segunda-feira, 11 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Escola tem de oferecer educação financeira

Por O Globo

Governo deveria tornar disciplina obrigatória, em vez de deseducar com programas como o Desenrola

O anúncio da nova versão do programa Desenrola, destinado a renegociar toda sorte de dívidas em condições camaradas, chamou a atenção para um aspecto determinante para o endividamento do brasileiro. As dívidas acumuladas no cartão de crédito, a facilidade com que se aceitam condições de refinanciamento em aplicativos ou prestações a perder de vista — desde que “caibam no salário” — resultam não apenas dos estímulos artificiais dados por um governo interessado em inflar o consumo e a sensação de bem-estar da população por interesse eleitoral. Decorrem também da dificuldade de entender conceitos triviais de aritmética e finanças, como juros compostos ou remuneração da poupança. Os mercadores do crédito fácil, que leva ao endividamento de 80% das famílias, se aproveitam das deficiências de formação do brasileiro para levar vantagem.

De volta para o futuro, por Ricardo Marinho*

Quando dizemos chamar à razão, a expressão é um sinônimo de voltar à sanidade e tem o significado de indicar prudência, bom senso e bom julgamento, ou seja, a capacidade de pensar e agir com moderação e julgamento claro; e tem como antônimos as palavras loucura, demência, tolice, irracionalidade, delírio, desordem, entre outras.

Vários intelectuais, ao longo da nossa história, adorariam poder definir ela como um passo de saída do irracional à razão, mas infelizmente não é possível fazê-lo. A complexidade dela ilustra que nossa caminhada não é simples, mas repleta de avanços e retrocessos, com vários momentos de progresso e regressões.

No nível das condições materiais históricas de existência, a jornada progrediu muito, é indubitavelmente agregadora de melhoras e desde o início da modernidade e mais rapidamente desde a Revolução Industrial no final do século XVIII.

Não existe crise global da democracia, por Carlos Pereira*

O Estado de S. Paulo

Vulnerabilidade resulta de instituições construídas ao longo do tempo e de escolhas políticas atuais

A ideia de que o mundo vive uma crise generalizada da democracia tornou-se quase um consenso. Relatórios internacionais apontam retrocessos, líderes populistas dominam o debate e a sensação de deterioração institucional se espalha.

Em entrevista recente, Adam Przeworski foi direto: não há evidência de uma crise global da democracia. Há, sim, episódios de erosão em alguns países. Mas isso está longe de configurar um colapso sistêmico. E é justamente aí que interpretações catastrofistas mais erram.

Parte da literatura trata como “crise” qualquer retórica agressiva contra instituições. Mas nem toda retórica iliberal se transforma em ação. E, mais importante, nem toda tentativa de enfraquecer a democracia é bem-sucedida.

Alta do petróleo fortalece as contas externas, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Com impacto das exportações da commodity sobre a balança comercial, país terá um déficit em conta corrente menor e o dólar deverá ficar mais barato

O aumento das exportações de petróleo deverá garantir uma alta expressiva do saldo comercial em 2026, ajudando a valorizar o câmbio e a reduzir o déficit em conta corrente. Com a expansão dos volumes e dos preços das vendas externas da commodity, o Brasil poderá ter um superávit comercial na casa de US$ 90 bilhões neste ano, mais de 30% superior aos US$ 68,3 bilhões registrados no ano passado. Num momento em que as contas públicas registram um déficit nominal (que inclui gastos com juros) próximo de 10% do PIB no acumulado em 12 meses, a melhora das contas externas é uma boa notícia, por diminuir uma fragilidade do país. O dólar mais barato atenua parte das pressões inflacionárias causadas pelo aumento dos combustíveis, reflexo da disparada do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio.

Oposição defende reação a decisão de Moraes sobre dosimetria

Por Estevão Taiar, Marlla Sabino e Sofia Aguiar/Valor Econômico

Moraes defendeu que texto só entre em vigor após julgamento de questionamentos; bolsonaristas criticam movimento

A oposição ao governo federal começou a falar em uma reação à suspensão, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, da Lei da Dosimetria. No sábado (9), Moraes suspendeu a aplicação da lei até que o plenário do STF julgue Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs), ajuizadas respectivamente pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e pela federação Psol-Rede. A Lei da Dosimetria, que reduz penas de condenados pelos atos do 8 de janeiro e beneficia o ex-presidente Jair Bolsonaro, tinha sido promulgada um dia antes pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

Uma das medidas defendidas por parlamentares foi a votação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) em tramitação na Câmara dos Deputados que limita decisões monocráticas do STF.

