quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Justiça Eleitoral tem de ser mais célere ao avaliar candidatos

Por O Globo

Apesar de pendências judiciais, nomes como Marçal, Arruda, Cunha e Garotinho registraram candidatura

A pouco mais de um mês das eleições, ainda pairam dúvidas sobre os candidatos que concorrerão. Rostos conhecidos da política obtiveram registro regular de candidatura nos sistemas oficiais, apesar de decisões judiciais que os consideraram inelegíveis — entre eles, o influenciador Pablo Marçal, o ex-governador fluminense Anthony Garotinho e o ex-governador do Distrito Federal (DF) José Roberto Arruda. O registro por si só não significa que estejam aptos a concorrer. Por isso, a Justiça Eleitoral precisa ser ágil na análise desses casos. O eleitor não pode ficar na dúvida sobre a validade do próprio voto.

W.O. em debate deveria custar voto, por Julia Duailibi

O Globo

A ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota

Ser candidato numa eleição significa cumprir algumas obrigações básicas, principalmente quando a candidatura é para inquilino da Presidência da República. Entre os deveres não previstos em lei, está participar de debates. Trata-se não só de demonstração de respeito, mas de evidente obrigação moral com o eleitor. Por isso a ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota para chegar ao poder.

Diploma não é documento, por Merval Pereira

O Globo

Quem faz blogs e se diz jornalista, mas não é, pode ser processado pela lei penal, por injúria, difamação ou qualquer outro crime

A exigência de diploma para jornalistas foi imposta por decreto da Junta Militar em 1969 e vigorou durante 40 anos no Brasil, até que o Supremo Tribunal Federal (STF) a revogou, em 2009, considerando que a proibição de exercer a profissão violava a liberdade de expressão e de informação. Na primeira ocasião, a obrigatoriedade agradava aos que tinham faculdades de jornalismo e atuavam em um mercado de trabalho controlado pelo oficialismo governamental: ministérios, secretarias, sindicatos e associações chapas-brancas.

Mas a exigência tinha também o sentido de controlar quem podia ser jornalista, pois o registro era dado pelo governo, a ditadura militar. Hoje, a situação é mais complexa por causa das redes sociais, que inundam os usuários de informações nem sempre fidedignas, sem o controle de qualidade exigido pelo jornalismo profissional. É uma situação diferente da que tínhamos quando se decidiu que não era preciso ter diploma.

Debate no STF sobre diploma em jornalismo é tentativa de desviar o foco de arbitrariedades, por Malu Gaspar

O Globo

O caso da matéria do blogueiro Luís Pablo sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares de Flávio Dino poderia não ter passado de um entrevero menor, sobre o qual talvez nem mesmo os maranhenses tomassem conhecimento. Mas a reação do ministro e de seus colegas do Supremo Tribunal Federal (STF) transformou o que poderia ter sido no máximo um processo criminal e a prisão de arapongas locais em assunto de alcance nacional, ao chamar a atenção sobre até onde os “supremos” estão dispostos a ir para se manter à margem da lei.

A disputa oculta da campanha eleitoral, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Disputas internas no STF, alavancadas embate entre inquérito das ‘Fake News’ e aqueles do Master e INSS, induzem o voto do eleitor

A rediscussão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, derrubada pelo Supremo em 2009, em meio a uma campanha eleitoral em que estão em jogo 1.682 mandatos do poder político no país só reforça a percepção, pra lá de majoritária, de que o inquérito das fake news já deveria ter sido encerrado.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, até que tentou. O preâmbulo que fez na sessão da semana passada - “A força do tribunal reside em sua colegialidade, a melhor expressão de solidariedade a seus membros, seja confirmando decisões monocráticas, seja deliberando sobre o destino e a duração das investigações; a Presidência adotará as providências regimentais cabíveis para que essas deliberações ocorram com a brevidade que a matéria exige” - foi entendido como uma tentativa de levar ao plenário a decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre a quebra de sigilo do jornalista Luís Pablo, do Maranhão, mas o alvo de Fachin ia adiante. Mirava o próprio inquérito em que esta decisão se abrigou.

