domingo, 18 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas*

"Será interessante observar como a tomada de poder por Trump afetará a política interna de Taiwan. Mas, além desse ponto crítico, não são apenas a China e seus aliados regionais de um lado, e os EUA e os países da região com inclinação ocidental —sobretudo Japão, Coreia do Sul e Austrália — que se enfrentam.

A Índia também está em estreita proximidade, buscando agora suas próprias aspirações de se tornar uma potência mundial. A mudança nas relações de poder geopolítico se reflete não apenas na região do Pacífico, mas também na ascensão de potências médias como Brasil, África do Sul e Arábia Saudita, que buscam, com autoconfiança, maior independência. Muitos desses países em ascensão estão buscando admissão na associação mais ampla e flexível dos BRICS. O fim da hegemonia ocidental também é indicado pelas profundas transformações geoeconômicas da ordem econômica mundial liberal que os EUA criaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não que essa ordem comercial mundial baseada em regras — agora também pressionada pelo próprio Trump — possa ser simplesmente liquidada, como se vê hoje na interessante disputa sobre o fornecimento de “terras raras”; mas dificilmente algo ilustraria melhor as restrições de política de segurança, agora rotineiras, ao comércio mundial do que a recente decisão do governo alemão — que se orgulha de ser o campeão mundial das exportações — de sustentar com fundos estatais a indústria siderúrgica alemã, que já não é competitiva internacionalmente.

Embora essas mudanças nas relações de poder geopolítico já fossem evidentes há algum tempo, e embora a reeleição de Trump não pudesse ser descartada quando a guerra na Ucrânia começou, os governos ocidentais não conseguiram compreender, após a invasão russa, que esse conflito — uma vez que seu início não pudesse ser evitado — precisava ser concluído durante o mandato de Joe Biden.

Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países."

*Jürgen Habermas (1929),é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025: Será que a UE ainda consegue escapar da influência autoritária dos EUA?

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Disputa entre China e EUA exige nova estratégia do Brasil

Por O Globo

Doutrina Trump desafia Itamaraty a renegociar termos que tragam benefícios ao país

A nova doutrina geopolítica de Donald Trump impõe desafio não trivial à diplomacia brasileira. A captura do ex-ditador Nicolás Maduro pelos americanos e a intenção declarada de Trump de assumir o controle do petróleo venezuelano deixaram claro para a América Latina que a reedição da Doutrina Monroe com seu Corolário Trump não é bravata.

Enquanto os Estados Unidos mantinham distância do continente, a China aproveitou para fincar raízes. Passou a financiar projetos de infraestrutura, a erguer fábricas e a firmar parcerias em setores estratégicos, como energia, mineração ou agronegócio. Agora, o Itamaraty será testado na defesa dos laços brasileiros com a China, maior parceiro comercial brasileiro, mas também na negociação de termos vantajosos na maior aproximação com Washington.

Conversas vãs. Por Merval Pereira

O Globo

Bem que o Ministro dizia que estamos numa cleptocracia.

Mas ele disse isso quando apoiava a Lava-Jato.

Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo envolvido nos Três Poderes.

No Legislativo também?

Você não viu aquele deputado que apresentou um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão de reais? Do nada.

Já era para prevenir. Sabia o que ia acontecer.

Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?

O inusitado Dias Toffoli. Por Míriam Leitão

O Globo

A maneira com que Dias Toffoli tem conduzido o caso Master mostra que ele não tem condições de continuar à frente do processo

O ministro Dias Toffoli não se cansa de tomar decisões inusitadas. Elas se tornaram diárias. Na última semana, o país viu estarrecido o ministro perseguir a Polícia Federal, depois de ter tentado intimidar o Banco Central. Ele escolheu os peritos que vão trabalhar no material recolhido na segunda fase da Compliance Zero. Deu à PF dois dias para ouvir 11 envolvidos e dentro do Supremo Tribunal Federal. É bizarro e desrespeitoso. Quem tem que escolher peritos, fazer as oitivas no prazo mais eficiente para a investigação é a Polícia Federal e, por óbvio, nas instalações da polícia que as pessoas têm que ser ouvidas.

