sábado, 8 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ministro condenado do STJ deve perder o cargo de juiz

Por O Globo

Punição a Marco Buzzi, acusado de crimes sexuais, será a primeira depois do fim da aposentadoria compulsória

A condenação do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), acusado de assédio e importunação sexual, poderá resultar na primeira exclusão de um juiz da magistratura depois do fim da descabida “punição” com a aposentadoria compulsória. Buzzi foi condenado pelo voto unânime de 28 integrantes do colegiado do STJ. Desses, 24 decidiram pela aplicação da nova pena máxima, propondo a perda do cargo de juiz. Ele continuará recebendo salário, pois o caso não se encerra na decisão do STJ. A Advocacia-Geral da União deverá propor em até 30 dias uma ação ante o Supremo Tribunal Federal (STF). O STF decidirá então os efeitos práticos da condenação, como perda de cargo, salário e benefícios.

Mulheres que contaram suas histórias como forma de lutar, por Flávia Oliveira

O Globo

Angela Davis comoveu ao situar a própria experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica quanto seu ativismo

Certas conversas, encontros, palavras reverberam em nós muito tempo depois de ocorridas, vividos, ouvidas. Foi assim com o diálogo que mantive com Angela Davis, em mesa idealizada pelo Sesc-RJ na edição 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. À filósofa, professora e ativista apresentei perguntas a partir do pensamento de grandes intelectuais negras e negros do Brasil, entre os quais Conceição Evaristo. A grande escritora nacional cunhou o conceito de escrevivência, a produção literária extraída da experiência, das cicatrizes, das histórias da própria autora e de seu povo.

A ex-Pantera Negra abraçou a ideia para demonstrar que a obra de autores brancos não é necessariamente universal. E que a de autores negros pode ser.

— Toni Morrison provou isso — ela disse.

Os motivos da transgressão de Marcola, à luz de um Nobel, por Thaís Oyama

O Globo

Ex-assessor de Lula concluiu que o ambiente era propício — e os incentivos para transgredir superavam com folga os freios

Por que as pessoas se suicidam? Por que têm filhos? Por que cometem crimes? O economista Gary Becker se fez todas essas perguntas para, a partir delas, construir modelos matemáticos capazes de gerar previsões. Interessava-lhe, sobretudo, a natureza humana — e como os humanos fazem escolhas. A resposta que formulou para a última questão — por que alguém comete um crime? — foi um dos eixos da obra que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Economia, em 1992. No modelo de Becker, três fatores influem na decisão de infringir a lei: o benefício desejado, a probabilidade de ser apanhado e a punição prevista. Quanto maiores o risco e o castigo, menor o incentivo para perseguir o benefício. Mas, se o benefício é grande e as chances de ser pego pequenas, o tamanho do castigo perde importância.

Tráficos de influências, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A crise entre Supremo e Polícia Federal – entre André Mendonça e Andrei Rodrigues – só existe porque investigado vai Lulinha. Daí o festival reativo de plantações sobre desconfianças da corporação contra o ministro. Não tardaria até que Lula ordenasse a negociação de um cessar-fogo. A um presidente candidato à reeleição – cujos governos anteriores são marcados por corrupções – pegará malíssimo a prosperidade da hipótese de que apurações policiais sobre traficâncias do filho não avancem.

Mendonça comunica que não avançam, insatisfeito com o que seriam manobras da PF para fatiar e redistribuir no STF investigações que, a partir da base de dados da Operação Sem Desconto – que relata – e tratando dos mesmos personagens, não obviamente lhe escapariam à prevenção.

Os políticos e as mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso. As mulheres estão, por isso, mais obstinadas

O voto das mulheres é o centro da eleição de 2026. É preciso convencer o eleitorado feminino, conquistá-lo. Eu diria mais: pela primeira vez, os candidatos tradicionais precisam se esforçar para dialogar com as mulheres, olhando-as nos olhos. Cada um usará o repertório de que dispõe. Avaliar seus movimentos será uma aula sobre como nossa sociedade divide os papéis de gênero.

