sexta-feira, 29 de maio de 2026

Opinião do dia – Nicolau Maquiavel*

“É fácil de entender: não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades. E, sem dúvida, este bem comum não é observado senão nas repúblicas, porque tudo o que é feito, é feito para seu bem, e embora aquilo que se faça cause dano a um ou outro homem privado, são tantos os que se beneficiam que é possível fazer as coisas contra a vontade dos poucos que sejam oprimidos por elas. O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende”.

*Nicolau Maquiavel (1469-1527), Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, 2000. p. 139

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação contra PCC aponta caminho no combate às facções

Por O Globo

Cerco às redes financeiras é a melhor forma de asfixiar as organizações criminosas

Deflagrada nesta quinta-feira, a Operação Fluxo Oculto, segunda fase da Carbono Oculto, foi um novo golpe das forças de repressão nas redes financeiras usadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para fraudes, sonegação e lavagem de dinheiro. A operação conjunta da Receita Federal com o Ministério Público e a Secretaria da Fazenda de São Paulo descobriu seis novas fintechs atuando como bancos paralelos do crime. Juntas, elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Há registros de pelo menos R$ 365 milhões em transações suspeitas com criptoativos. A Fluxo Oculto também identificou operações de adulteração de combustível que podem ter resultado em R$ 200 milhões sonegados em dois anos.

Regime representativo de quê? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no quê estou votando

Teoricamente, o regime político brasileiro é um regime representativo. Mas exatamente de quê? Ou, de quem? Monitoro os políticos do Legislativo para descobrir, no que falam e no que fazem, a quem e o que estão representando. Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no que estou votando. Qual é a causa política e social que quero ver representada em meu voto?

A eleição é aqui uma armadilha bem montada por interesses que não são os meus, políticos, econômicos, religiosos. E até mesmo os do crime organizado. Ou seja, na representação política brasileira, quem menos conta é o candidato e menos ainda o eleitor. Entre o voto e o poder estão os misteriosos “eleitores” invisíveis que precisam se ocultar para mandar.

O poder não dança, e quer ganhar no Xenhenhem, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Conhecido pela desenvoltura nas redes, onde já apareceu jogando bola, e até sambando, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), escondeu o gingado na festa junina da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), ao recusar o convite da anfitriã para dançarem forró na ampla pista de dança armada em uma casa no Lago Sul, onde ela promoveu um animado “esquenta” do São João de Campina Grande.

Uma das mais tradicionais festas do Nordeste, o evento em Campina Grande (PB), reduto político da família da senadora, é anunciado como o “O Maior São João do Mundo”, tem 33 dias de duração, e, na edição deste ano, terá João Gomes, Roberto Carlos e Marisa Monte.

A ‘mãozinha’ de Trump, por Vera Magalhães

O Globo

Medida do governo dos EUA que classifica facções brasileiras como terroristas tem consequências complexas, mas será usada como trunfo eleitoral pelo bolsonarismo

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas especialmente designados é um daqueles assuntos complexos e multifacetados, mas que, quando levados para a arena eleitoral, tendem a produzir reações rasas, precipitadas e turvadas pela narrativa ideológica. Como sempre acontece em momentos assim, o risco de prejuízos duradouros, e em várias dimensões, para o país são enormes.

Trump: boia ou âncora, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao classificar facções criminosas como terroristas, Casa Branca cria riscos para economia e soberania brasileiras; candidato do PL já pediu bombas na Guanabara

Com o barco ameaçando fazer água, Flávio Bolsonaro remou até Washington para pedir socorro a Donald Trump. A direita festejou a foto do senador na Casa Branca. A questão é saber se ela servirá como boia ou como âncora para suas ambições presidenciais.

A viagem rendeu um alívio momentâneo ao Zero Um. A imagem com Trump cumpriu a tarefa de desviar as atenções do escândalo do Master. Pela primeira vez em duas semanas, Flávio apareceu nas manchetes sem a companhia do “irmão” Daniel Vorcaro.

O problema, para o senador, é que a foto no Salão Oval logo deixará de ser novidade. E a associação que ele tanto buscou pode vir a atrapalhá-lo na campanha.

