segunda-feira, 13 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Elucidação de homicídios é frustrante no Brasil

Por O Globo

Apenas quatro em 10 assassinatos cometidos no país são esclarecidos, de acordo com os dados disponíveis

É decepcionante a constatação de que apenas quatro em cada dez homicídios dolosos cometidos entre 2023 e o fim de 2024 (ou 39%) tenham sido esclarecidos, de acordo com a última edição do relatório “Onde mora a impunidade?”, do Instituto Sou da Paz. O dado resulta de extensa pesquisa junto aos Ministérios Públicos e Tribunais de Justiça estaduais, realizada desde 2017. A média nacional de elucidação de homicídios tem se mantido na faixa entre 30% e 40%. É muito pouco para um país que enfrenta grave crise de segurança pública, com a atuação crescente de facções criminosas por todo o território nacional.

Os Ministérios da Saúde e da Fazenda advertem, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Efeitos sociais e econômicos das bets impõem desafio de restringir a atividade

É difícil encontrar hoje em dia quem não tenha conhecimento de pelo menos um caso de drama pessoal e familiar envolvendo o vício em bets. Também nos últimos tempos têm sido frequentes as queixas de empresários e executivos sobre os danos que as apostas têm causado aos seus negócios.

Em 2025, as bets arrecadaram quase R$ 37 bilhões, já descontados os valores pagos para os vencedores das apostas. Os dados são da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda - para quem não sabe, temos um órgão na área econômica, com o mesmo status da Receita Federal e do Tesouro Nacional, especializado em autorizar e fiscalizar bets. Segundo a SPA, 25,2 milhões de CPFs fizeram apostas no ano passado, utilizando, para isso, mais de 100 milhões de contas ativas nas empresas.

O Banco Central entre Delfos e Ulisses, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Para parte dos analistas, BC é refém da transparência que promoveu no período recente

O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga vai ajudar o Federal Reserve (Fed) a rever sua comunicação, dentro de uma força-tarefa criada pelo seu chairman, Kevin Warsh, para avaliar seu arcabouço mais amplo de política monetária. As conclusões podem ajudar também o BC brasileiro, que tem se visto às voltas com questões semelhantes.

Um bom ponto de partida para uma discussão nos trópicos é um texto para discussão do ex-diretor de Política Econômica do BC Fábio Kanczuk. Sua opinião vale, em especial, porque ele estava na cabine de comando na única vez que o Brasil chegou ao limite da baixa de juros, na pandemia, e teve que lançar mão da comunicação para cumprir a meta.

Kanczuk vê vantagens em o BC comunicar o que vai fazer no futuro, mas acha que o instrumento só deve ser usado se o mercado for maduro o suficiente para entendê-lo. Antes de entrar na sua visão, porém, é preciso dar um contexto das discussões.

O Ocidente está dobrando à direita, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

O mapa político europeu não está cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o ‘espírito do tempo’ – é clara

Olhe-se para a nossa vizinhança ou para a Europa, a extrema direita avança. Na América do Sul, nas três eleições ocorridas até aqui em 2026, venceram candidatos desse naipe político (Chile, Peru e Colômbia). A tendência é semelhante no velho continente.

Em Portugal, o partido da extrema direita, o Chega, conquistou o segundo maior número de cadeiras da Assembleia da República nas eleições parlamentares de 2025. No Reino Unido, outro país que até recentemente parecia imune à ascensão da extrema direita, o Reform UK lidera todas as pesquisas de opinião.

Na Espanha, o longo ciclo de poder de Pedro Sánchez entrou em fase terminal. Quem cresce é o partido da extrema direita, o Vox. O partido tradicional da direita, o Partido Popular (PP), depende cada vez mais da extrema direita. Nas quatro Comunidades Autônomas em que houve eleições este ano, o PP só conseguiu obter maioria parlamentar depois de aceitar representantes e reivindicações do Vox na formação do governo. É um sinal do que deve ocorrer nas eleições marcadas para 2027. Nesse processo, a direita tradicional se aproxima do nacionalismo xenófobo e protofascista, normalizando-o.

