tendendo para um lado.

Podemos esperar algo das eleições? Por Fernando Gabeira

O Globo

Será preciso reformar o Supremo, a começar pela prática daninha de presidentes indicarem amigos

E essas eleições aí? Nas ruas, já começam a perguntar pelo processo eleitoral e confesso que não tenho resposta fácil. O Brasil anda muito complicado, temos de fazer um esforço permanente para ligar os fios, preencher lacunas, enfim, entender o que se passa.

A historiadora e psicanalista Élisabeth Roudinesco fez uma palestra interessante no Brasil com o título “Ainda podemos sonhar com outra vida?”. Sinto que as pessoas na rua me fazem precisamente esta pergunta:

— Ainda podemos sonhar com outro país?

Roudinesco faz uma digressão sobre uma famosa ideia popularizada por Gramsci: é preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade. Segundo ela, a inteligência anda junto ao pessimismo porque pressupõe uma distância crítica da realidade para que a gente não se iluda. Parar por aí, porém, pode significar um mergulho na nostalgia, uma recusa a mudar o curso da história.

O silêncio das Forças Armadas, por Míriam Leitão

O Globo

Sete de setembro mostrou o afastamento das Forças Armadas das eleições, enquanto templos religiosos ainda são usados como currais eleitorais

Não se ouve mais barulho vindo dos quartéis, ao contrário do que ocorreu nas eleições de 2018 e de 2022. Não é por acaso. Nos últimos quatro anos comandantes militares fizeram um trabalho silencioso, mas determinado, para corrigir a rota na qual Jair Bolsonaro havia colocado as Forças Armadas. Algumas decisões foram públicas, como a de proibir manifestação do pessoal da ativa em redes sociais. Outras foram bem mais discretas e exigiram dos comandantes muitas conversas internas e viagens pelos estabelecimentos militares em todo o Brasil.

Jair Bolsonaro havia feito uma mobilização deliberada para envolver as tropas na disputa eleitoral brasileira. Começou anos antes de sua eleição e foi escancarada durante seu mandato. Oficiais voltaram a participar da disputa de poder no Brasil, depois de terem estado alheios durante todos os outros governos após a redemocratização.

É hora de refundar a República, por Pedro Doria

O Globo

O próximo presidente, no uso de sua autoridade, pode convocar um conselho de notáveis

Os regimes, na História da República brasileira, duram uma média de 20 a 30 anos. Entre 1889 e 1930, a Primeira República ficou de pé por 41. A ditadura Vargas, até 1945, durou 15, seguida da Segunda República, encerrada pelo golpe de 1964. Ao todo, 19 anos. Somem-se 21 anos da ditadura militar. Todos ruíram porque entraram numa espiral de autodestruição, incapazes de gerir os conflitos internos por controle de poder. Cada um foi encerrado da mesma forma: por um golpe militar. Todos, menos um. A Nova República, que agora tem 41 anos, nasceu de uma restauração democrática sem generais. Precisamos considerar a possibilidade de que o sistema político tenha perdido a capacidade de gerir seus conflitos e levá-los a uma solução. Novamente.

Lula e os endividados, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A Quaest é ruim para Lula, não porque Flávio Bolsonaro avança, mas porque ele anda para trás

A pesquisa Quaest deste 7 de setembro, a 24 dias das eleições, é importante e traz dados ruins para o presidente Lula, que deixa de ser o favorito e vai de empate técnico para empate numérico com Flávio Bolsonaro no segundo turno, 41% a 41%, com tendência de queda. Ou seja, a possibilidade de ser ultrapassado por Flávio nas próximas rodadas, ou semanas, é real.

Lula tinha 45% em julho, vem perdendo um ponto porcentual a cada nova Quaest e chega na reta final da campanha beirando os 40% no segundo turno, com um outro dado que não apenas explica o sufoco, como é o principal empecilho para o seu quarto mandato: a desaprovação do governo.

