segunda-feira, 13 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cláusula de barreira reforça depuração partidária

Por O Globo

Patamar mínimo de 2,5% dos votos assegurará recursos para menos partidos — os mais representativos

Na janela encerrada no início do mês, algo como 120 deputados trocaram de partido. O movimento reflete não apenas interesses eleitorais, mas também a consolidação mais coerente do espectro partidário brasileiro. A previsão é que a eleição de outubro tenha como resultado mais um enxugamento no número de legendas com acesso a fundo partidário e horário eleitoral gratuito. O patamar mínimo de votos para deputado federal que os partidos deverão atingir para manter tais recursos — conhecido como cláusula de barreira ou desempenho — será de 2,5%, com pelo menos 1% em nove unidades da Federação. Inicialmente, em 2018, a exigência era de 1,5% dos votos e chegará ao teto de 3% na eleição de 2030. Conjugada ao fim das coligações nos pleitos proporcionais ao Legislativo, ela tem contribuído para depuração do sistema partidário.

Derrota de Orbán é um alerta sobre apoio de Trump na eleição brasileira, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Resultado das eleições na Hungria sugere que o presidente americano continua tóxico em muitos países e que seu apoio pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro

A derrota do premiê Viktor Orbán nas eleições de hoje na Hungria sugere que Donald Trump provavelmente continua tóxico em muitos países e que o seu apoio eleitoral pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro. Ele precisará analisar muito bem se convém ou não trazer o apoio explícito do presidente americano para a campanha eleitoral brasileira.

A derrota significa o fim de 16 anos de governo de Orbán, que é acusado tanto pela oposição interna como pelos parceiros da União Europeia de atentar contra o Estado de direito na Hungria. Seu governo adotou uma série de medidas que minaram a independência do poder Judiciário. Ele também “capturou” a mídia, o que resultou no controle direto ou indireto da maior parte da comunicação no país por aliados do governo. Por isso, a UE congelou o repasse de fundos europeus ao governo húngaro.

Hungria e limites da interferência de Trump, por Assis Moreira

Valor Econômico

A derrota de Viktor Orbán no domingo vira revés também para Donald Trump e Vladimir Putin

A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais.

O resultado foi uma vitória sólida do oposicionista Péter Magyar, com maioria parlamentar confortável para ajudá-lo a reconstruir instituições democráticas desmontadas ao longo de 16 anos de poder “iliberal” sob Viktor Orbán.

Na Hungria, a ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve, portanto, influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orbán.

Se isso trará grande alívio a outros governos que não estão exatamente alinhados com a administração trumpista é outra história. Trump parece pouco preocupado com limites para mobilizar seu poder com o objetivo de influenciar disputas no exterior.

Política econômica baseada no voto, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Medidas contra inadimplência abrem temporada de estímulos governamentais em ano eleitoral

Em abril a Quaest foi a campo e questionou a eleitores de todo o Brasil sobre suas percepções sobre o estado da economia brasileira. 62% responderam que ela havia piorado no último ano, sendo que 59% sentiam que sua capacidade de pagar as contas tinha diminuído nos três meses anteriores. A inflação se mostrava como o grande vilão: 98% identificavam que os produtos estavam mais caros, e para 24% a culpa pelo aumento de preços dos combustíveis era do presidente: Jair Bolsonaro.

O que explica a valorização recente do real? Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca e os juros continuam nas alturas

O real tem se fortalecido em relação ao dólar neste ano, como se vê no câmbio na casa de R$ 5. O cenário externo, embora conturbado, tem favorecido a moeda brasileira. Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca (relação entre preços de exportação e de importação) do país e os juros por aqui continuam nas alturas, estimulando operações para aproveitar a diferença entre as taxas externas e internas. Para completar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem perdido força nas pesquisas, o que boa parte do mercado vê como um sinal de que pode haver uma mudança na política econômica a partir de 2027, com mais ênfase no ajuste das contas públicas.

Um equilíbrio delicado entre os Poderes, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Risco à democracia não está só em presidentes fortes, mas em poderes que atuam sem limites

Durante muito tempo, o principal problema das democracias latino-americanas parecia claro: presidentes fracos, incapazes de governar, reféns de sistemas partidários fragmentados e de Legislativos indisciplinados. A consequência recorrente eram crises, paralisia decisória e, em casos extremos, rupturas institucionais.

