segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim de moratória da soja representa retrocesso ambiental

Por O Globo

Decisão do STF validou as leis estaduais que, na prática, sepultam pacto para reduzir o desmatamento

Foi frustrante a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou válidas leis dos estados de Mato Grosso e Rondônia contrárias à moratória da soja, o acordo que veta a compra de safras colhidas em áreas desmatadas da Amazônia a partir de julho de 2008. A legislação dos dois estados por onde se expande a fronteira agrícola proíbe a concessão de benefícios fiscais a empresas participantes de pactos privados que criam restrições à produção agropecuária — e é apontada como responsável por esvaziar a moratória.

A decisão do STF foi contraditória. De um lado, a Corte afirmou que a moratória da soja, que vinha sendo questionada em diversas ações, é constitucional. Os ministros determinaram que juízes e autoridades de todo o país, inclusive do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), encerrem todas as ações decorrentes da moratória. Mas reconhecer a legitimidade a esta altura significa pouco ou nada, uma vez que o pacto, firmado em 2006, não existe mais. Nenhuma empresa quer mais participar do acordo por temer perder benefícios fiscais nos estados.

Assista ao discurso de Lula no evento de lançamento de sua campanha presidencial

 

Petista usa comparação com Bolsonaro para responder por futuro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio

A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.

Saiu, então, comparando indicadores da redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e crescimento da economia.

É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.

A eleição será decidida pelos endividados, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

Para Rubio, América Latina é o quintal dos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

'Sósia' de Alexandre de Moraes circula entre vips em comício de Flávio Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

De toga e fraldão, candidato a deputado posou para selfies em área reservada de comício do PL em Copacabana

Um 'sósia' de Alexandre de Moraes chamou a atenção no comício que abriu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

De gravata e toga semelhante à dos ministros do Supremo, Julio Sergio Carneiro Marques, o Julinho Dborais, circulou na área reservada do ato do PL em Copacabana.

Foi assediado por bolsonaristas, posou para selfies e puxou assunto com figurões da direita como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio.

Julinho é candidato a deputado federal pelo Partido Novo. Usa um lema inusitado: "Não vote em ladrão, vote no doidão".

Filantropia brasileira enfrenta desafio, por Preto Zezé

O Globo

Quando o recurso chega à ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa

Participei, na quarta-feira passada, em São Paulo, de um encontro do Think Tank do Bem, a convite de Elie Horn e Aron Zylberman. Desde 2024, o grupo estimula empresários a doar, iniciativa louvável num país com tamanha concentração de renda. Saí de lá com uma inquietação: todo mundo falava de financiamento e quase ninguém falava de território.

Quando falo em território, muita gente entende endereço, pedaço de chão, mancha no mapa. Não é disso que falo. Território é inteligência. É gente que administra crise todo dia sem ter feito curso de gestão, resolve conflito sem chamar mediador, pega o estigma e devolve carisma, trabalha na escassez e, ainda assim, produz abundância, com um saber que não veio dos bancos da universidade e resolve, no cotidiano, o que a teoria não resolveu. Governança territorial é essa inteligência viva dirigindo o que se faz naquele lugar.

O STF fora da lei, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O jornalismo que as democracias protegem é aquele das notícias que incomodam os poderosos, do setor público ou privado

“Jornalismo é imprimir aquilo que alguém não quer ver impresso. Tudo o mais é relações públicas.”

É preciso atualizar a frase conhecida nas redações. O jornalismo foi muito além do jornal impresso. Mas a prática continua a mesma: apurar e publicar informações. É verdade que há notícias boas, de que todo mundo quer saber. Por exemplo: a chegada ao mercado das injeções emagrecedoras. Nesses casos, quase não é preciso apurar. O dono dos medicamentos quer divulgá-los, e o público espera ansioso. Publicar isso é quase “relações públicas”.

O jornalismo que as democracias protegem — pelo qual o público mais se interessa — é outro, aquele das notícias que incomodam os poderosos, sejam do setor público ou do privado. Ou ainda de uma junção das duas esferas, como o uso de dinheiro público para lucro privado.

Centrão sendo Centrão, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não escolher um lado é estratégia para continuar relevante depois da eleição

A decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial – e em boa parte das disputas estaduais – parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão sendo Centrão. Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há, porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para conquistar poder.