A farra das emendas, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Mas quem paga o preço eleitoral dos escândalos com as emendas? Ninguém, na verdade

Emendas Pix, de bancada, comissão ou mesmo as individuais dos parlamentares: o orçamento secreto pode estar morto no nome, mas a farra da destinação de dezenas de bilhões de reais com critérios obscuros pelo Congresso Nacional continua. Nunca foi algo popular como ideia, ainda que se argumente que quando o dinheiro chega na ponta, na forma de obras vistosas na base eleitoral, ajuda a eleger deputados e prefeitos – perpetuando os mesmos grupos de sempre no poder local e em Brasília. Uma pesquisa Genial/Quaest realizada no ano passado mostrou que 82% dos entrevistados associavam as emendas parlamentares à corrupção, duvidando que os recursos tivessem o destino correto.

A dança dos vices, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

 Candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o mais competitivo

Normalmente, a escolha de vice-presidentes numa disputa eleitoral reveste-se de uma certa liturgia, principalmente por indicar a segunda pessoa em importância na hierarquia republicana, alguém que, no impedimento do presidente, vem a galgar o maior cargo nacional. Não se trata de uma opção qualquer na medida em que, precisamente, indica para a continuidade daqueles que mantêm o poder durante o mandato estipulado. Não é, neste sentido, fruto do acaso.

Ademais, essa escolha obedece a critérios políticos, dentre os quais: 1) representatividade partidária, ampliando a coligação eleitoral; 2) potencial na captação de novos eleitores; 3) influência na arrecadação de recursos; 4) não comprometimento com a corrupção; 5) vir de uma região ou Estado que seja capaz de agregar maior votação; e 6) ser de uma religião ou de sexo que faça a diferença na disputa, apontando para um determinado público.

Como o Congresso da UNE caiu em 1968, por Miguel de Almeida

O Globo

Polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador

O dia mal amanhecera em 12 de outubro de 1968, um sábado, quando 150 policiais surgiram na mata a 25km do centro de Ibiúna, interior de São Paulo. Caía uma chuva intermitente. A lama na estrada íngreme fizera a tropa abandonar as viaturas no caminho principal. Percorreram 10km a pé. Quando avistaram o acampamento, deram tiros para o alto aos gritos:

— Não reajam, vamos atirar para matar.

Cercaram as barracas de lona e prenderam 800 jovens. Era o final melancólico do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Paulistas querem chamar a polícia, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Segurança pública exige mais policiamento. A resposta é simples, mas cara e de difícil implementação

Está em andamento um amplo debate sobre segurança pública no país. Muitas ideias estão na mesa, como a criação de um ministério específico e variados projetos de leis e emendas constitucionais. Tratam de redefinição de crimes, aumento de penas, nova classificação das facções e assim por diante. Não são discussões inúteis, mas a população se preocupa com coisas bem mais simples.

O Datafolha obteve uma boa amostra em pesquisa feita com moradores do estado de São Paulo, divulgada na semana passada. O instituto perguntou: qual o maior problema de segurança pública? Resposta majoritária: a falta de policiamento efetivo nas ruas. Assim responderam 20% dos paulistas.

Brasil não pode viver asfixia digital, por Irapuã Santana

O Globo

Equilibrar a necessária governança da internet sem criar mais dificuldades para o crescimento da produtividade é um desafio

Desde o ano passado, diversos debates sobre o projeto do Novo Código Civil têm atraído a atenção do mundo jurídico. A nova lei causa impacto na vida de todo mundo, porque regerá a forma como acordos privados são feitos diariamente. Quando fazemos sinal para um ônibus no ponto, celebramos um contrato de transporte. Se pegamos um carrinho do supermercado para fazer as compras, surge um contrato de comodato, e por aí vai.

O código atual foi publicado em 2002, mas começou a ser elaborado em 1975, na ditadura militar. Ele era recém-nascido, mas parecia Benjamin Button. Para relembrarmos, a internet era discada, os celulares eram usados apenas para ligações e SMS, YouTube, Facebook e Instagram nem sonhavam em surgir, e o finado Orkut só viria a aparecer em 2004.

