domingo, 25 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Oscar Vilhena Vieira*

“Impossível assistir a esses filmes sem pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna, da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda, do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação", de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma indisposição de acatar a lei como regra geral.

É paradoxal que num país em que a imensa maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos direitos mais elementares.

Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças para continuar lutando por justiça e por um país melhor.”

*Oscar Vilhena Vieira, do artigo “Um país à margem da lei” Folha de S. Paulo, ontem, 24/01/2026.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Abusos no litoral refletem desprezo pelo turismo

Por O Globo

Se país quer ser potência do setor, precisa tratar civilizadamente quem vai às praias, e não tentar espoliar

A agressão a dois turistas às vésperas do Ano Novo em Porto de Galinhas, litoral de Pernambuco, chamou a atenção para a desordem e para os abusos que afligem a costa do país. Eles haviam se recusado a pagar pelo aluguel de cadeiras de praia e guarda-sol além do combinado. Diante da repercussão, a prefeitura interditou a barraca, multou os responsáveis e proibiu a cobrança de consumo mínimo. Medidas similares de controle já foram tomadas pelas prefeituras de Salvador e Maraú (BA), Guarujá e Santos (SP) e também Rio e Niterói (RJ). A Secretaria Nacional do Consumidor anunciou um manual de boas práticas para vendedores e banhistas e prometeu uma nota técnica voltada à fiscalização.

De volta às veias abertas? Por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Sintomático, em todo este contexto, o pressuposto de que em nosso tempo a unidade política fundamental é – deve ser – o Estado-nação

Como em toda época de terremoto social, o mundo está de ponta-cabeça. Ninguém, nem mesmo os adversários mais encarniçados de Donald Trump, pode mais lhe negar o caráter rupturista, especialmente neste segundo mandato, vivido por toda parte como tumulto e imprevisibilidade. O experimento “iliberal”, neologismo criado na Hungria de Viktor Orbán, em 2014, para marcar a dissociação autoritária entre democracia e liberalismo, instalou-se de vez no coração do sistema, e daí se espalha agressivamente por todo o Hemisfério Ocidental. Descontada a imprevisibilidade indecorosa dos mapas, é neste hemisfério que estamos politicamente situados – as Américas no seu conjunto e, talvez, a Europa.

Líderes se acovardam em Davos. Por Dorrit Harazim

O Globo

Trump empilhou insultos, amontoou dados fantasiosos, fez exercício de autoglorificação e recorreu a ameaças pouco veladas

Davos 2026 foi um espetáculo pouco virtuoso. À exceção do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que emergiu de lá com aura de estadista por fazer uso decente da palavra e respeitar a História, as demais lideranças pareceram figurantes deprimidos e deprimentes. O mundo que conheciam, e onde circulavam com mediocridade altiva, acabou. E o mundo à sua frente, moldado pelos instintos de um homem só — Donald Trump —, lhes reserva futuro inglório se teimarem em se acomodar nele para não perder poderes diminuídos.

O fim da Vestfália, a exumação de Augusto e o Conselho da Paz de Trump. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A mensagem é “se a ONU não funciona, eu funciono”. E o mundo pode ser tentado a aceitar a promessa de eficácia como substituto de legitimidade

A criação do “Conselho da Paz” por Donald Trump, com pretensão de gerir conflitos e “reconstruir Gaza”, à primeira vista, parece uma excentricidade, que mistura marketing e voluntarismo autoritário. Entretanto, revela algo mais profundo: a substituição do sistema internacional historicamente moldado desde a Paz de Vestfália, que inspirou a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) no imediato pós-guerra, por uma gramática de poder antiga e brutal, que nos remete à Roma de Augusto. Ou seja, o mundo da soberania e do equilíbrio pelo da tutela e da hierarquia, com fora a Pax Romana como ordem imperial.

Os vários tentáculos. Por Merval Pereira

O Globo

Na volta do Congresso vamos ter muitas razões para debates de impeachment de ministros, porque, se o processo continuar no STF, vai gerar novos problemas e as revelações seguirão.

