quarta-feira, 22 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Do bônus ao ônus demográfico

Por Folha de S. Paulo

Segundo estimativa do IBGE, população de dependentes cresceu 0,9% em 2025, ante 0,1% da faixa etária ativa

Tendência impõe reformar a Previdência Social, fortalecer o SUS e elevar a produtividade; debate, porém, está atrasado no Brasil

Realizado com atraso de dois anos devido à pandemia de Covid-19, o Censo 2022 mostrou que a população brasileira envelhece mais rapidamente do que se imaginava. Desde então, novas projeções reforçam essa percepção —ainda não devidamente captada, infelizmente, pelas políticas públicas.

Estimativas recém-divulgadas pelo IBGE apontam que o estrato de 60 anos de idade ou mais teve expansão de 58,7%, de 2012 até 2025, saltando de 22,2 milhões para 35,2 milhões. No mesmo período, o número de jovens abaixo de 30 anos encolheu 10,4%, de 98,2 milhões para 88 milhões.

Lula, Flávio e todos pintados para a guerra, por Vera Magalhães

O Globo

Empate nas pesquisas antecipa fase de ataques na campanha e arrasta instituições para a arena junto com Lula e Flávio Bolsonaro

Está oficialmente aberta a artilharia pesada na campanha presidencial, antecipação ditada pelo rigoroso empate entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. O PT já vinha discutindo que precisaria iniciar antes aquilo que aliados de Lula classificam como exposição de quem seria o filho escolhido por Jair Bolsonaro para lhe suceder na urna eletrônica. A avaliação do quartel-general da campanha lulista é que a população não tem a menor ideia de quem seja Flávio, que se beneficia do sobrenome, de um lado, e da tentativa de se mostrar “moderado”, de outro, sem que seus reais atributos entrem na equação.

Flávio é, dos filhos de Jair, o que angariou maior patrimônio, com evolução notável sobretudo na carteira de imóveis. O mais vistoso é uma mansão no Lago Sul, em Brasília, cuja compra deverá ser explorada pela campanha petista pelas condições peculiares em que aconteceu. O valor estimado da casa, R$ 6 milhões, é três vezes superior ao de todo o patrimônio que Flávio declarou ter na eleição para o Senado em 2018: R$ 1,7 milhão.

Lula perdeu a aposta, por Elio Gaspari

O Globo

O nível de endividamento das famílias cresceu, e esse pode ser um dos fatores que erodem a popularidade de Lula. Vá lá que seja. Segundo os alquimistas do Planalto, uma das causas desse endividamento são as apostas eletrônicas. Vá lá que sejam, mas quem abriu a porteira ao mercado de apostas foi o governo.

O ministro Fernando Haddad não fez isso para estimular a opção pelo risco. Foi pura e simples ganância arrecadatória. Em 2024, a ekipekonômika esperava arrecadar até R$ 3,4 bilhões com a venda de licenças para a tavolagem. Havia 113 propostas na fila, metade delas era de fancaria.

O sequestro da paisagem, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Vinte anos depois, maior cidade do país arma retrocesso no combate à poluição visual

Aprovada em 2006, a Lei Cidade Limpa impôs um freio à poluição visual na maior cidade do país. A norma devolveu aos cidadãos a paisagem sequestrada pela publicidade. Em vez de celebrar seus 20 anos, as autoridades de São Paulo querem desfigurá-la.

Na segunda-feira, o governador Tarcísio de Freitas divulgou um vídeo em que gigantescos painéis de LED cobrem os prédios da Avenida São João. “Por enquanto, as imagens aqui são de inteligência artificial. Mas daqui a uns dias, elas vão ser realidade”, anunciou. O prefeito Ricardo Nunes também mostra entusiasmo com a ideia.

