quarta-feira, 1 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Em afã eleitoreiro, Lula lança álcool no incêndio fiscal

Por O Globo

Ao acelerar gastos, governo se torna responsável pelo patamar sufocante dos juros, que incentiva inadimplência

A menos de uma semana do início do período de silêncio imposto pelo calendário eleitoral — em que o presidente fica impedido de comparecer a inaugurações ou eventos, e a publicidade institucional é suspensa —, Luiz Inácio Lula da Silva pisou no acelerador das “bondades” eleitoreiras e tem gastado em propaganda como se não houvesse amanhã.

Depois da isenção do Imposto de Renda, do fim da “taxa das blusinhas”, do crédito barato para caminhoneiros, motoristas de aplicativo e táxi, da extensão do Minha Casa, Minha Vida à classe média, de benesses a setores variados — de companhias aéreas a agricultores — e do alívio a dívidas de famílias e pequenas empresas, o frenesi eleitoreiro continuou nesta semana com benefícios a quem paga dívidas em dia, crédito estudantil subsidiado e liberação do FGTS como garantia para quem toma empréstimos consignados.

Cenários da caserna em caso de vitória de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que Flávio Bolsonaro apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se

Há uma inquietação na caserna quanto ao futuro do Ministério da Defesa em um eventual governo Lula 4.

Sim, há muito jogo pela frente até a eleição. E o “imponderável” tem mantido presença nas eleições presidenciais brasileiras, com a ocorrência de eventos de grande magnitude que mudam os rumos da campanha. Mas entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se.

Como consequência, embora possa parecer precoce, militares, investidores e políticos que pretendem estar no próximo governo de qualquer maneira passaram a produzir o que sabem fazer muito bem: cenários.

Temporada de busca do vice ideal começa com dobradinha Caiado e Kassab, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Riscos jurídicos e passivos podem transformar a peça que deveria agregar em problema: investigações, processos ou escândalos potencializam a necessidade de substituição do vice

A escolha do vice tem se revelado um dos nós mais espinhosos da atual pré-campanha, porque combina necessidades de costura partidária, cálculo eleitoral e gestão de riscos. Hoje, quem sai na frente é Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD, com a indicação de Gilberto Kassab como vice. A antecipação da decisão tem muito a ver com as dificuldades enfrentadas pelo ex-governador de Goiás, cuja campanha está estagnada.

A entrada de Kassab na chapa, tudo indica, tem por objetivo evitar a cristianização de Caiado, que enfrenta dificuldades internas no PSD para unificar a legenda e mobilizar a máquina partidária. Caiado oscila em torno de 3% nas pesquisas e precisa alavancar sua candidatura, cujo patrono é Kassab, depois da desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior, e do fato de ter sido descartado o nome de Eduardo Leite, o governador do Rio Grande do Sul, que poderia atrair para vice um nome do PSDB.

Flávio tem força, na Casa Branca, por Elio Gaspari

O Globo

Um novo anti, o antibolsonarismo

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.

Flávio Bolsonaro trata Brasil como uma peça a mais no mapa da ultradireita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Candidato do PL vai à Argentina bajular Milei e promete 'equipe de transição' a Trump

Em visita à Argentina, Flávio Bolsonaro festejou as eleições recentes que redesenharam o mapa político das Américas. O senador enumerou 13 países que dobraram à direita nos últimos anos, dos Estados Unidos de Donald Trump à Colômbia de Abelardo de la Espriella.

“Nós somos a peça que falta nesse mapa”, disse, em evento promovido no domingo por uma entidade pró-Israel em Buenos Aires. “O Brasil será o próximo”, prometeu.

Todo mundo tem sua pauta-bomba, por Vera Magalhães

O Globo

Congresso concentra projetos que aumentam gastos, mas governo e STF não ficam atrás ao promover benesses com dinheiro público

Os olhos da imprensa e da sociedade estão, com razão, postos sobre a pauta-bomba que se avoluma no Congresso. Mas senadores e deputados estão longe de ser os únicos que resolveram abrir a torneira do gasto público como se não houvesse o dia de amanhã depois das eleições de outubro.