A resposta a esse diagnóstico foi fortalecer o Executivo. Ao longo das últimas décadas, diversos países ampliaram os poderes presidenciais, conferindo aos chefes de governo mais instrumentos para aprovar políticas, coordenar coalizões e superar bloqueios. A aposta era simples: presidentes mais fortes significariam governos mais eficazes – e, portanto, democracias mais estáveis.

Não pode, companheiro Alexandre, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O presidente da República não tem nada que manter conversas reservadas com um ministro do Supremo

O presidente Lula deu dois conselhos ao companheiro Alexandre de Moraes, como ele mesmo se referiu ao ministro do STF. O primeiro foi direto: Moraes não pode participar de julgamentos envolvendo o caso Master. O segundo foi indireto. Disse Lula, quando sugeria mudanças no STF:

— Se o cara quiser ser milionário, não pode ser ministro da Suprema Corte.

Ora, a família Moraes ficou milionária em pouco espaço de tempo. O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, recebeu nada menos que R$ 80 milhões do Banco Master em apenas dois anos de um contrato até agora pouco esclarecido. Lula não apresentou nenhum fato novo. Mas a palavra do presidente da República tem peso, sobretudo em público. Ele havia mantido conversa particular com o companheiro Moraes quando deu aqueles conselhos.

Geração atual não se identifica com referências políticas consagradas, por Preto Zezé

O Globo

Jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência

Os números chamam a atenção, mas o erro começa quando se supõe que se explicam sozinhos. Entre jovens de 16 a 24 anos, o presidente Lula tem 72% de desaprovação, segundo pesquisa AtlasIntel-Bloomberg — e há quem trate o assunto como mera oscilação ou humor das redes, embora seja pouco provável que se explique apenas por isso.

Quando uma geração se afasta do principal rosto de um campo político, a questão deixa de ser só eleitoral e passa a ser simbólica. No limite, trata-se de entender quem ocupa o lugar do futuro, onde se organiza a energia política de quem está começando a vida.

Irã, dez lições de um desastre estratégico, por Demétrio Magnoli

O Globo

Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações

1. Os Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do Estreito de Ormuz.

2. A decapitação do Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária. O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.

3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.

Narcisos malignos, por Dorrit Harazim

O Globo

O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional

‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.

O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.

Hungria encerra era Orbán entre desafio da mudança e risco de revanche

Por Renáta Uitz e Thiago Amparo* / Folha de S. Paulo

Vitória do Tisza de Péter Magyar rompe ciclo de concentração de poder do premiê, mas herda máquina ainda ativa

Com maioria ampla, novo governo deve enfrentar dilema entre reformar sistema cooptado e punir adversários

Na noite deste domingo (12), a era Viktor Orbán chegou ao fim. Após 16 anos no poder, o premiê reconheceu a derrota de seu partido, o Fidesz, nas eleições da Hungria. Não se trata de um feito menor: ao longo de quatro mandatos parlamentares, o sistema eleitoral foi inteiramente remodelado para favorecê-lo.

Depois da vitória esmagadora de 2010, que deu ao Fidesz uma maioria de dois terços no Parlamento, Orbán anunciou a construção de uma democracia iliberal, com o desmonte sistemático das instituições encarregadas de limitar o poder. O que se seguiu foi uma profunda transformação política, social e cultural, cuidadosamente inscrita no texto constitucional de uma nova Constituição, promulgada em 2012.

O regime de Orbán sempre foi pragmático na maximização do poder e jamais escondeu suas inspirações. Seu projeto constitucional se inspirou em exemplos russos e foi moldado em meio a relações tensas com as instituições europeias, ao mesmo tempo em que mantinha o premiê como aliado próximo da Rússia.

Johannes Brahms -- Hungarian Dance No.5 - Hungarian Symphony Orchestra Budapest

 

Investigadores principais do V-Dem criticam relatório da instituição sobre a democracia, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A ideia de uma autocratização global generalizada não se sustenta empiricamente

Um dos críticos é o próprio arquiteto intelectual do projeto V-Dem

"Democracy Report 2026" do V-Dem tem gerado grande controvérsia —não apenas externa, mas também interna. Quatro dos cinco investigadores principais —inclusive o idealizador do projeto, Michael Coppedge— afirmam "não endossar parte das análises sobre a extensão do recente declínio global da democracia", consideradas "exageradas, pouco nuançadas" e marcadas por "linguagem inflada".