Lula busca avanço na segurança, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Presidente lança amanhã programa na área e empodera ministro Lima e Silva, criticado pelo PT

Sob pressão das pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, tenta virar o jogo na pauta da segurança pública, com o lançamento de um programa de combate ao crime organizado e ampliando agendas e declarações relacionadas ao tema. Ao mesmo tempo, ele renova a aposta no ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, que entrou na linha de tiro dos petistas e, após quatro meses no cargo, ainda não decolou.

A cinco meses do pleito, em uma reação que pode ser tardia, Lula tenta melhorar a avaliação do governo em uma área que aparece nas pesquisas como a principal preocupação dos brasileiros, e na qual a direita tem sido hegemônica. A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril, mostrou que a violência é considerada o principal problema do país para 27% dos entrevistados, seguida da corrupção, citada em 19% das menções, e das questões sociais, para 16% da população.

Trump ‘versus’ Maga, o cisma, por Demétrio Magnoli

O Globo

Ataque ao Irã representaria uma renúncia crucial: a adesão do presidente à ordem que jurou destruir

‘Eu não caracterizaria isso como uma ruptura com Trump. Ele traiu suas promessas a mim e a todos os demais. Isso não faz de mim a pessoa que violou o contrato. Ele é quem violou o contrato.’ Numa longa entrevista ao New York Times, Tucker Carlson explicou sua acusação: ao deflagrar a fracassada guerra no Irã, o presidente traiu o Make America Great Again (Maga) e, por extensão, os Estados Unidos.

Carlson, ao lado de JD Vance, foi uma voz essencial no movimento que sustentou a ascensão de Trump. O cisma esclarece os fundamentos ideológicos da direita nacionalista nos Estados Uniods, que se encontra numa encruzilhada decisiva.

Brasília está com medo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a Lava-Jato?

O caso Vorcaro será um marco no país. Se levado adiante, revelando quem são os corruptos e como agem, será dado um passo crucial para eliminar uma das principais causas do atraso brasileiro, a roubalheira que junta os setores público e privado. Se for abafado por um acordão, como aconteceu com a Operação Lava-Jato, o país estará condenado a mais alguns anos, talvez muitos, de atraso político e econômico.

O pretexto alegado para a derrubada de toda a Lava-Jato foi, oficialmente, o comportamento impróprio do promotor Deltan Dallagnol e do juiz Sergio Moro na condução dos processos. Mesmo considerando que houve de fato tal comportamento, ficou provado, escandalosamente provado, que havia grossa corrupção. Mas toda essa corrupção e seus agentes foram apagados. É como não tivesse ocorrido nada, a não ser uma conspiração do “tribunal de Curitiba” — como se chamava então a 13ª Vara da Justiça Federal, onde corriam os casos da Lava-Jato.

Favela tem uma geografia própria, complexa e inteligente, por Preto Zezé

O Globo

Mílton Santos mostrou que o espaço não é cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência

No ano em que Mílton Santos completaria um século de vida, a melhor homenagem ao geógrafo baiano talvez não seja apenas repetir seus conceitos nas universidades. É devolver suas ideias ao chão que ele nos ensinou a observar: o território vivido. Ele mostrou que o espaço não é cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência e da invenção.

Quando olho para as favelas brasileiras, vejo mais que moradia popular, ausência do Estado ou estatística. Vejo uma geografia própria, complexa, inteligente e pouco compreendida pelo Brasil oficial.

O Brasil chega um século atrasado ao 5x2, por Mafalda Anjos

Folha de S. Paulo

Em 1926 já Henry Ford estabeleceu a regra dos cinco dias de trabalho

Na Europa a discussão já avançou para a semana dos quatro dias

Ainda lembro o que ouvi de um jornalista da velha guarda quando comecei a trabalhar: "mais do que o que você faz, importa o tempo que passa parecendo fazer algo importante". Arregalei os olhos: era a absoluta antítese do que tinha aprendido nos meus anos de Escola Alemã, onde, à boa maneira germânica, era incutida a lógica da produtividade e eficiência.

Infelizmente, confirmei que era mesmo assim que as coisas funcionavam em muitas empresas —entre cafezinhos, risadas, distrações e conversas de corredor, passava-se ali, só porque sim, demasiado tempo além do que seria necessário.