O governo pode se fazer de alarmado com os projetos recém-aprovados ou na pauta do Senado e da Câmara, mas foi Lula quem primeiro lançou mão de medidas eleitoreiras (e custosas) para aumentar suas chances eleitorais no momento em que as pesquisas lhe eram mais desfavoráveis, no ano passado e neste semestre. Também pisou no acelerador no volume e nos valores da propaganda oficial, principalmente nestes últimos dias antes do defeso, período em que a lei eleitoral veda esse tipo de gasto indiscriminado.

Terremoto inspirou filósofos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Voltaire, Rousseau e Kant fizeram reflexões sobre o grande tremor de Lisboa de 1755

Os dois últimos deslocaram a discussão do campo da teologia para o da ação e entendimento humanos

Espíritos práticos gostam de recriminar a filosofia pelo que seria um excesso de abstração. Reflexões filosóficas podem por vezes se tornar bem metafísicas, mas o caráter altamente especulativo da filosofia pode paradoxalmente transformá-la em precursora de ciências aplicadas. Um único e improvável evento, o grande terremoto de Lisboa, de 1755, conferiu a Rousseau e Kant o papel de fundadores espirituais de dois ramos da ciência moderna, a sociologia dos desastres e a sismologia.

Os penduricalhos, os diamantes e os rolos do governo do Brasil são eternos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Supremo dá uma relaxada em regras de pagamentos acima do teto salarial dos servidores

Em suma, assunto depende do Congresso, que ajuda a piorar problemas fundamentais

O Supremo deu uma relaxada na regra já meio relaxada de limitação dos ditos penduricalhos, pagamentos que levam o salário de servidores a superar o teto constitucional de R$ 46.366,19 mensais, brutos. Para resumir um assunto que poderia tomar páginas de detalhes, o STF como que aceitou alguns direitos adquiridos, por assim dizer. No mais, vale a regra de março de 2026 que pode permitir pagamentos extras de até 70% acima do valor do teto. Parte disso se deve, em tese, a indenizações (diárias, férias não gozadas, plantões, acumulação de funções, enfim, uma lista longa e confusa), e parte ao adicional por tempo de serviço.

As duas faces do bolsonarismo, por Wilson Gomes*

Folha de S. Paulo

Michelle disputa o controle da autenticidade do movimento

Os filhos flexibilizam alianças para ampliar chances eleitorais

Há alguns anos, parte do debate público se preocupava com a "normalização" do bolsonarismo. A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.

Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.

Fé conservadora, socialista e liberal, por Deirdre Nansen McCloskey*

Folha de S. Paulo

O protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente

A postura mais cristã que se pode adotar é a de um liberal básico, um defensor da igualdade e da liberdade, tanto na religião quanto no resto da vida

Ao protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente religião e a política se alinham de maneiras inesperadas.

O catolicismo, por exemplo, é frequentemente conservador —como ocorreu na Irlanda desde a época do primeiro cardeal irlandês, Paul Cullen (1803–1878), e como já era na Espanha, tornando-se ainda mais durante o regime do general Franco. Mas nem sempre é assim: basta olhar para os teólogos da libertação na América Latina ou, de maneira mais geral, para os cristãos que levam a sério a resposta de Jesus ao jovem rico que perguntou como poderia alcançar o Reino dos Céus: venda todos os seus bens, dê o dinheiro aos pobres e siga-me.

Descanso e dignidade, do campo à cidade*

Correio Braziliense

A eliminação da jornada 6x1 tem de valer também para os milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais que fazem do Brasil um dos maiores celeiros do mundo

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força ao expor a compressão do tempo de vida imposta por jornadas extensas e descanso insuficiente. Impulsionada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), essa mobilização partiu das redes sociais para as ruas, reativando um debate clássico sobre a apropriação do tempo e a dignidade do trabalhador frente às demandas do capital. Mobilizou principalmente as cidades, mas agora precisa alcançar com a mesma centralidade o trabalho no campo.

A produção rural brasileira depende de uma força de trabalho numerosa, mal protegida e, com frequência, invisibilizada. São cerca de 3,6 milhões de trabalhadores rurais assalariados, dos quais apenas 40% têm carteira assinada. A informalidade, nesse caso, não é condição lateral: ela estrutura a relação entre empregadores e trabalhadores no meio rural, dificultando o controle da jornada, o acesso à previdência, a proteção em acidentes e o direito efetivo ao descanso.

Mãos e olhar que salvam, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

É impossível olhar para uma das maiores tragédias a golpear a América do Sul e não sentir empatia pelos venezuelanos.