Quando, em sua desastrada nota oficial em que chancela as decisões arbitrárias, e até mesmo ilegais, do ministro Dias Toffoli no caso Master, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin afirma que “a História é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder, e o STF não permitirá que isso aconteça.”. O ato falho do ministro revela o quanto a questão perturba as mentes brilhantes do Supremo, pois, no caso, quem está sendo acusado de “proteger interesses escusos” ou “projetos de poder” são os que estão tentando blindar o banco Master, no caso, o próprio Supremo, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Congresso Nacional.

Ritmo e risco das mudanças globais. Por Míriam Leitão

O Globo

A velocidade dos acontecimentos mundiais, com Trump e suas ameaças diárias, reforça a sensação de que 2026 começou há meses

Estamos na última semana de janeiro e a sensação é de que se passaram meses desde o início do ano. A velocidade dos acontecimentos e a intensidade dos riscos nos levam a pensar que alguém apertou a tecla que acelerou o ritmo da Terra. Parece que foi há muito tempo que tropas americanas entraram na Venezuela e que o presidente Donald Trump começou a ameaçar a Groenlândia. O estresse em Davos foi tão alto, o discurso de Trump tão pavoroso, que os líderes decidiram guardar uma única frase, aquela na qual ele promete não usar a força para se apropriar da Groenlândia.

As duas faces do Master. Por Elio Gaspari

O Globo

A quebra do banco e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias

A intervenção do Banco Central em instituições de crédito sempre foi novela de um só capítulo. Nos casos dos bancos Econômico, Nacional e Bamerindus os auditores iam lá, arrolavam os malfeitos e, aos poucos, o caso sumia.

A quebra do Master e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias.

Uma é a das fraudes, que podem afetar 1,6 milhão de credores, num montante de R$ 41 bilhões. Segundo o ministro Fernando Haddad, o Master pode vir a ser “a maior fraude bancária” da História do país.

A outra é o que parece ser uma operação para abafar as conexões de Vorcaro e a balbúrdia que se estabeleceu no Judiciário. O ministro Dias Toffoli baixou uma ordem de sigilo nas investigações. Determinou que a Polícia Federal só avançasse nos seus trabalhos depois de obter sua autorização. Finalmente, resolveu que quatro peritos, por ele indicados, tivessem acesso às provas guardadas nos computadores e nos celulares dos investigados. Toffoli foi defendido pelo presidente do tribunal, que considerou “regular” sua atuação.

Os tentáculos do Banco Master. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Negócio nada ecumênico entre padre e pastor revela o alcance da influência de Vorcaro

A confusa relação do padre José Carlos Toffoli, agora cônego, com o pastor Fabiano Zettel, empresário, não é exatamente ecumênica, após o padre e seu irmão venderem para o pastor metade da participação deles, R$ 6,6 milhões, num resort. É estranho, mas confirma o principal: o alcance de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Vorcaro vai tomando a forma de um polvo. Zettel é cunhado e operador financeiro de Vorcaro. O “padre Carlão” é irmão do ministro do STF Dias Toffoli e do engenheiro Eugênio Toffoli, seu sócio em resorts de luxo que não condizem com o desapego de padres nem com a residência de classe média do engenheiro. A frase mais simbólica vem da mulher de Eugênio, Cássia: “Sócio de resort? Olha a minha casa!”

Navegando na anarquia internacional. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A corrupção e os privilégios obscenos no setor público, em todas as esferas, não podem continuar

Passado um ano de política externa de Donald Trump, já temos elementos mais do que suficientes para traçar uma estratégia de como o Brasil deve navegar na nova anarquia internacional. Os EUA passam a concentrar sua energia geopolítica nas Américas. Significa que os países da região precisam dispor de meios dissuasórios para conter intervenções americanas, que combinam pressão econômica e ameaça militar. Trata-se de elevar o custo dessas imposições para assegurar estabilidade e autonomia.

O imperador do mundo fala de Davos. Por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O mundo não precisa de um imperador, muito menos de um imperador acima das leis e inconformado por nunca ter recebido o Prêmio Nobel da Paz

Nem o Vaticano escapou da tentativa de Trump de formalizar uma nova ordem mundial com sede em Washington, ou, mais precisamente, na Casa Branca. O presidente americano aproveitou a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para apresentar seu Conselho da Paz, um projeto liderado por ele, representante da maior potência econômica e militar, e destinado, inicialmente, a levar alguma ordem à Faixa de Gaza. Convidou governantes a participar do grupo. Alguns logo aceitaram o convite. Os do Brasil, e de alguns países desenvolvidos, indicaram a intenção de estudar o assunto. A diplomacia do Vaticano também foi cautelosa, mas deixou logo clara a recusa de participar da ocupação de Gaza.