A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL passou a ocupar esse espaço à direita.

Mar de lama ou instituições funcionando? Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

Tensões entre direção da Polícia Federal e o relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras

A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.

Família deveria ser sinônimo de acolhimento, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Novela escancara toxicidade e ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero

Teledramaturgia tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais

Parei de acompanhar telenovelas há décadas, mas confesso que às vezes me entrego ao impulso de deixar a mente divagar diante da TV enquanto a tela exibe um folhetim. Foi assim que um dia desses assisti a uma cena sobre preconceito, sexualidade e autoaceitação na novela "Quem Ama Cuida".

Observando a angústia e a insegurança suportadas por um dos personagens diante da intolerância do avô, me peguei refletindo sobre o quanto a família, que deveria ser um espaço seguro e de acolhimento, muitas vezes é tóxica e impregnada de ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero em desacordo com o padrão cis-heteronormativo.

O crime nos trinques, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nossos bandidos são hoje mais ricos do que os mais famosos gângsteres americanos

Por que então não se vestem de acordo e continuam parecendo pés-de-chinelo?

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

Via negociada, Frente Ampla e projeto de nação, por Ivan Alves Filho

Diante do perigo fascista, em ascensão na Itália no início dos anos 20 do século passado, o fundador do Estado soviético, Vladimir Lenin, lançou, no quadro da Internacional Comunista fundada em 1919, a chamada Frente Única. Por intermédio dela, ele propôs uma aliança com a social-democracia europeia.   

Para isso, não hesitou em criticar posturas que considerava "esquerdistas" ou irresponsáveis entre alguns setores se reivindicando do marxismo na Alemanha, por exemplo. A crítica não era tanto dirigida ao Partido Comunista recém-formado, mas a grupos que dele se afastaram, recusando-se a participar do Parlamento e dos sindicatos controlados pelos social-democratas.

Em todo caso, o entendimento com a social-democracia era muito difícil. Houve a traição durante a Guerra, a qual custou 15 milhões de mortos, sem aludir aos feridos e mutilados. Além do que, os social-democratas assassinaram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Mesmo assim, Lenin lançou a sua proposta.

Poesia | Mensagem à poesia, de Vinícius de Moraes, - por Paulo Autran

 

Música | Roberta Sá canta no Altas Horas - Mais Alguém

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Hoje sabemos que Platão e Aristóteles foram a culminação, não o início, do pensamento filosófico grego, cujo voo se iniciou quando a Grécia atingiu ou estava prestes a atingir o seu clímax. O que permanece verdadeiro, porém é que Platão e Aristóteles vieram a ser o início da tradição filosófica ocidental e que esse início, diferentemente do início do pensamento filosófico grego, ocorreu quando a vida política grega já se aproximava realmente do seu fim. Talvez não exista em toda a tradição do pensamento filosófico, e em particular do pensamento político, um fator de importância e influência tão avassaladora sobre tudo o que viria depois do que o fato de Platão e Aristóteles terem escrito no século IV a.C. o pleno impacto de uma sociedade política decadente.

Surgia assim o problema de como o homem, se tem de viver numa polis, pode viver fora da política. Esse problema, que por vezes apresenta uma estranha semelhança com a nossa própria época, muito rapidamente se converteu na questão de como é possível viver sem pertencer a nenhuma comunidade politicamente organizada, vale dizer, em condições de apolitismo ou o que diríamos em condições de não-cidadania. Ainda mais sério foi o abismo que imediatamente se abriu, e desde então nunca mais se fechou, entre pensamento e ação. Todo pensamento que não seja o mero cálculo dos meios necessários para se obter um fim pretendido ou desejado, mas se ocupe do significado no sentido mais geral, veio a desempenhar o papel de um ”pós-pensamento”, isto é, um pensamento posterior à ação que decidiu e determinou a realidade. A ação, por sua vez, foi relegada à esfera sem significado do aleatório e do fortuito. “

*Hannah Arendt (1906-1975). ‘A promessa da política’, pp.45-6, Difel, Rio de Janeiro, 2008.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Violência contra mulher resiste a avanços legislativos

Por O Globo

Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, feminicídios e estupros em alta ainda impõem desafio à sociedade

Aos 20 anos, a Lei Maria da Penha se consolidou como uma das maiores conquistas no combate à violência contra a mulher no Brasil: de janeiro a junho, houve 596 mil novas ações baseadas nela, e a Justiça concedeu 337 mil medidas protetivas, ou duas por minuto, de acordo com levantamento do Conselho Nacional de Justiça revelado pelo GLOBO. O volume de processos instaurados no ano passado passou de 1 milhão, 74,4% acima de cinco anos atrás e número mais alto na série histórica. Mas infelizmente isso não tem bastado para debelar a chaga. Os 1.571 feminicídios cometidos em 2025 também representaram um recorde, e os estupros aumentaram 72% em dez anos — só no ano passado, houve um caso a cada seis minutos.

