terça-feira, 4 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Faltar a debates é desrespeito ao eleitor

Por O Globo

Lula e Flávio não deveriam fugir ao questionamento a suas propostas dentro de ambiente jornalístico

Os debates entre candidatos servem de guia ao eleitor antes de depositar o voto na urna. Postulantes aos mais altos cargos da República deveriam se empenhar em participar desses eventos para apresentar suas propostas e compará-las às dos adversários, sem receios de se expor a perguntas ou situações incômodas. Infelizmente não é o que se vê. São frustrantes os sinais dados até agora pelos candidatos à Presidência pelo PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo PL, senador Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas de intenção de voto.

Disputa pela Presidência está aberta e polarizada na largada eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, embora já não tenham o mesmo peso de outras eleições, será um instrumento de projeção nacional de candidaturas regionais

A realização das convenções eleitorais foi marcada pela polarização nas eleições à Presidência de República, que está aberta, com pequena vantagem para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia a reeleição, em relação a Flávio Bolsonaro (PL). Esse cenário provavelmente se manterá até o início da campanha eleitoral no horário gratuito de rádio e televisão, em 28 de agosto. Essa data é importante para os demais candidatos que aspiram um lugar no segundo turno e estão embolados em torno de 3% ou 4% dos votos.

Acontece que os ex-governadores de Goiás Ronaldo Caiado (União) e de Minas Romeu Zema (Novo), por serem menos conhecidos fora de seus estados, até agora não conseguiram nacionalizar suas candidaturas. O horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, embora já não tenham o mesmo peso de antes nas eleições, será um instrumento de projeção de suas candidaturas para fora dos dois estados. O raciocínio vale também para o candidato do Missão, Renan Santos, mais conhecido em São Paulo.

Os sem-sem, por Merval Pereira

O Globo

A eleição presidencial dentro de dois meses parece mais uma etapa da travessia política para 2030 do que a possibilidade de renovação

A eleição presidencial dentro de dois meses parece mais uma etapa da travessia política para 2030 do que a possibilidade de renovação que dê ao brasileiro esperança de quatro anos iniciais de uma retomada do crescimento econômico e melhoria social. Nada de “50 anos em 5”, como o slogan de JK em 1955. Nada parecido com o Plano Real de 1994. Nada comparável à vitória de Lula em 2002, depois de três derrotas seguidas. Nessas e noutras ocasiões, a maioria votou com o olho no futuro imediato, com a sensação de que as coisas melhorariam. Agora, vota-se para impedir a continuação de Lula ou Bolsonaro.

Baixarias na Casa Branca ajudam a tornar o mundo estranho, por Fernando Gabeira

O Globo

Quando não está bombardeando o distante Irã, Trump está insultando os repórteres que cobrem o governo americano

A gente vive dizendo que o mundo anda estranho. Não pretendo dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que parte dela vem do norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Quando não está bombardeando o distante Irã, está insultando os repórteres que cobrem a Casa Branca. É nossa ração quase diária de amargor.

Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha, Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma, mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados pela agenda intensa.

Socialistas e conservadores terão de aprender a conviver, por Pedro Doria

O Globo

Cultivamos dois grupos intolerantes na sociedade

Falsa equivalência. Dentre os muitos vocábulos e expressões que entraram em nosso cotidiano político nestes últimos dez anos desde o impeachment, essa é uma das mais perigosas. Quando gente de esquerda saca a frase do bolso, quer dizer, na verdade, que não vem de seu campo a ameaça de golpe de Estado. E é verdade, não vem mesmo. Mas quem resume a crise da democracia brasileira ao golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro não entendeu o tamanho do buraco.

Democracia não se resume a instituições de pé. Deputados batendo ponto na Câmara de terça a quinta, o presidente aparecendo no Planalto de segunda a sexta, e ministros do Supremo Tribunal Federal decidindo processos semanalmente não tornam uma democracia plena. O que faz uma democracia funcionar é a capacidade de a sociedade acreditar nela. E nós, coletivamente, não acreditamos na nossa. Afinal, acreditar numa democracia quer dizer confiar que a maior parte das pessoas, numa sociedade, vota de boa-fé. Vota com as melhores intenções. Vota partindo de valores legítimos, mesmo quando distintos dos nossos. Mais: tem plena capacidade de avaliar as melhores escolhas de acordo com sua leitura de prioridades.