Colegialidade será princípio organizador do Supremo. Por Edson Fachin

Folha de S. Paulo

Reformas serão conduzidas sem rupturas, com urgência racional e sem açodamento decisório

Em ano eleitoral, o tribunal deve atuar com prudência, preservando a neutralidade institucional e a estabilidade do processo democrático

Encontramo-nos às vésperas do ano judiciário de 2026, período que constitui fase preparatória para a retomada dos trabalhos jurisdicionais, com vistas a conferir previsibilidade, eficiência e coerência jurisprudencial.

De modo especial, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem o dever de assegurar segurança jurídica, proteger a ordem constitucional e garantir o funcionamento adequado das instituições republicanas, em observância às expectativas sociais de tutela jurisdicional efetiva.

Trump quer Groenlândia porque sabe que aquecimento global é real. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ilha ganha relevância quando o oceano Ártico torna-se mais navegável

Com EUA, lugar seria mistura de Banco Master com a ilha do pedófilo Jeffrey Epstein

A tentativa trumpista de roubar a Groenlândia da Dinamarca prova que a direita, no fundo, sabe que o aquecimento global é real. Afinal, a ilha dinamarquesa só ganhou relevância política porque, graças ao aquecimento global, o oceano Ártico tornou-se muito mais navegável.

Em um artigo publicado na revista Nature Reviews Earth and Environment de março de 2024, os pesquisadores Alexandra Jahn, Marika M. Holland e Jennifer E. Kay mostraram que o aquecimento global criou uma possibilidade até outro dia impensável: um Ártico sem gelo durante boa parte do ano.

Vamos pagar a conta da mutreta do Master e do BRB. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco do Distrito Federal procura dinheiro para cobrir rombo, talvez no cofre do governo

Venda do Master pareceu tentativa de desovar cadáver quebrado no colo do estatal de Brasília

A venda do Banco Master para o BRB pareceu uma tentativa de desovar o cadáver de um banco quebrado no colo do banco estatal do Distrito Federal —tentativa de "abafar o caso". Além disso, o Master vendia terrenos na Lua para o BRB, créditos a receber que não existiam. A venda pareceu também uma tentativa de "dar saída" para alguns haveres de Daniel Vorcaro, da família dele e de sabe-se lá mais quem, haveres que virariam pó em caso de quebra do banco.

É o que se depreende de denúncias do Banco Central e de investigações jornalísticas e de relatos sobre evidências recolhidas pela Polícia Federal.

Direita corre o risco de se afundar nas águas turvas do filhotismo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro não entendeu que a condição de filho não lhe dá o direito de mandar no governador de São Paulo

Uma das regras da política é que projetos de sucesso não prosperam em ambiente de divergências internas

A julgar pelo modo como Flávio Bolsonaro (PL) conduz sua carruagem, ele ainda não entendeu que a condição de filho de ex-presidente —preso e inelegível— não lhe dá a prerrogativa de mandar no governador de São Paulo.

Já Tarcísio de Freitas (Republicanos) exibiu alguma noção do que significa comandar o maior estado do país e segundo maior orçamento da República, ao se recusar a cumprir as ordens do 01.

Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Neoextrativismo americano desconhece fronteiras soberanas; prospera em intimidações e ataques pontuais

Sem diplomacia, 'meu limite é a minha moralidade', a guerra cínica faz história

Embora o início da conhecida marchinha carnavalesca seja "Eu sou o pirata da perna de pau...", é oportuno substituir perna por cara no contexto político onde reinam Donald Trump e uma direita sem escrúpulos e recato. No cinema americano, cara de pau era Fred McMurray, uma expressão invariável ao longo de qualquer drama: contrapartida a Victor Mature e suas contorções faciais intensas, paródia de esforço fisiológico a cada cena. Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado: "Quero a Groenlândia porque não me deram o Prêmio Nobel".

