Democracia Política e novo Reformismo
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Nota sobre relações de força, por Antonio Gramsci *
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Fundo eleitoral e emendas distorcem a competição política
Por Folha de S. Paulo
Partidos, que receberão R$ 4,9 bi em dinheiro
do contribuinte, deveriam buscar na sociedade seu sustento
Volta de doações de empresas seria um
primeiro passo; parlamentares decidem cada vez mais o destino dos impostos, mas
de forma degradada
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou a
divisão de recursos do fundo eleitoral entre os partidos políticos. Como já era
sabido, vultosos
R$ 4,9 bilhões foram destinados no Orçamento para financiar
campanhas neste ano.
Agremiações com desempenho eleitoral melhor na disputa mais recente por vagas no Congresso Nacional levam as maiores fatias desse Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O PL, de Jair Bolsonaro, ficou com a maior parcela, R$ 881,6 milhões, seguido pelo PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 615,3 milhões.
Entrevista: Lula vai ter mais de um palanque em vários estados para aproximar o centro, diz Wellington Dias
Por Victoria Azevedo – O Globo
Futuro integrante da coordenação da campanha,
ministro do Desenvolvimento Social diz que erro do primeiro mandato foi não
consolidar maioria no Congresso e prevê aproximação de partidos a partir de
alianças aos governos locais
— BRASÍLIA - O ministro Wellington Dias
(Desenvolvimento Social) afirma que a campanha à reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva deverá ser acompanhada por uma articulação voltada ao
centro político. Em entrevista ao GLOBO, o ministro avalia que o principal erro
do terceiro mandato foi não consolidar uma maioria simples na Câmara e no
Senado, diz que faltou cuidado e atenção na relação com os aliados, e defende a
construção de palanques estaduais capazes de assegurar governabilidade em um
eventual novo mandato.
Dias atuará na coordenação de campanha da reeleição ao petista, com foco na região Nordeste. Ex-governador do Piauí e senador licenciado, o ministro afirma que é preciso retomar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defende a prerrogativa de Lula em reenviar o nome de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e diz que a atuação de Flávio Bolsonaro (PL) junto ao governo Donald Trump que resultou na classificação do PCC e do CV como organizações terroristas é para “abafar o escândalo do Master”.
Os temas que vão decidir a eleição deste ano, por Bruno Carazza
Valor Econômico
Com situação fiscal comprometida, debate
entre Lula e Flávio Bolsonaro passa mais por questões regulatórias do que
políticas públicas tradicionais
Lula e Jair Bolsonaro mediram forças dois
anos após a deflagração da pandemia. E apesar de ter ceifado a vida de mais de
700 mil brasileiros, a covid não foi o tema principal da eleição mais disputada
da história.
Nos debates e na propaganda eleitoral de 2022, Lula se concentrou mais na defesa da democracia e na garantia de que manteria o Bolsa Família em R$ 600 e que retomaria os reajustes reais do salário-mínimo. Uma vez eleito, iniciou seu terceiro mandato com o slogan “União e Reconstrução”. Em agosto do ano passado, porém, sentindo a recuperação da popularidade após o tarifaço e a abertura de investigação contra o Brasil por Trump, os marqueteiros de Lula trocaram o mote para “Do lado do povo brasileiro”.
Qual é o tamanho do ativismo fiscal do governo em 2026? Por Sergio Lamucci
Valor Econômico
Impacto das medidas expansionistas neste ano deve ser de R$ 215 bilhões, enquanto as iniciativas que elevam a receita totalizam R$ 109 bilhões, estima Marcos Mendes
O governo intensificou o uso de medidas de expansionismo fiscal desde meados do ano passado, com impactos que superam R$ 200 bilhões neste ano. Há iniciativas de caráter financeiro, extraorçamentário e mesmo primário que não impactam o teto de gastos do arcabouço, mas todas afetam a dívida pública, já em trajetória de alta forte, superando 80% do PIB no caso do endividamento bruto. Ao mesmo tempo, há uma busca por aumento de receitas, em vários casos por meio de tributos regulatórios que prejudicam a produtividade da economia, aponta o economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper, responsável por essas avaliações e estimativas, em nota para a XP Investimentos.