O dilema fiscal do próximo governo, por Míriam Leitão

O Globo

Campanhas evitam detalhar cortes de gastos, mas o fato é que o próximo presidente terá de lidar com o desequilíbrio das contas públicas

O governo tem discutido internamente que, se for reeleito, terá que fazer no próximo mandato um ajuste nas despesas de 2 pontos percentuais do PIB. O projeto de Orçamento, já enviado, prevê um superávit primário crescente de 0,5% no ano que vem, 1% em 2028, e 1,5% em 2029. O atual governo não reajustou o Bolsa Família, que continua com o mesmo valor de R$ 600 desde 2022. Além disso, ele aprovou um gatilho que limita o gasto de pessoal. É isso que explicam as autoridades da área econômica quando se pergunta o que será feito diante do aumento do déficit e da dívida pública. Dizem que têm trabalhado pela consolidação fiscal e que vão continuar melhorando as contas.

Economia e Política, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

O verdadeiro poder, aquele capaz de determinar o alcance das opções práticas dos países e dos cidadãos, tornou-se virtualmente global

Peço licença ao caro leitor de nosso Valor para invocar Carl Schmitt, cientista político alemão, ideólogo do nazismo, em seu livro “O Nomos da Terra”, publicado em 1950.

Schmitt demonstra que a dominância dos Estados Unidos consolidaria, nas relações internacionais, a hegemonia econômica. Isto implica necessariamente o surgimento de uma forte tendência a ultrapassar e a negar as barreiras territoriais e políticas impostas pela existência dos Estados Nacionais. Ele diz: “A soberania territorial se transforma num espaço vazio, aberto aos processos socioeconômicos. O espaço da potência econômica determina o campo de ação do direito das gentes”.

Schmitt vira pelo avesso a ideologia da globalização: o predomínio do econômico, ou seja, a lógica da expansão mercantil-capitalista, exige uma enorme concentração e centralização do poder e, por isso, políticas permanentemente agressivas em relação às pretensões de autodeterminação dos povos, às suas formas de vida e aos seus costumes.

Duas velocidades da reforma institucional, por Luiz Schymura

Valor Econômico

Algumas instituições sabem se reformar sozinhas, outras transformam qualquer tentativa em mais uma peça do próprio mecanismo que as protege

Em busca de uma gestão mais eficaz da política monetária, os bancos centrais vêm passando por um processo constante de aprimoramento institucional. Não por acaso, Kevin Warsh já chega ao Federal Reserve seguindo essa lógica: em vez de anunciar mudanças, criou cinco forças-tarefas para estudar os pontos mais sensíveis da política monetária americana antes de decidir o que fazer. Os grupos reúnem ex-banqueiros centrais, acadêmicos e executivos financeiros, gente de fora do círculo mais estreito do próprio Fed, e os resultados só devem aparecer daqui a alguns meses. Warsh tem opiniões fortes sobre quase todos esses temas, mas não as impôs de saída. Escolheu primeiro construir, com evidência e deliberação coletiva, o consenso técnico que lhe permitirá convencer o resto do Fomc. É um caso de livro-texto de reforma institucional bem conduzida: o ritmo é lento, mas a legitimidade do resultado tende a ser maior. Contudo, nem toda instituição consegue se reformar dessa maneira.

Na era da IA, MG opta pela degradação natural, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Nem a inteligência artificial seria capaz de reproduzir o capítulo final da novela da candidatura Cleitinho

A inteligência artificial tem sido a geni desta reta final de campanha, com peças como o avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro na convenção do PL, mas não se pode atribuir aos seus predicados o capítulo final da novela da candidatura ao governo de Minas do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). O vídeo divulgado na tarde desta segunda-feira pelo presidente do Republicanos e deputado federal Marcos Pereira (SP), ao lado do senador e do presidente estadual do partido, Euclydes Pettersen, é fruto da degeneração natural da política brasileira.