Intervenção americana como resgate da soberania, por Pablo Ortellado

O Globo

Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington

A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca foi interpretada como simples manobra para desviar a atenção do escândalo de suas relações com Daniel Vorcaro. Embora esse objetivo deva ser considerado, não se podia desprezar o motivo alegado: o pedido para que Trump classificasse organizações criminosas brasileiras como terroristas — como depois o Departamento de Estado anunciou.

Críticos têm apontado — com razão — que a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas ameaça a soberania brasileira. Com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho incluídos na lista de organizações terroristas, os Estados Unidos passarão a poder aplicar sanções severas contra o sistema financeiro brasileiro caso instituições nacionais facilitem, ainda que involuntariamente, a circulação de capital ilícito. Os efeitos de uma medida desse tipo podem gerar isolamento econômico e abalo na confiança de investidores internacionais na rede bancária brasileira.

Decisão dos EUA afetará cooperação internacional contra PCC e CV, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Gakiya, maior autoridade no País no combate ao PCC, e Sarrubbo, que foi chefe do MP-SP, afirmaram que decisão transfere da DEA e do FBI para a CIA o combate às duas facções o que pode impedir a acessos a informações e prejudicar combate ao crime

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Mário Luiz Sarrubbo afirmaram ao Estadão que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas deve afetar a cooperação internacional para o combate ao narcotráfico, favorecendo criminosos em vez de endurecer o combate ao crime.

Isso porque, ao aumentar o nível de risco apresentado pelas duas facções, o governo americano deixa de tratá-las como um caso de polícia e passa a considerá-la um problema militar. A consequência disso é que a Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidrogas americana, e o FBI, a polícia federal americana, deixam de investigar as facções, que passam a ser um problema da CIA, a agência de inteligência americana e das Forças Armadas dos EUA.

E vai rolar a festa! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Governos e bancos movem mundos e fundos para salvar o BRB; e os bilhões de Vorcaro e ‘amigos’?

Daniel Vorcaro comprou tudo e todos, construiu e destruiu um banco em tempo recorde, e agora? Agora, o governo federal, o governo do DF, o Supremo, os bancos públicos e privados movem mundos e (principalmente) fundos e a raia miúda e os contribuintes pagam parte da conta do Master com o “ajuste fiscal” incluído no acordo de salvação do banco, de R$ 6,5 bilhões.

Nesse caso, “ajuste” significa fim de concursos e de vagas e piora de serviços e de manutenção da capital, ou seja, mais arrocho para o funcionalismo público e mais descuido e irritação para a população que depende de professores, médicos, transportes, burocracia azeitada...

Enquanto isso, o Dr. Vorcaro volta a negociar um acordo de delação premiada com a PF, contando o que ainda não se sabe, e tem a audácia de pretender retomar o seu banco liquidado, pagar algumas dívidas e ainda ficar com um troco. Pode isso, minha gente?

Da Operação Catarata à Compliance Zero, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ex-governador do Rio, Cláudio Castro é suspeito de roubar de mendigo, aposentado e pagador de impostos

O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro é suspeito de participar de esquemas fraudulentos que surrupiaram dinheiro de mendigos, aposentados e pagadores de impostos em geral.

As suspeitas sobre sua conduta começaram na Operação Catarata, do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Civil, em 2019, e na Operação Sétimo Mandamento, deflagrada pela Polícia Federal, em 20 de dezembro de 2023.

Governo Trump põe o terrorismo na eleição brasileira, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Flávio não representa o governo. Mas a afinidade ideológica tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na maior potência militar mundial

Na coluna de ontem, comentei que os encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com a cúpula da Casa Branca colocaram o problema da segurança pública de volta ao centro de debate eleitoral no Brasil. No início da noite de ontem, o governo norte-americano deu uma resposta aos apelos feitos pelo parlamentar brasileiro. Em mensagem postada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a administração Trump anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passam a ser denominadas organizações terroristas.

