quarta-feira, 4 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regras para uso de IA nas eleições são bem-vindas

Por O Globo

Embora elas não garantam, sozinhas, um ambiente saudável de campanha, TSE faz bem em conter desinformação

São sensatas as normas aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para uso de inteligência artificial (IA) na propaganda eleitoral deste ano. O objetivo é combater a desinformação que costuma contaminar as redes sociais, onde nem tudo é o que parece. Com a facilidade de acesso às ferramentas de IA, capazes de conferir verossimilhança incrível a vídeos e áudios sem nenhuma conexão com a realidade (chamados deepfakes), o eleitor se torna presa fácil de manipuladores.

Rombo na esperança, por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

O maior de todos os rombos do caso do Banco Master é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores

Existe um conto na literatura fantástica, do tipo Jorge Luis Borges, em que "um certo homem assalta um banco e corre para um cassino, onde joga todo o dinheiro roubado. Ao perder tudo que conseguiu com o assalto, decide vender o patrimônio do próprio dono do banco assaltado, com o argumento de que usará o dinheiro para salvar a instituição". Parece confuso, mas é como ocorre na literatura fantástica. E no Distrito Federal essa literatura fantástica parece estar virando realidade. 

O governo desviou bilhões de reais do Banco de Brasília, o BRB, um banco público e sólido, na tentativa de salvar o Banco Master, uma instituição privada, que oferecia juros de agiota, como se fosse um cassino. Como acontece com todo banco ou cassino sem credibilidade, ao perceberem os riscos, os apostadores se afastaram, e o banco-cassino, começava a dar sinais de que quebraria.

De olho nas pesquisas, Alcolumbre confirma quebra de sigilo de Lulinha, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Filho do presidente Lula passou a ser alvo da CPMI após investigados por supostos desvios citarem um possível vínculo dele com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS

O presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu, ontem, manter a deliberação da CPMI do INSS que determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Aliado “ma non troppo” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, emdossou a um pedido da oposição, que havia aprovado a medida na semana passada, em sessão marcada por divergências e questionamentos da base governista. Alcolumbre rejeitou recurso apresentado por 14 deputados e senadores aliados do presidente, no qual o grupo solicitava a suspensão imediata dos efeitos da votação, sob a alegação de falhas na condução do processo.

O novo núcleo duro do Palácio do Planalto, por Fernando Exman

Valor Econômico

Expectativa é que a Esplanada dos Ministérios ganhe um perfil mais técnico

Acerca de um mês do prazo para que os ministros que pretendem disputar as eleições deixem seus atuais cargos, cumprindo assim as regras de desincompatibilização estabelecidas pela Lei Eleitoral, é possível prever que o governo passará por uma mudança na correlação de suas forças internas. Os ministros da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Sidônio Palmeira, e o titular da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, passam a ser os veteranos do Palácio do Planalto. Na verdade, antes mesmo da saída de colegas de peso das alas política e econômica, os dois já demonstram crescente influência no processo decisório do chefe.

Não serão poucas as mudanças no governo. O Valor mostrou que pelo menos 20 dos 38 ministros deixarão o Executivo para concorrer a algum cargo eletivo ou, pelo menos, ter essa carta na manga mais à frente. Estão nessa lista, por exemplo, os ministros da Casa Civil, Rui Costa, o titular da Fazenda, Fernando Haddad, e a chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. Outros ministros com relevante influência política, da esquerda à direita e sejam eles da área de infraestrutura ou da ambiental, também voltarão para a planície.

Capitalização na Previdência, o debate, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Em algum momento será necessário decidir se o salário mínimo crescerá menos ou se as despesas previdenciárias deixarão de ser vinculadas a ele

O conflito que se espalha pelo Oriente Médio deverá provocar aumento dos juros no mundo inteiro. Aqui no Brasil, esse movimento se reflete em taxas igualmente mais elevadas para financiar a dívida pública, o que torna ainda mais necessário obter saldos positivos nas contas públicas.

A aceleração do ajuste fiscal foi defendida pelo secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, no evento “Rumos 2026” promovido pelo Valor na última segunda-feira. A ideia é limitar mais fortemente o crescimento das despesas permitido pelo arcabouço fiscal. Hoje, o aumento possível é de até 2,5% acima da inflação. Esse número terá de ser menor. Quanto, o secretário não disse.