Universidade com a cara do povo brasileiro - parte 2, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Cotas nas instituições federais mudam radicalmente perfil dos estudantes

Estudo mostra crescimento de 279% no ingresso de pessoas pretas, pardas e indígenas

Volto ao tema da coluna anterior para apresentar alguns dados que sustentam minha convicção de que as cotas são a mais eficiente e eficaz política pública já adotada pelo Estado para fazer frente ao fosso de desigualdades que nos caracteriza enquanto sociedade.

Como se sabe, até o fim dos anos 1990 o perfil acadêmico dos alunos das nossas universidades federais era composto majoritariamente por jovens brancos, filhos das classes média e alta.

A mãe de Sua Senhoria, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Graças à TV e à leitura labial, sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo

Muitos são mais velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas

Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado. Hoje, com a TV e a leitura labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário: "idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.

Poesia | Evocação do Recife, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola = Eu canto samba

 

domingo, 12 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Notícias inquietantes para Lula no Datafolha

Por Folha de S. Paulo

Avaliação positiva do governo não supera a negativa nem mesmo entre eleitores mais pobres

Na simulação de segundo turno, há empate com Flávio Bolsonaro, que surge numericamente à frente pela primeira vez

A nova pesquisa do Datafolha traz notícias inquietantes para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a apenas seis meses da disputa presidencial.

Entre os brasileiros aptos a votar, a avaliação do governo petista tem viés de baixa. Ademais, nas simulações de segundo turno, o incumbente aparece empatado com os principais adversários à direita, e Flávio Bolsonaro (PL) se encontra pela primeira vez numericamente à frente.

A “economia do afeto” já não é suficiente para a reeleição de Lula, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governo entra na corrida eleitoral com emprego elevado e programas sociais de grande alcance, mas isso não se traduz em percepção de bem-estar

O cessar fogo no estreito de Ormuz e as negociações entre Estados Unidos e Irã, que ainda não chegaram a um acordo, produziram um alívio no mercado internacional de energia, com reflexos diretos no Brasil. A queda do barril do tipo Brent — que havia ultrapassado US$ 118 no auge da crise — para a casa dos US$ 94 abriu espaço para uma redução, ainda que modesta, no preço dos combustíveis. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o diesel recuou 0,2%, para R$ 7,43, interrompendo uma trajetória de alta que pressionava fortemente a inflação. Trata-se de uma boa notícia para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque o diesel é o principal vetor de transmissão de custos na economia, com impacto no transporte, nos alimentos e nos serviços.

CadÚnico completa 25 anos como eixo da transformação social no Brasil, por Wellington Dias e Rafael Osorio*

Correio Braziliense

Sem informação sobre os mais vulneráveis, o Estado atua no escuro. Com essa informação, é possível direcionar políticas para os públicos mais vulneráveis e as regiões com maior desigualdade

O Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, ou CadÚnico, completa 25 anos em 2026. Desde a sua criação, tornou-se a principal base de identificação da população de baixa renda no país. Hoje, 42,2 milhões de famílias — cerca de 96 milhões de brasileiras e brasileiros — estão nele registradas. Isso representa quase metade da população brasileira, um retrato fiel da diversidade e das desigualdades do nosso país. 

Criado em 2001 como um formulário para beneficiários de todos os programas federais de transferência de renda, o Cadastro Único ganhou escala a partir de 2003, com a criação do Programa Bolsa Família. Até então, cada programa mantinha o próprio registro de beneficiários. A unificação reduziu sobreposições e inconsistências, como resultado atualmente temos uma base de dados robusta e atualizada periodicamente.

Uma nação perigosa? Por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Os pesos e contrapesos da democracia norte-americana hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize

Faltam quase 200 semanas: é assustador Estadão, 13/4/25, A4), foi o título de artigo que publiquei neste espaço, há exatamente um ano, a propósito das primeiras 12 semanas do governo Trump. Já era possível então antever um futuro incerto e perigoso, para os EUA e para o mundo. O panorama é agora ainda mais assustador.

Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norteamericano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.