Na convenção do PT, Lula se queixou da falta de representatividade no palanque do partido. Flávio Bolsonaro ressaltou que filhas são cuidadoras em potencial, porque esse é seu papel familiar. Romeu Zema disse que homens precisam trabalhar, e que as mulheres têm seus assuntos domésticos. Ciro Gomes criticou as "mulheres agressivas do PT", defensoras, segundo ele, de um "feminismo vazio".

Morin e o futuro III, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

O futuro como construção

Nos dois artigos anteriores apresentamos de forma breve, como este, duas das concepções de futuro do filósofo francês Edgar Morin, falecido aos 104 anos no dia 29 de maio de 2026. A primeira, o futuro inevitável – a morte, cuja recusa alimenta a criação do Homo Sapiens-Demens. A segunda, o futuro como incerteza, que alimenta a obra principal do autor em seis volumes (O Método) sobre o pensamento complexo. Este aborda a concepção do futuro como construção social.

Cedo ainda, nos anos 1960, Morin tem clareza de que a humanidade vive uma crise ímpar, de múltiplas dimensões. Em 1965 (Introduction à une politique de l’homme) ele sinaliza a crise do progresso técnico, que produz evoluções e involuções com a fragmentação do saber, a alienação consumista e o risco de autoaniquilação.

Mitigando vulnerabilidades, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Temos testemunhado um perigoso processo de erosão da confiança da população no Poder Judiciário

É fundamental ampliar os mecanismos para detectar relações privadas que podem afetar a imparcialidade

O Judiciário está sob ataque de movimentos iliberais em diversas partes do mundo, alertou Margareth Satterthwaite, relatora especial da ONU para a Independência do Judiciário, em recente visita ao Brasil. Múltiplas têm sido as formas de minar a independência do Judiciário, como a perseguição e intimidação de juízes, restrição de competências, estrangulamento orçamentário, cooptação de magistrados, mas também a exploração das múltiplas vulnerabilidades do Judiciário.

No Brasil, temos testemunhado um perigoso processo de erosão da confiança da população no Poder Judiciário, exposto tanto a ataques externos, como a vulnerabilidades internas. Às forças comprometidas com a democracia cumpre defender o Judiciário dos inimigos da Constituição, assim como propor reformas voltadas à qualificação do sistema de Justiça.

Sob o fogo da diplomacia Donroe, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira e se converteram em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro

Seria um erro, contudo, concluir que Lula colhe o que semeou

Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira. Numa operação coordenada pela Casa Branca, converteram-se em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro. "Presidente não deve se envolver em eleição de outro país", lembrou Alckmin, em meio ao fogo.

São palavras simples, mas sábias. A interferência veicula desprezo pelo princípio da soberania nacional, que se expressa como soberania popular. Só vale no caso de ditaduras, onde os detentores do poder anularam os direitos do povo. Aí, é quase obrigação a solidariedade com dissidentes perseguidos (uma regra, aliás, que Lula ignora quando se trata de "ditaduras companheiras"). 

O cérebro autoritário, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eduardo Bolsonaro diz que escolha de Gaspar para vice é escudo contra impeachment

Tal visão denota paranoia institucional, que é característica de personalidades autoritárias

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.

Governo Lula versus BC nas eleições deste ano, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Crítica aponta contradição entre estímulos fiscais e cobrança ao Banco Central

Pressão eleitoral amplia disputa sobre a responsabilidade pelo endividamento

Pressionados pela repercussão negativa da aceleração da dívida pública às vésperas do início da campanha eleitoral, integrantes do governo federal acionaram as baterias para culpar o BC (Banco Central) pelo crescimento do endividamento em mais de 10 pontos percentuais ao longo de três anos e meio do governo Lula 3.

Mas imagine que você foi contratado para um emprego e o seu trabalho envolve apenas uma única tarefa: manter a temperatura da sala de trabalho em 20 graus Celsius.