Vergonha alheia. Por Dorrit Harazim

O Globo

María Corina Machado jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.

Êxitos e fracassos EUA no mundo. Por Elio Gaspari

O Globo

Lista reúne desde a invasão no Iraque, como destaque negativo, até o Plano Marshall, como positivo

As dez piores decisões

1) Iraque, 2003

A invasão do Iraque foi considerada a pior decisão da política externa dos Estados Unidos. Deu tudo errado.

2) Vietnã, 1965

No dia 8 de março, 3.500 fuzileiros navais americanos desembarcaram em Da Nang, no Vietnã do Sul.

3) 1838, EUA x Cherokees

O presidente Andrew Jackson conseguiu aprovar a lei que permitia a remoção dos nativos de suas terras. O Exército levou 100 mil Cherokees para as terras a Oeste do Rio Mississippi.

Morte de Manoel Fiel Filho escancarou a tortura nos quartéis do regime militar. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia em São Paulo desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de ônibus antes de se tornar operário metalúrgico

Há exatamente 50 anos, num sábado, às 22 horas, um Dodge Dart parou em frente à casa do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. Ato contínuo, diante de sua mulher, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um desconhecido disse secamente: “O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas”. Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com o macacão do operário morto. “Vocês o mataram! Vocês o mataram!”, gritou desesperada a esposa do operário metalúrgico morto em 17 de janeiro de 1976.

Entrevista | Guilherme Boulos: ‘Esquerda precisa dialogar com nova classe trabalhadora’

Guilherme Caetano e Vera Rosa / O Estado de S. Paulo

Ministro da Secretaria-Geral faz autocrítica, mas concentra artilharia em Flávio e Tarcísio Ministro da SecretariaGeral, é deputado federal pelo PSOL e está licenciado. Foi líder dos sem-teto e disputou a Prefeitura duas vezes

“O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na pratica, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será candidato.”

Há três meses no cargo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, levou um tom mais político para o núcleo do governo. Na lista de suas missões neste ano eleitoral de 2026 está a de dar uma “chacoalhada” na base social da esquerda perdida para a direita e atrair trabalhadores que têm flertado com o bolsonarismo, como aqueles das plataformas de aplicativos.

“A esquerda precisa aprender a dialogar com a nova classe trabalhadora”, disse Boulos em entrevista ao Estadão, fazendo uma autocrítica global. “No mundo, a esquerda está lidando com esse mesmo dilema. E nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu entre a esquerda e o povo evangélico”.

Ex-líder dos sem-teto, o novo ministro virou um dos principais nomes do Palácio do Planalto para enfrentar a artilharia bolsonarista. O estilo combativo aparece até mesmo na parede de seu gabinete, onde há um brasão com a frase Madeira que Cupim não Rói, uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna.

Nesta temporada, os dois principais alvos de Boulos são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na sua avaliação, ainda não está certo qual deles será o desafiante de Lula.

Master: pimenta para todo lado. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Toffoli resvala para o perigoso terreno da obstrução de Justiça, usando a própria Justiça

O ministro Dias Toffoli, relator do Caso Master, resvala para um perigoso terreno usado por investigados: obstrução de justiça. No seu caso, usando a própria Justiça e a sua posição excepcional dentro dela. Sem consenso, o STF não sabe como reagir e não se ouve uma palavra do seu presidente, Edson Fachin, que está acuado.

O impedimento de Toffoli no caso Master é óbvio e cristalino, após revelações sobre sua amizade e o voo com advogado do grupo, e agora as relações financeiras de seus irmãos com o braço operador e cunhado de Daniel Vorcaro, pastor Fabiano Zettel.

