Democracia Política e novo Reformismo
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
PT aprova manifesto para 2026 com foco em reeleição do presidente
Por Felipe Matoso, Guilherme Balza, Mariana Laboisiere, g1 e GloboNews
Em sua oitava edição, o evento, que ocorre em
Brasília desde a última sexta-feira (24) e termina neste domingo (26), reuniu
representantes escolhidos pela legenda, que analisaram e debateram o documento.
O Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou
neste domingo (26), durante Congresso Nacional do partido, um manifesto com
foco nas eleições de outubro, além de futuras diretrizes partidárias.
Em sua oitava edição, o evento, que ocorre em
Brasília desde a última sexta-feira (24) e termina neste domingo (26), reuniu
representantes escolhidos pela legenda, que analisaram e debateram o documento.
O texto aprovado, intitulado
"Construindo o futuro", estabelece a reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) em 2026 como o eixo central da tática política do PT
para o próximo período.
Lula, contudo, não estava presente. Ele ainda se recuperava de dois procedimentos médicos realizados em São Paulo e tem previsão de voltar para Brasília ainda neste domingo.
Construindo o futuro: manifesto do PT para seguir transformando o país
Leia na íntegra o Manifesto aprovado no 8º Congresso Nacional do PT
Vivemos
uma mudança de época, marcada pela crise do capitalismo neoliberal e pela
crescente desordem global. Nessa conjuntura, se sobrepõem crises estruturais
que atingem o sistema capitalista, a ordem internacional, as democracias
liberais e as próprias condições de vida no planeta. A promessa neoliberal de
crescimento econômico, estabilidade e bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer
futuro para a maioria. Em seu lugar, consolidaram-se a fome, a estagnação, a
desigualdade, a precarização do trabalho, a insegurança e o enfraquecimento das
instituições democráticas.
O
que se apresenta hoje não é apenas o esgotamento de um modelo, mas a
intensificação das disputas sobre os rumos da sociedade.
A crise de 2008 deixou evidente que um sistema que se organiza sob a lógica da concentração de riqueza, diante do colapso, não corrige suas distorções: socializa prejuízos e preserva privilégios. O resultado foi a ampliação do endividamento público, o corte de direitos sociais e a consolidação de um padrão de acumulação baseado na captura de renda e na subordinação das economias nacionais ao capital financeiro global. Novas oligarquias emergiram com força. Grandes corporações, sobretudo no campo tecnológico, passaram a controlar fluxos de informação, organizar o trabalho, influenciar comportamentos e intervir na vida política. A democracia liberal, cada vez mais mediada por plataformas privadas, tornou-se terreno de disputa desigual.
Gilmar e a derrota autoinfligida, por Marcus André Melo
Folha de S. Paulo
Quanto mais o ministro intervém, maior o dano
reputacional à corte
A escala do impacto reputacional é
consistente com a natureza dos malfeitos
Entrevistas recentes do ministro Gilmar Mendes têm
causado perplexidade pelo tom defensivo e pelos ataques desferidos. Em vários
momentos, não fica claro se suas falas constituem narrativas retóricas em
reação à onda de críticas ao Supremo, avaliações efetivas dos fatos ou simplesmente
atos falhos.
Dentre estes últimos, sua afirmação que o Supremo é parlamentarista deixa entrever uma visão da corte como governo ou estado dentro do estado, no qual ele próprio seria uma espécie de primeiro ministro que já teria iniciado démarches com chefes do poder executivo e das casas do legislativo para um "pacto republicano".
'Voto não tem preço, tem consequência', por Ana Cristina Rosa
Folha de S. Paulo
Em ano eleitoral, é fundamental combater o
aliciamento e a compra de votos
É imperioso proteger a verdade, a integridade
do debate público e a legitimidade do processo eleitoral
Não é segredo que a igreja católica foi conivente e se beneficiou da escravização negra. Embora tenha havido vozes que se manifestaram contra o tratamento desumano dado aos africanos escravizados (a exemplo do Papa Pio II, que em 1462 instruiu os bispos a condenarem o tráfico como um "crime terrível"), foi só no século 19 que os católicos se posicionaram de maneira enfática em defesa dos direitos humanos.
domingo, 26 de abril de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Crescem riscos do controle de preços dos combustíveis
Por Folha de S. Paulo
Governo Lula quer usar receita adicional com
alta do petróleo para compensar desoneração dos derivados
Alguma mitigação do choque gerado pela guerra
no Irã faz sentido, mas subsídios custosos não podem se prolongar
indefinidamente
Há preocupações eleitorais, sobretudo, na
proposta do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
de reduzir tributos sobre a gasolina e o etanol com recursos oriundos da
arrecadação adicional a ser obtida pela União com as cotações mais altas
do petróleo.
