sábado, 10 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Liberdade continua a ser miragem na Venezuela

Por O Globo

Repressão e cerceamento à imprensa persistem, enquanto próceres da ditadura chavista seguem no poder

São inaceitáveis a repressão e o cerceamento ao trabalho de jornalistas na Venezuela. Embora a perseguição à imprensa seja marca indelével da ditadura chavista, esperava-se comportamento diferente depois da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, durante a operação militar deflagrada há uma semana pelos Estados Unidos. O que acontece hoje na Venezuela é de interesse do mundo todo. É natural, portanto, que o país seja procurado por uma legião de correspondentes estrangeiros. Todos deveriam poder trabalhar com plena liberdade.

Desafios da nova desordem internacional. Por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Intervenções militares marcam abandono do direito entre países

Carta da ONU perde força com retorno da lei do mais forte

A Carta das Nações Unidas, de 1945, surgiu como uma reação à barbárie da Segunda Guerra, na qual mais de 80 milhões de pessoas foram mortas. Mais da metade dessas vítimas eram civis. O objetivo da comunidade internacional com a adoção da Carta e a criação da ONU foi construir uma nova ordem internacional baseada em regras, que contribuísse para a manutenção da paz e a segurança internacional.

Essa nova ordem reafirmou a centralidade dos direitos humanos, a igualdade entre nações grandes e pequenas, a autodeterminação povos e o desenvolvimento como valores. A estabilidade dessa ordem deveria ser buscada com auxílio de instituições multilaterais, que estavam sendo criadas, e pelo respeito às regras do direito internacional.

Veias abertas. Por Jamil Chade

CartaCapital

Trump foi transparente em relação à intenção de saquear os recursos naturais da América Latina

Teotihuacan é o local onde o tempo nasceu. Foi ali que os deuses se reuniram para criar o Quinto Sol. Para os astecas, a Terra havia sofrido quatro criações e destruições anteriores e, graças ao sacrifício dos deuses, o sol que brilhava sobre eles foi criado de novo, precisamente em Teotihuacan.

Hoje, vivemos a criação de um novo sol. Uma nova ordem que parece ter, precisamente na geografia da América Latina, seu primeiro rascunho. A silhueta que ele desenha, porém, nos remete aos dias mais nefastos de nossa história. Uma intervenção armada, o sequestro ilegal de um chefe de Estado e um alerta para toda a região de que sua autonomia será castigada.

Transição pactuada. Aldo Fornazieri

CartaCapital

Diante do fracasso das intervenções no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, Trump optou por manter o governo venezuelano

Não há dúvida de que a agressão militar à Venezuela, o sequestro de ­Nicolás Maduro e sua transferência para os Estados Unidos para ser julgado representou uma clara violação do Direito Internacional. O que Donald Trump fez está longe de ser novidade, nem foi a mais drástica das intervenções externas norte-americanas. A guerra do Iraque, a invasão do Afeganistão e a derrubada de Muammar Kadafi na Líbia, com bombardeios da Otan, foram operações muito mais violentas e extensas do que a recente incursão na Venezuela. O singular, nesta ação, é que ela ocorreu em um país da América do Sul.

Destino manifesto. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os desvarios incrustados na história do Irmão do Norte desmentem a excepcionalidade das proezas de Trump

Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa norte-americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação”, advertiu o editorial do New York Times, em 3 de janeiro. “Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir estabelecer um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam­ a afetar os EUA e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os EUA, de forma esporádica, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentarem derrubar governos pela força.”

Golpes de mestre e o caso Master. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

O que surpreende no caso Master não é existência do lobby, mas o fato de ele estar fracassando

Apoio do sistema financeiro ao Banco Central e jornalismo profissional são parte da explicação

O que surpreende no caso Master não é que exista um forte lobby para reverter a liquidação do banco, mas que essa articulação esteja fracassando. Digo isso porque, no Brasil, lobbies funcionam.

