quinta-feira, 4 de junho de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca*

“Não há dúvida de que as “ideologias” têm para Gramsci peso maior do que para qualquer outro pensador marxista, mas afirmar que “tornam-se o momento primário da história” equivale a inserir seu pensamento nos quadros conceituais da “filosofia do espírito” de Benedetto Croce. É verdade que Bobbio aplica ao pensamento gramsciano um paradigma dicotômico (estrutura/superestrutura) que não se lhe adapta. A “distinção entre sociedade política e sociedade civil” – escreve Gramsci – é uma “distinção metodológica”, não “orgânica”. “Sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos”. É um dos trechos mais conhecidos do Caderno 13, no qual Gramsci polemiza com o liberalismo porque, considerando “orgânica” o que deveria ser uma distinção “metodológica”, contrapõe o mercado ao Estado, ignorando que “também o liberismo é uma ‘regulamentação’ de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva”[1]. Além disso, para Gramsci, a distinção entre estrutura e superestrutura é de caráter “metodológico”, tanto que a “metáfora arquitetônica”, em certo momento, cede o passo a outras conceituações.

*Giuseppe Vacca, Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci, Brasília/ Rio de Janeiro: FAP/ Contraponto, 2016, p. 267


[1] A. Gramsci, Quaderni del carcere, cit., p. 1592.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com novos pretextos, Trump renova ameaça de tarifaço

Por Folha de S. Paulo

Casa Branca recorre a argumentos como corrupção e Pix para outra ofensiva protecionista contra o Brasil

Ataque comercial será inevitavelmente utilizado como arma eleitoral; espera-se que governo Lula acione diplomacia para mitigar as medidas

Movido por crenças equivocadas, o governo de Donald Trump novamente ataca parceiros comerciais com ameaça de novas tarifas.

Em mais um capítulo da sua cruzada protecionista, a Casa Branca agora mira o Brasil com medidas que, se não têm o caráter de chantagem política explícita do tarifaço de 2025, não deixam de revelar uma estratégia de hostilidade sistemática.

A investigação da chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, aberta em julho do ano passado e recém-concluída, é o principal instrumento dessa nova ofensiva, que pode resultar em impostos de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros.

Segundo a consultoria MB Associados, o impacto recairia sobre 27% das exportações nacionais para os Estados Unidos —cerca de US$ 9,5 bilhões dos US$ 37,7 bilhões exportados para o parceiro comercial em 2025.

Lula reage ao realismo internacional, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

É improvável que as preocupações de Lula em relação ao multilateralismo produzam impacto na corrida eleitoral. Será mais importante mostrar o que o governo brasileiro tem feito para dirimir as ameaças tarifárias

Na abertura da reunião ministerial no Palácio do Planalto, o presidente Lula voltou a abordar um problema crônico nas relações internacionais: a crise do multilateralismo. O chefe do governo brasileiro considera fundamental uma mudança na ordem mundial, marcada pela ação unilateral de grandes potências, de modo a alimentar sucessivas crises e guerras.

Lula pretende renovar o alerta para a crise do multilateralismo em breve — possivelmente, em 15 de junho. "Eu nem ia ao G7. Agora eu vou. Porque é preciso alguém tentar colocar ordem nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU", argumentou o presidente.

Quem politizou o comércio exterior, por Míriam Leitão

O Globo

Há muitas digitais nas taxações impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar

A sucessão dos eventos deixa claro que essa nova guerra tarifária está vinculada à família Bolsonaro e ao lobby feito por eles. O presidente Donald Trump, antes de anunciar o primeiro ataque, em julho do ano passado, acusou o Brasil de estar fazendo uma suposta “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Na época, Eduardo Bolsonaro poescreveu em rede social: “Obrigado presidente Donald J. Trump”. Nesta semana, entre o primeiro e o segundo anúncio de sanções contra o Brasil, Trump postou a foto do encontro com Flávio Bolsonaro. Há muitas digitais. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar.