O silêncio de Lula, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente foi a Teerã mediar um acordo nuclear; agora tenta manter distância da guerra

Com problemas de sobra no Brasil, Lula adotou uma cautela incomum diante da nova guerra no Oriente Médio. Até aqui, o presidente evitou falar diretamente sobre o conflito. Terceirizou a tarefa para o Ministério das Relações Exteriores.

Na manhã de sábado, o Itamaraty divulgou uma nota de dez linhas sobre os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã. “O governo brasileiro condena e expressa grave preocupação”, afirmou, antes de repetir os apelos protocolares pelo multilateralismo e pela paz.

Incêndios se avolumam, e Lula só assiste, Por Vera Magalhães

O Globo

Mesmo quando age, como na montagem do palanque em São Paulo, petista demora a tomar decisões

A maré definitivamente não é boa para a largada da campanha de Lula à reeleição, e o entorno do petista demora além da conta para reconhecer a conjunção de fatores negativos e agir de forma coesa, no governo e na política. Na verdade, esse time carece de coordenador e de quem tenha ascendência sobre Lula. O que mais se ouve entre auxiliares e aliados do petista é: ele tomará todas as decisões relevantes, e no seu tempo.

Enquanto isso, a CPMI do INSS vai se transformando na CPMI do Lulinha, a interlocução com o Congresso, já ruim, se deteriora, e a definição sobre quem fica e quem sai do governo e quais serão os candidatos apoiados pelo presidente em cada estado acontece em ritmo intermitente, sem direção clara.

O peso do fator Lulinha, por Elio Gaspari

O Globo

Os repórteres Luiz Vassallo e Aguirre Talento revelaram que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de 51 anos, reconheceu em conversas particulares que viajou em 2024 para Portugal com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Juntos visitaram uma fábrica de Cannabis para fins medicinais.

Lulinha decidiu revelar que fez essa viagem, cacifada pelo Careca, depois que a Polícia Federal pediu e o ministro André Mendonça, do STF, levantou o sigilo bancário de suas contas. O Careca do INSS está preso por causa de suas conexões com a quadrilha que roubava descontos nos contracheques de milhares de aposentados.

Haddad quer um ‘novo Alckmin’ para vice, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Ministro busca perfil de centro para fazer dobradinha com ele na disputa pelo Bandeirantes

Falta apenas um mês para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), deixar a equipe do presidente Lula. Embora ainda não admita a candidatura ao governo de São Paulo, o que Haddad procura, agora, é uma espécie de “novo Alckmin”: alguém com perfil de centro, e bom relacionamento com o empresariado, para fazer dobradinha com ele e ocupar a vaga de vice na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

A ideia é montar uma chapa que não seja puro-sangue nem “pão com pão”, como costuma dizer o próprio Lula. Mas um arranjo que ultrapasse as fronteiras da esquerda não é tão fácil assim: depende de encontrar novos aliados em um cenário no qual a candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece como favorita.

Um piso para o PIB, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O temor de analistas é de um maior impulso fiscal por meio da execução do Orçamento e de medidas populistas

Aumentou a probabilidade de o presidente Lula colocar um piso na desaceleração da economia neste ano depois que as recentes pesquisas de intenção de voto mostraram uma corrida para a eleição presidencial bem mais apertada do que se observou logo após o lançamento da candidatura do senador Flávio Bolsonaro. Com o recuo do índice de aprovação do governo, a expectativa de analistas é de que o petista poderá lançar mão de novas medidas, com impacto fiscal relevante, para turbinar o consumo das famílias, que tem peso de 64% no cálculo do PIB.

Estratégia do caos do Irã desafia 'doutrina do louco' de Trump, por Patrícia Campos Mello

Folha de S. Paulo

Para o regime, 'martírio' de seus líderes é custo baixo para sobrevivência da revolução islâmica

Com planejamento antecipado, Teerã descentralizou decisões militares e criou camadas de substitutos para lideranças

O presidente americano, Donald Trump, acumulou vitórias através de uma política externa calcada na imprevisibilidade e na impulsividade, que força aliados e adversários a se curvar às demandas americanas para evitar o pior.

Mas a estratégia de sobrevivência do Irã frente aos ataques dos Estados Unidos e de Israel impõe a primeira grande ameaça à versão trumpista da "doutrina do louco". Para o regime, a morte de seus líderes é um custo baixo para manter viva a revolução islâmica de 1979.