Favorito à disputa estadual, o senador, que foi eleito em 2022 nas asas do bolsonarismo, manteve suspense até a semana passada. Faltou à convenção de 25 de julho, mas publicou um vídeo de inteligência artificial em que aparecia com dois parentes já falecidos, o pai e o irmão. Recebia, do primeiro, um incentivo e, do outro, a bandeira de Minas.

Na cronologia dos fatos exposta por Marcos Pereira, o partido esperou uma decisão de Cleitinho até a noite de terça-feira. Como esta decisão não aconteceu, o Republicanos divulgou, em nota, que ele não seria candidato. Na quarta-feira, Cleitinho deu uma entrevista em que, exaltado, diz ter 40% nas pesquisas e reitera a candidatura: “a voz do povo é a voz de Deus”.

Minas e o Brasil choram, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao chorar, encerrar uma novela enfadonha e dizer, finalmente, que não vai disputar o governo do Estado, o senador Cleitinho produziu uma imagem bastante adequada ao desmantelamento da política em Minas Gerais, que, além de ser uma síntese do Brasil e do eleitorado nacional, passou a ser também o retrato da balbúrdia da disputa presidencial de 2026.

Assim como Cleitinho, campeão de votos, passou a campanha no vai não vai e chorou ao deixar Flávio Bolsonaro na mão, acontece de tudo nesta eleição pelo País afora. O distinto público, massacrado por escândalos de todo lado e pelas versões das redes sociais, não sabe se é para rir, chorar – ou votar.

Melhor evitar, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É abismante a hipótese de que os donos de partidos do que se chama de Centrão resistam a se aliar a Flávio Bolsonaro “por medo” do Supremo. Para além do já paralelamente constituído Tribunal Xandônico Eleitoral, seria o “fator STF” interferindo na eleição por meio de “recomendações”: juízes da Corte constitucional que usariam o poder togado para fazer carga sobre agentes políticos que têm foro por prerrogativa de função naquela mesma Corte constitucional.

“Recomendações” prudentes de quem controla a informação e a caneta para materializá-las em decisão serão “recomendações” autoritárias. “Recomendações” autoritárias daqueles que são os gestores dos tempos de inquéritos não serão recomendações.

Otoni de Paula desafia bolsonarismo ao defender voto em Lula, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Deputado é sintoma das desconfianças e decepções de evangélicos com a campanha de Flávio

Rompimento aconteceu em 2024, quando ex-presidente não o apoiou para concorrer à Prefeitura do Rio

O principal adversário de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos é um ex-bolsonarista. Na semana passada, o pastor e deputado Otoni de Paula (PSD-RJ) anunciou uma proposta ousada: que a direita apoie Lula contra Flávio, caso os dois se enfrentem no segundo turno.

O PT nunca precisou tanto de apoio para intermediar sua relação com evangélicos. Otoni cumpre essa tarefa melhor do que um pastor de esquerda: por se identificar como conservador de direita, suas falas chegam à massa de pentecostais pobres, que têm se distanciado do PT pelas pautas morais.

Gente ou passarinho? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Banco Central Europeu lança consulta pública para ajudar a definir desenho de cédulas de euro

É preciso escolher entre personagens históricos ou figuras de aves para estampar a frente das notas

O Banco Central Europeu (BCE) lançou consulta pública para ajudar a definir o desenho das futuras cédulas de euro. A questão mais premente é determinar se o anverso (frente) das notas será ilustrado por personalidades históricas ou por figuras de aves. O convite para votar foi feito a cidadãos europeus, mas qualquer um pode opinar. A consulta não tem efeito vinculante. A decisão final caberá ao BCE.

A metamorfose ambulante troca de pele, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O candidato que já foi vários personagens agora se lança nas vestes do sujeito 'porreta'

O presidente precisa convencer o eleitor de que desta vez fará o que não fez em governos passados

O candidato Luiz Inácio da Silva tem dois meses daqui até a eleição para convencer os brasileiros indecisos a aderir às fileiras dos convertidos, para os quais apresentou um esboço de plano de governo na convenção petista de domingo último (2).