Uma riqueza de rimas, imagens e humor. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta revivem um formato dos bambas: a dupla de cantores

'Bicudos Dois' vai de clássicos esquecidos e joias perdidas a inéditos por sambistas de hoje

Enquanto houver um microfone para Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, a música brasileira terá presente, passado e futuro. Juntos ou separados, os dois valem por uma equipe de cantores, arqueólogos e campeões do que de melhor se fez em samba, dos primórdios até hoje. Seu repertório vai de clássicos esquecidos de 1935 e joias perdidas de 1955 até inéditos de 2025 —não deles, que não precisam disputar com o gigantesco cancioneiro que têm na cabeça, mas de sambistas de hoje, que, contra todas as marés, continuam a produzir.

A saída pela Democracia. Por Ivan Alves Filho

Aos 73 anos de idade, tendo buscado participar da vida brasileira desde o final da década de 60, devo dizer que raramente estive tão preocupado com o meu país. 

Educação, saúde, malha viária, segurança pública, saneamento básico: os problemas se avolumam a cada dia e o descalabro administrativo parece ter se apoderado do Brasil. 

Poesia | A Música, o Luar e os Sonhos...de Fernando Pessoa

 

Música | Caetano Veloso, Gilberto Gil - Sampa

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci (A solidez das crenças)

“Referências ao senso comum e a solidez de suas crenças encontram-se frequentemente em Marx. Contudo, trata-se de referências não à validez do conteúdo de tais crenças, mas sim a sua solidez formal e, consequentemente, à sua imperatividade quando produzem normas de conduta. Aliás, em tais referências, está implícita a afirmação da necessidade de novas crenças populares, isto é, de um novo senso comum e, portanto, de uma nova cultura e de uma nova filosofia, que se enraízem na consciência popular com a mesma solidez e imperatividade das crenças tradicionais."

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, 4ª Edição, v,1, p.118. Editora Civilização Brasileira, 2006.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O cinema brasileiro atingiu novo patamar

Por Correio Braziliense

O agente secreto consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual

Com quatro indicações ao Oscar, O agente secreto não é apenas um êxito artístico. É um marco histórico. O filme de Kleber Mendonça Filho consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual. Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor escalação de elenco e Melhor ator, para Wagner Moura — o conjunto das nomeações traduz, em linguagem de prestígio internacional, aquilo que o público brasileiro já vinha percebendo: há uma retomada consistente, madura e competitiva das nossas produções, capaz de dialogar com o mundo sem renunciar às nossas raízes.

Mark Carney, San Tiago Dantas e o mote do outro Ocidente. Por Paulo Fábio Dantas Neto

Demorou um pouco até que uma voz mais firme e positiva surgisse de um país ocidental, reconhecendo com realismo a extensão e profundidade radicais da ofensiva de Donald Trump para decretar, nas relações internacionais, o retorno do império da competição sem regras entre grandes potências. O primeiro ministro Mark Carney, do Canadá, em pronunciamento no Fórum Econômico Mundial, em Davos, além de fazer isso, lançou um facho de luz num mundo que, diante da fera, tem oscilado entre a perplexidade, o medo, a retórica oca e a indignação impotente. Ao reconhecer a falência da ordem mundial do pós-guerra e a impossibilidade de sua refundação, exortou o que chama de potências médias (dentre as quais vê o seu país incluído) a agirem em bloco, política, comercial e diplomaticamente para resistirem à ação das potências hegemonistas e contraporem, ao mundo sem regras que elas estão consagrando na esteira da blitz trumpista, um processo de construção de uma nova ordem, na qual possam ser preservados tanto os interesses soberanos dos países, como valores civilizatórios supranacionais, com destaque aos direitos humanos, à democracia e o pluralismo político.

Fim de uma era. Por André Gustavo Stump

Correio Braziliense

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro impossível

A Europa foi o centro do mundo desde que as grandes navegações começaram a moldar a geopolítica em que vivemos. Portugal e Espanha dividiram o mundo por intermédio do Tratado de Tordesilhas, que não foi reconhecido por franceses, ingleses e holandeses. Uns invadiram os outros e começaram a dividir as áreas de interesse. Ingleses se espalharam pelos continentes e criaram o império onde o sol jamais se punha, com a inclusão da Índia, a joia da Coroa. Faz sentido. O diamante Koh-i-Noor, um dos maiores diamantes lapidados do mundo, originário da Índia, é a peça central da coroa britânica. O diamante pertencente à Índia foi "cedido" à rainha Vitória em 1848.