O que será? Por Merval Pereira

O Globo

Lula ganhou de presente o tema da “traição da pátria” e os ataques do governo dos Estados Unidos ao Pix

A questão de “traição da pátria” volta e meia entra na discussão política porque a globalização coloca quase diariamente diante dos líderes de governos questões delicadas que não se limitam mais a seus países, mas à geoeconomia expandida. Os bolsonaristas são críticos da globalização, mas se colocam à disposição do governo dos Estados Unidos na maioria das situações. O mesmo acontece com o próprio Trump: assumiu o governo dizendo que não meteria o país em novas guerras, mas só faz isso. A globalização que tanto critica é a razão de acionar a metralhadora giratória para todos os lados.

Governo dos EUA tenta dar uma mãozinha à oposição , por Julia Duailibi

O Globo

É verdade que algumas, isoladamente, não são um ato contra o Brasil. É o caso das tarifas de 12,5% para quem importa mercadorias de locais que usam trabalho forçado

As últimas 48 horas esfriaram a relação, que parecia caminhar pelos trilhos da racionalidade, entre Brasil e Estados Unidos. Depois da insensatez da Lei Magnitsky e afins, promovida pelo escritório avançado do bolsonarismo em Miami, Lula e Trump puseram as coisas nos eixos e passaram a negociar uma pauta comercial concreta. Na reunião entre eles em Washington, em maio, o Brasil dizia cobrar dos americanos tarifa média de 2,7%, e os americanos rebatiam dizendo que era cerca de 12%. Uma divergência dentro das regras do jogo. Lula e Trump mandaram suas equipes ir para casa resolver a pendenga, e tudo parecia correr bem. Até que a conversa descarrilou.

Afagos e pontapés, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula mal cabe em si no papel de que mais gosta, o de grande estadista mundial, no qual sua torrente incessante de palavras contrasta com seus efeitos práticos – ou seja, a capacidade de realizar o que diz. Mas é o papel que seus adversários insistem em dar-lhe de presente.

Jair Bolsonaro nunca teve inteligência estratégica, vide onde foi parar. Seus dois filhos conseguem ser piores. Enxergam em Donald Trump uma espécie de Guia Genial da superpotência americana, cuja condição de hegemonia planetária ele se empenha em diminuir.

Em relação ao Brasil, porém, os interesses de Trump estão definidos. Somos um tipo de peão fornecedores de commodities, especialmente as de importância geopolítica, e irritantes cerceadores das atividades de empresas americanas (ênfase no setor financeiro e digital) que precisam ser disciplinados.

Intervenção sem tiro nem bomba, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Medidas de Trump mudam foco do debate para beneficiar Flávio e dificultar reeleição de Lula

Sem tiro nem bomba, os Estados Unidos iniciaram uma intervenção política no processo eleitoral brasileiro. Se o assunto da semana passada era a fortuna que Flávio Bolsonaro recebeu do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, as manchetes agora se ocupam de decisões de Donald Trump que miram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva – o principal concorrente de Flávio na disputa.

Parte da cúpula do Judiciário considera que a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas foi o primeiro passo na interferência dos EUA nas eleições deste ano, porque prende Lula a uma saia justa: se clamar pela soberania nacional, pode ser interpretado como defensor de bandido.

Lições de um Nobel no Fórum de Lisboa, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

A novidade do professor Mokyr está no avanço teórico em relação aos novos institucionalistas

Joel Mokyr é professor da Northwestern University e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025. Seus estudos avançaram enormemente nos temas: desenvolvimento econômico, instituições e inovação tecnológica. A questão central que o motiva é: como aumentar a prosperidade num contexto de inovações tecnológicas, cujo ritmo é exponencial.

A 14.ª edição do Fórum de Lisboa, iniciativa por vezes tão criticada por setores viciados da imprensa e da opinião pública no Brasil, trouxe o professor Mokyr para uma palestra magna no último dia do evento. Foi uma oportunidade única para ouvir e registrar as lições de uma das mentes mais privilegiadas do mundo. A mesa foi mediada pelo próprio ministro Gilmar Mendes e pela presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin), Cristiane Coelho Galvão.