O Brasil da renda média, para menos, por Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
Parece que os problemas de fundo só aparecem
nos momentos de susto. E assim vamos levando, na mediocridade da renda média,
para menos
Não sei se prestaram atenção, mas o ambiente
econômico piorou nas últimas semanas. Há muitas causas para isso, mas a mais
importante é a percepção de que a inflação está
de novo em alta. E, se é assim, a taxa básica de juros não pode mais cair. Ou,
como dizem os economistas, reduziu-se o espaço para o Banco Central cortar a
Selic, atualmente no nível, elevado, de 14,5% ao ano.
A guerra no Oriente Médio é parte do problema. Petróleo mais caro, e bem mais caro, causa inflação no mundo todo, mas pegou a economia brasileira no contrapé. O ambiente parecia bem positivo: inflação em queda, crescimento do PIB, rendimentos do trabalho em alta, desemprego em baixa recorde, dólar comportado. Com o Banco Central cortando a taxa de juros, então, era um resultado dos sonhos. Desinflação com expansão econômica.
.A nobreza dos novos imaginários, por Preto Zezé
O Globo
Sem negar a história, a novela apresenta
também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à
construção dos próprios destinos
Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.
Coalizões da impunidade nem sempre vencem, por Carlos Pereira
O Estado de S. Paulo
O desejo de retaliar a Justiça pode estar presente. A capacidade de fazê-lo, não
O que acontece quando líderes políticos
poderosos são condenados? A resposta mais intuitiva é que a condenação
fortalece a democracia. Afinal, ela sugere que ninguém está acima da lei e
aumenta os custos de futuros desvios.
Mas em um artigo ainda preliminar e provocativo, os cientistas políticos Luciano Da Ros e Manoel Gehrke chamam atenção para a reação dos próprios políticos. Os autores mostram de forma comparada que condenações de ex-chefes de governo (entre 1946 e 2025) frequentemente são seguidas por reformas que reduzem a independência e os poderes do Judiciário. A lógica é simples. Quando um líder poderoso é condenado, a mensagem enviada aos demais políticos é que eles podem ser os próximos. Em vez de aceitarem passivamente esse novo risco, passam a apoiar mudanças institucionais capazes de limitar o Sistema de Justiça.
Corrupção, segurança e eleições, por Marcus André Melo
Folha de S. Paulo
Temas negativos na agenda pública alimentam
sentimento de mudança e penalizam incumbentes
Embora corrupção não seja critério definidor
para maioria do eleitorado, ela faz parte do processo da psicologia do voto
A corrupção voltou a ocupar lugar de destaque na agenda pública, e não poderia ser diferente. Dois megaescândalos vieram à tona recentemente: INSS e Master. Seus desdobramentos ainda estão em curso, mas irão marcar intensamente as eleições. Além disso, os sucessivos escândalos associados a emendas orçamentárias reverberam a questão. Haverá intensa disputa de narrativas sobre o envolvimento em corrupção, que afetará poucos setores muito polarizados, mas incidirá nos demais. Mais importante: ela alimenta o sentimento público quanto à necessidade de mudança de rumo.
Tecido esgarçado, por Ana Cristina Rosa
Folha de S. Paulo
Ainda há setores que resistem à ideia de
reparação aos descendentes dos escravizados
Racismo opera para impedir ou dificultar a
ascensão de pessoas pretas e pardas
Comparo as relações étnico-raciais no Brasil
a um tecido esgarçado, surrado pelo atrito e prestes a se romper pelo desgaste
contínuo causado pela violação ou negação sistemática de direitos à população
negra.
Sei bem que este é um país racista (machista, misógino e homofóbico também). Essa consciência me impede de nutrir a pretensão de contar com a concordância "de geral" em relação ao que penso e escrevo.