Jogada de Eduardo Cunha em Minas derruba outsider Cleitinho, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Com 39% nas pesquisas, favorito ao governo do estado teve a candidatura negada

Espelho das eleições presidenciais desde a democratização, cenário mineiro está embolado

Ele brigou, chorou, rezou, apelou ao luto familiar. Mas até agora nada feito. Cleitinho –cuja presença agressiva nas redes o levou de vereador em Divinópolis (MG) ao Senado com 4 milhões de votos– é a primeira grande baixa nas eleições de 2026. Um favorito que foi sem nunca ter sido.

Com 39% nas pesquisas para o governo de Minas, Cleitinho teve sua candidatura negada pelo presidente do Republicanos, Marcos Pereira, devido à sua "instabilidade". Pereira disse que o partido "não pode submeter o povo a uma situação de insegurança". Conversa. Foi uma rasteira da política fisiológica em quem posa de outsider.

Teoria Geral de Keynes: 90 anos, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das antigas

No Ano da Graça de 2026, a Teoria Geral de John Maynard Keynes completa 90 anos. A primeira edição do livro seminal do pensador inconformista foi publicada em fevereiro de 1936. Julgo conveniente iniciar este artigo com o prefácio da Teoria Geral:

“A composição deste livro tem sido, para o autor, uma longa luta de fuga, e a leitura dele deve ser, para a maioria dos leitores, um ataque bem-sucedido para escapar dos modos habituais de pensamento e expressão. As ideias expressas aqui, com tanto esforço, são extremamente simples e deveriam ser óbvias. A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das antigas, que se ramificam, para aqueles criados como a maioria de nós, para todos os cantos da mente”.

No célebre artigo O Fim do ­Laissez-faire­, Maynard ironizou a ideia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta, segundo os princípios da teoria econômica, afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse é, em geral, esclarecido.”

O fator Mendonça, por André Barrocal

CartaCapital

O indicado por Bolsonaro ao STF faz de tudo para “equilibrar” o jogo eleitoral

A campanha presidencial começa no dia 16 na web e 28 na tevê. Flávio Bolsonaro chegará a ela com mais rejeição e menos intenção de voto nas pesquisas, tudo obra da revelação de sua intimidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, das maquinações da família a favor do “tarifaço” de Donald Trump e da briga com a madrasta. Derrotar Lula ficou mais difícil, arrastá-lo para a lama tornou-se uma necessidade. Para que o rechaço ao presidente suba, o senador planeja usar na propaganda eleitoral supostos áudios em que uma empresária-lobista encrencada cita Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do petista. Teria munição ainda contra o ex-chefe de gabinete de Lula no Palácio do Planalto, Marco Aurélio Santana Ribeiro, outra figura próxima da lobista. O roteiro de Flávio foi revelado em 31 de julho no ­ex-Twitter por um sujeito que se identifica como “Thom” e tem entre seus seguidores o senador e um blogueiro morador da Austrália, que é uma espécie de porta-voz do clã Bolsonaro nas redes sociais.

Diplomacia às favas, por Cláudio Couto

CartaCapital

O populismo de ultradireita também destrói as instituições internacionais

A semana que passou foi bastante atribulada em nossa política externa, numa amostra opulenta do que ainda vem pela frente nesse âmbito, ao menos até o fim da corrida eleitoral, em outubro. Claro que essas tribulações não começaram agora. Elas ocorrem desde o início dos governos de Donald Trump e seu títere no Cone Sul, Javier Milei. Contudo, não se pode ignorar a intensificação e a coincidência temporal dos ataques ao Brasil pelos dois presidentes populistas de ultradireita.