Voto contra o fim da 6x1 vai custar caro em outubro? Por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

Com eleições à vista, deputados que se opuseram à nova jornada enfrentam dilemas. Como explicar o voto contra uma pauta com tanto apelo popular?

A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 na Câmara produziu uma cena rara na política brasileira atual: um consenso praticamente unânime. Em tempos de polarização permanente, um texto reunir mais de 90% dos votos favoráveis dos deputados em dois turnos é algo que merece atenção. E reflexão.

A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, acompanhada da garantia de duas folgas semanais, é uma medida de forte apelo popular. Não apenas porque mexe diretamente na qualidade de vida do trabalhador, mas porque dialoga com uma sensação crescente de exaustão vivida por milhões de brasileiros. O debate vai muito além da economia. É também social, humano e geracional.

Bruno e a jornada 6x1, por José Sarney*

Correio Braziliense

A verdade é que eu também sou a favor, como o meu bisneto, do fim da jornada 6 x 1 não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho de cinco dias?

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade, alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

Um empresário olha o efeito da 5x2 e vê problemas em muitos outros lugares, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Engenheiro vê questões setoriais e perda inicial de produtividade, mas não sabe do saldo econômico

Juros, falta de mão de obra qualificada, automação e IA, energia cara e impostos preocupam mais

O Brasil não vai quebrar porque já não funciona, ri um empresário grande ao comentar disputas furiosas sobre o efeito econômico da escala 5x2 e da jornada de trabalho reduzida, aprovada por mais de 95% dos deputados federais votantes, que vai ao Senado.

Quem passeou pelas ruas violentas das mídias sociais nos últimos dias terá ouvido gritos de "o país vai quebrar" ou que nada vai acontecer de ruim, apenas melhoras na vida de quem trabalha mais de 40 horas ou cinco dias, para choro de "defensores da escravidão" (parece haver mesmo alguns deles por aí).

O empresário não quer se identificar. "Dar entrevista, rede social, é perda de tempo e a gente sai queimado."

Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Visita diversionista do senador aos EUA coincide com queda inédita da popularidade do republicano

Pesquisa da revista The Economist indica que há 90% de chance de americano perder a Câmara em novembro

A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.

Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras –as do Brasil.

Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.

Foto com três radicais é o inverso da moderação pretendida por Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Trump, Eduardo e Figueiredo não são companhias que transmitam a imagem de sensatez

Uma fotografia na parede não resolve as pontas soltas da campanha abalada pelos rolos do Master

A construção da imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) acaba de levar um desmentido. A foto ao lado do presidente Donald Trump, do irmão Eduardo e do neto do último ditador do regime militar apaga o verniz de sensatez no figurino que o senador andou querendo vestir para se apresentar ao eleitorado.

Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.

Qual era a cor de Helena de Troia? por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Escalação de atriz negra para representar a personagem deflagra guerra cultural

Arte não precisa seguir nenhum script e deve ser limitada apenas pela imaginação

guerra cultural da hora diz respeito a Helena de Troia, a mulher cuja beleza estonteante teria deflagrado o conflito que resultou na destruição de Ílion e inaugurou a literatura ocidental. Christopher Nolan decidiu filmar "A Odisseia" e escalou para o papel de Helena a atriz Lupita Nyong’o, que é negra. A militância anti-woke não gostou e se pôs a cancelar o filme antes de seu lançamento.

Uma negra pode personificar Helena? A crer em Homero, não. Autores da Antiguidade raramente forneciam descrições físicas de seus personagens. No caso específico, porém, um dos epítetos utilizados pelo aedo para referir-se a Helena acaba realizando essa função. O termo grego é "leukólenos" que significa "de braços brancos".

Entrevista | Ivan Alves Filho* : O Fascismo vai Além do Autoritarismo

O jornal Catetear Notícias 

*Ivan Alves Filho é historiador, membro do Cidadania

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Ivan Alves Filho: Creio que a presença fascista seja uma questão real na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político.