As contradições do fim de uma ordem mundial. Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A ameaça bate às portas da Dinamarca e vem muito nua, muito evidente. Não se pode dizer que o país nórdico represente um risco à democracia ocidental, tampouco que o povo da Groenlândia seja incapaz de se autogovernar de forma livre

A crise em torno da Groenlândia é dramática pelo potencial que tem de demonstrar ao mundo todas as contradições e insuficiências de um arranjo geopolítico. Para a Europa, é a revelação incômoda de que a soberania, um conceito que funda todo o Direito e a Política modernos, é uma ficção, tão frágil quanto parece ser o sistema de freios e contrapesos da democracia americana. Ver-se na posição historicamente reservada aos territórios coloniais é um choque, uma demonstração evidente do fracasso de um modelo de organização do mundo.

Quando os loucos conduzem os cegos. Por Roberto Amaral*

“Não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. Le mort saisit le vif!”.
Karl Marx, Prólogo à primeira edição de O capital.

Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água, alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.

Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de povo em busca de nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia arcar a decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América.

Absolute Cultura. Absolute Democracia. Por Margareth Menezes

Correio Braziliense

A "fervura" que Wagner Moura sente, e que todos nós vemos nas salas de cinema cheias, é a celebração da nossa soberania cultural. É a democracia devolvendo ao Brasil o direito de se enxergar, se orgulhar e prosperar

"Está fervilhando." Foi assim que o ator Wagner Moura resumiu o atual momento da nossa cultura ao ser questionado sobre o brilho recente do audiovisual brasileiro no cenário global. Da aclamação em Cannes às premiações no Globo de Ouro, chegando às históricas quatro indicações ao Oscar, o Brasil voltou a ocupar o lugar que é seu por direito: o topo. E, ao explicar esse fenômeno, Wagner foi direto e preciso: "Isso é apenas a democracia".

O que a internet hoje celebra com o meme "Absolute Cinema", aquele selo simbólico de qualidade para o que é verdadeiramente marcante, é, na verdade, o resultado de um país que voltou a respirar e a investir em si mesmo. Não é sorte, não é milagre. E, embora o talento do nosso povo seja infinito, não se trata apenas de inspiração. Trata-se de política pública.

Racismo que não se esconde. Por Flávia Oliveira

O Globo

O que era sugerido na campanha, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional

Um ano depois de assumir o segundo mandato à frente da Casa Branca, o racismo de Donald Trump nem sequer ousa esconder seu nome. O supremacismo branco, sempre evidente, tornou-se escancarado. O que era sugerido na campanha presidencial, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional. Apenas nesta semana, por duas vezes, uma na sede do governo, em Washington, outra no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o mandatário dos Estados Unidos abusou de frases depreciativas a imigrantes, em particular aos somalis, novos alvos da tática trumpista de semear na própria base eleitoral a aversão a estrangeiros.

A desonra de Toffoli. Por Thaís Oyama

O Globo

Se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado

Dias Toffoli foi passar uns dias de descanso num resort de luxo na Argentina. Dado que as últimas notícias sobre o ministro do STF envolvem justamente um resort de luxo no Brasil, onde ele desfruta confortos de toda espécie, a escolha do magistrado pode ter sido motivada por duas razões: 1) ele gosta muito de resorts e se interessa também por conhecer estabelecimentos do gênero mundo afora; 2) ele buscou um refúgio fora do país para se proteger da vista de seus conterrâneos, dado que seu nome aparece no noticiário dia sim e outro também, cada vez sob luz pior.

Adeus, María Corina. Por Eduardo Affonso

O Globo

A mais recente aquisição para a minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana

Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas, atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou, apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.

‘Defesa da democracia’ como escudo. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Fazer uma apreciação ética das ligações de Toffoli com o caso Master é o que ajudaria na integridade do STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, quebrou o silêncio sobre as críticas à condução do ministro Dias Toffoli na relatoria do caso Master. Mas surpreendeu até o ambiente jurídico e acadêmico com o tom adotado.