O presidente Lula, por sua vez, tem a difícil tarefa de, no mesmo espaço de tempo, explicar ao público em geral por que nos 18 anos de governo que o PT está prestes a completar já não se fez o prometido para adiante, quando o partido fizer 22 anos de poder.

Desastres climáticos: falta prevenção, sobra desculpa, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

No vendaval da semana passada houve falhas no sistema de informação

Agenda do Congresso a favor do agro fragiliza proteção à natureza

As explicações meteorológicas que se seguem a um evento climático extremo não podem funcionar como desculpa ou álibi para a falta de prevenção aos desastres cada vez mais rotineiros e intensos.

O vendaval que atingiu o litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro na semana passada, causando destruição e mortes, ganhou um nome chique: "bore ondular". O fenômeno se dá quando uma massa de ar frio avança sobre o ar excepcionalmente quente. Sua magnitude foi inédita para padrões brasileiros. Ok.

Poesia | Para viver um grande amor, de Vinicius de Moraes

 

Música | Chico Buarque: eu te amo (DVD Anos Dourados)

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ilusão estatística pode mascarar violência maior

Por O Globo

Homicídios caíram 21%, mas houve salto de 26,5% em desaparecimentos, despertando suspeita sobre os dados

É muito provável que as estatísticas sobre violência no Brasil estejam subestimadas. O alerta foi dado pelo aumento na quantidade de “desaparecidos”. Há cinco anos vive-se um período auspicioso de queda nos homicídios. De 2021 a 2025, houve redução de 20,2%, para 31.448, segundo o Sinesp, plataforma de dados de segurança pública do Ministério da Justiça. A taxa de assassinatos por 100 mil habitantes caiu de 18,7 para 14,7. No mesmo período, aumentou o contingente de desaparecidos. Os dados do Sinesp mostram que eles passaram de 67.362 para 85.233, ou 234 por dia, um salto de 26,5%. A taxa por 100 mil habitantes subiu de 32 para quase 40. O dado levanta a suspeita de que muitos assassinatos sejam classificados como desaparecimentos, provocando uma ilusão estatística nas taxas de homicídio.

Moderação mira nos indefinidos por 1º turno, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Em 1h13 min de discurso Lula não menciona “soberania” uma única vez e diz que idade favorece reconhecimento de erros e omissões

Ao ser oficializado como candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terceirizou o discurso da soberania para o vice, Geraldo Alckmin (“a urna é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”). Não foi por falta de tempo. Lula falou, sem teleprompter, apenas com pontos de um roteiro anotados em uma folha de papel, durante uma hora e 13 minutos.

Preferiu focar na defesa das mulheres (“homem que bate em mulher não precisa votar em mim”), na comparação com Pelé (“ele disputou quatro copas e esta é minha sétima”) e no reconhecimento de seus erros e omissões (“Peço desculpas pelos erros que cometi e pelo que deixei de fazer”).

Lula e Flávio chegam à reta final das convenções sem ampliar alianças, por César Felício

Valor Econômico

Neutralidade dos partidos do Centrão é uma das principais características desta eleição presidencial

Em 2022, apenas 69 deputados pertenciam a partidos que não lançaram e nem apoiaram nenhum dos candidatos a presidente da República. Neste ano, salvo algum movimento de última hora, serão 178. A decisão dos partidos do Centrão de se ausentar da eleição presidencial é uma das principais características desta sucessão. Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu ampliar a sua frente, nem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguiu a adesão de partidos que compuseram o governo do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e nem as demais candidaturas presidenciais de direita, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), saíram do isolamento.

São Paulo e Pernambuco, prévia para o futuro? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Eleições para governador apontam para novos rumos da política brasileira

Antes de iniciar a leitura, deixo aqui um alerta: esta coluna em particular contém alta dose de “wishful thinking”, aquele desejo íntimo do autor que às vezes contamina a análise racional dos fatos.