Quem tem alguma dúvida não precisa fazer mais do que olhar para as contas públicas. Os gastos tributários da União e de estados bateram 6,5% do PIB em 2025 e devem chegar a 7,1% este ano. Estamos falando de quase R$ 1 trilhão. É claro que nem todas as isenções e reduções de alíquota são injustificáveis, mas boa parte delas resulta muito mais de ações orquestradas de grupos de interesse do que de interesse público genuíno.

O momento é decisivo para o futuro da democracia. Aqui e no mundo. Por Paulo José Cunha

Correio Braziliense

Se a democracia foi ameaçada num único país chamado Brasil, ela está sendo literalmente pisoteada na que se considerava, até outro dia, a mais importante democracia do mundo

O planeta está vivendo um desses momentos decisivos para o futuro, quando as instituições são instadas a se pronunciar com firmeza e usar seu poder de coerção para barrar aventuras autoritárias. Um ano atrás, o Brasil — logo o Brasil, que já enfrentou duas ditaduras! — deu uma lição ao mundo aplicando punição exemplar aos que tentaram dar um golpe de Estado para perpetuar no poder um dos piores presidentes que já tivemos e que, justamente por liderar a intentona golpista, está cumprindo pena de 27 anos de cadeia.

O xerife está de volta. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Trump decidiu elevar o já fabuloso orçamento de defesa dos Estados Unidos. Ou seja, ele quer mais: Groenlândia, Panamá e até Canadá o aguardam.

No artigo publicado após o Natal, afirmei que o governo brasileiro previa a invasão da Venezuela pelos norte-americanos logo depois da virada do ano. A previsão foi absolutamente correta. Os brasileiros reforçaram os mecanismos de acolhida na fronteira com o país vizinho na expectativa de que haveria uma explosão de migração em Roraima. Não aconteceu. A operação norte-americana foi auxiliada de dentro. Alguém, com poder, decidiu entregar o ditador todo poderoso à custa da morte de seus guarda-costas cubanos e alguns venezuelanos. Tudo correu com o menor derramamento de sangue possível numa situação extrema, como foi o ocorrido nos céus de Caracas e arredores. Maduro perdeu o poder, mas curiosa e estranhamente, seus principais auxiliares continuam a dar as ordens, respaldados pelo governo de Washington.

CPI para o ‘gabinete do ódio’ do Master. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Banqueiro tem relações com políticos de diversos partidos; governistas não assinaram pedido

A liquidação do Banco Master, que já teve até cena de novela, com banqueiro sendo preso prestes a viajar de jatinho para o exterior, virou assunto popular nas redes. Mas não aleatoriamente. O que as investigações sobre o caso apontam é que houve uma ação coordenada para atacar instituições e autoridades, com pagamentos milionários. Ou seja, o banqueiro Daniel Vorcaro contou com um verdadeiro gabinete do ódio agindo a seu favor.

Para que serve a imprensa. Por Thaís Oyama

O Globo

Ao contrário dos influenciadores da internet, jornalistas trabalham com um sistema de regras, com revisão e checagem

A jornalista Malu Gaspar, do GLOBO, revelou que influenciadores da internet receberam ofertas de até R$ 2 milhões para fazer um servicinho em favor do encrencado banqueiro Daniel Vorcaro. O job consistia em divulgar nas redes sociais, como quem nada quer, que a liquidação do Banco Master havia sido uma precipitação do Banco Central — e não resultado de uma sequência de fraudes financeiras que lesaram mais de um 1,5 milhão de investidores. No dia seguinte à publicação da reportagem do GLOBO, a Folha de S.Paulo mostrou que ao menos 42 perfis nas redes sociais passaram a atacar investigadores envolvidos na liquidação do Master. Os ataques foram simultâneos, e a grande maioria dos perfis não era especialista em assuntos financeiros, como revelam seus nomes prosaicos — Futrikei, Divas do Humor e Festa da Firma. Assim, é de supor que, se uns poucos influenciadores optaram por denunciar a proposta, feita por agências de marketing, de alugar seus teclados para lustrar a emporcalhada imagem de Vorcaro, muitos outros a aceitaram.

