terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Os riscos da Sapucaí, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O carnaval do presidente Lula da Silva vai virar espuma. E se fosse Jair Bolsonaro?

A ida do presidente Lula à Sapucaí e a homenagem que recebeu da Escola Acadêmicos de Niterói são daquelas coisas que levantam debate, muitas vozes de especialistas, defesa dos governistas e críticas e ações da oposição, mas... é tudo espuma, pelo menos sob o ponto de vista jurídico. Só que a questão também é política.

É evidente que Lula tirou uma casquinha eleitoral do “maior espetáculo da Terra” e a escola ganhou visibilidade desproporcional na sua estreia no Grupo Especial. Mas fica nisso. Lula não deve sofrer punições nem deve ter conquistado um único voto e a escola corre o sério risco de ser rebaixada para a Série Ouro.

Lula antissistema, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O caso Master veio para ficar. Pautará os humores eleitorais em 2026, ministrado como capítulos de novela. Lula compreendeu a projeção de risco e decidiu botar o bloco discursivo na rua. Tenta se antecipar. Sabe que a forma como a crise é percebida tende a colar no governo de turno. Sabe que a crise pode mobilizar-animar o sentimento anticorrupção. Mais precisamente, o sentimento antissistema – que já decidiu eleição entre nós. O presidente é favorito à reeleição e aquele que tem mais a perder, sob quem se abriria o prejuízo de um chão de imprevisibilidade.

Advogados e cidadãos afastados do Judiciário, por Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

O Estado de S. Paulo

Calar o advogado é calar o jurisdicionado e ferir de morte a liberdade individual e a democracia

Os constituintes de 1988 atuaram visando a instituir um extenso arcabouço constitucional voltado para a proteção do homem brasileiro. Essa intenção se materializou no artigo 5.º da Lei Maior, que outorga direitos e garantias de amplo espectro e abrangência. A proteção visa a blindá-lo contra o arbítrio estatal, garantir-lhe atributos ligados à sua personalidade, honra, dignidade e faculdades com origem no próprio direito natural.

Todos os direitos inscritos no artigo 5.º devem ser exercidos de forma direta, sem limitações ou barreiras. Efetivá-los é exercer a cidadania.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Homenagem a Lula na Sapucaí teve ar de campanha antecipada

Por O Globo

Cabe ao TSE avaliar as punições que julgar adequadas para o desfile da Acadêmicos de Niterói

No ano em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende disputar a reeleição, a escola de samba Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, escolheu apresentar na Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Foi impossível disfarçar o tom de propaganda eleitoral antecipada, como pôde perceber qualquer um que tenha assistido ao desfile no domingo à noite.

Casos Master e INSS fazem de André Mendonça coringa na eleição, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Modo como ministro conduzirá os temas influenciará a percepção sobre os evangélicos

Envolvimento de cristãos com corrupção tem prejudicado reputação das igrejas

Um dos momentos marcantes do governo de Jair Bolsonaro foi a indicação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o STF. Poucos anos depois, André Mendonça torna-se relator de dois casos que, segundo analistas, podem implodir a República.

O que esperar então de Mendonça? Tudo isso no ano em que Lula, aos 80 anos, deve enfrentar sua sétima campanha presidencial, possivelmente contra o filho do presidente que indicou um evangélico ao Supremo.

O contexto político, no entanto, traz sinais confusos. Duas figuras centrais do conservadorismo evangélico —Michelle Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia— foram decisivas para a aprovação de Mendonça e agora resistem à candidatura de Flávio.

Brasil está em modo eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Governantes e candidatos passam a perseguir bandeiras que se transformem em votos

Risco é a adoção de políticas erradas ou menos eficazes do que poderiam ser se implementadas com calma

homenagem que uma escola de samba fluminense fez a Lula viola a legislação eleitoral? A escola, afinal, recebeu verbas federais (todas receberam) e o próprio presidente e ministros acorreram ao desfile, embora tenham exercido alguma discrição.