Subserviência dos Bolsonaros a Trump é inimiga do país, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Não é da natureza do Brasil um alinhamento incondicional a nenhuma potência

Flávio Bolsonaro expôs sua absoluta ignorância sobre as relações entre Brasil e EUA

Ainda não se conhecem as consequências da decisão do governo Trump de incluir o PCC e o Comando Vermelho nas listas de Grupos Terroristas Especialmente Designados e de Organizações Terroristas Estrangeiras. O duplo enquadramento soma sanções financeiras a medidas penais e restrição migratória.

Em consequência, o combate às facções deixa de ser problema policial do Brasil e passa a ser questão de segurança nacional dos Estados Unidos, abrindo brechas para sanções e ações unilaterais —como operações secretas ou mesmo o uso de força militar— fora do controle brasileiro.

Especialistas se dividem quanto à extensão do dano que aquela medida unilateral poderá trazer para a cooperação policial entre os dois países, já bem estabelecida há tempos, bem como para o setor financeiro e para empresas nacionais que operam nos Estados Unidos.

Vai chover no feriado e em Vorcaro, Flávio, Lula, na Bolsa, no petróleo e no Neymar; ou não, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Previsões para o destino de política e economia vão se desfazendo, como de costume

Prever é preciso, mas se presta menos atenção a problemas de fundo e menos noticiosos

O Ibovespa chegaria aos 200 mil pontos em maio —está perto de 170 mil. O "investidor estrangeiro", não raro brasileiro com dinheiro lá fora, não estaria dando a mínima para a eleição. A delação de Daniel Vorcaro seria explosiva e "tirava o sono de Brasília", que dorme com Vorcaro e vorcarettes.

A negociação do governo brasileiro com o americano derrubaria o "tarifaço", dadas a "química" de Donald Trump com Luiz Inácio Lula da Silva e as ações da diplomacia pública e privada do Brasil.
Levaria tempo para Flávio Bolsonaro alcançar Lula nas pesquisas. Flávio ultrapassaria Lula em breve. Flávio seria um Bolsonaro "moderado".

As digitais bolsonaristas no novo tarifaço, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Gênese do atual ataque dos EUA ao Brasil está bem descrita na carta que Trump enviou ao presidente Lula

Republicano dissolveu as fronteiras entre política e economia na relação do Brasil com os EUA; não será Flávio que conseguirá redesenhá-las

O senador Flávio Bolsonaro tenta se dissociar da proposta de um novo tarifaço dos Estados Unidos, mas o movimento eleitoral do pré-candidato à Presidência carece de verdade histórica.

gênese do ataque dos Estados Unidos à economia brasileira está bem descrita na carta que Donald Trump enviou ao presidente Lula em julho do ano passado, para anunciar uma sobretaxa de 50%.

Dizia o texto, logo no 1º parágrafo: "Conheci e tratei com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o respeitava muito, assim como a maioria dos outros líderes de países. A maneira como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma desgraça internacional. Este julgamento [no STF] não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve terminar IMEDIATAMENTE!"

Arminha de Flávio com Trump acerta no Brasil e ameaça Pix, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Irmãos Bolsonaro usam Casa Branca para atingir Lula, mas tentativas vão saindo pela culatra

Bajulação bolsonarista contempla doutrina Donroe que quer nos transformar em quintal dos EUA

Depois de quase um ano de investigações, o escritório de representação comercial dos Estados Unidos apresentou suas conclusões em documento que propõe novas tarifas sobre exportações brasileiras e condena o Pix.

A manifestação do governo de Donald Trump, personagem deletério bajulado por Eduardo e Flávio Bolsonaro, cita 20 vezes a plataforma eletrônica de transações financeiras criada pelo Brasil e adotada de maneira eficaz, democrática e popular pelo Banco Central.

Os filhos do capitão golpista, condenado e preso, vêm tramando com a potência estrangeira modos de atingir o presidente Lula, mas na realidade estão acertando o Brasil, sua economia, dignidade e soberania. No afã de abafar seus escândalos e tentar ganhar simpatias eleitorais, puxam a arminha, mas o tiro parece estar saindo pela culatra.