Caminhamos para a terceira eleição seguida em que se colocam frente a frente os dois líderes mais populares do Brasil pós-ditadura. Embora só tenham se enfrentado diretamente em 2022, Lula e Bolsonaro mediram forças em 2018, com Haddad assumindo o lugar do líder petista, que estava preso. Em 2026, os papéis se invertem; com Jair em prisão domiciliar, é Flávio quem substitui o pai nas urnas que eles próprios contestam.

Piora o desequilíbrio das contas públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Um ajuste fiscal também exige redução de gastos com saúde e educação e corte substancial nas emendas parlamentares

Quando o arcabouço fiscal foi lançado, em agosto de 2023, comentamos aqui que o novo sistema só alcançaria o equilíbrio das contas públicas com forte aumento da arrecadação tributária. Pois o governo conseguiu significativo aumento das receitas — e, mesmo assim, a dívida entrou numa trajetória de alta. A despesa cresceu ainda mais que a receita.

De acordo com dados divulgados pelo Banco Central (BC) na última sexta-feira, a dívida bruta de todos os níveis de governo (federal, estaduais e municipais) alcançou em junho R$ 10,8 trilhões, o equivalente a 81,9% do PIB. Subiu R$ 190 bilhões só em maio. Para comparar: o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) recomenda que países emergentes como o Brasil tenham dívida em torno de 40% do PIB.

O discurso que Lula não fará, por Demétrio Magnoli

O Globo

“Trump pretende dobrar o Brasil. Fracassará. Meu governo decidiu encarar o tarifaço como oportunidade de modernização econômica. Movemo-nos pelo interesse nacional, não pelo interesse eleitoral.

Desisti do programa Brasil Soberano. Os setores tarifados abrangem, largamente, a ‘indústria Paulo Skaf’: empresas pouco competitivas, historicamente protegidas. Não receberão subsídios do governo. Concedê-los seria ampliar a dívida pública, pressionando ainda mais a taxa de juros. Não agiremos como seguradora de empresários, transferindo-lhes a renda do povo em nome do protecionismo.

Deixemos o protecionismo para Trump. Nosso caminho é o inverso: como fizeram Indonésia e Vietnã, baixaremos taxas alfandegárias para estimular a importação de bens de capital e insumos, impulsionando a modernização industrial.

É preciso saber onde nasce o ressentimento do eleitor, por Preto Zezé

O Globo

Eleição será decidida por quem conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo

Por que tanta gente anda votando com raiva? A política brasileira continua procurando a resposta nas estatísticas, quando ela está no ônibus lotado, na fila do posto de saúde e na mesa de quem trabalha, mas não fecha as contas. Quem olha apenas para os indicadores encontra motivos para comemorar. O desemprego está em 5,4%. Mas basta conversar com quem dirige por aplicativo, vende comida na rua, faz entregas de bicicleta ou acumula dois ou três trabalhos para perceber que há outro Brasil, onde o emprego voltou, mas a tranquilidade não.

Quem controla a burocracia? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

As regras criadas para controlar servidores fortalecem sua influência

Por que governos tão diferentes quanto os de Bolsonaro e de Lula acabaram entrando em conflito com as mesmas burocracias do Estado?

Bolsonaro acusou o Ibama de travar o desenvolvimento, confrontou a Anvisa na pandemia e frequentemente atribuiu aos servidores de carreira a resistência às suas políticas. Lula, por sua vez, criticou o Banco Central pela condução da política monetária, contestou pareceres técnicos da área econômica e também entrou em atrito com órgãos ambientais e agências reguladoras em torno de projetos considerados prioritários pelo governo.

A explicação mais comum é ideológica. Mas ela é insuficiente. Há uma razão institucional para que governos de orientações tão distintas esbarrem nos mesmos atores. Nas últimas décadas, democracias passaram a exigir que decisões públicas fossem justificadas por estudos técnicos, análises de impacto, consultas públicas e pareceres especializados. Ao exigir justificativas técnicas, o sistema fortaleceu justamente quem produz essas justificativas.