Fraturas e atalhos, por Jorge J. Okubaro


O Estado de S. Paulo

O Supremo precisa olhar para dentro de si, e alguns de seus membros precisam abandonar objetivos políticos

Raras vezes se viu fratura tão nítida na imagem do Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte vive, talvez, sua maior crise de credibilidade desde o fim da ditadura militar. Por ação de alguns de seus integrantes ou por omissão coletiva, sua respeitabilidade está em risco. Neste momento, no entanto, diminuir o Supremo, enfraquecê-lo e questionar suas competências só interessam aos inconformados com as regras democráticas e aos que almejam soluções fora das instituições. O STF demonstrou seu papel essencial na defesa das garantias democráticas quando teve de decidir sobre a tentativa de golpe de Estado praticada em 8 de janeiro de 2023 pelos derrotados nas urnas no ano anterior. Não interessa aos que defendem o Estado Democrático de Direito que este papel seja abandonado ou fragilizado. Mas, para preservá-lo com dignidade, autoridade e credibilidade, o Supremo precisa olhar para dentro de si, e alguns de seus membros precisam abandonar objetivos políticos.

Sobre independência, tradição diplomática e nova Guerra Fria, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Apesar das diferenças, prevaleceu a noção de que a política externa deveria servir aos interesses permanentes do Brasil. Hoje, essa política está sendo posta em xeque

A política externa brasileira não nasceu com a Independência, cujos 204 anos comemoramos ontem, com o tradicional desfile do Sete de Setembro, desta vez em meio a uma campanha eleitoral e radicalizada polarização política. Sua gênese antecede a criação do Estado nacional e remonta às negociações que definiram o próprio território. Antes de o Brasil se tornar soberano, nossa diplomacia já começara a construí-lo, como destaca o embaixador Rubens Ricupero, no seu livro A diplomacia na construção do Brasil: 1750-2016 (Versal).

Lula pega carona na limpa de Ricardo Couto no Rio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Versão de que o desembargador seria indicado serve para o presidente se distanciar da crise no STF

Interessa ao governo se associar à boa imagem do governador interino livre de compromissos políticos

Governador interino do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto faz uma limpa na administração estadual porque não tem compromissos políticos a serem atendidos.

Couto não é do ramo, mas isso em tese não o impediria de perceber que está sendo usado na versão de que é cogitado para ocupar a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal.

Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Mensagens pedindo orações por André Mendonça são código para mobilização

Ao atacar Mendonça, Moraes ameaça também a reputação de evangélicos

Igrejas evangélicas por todo o país saíram do estado de torpor para o de ebulição. Seus núcleos bolsonaristas estavam apáticos, por rejeitarem Flávio ou por entenderem que ele perderia a eleição. A guerra no STF os reenergizou.

Os sinais indiretos que circulam são, principalmente, mensagens que dizem "vamos orar por André Mendonça" —o que significa, na verdade: vamos atuar nesta eleição, vamos apoiá-lo.

A divulgação dos diálogos de Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro provocou essa mobilização. Há o entendimento de que defender o impeachment desse ministro levará à vitória contra o PT.

Alexandre de Moraes: admiração e indignação - que a Justiça seja feita, por Elias Gomes*

É inegável o papel desempenhado pelo ministro Alexandre de Moraes na investigação e responsabilização daqueles que atentaram contra a democracia brasileira. Com firmeza e rigor, conduziu processos que expuseram uma articulação política e institucional que buscava romper a ordem democrática conquistada com tanto sacrifício pela sociedade brasileira.

O processo chegou a um momento histórico: a condenação de generais e integrantes do alto oficialato das Forças Armadas. Um fato inédito que demonstra que, em uma democracia, farda, cargo, mandato ou poder não podem colocar ninguém acima da Constituição.

Mas existe sempre um “mas”. Se ninguém está acima da lei, ninguém pode estar acima dela - absolutamente ninguém. Nem presidente da República, nem parlamentar, nem empresário, nem general e, muito menos, ministro do Supremo Tribunal Federal.

O perigo da anomia: eles estão de volta... por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Seria assim um Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aparentemente rigoroso, se não houvesse tanta conveniência jurisprudencial entre juízes, governantes e políticos. As eleições no Brasil, depois de apuradas, resultaram quase sempre em questionamentos sobre os resultados oficiais.  E o que está acontecendo nesta de 2026? Para concorrer nas eleições de outubro, os partidos políticos estão desobrigados de pagar previamente multas por transgressões eleitorais cometidas nos pleitos anteriores e os políticos condenados na Justiça por corrupção, cumprida a pena, estão livre para candidatar-se.  As Leis Complementares nº 135, de 2010, conhecida, como "Lei da Ficha Limpa", emendada pela Lei Complementar nº 64/1990 ("Lei das Inelegibilidades") parecem ter perdido a validade, à luz desse imbroglio que envolve, hoje, o Judiciário e, individualmente, o histórico e as relações entre ministros que o compõem. 