A despeito de uma série de episódios que põem em suspeição o trabalho de Toffoli, o chefe do Judiciário considerou a atuação do magistrado regular. Até aí, o texto segue um script institucional. Estranho seria se Fachin ratificasse, numa nota pública, críticas aos pares.

Um país à margem da lei. Por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Brasil parece incapaz de abraçar um código de conduta

Que Eunices e Sebastianas nos deem forças para buscarmos uma nação melhor

"O Agente Secreto" e "Ainda Estou Aqui" expressam a força do cinema brasileiro. E isso merece muita, mas muita comemoração. Ambos os filmes retratam, no entanto, um país à margem da lei, como "Cidade de Deus" ou "Cabra Marcado para Morrer", também aclamados internacionalmente.

"Ainda Estou Aqui" retrata o arbítrio como política de Estado. A tortura, os desaparecimentos forçados e a perseguição de dissidentes foram transformadas em instrumentos de manutenção de poder. A Constituição foi suspensa por sucessivos atos institucionais, que transferiram o poder aos militares, restringiram direitos e retiraram as ações repressivas do controle judicial. Instituições foram criadas ou receberam expressa determinação para torturar e matar.

Trump e a estratégia do homem louco. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente adota comportamento errático para tornar eventuais blefes mais críveis

Cientistas políticos são céticos em relação à eficácia dessa tática em relações internacionais

Com suas investidas e recuos, Donald Trump se consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos jogos.

Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.

A razão de Trump. Por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Senhor da Casa Branca almeja quebrar instituições sobre as quais se sustenta ordem erguida no pós-guerra

Nova ordem imaginada por Trump é concerto de grandes potências engajadas na delimitação de esferas de influência

As crises da Groenlândia e de Gaza esclarecem o sentido da política global de Trump. Mais que a soberania sobre a ilha ártica ou uma solução geopolítica na Terra Santa, o senhor da Casa Branca almeja quebrar as instituições sobre as quais se sustenta a ordem internacional erguida no pós-guerra. Seus atos conduzem o mundo ao estado hobbesiano da "guerra de todos contra todos".

Cláudio Castro é tragado para o caso Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Operação Barco de Papel apura suspeitas de operações financeiras irregulares no Rioprevidência

Castro se junta ao governador Ibaneis Rocha (DF), que bancou a compra do Master pelo BRB, na lista de autoridades que têm muito a explicar

O esquema de fraudes de Daniel Vorcaro arrastou para o centro da crise do Banco Master o governador do Rio, Cláudio Castro, após a operação Barco de Papel, da Polícia Federal, que apura suspeitas de irregularidades no fundo de previdência dos servidores do estado, o Rioprevidência.

Castro, no mínimo, deve explicações por ter mantido no cargo o presidente do fundo, Deivis Marcon Antunes, um dos alvos das investigações e exonerado somente nesta sexta (23) após a operação. Ele está fora do país.

Com Lula, 'ma non troppo'. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Estratégia da campanha é buscar o voto conservador no interior do estado

Na segurança, ideia é criticar influência de políticos ligados a práticas criminosas

Eduardo Paes deixará a prefeitura em 20 de março, antes do prazo previsto na legislação eleitoral, mas a tempo de entregar a chave da cidade ao Rei Momo, curtir alucinadamente quatro dias de Sambódromo e, quem sabe, chorar com a vitória da sua Portela. Será o Carnaval da despedida de quem começa a pré-campanha para ser o governador do Rio de Janeiro como favorito. Até outubro, é fazer com que o salto alto não atrapalhe.

Placas tectônicas. Por André Barrocal e Sergio Lirio

O movimento das forças em Brasília e na Faria Lima em torno do escândalo do banco Master

O crime organizado de colarinho branco está nu, graças ao escândalo do Banco Master, liquidado em novembro pelo Banco Central. O conglomerado do agora ex-banqueiro Daniel Vorcaro sofreu outro golpe na quarta-feira 21, quando o BC anunciou o fechamento do Will, instituição financeira virtual do grupo. Outsider, Vorcaro foi parar no meio do furacão de uma batalha que movimenta interesses gigantescos em Brasília e na Avenida Faria Lima, coração financeiro do País. Uma guerra na qual nem todos os objetivos são nobres. Há quem esteja, de fato, interessado em desbaratar uma fraude de enormes proporções. E há quem, como de costume, tente manipular o rumo das investigações em busca de dividendos eleitorais e financeiros – ao mesmo tempo, se possível.