Miséria de ideias marca início da disputa eleitoral, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Nenhum candidato tentou, ainda, abrir um debate proveitoso sobre qualquer assunto relevante para a vida econômica e para a gestão pública do País

Bocejo vai ser a marca da campanha eleitoral, neste ano, se nenhum desastre, escândalo ou alguma grande surpresa mudar o cenário. Por enquanto, nada ou quase nada aparece, no horizonte político, além do conflito grupal entre bolsonarismo e lulismo ou, numa perspectiva mais ampla, entre direita, esquerda e algum liberalismo conservador ou reformista. Num ambiente menos morno e paradão, as aventuras do senhor Vorcaro seriam noticiadas, quase certamente, com menor destaque. O Brasil já teve escândalos financeiros mais notáveis e com envolvimento de instituições mais poderosas. Apesar de mais interessantes, é melhor evitar sua repetição.

Artemis e o Planeta Trump, Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A Artemis II distrai EUA e mundo, mas não esconde o “admirável mundo novo de Trump”

A Missão Artemis II é um sucesso histórico que vem a calhar para Donald Trump distrair os Estados Unidos e o mundo por algum tempo, mas não anula as suas ações nocivas contra a economia, as regras, a estabilidade e a segurança do planeta onde vivemos e traz aquela dúvida cruel: o que aconteceu com o sistema de pesos e contrapesos da democracia americana?

Quando Trump ameaça o Irã dizendo que “toda uma civilização vai morrer, para nunca mais voltar”, tem alguma coisa de errado aí, muito errado, um cheiro de Hitler no ar, um sinal amarelo (ou vermelho?) para a humanidade. Afora a perplexidade de parte da população civil e da mídia, nada acontece. O sistema de Justiça, as Forças Armadas e o Congresso dão de ombros, como se fosse normal, uma frase “desajeitada” a mais.

O que pode dar errado em Islamabad? Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Superestimarem seus respectivos ganhos na guerra e Trump não conseguir controlar Netanyahu

As negociações entre EUA e Irã têm a melhor composição possível. O que pode dar errado? As partes superestimarem seus respectivos ganhos táticos, militares, políticos e estratégicos na guerra de 40 dias; ou Donald Trump não conseguir controlar Binyamin Netanyahu.

A escolha do vice J.D. Vance prova o desejo de Trump de alcançar um acordo. Além do mandato que a eleição lhe confere, o vice foi quem mais vocalizou oposição à guerra, no processo de decisão.

Todos contra um, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sem rivais no campo progressista, presidente tende a ficar isolado em debates e 2º turno

Rumo à sétima campanha presidencial, Lula deixou escapar uma preocupação com os debates de TV. “Eu não sei quantos candidatos vai ter do lado de lá”, comentou, na quarta-feira. O petista disse que preferia participar de encontros “sem tanta regra”. “Quem sabe não precisa ser todo mundo junto, quem sabe faz uma mistureba?”, sugeriu, em entrevista ao ICL Notícias.

Pela lei eleitoral, outros três pré-candidatos têm lugar garantido nos debates: Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). Eles são filiados a partidos que elegeram ao menos cinco congressistas em 2022. As emissoras também podem convidar representantes de legendas nanicas que pontuarem bem nas pesquisas. Em tese, poderá ser o caso de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).

Com quem será? Por Merval Pereira

O Globo

No STF existe uma disputa antes velada, agora quase escancarada, para saber que grupo controlará a maioria do plenário ou, pelo menos, da Primeira Turma, hoje composta pelos ministros Flavio Dino, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Carmem Lucia e Luis Fux.

Em meio a toda crise institucional que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive, existe uma disputa antes velada, agora quase escancarada, para saber que grupo controlará a maioria do plenário ou, pelo menos, da Primeira Turma, hoje composta pelos ministros Flavio Dino, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Carmem Lucia e Luis Fux. O provável futuro ministro da Casa, Jorge Messias, vai compor esse grupo, pois Fux pediu para sair por divergências com a maioria dele. O indicado pelo presidente Lula está tendo ajuda até mesmo dos ministros indicados por Bolsonaro, como André Mendonça e Nunes Marques, mas conta também com ministros mais ligados a Lula, como Gilmar Mendes.