Poesia | Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Milton Nascimento - Travessia

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso militar da IA exige atenção de todo o planeta

Por O Globo

Mortes causadas por drone autônomo na Ucrânia expõem dilemas similares aos trazidos pela bomba atômica

É provável que o dia 6 de julho de 2026 entre para a História como o primeiro registro de morte provocada por inteligência artificial (IA) numa guerra. Naquele dia, um drone russo controlado desceu sobre a cidade de Zaporíjia, no sudeste da Ucrânia, em direção a um posto de gasolina, explodiu num muro, e seus estilhaços mataram três pessoas. Peritos concluíram que o drone estava programado para voar até o local e escolheu explodir perto do provável alvo: um tanque de combustível. Não devido a erro, mas porque decidiu fazer aquilo, sem qualquer controle humano. Foi guiado por IA.

Foi o primeiro caso documentado com morte de civis por drone do tipo, de acordo com análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. A perícia foi confirmada pelo resgate, dentre os destroços, de um pequeno processador da Nvidia, principal fornecedora de chips para IA. O drone foi considerado arma autônoma.

Depois da Independência: quem decide o futuro do Brasil? Por Sami Sternberg

Correio Braziliense

O objetivo oculto da interferência externa sobre o Brasil é impactar diretamente a maneira como a população enxerga as próprias instituições e a capacidade do país de lidar com seus desafios internos

Enquanto o Brasil passa por mais um 7 de setembro que simboliza sua autonomia e soberania, o país convive com ações de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro que saíram da esfera especulativa e se tornaram realidade. Não há dúvidas de que as sucessivas medidas econômicas, políticas e diplomáticas tomadas pelo atual governo dos Estados Unidos e seus aliados geram impactos diretos na corrida eleitoral do país. Mas a maior vítima dessa engrenagem de ingerência e desinformação é algo que transcende os diferentes espectros ideológicos: a integridade da democracia brasileira.

De espancamentos e chacinas, por Miguel de Almeida

O Globo

Só faltou acrescentar que deveria ter o destino do ciclista de Copacabana, morto a pauladas por seguranças

Um recorte de 1978: em “Um homem chamado Opinião”, de Márcio Pinheiro, sobre o publisher Fernando Gasparian, criador do jornal “Opinião”, célebre órgão de oposição à ditadura, há a inauguração de sua Livraria Argumento, na paulistana Rua Oscar Freire. Impressiona a lista de presentes: entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, José Arthur Giannotti, Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Francisco Weffort. Todos professores universitários, intelectuais que participavam do debate público. Sofreram todos sob o regime militar — cassados ou exilados —, mas buscaram vencer o arbítrio. Cada um, a seu jeito, esteve na base da formação do PSDB ou do PT.

Eleições com IA, sim! Por Irapuã Santana

O Globo

A simples proibição de um instrumento não é o melhor caminho para a sociedade. Parece ser um esforço para impedir o inevitável

Na última terça-feira, o TSE definiu os critérios para caracterizar um deepfake nas eleições de 2026. Estabeleceu que é o conteúdo sintético produzido por inteligência artificial (IA) que apresente grau de realismo com potencial de induzir o eleitor a erro. Esse é um exemplo do grande desafio diante da nossa Justiça Eleitoral para regular o uso da tecnologia em 2026.

A fim de proteger o pleito, o tribunal se aprofundou bastante no tema e, como não poderia ser diferente, isso produziu alguns efeitos negativos sobre a própria democracia. “Numa democracia, em que rege a ideia de autogoverno, nós usamos os processos democráticos para que o Estado consiga captar corretamente a vontade das pessoas, as preferências em geral do eleitorado, através do voto, da escolha dos seus representantes”, diz o desembargador eleitoral do TRE-RJ Bruno Bodart.

Não há empate entre Mendonça e Moraes, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O pessoal do abafa, a longa fileira de autoridades que se beneficiaram do dinheiro de Vorcaro, já está em campo

Muitos analistas sugeriram que Alexandre de Moraes deveria renunciar ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) diante da revelação dos fortes indícios de relações impróprias com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Afastado, Moraes contrataria um bom advogado e se dedicaria a sua defesa. Seria, de fato, uma atitude republicana, levando em conta os interesses do país — dado o tamanho do caso — e preservando o próprio STF.