Aprenda de uma vez, 01, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro acha que, ao dizer 'Nada a ver! Zero!', ele fará a realidade desaparecer

Mas a matemática, que não falha, ensina que um número elevado a zero é sempre igual a 1

Uma das glórias da matemática é a história de que um número elevado a zero é sempre igual a 1. Como pode? Não faz sentido. É algo que, para nós, leigos, alunos relapsos ou miseravelmente formados em humanas, parece absurdo. No entanto, se tivéssemos prestado atenção à aula onde se ensinou o conceito em vez de ficar olhando para as pernas da professora, veríamos como a questão é simples e coerente. Não vou me deter a explicá-la aqui, nem tenho autoridade para isso, mas vá por mim: qualquer número elevado a zero é 1 mesmo. E não só na matemática, como a família Bolsonaro deve estar descobrindo.

Congresso beneficia estupradores de crianças, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Em menos de 2 minutos Senado derrubou resolução do Conanda

Vítimas de estupro poderão ter gestação forçada enquanto seus abusadores continuarão impunes

Em sessão na terça-feira (2) que durou exatamente 100 segundos, o Senado aprovou um projeto que protege estupradores de crianças e adolescentes. Exagero eu dizer isso? Não para quem conhece a realidade dos abusos sexuais contra vulneráveis. Ao dificultar o acesso ao direito que crianças e adolescentes possuem há décadas de interrupção da gravidez em casos de violência sexual, o Senado facilita que crianças sejam mães.

Dois caminhos e um só autoritarismo, por Ivan Alves Filho*

Volta e meia escrevo sobre a natureza do fascismo, buscando entender este fenômeno em seus múltiplos aspectos e que novamente parece ameaçar a Democracia. Hoje, dou continuidade a esta reflexão, debruçando-me a respeito das duas vias de acesso ao autoritarismo e ao próprio fascismo.

Quando pensamos em autoritarismo e perda das liberdades na América Latina, no pós-guerra, sobretudo, temos imediatamente o modelo do golpe militar na cabeça. Assim, podemos citar o Brasil de 1964, o Chile de 1973 e a Argentina de 1976, exemplos quase acabados disso. Recorrendo quase sempre à violência, esse tipo de intervenção destrói as instituições de fora para dentro, digamos assim.

Ao vivo: Lula promove reunião ministerial

 

Poesia | Consolo na praia, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque canta: Vai Passar

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarifas expõem limite da relação entre Lula e Trump

Por O Globo

Justificativas apresentadas por americanos são frágeis. Brasil ainda tem chance de reverter medida

Menos de uma semana depois de o Departamento de Estado declarar que o governo americano passaria a tratar como terroristas as duas maiores facções criminosas brasileiras, o Itamaraty sofreu outro revés: o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação aberta em 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e recomendou a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros importados. A medida é ainda mais dura que o tarifaço do ano passado — depois suspenso pela Suprema Corte —, pois abre caminho a sanções comerciais específicas contra o Brasil. Ela expõe os limites das investidas diplomáticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua aproximação de Donald Trump.

Lula vê brecha para revanche e chama Alcolumbre para dançar, por Fernando Exman

Valor Econômico

Episódio capaz de desencadear decisões ou movimentações há tempos esperadas

É um processo cheio de nuances, negociações, discussões regimentais e que depende, sobretudo, da dinâmica eleitoral. Mas o governo Lula vê espaço para reapresentar ao Senado o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). O ponto de virada foi no dia 12 de maio, durante a posse da nova cúpula do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), menos de duas semanas depois de o plenário do Senado rejeitar a primeira indicação de Messias.

Quem levantou a bola foi Beto Simonetti, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ao cumprimentar as autoridades presentes no início de seu discurso, fez uma menção especial a Messias em nome da classe. O aplauso que se seguiu chamou a atenção tanto pela duração quanto pela intensidade, em uma espécie de “rejeição à rejeição”, mas também por aqueles poucos que não aderiram: considerado o principal algoz do AGU, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não moveu nenhum músculo.

Lula alveja bolsonarismo e contorna crítica a Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quem permite que petista ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador e pré-candadidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro

Pela segunda vez, em menos de uma semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu a uma medida americana discriminatória em relação ao Brasil sem mencionar Donald Trump. Quem permite que Lula ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

É a polarização da campanha com um bolsonarismo que não se cansa de se valer de Trump como ativo eleitoral que possibilita a Lula faturar politicamente as sucessivas afrontas à soberania sem comprometer a conquista de eleitores de centro e direita avessos à submissão do país aos EUA.