Lula expõe dilemas do legado e da sucessão em discurso, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Na convenção do PT, presidente de 80 anos surge como político buscando manter relevância e inovação

Petista sugere Haddad como herdeiro, mas cita condicionantes difíceis de serem cumpridas pelo aliado

Naquele que deve ser seu último discurso aceitando uma candidatura à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva expôs sua condição de líder da esquerda brasileira que busca manter relevância enquanto lida com a noção de legado e a falta de uma sucessão organizada.

Na convenção do PT neste domingo (2) em São Paulo estava o narcisista usual dos palanques. A primeira metade de sua fala, de improviso, abusou do tom íntimo e autocentrado do "Lulinha da dona Lindu", que tudo venceu.

A hagiografia acompanha a carreira do petista, de resto única. Até uma foto sua como criança foi parar na camiseta de Janja, primeira-dama resgatada pelo marido do papel de acessório de palco —uma escorregada da organização, admoestada pelo próprio presidente.

Meritocracia na base e patrimonialismo no topo, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Profissionalização da base da burocracia pode coexistir com a patrimonialização de seus centros de comando

Mas o que ainda se observa em nosso país são estruturas patrimoniais e familistas

Temos assistido a uma erosão sustentada da capacidade de Estado em nosso país. Em termos comparativos, nós tivemos uma trajetória relativamente bem-sucedida, embora incompleta, de insulamento de certos setores da administração pública em relação à política partidária, ao familismo e ao patrimonialismo.

Uma das peças dessa trajetória tem sido a disseminação dos concursos públicos. O Brasil foi o primeiro país na América Latina a instituir o concurso público (1936) como forma de ingresso para carreiras no governo federal. Na área da diplomacia, os concursos datam de 1919.

A pasteurização do negro, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Identidade é algo que se manifesta pela consciência da diferença de um indivíduo em relação ao outro

Essa negação da alteridade aos negros não é uma exclusividade da imprensa

Cresci ouvindo causos sobre as incontáveis vezes em que pessoas da minha família foram confundidas umas com as outras. As histórias sobre essas reiteradas trocas de identidade acabavam sempre com o comentário "muita gente acha que todo preto é igual".

Essa é uma situação que reflete uma das características do racismo: o apagamento de identidades negras. Coisa que alcança não só cidadãos comuns, mas também figuras públicas, artistas, atletas, magistrados, intelectuais...

O ‘Possesso’ esquecido, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, nem sempre basta a um jogador ser campeão do mundo para continuar lembrado

Os gols de Amarildo, herói de 1962, valem menos que os 19 minutos de Vampeta em 2002

Deu no Globo. Amarildo, meia-esquerda da seleção na Copa do Mundo de 1962, no Chile, está internado há três anos no Hospital Copa Star. Tem 87 anos. Sua saúde começou a decair em 2011, quando a radioterapia para um carcinoma de laringe atingiu a região cerebral. O diagnóstico de Alzheimer veio em 2018. Desde então, Amarildo sofreu três AVCs, está cego e é alimentado por sonda gástrica. Sua internação é acompanhada por sua família e mantida por um plano de saúde da CBF.

Assista ao discurso de Lula na convenção nacional do PT

 

Poesia | Vem Sentar-te Comigo Lídia, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Simone - O Amanhã

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Opinião do dia: Manuel Castells*

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

*Manuel Castells, sociólogo espanhol. “Ruptura”, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.

Texto Publicado na Folha de S. Paulo / Ilustríssima, 10/6/2018

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Deterioração das estatais agrava crise fiscal

Por O Globo

No atual mandato de Lula, elas têm passado a representar custo cada vez maior aos cofres públicos

É preocupante a corrosão da saúde financeira das empresas estatais. O último relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, constatou deterioração no resultado das empresas federais ao longo dos últimos anos. Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, o resultado financeiro primário consolidado passou de um superávit equivalente a 0,2% do PIB para um déficit de 0,07%. A situação se agravou durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o saldo no início do mandato ainda era positivo, em 0,06% do PIB.