Sinais de resistência. Por Flávia Oliveira

O Globo

Dos Estados Unidos também surgem os primeiros sinais de corajosa insatisfação popular

Um bem-vindo soluço do multilateralismo se deu quando, após um quarto de século de vaivém, a maioria dos países da União Europeia se posicionou a favor do acordo com o Mercosul. Em tempos do protecionismo galopante instituído por Donald Trump, o tratado só foi possível graças a um generoso pacote de salvaguardas e desbloqueio de € 45 bilhões para a política agrícola dos europeus, numa prova de que bancada do boi não é exclusividade dos trópicos. A ratificação do que se configura como a maior zona de livre-comércio do mundo, com cerca de 700 milhões de habitantes, foi ponto positivo de uma semana em que a América do Sul flertou com o apocalipse.

Ladrões, marinheiros e galinhas. Por Eduardo Affonso

O Globo

Há os que conseguem festejar a queda do ditador Nicolás Maduro e condenar a ação absurda do protoditador Donald Trump

Reelaborando a sabedoria popular, Machado de Assis escreveu que não é a ocasião que faz o ladrão:

— A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito.

As tias do zap seriam golpistas latentes, à espera de uma oportunidade para atacar as instituições, os edifícios públicos e os fatos. Sem um catalisador, passariam a menopausa e a “melhor idade” entretidas com hidroginástica e receitas de remédios caseiros — que provocariam, no máximo, ataques de riso na Anvisa.

Os riscos de um mundo sem lei. Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A operação na Venezuela e o caso do PL da Dosimetria mostram que a lei, quando ignorada, se transforma numa ficção, e o que temos como resultado é uma anomia que aniquila qualquer possibilidade de prosperidade ou tranquilidade social

Gostaria de convidar os leitores a pensarem sobre os riscos da erosão do estado de direito, a partir da associação de dois eventos desconexos, a operação americana na Venezuela e a aprovação do PL da dosimetria no Parlamento brasileiro. Nos dois casos, temos um exemplo de violação à legalidade e às instituições que a asseguram. Quando ignorada, a lei se transforma numa ficção, e o que temos como resultado é uma anomia que aniquila qualquer possibilidade de prosperidade ou tranquilidade social.

A Pax Americana: o império sem máscara. Por Roberto Amaral *

“Vamos recuperar nosso quintal”
Peter Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA

Há escassa novidade por trás dos fatos: raramente o processo histórico se manifesta de forma tão coerente, clara e reveladora como nos últimos eventos que se abateram, se abatem e por muito tempo ainda se abaterão sobre a Venezuela e a América do Sul (passando pelo Brasil, ninguém se iluda), prolongando a tragédia do país vizinho, levado à miséria por ser naturalmente rico. 

País soberano — ao menos no formalismo arcaico do direito internacional, sem forças de efetividade, portanto inútil, como é hoje a ONU, reduzida a mero fórum de debates sem consequência —, a República Bolivariana da Venezuela caminha de volta ao quadro colonial dos maus tempos espanhóis. Paga a pena de abrigar o maior estoque de reservas de petróleo bruto do mundo, nada menos que 303 bilhões de barris (cerca de 1/5 das reservas mundiais), superando Arábia Saudita e Irã. E superando, de longe, os EUA (detentores de algo entre 45 e 55 bilhões de barris), o que começa a explicar muita coisa.

Tudo pelo Bicho: Os Donos do Jogo, por Giovana Freire*

A série “Os Donos do Jogo” constrói uma narrativa densa e moralmente ambígua sobre o submundo do bicho carioca, onde o poder é herdado pela violência e sustentado pela hipocrisia. A trama se desenrola a partir da chegada de Jefferson, o Profeta, ao Rio de Janeiro, após um assalto a maquininhas de apostas ligadas à Cúpula, organização que controla o jogo ilegal no Estado. A partir desse ponto, as engrenagens da contravenção se misturam ao drama humano, compondo um retrato sociopolítico da corrupção e da masculinidade como ferramentas de dominação.

Poesia | Diálogo de todo o dia, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador, com Zeca Pagodinho - Vida da minha vida

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Edson Fachin*

“Este tribunal seguirá na defesa intransigente da democracia e do Estado de Direito Democrático, assim como de um diálogo respeitoso e republicano com os demais Poderes, também atacados naquela data.