Dificuldade de rolar a dívida, por Míriam Leitão

O Globo

O nó fiscal brasileiro é complexo e nenhum candidato falou ainda como enfrentá-lo de forma convincente

O ministro Dario Durigan disse que as taxas de juros pagas pelo Tesouro para rolar a dívida pública são altas demais e definiu a situação como “inaceitável”. De fato estão altas, mas reduzi-las é um processo que passa pelo controle dos gastos públicos. Há fatos específicos sobre a dívida brasileira. Os investidores querem comprar apenas papel pós-fixado e de período curto, ou seja, LFT atrelada à Selic. Em meio ao calendário eleitoral, os candidatos não fizeram propostas críveis de ajuste nas contas públicas, e a dívida é alta, cara e curta.

O Tesouro precisa rolar de R$ 140 bilhões a R$ 150 bilhões por mês. O problema é que os investidores e os gestores dos investimentos estão pedindo cada vez mais juros para comprar um pré-fixado como uma NTN-B. O Tesouro só consegue vender se aceitar pagar taxas de 8% acima do IPCA.

O peso da incerteza sobre a economia, por Assis Moreira

Valor Econômico

Aumento acentuado da incerteza pode se tornar um “novo normal” globalmente

A incerteza econômica torna-se, cada vez mais, uma característica marcante do ambiente macroeconômico. Ainda mais quando, por exemplo, os “choques de incerteza” fazem parte da prática de Donald Trump e amplificam os temores globalmente de mais contração econômica.

Para compreender o papel e o impacto econômico desse fenômeno particularmente importante no atual ambiente geopolítico, o Banco Central Europeu (BCE) encarregou os economistas Malin Andersson, Alina Bobasu, Lorena Saiz e Stefania Scrofani de preparar uma análise, publicada em seu recente boletim econômico.

Em termos práticos, como notam os autores, a incerteza reflete a falta de clareza sobre variáveis como crescimento futuro, inflação, taxas de juros, emprego, lucros, preços de ativos ou decisões de política pública. Ela pode ter diversas origens e é distinta tanto do risco quanto da confiança.

A disputa pelo poder das big techs chega com tudo às eleições no Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais

A transformação política do Vale do Silício não pode mais ser vista como simples mudança de comportamento de alguns bilionários ou flerte com a extrema-direita americana. Por trás dessa aproximação existe uma disputa sobre quem terá o poder de definir os limites das empresas que controlam plataformas digitais, mecanismos de busca, publicidade, inteligência artificial e parte crescente da circulação de informação.

Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.

Coronelismo, emenda e voto, por Gaudêncio Torquato

O Estado de S. Paulo

O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel distribui recursos do Orçamento. Permanece a tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política

Em 1949, Victor Nunes Leal publicou uma obra fundamental da ciência política brasileira: Coronelismo, enxada e voto.O livro tornou-se referência para compreender o poder na República Velha e as relações entre Estado, elites rurais e eleitorado. Passadas mais de sete décadas, sua atualidade decorre da sobrevivência da lógica de apropriação do poder que descreveu. A enxada perdeu protagonismo; as emendas parlamentares ganharam posição estratégica. Viveria o Brasil um novo ciclo de neocoronelismo, emenda e voto?

Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo era uma rede de reciprocidades entre o poder local e o poder central. Os coronéis entregavam votos e sustentação política; em troca, recebiam prestígio, favores administrativos, influência e autonomia para controlar seus redutos. O eleitor, frequentemente dependente do chefe político, ocupava posição subordinada. O traço essencial daquele sistema era a confusão entre a res publica e a res privada.

A urbanização, o sufrágio e a Constituição de 1988 desmontaram esse universo rural. O velho coronel perdeu espaço, mas a intermediação política não desapareceu. Apenas se transformou.

O fator redutor, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Ambição e esperteza, associadas uma à outra, subordinam e exploram as demais potencialidades que carregamos. As duas são os únicos traços humanos remunerados pelo capital

Um ser humano pode ser tudo nesta vida. Alguém sozinho, quieto, pacato, um desses tipos que a gente mal nota, pode ter virtudes imensas e defeitos medonhos, num arranjo singular e inconfundível. Para começar a conversa, é bom lembrar que ninguém é puramente virtuoso, ninguém é puro vício. “Não és bom, nem és mau: és triste e humano”, escreveu Olavo Bilac, que, embora tristemente parnasiano, acertou. Qualquer pessoa, mesmo sem ser parnasiana, é um oxímoro ambulante, ainda que não saiba que o mundo lhe “foi contraditório”, na expressão de Carlos Pena Filho. Pode-se ser “ou isto ou aquilo”, à la Cecília Meireles, pode-se ir para lá ou vir para cá, pode-se perguntar sobre “ser ou não ser”, como Hamlet, pode-se até ser e não ser de uma vez só, sem que ninguém perceba.