Tiro ao Pix pode ser fatal para Flávio, por Vera Magalhães

O Globo

Tarifaços que vão e vêm e classificação de facções criminosas como terroristas são decisões do governo dos Estados Unidos que podem ou não ter impacto eleitoral no Brasil, a depender da narrativa ou do grau de compreensão do eleitor a respeito de suas consequências. Uma tentativa de Donald Trump de embargar ou limitar o uso do Pix na base da ameaça tem outra magnitude: trata-se de um daqueles assuntos capazes de implodir uma candidatura. No caso, a de Flávio Bolsonaro.

Não foi por outra razão que o filho de Jair, que até a véspera se jactava do acesso à Casa Branca e de ter conseguido, no breve encontro com Trump, arrancar a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, correu para mostrar ofício, carta, sinal de fumaça, tudo o que pudesse dissociar a mesma reunião do anúncio de novo tarifaço e de uma eventual ofensiva sobre o meio de pagamento queridinho dos brasileiros.

O império ataca, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ataque ao Pix mexe com bolso do eleitor e dá bandeira popular a Lula para acusar rival

Tudo aconteceu em menos de 24 horas. Na madrugada, o governo americano ameaçou baixar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Pouco depois, o secretário Marco Rubio comparou o Brasil a regimes autoritários e hostis aos Estados Unidos. Para arrematar, o presidente Donald Trump divulgou uma foto com Flávio Bolsonaro. Descreveu o senador como um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

A mensagem de ontem foi clara: a Casa Branca fará o possível para interferir na corrida ao Planalto e dificultar a reeleição de Lula. A classificação de facções criminosas como terroristas, na semana passada, foi apenas o começo da ofensiva.

O polo naval voltou, por Elio Gaspari

O Globo

O Brasil não tem uma indústria naval competitiva porque varre para baixo do tapete as causas dos fracassos

Outro dia Lula disse que a indústria naval brasileira vai “dar uma surra nos coreanos e nos chineses”. Com R$ 41,7 bilhões de investimentos em 890 obras, está aí o polo naval de Lula 3.0. O Brasil corre atrás de uma frota nacional desde o século XVII, quando saiu do estaleiro da Ilha do Governador um dos maiores barcos do mundo, o galeão Padre Eterno. Infelizmente, a frase de Lula só pode ser atribuída aos delírios de um candidato em ano eleitoral. Até hoje, quem levou surras com a indústria naval foi a Viúva.

A geração de Lula, nascida na primeira metade do século XX, tem uma marca sem similar conhecido: já pagou por três polos navais, pagará pelo quarto, e o Brasil não tem uma indústria naval competitiva.

O primeiro polo naval veio no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Desandou, mas a conta foi quase toda para os estaleiros. É o jogo jogado.

Candidatos sem Defesa, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Enquanto Lula bloqueia gastos da Defesa e Flávio tenta se blindar, os demais silenciam

O Brasil é um país diferente. Em nenhum lugar o ministro da Defesa diz que a Nação está indefesa sem que uma tempestade desate no Parlamento. Pois José Múcio disse isso a um grupo de empresários em evento fechado, promovido pela Seta, e nada aconteceu. É como se Múcio fosse o major Giovanni Drogo à espera de tártaros que nunca aparecem diante da Fortaleza Bastiani. Ou como se o Atlântico de um lado e a Amazônia do outro fossem o deserto onde os militares passam suas vidas à espera do inimigo que não se mostra.

O fôlego dos salários, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com o estímulo ao crédito, fica difícil prever esfriamento do mercado que dê alívio à inflação

Os dados de geração de emprego formal referentes a abril surpreenderam os analistas, vindo abaixo até da projeção mais pessimista, o que levantou a questão sobre se o mercado de trabalho irá finalmente desacelerar a ponto de tirar pressão sobre a dinâmica da inflação e dar mais conforto ao Banco Central para seguir cortando os juros.