Essas práticas despontam entre nós toda vez que nos deparamos com crises de corte institucional. Daí estarem presentes hoje na vida brasileira. As ambiguidades do governo Vargas, em seu início, contribuíram para o surgimento do Integralismo, por exemplo. Evidentemente, havia o quadro internacional, com a ascensão de Mussolini e seu agrupamento fascista ao poder na Itália, no começo da década de 20. Logo em seguida, viria a tomada do poder pelos hitleristas na Alemanha, em 1933. Porém, esse contexto internacional não explica tudo. Eu escrevi certa vez que o nazismo me intrigava muito, tendo levado cerca de 20 anos para entender a sua natureza. Morei na Alemanha nos anos 70 e procurava ver, na Cinemateca da cidade de Colônia, os documentários e reportagens da época nazista. Difícil de compreender como o povo alemão caiu naquela esparrela. Afinal, a Alemanha era um país industrializado e dotado de uma grande tradição cultural; a terra de Wolfgang von Goethe, Karl Marx e Hermann Hesse. Com o tempo, fui percebendo que a Inglaterra também era um país desenvolvido economicamente – a pátria da Revolução Industrial –, possuindo ainda uma invejável tradição cultural, e cito aqui nomes como William Shakespeare, Jane Austen e Charles Darwin. Como explicar, então, que a Inglaterra não tenha sucumbido à praga nazista? Só encontro uma resposta: as instituições liberais-democráticas se mantiveram de pé, contrariamente ao que ocorrera na Alemanha, durante a República de Weimar. Ou a Inglaterra não viu surgir em seu solo o Liberalismo? As ideias de John Locke, por exemplo, datam do século XVII, quando não havia sequer burguesia industrial, mas a país sofria com o Absolutismo.

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Quero Morrer na Portela - Zé Ketti

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Opinião do dia - Nicolau Maquiavel* (ricos e pobres)

“Tratemos agora do outro aspecto da questão, isto é, vejamos o que ocorre quando um cidadão torna-se príncipe de sua pátria, não por meio de crime ou de outra intolerável violência, mas com a ajuda dos seus compatriotas. O principado assim constituído podemo-lo chamar civil, e para alguém chegar a governá-lo não precisa de ter ou exclusivamente virtude [virtù] ou exclusivamente fortuna, mas, antes, uma astúcia afortunada. Pois bem, a ajuda nesse caso é prestada pelo povo ou pelos próceres locais. É que em qualquer cidade se encontram estas duas forças contrárias, uma das quais provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo. Destas tendências opostas surge nas cidades, ou o principado ou a liberdade ou a anarquia.

O principado origina-se da vontade do povo ou da dos grandes, conforme a oportunidade se apresente a uma ou a outra dessas duas categorias de indivíduos: os grandes, certos de não poderem resistir ao povo, começam a dar força a um de seus pares, fazem-no príncipe, para à sombra dele terem ensejo de dar largas aos seus apetites; o povo, por sua vez, vendo que não pode fazer frente aos grandes, procede pela mesma forma em relação a um deles para que esse o proteja com a sua autoridade”

*Nicolau Maquiavel (1469-1527) filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política. O Principe (1515), Capitulo lX, p. 45. Editora Martins Afonso, 2014

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medidas contra privilégios ajudam a emendar Judiciário

Por O Globo

Fim da aposentadoria compulsória como punição e contracheque único apontam caminho virtuoso

É um avanço que o próprio Judiciário e o Ministério Público comecem a tomar medidas para corrigir os privilégios descabidos usufruídos por juízes e procuradores. Dois exemplos desta semana mostram que, quando querem, as autoridades sabem impor disciplina a si mesmas. O primeiro é a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo a aposentadoria compulsória como punição a magistrados que cometem infrações graves. O segundo é a criação de um contracheque único para juízes, procuradores e promotores, um primeiro e tímido — ainda que necessário — passo para conter os supersalários.

Câmara aprova fim da escala 6x1 por 461 votos a 19; texto vai ao Senado

Por Beatriz Roscoe e Ruan Amorim – Valor Econômico

Proposta prevê redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais e duas folgas por semana, sem redução de salário

A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (27) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. Foram 472 votos a 22 no primeiro turno. No segundo turno, o placar favorável ao texto foi de 461 a 19. As duas votações superaram em muito o apoio mínimo de 308 votos necessários para alterações constitucionais.