Lembrei-me disto a propósito do fim da escala 6x1, um tema quente ao qual o Brasil chega com um século de atraso. Foi precisamente em 1926 que Henry Ford, o visionário que revolucionou a indústria automóvel e os métodos de produção em massa, definiu como regra na sua empresa a semana de cinco dias, estabelecendo um dia de descanso extra para 55 mil empregados.

Dilema do STF, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Crise resulta do entrelaçamento de questões individuais e institucionais

Sair dela exige justamente a separação radical dessas duas dimensões

A crise do Supremo opera em dois níveis distintos. O primeiro envolve indivíduos: conflito de interesses, violações de decoro, suspeitas de corrupção. Há aqui um contínuo que vai de "pecadillos" antirrepublicanos a denúncias graves. O segundo nível é mais profundo: diz respeito à instituição enquanto tal. Aqui já não se trata apenas de condutas pessoais, mas de seu padrão de atuação e relação com os demais Poderes.

A utopia de um Brasil sem racismo, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

País seria uma das nações mais poderosas e desenvolvidas do mundo

Ponto de partida é a reparação depois da assinatura da Lei Áurea

A utopia de um Brasil sem racismo é meu exercício de ficção predileto. Já me peguei pensando nisso umas mil vezes. Acredito que seríamos uma sociedade muito melhor, mais justa e menos desigual se o Estado tivesse promovido reparação depois da assinatura da Lei Áurea, em 1888.

Hoje, 138 anos após a "abolição da escravatura" no último país das Américas a libertar os africanos escravizados, compartilho um vislumbre deste meu devaneio.

Palavras na ponta da língua, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Você vai dizer alguma coisa e, de repente, a palavra lhe escapa. O nome disso é letologia

Um dicionário com essas palavras teria de ser um volume de 500 páginas, todas em branco

Sabe aquela frase que você começa a dizer e, de repente, a palavra-chave lhe escapa e você não consegue se lembrar de jeito nenhum? Segundos antes, ela estava na ponta da língua, pronta para ser dita, e veio aquele bloqueio sem explicação. O poeta Antonio Carlos Secchin, meu amigo e colega da Academia Brasileira de Letras, descobriu o nome para isso: letologia —a incapacidade temporária de lembrar uma palavra. Vem do grego: lêthê, esquecimento, e logos, palavra. Letologia —grave bem para não esquecer.

Poesia | Eu, Etiqueta, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Mariana Aydar, Alceu Valença e Mestrinho - Coração Bobo (Ao Vivo no Altas Horas)

 

domingo, 10 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pluralismo é crítico para as universidades

Por O Globo

Professores reagem à intolerância e ao radicalismo com manifesto em defesa da liberdade acadêmica

Universidades deveriam ser espaços abertos ao pensamento livre, ao debate de ideias, à convivência entre diferentes visões políticas, ideológicas, religiosas ou de comportamento. Infelizmente, não é o que se tem visto no Brasil. Em vez de abrirem as portas a divergências e discussões produtivas, as instituições de ensino superior — em especial as públicas — têm se fechado como redutos de radicalismo, intolerância, censura e pensamento único. Por isso foi um sopro de sensatez o manifesto divulgado por um grupo de docentes e pesquisadores de diferentes partes do país em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica.

Manifestações e críticas são frequentes no ambiente universitário. Devem ser não apenas toleradas, mas encorajadas, desde que transcorram em clima pacífico e respeitoso. Não é o caso dos sucessivos episódios de cancelamento de eventos, abaixo-assinado contra professores e pesquisadores, boicote a aulas, campanhas sórdidas em redes sociais, intimidação a palestrantes e até agressão física. Está em xeque a própria essência da universidade: acolher todas as correntes de pensamento.

Gonet e o canto das sereias no Master, por Thiago Bronzatto*

O Globo

A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a escalar as apurações em Brasília

Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na “Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu propósito?

Relógio conta as horas para Ciro, por Míriam Leitão

O Globo

Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac” que ele usava contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de Flávio Bolsonaro de tê-lo na vice

O senador Ciro Nogueira quando era ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica” a favor do banqueiro.

Esperteza que pode engolir Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão

A lição costumava ser repetida por políticos mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono.

Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na cadeira de governador.

O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.

Cabo de guerra, por Dorrit Harazim

O Globo

Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário

A palavra hormuz deriva do nome de uma divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, é difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.

Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade, inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o atual cabo de guerra.

O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão

“Pelas ruas vis deve passar um homem que não seja ele próprio vil, que não esteja maculado nem tenha medo. O detetive, nessa espécie de história, deve ser esse homem. Ele é o herói; ele é tudo. Deve ser um homem completo, um homem comum e, contudo, um homem incomum. Deve ser, para usar uma frase já bastante gasta, um homem de honra — por instinto, inevitavelmente, sem pensar nisso, e certamente sem dizê-lo. Deve ser o melhor homem de seu mundo e suficientemente bom para qualquer mundo.”

Essa passagem do ensaio literário A simples arte de matar (“The Simple Art of Murder”), de Raymond Chandler (LPM), é a melhor definição do herói noir dos romances policiais norte-americanos. O homem solitário, moralmente íntegro, mas mergulhado num mundo corrompido, no qual a fronteira entre crime e legalidade se tornou nebulosa. O herói atravessa uma sociedade decadente sem ilusões sobre justiça ou pureza como um Ulysses da sarjeta.

Faltam seis meses para a eleição. E aí? Por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

As coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas vezes permanecem presas a lógicas do passado. É hora de encarar a eleição de 2026 como o fenômeno novo que ela realmente é

A seis meses das eleições, é preciso compreender que o pleito de 2026 não é apenas mais um capítulo na nossa cronologia democrática. Embora possa parecer um processo rotineiro, o contexto atual é inédito. O mundo político pós-pandemia não é o mesmo, apesar de insistirmos em olhá-lo como uma continuação óbvia do passado. Isso é um fato para todo o mundo, e o Brasil não é exceção. Para decifrar o que nos espera em outubro, proponho três pontos de observação essenciais.

Em primeiro lugar, destaca-se a diversidade do campo político. A ciência política descreveu, por muito tempo, a existência de uma "direita envergonhada" no Brasil pós-redemocratização. Nos anos de 1990, poucos candidatos assumiam tal posição política, temendo a associação imediata com o período iniciado em 1964. Éramos um país de esquerda e de um vasto centro; a própria esquerda hoje deve olhar com nostalgia para a época em que rotulava Fernando Henrique Cardoso — um social-democrata — como a face da direita brasileira.

A verdade encontra um caminho, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

A desinformação é considerada o mal maior deste século. Mas existe um porém: em algum momento, a verdade se estabelece. Ela encontra caminhos e normalmente eles são institucionais.

A desinformação é considerada o mal maior deste século. Porque ela pode decidir eleições, destruir a democracia, matar pessoas. A IA generativa eleva o risco a uma potência extrema, até incalculável. O uso de inteligência artificial para criar conteúdos falsos cresceu 308% entre 2024 e 2025, segundo dados da Agência Lupa. Estamos na véspera de uma campanha eleitoral mais uma vez polarizada, e as fake news serão fermento para a animosidade. 

Segundo o DataSenado, cerca de 70% dos brasileiros afirmam ter visto notícias falsas recentemente e 91% da população acredita que as fake news representam um perigo real para a sociedade. Ou seja, estamos todos preocupados.

Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos

A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores democráticos de hoje?”

Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional.

Economia fraca amplia desgaste de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Humor dos cidadãos poderá melhorar se houver condições para juros menores

Boa notícia para a direita e para o précandidato Flávio Bolsonaro: o mau humor dos cidadãos impõe ao presidente Lula um desafio singular. A redução da popularidade presidencial contrasta com alguns dos principais indicadores econômicos. O desemprego de 6,1% no primeiro trimestre foi o menor para esse período na série iniciada em 2012. O ganho médio mensal dos brasileiros em 2025, R$ 3.367,00, foi 5,4% maior do que o do ano anterior. O bolo dos ganhos também foi recorde. A massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, R$ 361,7 bilhões no ano passado, foi a maior da série, superando por 7,5% a de 2024 e por 23,5% a de 2019.

Lula e Trump dominam teatro político, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Uma semana antes de visitar Xi Jinping em Pequim, Donald Trump se reuniu com Lula. Embora fosse um pedido antigo do Brasil, a reunião foi marcada às pressas. Não havia agenda preparada com antecedência pelos diplomatas dos dois lados. A substância dos assuntos não era importante. Para Trump e Lula, a reunião bastava.