Vorcaro é um fenômeno antropológico, por Elio Gaspari

O Globo

Entre propinas, festas, milicianos, consultorias e honorários, em três anos, o banqueiro aspergiu, numa conta de padaria, mais de R$ 1 bilhão

Entre propinas, festas, milicianos, consultorias e honorários, em três anos, Daniel Vorcaro aspergiu, numa conta de padaria, mais de R$ 1 bilhão. Contratou serviços de um ex-presidente (Michel Temer, com R$ 10 milhões), dois ex-ministros (Ricardo Lewandowski, do STF, com pelo menos R$ 6,1 milhões e Guido Mantega , da Fazenda, com R$ 14 milhões.) Nessa constelação de notáveis brilha o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes (R$ 80 milhões). Em quatro anos o Master gastou mais de R$ 500 milhões com advogados de 91 bancas.

A milícia privada de Vorcaro custou-lhe R$ 68,66 milhões em 2023. Nas asas de suas empresas voaram pelo menos três ministros do Supremo: Alexandre de Moraes, marido da doutora Viviane, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Este, como relator do caso Master, quis impor sigilo ao processo e tentou blindar a investigação.

Banco Central pede socorro, por Míriam Leitão

O Globo

O sistema financeiro ficou maior e mais complexo, o BC precisa contratar mais, valorizar o servidor, criar um ambiente próprio de IA

A proposta de ampliar a autonomia do Banco Central tem ficado prisioneira dos conflitos. Dias atrás, quase foi tirada de pauta após o PT não gostar da resposta do presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre o seu antecessor. Ele não acusou Roberto Campos Neto no caso Master. Contornada a crise, decidiu-se que o relatório será votado esta semana na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Esse projeto deve ser avaliado pelos seus méritos e em busca de maior eficiência da autoridade monetária. O número de instituições financeiras aumentou muito nos últimos anos, as fraudes estão mais sofisticadas e complexas, o ambiente digital ampliou a exposição a riscos de ataques cibernéticos. O país precisa de mais Banco Central e não menos. A instituição está definhando com a perda gradativa de pessoal.

Haddad foi um bom ministro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Mesmo assim, boa parte da esquerda o chama de neoliberal

Já mercado lamenta que Haddad não tenha feito um ajuste fiscal mais duro

Fernando Haddad fez a reforma tributária que 9 entre 10 economistas achavam necessária para destravar o capitalismo brasileiro. Cobrou imposto dos ricos como nenhum governo de esquerda havia cobrado. Conseguiu entregar desemprego e inflação baixos, crescimento médio maior do que o dos últimos anos e foi o único político brasileiro, pelo que se sabe até agora, que se recusou a conversar com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Fernando Haddad foi, portanto, um bom ministro.

Mesmo assim, boa parte da esquerda o chama de neoliberal, e o mercado lamenta que Haddad não tenha feito um ajuste fiscal mais duro.

Anti-Lula assombra Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Caiado e Zema, na casa dos 5% no primeiro turno, empatam com o presidente na disputa final

Avaliação do governo não é positiva nem entre o eleitorado de menor renda, indica Datafolha

O anti-Lula deve ter 42% dos votos, sugerem dados do DatafolhaRonaldo Caiado (PSD-GO), com 5% dos votos no primeiro turno, e Romeu Zema (Novo-MG), com 4%, iriam a 42% das preferências do eleitorado caso disputassem o segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva. Nessas hipóteses, o presidente ficaria com 45%.

Não dá para cravar que qualquer adversário de Lula consiga dar tamanho salto de votação entre os dois turnos —o Datafolha compôs cenários apenas com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Caiado e Zema. É temerário dizer que Cabo Daciolo (Mobiliza), com 1%, possa se tornar alternativa. Daciolo, do bordão "Glória a Deux", foi candidato a presidente em 2018 e chegou em sexto lugar, vencendo Henrique Meirelles, Marina Silva e Guilherme Boulos.

Dois caminhos para a prosperidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro investiga as causas profundas da divergência Ocidente-Oriente

Organizações baseadas em regras universais deram vantagem à Europa

"Two Paths to Prosperity", de Avner Greif, Joel Mokyr e Guido Tabellini, é uma obra de fôlego, daquelas que encantam os que gostam de entender as causas profundas de fenômenos históricos. O trio de autores se propõe a explicar nada menos do que a Grande Divergência, o processo pelo qual o Ocidente (Europa e EUA) consegue a partir do século 19 superar o Oriente (principalmente a China) em termos de riqueza e desenvolvimento científico.