O baixo clero recua (por ora), por Maria Inês Nassif

CartaCapital

Desde a Constituinte, parlamentares da velha ordem aprimoram técnicas de assalto aos cofres públicos

O baixo clero sempre existiu, inclusive na ditadura. Também antes. Era constituído por parlamentares eleitos por votos clientelistas proporcionados pelos coronéis locais, os verdadeiros donos dos chamados “votos de cabresto” (sim, uma alusão ao arreio usado em animais, para guiá-los ou prendê-los, transposto para o eleitor). O chefe local dava as cartas: era o prefeito ou o escolhia. O chefe estadual mais forte era aquele capaz de arregimentar mais donos de votos. Em algum momento, esse chefão havia sido governador, em outro voltaria a sê-lo. As eleições para o governo de estado eram indiretas e o executivo “eleito” pelos deputados­ estaduais, os ungidos nos redutos sob seu controle. O depositário dos votos de cabresto elegia sempre a maior bancada federal e os senadores – e assim, conquistava o cartão de acesso aos gabinetes oficiais em Brasília, inclusive durante a ditadura, a que se associavam.

Preso e condenado, Jair Bolsonaro é solução e problema para a campanha do filho, por Laryssa Borges

Revista Veja

A sombra do pai sempre foi — e ainda é — o principal ativo do senador Flávio Bolsonaro

Centralizador, Jair Bolsonaro anunciou ainda em 2025 que a formação dos principais palanques para a campanha dos candidatos de direita nas eleições deste ano passaria pelo crivo dele. Condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente deu instruções sobre a formação das alianças estaduais, escolheu a dedo candidatos do PL ao Senado e, à revelia de conselheiros e para surpresa geral de ninguém, ungiu o primogênito como nome a defender seu espólio como candidato ao Palácio do Planalto. Até poucas semanas atrás, não havia decisão estratégica na campanha presidencial do filho que não passasse por consultas prévias ao antigo mandatário, mesmo preso em regime domiciliar e proibido de ter contato com quem quer que seja do mundo político, a não ser com sua esposa, Michelle, agora candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro promoveu até algumas correções de rota para aproximar ainda mais sua imagem e seu discurso aos do capitão. A sombra do pai sempre foi — e ainda é — o principal ativo do senador.

Solidão eleitoral, por José Casado

Revista Veja

Isolamento na campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade

Flávio Bolsonaro tenta agrupar e liderar a direita que está fragmentada na disputa pela Presidência da República. Não conseguiu grande coisa, mas sobram oito semanas até a votação no domingo, 4 de outubro.

É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.

A tempestade vem de fora, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Nunca a geopolítica pesou tanto na definição do futuro presidente

As eleições presidenciais brasileiras, ao menos desde o segundo mandato de Lula, sempre foram tumultuadas. Lula reelegeu-se em 2006 sob a sombra do mensalão. Dilma Rousseff, em 2010, foi a exceção: Lula gozava de popularidade tão vasta que teria eleito um poste. A reeleição de Dilma, em 2014, veio tisnada pelas manifestações de 2013, pela eclosão da Lava-Jato e pelo acidente que vitimou o candidato Eduardo Campos — e desembocou na tempestade perfeita de escândalos, descontrole fiscal e recessão que resultou no impeachment. Bolsonaro venceu em 2018 em meio à destruição do centro político, à facada e à prisão de Lula. E a eleição de 2022 teve disputa acirrada, atrito com o STF e uma transição tensa, marcada por vandalismo e ensaios de golpe.

Prudentinho*, por Ivan Alves Filho**

Sobre a Semana de Arte de 22, tenho uma ótima recordação de Prudente de Morais, neto, o organizador, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, da Revista Klaxon, o órgão modernista. Presenteei minha filha, Moema - historiadora da arte - com uma edição fac-similar da revista.  

Eu conheci o Prudente ainda na pré-adolescência, por volta de 1963-1964. Ele foi um querido amigo do meu pai. Prudentinho, como seu círculo mais próximo o chamava, participou do Modernismo como Pedro Dantas, seu pseudônimo literário. A meu conhecimento, nenhum crítico e/ou ensaísta literário reuniu, até o presente momento, seus escritos. 

Fica aqui a sugestão, se me permitem. Creio que Prudente publicou, em espanhol, um livro sobre a novela brasileira e nada mais. Prudente tinha uma grande admiração pelo Tropicalismo, movimento que considerava herdeiro da Semana de 22. Ele dizia que Caetano Veloso ainda seria reconhecido como uma figura ímpar da Cultura brasileira. 