O mundo às avessas. Por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Os Estados vêm manifestando sua inconformidade com a derrogação do Direito Internacional por meios diplomáticos

A mensagem mais explícita que vem sendo comunicada na atual dinâmica da vida internacional é a da desconsideração do Direito Internacional e, neste âmbito, de suas normas mais relevantes voltadas para balizar o quadro de referências no qual normalmente opera a densidade da convivência interestatal no espaço da interdependência do mundo contemporâneo.

Essas normas, elaboradas pelos Estados no pós-2.ª Guerra Mundial, foram consagradas na Carta da ONU. Preconizam condições de coexistência entre os Estados. Entre elas: o não recorrer à ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado; a obrigação da não intervenção em assuntos de jurisdição interna dos Estados; e o respeito à igualdade soberana dos Estados.

Os limites de uma ação no Irã. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Assim como fez na Venezuela, Trump também precisa ajustar seus objetivos no Irã

Donald Trump e sua equipe exibiram criatividade e habilidade na Venezuela, considerando seus anunciados objetivos econômicos. No Irã, sejam quais forem os objetivos, é difícil vislumbrar como poderão ter êxito. Antes de capturar Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump colocara ênfase no combate ao narcotráfico, para justificar a campanha contra o regime bolivariano. Depois da captura, a ênfase se deslocou para o ganho econômico decorrente do controle do petróleo venezuelano.

Tarcísio ameaça decolagem de Flávio, um avião já bem vagabundo. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se o governador anda conspirando com Michelle, não é para ser candidato em São Paulo

Ele só se destacou porque, para os bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo

última pesquisa Quaest mostrou que a candidatura de Flávio Bolsonaro vem se tornando um fato consumado dentro do eleitorado de direita. Seus números ainda são piores que os de Tarcísio, mas melhoraram. O número de eleitores que acha que Jair errou em indicá-lo ainda é alto, mas caiu.

Ainda é pouco para ganhar de Lula, mas Flávio tem esperança de que a tendência de crescimento continue. É uma aposta arriscada.

Em primeiro lugar, porque Tarcísio continua candidato.

Na semana passada, a primeira-dama de São Paulo postou uma mensagem dizendo que o Brasil (e não São Paulo) precisa de "um novo CEO, meu marido". Michelle Bolsonaro "curtiu" a mensagem. Bolsonaristas suspeitam que Tarcísio mandou a primeira-dama postar e combinou com Michelle a demonstração de apoio.

Toffoli, acordões, centrões e o novo sistema de corrupção institucional do Brasil. Por Vinicius Torres Freire

Por Folha de S. Paulo

Quem é o juiz final quando está todo mundo no rolo, da roubança à exorbitância de poder?

Queda de Dilma e ascensão de Bolsonaro levaram corruptos sistemáticos ao centro do poder

Quem ainda se preocupa com a República está a se perguntar o que fazer, por exemplo, de Dias Toffoli. Esse ministro do STF toma decisões que encrencam a investigação do Master e da roubança do INSS; tenta meter medo em instituições que procuram esclarecer mutretas, como o Banco Central e a Polícia Federal.

As decisões de Toffoli chegam à fronteira nebulosa do que seria legal. Esticar a lei até esse limite de névoa de guerra tem sido a maneira mundial de avacalhar instituições republicanas, seja jogando duro a fim de usar as normas contra desafetos ou amolecendo a divisão de poderes a fim de se aboletar indevidamente em outras cadeiras do sistema de governo.

Que gente é mesmo essa? Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo  

O preconceito que transparece na fala do prefeito do Rio atende uma população em ascensão eleitoral: os pentecostais

Irritado com os questionamentos sobre favorecimento a palcos evangélicos no réveillon, saiu-se com 'que gente preconceituosa é essa?'

Diz um aforismo afro que "se as palavras lhe queimam a boca, a cura é o silêncio". Aplica-se bem à intemperança verbal do prefeito do Rio de Janeiro, reincidente em ditos trêfegos. No mais recente, irritado com os questionamentos sobre seu favorecimento a palcos evangélicos no réveillon da praia de Copacabana, saiu-se com "que gente preconceituosa é essa?"