O teorema de Buscetta: 'mob lawyers' e facções judiciais, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Caso Master e escândalo do Rio de Janeiro revelam estrutura de proteção institucional ao crime

Integrantes da própria comunidade jurídica atuam em múltiplos níveis em casos de corrupção

É assustador assistir à crescente interpenetração entre a corrupção política e a criminalidade violenta em nosso país. Referindo-se ao escândalo Master, o ministro André Mendonça afirmou: "Aqui há contornos de máfia. Há contornos de crime organizado, mafioso... Não é simplesmente um crime de colarinho branco. É mais do que isso. Não são simplesmente atores ... que praticaram fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro".

Antirracismo é jogo de ganha-ganha, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ações voltadas à promoção da equidade étnico-racial produzem efeito benéfico à sociedade brasileira como um todo

Falar sobre medidas de enfrentamento ao racismo e seus efeitos perversos e injustos ainda é algo visto como chororô ou mimimi

O que podemos fazer para que o Brasil seja mais justo? Essa indagação é feita no início do livro "Guia da Gestão Pública Antirracista", publicação escrita de maneira colaborativa por cinco importantes pesquisadores (Clara Marinho, Ellen da Silva, Giovani Rocha, Karoline Belo e Michael França), que se debruçaram sobre o tema numa imersão na Universidade de Oxford, em 2024.

Para além de questionar práticas carregadas de preconceito e discriminação adotadas no setor público, que resultam em exclusão de um segmento específico da população brasileira, a obra joga luz sobre o óbvio que muitos ainda não aceitam: "Ao erguer aqueles marginalizados, não apenas corrigimos injustiças, mas levantamos uma nação inteira", afirmam os pesquisadores.

Quer ser empregado de um robô? Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Robôs já são capazes de fazer tudo, exceto pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana

Para isso, uma empresa de IA criou um serviço para eles: Rent a Human, ou Alugue um Humano

Estava demorando. Depois de aprender a fazer em microssegundos operações que levariam uma eternidade para um humano, os robôs estão se aventurando agora naquelas que são naturais para nós, mas, por enquanto, inalcançáveis para eles. Exemplo: "Hei, Robby, me traz um café!".

O futuro não é destino, por Tostão

Folha de S. Paulo

Seleção e os times brasileiros priorizam as estocadas, os lances individuais e a pressa de chegar ao gol

Existe uma carência de bons laterais, falta um craque no meio campo e na posição de centroavante

Neste momento de decepção, de mais um fracasso da seleção brasileira, pois criamos uma enorme expectativa muito acima da realidade, surgem os discursos românticos, ilusórios, perdidos no tempo, de que o futebol brasileiro precisa voltar às origens, aos anos 60 e 70, e passar a jogar o futebol arte, de dribles, improvisações, sem disciplina tática. Dribles é que não faltam. Precisamos associa-los ao jogo coletivo, de mais trocas de passes e de domínio da bola e do jogo. A seleção brasileira e os times brasileiros priorizam as estocadas, os lances individuais e a pressa de chegar ao gol.

Eleições 2026 e a Afirmação da Democracia no Brasil. Quais os desafios? Por George Gurgel*

As eleições  de 2026 no Brasil desafia a sociedade  democrática  brasileira a eleger uma presidência da República,  uma bancada de parlamentares nas Assembleias Legislativas, no Congresso e no Senado Federal  comprometidos  com a democracia,  garantindo os direitos  constitucionais de cada brasileiro(a)  na perspectiva  de ampliar as nossas conquistas políticas, econômicas, sociais e ambientais  asseguradas na nossa Constituição de 1988 , construída  com uma  efetiva participação da sociedade  brasileira nas praças e  nas ruas, proclamada por Ulisses Guimarães em 1988,  quando em alto e bom som declarou que os traidores  da  Constituição  são os traidores da Pátria, são  os traidores  do povo brasileiro. 