E que diferença isso faz? Nenhuma. Rigorosamente, nenhuma.

A hora do nervoso para uma turma do STF, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A turma da força no Supremo Tribunal Federal se acha vítima de uma conspiração

Uma parte do STF encara as próximas eleições com evidente apreensão, embora já no anúncio dos resultados de 2022 tivesse se julgado vitoriosa sobre seu principal adversário político. Condição reiterada após o 8 de Janeiro e o julgamento e condenação de Jair Bolsonaro. Qual, então, a razão para o aparente nervosismo?

Na superfície não há alteração no eixo de polarização Lula-Bolsonaro. Nesses quatro anos, a acentuada mudança negativa para os operadores políticos no STF é a compreensão, por parte de vastos setores da sociedade e suas elites (muito além da franja bolsonarista), de que o Supremo deixou de ser uma instituição de Estado. Capturado por integrantes defendendo seus interesses particulares, lícitos ou não.

Lulinha, ‘Dark Horse’, Banco Master, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Investigações alimentam campanhas, mas só terminam após eleições

Os inquéritos sobre Lulinha, Dark Horse e Banco Master, explorados pelas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro, têm potencial para alimentar a polarização política no País, mas pouca chance de produzir efeitos jurídicos a curto prazo. Segundo autoridades com acesso às investigações, o mais provável é que elas terminem somente após as eleições de outubro.

Enquanto isso, as campanhas serão abastecidas por vazamentos e notícias sobre o envolvimento de políticos nos esquemas. O último material que veio à tona beneficia Flávio: mensagens trocadas entre o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e a lobista Roberta Luchsinger, amiga do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente conhecido como Lulinha.

A solidão de Flávio B. Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Incentivos institucionais e cálculo político explicam a neutralidade da direita pragmática

Coligações de partidos não definem as escolhas do eleitor, mas têm importantes efeitos indiretos

Aberta a temporada eleitoral, a candidatura de Flávio Bolsonaro vive um paradoxo. Ele é o preferido dos que jogam no campo antipetista. Pesquisa após pesquisa o situa perto —às vezes até empatado— com o presidente Lula. Na sondagem de agosto da Quaest, tem 30% das preferências, contra 39% do incumbente que pleiteia a reeleição. Ao mesmo tempo, o filho do ex-presidente amarga notável isolamento das lideranças do vasto campo das direitas.

Flávio Bolsonaro não logrou construir coligação eleitoral e terminou lançado apenas pela sua legenda, o PL (Partido Liberal). Desde 1989, é a primeira vez que um candidato competitivo não se apoia numa coligação. Até seu pai, um inimigo declarado do "sistema", teve a seu lado, além do PSL (Partido Social Liberal), o pequeno PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). O filho tampouco conseguiu atrair um vice com luz própria, capaz de somar algo a uma disputa que se prevê acirrada. E o alagoano Alfredo Gaspar (PL), político de projeção apenas local, chega à campanha sob o peso de ter de se defender de graves denúncias sobre seu comportamento na vida privada.

Os Bolsonaros são diferentes, você sabe, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Para Flávio Bolsonaro, o 'sistema é podre' e o Brasil 'olha com nojo para Brasília'

A família se proclama 'antissistema', mas faz parte dele há quase 40 anos

Flávio Bolsonaro disse em Copacabana, no domingo (16), que o Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes, você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são "antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.

1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. 2 - Flávio Bolsonaro. Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002, 06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.

Elite não compra pão com o próprio suor, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Relatório da Oxfam expõe como se concentra a riqueza no Brasil

O 1% no topo controla sozinho 37,3% de toda riqueza patrimonial declarada no país

Não fui eu que escrevi isso primeiro, foi Machado de Assis, ou melhor, o Brás Cubas. "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto."

Na divina comédia da burguesia à brasileira –rentista e pouco produtiva— que é Memórias Póstumas, Machado expõe as contradições do andar de cima da sociedade brasileira, de ideias liberais e renda escrava. Por isso, a atriz Fernanda Torres recomendou para que se entenda o Brasil a leitura do clássico machadiano combinada com a dos ensaios de Roberto Schwarz sobre Machado.