Imagine estar em casa e ser surpreendido por dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9). Você e sua família conseguem sair pouco antes de seu lar desabar, levando não apenas os bens materiais, mas também sonhos, planos e memórias. De repente, você está na rua, sem comida, sem dinheiro e sem saber como refazer sua vida. Ainda assim, sente-se sortudo demais: seus vizinhos morreram, alguns amigos estão desaparecidos e você ainda consegue abraçar e beijar sua esposa/marido e seus filhos. Agora, tudo o que mais deseja é ajudar e ser ajudado.

A retórica inflada da liberdade de expressão, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

O problema da ideia de uma liberdade sem limites não é conceder muita liberdade. Trata-se de uma defesa frágil e estéril

Nunca falamos tanto de liberdade de expressão no Brasil como agora, mas essa conversa não tem gerado os efeitos esperados: uma compreensão minimamente funcional da liberdade de expressão, própria e alheia; uma proteção mais efetiva da liberdade. Abaixo, três aspectos do debate atual.

O uso retórico do termo censura. Sim, todos concordamos que a Constituição proíbe a censura. Mas o que é a censura?

Caso 1. Demitido de um jornal após escrever uma coluna, um jornalista afirma em rede social que foi censurado.

Caso 2. Depois de compartilhar em rede social dados manifestamente falsos sobre as urnas eletrônicas, um cidadão tem seu perfil bloqueado por ordem judicial. Noutra rede social, afirma ter sofrido censura.

Caso 3. Uma ordem judicial suspende a divulgação de pesquisa de intenções de voto, sob o fundamento de que o questionário induzia as respostas. Diversas vozes denunciam a ocorrência de censura.

O Supremo e a falta de limites, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Nunes Marques disse que a magistratura passa dificuldades e quis fim dos limites dos penduricalhos

Em meio ao julgamento que afrouxou as regras dos penduricalhos a magistrados e procuradores, quatro ministros do Supremo Tribunal Federal queriam, ao contrário de outros seis colegas, que não houvesse limites para o pagamento das verbas indenizatórias reconhecidas e validadas pelos conselhos da Justiça e do Ministério Público.

Quem abriu essa divergência foi Luiz Fux, que se disse contrário ao estabelecimento do limite de 35% além do teto para as verbas adicionais ao salário. Além disso, os ministros autorizaram o pagamento de uma gratificação de 5% a cada cinco anos de serviço. Essa regra, somada aos penduricalhos, garante a quem está no topo da carreira um salário de R$ 78 mil. Mas Fux queria mais. Assim como os ministros André Mendonça, Dias Toffoli e Nunes Marques. Este último defendeu até o pagamento de auxílio-creche aos doutores.

A metade amarga de 2026, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Apesar das eleições no Brasil, maior risco para o 2.º semestre está na política monetária nos EUA

Há três grandes riscos para o segundo semestre de 2026 que ora começa. De um lado, duas eleições: a de “midterms” nos Estados Unidos (de meio de mandato para renovação do Congresso) e a presidencial no Brasil. De outro, a probabilidade de o Federal Reserve iniciar um ciclo de alta dos juros americanos. A depender do desfecho de cada um desses riscos, o ano pode terminar com um ambiente de elevada volatilidade e de estresse nos mercados globais.

Poesia | Pus o meu sonho num navio, de Cecília Meireles

 

Música | Chico Buarque & Milton Nascimento - Cálice

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF piora regra que já era ruim para ‘penduricalhos’

Por O Globo

Congresso tem obrigação de corrigir distorções criadas pela Corte, em especial o novo quinquênio

A última decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os “penduricalhos” deveria tirar o Congresso da letargia. Era esperado que a Corte moralizasse os abusos. O que se viu foi frustração. Em março, o Supremo criou por unanimidade um novo teto para a remuneração da elite do serviço público. Definiu que as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores poderiam exceder em até 70% o valor estipulado na Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF). Eliminou os “penduricalhos” mais escandalosos, mas permitiu que até metade do excesso de 70% possa ser concedida na forma de aumentos salariais automáticos a cada cinco anos — o quinquênio, extinto pelo Congresso há 20 anos. Não tem justificativa nem cabimento.