Nasce um otário por segundo, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
No Brasil, um influencer que se preze tem de
1 milhão a 100 milhões de seguidores
Quem serão esses milhões que seguem Camila
Pudim, Pamela Fuego e Leuriscleia?
Perguntaram-me quantos "seguidores" eu calculava que tivesse. Embatuquei: "Sei lá, nunca pensei nisso. Acho que nenhum". O outro insistiu: "Não é possível. Você está na imprensa há milhões de anos, escreve livros, dá entrevistas. É um dos principais influencers do país". Reagi com "Deus me livre, imagine a responsabilidade de influenciar alguém, de ser responsável por algo que uma pessoa faça ou deixe de fazer!". É verdade. Mal consigo dar conta de mim mesmo e meus gatos Bing, Dixie e Bizu acham ridículas minhas tentativas de ensiná-los a miar em francês. Além disso, em que um "influencer" influencia seus "seguidores"?
Um Homem de Muitos Séculos[1] por Elimar Nascimento *
Revista Será? Nº 712, 05/06/2026
Edgar est mort: foi assim que nos chegou a notícia do falecimento do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, às vésperas de completar 105 anos, por sua filha Véronique. Era uma tarde de sexta-feira (29). Estávamos em um carro na Asa Norte (Brasília) retornando para casa, e um silêncio pesado se abateu sobre nós. Há algumas semanas ele lutava contra uma septicemia em Paris. Marianne Cohen, sua sobrinha, que estava conosco, o tinha visitado na terça-feira (26), antes de viajar ao Brasil. Sabíamos, portanto, dos riscos que sofria, mas tínhamos a esperança de que aquele que venceu o nazismo, o estalinismo e a perseguição por seu pensamento fora da curva resistiria ainda e mais uma vez.
O fracasso do socialismo autoritário, por Antonio Fausto do Nascimento*
Avultam pesquisas históricas e acadêmicas.
Orlando Figes, da Universidade inglesa de Cambridge, foi um dos melhores pesquisadores
com A TRAGEDIA DE UM POVO, livro que levou mais de seis anos para ser escrito
(1).
Durante os últimos decênios do czarismo, milhões
de camponeses foram afastados das áreas rurais. A população urbana
quadruplicou. Não havia legislação trabalhista e previdenciária. As conquistas
dos trabalhadores britânicos e alemães permaneciam fora do alcance do
operariado russo, na virada do século XIX. As fabricas estavam lotadas de maquinas
obsoletas e perigosas, os acidentes do trabalho eram frequentes.
A partir de 1905, acentuado aumento das greves e protestos e primeira greve geral. Entre 1906/1909, mais de cinco mil presos políticos foram executados e outros milhares, condenados a prisão e trabalhos forçados.
domingo, 7 de junho de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Espaço para a queda dos juros se reduziu
Por Folha de S. Paulo
Impacto inflacionário da guerra no Oriente
Médio e do El Niño se soma ao de medidas eleitoreiras de Lula
Cenário torna complexa a próxima decisão do
BC; política monetária mais dura aumentará o estresse financeiro da população e
do governo
Novamente, o cenário econômico brasileiro se
deteriora de forma visível, o que tende a frustrar a expectativa de que a
taxa Selic,
do Banco Central,
pudesse cair de modo mais consistente ao longo deste 2026.
O que parecia um ciclo de afrouxamento
monetário controlado deu lugar, em poucas semanas, a um estreitamento dramático
do espaço para alívio.
Os fatores externos ajudam a explicar o
aumento do risco inflacionário. Como resultado do conflito no Oriente Médio, o
barril de petróleo Brent tem se mantido acima de US$ 90, elevando os custos de
diesel, fertilizantes e de insumos industriais em geral.
Ao mesmo tempo, o fenômeno climático El Niño promete impacto na produção e nos preços de alimentos. Projeções de mercado já apontam para encarecimento da alimentação no domicílio em torno de 7%, o dobro do esperado no início do ano.