Na guerra do Irã, Trump entrou no labirinto persa sem um fio de Ariadne, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A lógica da sua escalada militar esbarra na natureza assimétrica da guerra. O Irã não enfrenta seus oponentes em campo aberto, mas por meio de milícias, outros atores regionais e ações indiretas, como o fechamento de Ormuz

O mito Teseu e o Minotauro, uma criatura metade homem metade touro, é uma das histórias mais conhecidas da mitologia grega. Para vingar a morte de um filho, o rei Minos de Creta exigia que Atenas enviasse a cada nove anos sete rapazes e sete donzelas para serem devorados pelo Minotauro, um monstro aprisionado no Labirinto de Creta. Teseu, filho do rei de Atenas, voluntariou-se para ir a Creta com o objetivo de matar o Minotauro e acabar com o sacrifício.

Ariadne, filha do rei Minos, apaixonou-se por Teseu e, para ajudá-lo, secretamente, deu-lhe um novelo de lã, o famoso “fio de Ariadne”, com o qual Teseu entrou no labirinto. Após amarrar a ponta do fio na entrada, foi desenrolando-o enquanto avançava. No centro do labirinto, matou o Minotauro e, seguindo o fio de volta, conseguiu sair do labirinto. Teseu fugiu de Creta com Ariadne, mas, ao retornar a Atenas, esqueceu-se de trocar as velas do navio de pretas para brancas, um código que sinalizaria seu sucesso, o que levou seu pai, Egeu, a se suicidar por acreditar que o filho estava morto.

Pauta-bomba, mas poderia ser pauta do bem, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Câmara poderia se alinhar ao crescente debate mundial sobre uma renda básica para enfrentar o desemprego provocado pelo uso de IA

A Câmara dos Deputados se prepara para votar mais uma pauta-bomba e desperdiçar uma chance de qualificar o debate nacional. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Sistema Único de Assistência Social (Suas) repete pecados contra o Orçamento da União, quando poderia se alinhar ao crescente debate mundial sobre uma renda básica para enfrentar o desemprego provocado pelo uso da inteligência artificial (IA).

Difícil achar quem se coloque contra destinar mais dinheiro para a assistência social, num país desigual como o Brasil. A PEC em questão direciona 1% da receita corrente líquida da União à área, o que daria R$ 4,8 bilhões em 2027, segundo cálculos obtidos pela repórter Giordanna Neves, deste jornal. É dinheiro do tamanho do orçamento do Ministério do Meio Ambiente e um pouco maior do que o do Ministério dos Portos e Aeroportos. Parece boa notícia.

STF entra de vez no debate da campanha presidencial, por Fernando Exman*

Valor Econômico

Pressão sobre o Supremo aumenta

Interpreta corretamente quem identifica na pré-campanha de Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais filiado ao partido Novo, uma singularidade na comparação com os outros postulantes da direita à Presidência. Zema é aquele que tem adotado a postura mais contundente em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma tentativa de diferenciar-se dos concorrentes, que inevitavelmente virarão aliados já no primeiro turno ou no segundo, chega a beirar a agressividade ao pedir a prisão de ministros. Quem conversa com o mineiro diz que ele está animadíssimo com a estratégia de encarnar um novo “caçador de marajás”. Já lançou até a bandeira do “Brasil sem intocáveis”.

Novo “caçador de marajás” é uma referência ao personagem incorporado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello na eleição de 1989, quando o então governador de Alagoas ganhou notoriedade e projeção nacional ao encampar uma campanha contra salários suntuosos de funcionários públicos.

O retrovisor de Derrite, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Repetiam-se os casos de ações desastradas de PMs, enquanto se fechavam os olhos para a corrupção

Depois de um ano e meio de espera, no dia 16, os médicos Júlio César Navarro e Silvia Mónica Cárdenas conseguiram que o Estado os ouvisse com atenção. Em 2024, um PM assassinou o filho deles, o estudante de medicina Marco Aurélio, de 22 anos. O rapaz deu um tapa no retrovisor de uma viatura. Desarmado, foi executado com um tiro.