Poesia | Navegue, de Fernando Pessoa

 

Música | João Bosco - Papel Machê (João Bosco/Capinam)

 

domingo, 12 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente proteger juízes que atuam contra facções

Por O Globo

De acordo com Fachin, pelo menos cem magistrados temem represálias por combaterem crime organizado

É preocupante a situação dos juízes que atuam contra o crime organizado, exposta pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, ao participar da instalação de novas varas especializadas em organizações criminosas no Tribunal de Justiça de São Paulo. O Brasil, disse Fachin, tem hoje ao menos cem magistrados exercendo atividades consideradas de risco, sob temor de represálias. Desses, 79 contam com medidas protetivas, como escolta armada ou guarda-costas. As ameaças, segundo ele, se expressam principalmente por meio de ataques cibernéticos, exposição de dados pessoais e perseguição digital.

Mudança de rumo, por Merval Pereira

O Globo

Flavio Bolsonaro pode ser inviabilizado como candidato à Presidência até mesmo antes de chegar a ser indicado pelo PL, pois as investigações do crime organizado no Rio de Janeiro chegam cada vez mais próximas a suas conexões pessoais.

Vivemos nessa eleição presidencial uma situação inversa à que se deu em 2018, quando o então desconhecido Jair Bolsonaro venceu. Naquela ocasião, o então ex-presidente Lula estava na cadeia, e no último minuto colocou Fernando Haddad para representá-lo. Hoje, é Bolsonaro quem está preso, e apressou-se a indicar seu filho, o senador Flavio Bolsonaro, para representá-lo. Lula demorou até onde pôde para assumir que não seria o candidato, imaginando com isso que transferiria mais facilmente seus votos para Haddad. Não deu certo.

Já Bolsonaro pensou em fazer o mesmo, mas sua situação era mais crítica que a de Lula, pois havia sido condenado por golpe de Estado, e dificilmente conseguiria um golpe parlamentar para tirá-lo daquela situação. A escolha de Flavio pareceu um erro no início, mas consolidou-se quando ficou claro que uma maioria da direita estava sendo levada para o extremismo da famiglia, tornando-se refém do populismo radical que elevou Bolsonaro a líder antiesquerdista. A fraqueza intrínseca de Flavio, porém, revela-se insuperável, além de seu telhado de vidro.

A democracia oligárquica, por Elio Gaspari

O Globo

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, livro de Joaquim Falcão expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam

Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.

Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.

O fundo do fundo do poço, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao decretar novas prisões, juiz relatou 'sangria das verbas públicas' na gestão Cláudio Castro

A frase é do juiz Marcello Rubioli, da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa: “O estado do Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”.

O magistrado decretou a prisão preventiva de seis envolvidos em fraudes no Instituto Rio Metrópole. Criado para elaborar projetos de transporte, saneamento e habitação, o órgão foi transformado em mais um sorvedouro de dinheiro público.

A operação de quinta-feira desmantelou um esquema que desviou ao menos R$ 86 milhões. Entre os presos, está o presidente da autarquia, nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro. Também foram em cana o pai e a cunhada do deputado estadual Alexandre Knoploch. Ele se apresenta nas redes como “casado, pai, evangélico”, “conservador de direita” e “pela família”.

Em nome do pai, por Dorrit Harazim

O Globo

Há, no caso dos filhos de Netanyahu, apenas a inconveniência de um sobrenome atrelado a um incômodo chamado Gaza

Na semana passada, o diário israelense Haaretz apurou que o filho mais velho do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu havia formalmente trocado de sobrenome em algum momento dos últimos 18 meses. Em sua declaração de Imposto de Renda de 2024, ele ainda era Yair Netanyahu, enquanto documentos fiscais de 2026 já o listam legalmente como Yonatan Hon.

Não terá sido o primeiro da linhagem. Seu avô paterno fez parte do movimento sionista que migrou da Europa para a Palestina sob o Mandato Britânico no início do século XX. Adotou um sobrenome hebraico para enfatizar o enraizamento na terra prometida. Líderes históricos como David Ben-Gurion, que nascera na Polônia como David Grün, o também polonês Shimon Peres, nascido Szymon Perski, a ucraniana Golda Meir, ex- Mabovitch, e tantos outros optaram pela reidentificação sionista. Data daquela época, e pelos mesmos motivos, a conversão do polonês Mileikowsky em Benzion Netanyahu, avô de Yair.