Em meio à Copa do Mundo, Lula e Flávio absorvem desgastes com aliados, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Militantes-raiz fazem a blindagem tanto do presidente quanto do candidato de oposição nas redes sociais, indiferentes aos fatos negativos que surgem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva absorveu o desgaste provocado pelo envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no caso Master, enquanto seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL-RR), administrou a crise com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, que havia gravado um vídeo se dizendo desrespeitada e humilhada pelo filho do ex-presidente Bolsonaro. Talvez porque tenham se posicionado corretamente para estancar a crise, talvez porque o foco de atenção dos eleitores tenha se deslocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

É o que mostra a pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nessa segunda-feira: ambos atravessaram as últimas semanas sob intenso desgaste político, mas nenhum deles sofreu abalo eleitoral significativo. Ao contrário, os números indicam que ambos permanecem sustentados por bases eleitorais altamente consolidadas, tornando a disputa cada vez mais dependente da conquista do eleitorado moderado e da transferência dos votos dos candidatos hoje situados na chamada terceira via.

Lógica do 2º prejudica lulismo na disputa pelo Senado, por César Felício

Valor Econômico

Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados

A falta de amplitude do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao centro ou à direita no espectro político.

O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.

Michelle traz à tona fenda que põe em xeque o bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Reação a Michelle revela que a base da divisão vai além do “mulher não sabe votar” e atinge pautas caras às mulheres conservadoras como o ECA Digital que o bolsonarismo raiz ataca

O embate entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato do PL à Presidência não é apenas uma treta entre madrasta e enteado como quer fazer crer seu partido. Criou uma tensão interna de gênero, até então pouco relevante para o bolsonarismo.

Quem deu o mote foi Paulo Figueiredo em seu programa de quinta-feira no YouTube. Ao longo de 1h46m, o influenciador, que é o principal interlocutor bolsonarista com o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, abriu seu coração: Michelle é feminista e, portanto, marxista. A ex-primeira-dama, disse, defende cotas para mulheres que, por personalidade, são menos atraídas pela política e isso custa um caminhão de dinheiro. Foi ela quem colocou o PL Mulher no mesmo espectro ideológico de um travesti marxista como Erico Hilton. Todas as palavras são de Paulo Figueiredo, inclusive a maneira de se referir à deputada Erika Hilton (Psol-SP).

O reino dividido, por Thomas Traumann

O Globo

Em entrevista ao editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis, Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que termina por dividir o reino entre Israel e Judá.

— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado — alertou o bispo.

A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.

Clarice Herzog, a heroína da memória, por Míriam Leitão

O Globo

Clarice Herzog, que completa 85 anos, dedicou a vida à luta por memória e justiça em um país que insiste em apagar os fatos

Amanhã, Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui. Como Eunice Paiva, perdeu o marido assassinado pela ditadura, lutou por memória e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um significado profundo, que o país ainda não alcançou, o apagamento das lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se esquecesse. O país que insiste em esquecer.

Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil. Quando Vladimir Herzog morreu, ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”. Zuenir Ventura me disse, certa vez, que esse grito dela aos jornalistas foi a hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado, ela gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado, dona Zora, chegar para o enterro do filho único.

Em causa própria, por Merval Pereira

O Globo

Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

O caso dos penduricalhos do Judiciário é exemplar de como não é possível ter credibilidade diante da opinião pública se mudamos de posição a cada pressão recebida, especialmente quando essa pressão vem da própria corporação. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino tem se destacado por decisões que tocam em feridas abertas em nossa vida institucional, como as emendas parlamentares ou os penduricalhos. Parecia à opinião pública um ministro independente de panelinhas, mas, à medida que o tempo passa, mais e mais ele vai se inserindo no grupo capitaneado pelo decano Gilmar Mendes.

A decisão de “flexibilizar” sua decisão inicial que restringia duramente os penduricalhos do Judiciário vem com uma pitada de corporativismo. Quatro dos ministros do Supremo votaram em conjunto, inclusive o próprio Dino, contra sua decisão anterior. Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

Reflexos da Copa no jogo eleitoral, por Fernando Gabeira

O Globo

Estamos cercados por um clima de guerra, pergunto o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões

Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas que não podem ser esquecidos.

O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.