Agro, petróleo e minérios evitaram PIB menor em 2025, mas essa história vem de longe, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

País não cresceu na metade final do ano passado, mas resultado foi bom, dadas as condições

Juros altos apenas não explicam padrão e dificuldades do crescimento neste século

economia parou de crescer no segundo semestre do ano passado. Ainda assim, o PIB (Produto Interno Bruto) aumentou 2,3% em 2025. Razoável. Entre a Grande Recessão (2014-2016) e antes da epidemia (2020), a taxa média foi de 1,4% ao ano.

A queda de ritmo em relação aos 3,4% de 2024 era esperada, dadas as taxas de juros e limites da capacidade de produzir. O consumo privado parou de crescer na metade final do ano, o que não anima o humor da população.

Faz falta o centro democrático, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O Brasil já teve um núcleo político de ação e pensamento que dissolvia crises antes que virassem impasses

Submerso pela onda radical, esse pessoal tem a tarefa de emergir da nova geração que aguarda o toque de reunir

Outro dia, no trajeto para uma visita ao Museu de Identidades que Ronaldo Cézar Coelho fez em Vassouras (RJ) no restauro da Santa Casa de Misericórdia da região do Vale do Café, andei conversando sobre como faz falta o núcleo de ação política que dava conta da dissolução de crises antes que virassem impasses.

Éramos 20 no grupo primordialmente interessado no que será do amanhã de um Brasil fadado a escolher se renova o mandato de um presidente sem saber exatamente para quê ou se põe na Presidência um emergente da ala que obrigou o país a se defender do retrocesso democrático/civilizatório.

Eleições não são concursos de virtude, são disputas por maioria, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Supor que superioridade moral garante vitória pode impedir a leitura correta do país

A crença no próprio merecimento não substitui a necessidade de convencer maiorias reais

Pesquisas eleitorais recentes que projetam um crescimento das intenções de voto em Flávio Bolsonaro no segundo turno, em hipotético confronto direto com Lula, incomodaram bastante a esquerda. Ora, estamos falando de projeção de segundo turno, que está entre as coisas mais hipotéticas e incertas do universo das sondagens eleitorais, ainda mais a esta distância do pleito. Por que, então, uma recepção tão alarmada da notícia?

Provavelmente porque muitos desse lado já andam, há tempo, de mãos dadas com a certeza de que Lula ganhará a eleição. Uma previsão eleitoral que não é vista como estimativa probabilística, mas como marcador moral e identitário: quem é do grupo tem que acreditar. Por isso, a informação que sugere que a derrota é possível produz tensão simbólica e afetiva notável, pois representa ameaça à identidade coletiva.

Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos, por Thomas L. Friedman

The New York Times / Folha de S. Paulo

Ofensiva contra Teerã é chance de derrubar teocracia, mas carrega risco de colapso e fragmentação do país

Impacto econômico pode ditar ritmo, mas guerra não deve obscurecer pressões sobre democracia nos EUA e em Israel

Para pensar com clareza sobre as guerras no Oriente Médio é preciso manter múltiplos pensamentos na cabeça ao mesmo tempo. É uma região complicada e caleidoscópica, onde religião, petróleo e política das grandes potências se entrelaçam em cada grande história. Se você está procurando uma narrativa preto no branco, talvez seja melhor jogar damas. Então, aqui estão meus quatro pensamentos sobre o Irã —pelo menos por hoje.

Primeiro: espero que esse esforço para derrubar o regime clerical em Teerã tenha sucesso. É um regime que assassina seu povo, desestabiliza seus vizinhos e destruiu uma grande civilização. Não há evento único que faria mais para colocar todo o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança focada exclusivamente em permitir que o povo iraniano realize seu pleno potencial com uma voz real em seu próprio futuro.

Poesia | Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira

 

Música | Chico Buarque & Wilson das Neves - Grande Hotel

 

terça-feira, 3 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra duradoura trará maior pressão sobre a inflação

Por O Globo

Ao fechar Estreito de Ormuz, Irã impede transporte de um quinto dos barris de petróleo exportados

Quatro em dez barris de petróleo exportados no mundo saem do Oriente Médio. Desses, pelo menos dois atravessam o Estreito de Ormuz, que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico. É daí que vem a ameaça de contágio da economia global pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Fechar Ormuz, como fizeram ontem os iranianos, é uma estratégia eficaz para infligir perdas aos inimigos. No plano de sobrevivência do regime dos aiatolás, a prioridade é mirar em refinarias e navios enquanto houver forças.

