O Globo
Falta coragem política para reconhecer que a
desigualdade no país não é um acidente histórico, mas um projeto
Os dados da pesquisa Sonhos da Favela 2026,
do Data Favela, desmontam uma das narrativas mais convenientes do país: a ideia
de que a favela não tem projeto de futuro. Tem, sim. Ele é claro, objetivo e
profundamente democrático.
A favela sonha com casa digna, saúde que
funcione, escola capaz de preparar os filhos para a vida, renda estável e o
direito básico de circular sem medo. Não há fantasia de luxo nem consumo
desenfreado. O desejo é por estabilidade, normalidade, uma vida possível dentro
das regras do jogo. O problema é que esses sonhos não encontram sustentação nas
estruturas do Brasil.
Mais de seis em cada dez moradores de favela
não têm renda fixa. Ainda assim, a vida acontece. O “corre” não é improviso, é
método de sobrevivência. A favela aprendeu a funcionar apesar do Estado, não em
parceria com ele. Quando tantos dizem querer organizar a vida financeira ou
limpar o nome, o que aparece não é irresponsabilidade, mas maturidade econômica
sem acesso aos instrumentos necessários.
A distância entre aspiração e política
pública é evidente. A educação aparece como principal caminho de ascensão
social, mas a infraestrutura educacional segue avaliada como regular ou ruim. A
internet, condição básica para estudo e trabalho, ainda é instável para
milhões. Esporte, cultura e lazer continuam escassos, apesar de seu papel
central na formação, no pertencimento e na prevenção da violência. O discurso
da meritocracia segue firme, mas o ponto de partida permanece desigual.