Referia-se precisamente à "gente" da qual provém a criação da festa de praia na virada do ano, uma transposição da homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro para o réveillon do Rio. Entretanto, aspirante a governador, com a mesma inconsistência com que escorrega de Bolsonaro Lula, já prometeu estátua para o Tata Tancredo, líder umbandista, promotor da festa nos anos 1950.

Michelle muda o rumo da prosa com o Supremo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Confronto com a Justiça é contraproducente na busca pelo benefício da prisão domiciliar para Bolsonaro

O caminho do assédio agressivo foi substituído pela tentativa de vencer pela via do diálogo e do convencimento

Michelle Bolsonaro (PL) parece convencida de que não adianta confrontar o Supremo Tribunal Federal (STF). Para tentar dar ao marido uma chance de obter a prisão domiciliar, ela optou nos últimos dias por substituir o assédio agressivo pela via do diálogo e do convencimento.

Se a estratégia convencerá o ministro Alexandre de Moraes de que "seu Jair" merece o benefício e, em casa, não voltará a desafiar a Justiça, são outros quinhentos. O importante aqui é apontar a inflexão na abordagem da mulher do ex-presidente.

As tripas das palavras. Por Ruy Castro

Por Folha de S. Paulo

Azul, girafa, haxixe, safári, salamaleque, sucata e xerife vieram do árabe, sabia?

E mulato não vem de mula, mas do árabe muladi, o nascituro de um casamento interétnico

Já contei aqui que Tom Jobim não gostava de falar sobre música. Ela só existia em sua cabeça e se destinava ao piano, não a papos de botequim. O que o fascinava nas rodas de amigos era conversar sobre a língua portuguesa discutir a origem das palavras, o uso que fazíamos delas, do que consistiam suas tripas. Em certa época, um de seus assuntos favoritos eram as palavras de origem árabe. E, à menor solicitação, desfiava-as: "Alarido, alambique, alaúde, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, álcool, alface, alcateia...", não em ordem alfabética, como escrevi, mas à medida que lhe ocorriam.

Poesia | O albatroz, de Charles Baudelaire

 

Música | Dolores Duran - Castigo

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Karl Marx* - Democracia

“Dignidade pessoal do homem, a liberdade, seria necessário primeiramente despertá-la no peito desses homens. Somente esse sentimento que, com os gregos, desaparece desse mundo, e que, com o cristianismo, se evapora no azul do céu pode de novo fazer da sociedade uma comunidade dos homens, para atingir seus fins mais elevados: um Estado democrático.”

*Karl Marx (1818-1883), Euvres, III, Philosophie, p. 383, citado em “A democracia contra o Estado”, p.54. Editora UFMG, 1998.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Transferência de Bolsonaro foi uma concessão sensata

Por O Globo

É justificável oferecer-lhe condições melhores na cadeia, sobretudo levando em conta seu estado de saúde

Foi sensata a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal (PF) para a instalação do quartel da Polícia Militar do Distrito Federal conhecida como Papudinha, onde ficará em condições melhores. A mudança foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Advogados e a família defendiam prisão domiciliar, alegando problemas de saúde e más condições da prisão. Mas na PF ele já recebia tratamento digno e tinha acompanhamento médico em tempo integral, como acentuou Moraes em sua decisão. A transferência foi uma concessão a Bolsonaro. Voltar à prisão domiciliar não se justificaria, pois ele tentou romper a tornozeleira quando estava detido em casa.