Teria Vorcaro lido Marcel Mauss? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Oliveira Vianna dizia que ‘temos coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo’

De modo algum seu estilo de enriquecer, enriquecendo seus parceiros irmãos, seguiu o mapa traçado em 1923-24 por Mauss no seu ignorado Ensaio Sobre a Dádiva. Ou, mais precisamente, na sua genial sociologia do presentear, do dar para receber – o que nós chamamos de “lembrancinhas”, porque foi com afeto que, quando vimos aquele objeto, a lembrança de sua pessoa motivou a compra dele para você.

No presente, a moldura não é dada por utilidade ou necessidade, mas pela relação, pois foi a lembrança que o motivou. Então, diz Mauss, a dádiva vai muito além de si mesma: ela é um fato social total, já que todo presente contém aspectos morais. Um protocolo que transcende o objeto doado, fazendo com que o presentear acione a obrigação de retribuir. Presentes não são trocas; são dádivas que, como oferendas, transcendem a exploração de classe ou a luta hobbesiana de todos contra todos.

Os efeitos do novo tarifaço nas eleições, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

A ofensiva tarifária pode resultar em dividendos eleitorais para Lula, ao acender a centelha nacionalista. E provoca dúvidas se trará vantagens a Flávio Bolsonaro

O novo desgaste diplomático entre Brasil e Estados Unidos tem o agravante de estar contaminado pela corrida eleitoral. Inevitavelmente, as negociações entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca sofrerão interferência do acirramento da disputa entre o presidente Lula e seu adversário Flávio Bolsonaro. O possível aumento de 25% nas tarifas comerciais contra produtos brasileiros significará mais trabalho para a diplomacia brasileira, mas, eventualmente, pode resultar em dividendos para Lula na batalha das urnas, ao acender a centelha nacionalista. Para o senador, recém-chegado de uma visita aos Estados Unidos, há dúvidas se esse novo capítulo representará alguma vantagem. 

A política de horror de Trump, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados

Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.

Novo tarifaço de Trump pune Brasil por práticas que EUA também adotam, por Patrícia Campos Mello

Folha de S. Paulo

Em combate a corrupção, desmatamento, discriminação de empresas de internet e pagamentos instantâneos, Washington faz o mesmo

Apesar de alegar conflito de interesse do Banco Central, Fed tenta implementar versão do Pix, mas sistema não decolou

tarifaço americano anunciado nesta terça-feira (2) é um monumento à hipocrisia ao punir o Brasil por medidas que o próprio presidente Donald Trump põe em prática em seu país. Em combate a corrupção, discriminação contra empresas de internet, pagamentos eletrônicos e redução do desmatamento, os EUA de Trump fazem o mesmo que acusam o Brasil de fazer.

Ao justificar a tarifa de 25% contra o país, o relatório do USTR (Escritório de Comércio da Casa Branca) conclui que o Brasil não adota medidas suficientes para combater a corrupção e cita preocupações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre propinas pagas em outros países.

Ora, uma das primeiras ordens executivas anunciadas por Trump neste seu segundo mandato foi a suspensão da Lei de Práticas Estrangeiras de Corrupção, em 10 de fevereiro de 2025. Alegando que a lei gerava burocracia e custos excessivos para empresas americanas com atuação em outros países, Trump pausou por seis meses a aplicação da legislação e anulou a metade das investigações que estavam em curso.

Mentiras patriotas dos Bolsonaro tomam tiros na Segunda Guerra do Pix, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio tentou ganhar pontos com foto de papagaio de pirata, mas foi pego no contrapé

Disputa político-eleitoral esconde discussão de efeitos econômicos de ameaças dos EUA

Os Bolsonaro acabaram do lado errado da Segunda Guerra do Pix, até por não terem escrúpulos, mentirem sem parar e não se importarem de explodir o que estiver no caminho deles até o poder ou na rota de fuga da polícia. Como jamais se sabe que tipo de informação sairá do filtro lunático, ignaro e odiento das redes sociais, é difícil dar chute informado sobre o efeito desta lambança dos Bolsonaro na eleição. Mas o risco aumentou.

Segunda Guerra: a direita propagandeava em janeiro de 2025 que Luiz Inácio Lula da Silva cobraria imposto sobre o pix, como se sabe. A campanha ajudou a ferir de modo duradouro a popularidade do presidente —inflação, bobagem fiscal e pânico financeiro ajudaram então a fazer o resto do serviço.