TSE, até aqui, agiu corretamente. Não proibiu o desfile, o que configuraria intervenção absurda na liberdade de criação artística, mas disse em alto e bom som que o petista correria riscos —daí a cautela do entorno presidencial. Veremos se isso vira um processo de abuso de poder político e econômico. Após as condenações eleitorais de Bolsonaro, o TSE está moralmente obrigado a ser rigoroso nessa matéria.

Egotrip faz Lula ultrapassar o limite da tolerância, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Afago no ego não compensa o prejuízo que Lula terá ao despertar atenção para o uso do cargo na campanha

Até o desfile-exaltação na Sapucaí, o presidente contava com o benefício de um ambiente de cegueira deliberada

Mais do que nunca é válido o conselho de Chico Buarque para que o governo do PT criasse o ministério do vai dar errado —o nome exato da pasta vocês sabem qual é— a fim de não escorregar em cascas de banana visíveis.

Gênio da música e da poesia, eleitor de admirador de Luiz Inácio da Silva, Chico fez o alerta há mais de vinte anos. Às vésperas do Carnaval, João Santana, marqueteiro dos tempos de glória, deu de graça uma lição: folia e política não se bicam.

Castro ameaça trair Bolsonaro pela primeira vida na vida, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Eleição indireta de governador-tampão motiva a discórdia

Desentendimento entre centrão e extrema direita paralisa o Rio

Na cabeça de Cláudio Castro, parecia a tramoia perfeita. Em maio de 2025, o governador indicou o vice, Thiago Pampolha, de 38 anos, para uma vaga de conselheiro do Tribunal de Contas. "Thiago é novo, mas rodado", justificou.

O ardil permitiria que o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, assumisse a máquina do Palácio Guanabara para disputar a sucessão. Um presente de cupincha. Castro não se dava bem com Pampolha, que de lambuja passou a controlar a Cedae, empresa de saneamento com receita anual de R$ 3 bilhões, hoje investigada por aplicações no Banco Master.

Poesia | Talvez o vento saiba, de Ivan Junqueira

 

Música | Getúlio Cavalcanti - Último Regresso

 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Corrupção é nódoa persistente na imagem do Brasil

Por O Globo

Estagnação em ranking de percepção sobre combate aos corruptos prejudica investimentos

Se as instituições brasileiras que repeliram uma tentativa de golpe demonstrassem o mesmo vigor no combate à corrupção, o país subiria vários degraus no estágio de desenvolvimento. A corrupção endêmica se traduz em maior insegurança jurídica e em maior risco para os investidores. Infelizmente, o país tem se mostrado incapaz de combater essa chaga. E a percepção externa não melhora. Desde 2018, o Brasil está estagnado em patamar abaixo da média no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), calculado pela ONG Transparência Internacional. Em 2025, obteve 35 pontos numa escala de zero a cem, repetindo sua segunda pior nota. Num ranking liderado por Dinamarca (89), Finlândia (88) e Cingapura (84), ficou abaixo das médias das Américas e dos países pesquisados, ambas em 42 pontos. Com esse resultado, ocupa o 107° lugar entre 182 países. Vale lembrar que houve piora tanto na nota quanto na posição brasileira desde 2012, quando o índice foi criado.

Ausência de Janja da avenida contém críticos e reduz chance de ação eleitoral, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Participação da primeira-dama poderia levar o presidente a cruzar a linha tênue entre o direito de a escola homenageá-lo, referendada pelo TSE, e invadir a seara da propaganda eleitoral antecipada

A ausência da primeira-dama, Janja da Silva, da avenida no desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí contém a exploração, pela oposição, da homenagem da escola. A primeira-dama participou do ensaio da escola na semana passada e era aguardada no último carro alegórico. Chegou separadamente de Lula no desfile. Sua ausência apenas foi confirmada quando o último carro alegórico, que contava com sua presença, apareceu sem a primeira-dama.