Astúcia do povo nas urnas eletrônicas é o mais imponderável nas eleições, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O número elevado de indecisos nas pesquisas espontâneas revela que a maioria da sociedade ainda não transformou simpatia ou rejeição em decisão eleitoral

Nos dicionários, astúcia é o mesmo que artimanha, esperteza, malícia e sagacidade. Na política, quase sempre tem um significado negativo, porque é uma das características dos políticos para enganar o eleitor. Entretanto, há uma grande diferença entre a astúcia do povo e astúcia dos políticos. A primeira se baseia no bom senso. Já a segunda recorre ao senso comum para atingir objetivos a qualquer preço, muitas vezes obscuros. Não existe momento em que esses atributos sejam mais utilizados do que as eleições.

O folclorista capixaba Hermógenes Lima Fonseca, advogado, contador e pesquisador da cultura, viveu até 1996, quando morreu aos 80 anos em Vila Velha (ES), aos pés do Convento da Penha, um dos mais antigos no Brasil. Ele sofreu influências de baianos e mineiros, além da forte atração dos cariocas, que consagraram Roberto Carlos, Nara Leão, Sérgio Sampaio e Rubem Braga. Hermógenes dizia que “o povo astucia as coisas”.

O desafio de Lula, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

O ajuste fiscal é um meio para defender objetivos que são caros a Lula e fundamentais para o Brasil

Lula se apresenta como defensor da soberania nacional e dos mais pobres. Acumulou credenciais para tanto. Se quiser preservá-las, terá de imprimir novo rumo à política fiscal, na hipótese de vir a ser reeleito. O atual levará o País, cedo ou tarde, a uma crise econômica. Um outro caminho é possível.

A genuína preocupação de Lula com os mais pobres é inquestionável. Trata-se de uma marca dos seus três mandatos, não de oportunismo eleitoral. Com Lula na Presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante. É uma obra coletiva, erguida sobre as bases estabelecidas pelo Plano Real.

Suas credenciais na defesa da soberania nacional se reforçaram no último ano. Fora excessos retóricos desnecessários, conduziu bem a reação às arbitrárias medidas adotadas pelos Estados Unidos para forçar o Brasil a seguir as ordens ditadas pela nova doutrina de segurança nacional do governo americano.

Assim começou o petrolão, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao conquistar os líderes do Centrão, um a um, risco de Lula é ressuscitar a Lava Jato

Ao colecionar troféus do Centrão, o presidente Lula ganha palanques e tempo de TV na eleição, aumenta as chances de converter o fim da escala 6x1 em votos e já constrói base no Congresso e governabilidade, em caso de vitória. Não custa lembrar que foi assim que mensalão, petrolão e os escândalos de Lula 1 e 2 começaram.

Hoje favorito, mas com margem mínima, Lula jogou a rede para Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Hugo Motta, da Câmara. Certamente não pelo Brasil, ideologia, direitos, igualdade social, PIB, ajuste fiscal e ataques de Donald Trump...

Os ajustes regionais pesam, como para Nogueira e Motta, que são do Nordeste, bolsão petista do País, mas isso é só parte da história. A partir daí, voltamos a mensalão, petrolão e à defunta Lava Jato, que começaram quando Lula se jogou nos braços de adversários pragmáticos, para compensar a fragilidade do PT e da esquerda no Congresso. Isso tem custo, e alto.

A coalizão anticartéis de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Cinco países da América Latina aceitaram o emprego de militares dos EUA em seus territórios para combater o crime organizado. Eles fazem parte de um grupo de 19 países que aderiram à Coalizão Anticartéis das Américas. O presidente Donald Trump tem mantido posição ambígua em relação à possibilidade de intervenção militar sem autorização de governos.