Professor bem preparado para quê? Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

‘As plataformas retiram dos professores a essência da atividade docente: o planejamento, a organização e a condução de suas aulas’

Dados sobre o ensino no País animam e preocupam. São uma espécie de resumo das contradições de um país que cresce sem romper sua imensa desigualdade social. Muitos índices de educação dos jovens melhoraram na última década, mas mais de 7 milhões de jovens não concluíram o ensino médio e estão fora das escolas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de alunos cresce, mas milhões deles concluem o ciclo básico com conhecimentos inferiores aos considerados necessários para agir com autonomia, espírito crítico e iniciativa num mundo em rápidas transformações tecnológicas. Superar essa deficiência exige professores adequadamente preparados. É desolador, no entanto, constatar que são escassas as políticas públicas com esse objetivo e, pior, observar que certas ações do poder público enfraquecem o papel do professor, o que pode comprometer o aprendizado e o futuro do aluno.

A Copa derrotou a polarização, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O desânimo foi substituído por festa e otimismo, com o amarelo dominando estádios lá e cidades cá

Sim, a seleção do Brasil venceu até aqui não só os adversários, mas também a exaustiva polarização política, devolvendo a camisa e as cores verde e amarela para todos os brasileiros. Chegamos às oitavas de final com os estádios americanos e as cidades do nosso país dominados pelo amarelo vibrante, que é de nós todos e ninguém tasca.

A Copa de 2026 pegou o Brasil e os brasileiros desanimados com Ancelotti, a seleção, a saúde do Neymar, as ausências de Endrick, tudo isso em meio a uma montanha de denúncias de corrupção e muita gente temerosa de usar a nossa camisa para não ser confundida com um lado da polarização.

O puro-sanguismo bolsonarista e Michelle, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É preciso lembrar que a direita brasileira está no pós-Bolsonaro; e que a escolha do primogênito Flávio Bolsonaro como candidato do bolsonarismo, o cavalo puro sangue designado a encarnar o pai, é produto sobretudo da necessidade de a família Bolsonaro manter – reafirmar – a hegemonia sobre essa propriedade.

Jair está fora de combate, perseguido e injustiçado, esse é o texto; Flávio sendo aquele sacrificado cuja matéria incorpora o pai, conjuntura em que a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória, protegido o patrimônio político, defendida a empresa familiar que Bolsonaro

Flávio e Michelle se degladiam hoje pela liderança em 2030, por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

Senador venceu batalha dos vídeos, mas não condena ataques contra mulheres

Ex-primeira-dama está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido

O Brasil continuará a ter os olhos voltados para o Mundial. Mas no país evangélico a disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro continua. O senador saiu por cima do incidente dos vídeos, mas os dois parecem dispostos a sacrificar 2026 pela liderança do PL em 2030.

Para quem não acompanhou essa partida de xadrez eleitoral: na quarta-feira (23), quando o país se acomodava no sofá para assistir à partida entre Brasil e Escócia, a ex-primeira-dama publicou dois vídeos criticando o enteado e dizendo ser ele quem abdicou do apoio dela.

A resposta da pré-campanha de Flávio foi notável do ponto de vista da comunicação e da coordenação. Primeiro, publicou um vídeo defendendo que o momento era de apoiar a seleção. Ganhou tempo. Na quinta-feira (24), sua resposta foi curta e precisa.

Barreira mnemônica, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Responsabilizar políticos por seus erros é um desafio para as democracias

Quando o eleitor não se lembra nem de em que votou, a tarefa fica bem mais difícil

Responsabilizar políticos pelo que eles fazem de errado é um dos grandes desafios das democracias. Não que eles nunca tenham de prestar contas. Quem está à frente do governo acaba respondendo pelo que acontece em sua gestão, às vezes até de forma meio injusta. Reeleições de presidentes ou primeiros-ministros dependem muito do desempenho da economia. Uma crise costuma interromper ou abreviar o mandato do dirigente, mesmo que ela seja totalmente exógena e ele tenha feito tudo o que era possível para reduzir seus impactos.

Figura do Diabo aprimorou o processo criativo de Guimarães Rosa, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo e depois escrevo, revelou o escritor

'Grande Sertão: Veredas' se valeu de conversas com vaqueiros e da leitura de Goethe

O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.

Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo:

Poesia | Poemeto Irônico, de Manuel Bandeira

 

Música | Nara Leão - Além do horizonte

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Delações seletivas têm mesmo de ser rejeitadas

Por O Globo

PF e PGR acertam ao recusar propostas que nada de novo trazem à investigação do caso Master

Fizeram bem a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) em rejeitar as propostas de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Pelo que veio a público das negociações, elas não acrescentariam nada de relevante ao que já se sabe sobre a maior fraude bancária da História do país. É preciso fechar a porta à tentativa dos acusados de aproveitar os benefícios da lei sem oferecer informações que contribuam para as investigações, já bastante avançadas a partir do material apreendido nas operações policiais.