Marcelo Cerqueira, advogado de presos políticos e deputado, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela

A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.

Conheci Cerqueira na campanha eleitoral de 1978, quando foi candidato a deputado federal pelo MDB, a convite do falecido dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Antônio Ribeiro Granja, com apoio no Rio de Janeiro, em Niterói e na Baixada Fluminense. Fez dobradinha com o deputado estadual Alves de Brito (MDB), que concorria à reeleição. Lembro-me de seu principal panfleto de campanha, intitulado “Dá-lhe, povo”, inspirado no lendário jóquei Luiz Rigoni.

Formado em direito, Cerqueira construiu sua trajetória na interseção entre a advocacia e a política. Não era apenas de um advogado militante, mas um jurista atento às garantias constitucionais e aos limites do poder punitivo. Ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), ingressou no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) pelas mãos do falecido cineasta Leon Hirszman (Cinco Vezes Favela, Eles Não Usam Black-Tie, entre outros).

A única meta do STF é parar de piorar, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula resiste à pressão da Corte sobre a PF e ministros se inquietam com a mudança interna no pêndulo do poder

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca rompeu com Emílio Odebrecht. Os desdobramentos do envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva com Antonio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, sugerem que, além daquelas da Lava-Jato, Lula também colheu lições da relação entre Emílio e seu filho, Marcelo Odebrecht.

Corria o segundo semestre de 2016 quando a Odebrecht começou a negociar o acordo de delação premiada. Marcelo queria ser o primeiro dos 77 delatores pela simples razão de que a primazia, num acordo cujo ativo mais valioso é a informação, lhe daria vantagem. Emílio não permitiu. O filho ameaçou implodir tudo, Emílio pagou pra ver, manteve-o no fim da fila e a delação seguiu seu curso.

Contra os ataques americanos, Irã ameaça as bombas de gasolina nos EUA, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Reação de Teerã sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais poderá lhe doer: nas urnas

Donald Trump se vangloriou dos preços baixos dos combustíveis nos EUA, no seu recente discurso sobre o Estado da União. Isso mostra como a gasolina barata é um ativo precioso para o presidente, especialmente num período de campanha eleitoral. A reação do Irã ao ataque americano sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais lhe poderá doer, nas urnas. A guerra pode logo se tornar uma disputa entre o que causa mais dano: as bombas americanas que estão caindo no Irã ou o preço subindo nas bombas de gasolina dos EUA.

Quando a guerra ignora limites: a urgência de reafirmar o direito internacional, por Nasser Zakr*

Correio Braziliense

A estabilidade duradoura depende da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa

O direito internacional humanitário (DIH) representa o esforço mais consistente da comunidade internacional para preservar a dignidade humana em meio à guerra. Não impede conflitos, mas estabelece limites jurídicos claros e universais à condução das hostilidades. Seu propósito é essencial: proteger civis, restringir métodos e meios de combate e assegurar que, mesmo em cenários extremos, a humanidade permaneça como parâmetro mínimo de conduta entre Estados e demais atores armados.

Relações perigosas, por Merval Pereira

O Globo

A posição diplomática do Brasil é ideológica, com viés esquerdista de antiamericanismo, mas não tem sentido na vida real para o país

A política externa brasileira, no afã de mostrar-se independente dos Estados Unidos num anti-imperialismo infantiloide, se une a países como o Irã, que financia o terrorismo internacional, e se coloca em situações embaraçosas. Exemplo de como ser um vice-presidente leal é tarefa delicada, Geraldo Alckmin já ouviu em posição de sentido a Internacional Socialista no aniversário do PSB e apareceu numa foto ao lado de líderes de milícias que integram o autoproclamado “eixo da resistência”, aliança informal liderada pelo Irã. Na cerimônia de posse do presidente iraniano em 2024, em que representou o governo brasileiro, Alckmin ficou ao lado de representantes dos grupos terroristas Houthi, Jihad Islâmica, Hezbollah e Hamas, todos financiados pelo Irã.

Aposta de Trump na guerra do Irã, Por Míriam Leitão

O Globo

O presidente norte-americano posa de vencedor no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em segundo plano na eleição

Não há no mundo falta de petróleo. O que é previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por navios.

Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.

Irã entre a ditadura e a paz americana, por Fernando Gabeira

O Globo

A tática dos EUA é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

A IA vai à guerra, por Pedro Doria

O Globo

É provável que os Estados Unidos tenham usado inteligência artificial para ter certeza da localização do aiatolá

Quão legítimo é o uso de inteligência artificial numa guerra? Da semana passada para cá, essa discussão veio para o centro do debate político americano. E, pela primeira vez, o Vale do Silício rachou. Mais que isso. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse “não” ao governo Donald Trump. Nunca um líder havia dito “não” para esta Casa Branca, bem pelo contrário. No último ano e pouco, houve um festival de homenagens, elogios e até troféus dados ao presidente por CEOs da alta tecnologia. Ainda assim, mesmo tendo havido ruptura formal, a tecnologia da Anthropic fez parte do arsenal americano neste ataque ao Irã. Em quê? Ainda não sabemos.

A guerra em quatro pensamentos, por Thomas Friedman

O Estado de S. Paulo

A queda do regime iraniano contribuiria para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva, mas não será fácil derrubá-lo

Devemos lembrar das ameaças à democracia e ao estado de direito de Trump e Netanyahu em seus países

Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.

Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.

Lula, um olho lá, outro cá, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que é mais explosivo para Lula, as bombas contra o Irã ou contra o Lulinha?

A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã se espalha pelo Oriente Médio, impacta as bolsas ao redor do mundo, chacoalha o preço do petróleo e, por óbvio, é um problemaço para o Brasil e para o presidente Lula. A principal preocupação de Lula no ano eleitoral, porém, não é essa. E qual seria?

O interditor, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Esqueça o debate jurídico sobre a forma como Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos da empresa de Dias Toffoli pela CPI do Crime Organizado. Discuti-la sob os valores e as leis da República significaria legitimar o que só pode ser compreendido como movimento autoritário – reação abusiva de poder – contra a imposição-exposição da verdade. A verdade é que o decano interveio – foi chamado e resolveu – porque a cousa avançava descontroladamente sobre os trânsitos e outros tráfegos dos ministros-empresários do STF pela rede-laranjal do Master.

Entrevista: Lula e a família tradicional: é possível conquistar o voto conservador?

Por Amado Mundo/Matinal (GO)

Socióloga e vereadora de Goiânia pelo PSB, Aava Santiago, que é cristã pentecostal, critica relação da esquerda com religiosos e diz que eleitor evangélico está cansado do histrionismo de Malafaia e da ostentação de André Valadão

O Palácio do Planalto traçou uma linha clara para as próximas eleições: não é possível governar o Brasil de 2026 ignorando que o “valor família” é o amálgama que une brasileiros independentemente da vertente ideológica. Desde as eleições de 2022, o governo de Lula tem operado uma diplomacia silenciosa para reduzir os índices de rejeição de evangélicos e conservadores ao seu nome, utilizando reuniões estratégicas, diálogo direto com lideranças e a interlocução com nomes que transitam bem no meio religioso.

No entanto, a comunicação governamental segue enfrentando o desafio das “guerras culturais”. O recente desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente no carnaval do Sambódromo do Rio, tornou-se combustível para a oposição com a ala “Família em Conserva”, uma crítica aos conservadores, mais alinhados à direita.

No Irã, celebrar é uma coisa, esperar por milagres é outra, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Esperança é terreno movediço demais para começar uma guerra

Caos, endurecimento do regime e guerra civil também estão no cardápio

Penso nos meus alunos iranianos, passados e presentes, quando olho para essa guerra. Que jovens admiráveis!

Deixaram o país que amavam porque a repressão era imensa. As moças, então, comeram o pão que o Diabo amassou. Se você acha que o patriarcado é um problema sério no Ocidente, experimente uma temporada no Irã, onde nem os cabelos estão a salvo.

Mas não são apenas os iranianos que sofrem nas mãos do regime. Desde 1979, Teerã se converteu em um dos principais financiadores do terrorismo internacional —Hamas, Hezbollah, houthis, milícias xiitas no Iraque; a lista é longa. E as suas vítimas se estendem pelos quatro cantos do mundo —do Líbano à Argentina, de Tel Aviv ao Mar Vermelho.

Se o regime cair sob as bombas americanas e israelenses, serei o último a derramar uma lágrima pela teocracia dos aiatolás. A pergunta, porém, é outra: será que vai cair?