Pacote pode virar arma eleitoral, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Medidas não deveriam se transformar em arma eleitoral para estimular o consumo a todo custo

Governo turbinou crédito para acelerar PIB; agora, o endividamento dá as caras de forma mais preocupante

No centro da discussão sobre as medidas de combate ao endividamento está o embate crescente no governo Lula neste ano eleitoral sobre o atual patamar da taxa Selic mantido pelo Banco Central –hoje em 14,75%.

O governo considera que o programa Desenrola de renegociação de dívidas –a primeira medida anunciada pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ainda na época da transição– deu certo, mas foi prejudicado pelos juros em nível alto por um tempo prolongado.

Rio de lama e seus afluentes, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Palavra-chave no dia a dia da cidade é caos urbano

Massas eleitorais cariocas são regidas pela lógica do pior

Logo no início da peça "Júlio César", de Shakespeare, um vidente adverte o imperador: "Cuidado com os idos de março", 15 de março no calendário romano. Sem dar atenção à profecia, César é assassinado nesse mesmo dia. Mas não foi preciso áugure nenhum para se prever que março seria um mês ominoso no Rio de Janeiro, tendo em vista os prazos eleitorais de desincompatibilização para a alternância dos titulares no poder. Uma semana depois dos idos, o Rio ficou ao mesmo tempo sem governador, prefeito, chefe de polícia e secretariado. É a cidade do "perdeu!", uma metrópole à matroca.

Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana, por Roberto Amaral*

Aos analistas da crise internacional, a boa prudência aconselha parcimônia na projeção de seus desdobramentos, mesmo no curtíssimo prazo. A promessa de paz, ainda que a tempo medido, um pequeno armistício, uma curta suspensão das hostilidades por breves duas semanas para ensejar um mínimo de diálogo, consumou-se em poucas horas como se tudo não passasse de uma trampa. E não poderia ser diferente, pois um dos principais agentes da guerra e do cessar-fogo, o mais belicoso e o mais poderoso — os Estados Unidos da América do Norte — são um negociador de má-fé, e Israel, seu principal associado nesta guerra suja, é comandado por um criminoso de guerra com mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional, o que ameaça fazer da negociação a ser retomada uma não-negociação, um ilusionismo para acalmar o mercado global em crise e dar fôlego ao complexo industrial dos EUA, metido numa guerra muito mais custosa do que calculara a princípio (se é que houve cálculo), e as forças da ocupação israelense, que um alto comandante chegou a anunciar que estavam próximas da exaustão.

Poesia | Embriaguem-se, de Charles Baudelaire

 

Música | Paulinho da Viola e Lobão - Sinal Fechado (Paulinho da Viola)

 

sábado, 11 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Messias deve ser submetido a arguição rigorosa

Por O Globo

Alcolumbre fez bem em marcar logo sabatina. Senadores devem manter foco no lado técnico, não no político

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não demorou a enviar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria do ex-ministro Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado. A decisão desfez os rumores de que, em meio às rusgas com o Palácio do Planalto, os senadores pudessem empurrar a sabatina para depois das eleições. Seria péssimo para o país, uma vez que o Supremo está com um ministro a menos. A sabatina foi marcada para 29 de abril.

A coreografia do genocídio, por José Eduardo Agualusa

O Globo

O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista

Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”

Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.

Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”

Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.

Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.

Sentido da primavera, 2026, por Eduardo Affonso

O Globo

Há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas

É 1944. Vinícius de Moraes acorda com uma sensação indizível e bebe do copo vazio uma substância violeta, com peso específico de sonho. Era o ar da primavera.

Sente o cheiro da filha — “mistura de talco, suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono”. Depois, o da Praia do Leblon, que não cheirava a rosas: era o esgoto onde se banhavam igualmente a criançada rica e a da Praia do Pinto.

Percebe, também, súbito, um cheiro de nazismo. Branco, inodoro, com laivos de salsicha, chope, cachorro policial, radiotelegrafia e cemitério. Que talvez viesse de algum bar ou café, “desses onde se reúnem nazistas conhecidos e desconhecidos”. Chegam, a seguir, outros cheiros: de amor, solidão, mar, mosca que voeja, madeira, sol, gato. Mas fiquemos neste, o do nazismo.

Morreu de São Paulo, Brasil, por Flávia Oliveira

O Globo

Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos

Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.