Desfile de Carnaval em homenagem a Lula testa limites do TSE, por Fernando Exman

Valor Econômico

Em meados do ano, a Corte passará a ser comandada por dois ministros do STF indicados por Bolsonaro: o presidente será Kassio Nunes Marques e o vice, André Mendonça

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou no Rio de Janeiro neste Carnaval para checar com os próprios pés, a despeito dos alertas de aliados mais precavidos e da ministra Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se o sambódromo carioca foi construído sobre solo rígido ou areia movediça.

O recado de Cármen Lúcia veio há poucos dias, quando o TSE julgava duas representações de partidos políticos de oposição por propaganda eleitoral antecipada contra o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenagearia Lula na noite de domingo (15).

Em decisão unânime, os ministros do TSE negaram o pedido de liminar: na visão do tribunal, não haveria naquele momento comprovação de delito eleitoral, como pedido de voto. Dessa forma, concluíram, a suspeita de possível ilícito futuro não poderia censurar uma manifestação artística.

A favela sonha, o Brasil não apoia, por Preto Zezé

O Globo

Falta coragem política para reconhecer que a desigualdade no país não é um acidente histórico, mas um projeto

Os dados da pesquisa Sonhos da Favela 2026, do Data Favela, desmontam uma das narrativas mais convenientes do país: a ideia de que a favela não tem projeto de futuro. Tem, sim. Ele é claro, objetivo e profundamente democrático.

A favela sonha com casa digna, saúde que funcione, escola capaz de preparar os filhos para a vida, renda estável e o direito básico de circular sem medo. Não há fantasia de luxo nem consumo desenfreado. O desejo é por estabilidade, normalidade, uma vida possível dentro das regras do jogo. O problema é que esses sonhos não encontram sustentação nas estruturas do Brasil.

Mais de seis em cada dez moradores de favela não têm renda fixa. Ainda assim, a vida acontece. O “corre” não é improviso, é método de sobrevivência. A favela aprendeu a funcionar apesar do Estado, não em parceria com ele. Quando tantos dizem querer organizar a vida financeira ou limpar o nome, o que aparece não é irresponsabilidade, mas maturidade econômica sem acesso aos instrumentos necessários.

A distância entre aspiração e política pública é evidente. A educação aparece como principal caminho de ascensão social, mas a infraestrutura educacional segue avaliada como regular ou ruim. A internet, condição básica para estudo e trabalho, ainda é instável para milhões. Esporte, cultura e lazer continuam escassos, apesar de seu papel central na formação, no pertencimento e na prevenção da violência. O discurso da meritocracia segue firme, mas o ponto de partida permanece desigual.

O mundo não acabou. Seguem os negócios, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Investimentos que estavam nos Estados Unidos começaram a procurar mercados mais lucrativos

A gente nem lembra, mas 8 de abril do ano passado foi um dia terrível para os mercados do mundo todo. No Brasil, a Bolsa despencou para 124 mil pontos e o dólar escalou para R$ 6. Nos Estados Unidos, os índices acionários também foram ao fundo do poço. O Nasdaq fechou perto dos 15 mil pontos, queda de 22% em relação ao início do ano. Desse dia em diante, tudo melhorou. Na semana passada, o Nasdaq passou dos 23 mil pontos. Por aqui, não foi diferente. O Ibovespa chegou a 190 mil pontos na semana passada, recorde histórico. E o dólar chegou a ser negociado a R$ 5,15.

Mundo vive ‘momento Groenlândia’, por Demétrio Magnoli

O Globo

O presidente dos Estados Unidos alveja os três paradigmas da ordem do Pós-Guerra

“Mais de 80 anos após o início da construção, a ordem internacional pós-1945 liderada pelos Estados Unidos encontra-se, agora, sob demolição.” O diagnóstico é do Relatório de Segurança de Munique, texto-base para a conferência que reúne, desde 1963, autoridades e especialistas de mais de 70 países. O mais destacado “demolidor”, de acordo com o relatório, não é Xi Jinping ou Vladimir Putin, mas Donald Trump.