As interferências na luta eleitoral, por Míriam Leitão
O Globo
A democracia fica vulnerável quando a extrema
direita faz uso da religião como estratégia política. A Justiça Eleitoral tem
dificuldade de punir a prática
Começou a temporada do uso político de Deus,
uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração
de Flávio
Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”,
se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o
roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela
congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão
explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O
político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.
Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.
O mal-estar social, por Merval Pereira
O Globo
Joaquim Falcão diz que mal-estar social é
quando a lei passa a servir de instrumento de manutenção do status quo, e não
de transformação, os interesses particulares se sobrepõem aos públicos
As oligarquias são arranjos sociais que se
aproveitam do processo democrático para se beneficiar, a história registra.
Mas, pela primeira vez ela “é produzida pelo Estado dentro dele próprio. Vem
das autoridades, das ambições internas. Do progressivo descolamento entre o
eleitor e o Estado Democrático de Direito”. Este é o ponto de partida, e também
de chegada, do novo livro do jurista Joaquim Falcão “A Oligarquia dos Poderes”,
que estará nas livrarias no dia 2 de julho pela História Real, um selo da editora
Intrínseca.
Não haveria melhor momento, diante da crise da democracia que estamos vivenciando, nem melhor autor, para desvendar esse processo. Falcão é membro da Academia Brasileira de Letras, foi um dos fundadores do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criou e dirigiu por anos a Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas no Rio, responsável por um estudo seminal sobre o STF, o “Supremo em números”, que revelou pela primeira vez a exorbitância do uso das medidas monocráticas que desvirtuaram o colegiado. Ele explica no livro como os oligarcas da atualidade “capturam a lei pelo texto, pela aplicação e pela interpretação”.
O custo dos agrotrogloditas, por Elio Gaspari
O Globo
Relatório dos EUA cita Moratória da Soja pelo qual grandes exportadoras se comprometem a não comprar commodity plantada em área de desmate
Está entendido que Donald Trump fará o que
estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido
também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de
Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia
comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia
15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.
Passada a barulheira da semana passada,
entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.
O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente.” (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)
Era no tempo do Lalau, por Bernardo Mello Franco
O Globo
Em testemunho inédito, ex-presidente narra
manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha
Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914,
a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi
ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia
a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só
precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder.
“Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se.
Algo de novo no ar, por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Com a crise nacional de lideranças, Ricardo Couto surge como novidade justamente no sofrido Rio
Mais um governador do Rio de Janeiro
desembarca de pires na mão em Brasília nesta semana, mas este, o desembargador
Ricardo Couto, parece bem diferente de sete anteriores que tiveram problemas na
Justiça, cinco deles sendo presos. O Brasil busca desesperadamente sangue novo
na política e na gestão, vamos ser otimistas?
Não só por Couto ser desembargador, porque o precedente de Wilson Witzel, que caiu no meio do mandato, é uma vergonha para a magistratura e um dos traumas do Estado. Mas Witzel é Witzel, Couto é Couto, buscou os apoios certos e parece determinado a fazer a diferença.
Tarifaço e a oportunidade para o Brasil, por Lourival Sant’Anna
O Estado de S. Paulo
As pressões tarifárias do governo Trump abrem oportunidade histórica para o Brasil reduzir de forma negociada suas barreiras comerciais, que fazem mais mal aos brasileiros que aos próprios americanos. A demagogia do governo Lula e a influência política dos setores industriais beneficiados pelo protecionismo me dão a triste certeza de que isso não vai acontecer. Os segmentos mais dinâmicos da economia brasileira serão castigados, mais uma vez.
Os argumentos do governo, de que o Brasil aplica efetivamente tarifas médias de 3% sobre os produtos americanos, e de que os EUA usufruem de superávit no comércio bilateral, são falaciosos. As alíquotas brasileiras sobre bens industrializados costumam partir de 20%, chegando a 35% no caso dos automóveis. Os produtos americanos não pagam esses impostos porque eles cumprem a função para a qual foram criados: bloquear as importações.
Faltam cinco meses para as eleições. E aí? Por Daniel A. de Azevedo*
Correio Braziliense
Chegamos a um paradoxo perigoso: os partidos
podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se
odeiam muito mais
Há mais de uma década, pesquisadores se debruçam sobre um fenômeno que corrói as democracias por dentro: a polarização afetiva, distinta da polarização ideológica e da partidária. Enquanto o debate político tradicional foca nessas últimas, a afetiva se revela mais complexa. A gasolina para a invasão da Praça dos Três Poderes vem exatamente daí. O conceito é direto e brutal: o adversário político deixa de ser alguém com quem apenas se discorda para se tornar um inimigo existencial. Na polarização afetiva, o outro na sociedade é uma ameaça que não se tolera e com a qual não se quer conviver.
É o FIB, estúpido! Por Elias Gomes*
Afinal, a economia é fundamental, mas não é
tudo. O ser humano não existe para servir aos números. O PIB não abraça filhos,
não participa de aniversários, não cuida da saúde mental e não devolve o tempo
perdido. Precisamos trabalhar para viver, e não viver para trabalhar.
O debate sobre o fim da escala 6×1, atualmente em discussão no Congresso Nacional, trouxe à tona uma questão muito mais profunda do que a simples organização da jornada de trabalho. O que está em jogo é a qualidade de vida de milhões de brasileiras e brasileiros que dedicam a maior parte de seus dias ao trabalho e dispõem de apenas um único dia para descansar, cuidar da casa, conviver com a família, resolver problemas pessoais e tentar recuperar as energias para recomeçar tudo novamente.
Flávio Bolsonaro contra o Pix, por Celso Rocha de Barros*
Folha de S. Paulo
Bolsonarismo conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição
Graças à influência da quinta coluna
bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump
Com a ajuda da Casa Branca, o bolsonarismo
tornou-se o único movimento político que conseguiu aumentar os impostos dos
brasileiros estando na oposição.
Para piorar, o "Tariflávio" de
Trump incluiu uma ameaça explícita ao Pix:
é como se Trump tivesse
dado a Lula uma versão anabolizada do vídeo de Nikolas Ferreira do ano passado
—e agora a ameaça ao Pix é
real.
Para não deixar dúvida de que o bolsonarismo pretende matar o Pix por ordem de Trump, Eduardo Bolsonaro gravou vídeo sugerindo que o Brasil negociasse com os Estados Unidos a adoção do Zelle, um sistema de pagamentos americano que é mais lento, exige que se abra conta em um grande banco americano (que compensa nas tarifas a "gratuidade" do sistema) e tem uso muito mais restrito.
O mundo corre na IA, Brasil atola em juros letais, crime no poder e conversa irrelevante, por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Discussão sobre últimos avanços da IA se
torna pop e tema político-eleitoral nos EUA
Por aqui, juros altos eternos ameaçam
sobrevivência de empresas, que dirá alguma inovação
O mundo corre, o Brasil atola. Por um lado,
temos problema tão bárbaro quanto o dos americanos, que lidam com o
"duce" da corrupção geral dos costumes, da democracia e do que resta
de civilização, Donald Trump.
Por aqui, uma versão moleque, corrupta e mais caricata do "duce" quer
o poder em 2027.
Até problemas com juros nos afligem no mesmo momento, embora no Brasil se trate da perspectiva de longo atoleiro, com asfixia de empresas, investimento e crescimento baixo por muitos anos. Não dá para pensar nem mesmo em adoção de inovação, que dirá inovar.
O conto do vigário do terror, por Muniz Sodré*
Folha de S. Paulo
Classificar PCC e CV como organizações
terroristas é decisão política, não técnica
O que se quer mesmo é desmoralizar a
soberania jurídica brasileira
Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.
Formação do Parlamento é tarefa da sociedade, por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
O país tem a chance de desmentir a escrita de
que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior
Quanto mais poder tem o Legislativo, mais
importantes são as escolhas para a Câmara e o Senado
O crescimento do poder do
Parlamento não serviu só para inverter o equilíbrio de forças
entre Executivo e Legislativo. Servirá nesta eleição para dar chance ao
eleitorado de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior
que o anterior.