Manifestações políticas legítimas não amparam ações que coloquem em risco pilares fundamentais da vida em democracia: eleições livres; voto direto e secreto, com valor igual para todos; pluralismo político; soberania estatal; proibição de toda forma de discriminação; e defesa das liberdades públicas.

Há vez e voz para todos e todas em uma sociedade plural, desde que respeitados os limites impostos pela lei maior. Diferentes valores a respeito de como alcançar e consolidar os objetivos fundamentais da República podem e devem conviver, mas nenhum valor pode vir a ser invocado para obliterar a democracia.

Permitam-me enaltecer o trabalho do ministro Alexandre de Moraes na condução dos inquéritos e das ações penais que surgiram desse dia infame e frisar, precisamente, o caráter exato de sua atuação.

Há quem confunda e tome a firmeza por jactância. O ministro Alexandre de Moraes colocou-se firme por dever do ofício, com sacrifícios pessoais e familiares que não me cabe inventariar, e esteve onde precisava estar. Não por bravata, mas porque era o seu ofício.

*Edson Fachin, Presidente do STF, ontem, no  ato para recordar o 8 de janeiro de 2023.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula tornou CVM mais vulnerável a ingerência política

Por O Globo

Indicação para presidir autarquia reflete acordo que despreza relevância do mercado de capitais para o país

Foi temerária a indicação do advogado Otto Lobo para presidir a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — ele ainda passará por sabatina no Senado. Com a escolha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desagradou ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e aos que defendiam um nome técnico para comandar a autarquia, responsável por regular e fiscalizar o mercado de capitais. Lula tomou uma decisão política, influenciada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e por outros líderes políticos. Uma escolha do tipo para a presidência da CVM é inédita e a torna mais vulnerável a ingerências políticas.

A era do direito relativo. Por Vera Magalhães

O Globo

Nos planos global e doméstico, instabilidade marca início de 2026, e exige do Brasil capacidade de navegar no escuro

E 2026 começou tratando de abolir os últimos consensos. No plano global e no Brasil se assiste à relativização completa do Direito, tornando praticamente impossível prever os próximos lances do jogo de divisão do mundo pelas grandes potências e também da queda de braço interna entre os Poderes em torno das penas para os condenados por tentativa de golpe de Estado.

A complexidade da situação exige do governo brasileiro uma capacidade de navegar na turbulência ainda não testada, e os impactos da tensão galopante na América do Sul na corrida eleitoral doméstica ainda estão por ser conhecidos.

Bandeiras rasgadas. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Três anos depois do 8/1, Brasil ainda não produziu consenso em defesa da democracia

Paulinho da Força acusou Lula de “rasgar a bandeira da paz” ao vetar o projeto que reduz as penas dos golpistas. Há dez anos, o deputado tentou emplacar uma anistia para Eduardo Cunha. Agora está empenhado em livrar Jair Bolsonaro e seus comparsas da cadeia.

O famigerado PL da Dosimetria foi aprovado com folga na Câmara e no Senado. Além dos votos da extrema direita, contou com amplo apoio do Centrão, que controla as duas Casas.

Lula pode ser criticado por muita coisa, inclusive por ter usado o aniversário do 8 de Janeiro para fazer propaganda do governo. Mas seria ridículo esperar que ele assinasse embaixo da manobra para libertar quem tentou derrubá-lo.

Anti-imperialismo virou pó. Por Pablo Ortellado

O Globo

Elites do país se submeteram ao governo Trump de forma resignada

Um dos aspectos mais surpreendentes da intervenção americana na Venezuela é a maneira resignada com que as elites do país se submeteram ao governo Trump, depois de quase 30 anos de retórica anti-imperialista. O governo em exercício de Delcy Rodríguez tenta manter as aparências de soberania, e as milícias de Diosdado Cabello seguem aterrorizando os dissidentes, mas, a cada oportunidade, Trump faz questão de deixar claro que mantém controle total. Se o discurso anti-imperialista não se traduz em resistência, qual seria então sua função?