Quando o guardião vira o problema, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A suspeição de Toffoli não é desvio isolado, mas sintoma de um desenho sem contrapesos

A crise envolvendo a suspeição do ministro Dias Toffoli não é apenas um episódio constrangedor para o Supremo Tribunal Federal. Ela expõe uma fragilidade estrutural do desenho institucional da Corte.

As raízes do problema remontam à Constituição de 1988. Ao Supremo não foi atribuída apenas a função clássica de guarda da Constituição. Os constituintes lhe delegaram também competências penais originárias para autoridades com foro privilegiado e o papel de instância revisora final de praticamente todo o sistema judicial. O resultado foi a concentração inédita de poder em um único órgão.

Esse acúmulo não decorreu de usurpação dos ministros. Foi uma delegação deliberada do próprio Legislativo. Em 1988, interessava aos constituintes uma Corte institucionalmente forte, capaz de controlar um Executivo também muito poderoso. Sabiam que maiorias legislativas formadas no pós-eleição dificilmente exerceriam controle efetivo sobre o presidente que ajudaram a sustentar. Precisavam, portanto, de um ator externo à dinâmica majoritária.

A Suprema Corte foi essa escolha. A consequência não antecipada foi a formação de um tribunal superpoderoso, com baixa capacidade de controle externo e incentivos crescentes à atuação estratégica e, em muitos casos, corporativa.

Entrevista | Indústria do crime desafia o poder

Por Vinicius Doria / Correio Braziliense

Bruno Paes Manso, cientista político e escritor de livros sobre o poder das milícias no Rio de Janeiro, critica a falta de integração política para combater grandes facções

O cientista político e escritor Bruno Paes Manso, um estudioso do tema da violência urbana e da atuação das milícias no Rio de Janeiro, alerta para o avanço do crime organizado no país, com quadrilhas cada vez mais bem estruturadas, ricas e com muito poder político. No momento em que o governo elege o combate às facções criminosas como "missão de Estado", Manso aponta para a importância de despolitizar o debate para que as estruturas federais e estaduais possam se unir, de forma coordenada e sem viés eleitoral, para dar resposta à sensação de medo da população.

Em ano eleitoral, Manso não tem dúvida de que o tema será o principal eixo de debate entre os candidatos a qualquer cargo, mas algumas ações deveriam, no entendimento dele, ser implementadas com mais rapidez. É o caso da aprovação do arcabouço legal que viabiliza a atuação conjunta das forças policiais federais e estaduais, previsto na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e no Projeto de Lei Antifacção, que tramitam no Congresso, mas ainda não têm acordo entre os partidos para entrar na pauta de votações.

Escala 6x1: redução da jornada entra em debate decisivo após carnaval, por Wal Lima

Correio Braziliense

PECs que contrapõem qualidade de vida, custos de produção e impacto sobre emprego e inflação ganharão tração a partir desta semana

A proposta de emenda à Constituição (PEC) 221/2019 que prevê o fim da escala 6x1 e a reorganização da jornada de trabalho já consta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados e conta com a sinalização positiva do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), para tramitar de forma célere. O aval político reforça a prioridade do tema na agenda legislativa de 2026 e intensifica a mobilização de parlamentares — da base governista e da oposição —, entidades empresariais e centrais sindicais em torno da matéria.

Um dos autores da proposta que propõe a diminuição da jornada, o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) chegou a afirmar que a bancada do PT e o governo vão trabalhar para buscar maioria e aprovar o texto ainda no primeiro semestre. "Esse debate é o mais importante do século 21 para os trabalhadores. Estamos vivendo, pós-pandemia da covid-19, uma pandemia de saúde mental. Chegou a hora. Os trabalhadores brasileiros pedem mais um dia de descanso, e nós acreditamos que isso fortalece cada vez mais a produtividade e a competitividade da economia brasileira", destacou.