Lula sai na frente do acordo entre Mercosul e EU

Por Victor Correia, Francisco Artur de Lima e Fabio Grecchi / Correio Braziliense

Presidente se reúne com Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, e antecipa assinatura do pacto entre blocos

Apesar de o acordo de livre comércio entre Mercosul e a União Europeia ser oficialmente assinado hoje, em Assunção, Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antecipou-se à celebração e assumiu o protagonismo ao receber, ontem, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, para uma reunião no Rio de Janeiro. O encontro entre eles, no Palácio do Itamaraty, foi interpretado como uma forma de destacar a preponderância do Brasil nas negociações. Exceto no governo de Jair Bolsonaro, em 25 anos de negociações, os maiores esforços para que o acerto entre os dois blocos saísse foram nas presidências de Lula e de Dilma Rousseff.

O encontro com a presidente da CE embute, também, uma insatisfação. O Paraguai, que agora preside o Mercosul, havia convocado para a celebração da assinatura apenas os ministros de Relações Exteriores dos países do bloco, mas mudou os planos na última hora para incluir os presidentes, o que desagradou Lula — que decidiu não comparecer ao evento de hoje. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, mas os demais chefes de Estado estarão no evento: Santiago Peña (Paraguai), Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia) confirmaram participação.

O fim da inocência. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

A espetacular ascensão de Donald Trump à condição de dono do mundo modifica o entendimento de muitos observadores e coloca alguns especialistas na embaraçosa condição de aprendizes diante de tanta novidade. O presidente dos Estados Unidos não hesita em utilizar a força para sequestrar um presidente da República, anunciar a incorporação da Groenlândia, como Hitler fez com a Áustria nos anos 1930, além de ameaçar bombardear aliados que não façam comércio com seu país. Prática curiosa, semelhante a que os portugueses utilizaram contra cidades da Índia no século das grandes navegações.

A política externa do império: projeção e produto de sua história. Por Roberto Amaral *

Nada do que estamos assistindo é estranho à história da formação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, que é a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos primeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie sem descanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda, pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos, aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.

Quando a polarização vence o cálculo. Por Juliana Diniz

 O Povo (CE)

Todos os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro têm suas fragilidades, são políticos com debilidades que podem ser trabalhadas por um bom marketing e Flávio, o nome em evidência, não parece ser exceção à regra

Acreditamos que a política partidária é movida por interesses estratégicos e racionalidade, mas a realidade mostra que, não raro, é no campo do blefe, do arremedo e da sorte que decisões importantes são resolvidas. Há apostas que parecem estapafúrdias e que, no entanto, por fatores previsíveis e por outros imprevisíveis, acabam se consolidando com opção. Eu incluiria a candidatura possível de Flávio Bolsonaro nesse horizonte.

Urgência sob o sol. Flávia Oliveira

O Globo

A preocupação com moradores em situação de rua é imensa, bem como com trabalhadores de ofício ao ar livre

Enquanto Brasília, a partir do Legislativo, do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal de Contas da União (TCU), dá sinais claros do desejo de manter na sombra o escândalo do Banco Master — que o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que pode ser “a maior fraude bancária da História” —, parte do país derrete sob o sol. As ondas de calor extremo no verão que nem completou um mês já causam impacto no sistema de saúde, no abastecimento de água e energia elétrica, no mercado de trabalho, na educação e no meio ambiente. Brasil afora, Rio de Janeiro em particular, são perceptíveis os efeitos das mudanças climáticas: vendavais no Sul, chuvarada em São Paulo, calor inclemente na metrópole carioca.

O mal que a Ideologia faz. Thaís Oyama

O Globo

Não dá para falar de esporte sem falar em desempenho físico, e é por isso que o sexo biológico importa na discussão

Em 2021, na Olimpíada de Tóquio, a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard acabou sem medalhas, mas recebeu honras de estrela por ser a primeira mulher trans a participar do torneio. Na entrevista coletiva com as levantadoras de peso que subiram ao pódio — a chinesa Li Wenwen, medalha de ouro; a britânica Emily Campbell, prata; e a americana Sarah Robles, bronze —, um repórter americano pediu-lhes para dizer como se sentiam naquela “noite histórica” em que uma atleta trans estreava numa Olimpíada, e na modalidade delas. Nenhuma das três abriu a boca. Nove segundos de silêncio depois, Sarah tomou um gole de água, pegou o microfone e disse “Não, obrigada”. A frase viralizou nas redes sociais como um meme aplicável a situações em que se dá uma resposta polida para evitar o preço de proferir uma sincera.