Os países que já assinaram a autorização são Guatemala, Honduras, Jamaica, Colômbia e Equador. Do total de 19 países, apenas dois não estão sob governos de direita: Guatemala e Bahamas.

A Colômbia aderiu depois da posse do presidente Abelardo de la Espriella, no dia 7.

Seu antecessor, Gustavo Petro, rejeitava ação militar americana, da mesma forma que a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Mesmo assim, Trump se negou a responder se poderia ou não ordenar ações militares nos dois países.

Os ventos da política, por Merval Pereira

O Globo

É grave a informação do jornalista Caio Junqueira de que setores do STF pressionaram partidos do Centrão a não aderirem à candidatura de Flavio Bolsonaro

O Supremo Tribunal Federal (STF) continua no centro dos debates eleitorais, num péssimo sinal de que se tornou um partícipe importante do jogo político nacional. A direita, que engole a candidatura de Flavio Bolsonaro por não ter alternativa melhor para tentar derrotar Lula, circula nas redes o perigo de um quarto governo do petista pela possibilidade de que ele possa vir a indicar mais quatro ministros para o STF, dominando assim a maioria do plenário onde atualmente se decidem as questões fundamentais do país.

Já foram decididas pelo Presidente da República, quando o Executivo mandava e desmandava. Já foi o Legislativo o dono do jogo, especialmente no período em que o então presidente Jair Bolsonaro, preocupado com a preparação de tentativa de golpe, delegou ao Legislativo as decisões. Veio daí a consolidação das emendas parlamentares como fonte de poder, e o aumento inacreditável dessa receita que sangra os cofres públicos e enfraquece o governo eleito pelo povo.

Um retrato do lobby das bets em Brasília, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Oxfam alerta para 'avanço predatório' da jogatina e 'captura' de instâncias decisórias

Ernildo Júnior debutou no mundo das apostas num salão de sinuca em Campina Grande, no interior da Paraíba. Hoje voa de jatinho, circula entre celebridades e comanda uma das maiores bets do país.

Na quinta-feira, o dono da Pixbet se viu na mira da Polícia Federal. Ele e o advogado Nelson Willians foram os principais alvos da Operação Arena, que apura um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio com conexão em Curaçao.

Sócio do cantor Wesley Safadão e dono de uma Lamborghini, o empresário paraibano é um dos novos magnatas da jogatina online, liberada no Brasil desde 2018. Um relatório inédito da Oxfam mostra como as casas de apostas capturaram a renda de milhões de famílias, agravando o endividamento e a concentração de riqueza.

Coitado do Flávio Dino, por Elio Gaspari

O Globo

Constituição Federal diz que é 'resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional'. Pode ser um exagero, mas está lá

Depois que a casa caiu, a decisão de se vasculhar equipamentos eletrônicos de jornalistas parece ser de responsabilidade difusa. O ministro Flávio Dino, do STF, disse que está sofrendo “agressões e injustiças” ao ser vinculado à ilegalidade essencial do procedimento. O artigo 5º da Constituição Federal, no seu inciso XIV, diz que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.” Pode ser um exagero, mas está lá.

A hora e a vez da diplomacia, por Míriam Leitão

O Globo

Em meio a tensões com diversos parceiros, o Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na sala

A decisão do governo brasileiro de iniciar um processo pela Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos foi tomada basicamente para não desmoralizar a lei, segundo fontes do governo. Ela foi criada exatamente para defender o Brasil em casos como esse, em que os países adotem medidas unilaterais e injustificadas. A lei existe, precisa ser acionada. Mas isso é bem diferente de retaliar os Estados Unidos, o que seria um tiro no pé.

— Não pode ser uma lei para inglês ver porque ignorá-la serviria de incentivo a novas medidas contra o Brasil, venham de onde vierem. Mas se vamos adotar as medidas de reciprocidade é outra história — explica essa fonte.

Cuba é troféu para os EUA, por Dorrit Harazim

Por O Globo

País é a tentação fundamental para todo ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel Castro tomaram o poder

Dias atrás, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, mostrou-se satisfeito por ser inquirido sobre Cuba. Era, finalmente, uma ocasião de ostentar musculatura fácil, mudar o foco da desconcertante humilhação que vem sofrendo há seis meses com a exasperante guerra sem heróis contra o Irã.