Brasil precisa ampliar acesso à Justiça como garantia da dignidade humana, por Fernanda Fernandes

Correio Braziliense

Enquanto o acesso à Justiça não for tratado como prioridade estrutural, o Brasil continuará descumprindo suas obrigações internacionais

No Brasil, a carta de adesão ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos nos recorda uma permanente promessa do Estado brasileiro no cumprimento de direitos humanos. Mesmo após décadas desde sua incorporação ao ordenamento jurídico nacional, esse compromisso internacional ainda não se traduziu plenamente em realidade concreta para grande parte da população.

O Pacto faz parte da Carta Internacional de Direitos Humanos, ao lado da Declaração Universal de 1948 e do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Ele assegura direitos básicos à dignidade humana, como a proibição da tortura, da escravidão e da discriminação, além da proteção de grupos vulnerabilizados. No entanto, no Brasil, esses direitos continuam sendo vivenciados de forma desigual, especialmente por mulheres, crianças e pessoas em situação de pobreza.

A corrupção da Lava Jato ao Master, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Operação produziu investigações e condenações sem precedentes, elevando o custo esperado da corrupção

Desdobramentos também desencadearam uma contrarreação política e institucional

O debate sobre corrupção costuma oscilar entre duas explicações rivais. A mais tradicional entende o problema como resultado de incentivos individuais: agentes públicos e privados se envolvem em práticas ilícitas quando os benefícios esperados superam os riscos de punição. Inspirada na economia do crime, essa perspectiva sustenta que o combate à corrupção exige elevar os custos do comportamento ilegal. Se a probabilidade de detecção aumenta, e as sanções se tornam críveis, a corrupção deixa de ser uma estratégia racional.

Rua convulsionada de luxúria, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Crônica de João do Rio em 1908 já descrevia o Carnaval carioca como um pandemônio

'Atrás de nós', disse ele, 'um grupo de futuras glórias nacionais berrava as cantigas do dia'

"Era em plena rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se. Havia sujeitos congestos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora de alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que, do largo de São Francisco à rua Direita, dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinquenta mil pessoas.

Poesia | Carnaval, de Cecília Meireles

 

Música | Claudionor Germano - Bandeira Branca

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim demagógico da escala 6x1 terá preço alto

Por O Globo

Custo da hora trabalhada subiria entre 8% e 18%. Desemprego e informalidade cresceriam

De olho nos dividendos eleitorais, governo e Congresso apostam na redução da jornada de trabalho. A ideia é acabar com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1. Na última segunda-feira, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) duas Propostas de Emenda à Constituição. As duas reduzem as horas de trabalho mantendo intocado o salário. Basta matemática elementar para entender que isso significará menos produtividade, portanto menos geração de riqueza na economia.

Interesses cruzados, por Merval Pereira

O Globo

Porque Toffoli chamou a si e colocou o máximo de sigilo em todo o processo do Master? Porque queria esconder suas relações com Vorcaro

Os trechos publicados pelo site Poder 360 revelando parte das discussões havidas na reunião supostamente secreta dos 10 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que resultou na saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master revelam um espírito de corpo que não condiz com o papel institucional que o órgão representa. Afirmar como ponto de vista da instituição que Toffoli não tinha por que declarar-se impedido, mesmo diante do relatório da Polícia Federal que mostrou no mínimo um conflito de interesses na relação do ministro com o réu, é superar em muito a interpretação da lei.

A traição implícita na gravação da reunião já mostra que o Supremo passa por uma crise interna grave, e não é com posições extremadas como as do ministro Flavio Dino, que só vê suspeição em casos de pedofilia e diz que seu time é “STF Futebol Clube”, que vai ser resolvida. Ministros alegam que os elogios e a lealdade dedicadas a Toffoli foi uma maneira de induzi-lo a aceitar se afastar do caso, mas será preciso que se alterem regras e procedimentos para que o espírito de corpo exibido se transforme em espírito cívico, esse sim que deveria reger os atos dos “Supremos”.