A última conversa, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Trump tenta reproduzir no Irã fórmula usada na Venezuela

País persa coloca cenário muito mais incerto e desafiador

A psicologia infantil é uma ferramenta útil para entender Donald Trump. Uma de suas características marcantes, conhecidas já desde o primeiro mandato, é que ele com frequência se deixa convencer pela última pessoa com a qual conversou. Nos tempos em que ainda havia assessores republicanos adultos tentando contê-lo, a ordem era nunca deixar que integrantes do Team Crazy (turma dos malucos) fossem os últimos a sair do salão oval.

Presidenciáveis do PSD enfrentam risco de perder comando de seus estados para o bolsonarismo, por Raphael Di Cunto

Folha de S. Paulo

Governadores Ratinho Jr. e Eduardo Leite têm dificuldades para emplacar sucessores

Caiado ainda negocia aliança com o PL, mas tem o cenário mais confortável dos três

Os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Júnior, do Paraná, enfrentam dificuldades com o bolsonarismo em seus estados e correm o risco de perder o comando local para a direita após ensaiarem candidaturas presidenciais. O impasse tem sido levado em conta nos planos nacionais de ambos, segundo aliados.

Dos três presidenciáveis do PSD, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é o que tem a situação mais confortável na eleição regional. Seu vice, Daniel Vilela (MDB), já figura em pesquisas como primeiro em intenção de votos e tem como principal adversário o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que perdeu força após ser citado na Operação Lava Jato.

Lula tropeça e abre espaço para o adversário, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A conferir se as pesquisas registram uma tendência ou só captaram um momento ruim para o governo

Seja como for, presidente perdeu a aura de imbatível e deve a isso à ação do ego inflado, seu pior inimigo

Aguardemos as próximas pesquisas para conferir se as primeiras depois do desastroso Carnaval apontaram uma tendência ou se apenas captaram um mau momento para o governo.

Seja como for, um dado é inquestionável: Luiz Inácio da Silva (PT) perdeu a aura de imbatível e pode perder o lugar de favorito habitualmente reservado aos ocupantes do poder. Escrita quebrada na derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, e sinal de que o instituto da reeleição não tem taxa de sucesso garantido.

O elo da política com o crime organizado no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Segundo a PF, Rodrigo Bacellar capturou o governo para proteger Comando Vermelho

Ex-presidente da Alerj fez nomeações em batalhões da Polícia Militar e delegacias

O que fez e ainda faz Cláudio Castro no Palácio Guanabara? A julgar pelo relatório da Polícia Federal sobre a conduta e influência criminosas de Rodrigo Bacellar, o ex-presidente da Assembleia Legislativa que transformou o Rio de Janeiro num posto avançado do Comando Vermelho, Castro exercia uma função subalterna no esquema político-miliciano de captura das instituições. Governador de fancaria, era o serviçal da família Bolsonaro e a marionete nas mãos de Bacellar.

A força dos mitos, por Ivan Alves Filho

Os mitos são resistentes. Durante a ditadura militar, alguns setores se valiam da expressão capitalismo selvagem com o objetivo de denunciar a política econômica em curso então no país. A fórmula tinha um efeito propagandístico - e só. Pois ela carecia de base mais sólida: afinal, ela deixava supor que poderia existir algo como um capitalismo civilizado. As diferenças existentes entre diversas práticas no interior da ordem capitalista passavam para a linha de frente das análises, o adjetivo selvagem escamoteando o substantivo capitalista.

Poesia | Morte na madrugada, de Vinicius de Moraes

 

Música | Vanessa Ortiz Quarteto - Castigo (Dolores Duran)

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra abala regime de terror no Irã, mas não garante seu fim

Por O Globo

Líder de um dos regimes mais cruéis do planeta está morto, porém fatos ainda poderão frustrar as ambições de Trump

Talvez não haja evidência mais contundente do significado da morte do aiatolá Ali Khamenei para o mundo que a irrupção espontânea de manifestações de júbilo por Teerã e outras cidades iranianas com a notícia — ainda que o país estivesse (e esteja) sob bombardeio de forças americanas e israelenses, que deflagraram ataques com o fito declarado de derrubar a teocracia e acabar em definitivo com suas pretensões nucleares.

PT aguarda alianças com partidos para anunciar palanques

Por Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.