Trump tenta dar um jeitinho na alta dos juros e disfarçar que estoura déficit e dívida, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ora se discute se EUA adotariam planos parecidos com o de certa esquerda brasileira

Tesouro americano anuncia que vai intervir mais no mercado de dívida do governo

Juros dos Estados Unidos chegaram ao nível mais alto em quase 20 anos nesta terça (18), contaminando mercados do Ocidente. Nesta quarta, os economistas de Donald Trump anunciaram que vão intervir mais no mercado de títulos da dívida do governo —de juros para prazos mais longos.

O valor é pequeno, tais intervenções não são novidade. Importa é que o governo americano agiu em momento de febre, em que essas taxas de juros poderiam ficar descabeladas. Interessante, discute-se nos EUA se o governo pode adotar medidas que diferem pouco de planos de certa esquerda brasileira.

Entre outros problemas, muito maiores, juros americanos influenciam também o que vai ser das nossas taxas de juros, do real e da Bolsa. Uma alta pode até estourar uma suposta bolha de inteligência artificial (IA).

Poesia | A Mulher e a Casa, de João Cabral de Melo Neto, por Maria Bethânia

 

Música | Chico Buarque - Sob Medida

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise no varejo reflete ambiente hostil de juros altos

Por O Globo

Recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz expõe danos da irresponsabilidade fiscal do governo

No último fim de semana, o Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabraz, dois dos nomes mais tradicionais do varejo brasileiro, entraram com pedido de recuperação judicial por não ter como arcar com o pagamento de dívidas. Há 986 varejistas na mesma situação, alta de 20,4% nos últimos 12 meses, de acordo com o monitor mantido pelas consultorias RGF e Bizdoc. Nos mais variados setores, há 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 233 bilhões de dívidas em atraso, pelos números da Serasa Experian — recorde na série histórica iniciada em 2016. O pano de fundo da crise de endividamento é a economia com juros reais entre os maiores do mundo.

Bombas contra a ABI e a imprensa que a linha-dura não calou, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar, contra a liberdade de imprensa, e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura

Há 50 anos, a bomba que explodiu na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não tinha como alvo apenas o icônico Edifício Herbert Moses, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro, simbolo do Modernismo brasileiro. Construído entre 1936 e 1938, e projetado pelos Irmãos Roberto, é uma joia da nossa arquitetura, com funcionalidade e plantas livres, além de uma fachada com quebra-sóis em venezianas de concreto para barrar o sol forte e pilotis sem portaria fechada na entrada.

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar contra a liberdade de imprensa e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura. A explosão atingiu o sétimo andar do prédio da ABI, próximo à presidência da entidade, danificando salas, elevadores e outros pavimentos. Não houve feridos, mas os prejuízos foram estimados em cerca de 1 milhão de cruzeiros. Em panfleto deixado no local, a autodenominada Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria e acusou a associação de estar dominada por comunistas.

O conservadorismo empático da classe C, por Renato Meirelles

O Globo

A tia que é contra o aborto e acolheu a sobrinha; não é uma teoria política nem uma plataforma de campanha: é algo que está diante de nós há muito tempo

Vou chamá-la de dona Neusa. Não é uma pessoa. É a soma de muitas mulheres que conheci em 25 anos tentando aprender com o Brasil da maioria.

Ela tem 54 anos, trabalha como auxiliar de cozinha na Zona Leste de São Paulo e frequenta a mesma Assembleia de Deus há décadas. É contra o aborto. Fala isso sem levantar a voz, como quem está dizendo uma coisa sobre a qual nunca teve muita dúvida.

Há dois anos, uma sobrinha de 19 anos apareceu na casa dela depois de ter feito um aborto. Dona Neusa não perguntou muito. Fez chá, emprestou uma calça de moletom, ficou acordada até tarde. A menina chorou. Talvez de medo, culpa, alívio, cansaço. Talvez de tudo isso junto. Dona Neusa não tentou dar nome ao choro. E não contou a ninguém. Nem à irmã. Nem ao pastor.

Marketing político em transe, por Vera Magalhães

O Globo

Crises em várias campanhas mostram impasse em relação a uso de redes, financiamento e impacto da IA

Depois de alguns ciclos eleitorais em que ocupou as manchetes pela relação com escândalos de corrupção, o marketing político volta a movimentar o noticiário às vésperas do início da propaganda eleitoral na TV e no rádio, mas por outra razão: o intenso entra e sai de profissionais em várias campanhas, inclusive presidenciais.