Desafios internos e externos ameaçam projeto de reeleição de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O petista enfrenta problemas internos que não conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica na América do Sul e pela interferência direta de Trump

“Enquanto eu viver, a extrema direita não voltará a governar este país. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para manter a democracia”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num misto de voluntarismo e soberba, às vésperas da convenção do PT, em São Bernardo do Campo, neste domingo.

Não se poderia esperar algo muito diferente de quem precisa mobilizar os militantes e aliados para uma eleição difícil. A declaração revela a estratégia de formar um movimento democrático e nacionalista capaz de garantir sua reeleição. O desafio, porém, não se limita a reunir a esquerda: Lula precisa conquistar os eleitores de centro e atrair setores das elites comprometidos com a democracia.

O futuro em jogo, por Merval Pereira

O Globo

Já está ficando claro que a economia, seja qual for o presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit público.

Sempre tivemos uma base de cerca de 40% dos eleitores que escolheram votar contra Lula nas eleições presidenciais de que participou desde 1989. Com candidatos como Collor ou Aécio Neves, esse número subiu, e não havia extrema-direita nessas disputas. Com o surgimento de Bolsonaro, a retórica foi estressada e a essa massa de votantes antilulistas agregou-se uma atuação violenta, tanto física quanto verbal, e antidemocrática, o país ficou claramente dividido.

A eleição de 2026 pode ser a última com essa característica, pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030, e não poderá se candidatar a um quinto mandato. Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estará fora da disputa política e terá constatado que não basta indicar um candidato para vencer. No PT, não há sinais de que o pós-Lula trará algum líder do seu tamanho, e assim como os partidos que Brizola criou - PTB e PDT - não são forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá importância política. O mesmo aconteceu com o PSDB, que hoje não é o mais pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.

O tira-teima de Lula, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Petista larga como favorito à reeleição, mas não tem folga que esperava nas pesquisas

Luiz Inácio Lula da Silva lança hoje sua sétima campanha à Presidência. Será um tira-teima com a História. O petista foi derrotado nas primeiras três tentativas de chegar ao Planalto, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as outras três, em 2002, 2006 e 2022.

Aos 80 anos, o candidato à reeleição lembra pouco o metalúrgico que enfrentou Fernando Collor no início da Nova República. O Lula de 1989 falava em enfrentar a classe dominante e criar condições para o socialismo. O de 2026 promete estabilidade, temperança e defesa das instituições.

O petista já havia vestido o figurino “paz e amor” nas três campanhas vitoriosas. Agora também se apresenta como antídoto ao radicalismo e ao golpismo. “Não vou deixar a extrema direita voltar”, prometeu, na quinta-feira.

A violência como projeto, por Míriam Leitão

O Globo

É importante entender que cada ato de violência política contra mulheres faz parte de um projeto perigoso de retrocesso

A violência contra as mulheres na arena política, os insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exasperam quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas, de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato isolado. É o ronco de um projeto.

Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na reação cometem crimes.

A luta de Heleno Fragoso, por Elio Gaspari

O Globo

Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos

Vem aí um grande livro. Será lançado no dia 26 uma reedição de “Advocacia da liberdade — A defesa dos processos políticos”, do criminalista Heleno Fragoso (1926-1985). Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos.

Preso em um arrastão intimidatório em 1970, Heleno Fragoso contou alguns de seus casos. Defendia presos num regime que não tinha habeas corpus e que casos políticos eram julgados em tribunais militares.

Passados quase 50 anos, é emblemática sua defesa dos dirigentes dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo (Lula) e Santo André (Benedito Marcilio) e de outros 11 sindicalistas pela deflagração da greve de 1980. Ela durou 41 dias e Lula passou 31 dias na cadeia. Fragoso entrou nesse caso em sua reta final. Julgados no ano seguinte, quatro dirigentes foram condenados a 3 anos e 6 meses, com direito a recorrer em liberdade. O primeiro julgamento foi anulado no Superior Tribunal Militar e, em 1982, veio outro. Fragoso e os demais advogados sustentavam que a Justiça Militar era incompetente para julgar grevistas. Prevaleceram.

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O Globo

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Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.

Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.