Poesia | Amar é pensar, de Fernando Pessoa

 

Música | Rosa de Hiroshima - Ney Matogrosso

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Resultado do Ideb revela progresso desigual no ensino

Por O Globo

País deve aprender com desempenho dos estados mais bem colocados, como Ceará, Paraná e Goiás

Anunciado nesta semana, o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador de qualidade do ensino brasileiro, revela avanços na comparação com a última medição em 2023. Apesar de o dado geral ser positivo, porém, o progresso é desigual e insuficiente diante da urgência do país em área tão fundamental para a economia e o desenvolvimento.

Nos anos iniciais de ensino (1º ao 5º), a média nacional da rede pública subiu de 5,7 para 6,1; nos anos finais (6º ao 9º), foi de 4,7 para 5; no ensino médio, de 4,1 para 4,3. O índice tem dois componentes: taxa de aprovação e resultados em testes de língua portuguesa e matemática (conhecidos pela sigla Saeb). Analisando somente o desempenho nas duas áreas do conhecimento, também houve evolução.

Poderes precisam de novo pacto, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Precisamos sair do varejo ininterrupto que tomou conta da política nos últimos anos, com decisões que fortaleceram a oligarquização do poder em todos os seus fronts institucionais

O início da corrida presidencial está mais para um jogo de acusações do que uma disputa por projetos. É verdade que há necessidade de se debater e investigar todas as denúncias contra os candidatos e seus aliados, do mesmo modo que é provável que com o decorrer da eleição apareçam as ideias e as diferenciações entre os presidenciáveis. Porém, a realidade nua e crua do dia seguinte do voto não é a prioridade no discurso dos concorrentes. O problema é que o ano de 2027 vai exigir muitas medidas para evitar uma crise política e econômica. E isso só será possível com um novo pacto entre os Poderes.

Reclama-se muito, eleição após eleição, que os candidatos não apresentam um plano de governo baseado num conjunto estruturado e crível de políticas públicas. Sem dúvida isso é fundamental e precisa ser cobrado dos atuais presidenciáveis. Mas o cenário de 2027 exige algo mais: uma estratégia de governabilidade que reconstrua as relações entre os Poderes, que ao final do governo Lula III estão em frangalhos.

Não que o atual mandato tenha iniciado esse problema. Na verdade, ele é um ponto mais alto de um processo crescente iniciado no final do primeiro governo Dilma. Trata-se de um fenômeno de deterioração de muitas das bases do presidencialismo de coalizão que vigorou de forma mais estável entre o período FHC e o segundo período do presidente Lula, quando os conflitos, naturais num sistema de divisão de Poderes, não geravam grandes anomalias decisórias e de alocação de recursos públicos, nem o sentimento de revanche entre os Poderes.

A milonga eleitoral, por José de Souza Martins

Valor Econômico

O presidente da Argentina, Javier Milei, não falou em nome próprio, mas como protagonista de empréstimo do ex-presidente e chefe do clã que está preso 

Uma visita insólita aos palcos da política brasileira ocorreu há poucos dias. Foi quando da convenção do PL que oficializou a candidatura de um filho de Jair Messias à confirmação da família na Presidência da República.

Família, na lei brasileira, republicana e não monárquica, não é sujeito de direito eleitoral. Tecnicamente, político não é nem tem família. Só na vida privada. No entanto, mesmo quem do “clã” está condenado e na prisão comporta-se aqui como se não estivesse. Manda por trás das grades.

A visita insólita foi a do presidente da Argentina, que tirou uma folga para uma visita não oficial, uma escapada para socorrer um colega brasileiro de ideologia política, em crise de sobrevivência eleitoral.