Principal bandeira eleitoral do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição, a proposta será agora analisada no Senado, cujo presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), indicou a pessoas próximas que não deve frear o avanço da matéria, apesar da tensão com o governo. Nesta semana, empresários foram ao parlamentar apresentar propostas de mudança, diante da avaliação de que a medida aumenta os custos da mão de obra e pode ter impacto negativo sobre a atividade econômica.

O texto foi analisado em sessão marcada por grande disputa política entre governistas e oposição. Parlamentares da base buscaram ressaltar a posição do PL contra a redução da jornada. Por outro lado, deputados do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro optaram pela estratégia de constranger o governo e — de última hora — defender uma redução ainda maior, para uma escala 4x3, em vez do modelo 5x2, apoiado pelo governo.

PEC do fim da escala 6x1 cacifa Motta para tentar reeleição, por César Felício

Valor Econômico

A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 de trabalho ainda atravessará uma zona de incerteza no Senado e sua aprovação no Congresso este ano permanece no terreno da hipótese, mas o seu avanço (472 votos a 22 no primeiro turno) na Câmara produz efeitos políticos concretos.

Um deles é o do fortalecimento político do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que ganha impulso para se reeleger à frente da Mesa Diretora, caso consiga um novo mandato pela Paraíba. Motta virou o jogo depois de um primeiro ano terrível como presidente da Casa, do ponto de vista de credibilidade junto a seus pares.

Fim da escala 6x1 dá um nó no bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Populismo de direita se embaralha para atender às suas bases sem perder o voto da maioria

A votação do fim da jornada 6x1 na Câmara dos Deputados deu um nó no PL tão ou mais enroscado que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Master: como manter a viabilidade eleitoral da direita na mão contrária do desejo de sete em cada 10 eleitores. Como cada um puxou de um lado, o nó ficou ainda mais difícil de ser desatado.

A campanha do senador à Presidência tem como coordenador o senador Rogério Marinho (PL-RN), que foi o relator da reforma trabalhista. Aprovada em 2017, a reforma foi a mais abrangente alteração das leis trabalhistas desde a criação da CLT há mais de 80 anos. A redução da jornada para 40 horas semanais com pelo menos dois dias de folga, sem redução de salário, foi no sentido contrário.

O fator Trump, por Merval Pereira

O Globo

Encontro com Trump reforça a imagem de Flavio e o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral

Se o encontro do pré-candidato à Presidência da República do PL, senador Flávio Bolsonaro, com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, não tivesse nenhuma importância, não provocaria tantos comentários e suposições por parte dos petistas. O encontro com certeza reforça a imagem dele — tanto que os petistas inventaram que a foto dos dois na Casa Branca é fruto de inteligência artificial. Não é qualquer um que tem acesso ao presidente americano, e sem dúvida foi uma boa jogada política — nada fundamental, mas o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral.

Moraes é variável nova para Flávio, por Julia Duailibi

O Globo

O encontro de Flávio com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha

Aos trancos e barrancos, Flávio Bolsonaro tem conseguido lidar com a sangria envolvendo o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para, diz ele, financiar o filme sobre o pai. O encontro com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha. A situação de Flávio também é melhor hoje, entre os donos do dinheiro, do que era ontem. Depois de reagir mal ao lançamento da candidatura do senador e às conversas com Vorcaro divulgadas pelo Intercept Brasil, a Faria Lima parece, pouco a pouco, se acomodar, novamente, ao nome dele como opção a Lula.

Um plano para o Rio de Janeiro, por Míriam Leitão

O Globo

Em sua primeira entrevista, o desembargador Ricardo Couto afirma que não sabe quanto tempo ficará no cargo e que passou a tomar decisões porque a população precisava dos serviços do Estado

Quem mora no Rio vive em permanente estado de desilusão. Viu tantos desmandos, tantos ex-governadores presos, tantos absurdos diários, que não espera muito da política, torce apenas para permanecer sendo capaz de se indignar. Por isso, estranha a gestão do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. Ele tem tomado decisões que fazem sentido. Este é o espanto. O Rio não está acostumado com exonerações de pessoal excedente, fechamento de secretarias e expropriações de bens de devedores contumazes. Tudo o que é natural, não se espera.