A última troca se deu com a saída do publicitário Paulo Vasconcelos do comando do marketing de Ronaldo Caiado (PSD), anunciada nesta semana. O mesmo movimento já aconteceu, e duas vezes, na cozinha de Flávio Bolsonaro. E as conversas de bastidores dão conta de intensa disputa, com bateção de cabeça, também no Q.G. da campanha de Lula.

Flávio toca um disco velho, por Elio Gaspari

O Globo

2026 não é 2018

Começou uma campanha eleitoral imprevisível e com cheiro de mofo. Lula foi a São Bernardo para relembrar as greves históricas de 1979, e Flávio Bolsonaro retomou o discurso errático de seu pai.

A imprevisibilidade começa quando, segundo a última pesquisa da Quaest, a percentagem de entrevistados que desaprovam o governo (48%) é superior à dos que aprovam (46%). Na realidade, esses números refletem um empate, e esse equilíbrio se repete na liderança de Lula num eventual segundo turno: 43% x 40%. As entrelinhas dessa pesquisa não permitem saber com precisão para onde vão as preferências dos outros candidatos num eventual segundo turno.

O cheiro de mofo vem da escolha de Lula para iniciar a campanha onde começou sua vida pública, há 47 anos. Cheira a mofo a essência do discurso de Flávio em Copacabana, ecoando as falas do pai.

Deus no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidenciáveis usaram e abusaram do nome dEle ao lançar camapanhas

Deus não vota, mas foi arrastado para o centro da corrida presidencial. No domingo que abriu a disputa, os principais candidatos ao Planalto usaram e abusaram do nome dEle. Buscavam atrair o eleitorado religioso, cada vez mais visado pelas campanhas.

Em comício na Vila Euclides, o presidente invocou Deus nada menos do que 11 vezes. “Sou muito agradecido porque Deus sempre foi muito generoso comigo. Deus fez vocês, e vocês fizeram o Lula ser o que ele é”, disse, falando de si mesmo na terceira pessoa.

Em ato na Praia de Copacabana, Flávio Bolsonaro tentou atribuir sua candidatura a um desígnio divino. “Estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou, porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país”, discursou.

As idades do cronista, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Em meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança

É maravilhado, surpreso e assustado que, pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás, fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.

Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.

Adeus à pechincha na feira, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Movimento de queda nos preços dos alimentos deve perder força a partir deste mês

Aqueda nos preços dos alimentos em magnitude maior do que o mercado estimou nos meses de junho e julho foi um dos fatores que mais contribuíram para puxar para baixo a inflação corrente. Essa surpresa levou os investidores a precificar cortes de juros, endossando as últimas decisões do Copom, a despeito de expectativas inflacionárias de longo prazo ainda desancoradas e de elevadas incertezas nos cenários doméstico e externo.

Um pesadelo chamado Lulinha, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Os desdobramentos dos inquéritos envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, preocupam cada vez mais o comando da campanha do presidente Lula à reeleição. A equipe petista não sabe o que está por vir e, para se desviar da crise, aposta no crescimento das denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente, a partir do dia 28, quando começa a propaganda no rádio e na TV.

Nos bastidores da campanha de Lula há um clima de constrangimento e apreensão. “É dolorido para nós”, disse à coluna um dos principais auxiliares do presidente, sob a condição de anonimato. O discurso oficial é que todos serão investigados, “doa a quem doer”. Mas, como na política a melhor defesa sempre parece ser o ataque, a cobrança do governo e do PT se volta agora para o ministro do STF André Mendonça.

Putin e Trump empurram mundo para a bomba, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ações de dirigentes mudam cálculos de países acerca da conveniência de ter armas nucleares

Proliferação aumenta chances de episódios de estresse como a crise dos mísseis de 1962

Eu sou muito novinho, mas a geração de meus pais viveu dias de pânico em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, quando a perspectiva de enfrentamento nuclear entre EUA e URSS não apenas era real como pôde ser acompanhada de perto por jornais e rádio. Eu e meus coetâneos fomos poupados daqueles momentos de tensão, mas ainda crescemos num mundo sobre o qual pairava a ameaça de holocausto atômico.