última campanha eleitoral da vida do presidente Lula terá o combate aos poderosos como bandeira, daí o governo não arredar o pé de levar o caso Master às últimas consequências, doa a quem doer. Com o fantasma de uma improvável delação premiada de Vorcaro a rondar Brasília e deixar a cidade tensa, o Banco Central não recuou e não pretende recuar. Sempre que ocorre uma liquidação, os bens dos donos ficam indisponíveis, não podem ser vendidos até terminar a apuração de responsabilidades pela autoridade monetária. As degolas decretadas pelo BC farão com que o Fundo Garantidor de Crédito desembolse quase 50 bilhões de reais para ressarcir os clientes. O FGC é abastecido com recursos das próprias instituições financeiras, incluídas estatais como o Banco Brasil e a Caixa Econômica Federal. Adendo: os rumores de delação premiada podem ser lidos de distintas maneiras. A ideia de abrir a boca pode mesmo andar pela cabeça do empresário – resta saber o que ele teria a delatar – ou pode configurar-se como um pedido de socorro ao mundo político, no qual Vorcaro cultivou, ao longo do tempo, sólidas e ecumênicas relações.

Gestão temerária. Por Maurício Thuswohl

Loteado pelo União Brasil, o RioPrevidência multiplicou por sete aplicações no Banco Master sem aval do seu Comitê de Investimentos

No emaranhado de operações fraudulentas com Letras Financeiras (LFs) articuladas a partir do Banco Master, destaca-se a irresistível atração que esse tipo de aplicação parece ter exercido sobre diversos institutos de previdência de funcionários públicos estaduais ou municipais. Segundo investigações da Polícia Federal e do Banco Central, 18 dessas instituições investiram, entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, quase 1,9 bilhão de reais no banco controlado por Daniel Vorcaro e liquidado em novembro pelo BC. Como as LFs não estão cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), os servidores correm o risco de jamais reaver os valores investidos.

Com base em informações coletadas no Ministério da Previdência, os investigadores constataram que nenhum dos 18 institutos possuía aplicações vinculadas ao Master antes do período analisado. Em uma lista que inclui fundos mantidos por servidores dos governos de Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima, o destaque absoluto vai para o Rio de Janeiro, já que o RioPrevidência é responsável sozinho por 1,2 bilhão de reais aplicado nas LFs do Master, segundo uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado – o governo fluminense contesta o cálculo e diz que o valor aplicado foi de 960 milhões.

O Master e o risco sistêmico. Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Quando ocorre uma ruptura dos nexos monetários, a reconstrução exige impedir a desvalorização brutal da riqueza

O noticiário a respeito do Banco Master tem frequentado com assiduidade os ambientes da mídia. As notícias veiculadas nos meios de comunicação podem sugerir aos leitores e telespectadores que o episódio Master se refere apenas a um banco em particular.

liquidação extrajudicial executada pelo Banco Central pretendeu evitar uma grave deterioração do ambiente de confiança e pode ser interpretada de diferentes maneiras, mas o efeito mais imediato e perigoso é evitar o risco de ­desestabilização do sistema financeiro.

O perigo Trump. Por Cláudio Couto

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Se Putin é autoritário e expansionista, o presidente dos Estados Unidos parece ser ainda mais ameaçador, por agir com uma boa dose de irracionalidade

Afirmações categóricas sobre o futuro são sempre arriscadas e, provavelmente, equivocadas. Quando falamos sobre os perigos do presente, na realidade nos referimos ao que está por vir – ou seja, ao futuro. Feita a advertência, arrisco dizer que talvez vivamos o momento mais perigoso da humanidade desde o ocaso da Guerra Fria – e, quiçá, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Desde a vitória dos Aliados sobre o Eixo, o mundo passou por momentos de grande tensão e severos conflitos, como as guerras da Coreia e do Vietnã, além da crise dos mísseis em Cuba. No entanto, ao longo desse período, a institucionalidade internacional construída no pós-Guerra possibilitou certa contenção das grandes potências, cujos líderes se comportavam com alguma racionalidade. Hoje, tanto a institucionalidade quanto a racionalidade são deficitárias.