A Revolução Americana explica por que a democracia sobreviverá com Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É impossível assistir à série da Netflix sem pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque práticas institucionais consolidadas durante mais de dois séculos

Geralmente, quando vivemos uma situação que não conseguimos compreender de imediato e para a qual não encontramos uma explicação plausível no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas e das contradições que a produziram costumam oferecer as melhores pistas para melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A história não fornece receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreensão. Segundo Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, "a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

Mas nem sempre. A história não avança em círculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunstâncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e automação remodelaram a produção, o trabalho e a distribuição do poder econômico. Entretanto, enquanto a ciência acelera o futuro, a política parece caminhar para trás.

O presidenciável e o ministro do STF, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que a tentativa de golpe desuniu, o Master uniu: Flávio e Alexandre de Moraes

O prazo venceu e o presidenciável Flávio Bolsonaro não deu explicações ao PL sobre a dinheirama que pediu a Daniel Vorcaro. E o ministro Alexandre de Moraes? Jamais justificou o contrato fabuloso do escritório de sua mulher com Vorcaro. De Dias Toffoli, nem se ouve falar mais.

O mundo dá voltas. O que a tentativa de golpe desuniu, o Banco Master uniu. Flávio e Moraes, de lados extremos no julgamento de Jair Bolsonaro, estão numa situação semelhante em relação a Vorcaro e Master. De certa forma, inclusive, um serve de para-raios para o outro.

Como endurecer com Flávio e não Moraes, ou vice versa? Ambos alegam, um publicamente, outro entre amigos, que se trata de negócios ou acertos privados, sem nada a ver com dinheiro público, e nenhum dos dois sofreu operação de busca e apreensão da Polícia Federal.

Estadistas e governantes de turno, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis

“Como alguém se torna o que é” foi o subtítulo do livro de Nietzsche, Ecce Homo (1889 e publicado em 1908). Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis. Afinal, como afirmou Eduardo Giannetti, “na vida das nações, não menos que na dos indivíduos, os primeiros momentos imprimem ao que está nascendo traços de teimosa permanência”.

Os norte-americanos comemoraram, poucos dias atrás, os 250 anos de sua Declaração de Independência. Historiadores não deixaram de notar que a Declaração de 1776 não deve ser confundida com a ratificação da Constituição, que só veio a acontecer 13 anos depois, em 1789. Simon Schama escreveu artigo memorável sobre o tema, publicado em caderno especial do Financial Times (FT), em que explora a relação entre a declaração e a Constituição com foco nas visões dos founding fathers, cujos compromissos, conflitos e contradições ainda hoje são relevantes para entender não só como os EUA se tornaram o que são hoje, como também o que pode vir a ser seu futuro.

Crescer continua sendo o desafio, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Menos afetado pela crise global, o País segue atolado no baixo dinamismo

Trapalhadas de Flávio Bolsonaro e brigas da direita favorecem, por enquanto, a busca de mais uma eleição pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A bagunça internacional pode atrapalhar, mas a Petrobras tem conseguido manter as vendas externas, enquanto outros exportadores tentam compensar, em mercados diversos, as dificuldades criadas nos Estados Unidos pelo presidente Trump. Amizades problemáticas e suspeitas de corrupção, tema persistente no dia a dia da política brasileira, podem afetar a imagem do governo, mas sem danos importantes até agora.

A economia nacional permaneceu razoavelmente positiva no primeiro semestre. Até a primeira semana de julho, a balança comercial acumulou superávit de US$ 44,63 bilhões, 39,2% maior do que o alcançado em 2025 no mesmo período. O resultado foi obtido com exportações de US$ 190,66 bilhões, 11,8% superiores às de um ano antes, e importações de US$ 146,03 bilhões, com aumento anual de 5,4%.

Benedito, por Ignácio Loyola de Brandão*

O Estado de S. Paulo

Benedito Ruy Barbosa morreu na semana passada, aos 95 anos. Cinco a mais do que eu. Jovens, nos encontrávamos no jornal Última Hora, do Samuel Wainer. Ele nos esportes, eu na geral e em variedades. Ambos magros, sotaque caipira. O meu, araraquarense; o dele, de Vera Cruz, vizinha a Marília.