O que Flávio Bolsonaro foi buscar na Casa Branca? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Foi buscar bênção política de Trump, mudar a pauta e exibir ao bolsonarismo que ainda tem os ouvidos do imperador

A estratégia funciona para os convertidos, mas pode soar como vassalagem para o eleitorado amplo

O que Flávio Bolsonaro foi fazer na Casa Branca? A resposta simples: foi atrás de uma fotografia. A completa: foi tentar mudar a pauta desfavorável da mídia, receber a bênção de Trump, o grão-sacerdote da nova direita mundial, reanimar a base com o tema da repressão ao crime, dar um verniz internacional a uma pré-candidatura desacreditada e mostrar que não é só Lula quem tem acesso ao governo americano.

A foto com Trump não resolveu seus problemas jurídicos ou as explicações que deve sobre o caso banco Master, mas foi um recurso extremo para estancar a sangria de sua popularidade e manter sua candidatura respirando.

Pretensão cinematográfica tem custado caro à franquia Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O que era para ser uma peça de boa propaganda acabou virando uma enorme dor de cabeça

A cada operação policial novos personagens são tragados para dentro do escândalo Master

O filme "Dark Horse" era para ser uma peça de propaganda e acabou virando uma grande dor de cabeça para a franquia Bolsonaro e associados, ao se estabelecerem ligações da produção com as vigarices de Daniel Vorcaro.

A cada fio puxado dessa meada, mais alto fica o custo da empreitada para a direita bolsonarista. A cada nova operação policial, alguém relacionado ao grupo é tragado para dentro do escândalo do banco Master.

Verdades raciais, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bancas de heteroidentificação criam mais um caso polêmico, agora no Itamaraty

Biologia não oferece critérios objetivos consistentes para classificar humanos em raças

Flávia Goes de Medeiros foi exonerada do cargo de servidora no Itamaraty, no qual ingressara por concurso como cotista, após veto da comissão de heteroidentificação. Para a banca encarregada de verificar a autenticidade da autodeclaração racial dos candidatos, Medeiros não era negra. "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". OK, mas o que é a verdade?

A pergunta assombra filósofos há milênios. Uma resposta, que talvez frustre nossa imaginação metafísica, mas que se mostrou produtiva, é a contida nas teorias correspondenciais da verdade, que a definem como adequação da proposição ao objeto. Um corolário disso é que, se o objeto inexiste no mundo, é impossível fazer afirmações fáticas verdadeiras sobre ele.

Crescimento para poucos: a armadilha do capitalismo, por Roberto Amaral*

“O empresário tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção.” — Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove. 

Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.

Poesia | Canção amiga, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Não quero saber mais dela -Beth Carvalho, Chico Buarque, Caetano Veloso e Fundo de Quintal - 1985

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso de criptoativos por criminosos requer atenção

Por O Globo

Operações contra finanças do PCC descobriram esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais

As operações recentes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, expuseram como o avanço da digitalização financeira abre espaço a novos crimes, permite integração à economia formal e cria inúmeras oportunidades para lavar o dinheiro resultante das atividades criminosas, como demonstrou reportagem do GLOBO. A transformação progressiva no perfil dos crimes — de assaltos e violência nas ruas para golpes digitais — tem pressionado o sistema de segurança pública e órgãos reguladores e de fiscalização, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários. Entre os recursos empregados pelos criminosos, tem se destacado o uso crescente de criptoativos.

Os limites da reação do México aos EUA e as lições para o Brasil, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Discurso soberanista de Claudia Sheinbaum é movido pela política doméstica, assim como o de Lula

“O México não é saco de pancadas de ninguém”. Ao comemorar os dois anos de sua eleição, neste domingo, Claudia Scheinbaum deixou sua decantada moderação de lado e partiu pra cima dos EUA no seu discurso mais duro desde a posse. “Será que estamos vendo como setores da ultradireita americana usam nosso país para se posicionar em suas eleições de 2026? Ou acaso pretendem influir nas eleições de 2027 em nosso país?”, indagou. “Quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que só dizem respeito aos mexicanos, já não estamos falando de cooperação, mas de ingerência”.