Se fizesse isso, Moraes se despiria da couraça que o protege — o poder do cargo — e perderia o foro privilegiado. Voltaria a ser um brasileiro comum, embora rico. Especulando: que condições deveriam estar presentes para que Moraes tomasse tal decisão? Duas: a convicção pessoal de que é inocente e a certeza de que teria um julgamento justo.

Dois juízes ‘heróis’: tudo que não precisamos, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Tudo o que o Brasil não precisava era de 2 juízes ‘heróis’ para energizar torcidas políticas

A crise do Supremo Tribunal Federal é fruto de um mal: a existência de ministros que tudo podem e, como deuses intocáveis, acreditam estar acima das leis. Esses juízes supremos não surgiram do nada. Eles foram gerados pela carência da população brasileira por heróis e cresceram (em poder, em número, em ousadia nas decisões monocráticas) porque as instituições, entre as quais o próprio STF, falharam em contê-los.

Decepcionados com os políticos, os brasileiros passaram a olhar para certos juízes como salvadores imbuídos da missão de varrer a corrupção do País ou de fazer justiça social. A tentação de encontrar tais heróis nos tribunais se nutre do desejo de acreditar que só um homem forte, sem precisar prestar contas a ninguém, pode consertar as coisas e fazer “o que precisa ser feito”.

Crise institucional, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Se o STF optar pela Justiça, poderá recuperar o seu prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade

O Supremo é um trem descarrilhado chocando-se com a República. Não poderá ela resistir se nada for feito, pois o que se tem visto é uma instituição na qual alguns de seus membros, além de exorbitarem de suas funções e prerrogativas, defendem prioritariamente interesses privados e corporativos. As relações promíscuas, esse é o termo mais apropriado, entre o mafioso – impropriamente denominado de banqueiro – Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, são estarrecedoras. A mulher do ministro faz um contrato de R$ 131 milhões com o mafioso, contrato esse por ele próprio revisado. Fica-se com a impressão de que o trata como um funcionário seu. A República não pode conviver com cenas desse tipo, a menos que abdique de ser a “coisa pública” para ser a “coisa privada” de alguns.

A encruzilhada política da Alemanha, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Restam 3 opções para lidar com a extrema direita alemã: isolar, proibir ou deixar governar

A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.

A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.

Vitória da extrema direita na Alemanha revela desejo de voltar ao passado, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

AfD encontrou eleitorado desencantado com promessas

Partido tem programa politicamente indigno e até perigoso

A história não se repete. Às vezes, nem sequer rima. Mas é tentador olhar para 2026 com os olhos postos em 1933. No estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a direita radical conseguiu uma vitória histórica.

Sem maioria absoluta, ainda não está claro se conseguirá governar. Mas foram incontáveis os artigos de jornal que pintaram em Ulrich Siegmund, o candidato da AfD – Alternativa para a Alemanha –, o célebre bigodinho do cabo austríaco. Antes de mais nada: o programa da AfD é politicamente indigno e, em suas simpatias russófilas, até perigoso.

Mas serei o único a achar estranho que a direita radical se imponha nas urnas porque, entre outras razões, também soube apelar à nostalgia pela antiga RDA comunista? Se dúvidas houvesse, Ulrich Siegmund fez questão de aparecer na campanha com sua moto Simson – um pedaço de "Ostalgie" sobre duas rodas, só superado pelas quatro do inevitável Trabant, o carro emblemático do antigo regime. As causas do sucesso da AfD talvez estejam mais próximas de nós do que as cervejarias de Munique de um século atrás.

STF: fora de campo, dentro do jogo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A menos de um mês do primeiro turno, o Supremo deixou de arbitrar o jogo eleitoral para se tornar seu principal personagem

Enquanto o STF trava uma guerra interna, debate sobre planos de governo e propostas eleitorais fica em segundo plano

Em quatro semanas estaremos nas urnas escolhendo presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. As manchetes dos jornais deveriam estar dedicadas aos planos de governo, propostas, candidatos azarões e peculiaridades do financiamento político. Mas a realidade é diferente, tudo o que discutimos foi o Supremo Tribunal Federal e seus ministros.