Por isso ela foi um sucesso: as muitas divergências não foram endereçadas. Cada um disse o que quis, sem contestação. Os assuntos foram lançados, sem um objetivo que não a simples ocorrência de uma conversa longa e amistosa.

O quase monopólio da China sobre minerais críticos fragiliza os EUA. A guerra contra o Irã agravou a situação. O Pentágono informou em sessões sigilosas com integrantes das Comissões de Defesa da Câmara e do Senado que consumiu metade dos seus mísseis mais sofisticados – Tomahawk, Atacms, Thaad e Patriot.

Só a pizza salva Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se investigação que pegou Ciro Nogueira se estender, vida do filho de Bolsonaro deve ficar difícil

Bolsonaristas querem salvar a si mesmos e a aliados de direita, mas que mão pesada caia sobre Moraes

Segundo a Polícia FederalCiro Nogueira (PP-PI), que Flávio Bolsonaro já considerou vice dos sonhos por sua fidelidade a Jair Bolsonaro quando foi seu ministro da Casa Civil, é ladrão. Ciro recebeu dinheiro do Banco Master para apresentar um projeto de emenda à Constituição que teria dado sobrevida à ciranda do Master, com custos incalculáveis para a economia brasileira.

Se você costuma ler essa coluna, já sabe de que projeto se trata. É a emenda 11 à PEC 65/2023, que é assunto aqui quase toda semana. Segundo a PF, ela foi escrita no Banco Master e entregue a Ciro em um envelope para ser apresentada ao Congresso.

Silêncio de peixe fora d'água, por Muniz Sodré

Por Folha de S. Paulo

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de 'moderado'

Se desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador

"Peixe morre pela boca" é velho ditado com aplicações novas na vida política. Disso é ilustrativo Bolsonaro 2.0, Flávio, filho 01 do ex-presidente encarcerado. Candidato à Presidência da República por mérito digital, logo, críptico, evita falar sobre programa político. Há razões, segundo o irmão 03: "Ele morde a isca com mais facilidade do que lambari em anzol de mosquito". Uma arrelia de quem pesca em águas turvas.

Fazendo e desfazendo a Constituição, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história da Carta dos EUA, que se destinava a regular o uso de terras

Adaptabilidade é ao mesmo tempo o ponto forte e a vulnerabilidade da Carta

Uma boa pedida para quem quer entender melhor o que acontece nos EUA é "The Making & Breaking of the American Constitution", do historiador Mark Peterson (Yale). Para Peterson, constituições são métodos para administrar a riqueza de um país, daí que ele começa sua obra sobre a história constitucional americana com a batalha de Hastings na Inglaterra de 1066. Gerir riqueza, tanto na Inglaterra do século 11 quanto nos EUA do 18, era regular o uso das terras agricultáveis.

É mito achar que delações fazem Brasília tremer, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Quem sabe o que fez no verão passado não se aflige. Antes, atua para escapar dos infortúnios do amanhã

A corrida é para ver quem cruza primeiro a linha de chegada: se investigados ou investigadores

Há algo de mito, daqueles que facilitam o raciocínio, na história de que Brasília "treme" a cada expectativa de delação premiada de investigados presos.

O pessoal que sabe o que fez em verões e invernos passados não perde o sono nem tempo com aflições comuns aos inocentes. Trata mesmo é de se mexer para encontrar um jeito de escapar dos infortúnios do porvir.

Fuzil de olhos verdes, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança. Ela e dezenas de astros americanos

Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o Brasil lutando pela causa da liberdade

Em coluna recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de que Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano, a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse pela guerra.

Poesia | Viva o dia das mães! - Para Sempre, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mãe, Meu Fado

 

sábado, 9 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Senado não pode ser omisso ante provas contra Ciro

Por O Globo

Senador deve ter oportunidade de se defender no Conselho de Ética, mas cassação parece desfecho provável

As provas colhidas pela Polícia Federal (PF) sobre as relações entre o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP), e Daniel Vorcaro, do Banco Master, são eloquentes. O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado não pode fechar os olhos às evidências. É imperativo conceder a Ciro amplo direito à defesa — na Justiça e no Conselho. Ele afirmou que não renunciará ao mandato e, em nota, classificou a operação da PF como “tentativa de manchar sua honra”. Mas o Parlamento tem o dever de agir em nome da preservação do decoro. Com base nos fatos disponíveis, sua cassação parece o desfecho provável. Por ora, ele deveria afastar-se ou ser afastado temporariamente do mandato para se concentrar na própria defesa, sem prejuízo de voltar ao Senado se for inocentado.