O evento da convenção mencionada foi feito para legalizar fora da lei o protagonismo eleitoral do que vem sendo identificado pela mídia como “clã Bolsonaro”. Uma prática de despistamento exposta pelo ministro do Meio Ambiente, na reunião do governo Bolsonaro de 22 de abril de 2020. Aproveitar a distração da mídia com a pandemia para fazer “passar a boiada” de mudanças nas leis de proteção ambiental com base nas regras e textos normativos infralegais. Um Brasil infralegalmente paralelo é o Brasil da direita, e é nele que vivemos.

A herdeira, o banqueiro e a PF no caminho da eleição, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Roberta Luchsinger retornou, recentemente, ao centro dos holofotes para dividir a cena, mais uma vez, com os mesmos personagens

Atribui-se a Friedrich Hegel a afirmação de que fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem duas vezes. A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

A história contemporânea brasileira se encaixa na máxima de Hegel, formulada no século 19. A personagem Roberta Luchsinger retornou, recentemente, ao centro dos holofotes para dividir a cena, mais uma vez, com a Polícia Federal (PF), banqueiros e políticos do alto escalão.

Ela ressurgiu em novo papel, porém, em trama com ar de reprise envolvendo policiais, políticos e banqueiros encurralados. Com a empresária em papel principal ou lateral, transitamos entre a Satiagraha e a Compliance Zero, o Opportunity e o Master, entre os dois “Daniel” - Dantas e Vorcaro -, o ex-prefeito de São Paulo, e o filho e o assessor do presidente da República.

Autossuficiência dos 'superpartidos' deturpa relação entre Poderes, por Vera Magalhães

O Globo

Verbas de emendas e de fundos turbinam legendas, que não precisam mais de alianças para prosperar, e evitam se comprometer com candidatos a presidente

A autossuficiência da maioria dos partidos — demonstrada até pelo indisfarçado desinteresse de siglas robustas e tradicionais na campanha presidencial — é a prova até aqui mais eloquente de que o mecanismo irrigado por emendas a rodo e fundos partidário e eleitoral bilionários empoderou as legendas de forma inédita na História do Brasil, com consequências que já começam a aparecer, mas que podem ter extensão muito maior.

Os partidos, que já têm dado de ombros ao Executivo pelo menos desde o governo Jair Bolsonaro, agora também esnobam os principais candidatos a presidente. Dizem na cara dos favoritos saber que mandarão e estarão no governo quem quer que vença, que as emendas praticamente asseguram previsibilidade sobre o tamanho que terão no Parlamento depois de outubro e que, portanto, é mais jogo cuidarem da própria vida, e os candidatos que lutem na lama da polarização encarniçada para ver quem leva a melhor.

Renan Santos, o candidato tigrinho, é a versão 2026 de Pablo Marçal, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sem TV, presidenciável aposta em insultos e propostas mirabolantes para viralizar nas redes

A eleição presidencial deu palco a um novo aspirante a outsider. É Renan Santos, chefe da tropa do MBL. Sem tempo de TV, o candidato do Missão aposta em vídeos provocativos e propostas mirabolantes para chamar a atenção nas redes. É a versão 2026 do coach Pablo Marçal.

Renan defende uma típica plataforma de extrema direita. Prega a extinção de benefícios sociais, o fim de políticas para minorias e o sinal verde para a matança policial.

Cientistas deveriam ter feito esforço de persuasão na pandemia, por Pablo Ortellado

O Globo

A descrença populista não será vencida exigindo confiança cega — precisaremos conquistá-la com respeito democrático

Na semana passada, o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos Anthony Fauci foi chamado ao Senado americano para depor sobre as políticas que implementou durante a pandemia de Covid-19. Senadores de direita o acusaram de ter escondido do público informações sobre a doença, de ter financiado o laboratório onde afirmam que o vírus foi criado e de ter imposto, sem necessidade, lockdowns e fechamento de escolas. Por orientação de seus advogados, Fauci invocou a Quinta Emenda e, repetindo sempre a mesma frase, recusou-se a responder a mais de cem perguntas.