Na verdade, depois descobri que ele nasceu em Gália. Este nome me remetia às aulas de latim do professor Luciano, que nos obrigava a decorar De Bello Gallico. Quando me contou de sua cidade, eu disse: Garça, Gália, Vera Cruz, Lácio, Marília. Trajeto que eu fazia nas férias indo para sítios de tios cafeicultores de porte médio em Vera Cruz.

Na UH – como dizíamos –, ele ficava muito perto de mim, graças aos meus contatos com o mundo do cinema e do teatro. Assim, cautelosamente, ele foi chegando ao Oficina e ao Arena, que se contrapunham ao “teatrão”, como se dizia, do TBC, e de Cacilda Becker, Nydia Licia, Sérgio Cardoso e outros figurões.

O limite da perfeição, por Leandro Karnal*

O Estado de S. Paulo

Sem amigos sinceros, capazes de nos criticar, apertamos parafusos sem saber quando parar

Guardem a ideia de que, para melhorar, por vezes chegamos ao excesso que coloca tudo a perder

Seu Walter veio instalar um filtro na parede da minha cozinha. A peça cilíndrica encaixa-se diretamente e deve ser girada até que a rosca fique bem vedada. Estava perto do fim da tarefa. Seria bom dar uma última volta para garantir vedação absoluta. É zelo. É prudência. Meia volta a mais e… tudo se estragou. Foi excessivo. A água jorrou. A tentativa de chegar à perfeição estragou tudo. A história foi real e ocorreu na minha cozinha, na Rua Cotoxó, bairro da Pompeia, em São Paulo.

Flávio mentiu para os americanos, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Filho de Bolsonaro quer comprar ajuda de Trump com nosso dinheiro

Bolsonarismo tenta vender facilidade aos brasileiros após ter criado dificuldade

Flávio Bolsonaro foi a Washington pedir que Donald Trump suspenda o tarifaço temporariamente. O tarifaço, para quem não se lembra, foi organizado por Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. Na questão do tarifaço, o bolsonarismo está tentando vender facilidade aos brasileiros depois de ter criado a dificuldade, uma tática clássica no mundo da corrupção.

É como se Lula tivesse pedido, e obtido, sanções chinesas contra o Brasil depois da vitória de Jair em 2018, só para aparecer em 2022 dizendo: olha, prometo resolver esse negócio de sanções chinesas, realmente terrível isso, quem será que fez, se vocês me elegerem eu as reduzirei pela metade.

Lula não fez isso. Os Bolsonaros fizeram.

Direita sente, em Flávio Bolsonaro, o bafejo de maus ventos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Resistências e falta de empenho da direita contrastam com os bons índices do senador nas pesquisas

Contratempos da candidatura comunicam que hipótese de derrota é fava que se conta sem grandes lamentações

Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem isso porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio. A acurada percepção sobre a direção dos ventos é uma das habilidades inerentes à atividade.

Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro (PL) conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.

Ruge um tigre de papel, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado ajuda a explicar fenômeno Espriella

Avanço internacional da ultradireita tem elementos que indicam mudança na relação de políticos com as massas

Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".

Muitos times para um coração, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Perguntei à IA por qual time torcia o comediante Zé Trindade. Respostas: por nenhum e vários

Dependendo da formulação da pergunta, a IA, sem nenhum caráter, responde de modo diferente

Uma das qualidades da IA é que, ao lhe fazer uma pergunta, você terá direito a uma resposta múltipla. Só depende da maneira como formulou a dita pergunta. Outro dia, em meio a uma pesquisa sobre comediantes brasileiros do passado, perguntei à IA qual era o time de coração do genial Zé Trindade. Para quem não se lembra, Zé Trindade (1915-1990) foi um astro do estúdio Atlântida, em chanchadas deliciosas hoje proibitivamente incorretas até nos títulos, como "Mulheres à Vista" (1959), "Mulheres, Cheguei!" (1959), "Marido de Mulher Boa" (1960), várias outras.