Que a corte é inventiva em sua função de guardiã da Constituição sabemos há tempos. Para ficarmos em exemplos recentes, o STF reinterpretou a regra constitucional que estabelece um teto para pagamentos dos servidores públicos criando um teto paralelo para o Judiciário. Outro exemplo é a manutenção do presidente do TJ-RJ como governador em exercício do estado. Que a corte atua politicamente também não é novidade. O decano da casa, ministro Gilmar Mendes, é o melhor exemplo. Em uma de suas decisões mais emblemáticas, em dezembro do ano passado restringiu, sozinho, à PGR o poder de pedir impeachment de ministros do STF, blindando a si e aos colegas.

A República à venda, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A pergunta já não é apenas quem tentou comprá-la, mas quem se dispôs a negociar com o comprador

Reformas no STF eliminam incentivos perversos, mas não substituem a responsabilização necessária

Urbem venalem et mature perituram, si emptorem invenerit (uma cidade à venda e condenada a perecer rapidamente, caso encontrasse um comprador). A frase, atribuída por Salústio a Jugurta, rei da Numídia, depois de ter corrompido senadores, diplomatas e tribunos da plebe, tornou-se a expressão máxima da corrupção política. Evoca não apenas a compra de autoridades, mas o colapso de uma República.

Jugurta concluiu que Roma estava à venda. No Brasil, a pergunta já não é apenas quem tentou comprar a República, mas quem se dispôs a negociar com o comprador —e quem utiliza o poder de julgar para impedir que saibamos a resposta. E é com isso que estamos nos deparando: contra-ataques diversionistas disparados a toque de caixa. A estratégia parece clara: criar falsas equivalências. A que ponto chegamos? E como chegamos a esse ponto?

Até quando a elite vai ignorar vidas negras? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Reconhecer o impacto do racismo na vida de milhões não é prioridade no país mais negro fora da África

Apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência têm propostas para enfrentar racismo e desigualdades étnico-raciais

Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.

Obra de Roberto Schwarz, 88, concebe a literatura brasileira como espelho de sociedade desigual, por Edu Teruki Otsuka*

Folha de S. Paulo

Crítico investigou a impressão de desajuste entre as ideias modernas, importadas da Europa, e a realidade do país

A partir de Machado de Assis, Schwarz reconstituiu o processo de formação do romance brasileiro

Ler extensivamente a obra de Roberto Schwarz é o melhor caminho para compreender os argumentos dos seus estudos mais conhecidos porque possibilita perceber as relações internas que dão ao conjunto dos seus textos ensaísticos um caráter muito articulado, sugerindo um ponto de vista crítico de alcance sistemático.

Os seus textos não fazem concessões ao leitor e, ao mesmo tempo que buscam o máximo de clareza e precisão, exigem dele disposição para acompanhar argumentos complexos, juntar conhecimentos de áreas que a especialização separa e se preparar para raciocínios contraintuitivos, sempre em luta contra o senso comum e em atrito com opiniões estabelecidas.

Só assim é possível apreciar a beleza dos movimentos do pensamento e da composição altamente refletida, o senso de humor e as sutilezas de inflexão que compõem a sua prosa de ensaio —um estilo literário construído e adaptado em cada caso para fazer frente à complexidade dos objetos de que trata, visando ao seu significado estético e político.

Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação, por Bernardo Carvalho

Folha de S. Paulo

Podemos estar cercados de 'amigos desleais' que, em nome de interesses aparentemente comuns, preparam armadilha fatal

Em entrevista em 1964, Hannah Arendt discutiu pertencimento a grupos organizados politicamente

A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.

Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.

Pronunciamento à Nação: 7 de Setembro (6/09/2026)

 

Poesia | Pátria Minha, de Vinicius de Moraes

 

Música | Gal Costa - Aquarela do Brasil (Ary Barroso)

 

domingo, 6 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova reforma da Previdência tem de ser duradoura

Por O Globo

Estudo tem o mérito de não fugir às questões espinhosas e de propor solução de longo prazo

Menos de oito anos depois da última reforma, a Previdência apresenta rombos crescentes. As contribuições recolhidas são insuficientes para pagar benefícios, aposentadorias e pensões. Em 2025, o Tesouro teve de gastar R$ 320 bilhões para honrar os compromissos do INSS. Na Previdência dos servidores públicos, foram mais R$ 62 bilhões e, nas pensões dos militares, outros R$ 53 bilhões. As despesas do INSS equivalem a 8% do PIB e, com o envelhecimento da população, chegarão a mais de 17% até o fim do século.