Para isso é preciso observar alguns pré-requisitos na escolha de deputados e senadores. Renúncia ao pertencimento a bolhas ideológicas é um deles, mas há outros: atenção máxima ao cardápio de candidatos, prioridade semelhante à dada aos postulantes à Presidência e abandono de badulaques tais como carisma e venda de terrenos na Lua.
Um escândalo em Königsberg, por Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Livro reconstitui passos de julgamento
envolvendo os Muckers, seita religiosa alemã do século 19
Processo envolveu fake news e opôs
religiosidade popular a abordagem mais racionalista
Sir Christopher Clark é um dos grandes
historiadores em atividade. Seu "Os Sonâmbulos", sobre as causas
da Primeira
Guerra Mundial, publicado em 2012, já virou clássico. Foi com
avidez, portanto, que li "A Scandal in Königsberg", assim que soube
da existência do livro.
As duas obras não poderiam ser mais diferentes. Se a primeira trata de um episódio literalmente global, a segunda investiga um caso obscuro que se passou numa área provinciana da Prússia do século 19. Mas Clark consegue extrair lições universais desse escândalo envolvendo religiosos na cidade natal de Kant.
sábado, 6 de junho de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Há saídas para Brasil enfrentar tarifas americanas
Por O Globo
Além de ampliar lista de exceções, país pode
diversificar exportações para China e, sobretudo, Europa
Não há como menosprezar o impacto da
investida tarifária disparada pelos Estados
Unidos na direção do Brasil. Se vingarem as duas ondas — a
primeira derivada de uma investigação específica de práticas comerciais
brasileiras, a segunda com base em acusações de uso de trabalho forçado
dirigidas a 60 países —, produtos brasileiros serão submetidos a taxas de até
37,5% para entrar no mercado americano. Mas também não se deve menosprezar a capacidade
de adaptação da economia brasileira para mitigar os efeitos dessas medidas. Há
duas vias de escape às tarifas, e ambas vêm sendo desbravadas.
A primeira via é a lista de exceções aberta pelo próprio governo americano na investigação que recomenda as tarifas, incluindo commodities como carne e café, além de dezenas de outros produtos que interessa aos Estados Unidos continuar comprando do Brasil — na prática, as tarifas mais elevadas recaem sobre algo como um quinto das exportações brasileiras, a maioria industriais. Enquanto essa lista não estiver fechada, os negociadores do Itamaraty e grupos empresariais farão todo tipo de pressão para ampliá-la. Os americanos já se disseram abertos e poderão ceder em vários mercados.
Vai, Brasa! Por Eduardo Affonso
O Globo
O traje social da seleção divide opiniões: há
quem ache feio, há quem ache horroroso
Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao
hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar
do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do
escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito
de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos
fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem
ache feio, há quem ache horroroso.
É que você, torcedor ingrato, não capta as
referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que
importa é o conceito.
Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.
O avesso do cuidado, por Flávia Oliveira
O Globo
O que se viu foi brutalidade, desatenção,
abandono, revitimização - o avesso do cuidado
Foi uma semana devastadora para quem acredita, como reza o provérbio africano, que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A frase diz respeito à atribuição compartilhada por família, comunidade, escola, Estado, para garantir vida saudável, confortável, digna a meninas e meninos, Brasil e mundo afora. Neste limiar de junho, o que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização — o avesso do cuidado, enfim.
A misoginia não matou Henry, por Thaís Oyama
O Globo
Ao invocar conceitos como misoginia e
discriminações de gênero, juíza introduziu uma categoria ideológica como parte
da decisão penal
Quando Henry Borel, de 4 anos, deu entrada no hospital carioca Barra D’Or já sem sinais vitais, sua mãe, Monique Medeiros, endossou a versão do namorado, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, segundo a qual a criança havia caído da cama. Na quinta-feira passada, Dr. Jairinho, como é conhecido, foi condenado a 43 anos de prisão pela morte de Henry. Sete laudos concluíram que o menino morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causada por ação contundente. Peritos descartaram a hipótese de acidente doméstico.