E ainda é agosto..., por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio recuperou fôlego e Lula não é imbatível, mas muita água (suja) ainda vai rolar

Quando o governo Trump anunciou a suspensão do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, um sagaz diplomata ironizou, ou efetivamente previu: “E ainda estamos em agosto...” Sim, as várias tensões só vão piorar até outubro, e não só na política externa, mas, principalmente, nas campanhas e nas eleições.

A conclusão da pesquisa Quaest desta semana é clara: Flávio Bolsonaro recuperou fôlego e Lula não é imbatível. Apesar do favoritismo do presidente, as margens são apertadas, se movem de acordo com fatos, novidades e versões. Logo, muita água (suja) vai rolar.

EUA ameaçam escalar crise com o Brasil, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Governo americano quer que Brasil conceda anuência para receber Daniel Perez

Empresários brasileiros acreditam que a crise entre Brasil e Estados Unidos ainda não chegou ao ápice e estão preocupados. Fontes do setor privado contaram à coluna que receberam um alerta de funcionários do Departamento de Estado do governo americano. Em conversas reservadas, diplomatas americanos confidenciaram aos empresários que a ordem é escalar se o Brasil não conceder em breve a anuência para receber Daniel Perez, que foi indicado por Donald Trump para ocupar a embaixada em Brasília.

Nesta semana, o governo americano revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Ela não foi expulsa, mas perdeu o direito de entrar e sair do país. A justificativa americana é que o Brasil estaria segurando o “agrément” (termo em francês para o aval para a entrada de um embaixador) de Perez.

STJ mostra que é capaz de purgar seus males e punir os próprios pares, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Dos ministros presentes ao julgamento, 24 votaram pela disponibilidade e pela perda do cargo de Buzzi. Somente quatro defenderam a aposentadoria compulsória

A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de aplicar ao ministro Marco Buzzi a pena de disponibilidade, com encaminhamento para a perda definitiva do cargo, representa uma mudança de paradigma no combate ao corporativismo no Poder Judiciário. Ao punir um de seus próprios integrantes, por unanimidade quanto à existência de infrações disciplinares e por ampla maioria quanto à sanção, a Corte demonstrou disposição de purgar seus próprios males. As garantias da magistratura não podem ser confundidas com imunidade ética ou licença para abusos.

A conversa fiada que candidatos contam à elite privilegiada por informação exclusiva, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Emissários dos presidenciáveis falam mais com ricos do que com o eleitorado, e falam mal

PT e PL apresentam ideias vagas ou tortas, mas Lula 4 tem pouco crédito de reformista

Os candidatos principais à Presidência da República mandam seus economistas contarem seus "planos para a economia" a gente da elite econômica, em especial da finança. Faz semanas é assim, vai ser assim nas próximas, antes e depois da eleição.

Ainda assim, a elite agraciada com o privilégio nada republicano dessas visitas de esclarecimento não se diz esclarecida nem sobre os assuntos mais rudimentares dos "planos para a economia", que são o tamanho do gasto federal, dívida pública e taxas de juros.

"Planos para a economia" vai entre aspas porque nessas conversas se trata mal e vagamente de problemas fiscais, apenas parte dos nossos problemas econômicos extensos e variados (ciência, pesquisa, infraestrutura, crédito subsidiado, agências reguladoras, plano para energia, eficiência administrativa do Estado, modos de incentivar fronteira produtiva nova etc.).

Manipulando o sistema, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ideb do ensino médio registrou avanço, mas não necessariamente porque alunos aprenderam mais

Toda tentativa de mensuração já traz os elementos que levarão à sua própria perversão

Nós só conhecemos aquilo que conseguimos medir e toda medida carrega as sementes de sua própria perversão. Os recém-divulgados dados do Ideb, o sistema nacional de avaliação da educação básica, ilustram bem esse dilema.

Numa primeira leitura, o Brasil avançou. A nota do ensino médio público passou de 4,1 em 2023 para 4,3 em 2025 —melhor marca desde que o indicador foi criado. Mas é cedo para soltar rojões. Numa leitura mais atenta, percebe-se que foi puxada pela elevação da taxa de aprovação, não porque os alunos aprenderam mais, como um observador ingênuo poderia esperar.