— Todas as opções estão na mesa, o que inclui opções militares, e seria sensato por parte de Cuba prestar atenção às declarações do presidente Trump sobre as prerrogativas estratégicas dos americanos — respondeu. — Com certeza [Cuba] não é páreo para os Estados Unidos... Estou animado com as muitas opções que temos.

Vestia uma camiseta verde-oliva que deixava à mostra o “We the People” da Constituição tatuado em letras garrafais no antebraço direito.

Mesmo se Flávio perder, direita Master deve ganhar todo o resto, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, caso foi o petrolão da direita

Público pode achar que Lulinha fazendo lobby na Saúde é comparável ao maior escândalo financeiro do Brasil

As forças políticas que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master e receberam dinheiro do Master devem ser as grandes vencedoras da eleição deste ano.

Talvez não consigam eleger Flávio Bolsonaro presidente. Mas devem ganhar o resto. E, mesmo se Lula vencer, terá que fazer acordos com eles.

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, o Banco Master foi o petrolão da direita. A prevalência de direitistas entre os envolvidos é esmagadora. A direita roubou muito mais com o Master, ganhou muito mais dinheiro do Master e tentou salvar o Master praticamente sozinha.

Se algum jornalista ou político de direita quiser discutir esses números em público, será um prazer.

Lixão de cacarecos em órbita, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Começou com o humilde Sputnik em 1957; hoje há mais de 1 milhão de objetos no espaço

Uma arruela de 2 centímetros, voando a 28 mil quilômetros por hora, pode esburacar uma nave

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" —o único som que emitia— era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites.

Brasil descobre mais petróleo e torra o dinheiro como se não houvesse amanhã, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Receita petrolífera do governo cresce, mas investimento produtivo cai e dívida explode

Mesmo com mais descobertas, falta de regras prejudica crescimento e investimentos para gerações futuras

Parece que há petróleo no mar diante e distante da costa do Amapá e do Pará, chamado de bacia da Foz do Amazonas, disse a Petrobras. Vai levar tempo para saber quanto petróleo explorável há por ali. Pode bem ser que exista mais petróleo em toda a Margem Equatorial (o mar diante de Norte e parte do Nordeste) e na Bacia de Pelotas.

Caso exista petróleo na Foz do Amazonas, vai levar tempo para que comece a ser extraído (uns sete anos). Ainda assim, diminuiria o risco ora previsto de que, a partir de 2031, por aí, comece a diminuir a produção petroleira do Brasil.

Seja como for, a disposição política quase geral é de gastar em despesa corrente o dinheiro que os governos recebem com impostos, dividendos, royalties, participações e outras rendas petrolíferas.

O país já torra a receita crescente de petróleo ou se endivida com base na ideia de que tal receita é regular e permanente. O futuro que se dane.

Um cacique contra tempestades, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Acordo entre Prefeitura do Rio e Fundação Cacique Cobra Coral desperta troll das redes sociais

Pretensão à racionalidade absoluta é contradição em todo fiel religioso

Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não racional, tem dono teológico.

Confraria de interesses se une a Lula, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Comandantes do Congresso, centrão e parte do STF jogam fichas na reeleição de olho em garantias

Kassab disse alto o nome de um jogo perceptível, mas que estava sendo jogado com discrição

Gilberto Kassab (PSD) revelou um segredo de polichinelo quando disse que "o centrão está com Lula". Quem não sabia disso passou a desconfiar a partir das digitais do Palácio do Planalto nas declarações de neutralidade de partidos como PPUnião BrasilRepublicanos, Podemos e MDB.

A certeza veio pela voz do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), na saída do segundo encontro entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União) depois de três meses sem se falarem.

A Última Democracia, por Vagner Gomes*

Dedico aos alunos José Gabriel, Cassiano Salvador e Vanderson Braga, da Rede Estadual de ensino, que me ajudaram a pensar na necessidade de elaborar esse texto.

"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)

O vai e vem das pesquisas, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

A explicação para a dança dos números que se observa nas pesquisas envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado está se comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível

Já começamos a temporada de intensificação das pesquisas de intenção de voto. Ao longo dos últimos pleitos, uma maior variabilidade de resultados encontrados entre os diferentes institutos de pesquisa tem sido observada de forma mais frequente, além da ampliação do número de institutos operando. Afinal, para que servem as pesquisas e por que os números têm nos parecido tão instáveis?