O agente secreto. Por Eduardo Affonso

O Globo

Não é possível um governo que condenou com veemência o ataque a instalações nucleares apenas “acompanhar com preocupação” a chacina de milhares

Não é segredo que, contrariando o que declarou na campanha de 2022, Lula se candidatará a um quarto mandato. Secretas tampouco devem ser suas novas promessas — certamente as mesmas descumpridas desde que subiu a rampa, escoltado por um indígena, uma catadora, um afrodescendente, um portador de deficiência, uma cozinheira, um metalúrgico, um professor, um artesão e uma cachorra sem raça ou ideologia definidas.

Purgatório ou inferno: é pegar ou largar. Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A democracia que conhecemos, por pior que seja em dezenas de países, não é uma reles caixinha de papelão

Com um tresloucado na Casa Branca e as duas outras principais potências tendo chefes de Estado com robustas credenciais totalitárias, não estranha que praticamente todo dia intelectuais e jornalistas anunciem o fim do regime democrático representativo.

Qualquer dos três – Trump, Putin e Xi Jinping – dispõe de mísseis nucleares suficientes para espatifar o planeta e deixar 1 trilhão de caquinhos voando eternamente pelo universo. Com um milésimo do que qualquer deles dispõe, a bomba lançada sobre Hiroshima em 1945 pulverizou, fez desaparecer instantaneamente, cerca de 50 mil pessoas, o mesmo fez a outra, lançada sobre Nagasaki. Havia uma terceira cidade nos planos, mas a bomba reservada para ela não foi lançada devido ao mau tempo. Reparem que empreguei o verbo “lançar”. Foi literalmente isso o que aconteceu: lançadas em caixas (suponho que de ferro) pelas janelas dos aviões.

Toffoli age como novo delegado no STF. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Ministro atropela autonomia da Polícia Federal na investigação, determina até tempo para depoimentos e quem fará perícias em aparelhos apreendidos

A pressa é inimiga da perfeição. O ditado popular se encaixa nas decisões que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), está tomando à frente da relatoria do caso Master. Nesta sexta-feira, 16, a novidade foi ele limitar o tempo que os investigadores terão para tomar todos os depoimentos. Apenas dois dias consecutivos.

O cordão de isolamento do escândalo Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Operação abafa não interessa ao Brasil

Abafadores podem largar a mão de Vorcaro com cordão de isolamento da crise

É preciso um desfecho contundente ao escândalo do Banco Master. Se está em curso uma operação para abafar o escândalo do banco e blindar autoridades e políticos influentes em Brasília (como parece ser), ela não interessa ao Brasil.

As especulações de agentes do mercado financeiro, antes da venda da insituição financeira ao Banco de Brasília, de que havia algo de muito errado no crescimento do Master e na sua atuação agressiva na venda de CDBs e de carteiras de consignado vão se confirmando.

Será que ele é? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Tarcísio diz que sai para governador, mas mantém uma pontinha de ambiguidade em relação a pleito presidencial

Se Lula vencer, talvez precise agradecer a Trump, pela queda do dólar, e a Jair, por indicar Flávio para sucedê-lo

O governador Tarcísio de Freitas afirma e reafirma que é candidato à reeleição em São Paulo, mas mantém deliberada ambiguidade em relação ao pleito presidencial. É secundado nessa tarefa pela própria esposa e por Michelle Bolsonaro. Não dá para dizer que o cálculo de Tarcísio esteja errado.