O casal foi recebido por Oswaldo Nico Gonçalves, atual secretário da Segurança. Sílvia se comoveu. Por que os pais de uma vítima de excesso homicida demoraram tanto para serem ouvidos na Secretaria? Integrantes do Ministério Público falam a quem quiser ouvir que a gestão de Guilherme Derrite deve explicações e não apenas à família do jovem Marco Aurélio. O entorno de Tarcísio de Freitas acredita que foi um erro nomear alguém com pretensões políticas para chefiar a Pasta.

O pânico moral e a defesa da democracia, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Não há liberdade nem democracia onde não há espaço para questionar a ordem jurídica, incluindo as normas constitucionais

É conhecido na literatura criminológica o conceito de pânico moral : uma reação coletiva exagerada diante de um grupo de pessoas, comportamentos ou eventos, percebidos como ameaça aos valores e interesses sociais, levando ao recrudescimento da lei penal e da jurisprudência. Não é que o perigo inexista, mas ele é visto de forma distorcida, suscitando uma resposta desequilibrada e, a rigor, desarticulada entre seus fins e meios. Exemplo cristalino é a guerra às drogas.

Frente às ameaças contra as instituições democráticas, impetradas entre 2019 e 2023, entendo que parte da sociedade e do Estado, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF), sucumbiu à dinâmica do pânico moral. Houve uma reação desproporcional e, ao mesmo tempo, compreensível. Eram ataques inéditos contra a ordem democrática. Não se sabia como reagir.

Os donos do Brasil, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Não é preciso muito preparo ou ler um livro como a crucial reflexão de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro, publicado há 58 anos, para saber que o Brasil tem dono e descobrir que cada pedaço dele também tem mandão! Saber quem é o maior e melhor artista, empresa, jornal, ideologia, livro e até comida e bebida é imperativo no Brasil. Tudo pode ser graduado, mas, entre nós, o “número um” de alguma esfera da vida sinaliza superioridade em tudo.

O melhor deve ser dono, patrão e medalhão, como magnificamente teorizou Machado de Assis, em 1881. É costume estender o mandonismo e considerar que coisa alguma pode existir sem dono ou patrão, numa suposição coerente com o viés autoritário. Um modelo de poder, aliás, coerente com uma sociedade de fundo cultural escravocrata e até hoje escravista na sua alergia ao trabalho e amor à riqueza e ao luxo por ela proporcionados.

A eleição e o Brasil 'queridinho' dos donos do dinheiro grosso, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desde o início do ano, real foi a moeda que mais se valorizou entre as mais relevantes

Influxo de dólares ajudou a conter a inflação de 2025 e deve ajudar de novo em 2026

O Brasil seria agora o "queridinho" dos donos do dinheiro grosso do mundo, lê-se por aí, entre outras expressões constrangedoras de cafonas e exageradas. A medida principal desse amor é a valorização do real em relação ao dólar, desde o início do ano a maior entre 35 moedas mais relevantes. O tutu está entrando, pela finança e pelo comércio externo.

Convém prestar atenção a variações grandes da taxa de câmbio, que têm efeito político, pois batem em preços e juros. Bom lembrar também que muita vez essas variações têm pouco a ver com decisões tomadas aqui dentro. Desde o início de 2025, o real se valorizou basicamente porque os donos do dinheiro do mundo decidiram reorganizar suas aplicações.

A influência do caso Master nas eleições, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Pelas projeções do meio jurídico, as delações serão de conhecimento público no auge da campanha

A dúvida é se, e em que medida, o que for revelado terá o poder de influir nas escolhas do eleitorado

Se estiverem certas as projeções correntes no meio jurídico, as delações premiadas de Daniel Vorcaro e companhia, se aceitas pela Polícia FederalMinistério Público Supremo Tribunal Federal, vão chegar ao conhecimento público no auge da campanha eleitoral.

Considerando que não cabe aos delatores escolher quem entregam ou quem protegem, se quiserem contar com os benefícios previstos em lei, eles não poderão ser seletivos. Vão precisar entregar todos os que pretenderam ou conseguiram cooptar para manter seu esquema fraudulento em pé.

Bancos digitais, especulação e desemprego, Antônio Fausto Nascimento*

Até o regime militar de 1964, o Estado brasileiro sempre exerceu grande influência sobre a formação do sistema financeiro, mas entravava a concentração do capital com a lei de usura - que limitava os juros anuais a 12% - e o processo de fusão do capital bancário e industrial ainda muito incipiente. Uma reforma bancária criou o Banco Central, o Conselho Monetário Nacional e promoveu amplo ordenamento regulador de todo o sistema financeiro nacional, com dezenas de decretos e resoluções, entre 1965 e 1970. Outra inovação básica foi a introdução da cláusula de correção monetária na maioria dos contratos. A fusão de bancos foi estimulada, com expressiva redução do número de estabelecimentos privados, que ascenderam à condição de grandes grupos empresariais e conglomerados.

Ao fim da chamada década e meia, perdidos, nos anos oitenta e noventa do século passado, boa parte dos bancos públicos e privados encontrava-se à beira da insolvência, decorrente de operações ruinosas e do acentuado abrandamento da inflação pelo Plano Real, em 1994. O Banco Central faz o lançamento do Proer, Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional. Foi decretada a intervenção em vários estabelecimentos, a maioria estaduais, separando-se os bons dos maus ativos. Os primeiros, vendidos aos bancos mais fortes, nacionais e estrangeiros. A parte ruim, liquidada pelo BC para ressarcir os depositantes. Embora com uso de dinheiro público, foi eficiente medida de saneamento do sistema bancário brasileiro, mundialmente elogiada.

Fadiga de materiais: quando o desgaste enseja o fim de um ciclo, por Roberto Amaral

Na mecânica estrutural, a chamada “fadiga de materiais” designa o processo mediante o qual um corpo, submetido a solicitações cíclicas, não colapsa de imediato, mas desenvolve, progressivamente, microfraturas até que, subitamente, se rompe. O decisivo não é o excesso momentâneo de carga, mas a repetição prolongada de esforços menores, inclusive de determinados valores-limite suportáveis. Daí rupturas radicais. A este processo alia-se a degradação das propriedades mecânicas do material.

Certos períodos da vida política da humanidade são marcados por longos momentos de desgaste, às vezes imperceptíveis, que se resolvem mediante alternativas que, conhecendo a ruptura, se operam como um simples desenvolvimento das forças sociais.

Redução das horas de trabalho e abusos no Judiciário atropelam deputados e senadores, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Com a taxa de desemprego aproximando-se de 10% (1,1 milhão de pessoas à busca de trabalho) - Piauí 9,3%, Pernambuco e Bahia, 8,7%, Alagoas, Rio Grande do Norte e Amazonas, 8, 4% e assim por diante (IBGE) - o Congresso Nacional deglute, com dificuldade nos próximos quinze dias, quase entalado, dois temas delicadíssimos: a redução do jornada de trabalho, de 44 para 40 horas semanais ( o PSOL defende 36 horas), sem redução de salário; e a insegurança jurídica no Brasil, criada a partir de seguidas decisões controversas dos ministros no Supremo Tribunal Federal.

Poesia | O bicho! de Manuel Bandeira

 

Música | Joyce - Mistério ( Carlinhos Cor das Águas) - Sesc Vila Mariana, São Paulo - 24/08/2024

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Política mudou após impeachment de Dilma; PT, não

Por Folha de S. Paulo

Em 10 anos, polarização se acentuou com bolsonarismo; partido mantém teses econômicas que geraram a crise

Congresso ganhou protagonismo ao longo de uma sequência de presidentes da República com índices de aprovação, quando muito, sofríveis

Esta Folha não apoiou o impeachment de Dilma Rousseff (PT), ocorrido há dez anos. Como apontou no dia em que a Câmara dos Deputados aprovaria o afastamento da então presidente, tratava-se de medida traumática, fundada em premissas jurídicas passíveis de discussão, "projetando para o futuro divisões e inconformismos".

Isso não significa que Dilma não tenha dado motivos para sua deposição, muito menos que tenha havido algum tipo de golpe, como quer a mitologia petista.

Ter ideias pode ser perigoso, Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro deixa claro seu desprezo pelos interesses nacionais e sua sabujice diante de alguém como o presidente Trump

O desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PLRJ) nas pesquisas eleitorais talvez seja surpreendente até para ele. Numa das mais recentes, o pré-candidato presidencial da ultradireita aparece numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora em situação considerada de empate técnico. Como uma figura que, até há pouco, só era conhecida por ser filho de quem é (do ex-presidente Jair Bolsonaro) e de quem herdou o sobrenome, mas não por ideias ou atuação parlamentar, conseguiu chegar tão alto e tão depressa?

Juízes corruptos no alvo, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Reforma do Judiciário, antes tarde do que nunca, mas o corporativismo e as eleições deixarão?

Se um código de ética para o Supremo não foi longe, o debate sobre uma reforma do Judiciário caminha a passos largos, agora sob a liderança do ministro do STF e ex-ministro da Justiça do atual governo Flávio Dino. A proposta é mais do que necessária, seu risco é ser engolida pela suspeita de interesse eleitoral, já que é encampada pelo PT e por Lula, para se descolarem da crise do STF.

Passa década, entra década, uma reforma do Judiciário continua em pauta, sob a resistência interna, dos demais poderes e de uma mídia cheia de dedos. Isso vem mudando a partir das notícias sobre o submundo do Judiciário e do desgaste do Supremo com o envolvimento de ministros com o Banco Master. A hora é agora.

Delação sem caô, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo 

Fundos de investimentos criavam empresas de fachada, dirigidas por laranjas

O modo como Daniel Vorcaro operava – o sistema por meio do qual comprava burocratas, políticos e autoridades públicas – já é conhecido, desconhecida não raro a origem da grana empregada para as aquisições; a impossibilidade de explicar de onde viera a bufunfa sendo a razão por que a teia se ramificava até perder de vista. (Ramalhar cuja informalidade talvez lhe tire o sono agora: será quase impossível – o outro lado da moeda – que recupere os bilhões todos que espalhou paraísos afora, sob confiança em inconfiáveis.)

A questão-chave é a democracia, por Míriam Leitão

O Globo

A dúvida sobre Flávio Bolsonaro não é econômica, mas sim sobre a sobrevivência da democracia brasileira ao projeto golpista da família

A ideia de que falta a Flávio Bolsonaro apenas divulgar um plano de ajuste fiscal para ser um bom candidato impressiona pela falta de respeito à História recente do país. A principal questão do candidato do PL não é que cortes ele fará em qual despesa pública, mas sim que garantia tem a democracia brasileira de sobreviver a um segundo governo Bolsonaro. Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente que está preso por tentativa de golpe de Estado. Ele defende o pai, jamais se afastou dos ideais autoritários da família, é apoiado pelos seguidores do ex-presidente, disse que sua prioridade é indultar o pai e anistiar todos os envolvidos. Precisará desenhar para ser entendido?

Contrastes, por Merval Pereira

O Globo

Flavio não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito

Os dois candidatos favoritos nas pesquisas eleitorais para a Presidência da República, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, apresentam comportamentos distintos neste começo de campanha. O segundo não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito, e aproveita a permanência no cargo para explorar sua imagem pública. Ao não se expor muito, Flávio preserva a vantagem competitiva e explora o contraste entre um homem de 44 anos e um idoso de 80, mesmo que este aparente um bom vigor físico e o exiba nas redes sociais.

Trump mostra desprezo pelo Papa, por Fernando Gabeira

O Globo

Presidente dos Estados Unidos revelou arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa

Quantas divisões tem o Papa? A pergunta, atribuída a Stálin, mostra o desprezo que os políticos em guerra têm pela autoridade moral de um Papa. Donald Trump revelou essa arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e não entende de política externa. Os Estados Unidos são uma nação religiosa e, pela primeira vez na História, o Papa é um americano. Nada disso inibiu Trump, apesar de os Estados Unidos continuarem dando um verniz religioso à sua política de conquista de regiões ricas em petróleo.

A Apple aposta na IA, por Pedro Doria

O Globo

Empresa aposta que, rapidamente, inteligência artificial virará hardware

A Apple anunciou ontem seu novo CEO. Será um dos atuais vice-presidentes seniores, John Ternus. Ele assume no dia 1º de setembro. É uma mudança gigantesca. Tim Cook, o atual CEO, sucedeu a Steve Jobs, o carismático fundador, que morreu precocemente de um câncer particularmente agressivo. Cook pegou a empresa e a transformou na primeira companhia americana a cruzar o valor de US$ 1 trilhão no mercado e, ainda hoje, aquela que se alterna com a Microsoft como negócio mais valioso do mundo. Quando não é uma, é a outra, e muda toda semana com o flutuar do preço das ações. Mas a escolha de Ternus não tem relevância apenas por isso. Na verdade, sua maior importância é o sinal que ela representa. A Apple acaba de fazer, nele, uma aposta sobre onde está o futuro da inteligência artificial.

As eleições, a politização do STF e o iluminismo fora de lugar, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com mais de 75 milhões de processos em tramitação, milhões de novas ações, especialmente nas execuções fiscais, o Judiciário perde aderência à sociedade

No pequeno grande ensaio antropológico A Identidade Cultural na Pós-Modernidade (DPA&A Editora), o sociólogo anglo-jamaicano Stuart Hall descreve a evolução do conceito de identidade a partir de três conceitos: o ser iluminista, o ser sociológico e o ser pós-moderno. Hall argumenta que a identidade humana passa por um processo de descentramento e fragmentação. O ser iluminista é o indivíduo centrado, unificado, dotado de razão, consciência e ação; acredita que um núcleo interior nasce com o indivíduo, desenvolve-se e permanece o mesmo ao longo da vida. Trata-se de uma concepção individualista, na qual a pessoa é autônoma e sua identidade é fixa e constante: "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum) é a célebre frase do filósofo René Descartes, publicada em 1637. Ou seja, se basta.

Trump e as palavras, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente americano é tão hiperbólico que o que ele diz não significa nada

Eleição de líderes carismáticos mas destrutivos é ponto fraco da democracia

Donald Trump já proferiu tantas barbaridades que fica difícil eleger a frase mais escabrosa. Uma séria candidata é a declaração de que destruiria em uma noite a civilização persa, "para nunca mais ressuscitar". Se qualquer outro presidente americano tivesse dito algo parecido, teria sua sanidade seriamente questionada e teria deflagrado uma crise política potencialmente fatal. Sendo Trump o autor da máxima, até encontramos comentários indignados, mas parece pouco provável que a ameaça de genocídio ao vivo lhe encurte o mandato.

PT defende aliança com direita liberal contra bolsonarismo, por Fábio Zanini

Folha de S. Paulo

Partido diz que distinção entre extrema direita autoritária e direita liberal é decisiva para tática política

Programa político deve ser aprovado durante congresso nacional que começa na sexta-feira (24)

Em seu novo programa político, que deve ser aprovado em congresso partidário nesta semana, o PT defende a aliança com setores liberais comprometidos com a democracia, e diz que ela é importante para isolar a extrema direita.

"É necessário reconhecer que o avanço da extrema direita não eliminou a existência de setores liberais comprometidos, ainda que de forma limitada, com a legalidade constitucional e com a estabilidade democrática", afirma o documento, que é resultado de uma comissão coordenada pelo ex-ministro José Dirceu.

A polarização ainda navega no mar das incertezas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Os favoritos de lulismo e do bolsonarismo ainda são alvos do descrédito no campo decisivo do centro

Nenhum dos dois consegue ainda ultrapassar a barreira da falta de confiança firme em ambas as candidaturas

Não há hoje no horizonte razões substantivas para se temer pela continuidade da vigência do regime democrático no Brasil, ao menos no que concerne às candidaturas presidenciais já apresentadas.