Estranhos tempos mórbidos, por Roberto Amaral*

“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”
Millôr Fernandes


Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.

São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

Garantir a mamata do clã é único projeto de Flávio Bolsonaro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Primeira mulher de Jair, Rogéria mira o Senado, como Michelle

Num eventual governo, Eduardo e Carlos vão povoar o Palácio do Planalto

Flávio Bolsonaro se prepara para dar um peteleco em Cláudio Castro. Condenado no TSE por abuso de poder político e econômico e tornado inelegível, mas insistindo em concorrer ao Senado, Castro viu despencar sua aprovação como governador do Rio de Janeiro, segundo a Quaest. Passou de 53% em outubro —mês em que ocorreu a matança nos complexos da Penha e do Alemão— para 35%. Entre os entrevistados, 47% rejeitam sua administração.

Depois de Ciro, o medo de ser o próximo, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidente do PP foi o anfitrião de Vorcaro no Congresso

Senadores evitam se pronunciar por medo de provocar guerra contra líder de partido poderoso

O celular de Ciro Nogueira toca. O nome de Daniel Vorcaro aparece na tela iluminada do aparelho e a reportagem da Folha, que entrevistava o presidente do PP, flagra a ligação.

Era abril de 2025, e o senador tinha apresentado, apenas cinco dias após o anúncio da compra do Master pelo BRB, proposta para aumentar a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) dos bancos.

O aumento valeria exclusivamente para as instituições financeiras com maior lucro, os bancões. A emenda foi apresentada ao projeto do Executivo que isentava o IR para quem ganha até R$ 5.000 —a proposta mais importante para Lula.

Dinheiros degradados, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Brasil insiste em piorar uma das principais invenções humanas, a moeda que é o meio de troca universal

Vales refeição e FGTS são formas pioradas de dinheiro que só beneficiam lobbies específicos

dinheiro é uma das mais importantes invenções da humanidade. Ele pode ser descrito como uma realidade imaginária, abstrata e contável, que funciona como meio de troca universal, com o qual todos os membros de uma sociedade podem intercambiar as coisas que produzem e os serviços que prestam por aqueles de que têm necessidade.

Sem o dinheiro como intermediário, se eu quisesse levar um filé para o jantar da família, teria de encontrar um pecuarista ansioso para adquirir colunas de jornal, o que quase certamente me condenaria à inanição. A economia tem uma escala com a existência desse meio de troca e teria outra se dependêssemos só do escambo.

Política e negócios, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O escândalo Master é o retrato bem desenhado das relações do mundo econômico com a política no Brasil. Se for levada às últimas consequências, a investigação desmontará biografias na direita e na esquerda

Ciro Nogueira, presidente do Progressista, senador pelo Piauí, chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, entre agosto de 2021 e dezembro de 2022, expoente do Centrão, estava no bolso de Daniel Vorcaro. Recebia mesada de R$ 300 mil (R$ 500 mil?) para ajustar os interesses do banco ao processo político. Foi ele o autor de projeto de emenda — não aprovado — elevando de R$ 250 mil para um milhão a responsabilidade do Fundo Garantidor de Créditos, o que daria mais folga para o banco continuar a vender títulos falsos, cujo prejuízo seria coberto por outras instituições financeiras. Uma esperteza bancária, coberta por esperteza político-partidário. E tudo isso tem valor. O representante do Piauí cobrou caro, mas foi desmascarado pela Polícia Federal. Está na mira do Supremo Tribunal Federal.

Treze de Maio, passado e presente, por Jorge Santana*

Correio Braziliense

O quilombo Família Thomaz, na cidade Treze de Maio, em Santa Catarina, é categórico em revelar o quanto os negros foram apagados, ilegalmente expropriados de suas terras e vítimas de racismo.

Em uma audiência do Supremo Tribunal Federal (STF) que tinha como pauta a inconstitucionalidade de lei estadual que pôs fim às políticas de ações afirmativas em Santa Catarina, o governo de Jorginho Melo (PL) defende tal descalabro alegando que o estado catarinense tem a maior população branca entre todos os estados — portanto, não necessita de políticas afirmativas destinadas às pessoas negras e indígenas. A lei do fim das cotas raciais foi aprovada no ano passado e sancionada em 2026, provocando diversas críticas.