As lições do caso Master, por Míriam Leitão

O Globo

Com a saída de Toffoli do caso Master, não há mais justificativa para sombras. A transparência tem que ser a norma. O sigilo, a exceção

Ainda há chão até que se conclua tudo o que cerca a quebra do Banco Master, mas já é possível tirar algumas lições do caso. A desta semana é essencial. Nenhum ministro do Supremo, por mais poderoso que seja, pode deixar de declarar o seu impedimento em algum caso, porque o país não está disposto a fazer vista grossa. Dias Toffoli foi empurrado para a saída, mas saiu esperneando. Ele achava que, mesmo tendo recebido dinheiro da teia de fundos de Daniel Vorcaro — como pagamento, segundo explicou, pela venda de um bloco acionário — poderia ser o juiz do caso. E que, sendo o juiz, poderia fazer todos os absurdos, como interferir na Polícia Federal e tentar intimidar o Banco Central.

O sigilo virou veneno, por Elio Gaspari

O Globo

No dia 2 de dezembro, o ministro José Antonio Dias Toffoli impôs o grau máximo de sigilo às investigações sobre o escândalo do Banco Master. Má ideia, coisa de poderosos de Brasília. Em menos de um mês o ministro virou um braço das tramas do banqueiro Daniel Vorcaro e de sua rede de intere$$e$. Com um funeral de primeira, seus pares tiraram-no do caso.

Quando Toffoli baixou o sigilo e também centralizou em seu gabinete o curso das investigações, supôs que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Cabe uma pergunta: a armação podia ter funcionado? Só se tivessem combinado com a Polícia Federal (PF). Como a lenda atribui ao jogador Garrincha, faltou combinar com os russos. Não só faltou combinar, Toffoli desafiou a Polícia Federal.

Veias abertas da Venezuela, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Reportagem de 1971 mostra que petróleo e pobreza convivem há décadas no país

“Este país é um dos mais ricos do mundo. Também é um dos mais pobres e mais violentos.” Assim começa a reportagem “A civilização do ouro negro”, de Eduardo Galeano. Publicada em 1971, descrevia uma Venezuela que já passava por agruras muito antes do chavismo.

O texto retrata um país que produzia 3 milhões de barris de petróleo ao dia, mas negava serviços básicos à população. “A metade dos venezuelanos tem menos de 18 anos de idade. E mais da metade das crianças e dos adolescentes não recebe nenhum tipo de educação”, anotou o jornalista e escritor uruguaio.

“Desde que o primeiro poço rebentou aos borbotões, o orçamento nacional foi multiplicado por 100, mas a maioria da população continua tão pobre como na época em que o país dependia do cacau e do café”, resumiu.

Corpo como arte, por Dorrit Harazim

O Globo

Patinadores olímpicos podem ser vistos como híbridos de atleta e esteta; sua carne, testemunho da beleza da disciplina

Merece quase comiseração o trio de juízes de patinação artística no gelo que, de ofício, precisam se concentrar exclusivamente, com absoluta atenção, no desempenho técnico de cada competidor. Mesmo os outros nove árbitros que pontuam os elementos artísticos de uma apresentação, portanto também atrelados a um código de regras, não têm a liberdade de se deixar enlevar. Em contrapartida, o espectador pode se deixar transportar sem culpa e vivenciar júbilo sensorial raro.

O carnaval como rito e sonho não combina com propaganda eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

No culto à personalidade de Lula, a Acadêmicos de Niterói associa o presidente da Repúbçica candidato à releição à resiliência e identidade do povo brasileiro, mas preocupa o Palácio do Planalto

A grande expectativa deste domingo é o desfile da Acadêmicos de Niterói, que abre a apresentação das grandes escolas de samba na Avenida Sapucaí. Na contramão da espontaneidade do carnaval de rua, a agremiação aposta no apelo popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E corre o duplo risco de um desfile chapa branca e da campanha eleitoral antecipada com recursos públicos.