Apesar da mudança de advogados e das promessas de colaboração, sete meses depois de preso pela primeira vez, Vorcaro ainda não conseguiu convencer os investigadores de que está realmente disposto a falar o que sabe sobre os desmandos do Master e sua atuação nos bastidores da República. Ao contrário. A cada novo episódio que as autoridades trazem a público, sua situação se torna mais constrangedora.

Lula precisa mesmo de palanque em Minas? Por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização

Na edição de 19 de junho, a revista The Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e termômetro das eleições presidenciais deste ano.

As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais.

BC tenta calibrar como fala ao mercado, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Banco Central abriu tantas informações que, hoje, é um pouco refém dessa transparência

O problema pode ser que os bancos centrais estão falando demais. Durante as últimas décadas, toda a discussão foi sobre como aumentar a transparência de suas decisões e de suas intenções futuras. Agora, há uma corrente contrária que acha que estão pecando pelo excesso.

A questão central, na verdade, não é se os bancos centrais devem ser mais transparentes ou não - no fundo, é sobre fazer uma boa comunicação e evitar que ela vire uma camisa de força.

O proponente mais radical da tese de que os BCs devem falar menos é o novo chefe do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, que, na sua primeira entrevista coletiva, disse que, quando os banqueiros centrais falam muito sobre o futuro, os mercados entendem como uma promessa e deixam de fazer o dever de casa de acompanhar a evolução dos dados econômicos.

Feliz aniversário, Fernando Henrique, por Miguel de Almeida

O Globo

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo

Fernando Henrique Cardoso completou 95 anos no último dia 18. Ele vive em seu apartamento, em Higienópolis, acometido por Alzheimer. A doença tornou-o recluso — anteriormente, era visto com frequência nas ruas do bairro e nos seus restaurantes. Personagem da cidade, às vezes caminhava sem qualquer companhia ou segurança. Até há algum tempo, eu o encontrava às quintas na Sala São Paulo, de cujo conselho foi presidente. Era aplaudido em pé pela plateia quando avistado no camarote.

O tempo obrigou os brasileiros atentos e honestos a reconhecer a importância de seu governo. Mais sua elegância e bom humor. Cometeu erros como qualquer governante, porém acertou mais do que a maioria. Com sua autoridade, poderia ter pisado mais fundo. Bem. Seus oito anos de Presidência deixaram duas heranças fundamentais: primeira, a estabilidade econômica; segunda, a desgraça da reeleição. Não esqueço sua indicação de Gilmar Mendes para o Supremo — aquele que matou a Operação Lava-Jato e agora trabalha para aliviar os Vorcaros.

É necessário haver resistência racial, por Irapuã Santana

O Globo

Relutância que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera desumanização

Na semana passada, foram divulgadas imagens da câmera corporal de um policial militar em São Paulo referentes a um fato ocorrido em novembro do ano passado numa escola pública. A escola havia proposto uma atividade educacional sobre a cultura afro-brasileira, implementando a determinação da Lei 10.639/03, e o pai de uma aluna discordou do projeto pedagógico por pensar que havia sido ministrada uma aula de religião. Com isso, foi à escola, coagiu a professora e acionou a polícia, que prontamente o atendeu, enviando policiais armados — portando até metralhadora — para averiguar o ocorrido. Entretanto, o que as imagens captaram foi mais um episódio de violência perpetrada pelo Estado.

Problema? Que problema? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece

Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.

Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.

Flávio Bolsonaro e o efeito Teflon, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O senador não tem a capacidade do pai de manter o apoio popular apesar de suas falas e dos fatos

O senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro precisa mudar de assunto – de muitos assuntos. O mais recente foi a lavagem de roupa suja em público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Flávio, nesse fim de semana, garantiu que o episódio era “página virada”. Conhecendo o histórico de brigas na família, a trégua tende a durar apenas até a próxima desavença.

Mas o problema de Flávio vai além das ambições que Michelle alimenta e do desafio de unir a família em torno do seu projeto presidencial. A verdadeira encrenca é que a dificuldade do senador em “virar a página” de situações desabonadoras se tornou generalizada.