Da Doutrina Monroe ao Make America Great Again: nada de novo no front, por Roberto Amaral*

Os EUA completam 250 anos de independência. Nada mais significativo e próprio celebrarem a efeméride sob a regência de Donald J. Trump, o presidente que, em pleno século XXI, representa, fortalece e atualiza a essência arrogante, colonialista e imperialista de sua história, como povo, nação e país. Essa essência ilumina a pretensão ideológica do destino manifesto, definido por Henry Kissinger como “a obrigação dos EUA de disseminar seus valores por todo o mundo” (Sobre a China, 2011).

As bases objetivas do imperialismo estão expressas na Doutrina Monroe (1823), consolidada pelo que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt”. Refere-se à era da política do big stick do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909), resumível na frase: “Fale com suavidade e carregue um grande porrete”, revista por Trump com a omissão da primeira parte.

O atual governo — intervencionista na América Latina, na Palestina, e no Irã, honrando o legado de seus antecessores — não pode ser visto como “um ponto fora da curva”.

Poesia | Festa da poesia, de Marcelo Mário de Melo

Vou à festa da poesia

festa de entrada franca

ninguém é dono nem manda

ninguém promove ou banca.

 

Nela os portões são abertos

por nuvens de passarinho

e o recepcionista

é um cavalo marinho.

 

Para iluminar o espaço

as estrelas se abaixaram

e as cores do arco-íris

se soltaram pra pintá-lo.

Música | Geraldo Azevedo - Dia Branco

 

sábado, 11 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Petro repete reação antidemocrática de Trump e Bolsonaro

Por O Globo

Ao contestar resultado das urnas, colombiano mostra que agressão à democracia não está restrita à direita

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, cancelou no início desta semana o processo de transição de poder conduzido com a equipe do presidente Gustavo Petro. Mesmo depois que a autoridade eleitoral oficializou a vitória por margem apertada do ultradireitista Espriella sobre o esquerdista Iván Cepeda, candidato do governo, Petro continuou a contestar o resultado (o próprio Cepeda reconheceu a derrota).

A semelhança com o que fizeram Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil é evidente. É uma prova de que a veia antidemocrática não está restrita aos populistas de direita. Sem apresentar um única prova, Petro afirma que houve fraude, nega-se a passar a faixa presidencial no dia da posse em agosto e marcou uma manifestação de rua para o dia 20 de julho, que vem sendo descrita como um replay do 6 de Janeiro de Trump ou do 8 de Janeiro de Bolsonaro. Não surpreende que Espriella acuse Petro de tramar um golpe de Estado e peça às Forças Armadas que protejam a Constituição e a democracia.

Brasil é território hostil a menores, por Flávia Oliveira

O Globo

Maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até morte violenta subiram na faixa de zero a 17 anos

O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador, testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5 anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país, espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter recebido um bom-dia.

E por falar em saudade, por Eduardo Affonso

O Globo

É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais

Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade — essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade enjoada não vai embora.

Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor (saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).

Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos (diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria, da Bahia, dos tempos da Panair.

Prodígios congênitos do direito, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho, cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões. Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.

O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.

Uma nuvem que pesa toneladas, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A IA está mudando a economia mundial, mas, para fazê-lo, usa uma quantidade gigantesca de capital

Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA) consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria exagero. Mas não é.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo. Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.

O Ceará na crise bolsonarista, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos, lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz o oposto, anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado "Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que ela tem projeto pessoal de consolidação de sua liderança no campo da direita

A intensificação da crise em torno da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro tem desestabilizado os cenários estaduais, como é o caso do Ceará. A vinda do filho de Bolsonaro à Fortaleza para apaziguar os ânimos é uma prova do esforço que a sigla tem mantido para garantir alguma coesão na disputa cearense.

Embora tenha vindo justamente para fortalecer o palanque local, a presença de Flávio produz um efeito político ambíguo, especialmente após a veiculação da notícia de que o PSDB não lançará chapa própria para disputa da presidência. Isso se dá porque, em terras cearenses, Ciro precisa administrar o incômodo de se aliar ao bolsonarismo sem ser, na origem, um bolsonarista convicto. Sua aliança eleitoral com o PL criou uma contradição que desagrada a gregos e troianos, porque, do lado do bolsonarismo, a desconfiança com seu nome é real e, no campo progressista, ficou um gosto agridoce de um pragmatismo radical difícil para uma parte dos ciristas históricos digerir.