PT atrela futuro à saudade do passado, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Aposta no culto à personalidade leva à conclusão de que Lula seja o único ativo disponível aos petistas

Trajetória de luta e superação não oferece as respostas necessárias ao enfrentamento dos desafios do país

Luiz Inácio da Silva mais uma vez, e como sempre, cultuou a si no primeiro ato oficial de uma campanha em moto contínuo desde que a anterior oficialmente terminou, em outubro de 2022. Lula, sem dúvida, é o principal ativo do PT; a insistência na exaltação da figura alimenta a suspeita de que seja o único.

O partido se propõe a comandar o país pela sexta vez em 24 anos e o que lhe ocorre fazer para convencer o eleitorado a aderir ao plano é apresentar um muito bem montado e produzido show de sessão nostalgia.

Janones desafia a esquerda a abandonar a 'campanha fofa', por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Deputado defende usar contra a direita as mesmas armas da guerra digital

Conflito nas redes podem mobilizar militantes, mas não necessariamente conquistar novos eleitores

André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter "aceitado a missão", publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a "campanha fofa" e entrar na guerra digital "sem medo, sem pudor e sem remorso".

Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.

O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o "extermínio completo do bolsonarismo" e declarou-se pronto para "matar ou morrer". Depois, acusou seu campo de "treinar fofo", enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.

O Brasil da castração química não quer saber do diesel caro ou dos juros nos EUA, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Custo do dinheiro sobe nas economias do centro do mundo e isso deveria nos interessar

Preço do diesel em alta no mercado americano é mais uma febre que pode nos afetar

Em uma semana, o Brasil deve estar discutindo ideias brilhantes como castração química, "prendeu, matou", a lotação de prisões com adolescentes para alimentar tropas do PCC ou as maneiras pelas quais o governo federal vai impedir roubo de celular aí na sua calçada.

Vai começar a campanha eleitoral na TV; vai aumentar a torrente de mentiras e burrice nos grupos de zap e outras mídias atrozes. Ou melhor, apenas talvez as pessoas se ocupem disso já na semana que vem. Segundo marqueteiros políticos, está grande o desânimo de "nós, o povo", com a eleição.

Poesia | Horas de Saudade, de Castro Alves

 

Música | Elizeth Cardoso e Pery Ribeiro - Samba em Prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descoberta na Margem Equatorial é promissora

Por O Globo

Indícios de petróleo são apenas passo inicial. Ibama deve acelerar licenças para pesquisa em novos poços

A descoberta de hidrocarbonetos em poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas significa que há indícios de petróleo ou gás natural numa região que pode vir a ser a nova fronteira petrolífera do país, a Margem Equatorial. Por enquanto, porém, são apenas indícios. É fundamental que a Petrobras continue o trabalho de pesquisa para investigar a extensão da descoberta e se a exploração é viável economicamente. Qualquer decisão depende dessa análise.

O anúncio acontece dez meses depois de o Ibama ter concedido licença para a estatal perfurar o primeiro poço, em meio a debates sobre impactos na fauna, na flora e nos povos da floresta. A área de prospecção fica a 175 quilômetros da costa do Amapá, numa profundidade de 2.886 metros. A Petrobras aguarda autorização do órgão ambiental para perfurar outros três poços. “Não vejo razão para negar a licença”, diz a presidente da estatal, Magda Chambriard.

Por que juros extorsivos e metas irrealistas destroem o Brasil sem baixar a inflação, por José Luís Oreiro*

Correio Braziliense

Essa narrativa, embalada por jargões técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os preços

Tornou-se um dogma quase religioso entre analistas e economistas ligados ao sistema financeiro a tese de que a desaceleração da atividade econômica é um "efeito desejado" do aperto monetário e que o Banco Central precisa manter a taxa de juros nas alturas para "reconstruir sua credibilidade". Essa narrativa, embalada por jargões técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os preços. Trata-se, contudo, de um diagnóstico profundamente equivocado, que confunde a doença com o remédio e sacrifica o desenvolvimento nacional no altar do rentismo.

O vício de origem desse arranjo reside na fixação de uma meta de inflação em 3% ao ano. Nos últimos 27 anos de vigência do sistema de metas no Brasil, a média histórica do IPCA acumulado em 12 meses situou-se acima de 5,5%. Essa diferença não é mero detalhe estatístico: reflete a realidade de uma economia dotada de forte memória inflacionária e mecanismos arraigados de indexação formal e informal.