Memória da ditadura está viva no Rio, apesar do negacionismo. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tombado, prédio do antigo Dops abrigou tortura e execução de presos

Lei prevê instalação de placas com a identificação de locais ligados aos crimes da repressão

O tombamento do antigo Palácio da Polícia, com a provável criação no local de um centro de debates sobre repressão política e tortura nos anos da ditadura Vargas e sobretudo durante o regime militar, encerra uma disputa de mais de 20 anos. De um lado, a memória que precisa ser lembrada para defender o presente e o futuro da democracia; de outro, o negacionismo e até mesmo, em tempos recentes, a apologia de torturadores.

A democracia de direita. Por Cristovam Buarque

Veja

A esquerda preferiu culpar os eleitores a indagar: por que falhamos?

Há cinquenta anos, a direita chilena precisou de um golpe militar para derrotar a esquerda no poder. No mês passado, uma direita ainda mais conservadora chegou ao governo democraticamente: nem o golpe militar de 1973 nem a vitória democrática de 2025 são exceções chilenas. Por décadas, a esquerda foi eleitoralmente imbatível; agora, vem sendo derrotada em diversas partes do mundo. Em 2018, ocorreu no Brasil, por pouco não se repetiu em 2022 e pode acontecer em 2026.

Sem adjetivos, sem concessões. Por Marcus Pestana

Nunca foi tão urgente. Nunca foi tão necessário. O mundo do século XXI parece, às vezes, teatro do absurdo, realismo fantástico, um sanatório geral.

A sociedade contemporânea é extremamente fragmentada. É possível discordar sobre questões essenciais ou acessórias. A convivência pressupõe o diálogo entre os diferentes, a contraposição de pontos de vista, a abertura para convencer e ser convencido. Mas há limites em relação a princípios centrais que são verdadeiras cláusulas pétreas da existência, onde não cabem adjetivos, relativizações, concessões ou seletividade.

Golpe dissimulado. Por Pedro Serrano

CartaCapital

O PL da Dosimetria atribui ao Parlamento a função de instância revisora do Supremo, o que é inconstitucional. O presidente Lula fez bem ao vetar o projeto

Existem diversas maneiras de se perpetrar um golpe contra as instituições democráticas – das mais explícitas às mais sutis e ardilosas. Quando, em 8 de janeiro de 2023, um grupo vandalizou o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília, a ameaça à democracia no País era clara e manifesta. Por trás daquele ataque revelou-se a articulação inequívoca de uma tentativa de solapar o Estado Democrático de Direito. As punições impostas aos criminosos nos julgamentos realizados pelo STF em 2025 foram exemplares.

Narciso-Fascismo. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As semelhanças entre os projetos de Trump e do nazismo estão cada vez mais evidentes

imperial-totalitarismo de ­Donald Trump exprime um fenômeno social, apresentado por muitos na mídia como perversidade individual. Não faltam opiniões e análises que privilegiam a personalidade do presidente dos EUA e desconsideram as condições sociopolíticas e econômicas que levaram à emergência do Narciso-Fascismo.

Sigmund Freud, em Mal-Estar da Civilização (1930), desvendou as relações sujeito-objeto em todas as sociedades civilizadas: “Nosso sentimento atual do eu é apenas um resto comprimido de um sentimento de maior abrangência – sim, um sentimento abrangente a que corresponde uma ligação mais íntima do eu com o mundo à sua volta”.

Aliança indecorosa. Por Jamil Chade

CartaCapital

Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin unem-se em ofensiva contra os direitos humanos

Se nas últimas semanas a ação dos EUA contra a Venezuela e a retirada de Washington de 66 organismos internacionais foram descritas como “atos trágicos” para o multilateralismo e para um mundo ordenado pelo direito internacional, a crise pode estar apenas começando. A pressão geopolítica soma-se a desafios financeiros na própria Organização das Nações Unidas: a entidade aprovou um orçamento regular para 2026 perto de 7% menor que o de 2025, em meio a propostas para reduzir gastos em quase 15% e cortar em torno de 19% do quadro de funcionários.