Toda caminhada começa pelo primeiro passo, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Foi divulgada ontem, dia 04.09, pela Transparência Internacional, uma nota pública intitulada "O Brasil precisa neutralizar as ameaças às suas instituições e ao seu regime democrático", em cujo primeiro parágrafo lê-se:

“Um juiz constitucional cercado por gravíssimos indícios de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça já representa, por si só, um risco institucional em razão da natureza de suas condutas. Mas torna-se um elemento ainda mais desestabilizador pelas medidas que pode adotar em busca da impunidade. É nisso que o ministro Alexandre de Moraes se transformou diante das revelações que apontam para suas condutas com Daniel Vorcaro e, sobretudo, diante de sua retaliação autoritária, colocando o Supremo Tribunal Federal no caminho de uma crise institucional sem precedentes”.

Claro que não se pode recepcionar um texto de um movimento global monotemático, como é o Transparência Internacional - para o qual o combate à corrupção é fundamental a ponto de pretender erradicá-la - como se fosse um texto plenamente político. Seu posicionamento é assumidamente concentrado na dimensão institucional e é, desse modo, distinto e muitas vezes vai mesmo na contramão do que se deve esperar de algum ator político relevante, obrigado a olhar simultaneamente para várias direções, sem aderir à ideia de que a corrupção seja o único ou o principal problema do país.

Crime, castigo e relações perigosas de ministros do STF no caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao citar Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, também supostamente investigados de forma ilegal, Moraes insinua ter apoio da maioria dos ministros do Supremo contra Mendonça

“Raskólhnikov, de lábios desmaiados, olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma das mãos sobre ela, quis dizer alguma coisa e não pôde; apenas se ouviram alguns sons incoerentes.

— O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui…Sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!

Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.

— É que eu… — começou Raskólhnikov.

— Beba água.

Raskólhnikov desviou a água com a mão e, devagar, mas distintamente, disse:

— É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machadada, para roubá-la.

Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração…”

O que proteger em tempos extremos, por Míriam Leitão

O Globo

A confiança na democracia está se estiolando, num país ferido pela polarização e com reflexos do maior escândalo financeiro da história

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.

O autoritarismo revivido, por Merval Pereira

O Globo

A manipulação da Suprema Corte dos EUA pelo presidente Roosevelt e a cassação de ministros no Brasil em 1969 são exemplos de controles das Cortes

A politização do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início a essa crise institucional que estamos vivendo que, com diferenças de características sociais e geopolíticas, se repete em diversos países. De aspirantes a ditadores até a democracias liberais, o papel das Cortes Superiores vem ganhando uma dimensão política que não se coaduna com princípios de equilíbrio de poderes de uma democracia. O poder excessivo do ministro Alexandre de Moraes é exemplar dessa situação.

Na semana passada, debatendo o tema do autoritarismo na Academia Brasileira de Letras a partir de conferências feitas pelo embaixador e acadêmico João Almino, discutimos a questão dos “democratas autoritários”, título de um livro do próprio Almino, a partir da aceitação de que estamos vivendo um momento de regressão política e de abandono da experiência democrática em vários lugares do mundo, o que nos levou ao momento que vive o país.

Um morto-vivo na eleição do Rio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Cláudio Castro se lambuzava em caviar enquanto estado era rapinado, indica PF

Um fantasma ronda a disputa pelo Palácio Guanabara: o fantasma de Cláudio Castro. O ex-governador virou um morto-vivo na política fluminense. Os aliados fingem não conhecê-lo, e os rivais apostam nele como anticabo eleitoral.

O candidato do PL, Douglas Ruas, esconde o antigo chefe da propaganda partidária. Na TV, ele é apenas um caminhante solitário que esbraveja contra o “Rio da novela” e repete que “a gente não criou esses problemas”. Quem terá criado?

Os bolsonaristas que concorrem ao Senado também fazem ginástica para se distanciar do ex-governador. “Nunca fui aliado de Castro”, diz Carlos Jordy. “Não preciso defender o legado dos outros. Cada um tem seu CPF”, emenda Carlos Portinho.

A responsabilidade do Supremo, por Elio Gaspari

O Globo

No meio da disputa entre Mendonça e Moraes, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Daniel Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade

Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.

O presidente do tribunal, Edson Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de todo o processo e de suas provas. Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias vezes contar “toda a história” do Master.

Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.

Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de Mendonça.

No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade.