domingo, 27 de setembro de 2026

Opinião do dia – Jürgen Habermas* (Eleições)

“Eleições e referendos devem não só reproduzir um espetro de preferências existentes, mas também juízos sobre os programas e sobre as pessoas que se encontram em eleição.

Eles não podem expressar irrefletidamente a vontade da população, pois têm também um sentido cognitivo. O governo precisa elaborar problemas urgentes com base nessas decisões sobre diretrizes. Em uma democracia, eleições políticas não satisfazem sua determinação sistêmica se meramente registram a distribuição de preferencias e de prejuízos. Os votos eleitorais alcançam o peso institucional de decisões civis de um colegislador somente porque procedem de um processo público de formação da opinião e da vontade, no que esse processo é controlado pelos prós e contras públicos de opiniões, argumentos e tomadas de posição livremente flutuantes. As opiniões dos cidadãos devem primeiramente se constituir a partir da maré dissonante das contribuições, a luz de uma troca de opiniões publicamente articulada.

De maneira ideal, a política deliberativa se enraíza em uma sociedade civil que faz um uso anarquista de suas liberdades comunicativas. Mas, em nossas esferas públicas espaçosas, produzidas primeiramente pela rede comunicativa de mídias de massa, carece-se não só de informações e impulsos da parte de uma imprensa espontânea e independente, mas, em primeira linha, da iniciativa, do esclarecimento e da capacidade de organização dos partidos políticos.”

*Jürgen Habermas (1929-2026), filósofo e sociólogo alemão que participou da tradição da teoria crítica, membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública. “Na esteira da tecnocracia”, p.172-3. Editora Unesp, 2014.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente rever custo de estatais dependentes

Por O Globo

Previsão no Orçamento de 2027 alcança R$ 36 bilhões — e grande parte disso não passa de desperdício

Empresas estatais incapazes de arcar com suas despesas de pessoal, custeio e capital são classificadas como dependentes da União — e todo ano são obrigadas a declarar no Orçamento quanto consumirão em recursos públicos. É assim que o cidadão brasileiro fica sabendo que, em 2027, elas custarão R$ 36 bilhões ao Tesouro. Pode ser que parte desse custo se justifique, mas é provável que boa parte não. Quanto desse dinheiro poderia ir para outras áreas do governo onde faz falta? Eis um tema que deveria ter destaque no debate eleitoral, ainda mais em momento de deterioração da saúde fiscal e desequilíbrio nas contas públicas.

Na lista das dependentes, há estatais estratégicas, comprovadamente relevantes. Outras, porém, não resistem a uma análise com base no interesse público. O primeiro grupo deveria passar por reavaliação detalhada, em busca de ganhos de eficiência e foco. Para o segundo grupo, só há duas soluções que deveriam ser tomadas com urgência: fechar ou privatizar.

A esquerda democrática em tempo de apatia, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

Como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?

A transmissão e a recepção de uma cultura política no ocaso constituem tema espinhoso, especialmente quando “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Revisitar tais processos, no entanto, pode ser útil quando menos porque por aí ronda a tentação da novidade pela novidade. Os arautos da perdição asseveram não só que a Carta de 1988 é papel velho, mas também que existem demiurgos capazes de propor soluções para transformar maus políticos e cidadãos desavisados em figuras republicanas irretocáveis.

A eleição do ‘menos pior’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Vença Lula ou Flávio, não há clima para festa nem grandes expectativas para o novo governo

A eleição presidencial de 2026 vai chegando ao fim sem festa, alegria, esperança e bandeiras e cartazes em casas e carros, num clima de espanto e indignação em que o grande dilema, individual e nacional, não é quem é o melhor, mas quem é “o menos pior”. Está pau a pau, numa disputa ponto a ponto.

Se vencer Flávio Bolsonaro, a expectativa é de fronteiras abertas para todas as loucuras de Donald Trump e volta imediata de Jair Bolsonaro, generais, almirante e os criminosos de 8 de Janeiro, com sangue nos olhos e planos de confiança na cabeça. Além de recuos graves em avanços de costumes.

Reativar o País sem desarrumar a economia, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Qualquer um dos candidatos parece capaz de perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País

Crescimento pífio, em torno de 2%, inflação acima de 4%, muita insegurança e investimento abaixo dos padrões internacionais compõem o quadro econômico brasileiro a poucos dias das eleições. Sem projetos claros e bem estruturados, os principais candidatos, incluído o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, raramente foram além das promessas de comícios. Houve quem apostasse em debates e pronunciamentos mais esclarecedores no final das campanhas. Falta verificar se os candidatos estão interessados em debater e preparados para isso.

O andar do bêbado, a epidemia de bets e uma aposta de alto risco de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e algoritmos para obter lucro

Um homem ganhou na loteria espanhola com um bilhete terminado em 48. Explicou sua escolha: sonhara com o número 7 durante sete noites; logo, 7 vezes 7 seriam 48. A conta está errada, mas o prêmio era real. O físico norte-americano Leonard Mlodinow abre o livro O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas (Zahar) com esse episódio para mostrar uma fraqueza humana: depois de conhecer o resultado, inventamos uma lógica que parece explicá-lo. Nas loterias, cada sorteio é independente; números atrasados não ficam mais próximos de sair, e uma vitória não comprova a eficácia do palpite. O vencedor aparece nas notícias. A multidão que fez contas igualmente fantasiosas e perdeu permanece invisível.

Mlodinow, autor de livros de divulgação científica, assina uma coluna para o The New York Times e escreveu roteiros das séries MacGyver e Star Trek. Com o falecido Stephen Hawking, é coautor de “Uma nova história do tempo” (Ediouro), um best-seller traduzido em 25 idiomas. Seus pais foram ambos sobreviventes do holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra. Casado e pai de três crianças, entre as quais uma menina adotada na China, Leonard Mlodinow é um sortudo: estava no World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, e sobreviveu ao ataque terrorista.

O Andar do Bêbado é um tratado sobre o poder do acaso em áreas da nossa vida que vão de jogar futebol, conseguir emprego e receber um diagnóstico médico. Mlodinow percorre a história das probabilidades e usa exemplos do esporte, das finanças e da vida cotidiana para explicar por que confundimos sorte com talento, coincidência com padrão e uma sequência passageira de acertos com uma regra confiável. Seu livro ajuda a entender o fascínio das bets.

Quem acompanha futebol pode conhecer os times, avaliar jogadores e antecipar tendências. Ainda assim, uma partida conserva muita criatividade e imprevisibilidade; acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e programa os algoritmos para obter lucro.

A loteria tradicional vende a esperança de uma mudança de vida concentrada em um sorteio. As plataformas digitais multiplicaram essa promessa. Estão no celular, aceitam pagamentos em segundos e oferecem novas oportunidades a cada jogo, lance ou rodada de cassino virtual. A derrota convida à tentativa de recuperar o dinheiro; uma pequena vitória alimenta a impressão de que o próximo grande prêmio está perto. Publicidade, influenciadores e patrocínios esportivos deram à aposta a aparência de hábito comum. O cassino entrou em casa sem precisar abrir as portas.

É nesse ambiente que a epidemia das bets se tornou uma questão de saúde pública e de economia doméstica. O custo não se resume ao dinheiro transferido para as plataformas: inclui sofrimento psíquico, conflitos familiares, perda de produtividade e tratamento. Estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam ligados à saúde. É uma estimativa que não deve ser confundida com o total apostado ou com a perda financeira direta dos jogadores.

Chegou atrasado

O governo demorou a acordar para o problema. Regulamentou o mercado, autorizou empresas, cobrou outorgas e tentou impor mecanismos de fiscalização e proteção ao apostador. Foram concedidas 85 autorizações, com pagamento total de R$ 2,55 bilhões em outorgas. Agora, abruptamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu encerrar a atividade por meio da Medida Provisória nº 1.394, assinada na sexta-feira, 25 de setembro. A decisão impede novos depósitos e prevê o bloqueio dos sites e aplicativos a partir de 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno. O governo associou a proibição a um pacote de renegociação de dívidas.

Faltam nove dias para a votação. A proximidade das urnas torna a decisão uma aposta política de alto risco, embora seus fundamentos sociais sejam sérios. Para famílias atingidas pela dependência, Lula poderá aparecer como o presidente que enfrentou um negócio poderoso. Para quem aposta sem identificar prejuízo na própria rotina, a proibição poderá soar como perda de liberdade e abuso de poder. Clubes, empresas de comunicação e outros setores que recebem dinheiro das plataformas têm motivos para resistir e capacidade de levar essa reação ao debate eleitoral.

O eleitor também poderá perguntar: por que o governo autorizou a expansão de um mercado que agora considera intolerável? Há um risco prático por trás do cálculo eleitoral. Proibir a oferta legal não elimina a vontade de apostar. Sites clandestinos continuam acessíveis. O governo anunciou bloqueios de acesso e de pagamentos, mas a eficácia dessas medidas dependerá de fiscalização contínua. Operações da Polícia Federal já identificaram plataformas ilegais divulgadas por influenciadores, inclusive com sinais falsos de regularidade.

E como reagirá o Congresso, onde o lobby das bets tem sua própria bancada? Uma medida provisória produz efeitos imediatos, mas precisa ser aprovada para se tornar definitiva. Entre a assinatura e a eleição, porém, haverá pouco tempo para medir seus resultados. Defender as famílias do vício pode render apoio. Convencer o país de que a proibição funcionará, depois de ter regulamentado as bets, é a parte mais difícil dessa aposta.

Falta uma carta nesta campanha, por Míriam Leitão

O Globo

Não é exigido de Flávio Bolsonaro o compromisso com a democracia, como em 2002 se exigiu de Lula uma carta garantindo a estabilização econômica

O senador Flávio Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então candidato Lula da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos Brasileiros” e a cumpriu.

Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.

Às vésperas de eleição no Brasil, Trump escancara 'interesses vitais' na América Latina, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Governador da Califórnia sugere que interferência da Casa Branca na disputa brasileira deve aumentar na reta final

Donald Trump não é de esconder o jogo. Na terça-feira, admitiu que a defesa da democracia e o combate ao narcotráfico foram só pretextos para invadir a Venezuela. “Assinamos o maior acordo de petróleo da história”, festejou, na Assembleia Geral da ONU. “Foi uma guerra, mas talvez tenha sido o maior negócio já feito. Ao vencedor, os despojos”, congratulou-se.

O presidente dos Estados Unidos avisou que não vai permitir “ameaças à América” no Hemisfério Ocidental. “Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos EUA”, informou.

Distopia, por Merval Pereira

O Globo

Ambas as campanhas fazem “o diabo” para ganhar, e por isso o índice de eleitores indecisos ou desanimados está tão grande.

“A gente faz o diabo para vencer uma eleição” já dizia a ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro fez o diabo, mas perdeu. Basta lembrar a PEC Kamikaze, que injetou R$ 41,3 bilhões no orçamento alegando “estado de emergência”, com tempo limitado até o fim de seu governo, passando pelas eleições. Lula está fazendo o diabo, mas corre o risco de perder. Talvez por isso esteja tão açodado, liberando dinheiro a sete dias do primeiro turno. A proibição das bets talvez seja uma medida correta, mas se tomada no inicio de seu terceiro mandato, ou ao final dele, depois das eleições.

Lula errou em 2023, por Elio Gaspari

O Globo

Em terceiro mandato, petista não cultivou arco democrático que o elegeu

Em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro por uma pequena margem de votos, Lula leu mal o resultado. O que era uma vitória apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma consagração. Consagração foi, afinal o sujeito passou quase dois anos na cadeia acusado de corrupção e se elegeu presidente pela terceira vez. É vitória para ninguém botar defeito, mas não é suficiente.

Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu. A diferença entre o arco democrático e a coligação governista pode ser testada pelo lugar onde fica o ex-ministro Pedro Malan. Ele pertence ao arco, mas não pertence ao bloco que poderia ser chamado de governista.

O baita ser humano Zuenir Ventura, por Dorrit Harazim

O Globo

Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos

Não há idade ou hora justa para a partida de um amigo — nem para quem parte, nem para quem deve continuar a tocar a vida. “A eternidade está no momento”, ensina Walt Whitman no monumental “Folhas de relva”. É na soma de momentos compartilhados que descobrimos nossas profundezas e limites, que nos temperamos ou transcendemos. E isso ocorre mais claramente no fluir da amizade, esse complexo entrelaçamento afetivo capaz de nos proporcionar uma ventura única.

Crença em razões razoáveis para o voto democrático, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Volto hoje a usar como referência, nesta coluna, agora com mais ênfase, avaliações recentes do quadro das eleições presidenciais, feitas pelo cientista político Antônio Lavareda. O resumo de entrevista sua aos jornalistas Matheus Leitão, Rafael Campos e Maria Carolina Brito foi publicado na coluna do primeiro no site Metrópoles, na quarta-feira, 23.09. Lavareda avaliou, nessa entrevista, que se a eleição fosse hoje Flávio Bolsonaro seria favorito. E usou, por outro lado, a imagem da "eternidade" para se referir ao tempo hábil que ainda resta à campanha de Lula para alterar a situação que lhe seria adversa.

Além de avançar sobre Supremo e PF, novo presidente pode refazer Banco Central em um ano, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Novo governo pode nomear maioria dos diretores até o início de 2028 e ter mais poder no BC

Lula 3 não deve ter tempo de preencher vagas na autoridade monetária e no STF

Quem terá mais poder de controlar ou influenciar o Supremo a partir de 2027 é assunto maior desta eleição deplorável. O novo presidente e o Senado podem entrar em acordo ou conflito para fazer a maioria no STF, o que pode ter consequências funestas para a estabilidade política ou para a democracia. No entanto, pouca gente se lembra de que o próximo presidente da República poderá ter nomeado 6 dos 9 integrantes da direção do Banco Central até janeiro de 2028, início do segundo ano do mandato, e todos até janeiro de 2030, mudanças críticas para a estabilidade econômica.

Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Acordo de Trump com Maduro sobre petróleo segue a mesma lógica do que ele propõe a Flávio para o Brasil

'Madurismo entreguista' e 'bolsonarismo' são sinônimos perfeitos

Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.

'Vou falar com a turma', por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Contradição entre razão e práticas político-sociais isentas de hábitos morais provoca perplexidade

Quebra dos protocolos de decoro na classe política e no Judiciário é novidade

Não deverá haver novas sessões públicas do STF, para atenuar a perplexidade nacional com as cenas chocantes da última vez. Por minúsculo que seja, entretanto, o episódio não se esgota na estupefação imediata. A sociedade civil pode estar à espera de algo como "O Guia dos Perplexos" do filósofo judeu Maimônides (1138-1204). Atualizada, a questão desse livro é como conciliar uma ordem supostamente racional com aquilo que parece estar além de seus limites. "Perplexo" hoje é aquele lançado na aflição de compreender dois sistemas contraditórios entre si: o da razão e o de práticas político-sociais isentas de hábitos morais.

O que aconteceu com a democracia liberal? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Novo livro de Acemoglu defende regulação tecnológica pró-trabalhador para salvar liberalismo

Obra foi criticada por liberais de estirpe mais conservadora, que rejeitam intervencionismo estatal

O liberalismo é versátil. É compatível tanto com visões de mundo conservadoras, como a das democracias cristãs da Europa continental e a dos "tories" britânicos, quanto com políticas mais à esquerda, como a das social-democracias dos países nórdicos.

Embora os dois polos até consigam concordar em relação a princípios básicos que caracterizariam o liberalismo, como o respeito às liberdades básicas, à propriedade privada e ao império da lei, eles frequentemente se desentendem sobre os detalhes. "What Happened to Liberal Democracy?", de Daron Acemoglu, é um bom exemplo dessa tensão.

'Amor' por Vorcaro explica omissão de Alcolumbre, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O problema não é a amizade, mas o reflexo que essa relação tem sobre as atitudes do presidente do Senado

A negligência deliberada é evidência da atuação de Davi Alcolumbre em favor do irmão fraudador

Estava demorando para Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) entrar na dança das influências de Daniel Vorcaro. Entra não por ser amigo do vigarista —pode acontecer com qualquer um. Cai na roda do escândalo por suas atitudes como presidente do Senado.

As mensagens divulgadas pela revista Veja dizem muito a respeito da conduta passivo-agressiva de Alcolumbre no transcorrer da crise que atinge os três Poderes.

Por exemplo, fornecem ao ministro Cristiano Zanin as evidências que ele alegou inexistentes ao negar pedido do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) para que o Supremo Tribunal Federal desse aval à instalação de uma CPI para investigar o caso Master.

Seduzido e abandonado, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nenhum dos figurões com quem Daniel Vorcaro foi tão generoso quer saber dele

Negam que foram seus amigos, que o chamavam de irmão e até que o conheceram

Daniel Vorcaro está arrependido do bem que praticou a tantos figurões em quem confiou. Vê agora que era um bando de ingratos. Ninguém quer saber mais dele. Há os que dizem tê-lo conhecido só de passagem, embora o chamassem de "irmão", ou que aceitaram seu dinheiro para ser gentis, sem saber que a grana era pública, suja e ilegal. Eu, se fosse Vorcaro, faria um caderninho com o nome de todos que beneficiou e, ao sair da cadeia, cobraria cada centavo dos zilhões que lhes repassou. À guisa de aide-mémoire, aqui vão alguns.

Filhos da Esperança ou quando o futuro se torna refugiado, por Pablo Spinelli*

Ao amigo Paulo Pace, amigo da trincheira democrática.

Vinte anos depois de seu lançamento, Filhos da Esperança (2006), dirigido por Alfonso Cuarón, parece menos uma distopia do que um telejornal adiantado. Em 2027, a humanidade tornou-se infértil e a Inglaterra anuncia ser a última sociedade ainda de pé. Contudo, o que permanece funcionando são as jaulas para imigrantes, a propaganda oficial e as tropas nas ruas. Theo (Clive Owen), funcionário público desencantado e ex-militante, recebe a missão de conduzir Kee, uma jovem refugiada e grávida, até um lugar seguro. Os longos planos-sequência de Cuarón nos colocam dentro dos ataques e campos de refugiados. A extrema direita retratada pelo filme não precisa abolir formalmente o Estado; basta esvaziá-lo de solidariedade e conservar sua carcaça policial. A distopia, afinal, não bateu à porta: entrou, sentou-se na sala e pediu a senha da internet.

Poesia | Não Desistas, de Mario Benedetti

 

Música | Marisa Monte - Elegante Amanhecer

 

sábado, 26 de setembro de 2026

Opinião do dia – Hannah Arendt* (A propaganda totalitária)

“Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo, as massas têm que ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto, como qualquer outo partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação.”

*Hannah Arendt (1906-1975), “Origens do totalitarismo”, p. 474, Companhia de Bolso, São Paulo, 2020,

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O fim das bets e a campanha eleitoral

Por O Povo (CE)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, emitiu medida provisória (MP) proibindo o funcionamento das bets em todo o País. A medida já está em vigor e as plataformas de apostas esportivas e jogos online estão banidas.

O bloqueio determinado pelo presidente vale, inicialmente, por 120 dias. Nesse prazo, o Congresso pode rejeitar ou aprovar a MP, transformando-a em lei. Se não for votada, a medida perde a sua eficácia ao fim do prazo.

As bets, plataformas de apostas esportivas e jogos online, entram assim, com mais ênfase, na campanha eleitoral. O assunto já vinha sendo abordado por Lula e pelo candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) em diversas ocasiões. O presidente declarava ser "pessoalmente" a favor da proibição. Portanto, na discussão interna prevaleceu a proposta de Lula, pois alguns ministros defendiam apertar os controles, sem proibir as bets.

Por sua vez, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) manifestou-se contra o "jogo do tigrinho", defendendo as apostas em "jogos (esportivos) reais". A diferença entre as duas propostas, portanto, é que a MP de Lula impede completamente o funcionamento dos jogos online, quanto a Flávio, ele defende apenas o fim dos "cassinos online", mantendo os chamados "jogos de cota fixa", quando o apostador sabe o valor que receberá caso ganhe a aposta.

A pesquisa mais recente sobre os jogos online é da Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira. Os dados mostram que 75% dos brasileiros concordam que as bets deveriam ser proibidas no Brasil, enquanto 17% discordam e 8% não concordam nem discordam.

A preocupação contra os jogos faz sentido, pois, além do estrago que promove na finança e na situação emocional das famílias, uma geração de jovens vem sendo seduzida pelos jogos online. Como já informou este jornal em edição anterior, pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação mostra que um em cada cinco estudantes nos anos finais do ensino fundamental e do médio já fez apostas online. Além disso, muitos estudantes começam a apostar aos 11 anos de idade.

Estados e cidades brasileiras, a exemplo do que faz a Prefeitura de Fortaleza, já vem tomando medidas para dificultar ou restringir o acesso aos jogos online. O prefeito Evandro Leitão (PT) planejava enviar à Câmara dos Vereadores um projeto de lei proibindo a propaganda das plataformas de apostas em espaços públicos em todo o município.

Agora, não mais será necessário, pelo menos por enquanto, pois os jogos online foram proibidos completamente. No entanto, agora será necessária vigilância redobrada para controlar as plataformas ilegais, que certamente, procurarão ocupar o espaço deixado com o fim das bets. 

A falta que faz uma causa comum, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O País está pedindo uma macrorreforma institucional, tema que não surge em nenhuma das campanhas

A oito dias das eleições, o quadro da disputa está congelado. A eleição será, mais uma vez, decidida no photochart, com Lula e Flávio Bolsonaro batendo cabeça na reta final.

Atordoado com tantos escândalos e tanta falta de sinalização, o eleitorado não sabe para onde o País irá. Desaprova o governo de Lula, mas não aprova Bolsonaro com ênfase. Tende a rejeitar quem mais o assusta ou incomoda. Voto defensivo, não programático, o que rebaixa a qualidade da disputa. Faltando ideias e propostas claras, sobram manobras eleitoreiras e jogos de cena. Bolsonaro é impulsionado pelo antipetismo, Lula pela “economia do afeto”, como fala o historiador Alberto Aggio.

Há medo do continuísmo esgotado de Lula e medo do autoritarismo perverso e mal organizado do bolsonarismo.

O governo Lula acerta ao proibir as bets no Brasil? Sim, por Ione Amorim

Folha de S. Paulo

Rentabilidade se alimenta do risco, e apenas a regulação não acompanharia a escalada de danos

Jogo fica disponível 24 horas por dia e praticamente elimina barreiras físicas entre consumidor e produto

Até a proibição anunciada nesta sexta-feira (25) pelo governo Lula (PT), por meio de medida provisória, foram anos de operação de apostas online sem regras suficientes, seguidos por uma regulamentação que ainda estava em construção. Era como trocar a roda de um carro em movimento—e em alta velocidade.

Nesse período, os jogos e as apostas, as chamadas bets, se transformaram em um desafio socioeconômico, de proteção do consumidor e de saúde pública. Até que ponto é possível separar a rentabilidade desse mercado do comportamento que expõe permanentemente seus consumidores ao risco que a própria regulação pretende evitar?

Diferentemente do álcool e do tabaco, cujos graves danos levaram a sucessivas restrições à comercialização e à publicidade, o jogo online é imaterial, está disponível 24 horas por dia e praticamente elimina as barreiras físicas entre consumidor e produto. No mesmo celular estão a plataforma, o meio de pagamento, a publicidade e a possibilidade de realizar e repetir apostas em poucos segundos. Não há deslocamento, horário de fechamento ou necessidade de adquirir fisicamente um produto; a tecnologia suprimiu boa parte das barreiras que poderiam limitar seu consumo.

Flávio Bolsonaro dá dinheiro aos 'peixes' da milícia, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Espanta a naturalidade com que o miliciano se refere ao filho 01: nosso senador

Casos de desvio de emendas estão ligados à infiltração de bandidos na política

Ao lançar a campanha da reeleição, em agosto, Lula bateu duro no atual sistema de emendas parlamentares. O plano apresentado defende o estabelecimento de limites e controles e classifica as emendas impositivas como "grave distorção" que sequestra recursos do Executivo.

O tema, contudo, está submerso, intocável. A dinâmica da disputa contra o bolsonarismo impôs à campanha outros rumos de discussão —crise do STF, Lulinha, vazamentos do Master, interferência dos Estados Unidos, endividamento das famílias, escala 6x1, guerra contra a jogatina eletrônica.

A ciranda não explicada do candidato Flávio Bolsonaro, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Fatos têm desmontado versões apresentadas pelo candidato do PL sobre a sua relação com Vorcaro e o filme 'Dark Horse'

Perguntas precisam ser respondidas, já que ele é investigado formalmente

Flávio Bolsonaro negou encontros, viagens e recursos recebidos de Daniel Vorcaro. Aí vêm os fatos e desmontam as imposturas do candidato do PL à cadeira de presidente da República nas eleições deste ano.

A mais recente delas foi a revelação, pela revista Piauí, de que o senador viajou da Flórida para Brasília em janeiro de 2025 em um jato executivo que tinha entre os cotistas Vorcaro e Willer Tomaz.

Pai de Vorcaro deve explicações, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Profusão de 'irmãos' de ex-banqueiro é resultado de parentesco fictício

Fenômeno é universal, mas, no Ocidente, tem algumas particularidades

A essa altura, quem deve explicações é Henrique Vorcaro, o pai de Daniel Vorcaro. A quantidade de "irmãos" do ex-banqueiro já identificados é sugestiva de intensa atividade extraconjugal. Cabe até uma investigação eclesiástica, pois a Igreja Batista da Lagoinha, da qual o patriarca dos Vorcaros é membro ativo, não encoraja o adultério.

Brincadeiras à parte, acho que cabem algumas reflexões sobre o parentesco fictício. A primeira observação é que se trata de um universal humano. O uso de análogos de irmão/irmã para referir-se a pessoas da mesma geração e tio/tia para gente mais velha é tão prevalente em algumas culturas, principalmente naquelas baseadas em estruturas de clã, que esses termos funcionam como pronomes de tratamento. É que nosso software mental e linguístico evoluiu no Pleistoceno, quando vivíamos em grupos familiares. Continuamos a usar essa programação, e as palavras que ela gera, mesmo depois que o mundo ficou maior que a família.

A aposta de Lula pode dar em nada, por Thaís Oyama

O Globo

Embora a ideia da extinção seja bem recebida, não chega a empolgar a ponto de definir um voto

‘Estou chocado! Chocado ao descobrir que há jogo neste lugar.’ No filme “Casablanca”, o capitão Renault, ele mesmo freguês da jogatina, simula surpresa diante da “descoberta” da existência de um cassino no Rick’s Café, e usa o pretexto para fechar o estabelecimento. Como o capitão Renault, o presidente Lula disse no último dia 18 estar “estarrecido” com o estrago que as bets estão fazendo no orçamento das famílias brasileiras, mesmo tendo tido quatro anos para perceber.

A oito dias da eleição, cabeça a cabeça com o adversário Flávio Bolsonaro, Lula resolveu que cabe ao Estado proteger adultos de si mesmos e determinou em Medida Provisória (MP) a proibição total das apostas on-line no Brasil. Pela abrangência e pela pressa, a MP ameaça desorganizar mercados como futebol e publicidade, provocar disputas judiciais bilionárias e empurrar apostadores ao mercado clandestino dos jogos, além de elevar a já bastante elevada insegurança jurídica no país. Lula, porém, parece apostar que o apoio popular à proibição — superior a 70% — vá superar esses custos na eleição.

Viveremos do legado democrático de Zuenir Ventura, por Flávia Oliveira

O Globo

Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos

Zuenir Ventura formou gerações — sim, no plural — de jornalistas e inspirou outras tantas — aqui, eu me incluo. Ele partiu serenamente aos 95 anos, deixando órfãos seus filhos biológicos, Mauro e Elisa, e uma legião de velhos amigos, colegas de ofício, fontes, leitores... A existência longa, de quase um século, alicerçou a impressão de eternidade. O velório, na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 32, antes ocupada por Ariano Suassuna, foi marcado por uma espécie de luto ao quadrado. Havia tristeza, saudade pela ausência, agora física, do Mestre Zu. E uma baita apreensão cívica pela democracia, de novo, sob ameaça.

As eleições e o risco de desmonte na Cultura, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A proposta de Ciro Gomes é bem coerente com o perfil mais à direita que incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo

Sabemos que nem toda promessa de campanha deve ser levada a sério, mas a possibilidade de que a ideia desastrosa de um candidato seja levada adiante em caso de vitória demanda nossa preocupação real. Eu me refiro à declaração de Ciro Gomes sobre a promessa de destinar os recursos que atualmente mantêm o Instituto Mirante para as pastas de segurança e saúde.

O instituto é responsável pela gestão dos equipamentos culturais do estado. Pinacoteca, Museu da Imagem e do Som, Centro Cultural do Cariri, Estação das Artes, Kuya - Centro de Design do Ceará e o Mercado AlimentaCE são alguns dos equipamentos geridos pela organização social criada em 2021. Os equipamentos pertencem à Secretaria de Cultura, mas todas as ações realizadas por eles são geridas e executadas pelo instituto, num modelo de descentralização administrativa que, muitas vezes, traz mais celeridade e eficiência para o trabalho do estado.

Desafios na era digital, por Pedro Serrano

CartaCapital

As profundas mudanças causadas pelas novas formas de comunicação exigem mecanismos mais eficazes para salvaguardar o Estado Democrático de Direito

Ao traçarmos uma linha evolutiva do pensamento jurídico ao longo do último século, fica evidente que a era digital representa um marco histórico não apenas nas formas como as pessoas interagem: as transformações digitais também trouxeram novos desafios para a proteção dos direitos fundamentais na contemporaneidade. Em retrospectiva, a aplicação clássica do Direito, como ciência isolada, através da visão de puristas como Hans Kelsen, perdeu espaço no período pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo de reconstrução, não era mais plausível o entendimento de que o Direito caminharia fundado em critérios estritamente objetivos, autônomos e neutros em relação aos valores morais e à política, conforme defendia Kelsen.

De Tocqueville às big techs, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As plataformas digitais solapam os ideais de igualdade nos Estados Unidos celebrados pelo chanceler francês

As turbulências trumpistas que assolam a sociedade e a política do Grande Irmão do Norte recomendam uma ­revisita a Alexis de ­Tocqueville. Ele escreveu na Introdução de seu livro, o clássico Democracia na América: “Entre os novos objetos que, durante minha estada nos Estados Unidos, chamaram ­minha atenção, nenhum me impressionou tanto quanto a igualdade de condições. Descobri sem dificuldade a influência ­prodigiosa exercida por esse primeiro ­fato no andamento da sociedade; ele confere ao espírito público uma certa direção, um certo curso às leis; aos governantes, novas máximas; aos governados, hábitos particulares”.

Democracia em perigo, por Leonardo Avritzer e Carmen Leitão*

CartaCapital

Entre a erosão interna e a coerção externa

Desde o pós-Guerra, os Estados Unidos reivindicaram um papel central na defesa internacional da democracia e dos direitos humanos. Ao longo das décadas, combinaram a participação na construção de instituições multilaterais com instrumentos próprios de avaliação e de pressão sobre outros países, como os relatórios de direitos humanos do Departamento de Estado. A esse repertório somaram-se as sanções da Lei Magnitsky e, em outra frente, as designações de organizações estrangeiras como terroristas, com efeitos para além das fronteiras norte-americanas.

Sinais trocados e país dividido, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Pesquisas indicam espaço para novo movimento por voto útil

A dez dias da eleição, os institutos parecem discutir entre si. A AtlasIntel dá a Lula 45,8% contra 43,4% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e ainda o mantém à frente no segundo, por 47,7% a 47,4%. A Quaest registra Lula com 37% e Flávio com 33%, mas inverte no segundo turno: 42% a Flávio e 41% a Lula. Tudo dentro da margem de erro, com ressalva relevante: no início do mês, a mesma Quaest ainda concedia 7 pontos de vantagem ao presidente.

A série histórica ajuda a entender o momento. Nas últimas cinco eleições, o Datafolha feito a dez dias do pleito chegou perto do resultado obtido pelo candidato do PT. Lula tinha 49% em 2006 e fez 48,6%; Dilma marcava 46% em 2010 e acabou com 46,9%; Lula aparecia com 47% em 2022 e alcançou 48,4%. Com seus adversários, ocorreu algo diferente. Alckmin passou de 31% para 41,6% em 2006, Aécio de 18% para 33,5% em 2014, Bolsonaro de 28% para 46% em 2018 e de 33% para 43,2% em 2022. Na véspera do segundo turno de 2022, Lula tinha 52% contra 38% e acabou vencendo por apenas 50,9% a 49,1%. Em boa medida, esse movimento decorre do voto útil.

Desalento, por José Casado

Revista Veja

No segundo turno, talvez o eleitor descubra o que governo e oposição querem fazer com o país

Pedro Paulo Soares Pereira é um rebelde da periferia paulistana. Por trapaças da história, aos 56 anos o Mano Brown, do grupo de rap Racionais MC’s, passou a suspeitar que tenha virado um conservador.

Não perde o humor: — Vocês sabem que pega bem, pega muito bem, pra um rapper ser um defensor do sistema e do presidente? — disse numa conversa recente com outro poeta, Nei Lopes, e a cantora e atriz Thalma de Freitas.

— É realmente o fim do mundo! — ela replicou, rindo.