Um dos segredos dos grandes carnavalescos, como Rosa Magalhães, Fernando Pamplona e Joãozinho Trinta, era o mistério sobre seus desfiles. No caso da Acadêmicos de Niterói, quase tudo é previsível: através da metáfora da árvore símbolo da resistência na cultura afro-brasileira, a escola pretende contar a vida do operário metalúrgico que se tornou presidente da República. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” pode não dar mais nenhum voto à reeleição do presidente da República, mas já deu muita projeção à escola.

Saúde mental no trabalho: novas regras reconhecem que o problema não é individual, por Valdir Florindo

Correio Braziliense

Com a atualização da NR-1, deixa-se de perguntar apenas quem adoeceu para investigar como o trabalho está organizado e o que deve ser feito para prevenir o adoecimento mental

Em 26 de maio de 2026, entra em vigor uma mudança relevante na forma como o Brasil trata a saúde mental no trabalho. A atualização da NR-1, promovida pelo Ministério do Trabalho, passa a exigir que o gerenciamento de riscos ocupacionais inclua, de maneira expressa, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. O alcance da norma é claro: o sofrimento psíquico deixa de ser tratado como questão estritamente pessoal e passa a ser compreendido, em termos preventivos, como fenômeno ligado à organização do trabalho. 

A atualidade do tema é inequívoca. Em 2025, segundo o Ministério da Previdência Social, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, com crescimento de 15,66% em relação a 2024. Esse cenário ajuda a explicar a mudança de foco da NR-1. 

Busca aos tesouros, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

De onde vem a fortuna do ministro Toffoli e para onde foi a do banqueiro Daniel Vorcaro?

Dias Toffoli sai da relatoria do caso Master, mas a crise no Supremo continua e tende a piorar, embolando novas revelações contra o ministro com o constrangimento de Alexandre de Moraes, a posição delicada de André Mendonça, as divisões internas, a crise com a PF e a guerra política. Tudo isso com a Corte sujeita a um comando, digamos, difuso.

Só faltava gravarem clandestinamente a reunião fechada que selou a saída de Toffoli. Não falta mais. Os trechos entre aspas no site Poder 360 não deixam dúvida de que foram degravados. Logo, alguém gravou e vazou e esse alguém foi um dos ministros. É o escândalo dentro do escândalo.

É preciso coragem para limpar o sistema, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Em 2025, anos após um escândalo de corrupção, Colômbia aprovou reforma do sistema de Justiça

Escândalos de corrupção em cortes supremas são relativamente raros. Um caso emblemático foi o chamado Cartel da Toga, na Colômbia, por ter envolvido três presidentes e outro juiz da Corte Suprema, procuradores, parlamentares e advogados; por ter levado a condenações à prisão; e pelas reformas implementadas no sistema de Justiça colombiano em resposta.

A partir de uma delação premiada de um investigado nos EUA, descobriu-se um amplo esquema de tráfico de influência na Suprema Corte colombiana, envolvendo a venda de sentenças e cobranças de propinas para retardar ou arquivar processos. As investigações estiveram a cargo da Procuradoria-Geral da República, em colaboração com o FBI e o Departamento de Justiça americano.

Bancada Master é de direita, e ninguém governa sem ela, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A verdade é simples: a esquerda, como a direita e o centro, precisa de apoio da bancada Master para governar

Dos 18 entes federativos que investiram no Master, 17 eram governados pela direita

O afastamento de Dias Toffoli do caso Master foi tardio, mas bem-vindo. E, se o afastamento ampliar o foco do público para além do STF, pode ajudá-lo a entender o que foi a mutreta política erguida ao redor da mutreta financeira de Daniel Vorcaro.

Ela aconteceu, sobretudo, no Congresso, nos estados e municípios. E, a menos que o conteúdo do celular de Vorcaro nos mostre outra coisa, foi feita majoritariamente pela direita.

O evangélico no Carnaval do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de relatório da PF sobre Toffoli, acordão se torna mais organizado e explícito

PF já pescou mais políticos e rastreia transações, dizem senadores que querem fogo no circo

Um acordão eficiente depende da segurança dos elos da cadeia que constitui o arranjo. Se alguém cai, o acerto de garantias implícitas de proteção corre risco. Pode haver tiros dentro da sala de coordenação do pacto ou um salve-se quem puder (Lava Jato).