Câmara aprova PEC que acaba com escala 6x1 e reduz jornada semanal para 40 horas

Por Fernanda Brigatti, Raphel Di Cunto e Augusto Tenório – Folha de S. Paulo

Proposta que institui duas folgas obrigatórias semanais ainda precisa ser aprovada em dois turnos pelo Senado

Redução de horas trabalhadas por semana será feita em duas etapas, sendo a primeira para 42 horas

A proposta, que reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, teve 472 votos favoráveis e 22 contrários no primeiro turno. Na segunda votação, 461 parlamentares foram favoráveis e 19 votaram contra. A proposta precisava de ao menos 308 votos favoráveis.

O texto aprovado no plenário é o parecer do deputado federal Leo Prates (Republicanos-PB), que foi analisado horas antes na comissão especial criada para debater a mudança. A PEC aprovada na Câmara torna obrigatória a concessão de duas folgas semanais aos trabalhadores, uma delas preferencialmente aos domingos.

Seis propostas de alteração no texto principal foram apresentadas. Uma manobra da base governista inviabilizou os destaques do PL, como são chamadas as tentativas de alteração em plenário, que tentavam acabar com a transição, excluíam o poder público do faseamento na redução da jornada e acabava com o prazo de 12 meses para que os direitos previstos na PEC cheguem a funcionários de empresas com contratos públicos.

Governo vai acabar compensando fim da escala 6x1, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Parlamentares aproveitam redução da jornada para pedir aumento do teto de faturamento de MEIs e pequenas empresas

Equipe econômica pede para presidentes da Câmara e Senado não pautarem projetos de elevação dos limites

O acordo para vincular a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 a uma medida compensatória às empresas do MEI (Microempreendedor Individual) e do Simples é dor de cabeça para o governo, com um custo que pode chegar a R$ 50 bilhões por ano.

Com a proposta em votação em ano eleitoral, os parlamentares aproveitaram para engatar o pedido de aumento do teto de faturamento anual de MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.

Elas integram o chamado sistema Simples, um regime tributário e previdenciário simplificado, com carga de impostos mais baixa. Se o limite é ultrapassado, as empresas têm que passar para o outro grupo com alíquotas maiores.

O que deve afetar Lula x Flávio durante o recesso da Copa e das festas juninas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Relações com gente de gangues financeiras e políticas são risco para o jogo bolsonarista

Fiasco de público de medidas eleitorais e piora discreta da economia são risco para Lula 4

A política brasileira é mais e mais um caso de polícia. Também está sujeita, faz mais de década, a infecções por vírus espalhados por mídias sociais. Um bicho ruim criado em laboratórios políticos suprarreais pode abater a popularidade de um governo. A mentira do pix e o medo de impostos feriu Lula no início de 2025, ferida que ainda sangra.

Não houvesse tantos casos de polícia ou vírus políticos, seria menos arriscado dizer que a política politiqueira vai em breve entrar em recesso por causa de Copa, festas juninas e férias pré-eleitorais. Também por causa disso, o povo vai prestar ainda menos atenção a esse mundo de costume pouco interessante e cada vez mais repulsivo.

O recesso deve começar com três vertentes de dúvidas maiores.

Foto com Trump é teatro tardio para Flávio, Igor Gielow

Folha de S. Paulo

'Dark Horse' ficará no noticiário, imagem não dará voto e jogo de Lula com americano parece intacto

Pré-candidato demonstra amadorismo com obscura viagem, ganhando memes e desconfiança em troca

A trajetória política de Jair Bolsonaro a partir de sua encarnação como candidato antissistema em 2018 sempre buscou emular a de Donald Trump, por mais díspares que sejam a origem e a história pregressa de ambos.