Mercado de influências bate à porta do Palácio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Alguém que tenha a chave da agenda e do acesso ao presidente não pode fazer transações duvidosas

Muito menos possui autorização para explicar seus atos como de natureza 'estritamente privada'

Uma pessoa que tem a chave da agenda e do acesso ao gabinete do presidente da República não pode ter transações financeiras que requeiram explicação. Em circunstância alguma estaria autorizada a explicar seus atos como de natureza "estritamente privada".

Tal recurso fica com jeito de tentativa de blindagem a fim de evitar os indispensáveis detalhamentos.

'Bellini, levanta a taça!' Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Quem gritou isso para o capitão do Brasil na Suécia em 1958 e, daí, nasceu um gesto universal?

Foi Luiz Carlos Barreto, do Cruzeiro, ou Jader Neves, da Manchete? Ou ambos e os outros?

Trilado o apito final de Brasil 5 x 2 Suécia, decisão da Copa do Mundo de 1958, Brasil campeão pela primeira vez, Bellini, capitão do time, subiu a um palanque para receber o caneco. Gustavo Adolfo, rei da Suécia, entregou-lhe o troféu e afastou-se educadamente para que Bellini o mostrasse ao mundo. Bellini levou a taça à altura do peito e sorriu para as dezenas de fotógrafos lá embaixo. De repente, ouviu-se o grito: "Bellini, levanta a taça! Não dá pra ver!". Vinha dos fotógrafos brasileiros, os únicos que podiam ser entendidos pelo capitão. Bellini levantou a taça acima da cabeça. As câmeras dispararam e, até hoje, todas as taças de todos os esportes são levantadas acima da cabeça.

Poesia | Um chamado João, de Carlos Drummond de Andrade, em homenagem a Guimarães Rosa

 

Música | Roberta Sá - Água Doce

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suspeitas justificam investigar filho e ex-assessor de Lula

Por O Globo

Acusações contra Lulinha e ex-chefe de gabinete de presidente não podem ser atribuídas a motivação eleitoral

É preciso esclarecer a fundo as suspeitas de tráfico de influência e corrupção que rondam o Palácio do Planalto. Elas envolvem personagens como o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o governo para atuar na coordenação da campanha à reeleição de Lula, depois se viu constrangido a deixar a própria campanha diante das denúncias.

O ajuste fiscal e a pergunta que o Brasil precisa fazer, por Giovanni Bevilaqua*

Correio Braziliense

Quando as decisões sobre as prioridades do orçamento passam a dar mais peso às expectativas de quem empresta dinheiro ao governo do que as necessidades de quem depende da aposentadoria, da saúde e dos outros serviços públicos, a democracia perde seu equilíbrio

Toda vez que o tema volta à mesa, a receita já vem pronta. Desindexar o salário mínimo do crescimento do PIB. Afrouxar os pisos constitucionais de saúde e educação. A justificativa é sempre a mesma: não há alternativa, o país precisa escolher entre o ajuste e o abismo. Há, de fato, um problema real. As despesas obrigatórias crescem mais rápido que a receita, e a trajetória da dívida pública preocupa quem acompanha o tema com seriedade.

O que incomoda não é o diagnóstico. É a certeza com que se encerra o debate antes mesmo de ele começar, como se existisse apenas um caminho possível e ele passasse, inevitavelmente, pelo bolso de quem tem menos margem para reclamar. Setenta por cento dos benefícios do INSS seguem o salário mínimo. O SUS depende de seu piso constitucional para manter o atendimento onde ele é mais necessário. Quando a sustentabilidade fiscal escolhe justamente esses dois alvos como prioridade, cabe perguntar: por que o ajuste começa sempre por quem mais depende do Estado? E, afinal, quem deve pagar essa conta?

Com tarifaço e interferência nas nossas eleições, Trump pode dar um tiro pela culatra, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Conflito fortalece a narrativa de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas alimenta críticas da oposição à diplomacia de Lula

“O Brasil não é para principiantes”, atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington que pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.