O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) faz jus ao histórico de respeito à legalidade em derrotas anteriores quando diz que, se perder, nada lhe cabe a não ser aceitar o resultado. O principal oponente, Flávio Bolsonaro (PL), sinaliza só aceitar como legítima a vitória, mas a prisão do pai confere ao discurso o tom de bravata desprovida de lastro na realidade.

Em clima de Copa, brasileiro é mais apostador que torcedor, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Palpites dão a seleção caindo nas quartas ou nas oitavas

Neymar tem 'aprovação' maior que Lula ou Flávio Bolsonaro

Torcer é passado. Ex-pacheco, o brasileiro encara a Copa do Mundo com enfoque calculista. Adeus ruas embandeiradas, orgulho de vestir a camisa canarinho, aperto no peito na hora do hino, a volta ao mundo da infância em 90 minutos de bola rolando.

O lance agora é, teclando no smartphone, apostar se a seleção cai na semifinal, quartas, oitavas ou mesmo se nem passa da fase de grupos. Trazer o caneco, como se dizia nos velhos tempos, é um palpite arriscado. Jogar dinheiro fora, raciocina aquele que já viveu no país do futebol.

A história ensina que os imperadores passam, mas o papado permanece, por João Pereira Coutinho*

Folha de S. Paulo

Por que Leão 14 não demonstra temor ou deferência diante de Donald Trump?

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições

Tempos interessantes. Os Estados Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.

Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente bizarrice trumpista.

Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.

Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.

Era Orbán na Hungria foi mais reflexo do que negação da Europa, por Janaina Martins Cordeiro

Folha de S. Paulo

Experiência iliberal no país nos últimos 16 anos reflete contradições europeias no pós-guerra

Ideia de 'retorno à Europa' se baseia em suposta superioridade de um Ocidente civilizado e na inferioridade de um oriente europeu bárbaro

[RESUMO] As eleições parlamentares na Hungria que selaram a derrota de Viktor Orbán foram celebradas como um "retorno do país à Europa", vista como símbolo de democracia e liberdade. Para professora, contudo, seria mais apropriado ver no projeto iliberal húngaro não uma negação dos valores europeus, mas um espelho de suas contradições, afinal o continente foi berço de fascismo, nazismo e guerras que deixaram um legado de destruição.

Em 12 de abril, as atenções do mundo se voltaram para um pequeno país da Europa Central —a Hungria, que, desde 2010, tornara-se uma espécie de laboratório internacional para as direitas radicais.

Naquele dia, eleições parlamentares interromperam o projeto iliberal do partido União Cívica Húngara (Fidesz) e de seu principal líder, o primeiro-ministro Viktor Orbán, no poder há 16 anos.

Com índices de participação eleitoral beirando os 80% —os maiores desde a redemocratização do país, em 1989—, as urnas consagraram a vitória do partido de oposição Respeito e Liberdade (Tisza), de centro-direita, liderado pelo ex-aliado de Orbán, Péter Magyar. A legenda conquistou 138 das 199 cadeiras do Parlamento húngaro, contra 55 do Fidesz.

Igualdade: Significado & Importância, por Ricardo Marinho

Livro resenhado: Thomas Piketty e Michael Sandel. Igualdade: Significado e importância. Tradução de Maria de Fátima Oliva Do Coutto. Prefácio de Laura Carvalho. Primeira Edição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 2025. 144 págs.

A igualdade é um pilar fundamental da Constituição Cidadã Brasileira de 1988, consagrada no Artigo 5º, que estabelece que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Este princípio da Carta da Democracia finca-se nos direitos e garantias fundamentais e reflete um compromisso com a justiça e a equidade, bem como constitui a base da coesão social e da operação do Estado democrático de direito.