Bolsonaro já chamou o republicano de ídolo, e sua gestão notabilizou-se por uma infrutífera adulação da Casa Branca. As franjas da direita radical global e brasileira mantêm, de todo modo, estreito contato.

Houve uma notável sincronia com atraso de dois anos na vida de ambos os líderes no poder. Trump elegeu-se na vaga populista de 2016; Bolsonaro surpreendeu o Brasil em 2018.

Celebrando o atraso, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A alteração na jornada e escala de trabalho tem consequências profundas e a longo prazo que estão sendo introduzidas pelas considerações políticas mais imediatas e mesquinhas. A de ganhar a qualquer vantagem político-eleitoral. Pode-se falar de um comportamento de “classe” política, pois não há relevantes diferenças entre a postura de “situação” e “oposição”, quaisquer que sejam os rótulos ideológicos.

O Brasil tem como características centrais alta informalidade, baixa produtividade, judicialização extrema das relações capital-trabalho, leis trabalhistas brigando com os avanços da tecnologia, formação de capital humano deficiente que se traduz em mão de obra cara e, em geral, de baixa qualificação. O que se faz agora é tornar esse macroambiente ainda pior.

A guerra entre ministros do Supremo, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Cabo de guerra camufla expectativa de estourar a corda do Master em cima de integrantes da Corte

À luz do dia, ninguém concorda com supersalários. Nem defende a falta de regramento mínimo na conduta de autoridades. Nem combate propostas para deixar o Judiciário mais eficiente. Ainda assim, esses temas alimentam a crise interna que habita o Supremo Tribunal Federal (STF) desde o ano passado.

Enquanto alas distintas da Corte seguram essas bandeiras, tentam camuflar a falta de explicações convincentes sobre a participação de ministros nos negócios de Daniel Vorcaro. Desviar o foco desse assunto agora é mais eficaz para garantir a sobrevivência de ministros no próprio cargo do que para reaver a credibilidade do Supremo.

O papa e a técnica, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Os executivos e seus patrões são os mais alienados de todos. Sob seu poder, a exploração ganhou notas inéditas de sadismo

A encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial (IA), intitulada Magnifica humanitas (Magnífica humanidade), a primeira de seu pontificado, atraiu as câmeras de TV e as primeiras páginas dos diários do mundo. Editoriais esmerados a elogiaram. Comentaristas anotaram com precisão que o sumo sacerdote não sataniza nem glorifica os algoritmos sagazes. De fato, esse é um dos pontos fortes do documento, que, em lugar de polemizar, pede um pouco de juízo aos seres humanos, sobretudo aos que se ocupam da programação das novíssimas ferramentas e aos que são donos das empresas detentoras das patentes. Entre os méritos da escrita papal, os editoriais destacaram a serenidade. O argumento evolui sem angústia, mas também sem deslumbramento, sem aflição, sem se refugiar na autoajuda, sem raiva, mas sem condescendência. A leitura nos traz conhecimento e, de sobra, reaviva o espírito.

Mercado, política e ‘racionalidade’ ideológica, por José Serra

O Estado de S. Paulo

É legítimo precificar política, mas é ilegítimo vender essa precificação como análise técnica e neutra

A divulgação, em 13 de maio, dos áudios entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma reação clássica e didática do mercado financeiro brasileiro: dólar a R$ 5,00, com alta de 2,31%, e Bolsa em queda de 1,80%, acompanhados de salto nos juros futuros. Uma plataforma de apostas em previsões que parte da Faria Lima adotou como termômetro do humor político passou a indicar que as chances de Flávio Bolsonaro haviam caído de 44% para cerca de 28%, enquanto Lula assumia o favoritismo com 45%. O episódio expõe, de forma incômoda, o que esse mercado de fato precifica, ficando claro que é muito distante do que alega precificar.

Entrevista* | A sociedade Brasileira é extremamente violenta e elitista

O jornal Catetear

*Marly Vianna, historiadora

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Marly Vianna: Creio que não. Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fascismo e outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente violenta e elitista, desigual e racista e, na minha opinião, essa é uma herança devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários. Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda bastante a da casa grande e senzala.