Lula veta nova dosimetria e bate de frente com o Congresso. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Mudança poderia beneficiar condenados e investigados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro e foi aprovada sob o argumento de que corrigiria excessos do Supremo

Em cerimônia de grande simbolismo, para marcar o fracasso da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e a punição dos seus responsáveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou integralmente o projeto de lei que alterava a dosimetria das penas aplicadas aos condenados pelos atos golpistas, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão colocou o Palácio do Planalto em rota direta de colisão com o Congresso Nacional, que havia aprovado a proposta por ampla maioria, com apoio do Centrão e da oposição bolsonarista. Após o anúncio do veto, Lula desceu a rampa do Planalto para cumprimentar apoiadores, em um gesto político calculado, que mirou a campanha eleitoral deste ano.

PL da dosimetria dentro do script: veto, derrubada, STF e eleições. Por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

O enredo era conhecido desde o fim do ano passado: o Congresso aprova, o presidente veta, o Congresso se articula para derrubar o veto e, ao final, o tema desemboca no Supremo Tribunal Federal. Nada disso ocorre por acaso

O veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria não é um gesto isolado nem um sobressalto institucional. Ele representa, antes de tudo, o segundo capítulo de um roteiro conhecido da política brasileira, em que decisões de alto impacto jurídico servem também como combustível para a disputa eleitoral que se aproxima. O enredo era conhecido desde o fim do ano passado: o Congresso aprova, o presidente veta, deputados e senadores se articulam para derrubar o veto e, ao final, o tema desemboca no Supremo Tribunal Federal. Nada disso ocorre por acaso.

Lula quer palanque com Alckmin ou Haddad em SP. Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Vice-presidente roubou a cena no ato relativo ao 8 de janeiro no Planalto

Conhecido pela discrição, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), quem diria, roubou a cena no ato relativo ao 8 de janeiro nessa quinta-feira no Palácio do Planalto. No discurso de 6 minutos, o vice foi ovacionado 5 vezes, recebendo, praticamente, um aplauso por minuto. Não bastasse a saravaida de palmas, sua fala ainda puxou o coro “sem anistia”, ao ressaltar que os condenados pela tentativa de golpe de Estado “devem sofrer o rigor da Justiça e o peso da História”.

Foi uma proeza - sobretudo, diante de uma claque lulista -, para um político que foi quatro vezes governador de São Paulo, e mesmo assim, carregava a pecha de “picolé de chuchu”. Alcunha que, no passado, impuseram até mesmo a Getúlio Vargas, o líder mais longevo da República, famoso pela arte de “tirar as meias sem descalçar os sapatos”.

Como é acompanhar ao vivo um processo de transição social. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Os julgamentos, as condenações, as prisões, as tornozeleiras vão desconstruindo a mentira e o poder da mentira, da farsa, do teatro mambembe da voracidade de poder dos aproveitadores

Chegamos ao novo ano com mentalidade e visão de mundo bem diversas do que eram as nossas no início de 2025. E até muitíssimo diversas das bravatas da tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 e radicalmente diferentes das de dezembro de 2022. E se recuarmos a 2019, então, as mudanças são tão significativas e perceptíveis, que dão a impressão de que estamos retornando de longa viagem ao estrangeiro.

Fachin tenta despolitizar o STF. Por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Prevalece no Supremo a visão de que cabe ao Congresso decidir sobre legislação penal e à Corte aplicá-la

Não foram só os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, que deixaram de comparecer ao ato organizado pelo Palácio do Planalto para relembrar o 8 de Janeiro.

A ausência mais emblemática foi do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin. Foi a primeira vez que o representante máximo do Judiciário não esteve presente desde que os prédios dos Três Poderes foram vandalizados três anos atrás.

A nova pandemia. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ataques e mentiras que ‘viralizam’ nas redes são o novo vírus a favor do crime e de criminosos

O que tem em comum PT, bolsonarismo, governos, oposição, Daniel Vorcaro e tantos poderosos por aí? O uso despudorado da internet, seja com robôs próprios, seja com muitos que se intitulam “influencers” e contam com a má-fé ou a ingenuidade de quem acredita em fake news e espertalhões e são inocentes úteis para massificar mentiras ou meias-verdades maliciosas.