Poesia | Trecho da obra "Romanceiro da Inconfidência" (Cecilia Meireles) por Antônio Abujamra

 

Música | Mônica Salmaso - Beatriz (Edu Lobo)

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

Na dívida pública, Lula 3 repete Dilma

Por Folha de S. Paulo

Governo projeta passivo de 86% do PIB; sem mudar política fiscal, país estará em risco de novo colapso

É enganoso o argumento de que EUA e Japão possuem dívidas maiores; eles têm capacidade superior de crédito, e gastos com juros são menores

Dada a mixórdia de artifícios contábeis utilizados na apuração dos resultados do Tesouro Nacional ao longo dos últimos anos, hoje o indicador mais claro e confiável para avaliar a política fiscal é a evolução da dívida pública —e ela aponta um fracasso alarmante neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

De acordo com as projeções do recém-divulgado projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), os passivos de União, estados e municípios atingirão o equivalente a 86% do Produto Interno Bruto em 2027. A cifra, se confirmada, mostrará alta de 14,3 pontos percentuais ante os 71,7% do PIB do final de 2022.

Inflação de 2028 tira folga do Copom, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo poderá limitar o tamanho do ciclo de corte de juros

O maior desafio do Banco Central na política monetária é a desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Os sinais recentes não são bons: já houve piora nas projeções para 2028, que ficaram mais distantes da meta, e há indícios de que a tendência continuará.

É pouco provável que isso inviabilize o corte de juros que o Banco Central planeja na reunião da semana que vem, que o mercado aposta que será de 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. Mas poderá limitar o tamanho do ciclo de corte - ou seja, poderemos terminar o ano com uma taxa de juros mais alta do que teríamos com uma maior ancoragem das expectativas.

Dívidas minam percepção da economia e governo aposta contra bets, por César Felício

Valor Econômico

Bancarização e abundância de crédito fácil e caro fomentam o aumento da inadimplência

Desemprego em mínimas históricas, inflação na casa de 5% ao ano, renda em alta e PIB em crescimento contínuo, embora baixo, deveriam proporcionar calmaria para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aventurar em sua reeleição. Pesquisas como a Genial/Quaest da semana que passou deixam claro que não é isso o que acontece e há um consenso de que uma das razões é a corda do endividamento apertando o pescoço das famílias.

Um estudo da LCA Consultores, com base em dados da Serasa e do Banco Central, mostram que o garrote começou a apertar depois da pandemia de covid-19 e subiu degraus de dois em dois no governo Lula. O total de dívidas negativadas passou de R$ 221,2 bilhões para R$ 321,6 bilhões entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025.

Entre 2016 e 2020 o número de consumidores inadimplentes ficou oscilando no patamar de 60 milhões de pessoas.

De 2021 para cá saltou para 81,2 milhões.

Impostos aumentam para todos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A carga tributária no Brasil tem subido porque o governo a cada ano gasta mais do que arrecada

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, é contra a taxa das blusinhas. O vice-presidente Geraldo Alckmin é a favor. O chefe deles, o presidente Lula, meio que tirou o corpo fora dessa disputa dentro de seu governo, mas deu a entender que pode engrossar o grupo dos que propõem a extinção desse imposto.

Ocorre que, politicamente, a taxa gerou desgaste para o governo petista. Do ponto de vista da política econômica, a medida faz sentido. Taxa das blusinhas é o nome genérico que se deu ao imposto federal de importação de 20%, aplicado sobre compras eletrônicas em sites internacionais, especialmente nos chineses. Ela foi aplicada a partir de agosto de 2024. E se somou ao ICMS de 17%, cobrado pelos estados desde julho de 2023. Na conta final, o imposto total foi para cerca 40%.

Interesses particulares capturam a cidade, por Irapuã Santana

O Globo

Não fazemos nossa parte e vamos ao Judiciário reclamar de qualquer coisa

Muita gente reclama que o Judiciário se mete em tudo. No entanto é complicado buscar uma solução diferente quando não fazemos nossa parte e vamos até ele reclamar de qualquer coisa.

No último dia 10, o STF precisou se manifestar para permitir a expedição de novos alvarás para demolições, cortes de árvores e construções de prédios na cidade de São Paulo. Isso porque, no final de fevereiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu a emissão desses alvarás até segunda ordem.