Trata-se aqui, claro, do arranjo para proteger suspeitos ou envolvidos no Master. O relatório da Polícia Federal que especificou pelo menos uma das relações de Dias Toffoli com a turma do Master incentivou um movimento de organização maior do acordo, em especial entre parte do Senado e parte do Supremo.

Bolsonaro nos arquivos de Epstein, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Há 74 menções ao político nesses documentos, assim como referências a outras personalidades brasileiras

O escândalo Epstein exibe o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo

Jamie Raskin, o principal democrata da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados dos EUA, revelou que os arquivos de Jeffrey Epstein foram editados para ocultar nomes de "abusadores, facilitadores, cúmplices e coconspiradores". Há 74 menções a Bolsonaro nesses documentos, assim como referências ambíguas a outras personalidades brasileiras. Sobre Bolsonaro não se falou diretamente de sexo nem de tráfico de menores.

Corrupção abre alas e pede passagem, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O tema volta à paisagem eleitoral no embalo das fraudes no INSS e do lodaçal crescente em torno do caso Master

Fica a dúvida se os candidatos enfrentarão o problema ou se continuarão a atribuir a culpa de tudo ao sistema

corrupção voltou a fazer parte da paisagem eleitoral. Em todas as suas formas: do peculato a transações ilegais no mundo privado e condutas flagrantemente antiéticas, passando pela infiltração do crime organizado no poder público.

A velha senhora andava meio esquecida. Não por falta de atividade, mas devido à disseminação da ideia de que excessos cometidos em investigações aconselhavam que se desse por esgotado o assunto.

Multidão consciente da loucura, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Crônica de Dante Milano sobre o Carnaval carioca dos anos 1930 evoca a folia de hoje

'Quem não quiser brincar fique em casa', diz ele. 'Somos todos loucos. Os loucos têm razão'

"Nosso povo tem o seu dia. Não é o 13 de Maio, nem o 14 de Julho. É o Carnaval. Bombos, pandeiros, chocalhos, cuícas, violões, flautas, clarins. Montões de serpentinas e confetes rolando pelas ruas. Tem-se a impressão de que o dinheiro rola pelo chão. O povo respira livre.

"Passa um cordão no meio do povo. O tampo rotundo do bombo retumba, cuícas catucando um batecum macambúzio de macumba. Giros lentos de estandartes, bamboleios de lanternas de cor. Mirabolante, bombástico, babélico, umbilical. Homens de todas as cores entoam cantos em coro. As mulheres são princesas encantadas, pedaços de luz, de corpos nus. Virgens, sambai! A rua parece a enchente de um rio. A multidão se comprime. O momento é sublime. O povo é uma só onda, um só rumor. Encontros, apertões. Quem não quiser brincar fique em casa.

Sapucaí não apoiou a ditadura, por Rodrigo Antônio Reduzino*

O Globo/ Ancelmo Gois

Conclusão de que não houve adesismo aos governos dos generais consta da tese de doutorado

"Escola de Samba como expressão política é o enunciado afirmativo de uma intelectualidade negra e todo refino de uma expressão da cultura negra. É o direito a fabular, sonhar e organizar a sua apreensão sobre a realidade social, processo inerente a condição humana, como lembra o saudoso Antônio Cândido no Direito à Literatura.

Escola de Samba como qualquer espaço social, também tem disputa política, falo de território e poder, sempre esteve inserida em diálogo com a institucionalidade, desde de sua origem datada em 1928, quando são fundadas e constroem os seus espaços para desfilarem e existirem pela região da Praça Onze e Estácio a despeito do chamado “carnaval chic” das classes dominantes realizados na Rio Branco. Atreladas a suspeição, criminalidade e a esfera de polícia, fruto do ordenamento social da época que mantém a estrutura historicamente racista até os dias de hoje.