Vila Euclides, São Januário e Pacaembu, palcos da história política do Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os maiores comícios foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com eleição indireta de Tancredo Neves

O primeiro comício a que assisti foi o da Central do Brasil, realizado em 13 de março de 1964, na Praça da República, no Rio de Janeiro, que reuniu entre 150 mil e 200 mil pessoas. O presidente João Goulart (Jango) e Leonel Brizola lideraram o evento para defender as reformas de base e pressionar o Congresso.

Era apenas um menino, levado pelos pais ao ato político no qual Jango anunciou que faria reformas por decreto, entre as quais a agrária. Carrego poucas recordações de criança: pessoas no teto das plataformas de bonde, penduradas nos postes e nas árvores; eu sobre os ombros de meu pai. Aquele comício era um “apelo às massas” para que apoiassem Jango. Talvez seja o mais famoso da nossa história política porque, semanas depois, houve o golpe militar de 1964.

Os maiores foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com a eleição de Tancredo Neves, cuja campanha também promoveu grandes comícios. Tão grandes que, em determinado momento, o velho pessedista resolveu suspendê-los, porque temia perder o controle do povo nas ruas. Dois outros são históricos: o de Getúlio Vargas, em São Januário, e o de Luiz Carlos Prestes, no Pacaembu.

Lula e Flávio traçam rotas opostas, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente apela à memória do eleitor e senador, à tecla do antipetismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro partem quase empatados e se assim continuarem daqui a 45 dias não é porque terão seguido a mesma rota. Aquelas traçadas no lançamento de suas campanhas foram opostas.

A embalagem era passadista, do nome com que foi batizado - “Onde tudo começou”-, às camisetas dos velhos companheiros, “ó nóis (sic) aqui outra vez” -, mas o candidato à reeleição, desta vez, tinha foco. Não foi apenas na duração, cortada pela metade, que o discurso se diferenciou do emaranhado de ideias da convenção do PT.

Como Trump revitaliza a democracia, por Jan-Werner Mueller*

Valor Econômico

Testemunhamos um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos EUA corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele

Na capital da Albânia, os recepcionistas dos hotéis fazem questão de ressaltar que os protestos em andamento do lado de fora são totalmente pacíficos. Aparentemente, houve um número considerável de cancelamento de reservas desde que as manifestações em massa começaram no segundo trimestre. Mas, se perguntados diretamente, eles podem insinuar discretamente que veem com bons olhos a participação de turistas nos protestos. Todas as noites, pessoas de todas as idades se reúnem diante do escritório do primeiro-ministro Edi Rama para denunciar a corrupção e exigir sua renúncia.

A chamada “Revolução dos Flamingos” foi deflagrada por um acordo que muitos consideram questionável entre o governo albanês e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump. Assim, estamos testemunhando um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos Estados Unidos corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele.

Caminhos tortuosos, por Merval Pereira

O Globo

É inacreditável que um ministro do STF possa servir de mediador de um encontro político.

O presidente da República visitou o Amapá para ver de perto o local onde a Petrobras descobriu indícios de petróleo na Foz do Rio Amazonas. A seu lado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que até há poucos dias estava rompido com Lula, mas se acertou com ele após um encontro de reconciliação promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Mas, advertem seus assessores, fez a viagem não na qualidade de candidato à reeleição, mas com o chapéu (literalmente) de presidente.

Na estação das escolhas, por Míriam Leitão

O Globo

É fundamental lutar contra o desalento das generalizações indevidas. Há pessoas que querem sinceramente servir ao país 

Todos os políticos devem estar sob o mesmo escrutínio popular, eles representarão o país inteiro e, por isso, têm contas a prestar. Porém, não se pode tratar todo mundo com a mesma desconfiança. Há uma convicção disseminada de que eles e elas estão nesse caminho para ter vantagem pessoal. Esse sentimento difuso não surgiu à toa. Veio na esteira dos inúmeros escândalos políticos, das desculpas esfarrapadas dadas por muitos, e das imagens dos dinheiros em caixas, malas, bolsas, cofres, cuecas. No país das altas taxas de juros, nenhum dinheiro guardado em casa, em grande quantidade, parecerá inocente. No banco estaria rendendo.