Isso virou uma praga, que distorce a realidade, confunde a sociedade, desqualifica profissionais, autoridades e instituições e ameaça o princípio moral, ou sonho, de que o bem sempre vence o mal. Os ataques são sofisticados e cruéis, inclusive contra jornalistas.

A gangorra chilena. Por Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

Não se trata de um mesmo ciclo que se repete, mas de uma espiral que se aprofunda

Começamos o novo ano com a campanha eleitoral para a Presidência já em pleno andamento e sob o signo da gangorra chilena: a volta da direita ao poder depois do fracasso da revolução das esquerdas iniciada nas ruas de Santiago em 2019, que sucedeu às frustrações com o governo de direita de Sebastián Piñera... É isto que também nos espera, um novo governo de direita sucedendo ao governo de esquerda de Lula, que também sucedeu ao governo de direita de Bolsonaro, cada um se elegendo graças à frustração dos eleitores com os governos do outro?

Escândalo do Master só começou. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Tão ou mais escandalosa que a fraude é a rede de proteção dos subterrâneos do poder em torno do banco liquidado

Indevidas decisões individuais arrastam o Supremo e o Tribunal de Contas ao campo das suspeições por conivência

As fraudes de longa data do Banco Master —apontadas pelo mercado financeiro e pelo Ministério Público—, que resultaram na liquidação em novembro pelo Banco Central, marcam mais um na série de escândalos com os quais nos habituamos a conviver.

Esse caso, no entanto, exibe uma peculiaridade: tão ou mais escandalosa que as falcatruas do controlador, Daniel Vorcaro, é a rede de proteção formada para contestar a decisão da autoridade monetária.

A encruzilhada da democracia: entre a apatia e a ação. Por Ricardo Henriques

Folha de S. Paulo

Democracias não morrem apenas de golpe de Estado, embora tentativas continuem acontecendo

Elas sucumbem sufocadas pela indiferença de uma população que deixa de acreditar no voto e pela incapacidade de líderes de entregar soluções

democracia não morre apenas de golpe de Estado. Levitsky e Way argumentam em "Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War" que sua derrocada nem mais prescinde desse ato, muito embora, como testemunhamos há pouco, golpes continuem a ser tramados e executados.

A democracia sucumbe lentamente, sufocada pela indiferença de uma população que deixa de acreditar que o voto muda algo e pela incapacidade de seus líderes de entregar soluções para os problemas que mais importam. Vivemos esse momento.

Venezuelanos querem sonhar, mas ataque de Trump pode ser nova fase de longo pesadelo. Por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Base de dados de pesquisadores norte-americanos indica que derrubadas forçadas de regimes autoritários só resultaram em um processo de democratização em 20% das vezes

É possível que, caso aceite o papel de fantoche do presidente dos EUA, Delcy Rodríguez tenha liberdade para manter a ditadura da forma que lhe convier

Venezuelanos exilados comemoraram o ataque dos Estados Unidos que tirou do poder o ditador Nicolás Maduro. Dizem estar cientes de que Donald Trump está mais interessado no petróleo do que na democracia. Ainda assim, acreditam, nada pode ser pior do que Maduro, e agora há, ao menos, uma chance de recuperar suas liberdades políticas e civis.

O desespero é perfeitamente compreensível. Notas de repúdio não derrubam ditadores, e os venezuelanos acabaram isolados nessa quase impossível empreitada (sem falar no apoio de setores da esquerda latino-americana ao regime). Ainda assim, as demais nações não podem aceitar uma violação tão explícita e destemida do direito internacional —especialmente quando Trump ameaça outros territórios.

Ainda bem que existem poetas. Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Assessor de Donald Trump diz que poderio militar permite aos EUA fazerem o que quiserem

História mostra que força é relevante, mas é modulada por outros fatores, inclusive ideias

Stephen Miller, o cérebro por trás da política externa de Donald Trump, diz que os Estados Unidos podem fazer o que quiserem porque são mais fortes que os outros países, e a força, assevera o assessor presidencial, "é a lei de ferro do mundo desde o começo dos tempos".