Avaliar as intenções do eleitorado e mapear a sua evolução ao longo das campanhas é algo importante em uma eleição. Os números nos permitem observar não apenas quem está numericamente à frente, mas movimentos de crescimento, queda, estabilidade, rejeição, indecisão e transferência de votos.

Poesia | Ode ao burguês, de Mário de Andrade

 

Música | Tom Jobim e Chico Buarque: Sabiá

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo, as massas têm que ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto, como qualquer outo partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação.”

*Hannah Arendt (1906-1975), “Origens do totalitarismo”, p. 474, Companhia de Bolso, São Paulo, 2020.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descaso fiscal é a alma da nova lei dos combustíveis

Por O Globo

Equipe econômica saiu celebrando ajuste de fachada depois de governo ceder a Congresso ávido por vantagens

As negociações que levaram à aprovação nesta semana do Projeto de Lei Complementar (PLP) dos Combustíveis dão a dimensão do descaso do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Congresso com a situação das contas públicas. Com a guerra no Oriente Médio, o preço do barril do petróleo disparou, e o Planalto começou a anunciar medidas com a intenção de amortecer a escalada no preço dos combustíveis. Criou um imposto sobre exportações de petróleo para poder desonerar a venda de diesel. Mas queria mais: oferecer subsídios que garantissem gasolina barata na bomba — e, para isso, precisou usar recursos do Tesouro.

‘Para Flabia, Fidel Castro’, por Flávia Oliveira

O Globo

O regime que ele inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump

Fidel Castro (1926-2016) completaria 100 anos na última quinta-feira, 13 de agosto. Líder da Revolução Cubana (1959), ícone da resistência ao boicote econômico dos Estados Unidos, que se estende desde então, foi inequívoca personalidade histórica do século XX. Jovem jornalista, fui a Havana, encontrei Fidel. O enredo começou em meados de 1999, quando o então presidente cubano veio ao Brasil para a Cimeira do Rio de Janeiro, reunião de chefes de Estado de América Latina, Caribe e União Europeia. De olho em potenciais investidores brasileiros, Fidel desafiou o então presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, a levar à ilha uma delegação de empresários. Desafio aceito, partimos, eu pelo GLOBO, quatro meses depois.

Por que decisões de Moraes têm de ser lidas à luz da política, por Thaís Oyama

O Globo

Ministros do STF ‘fazem política’ com tanta naturalidade que é como se a atividade fizesse parte de suas atribuições

Em que momento magistrados do Supremo Tribunal Federal passaram a agir como políticos é difícil precisar. Mais fácil, talvez, seja tentar localizar quando começaram a se comportar assim de forma pública.

Pouca gente criticou quando, em maio de 2023, o ministro Alexandre de Moraes trabalhou à luz do dia para que o presidente Lula indicasse dois nomes próximos dele para as duas vagas de juristas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que ele presidia. Moraes vivia, então, a fase em que seu status de “herói da democracia” lhe servia como salvo-conduto para heterodoxias diversas. Jornais trataram a nomeação dos apadrinhados do ministro como prova de sua “força”. Ninguém perguntou desde quando juiz monta grupos. Muito menos alguém perguntou se era adequado que o presidente do TSE fizesse isso poucas semanas antes do julgamento da inelegibilidade de um ex-presidente da República e adversário derrotado pelo presidente no poder.

O que devo a Ney Matogrosso, por Eduardo Affonso

O Globo

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa

Foi há 53 anos, num agosto como este. Num tempo em que 53 anos levavam mais de meio século para passar. (Era cedo para o garoto de 14 anos, que amava Chico e Elton John, descobrir que há segundos que não acabam nunca e décadas que somem sem que se saiba aonde foram parar.)

Ele estava naquele estágio — depois do gibi e antes do jornal, já com o beijo e ainda sem o orgasmo — que, por falta de um CID apropriado, chamam de adolescência. E tudo à sua volta — casa, pai, desejo, Deus, escola, comida, paisagem — atendia pelo nome de “interior de Minas”, que era, a um tempo, geografia e metáfora.

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa. Uma cabeça anônima, servida em prato de papel-alumínio, entre pão e vinho, feijão e cebolas. E lá no fundo azul, na noite mineira, uma voz lhe iluminou a mente e ali fez uma dança, uma festa.