Mais alguns anos com uma inútil polaridade? Por Bolívar Lamounier
O Estado de S. Paulo
Se Lula e Flávio Bolsonaro tivessem um pingo de patriotismo, abdicariam de suas candidaturas
Os últimos números da economia, divulgados
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam um
crescimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026, resultado puxado
pelo agronegócio e pelo consumo das famílias.
Em bom português, deverse-ia dizer nada, mas dentro da série de 19 meses iniciada no terceiro trimestre de 2021, o tom dos comentaristas é positivo, qualificando tal resultado como “de expansão”. Mas, cada um a seu modo, todos fazem severas ressalvas. A primeira, de que dificilmente o PIB crescerá 2% em 2027, devido ao cenário internacional adverso, graças aos diversos efeitos Trump, às incertezas criadas pela guerra no Oriente Médio e, não menos importante, no plano doméstico, à continuação da polarização política nas eleições de outubro.
Congressualismo dos interesses, por Miguel Reale Júnior*
O Estado de S. Paulo
Perdeu-se o pudor: agora é a consagração da
compra disfarçada de votos dos beneficiários da emenda parlamentar
Da promulgação da Constituição até os dias de hoje, a corrupção tem sido a marca da vida política. Aconteceu paulatinamente, tendo sua origem no seio da própria Assembleia Constituinte, quando se instaurou o princípio “franciscano” do “dando é que se recebe”.
Assim, a Assembleia Constituinte traz como
mancha indelével a compra de votos pelo governo Sarney, visando a impor a
vitória da Emenda Coletiva que instaurava o presidencialismo e os cinco anos de
mandato.
Nasceu ali o Centrão, composto pelos constituintes anônimos que pouco participaram do processo de decisão, e obtiveram, no final dos trabalhos, a mudança do regimento instalando uma “revolução”, ao se admitir que uma Emenda de Capítulo assinada por 280 constituintes passava a ser o texto a ser votado, não vigorando apenas se rejeitado pela maioria absoluta. A emenda coletiva desfazia o trabalho anterior, para se dar voz à maioria silenciosa e pouco participativa.
Por amizade, por Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo
Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...
Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?
Quando a humanidade virou negócio, por Fabio Gallo
O Estado de S. Paulo
Nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de uma família – a menos que nós mesmos o entreguemos
Uma cena muito comum hoje é um casal com uma filha durante o almoço, num restaurante, quando o pai e mãe estão entretidos com os seus smartphones e a criança assistindo a um vídeo. A imagem pode num primeiro instante se mostrar lúdica, afinal a criança está distraída, não dando trabalho algum, e os pais, também, distraídos, envoltos consigo mesmos. Quadro que ilustra bem o argumento trazido por Eugênio Bucci no seu artigo O Papa e a técnica, quando ele diz que uma criança diante de uma tela não está apenas consumindo mídia; está participando de uma engrenagem econômica que transforma atenção em receita; dados, em valor; e comportamento, em lucro.
A primeira vítima, por André Gustavo Stumpf
Correio Braziliense
O autor do livro "A primeira
vítima", o inglês Phillip Knightley, afirma que, em tempo de guerra, a
primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, Donald Trump dá razão ao autor
Há um livro clássico sobre o exercício do
jornalismo em tempo de guerra. Seu título é A primeira vítima, do autor inglês
Phillip Knightley, publicado em 1978 pela editora Nova Fronteira. É um ótimo
trabalho de pesquisa, recomendável para quem gosta de estudar a ação dos
jornalistas em momentos tumultuados. O autor não alivia: em tempo de guerra, a
primeira vítima é a verdade. Nos dias de hoje, o presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, dá razão ao autor. Ele diz e desdiz, dia após dia, o que ocorre
na sua guerra contra o Irã.
No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.























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