Miller não está totalmente errado. Não dá para fingir que poder militar não importa. Mesmo nos anos de ouro da ordem liberal baseada em regras universais, superpotências podiam mais do que a República de Nauru, por exemplo. O multilateralismo não impediu os EUA de invadirem o Iraque sob falsos pretextos em 2003.

O realismo e as voltas que o mundo dá. Por Paulo César Nascimento*

“Fora dos muros da pólis, os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”, assinalou Tucídides (c.460-400 a.C.), o famoso historiador ateniense da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. Com essa frase, ele revelou a especificidade das relações entre as cidades-estados gregas: se a política doméstica de cada uma delas obedece a suas próprias leis, no plano externo – “fora dos muros da pólis” – prevalece a lei do mais forte. Seguindo essa ótica, Tucídides argumentou que a origem da guerra do Peloponeso deveria ser buscada não em um ou outro acontecimento fortuito, mas no crescente poderio de Esparta, que acabaria por enfraquecer a hegemonia de Atenas, a qual, por sua vez, se viu obrigada a recorrer à guerra antes que a correlação de forças entre as duas cidades pendesse definitivamente para o lado de Esparta.

Poesia | Praia do Caju, de Ferreira Gullar

 

Música | Clara Nunes - Tristeza pé no chão e você passa, eu acho graça

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Alexandre Moraes*

"Não é possível mais discursos de atenuante em penas aplicadas depois do devido processo legal e depois de ter sido concedida ampla possibilidade de defesa aos investigados. A redução de penas seria um recado à sociedade de que o Brasil tolera ou tolerará novos flertes contra a democracia".

*Alexandre Moares, Vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF)

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Campanha tenta sabotar autonomia do Banco Central

Por O Globo

Ataques nas redes sociais e processo indevido no TCU miram credibilidade da autoridade monetária

A autonomia do Banco Central (BC) foi uma conquista obtida com dificuldade. Sempre sofreu resistência dos interessados em manter a autoridade monetária vulnerável a interferências. A lei garante que o BC é uma autarquia de natureza técnica, cujas decisões devem ser preservadas das pressões políticas. Isso vale tanto para a taxa de juros quanto para medidas destinadas a regular e preservar o sistema financeiro. É, por isso, lamentável a campanha deflagrada contra o BC, tendo como alvo a liquidação do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Um dia para não esquecer. Por Míriam Leitão

O Globo

Quem atacou a democracia brasileira está preso. Quem fez o mesmo nos EUA voltou ao poder e ameaça a ordem global

Há três anos o Brasil viveu uma situação limite, com as sedes dos três Poderes atacadas e vandalizadas. Foi um dia construído durante quatro anos por um presidente que atacava as instituições, sequestrava datas e símbolos da pátria, conspirava com generais, mantinha no palácio uma feroz milícia digital, ameaçava adversários, liberava armas e fazia reuniões nas quais abertamente se falava em virar a mesa enquanto fosse tempo. O dia 8 de janeiro de 2023 não foi um raio num céu azul. Ele foi criado e estimulado pelo governo de Jair Bolsonaro.

Spoiler: não é sobre gatos. Por Cora Rónai

O Globo

Após contrato de esposa de ministro do STF com banco que é um insulto, minha geração assiste agora ao ocaso da maior democracia do Ocidente

Passei o Natal e o Ano Novo brigando na internet, porque tive a audácia de observar que talvez seja até legal a esposa de um ministro do STF ter um contrato de R$ 129 milhões com um banco, mas não é. E nem ao menos é só questão do dinheiro, embora, claro, qualquer contrato dessa monta seja por si só suspeito; a sua própria existência é um insulto.

Pra quê? Fui descascada em escala industrial. Me chamaram até de “elite socialista aristocrática do Leblon”, quando todo mundo sabe que sou elite socialista aristocrática da Lagoa. Depois de perder um tempo enorme bloqueando gente grosseira e descontrolada, decidi que, a partir de 2026, só escreveria sobre gatos e livros. A família aplaudiu.