Desde o início da guerra no Irã, os preços internacionais dispararam —o barril Brent saltou de cerca de US$ 70 para mais de US$ 100, com picos próximos a US$ 110. Até agora, porém, a alta dos preços da gasolina se limitou a 7,5% aqui, enquanto nos Estados Unidos já se aproxima de 50%.
A dupla asfixia de Cuba, por Luiz Sérgio Henriques
O Estado de S. Paulo
O caso cubano é daqueles que exigem capacidade de lidar com verdades antagônicas e até inconciliáveis
Cuba parece estar em suspensão, à espera de
acontecimentos que remodelarão sua fisionomia em futuro mais ou menos próximo.
Vive uma drôle de guerre, dir-se-ia, assemelhada à que acometeu os franceses em
1940, antes da guerra propriamente dita.
Bem verdade que as diferenças também são cruciais. Agora, prevalecendo minimamente a lógica, não se espera invasão por terra ou chuva de bombas aéreas. Em compensação, os sofrimentos humanos já são reais e não podem ser dissimulados, como se a vida pudesse seguir com a aparência de sempre. A crueldade de Donald Trump não só afeta a economia da ilha, mas irrompe na emergência dos hospitais, nos cortes de água, na escassez de alimentos e remédios.
EUA lutam sem vitórias, por Lourival Sant’Anna
O Estado de S. Paulo
A guerra no Irã contribuiu para reduzir a vantagem comparativa dos EUA perante a China no campo da defesa, num cenário de esfacelamento das alianças americanas, e ampliar o alcance do sistema financeiro chinês.
Dados do Departamento de Defesa e do
Congresso americano revelam que a guerra custa quase US$ 1 bilhão por dia. Os
EUA consumiram cerca de 1,1 mil mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance –
metade do estoque –, projetados para uma guerra contra a China.
As forças armadas dispararam mais de mil mísseis de cruzeiro Tomahawk, e compram apenas 100 por ano. Entre 1,5 mil e 2 mil mísseis críticos para a defesa antiaérea, como Thaad, Patriot e Atacms, foram usados. A reposição dessa munição pode levar seis anos.
Crise global dá recado de prudência a Lula, por Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo
Com ou sem crise internacional, as falhas da
política interna são suficientes para manter desarranjada e insegura a economia
do Brasil
As aventuras guerreiras de Donald Trump e de seu companheiro Benjamin Netanyahu foram insuficientes, até agora, para causar perdas – ou perdas visíveis – às exportações brasileiras. Com superávit de US$ 7,54 bilhões nas três primeiras semanas de abril e de US$ 21,72 bilhões desde o começo do ano, o comércio exterior do Brasil parece ter sido pouco afetado, por enquanto, pelo conflito no Oriente Médio e pela navegação restrita no Estreito de Ormuz. Desde janeiro, o País exportou US$ 103,58 bilhões, 7,6% mais que um ano antes. Para 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior projeta vendas externas de US$ 364,20 bilhões e superávit de US$ 72,1 bilhões.
Um mineirinho na parada, por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Empurrado por STF, polarização e rejeição de
Lula e Bolsonaro, Zema vai crescer nas pesquisas eleitorais
Romeu Zema, do Novo, pode surpreender e disparar nas pesquisas ou repetir os efêmeros quinze minutos de glória de Sérgio Moro em 2022, mas o fato concreto, hoje, é que ele se afirmou como o “anti Supremo” das eleições, usa a internet para massificar essa posição e conseguiu o principal: as atenções voltaram-se para ele.
Afinal, quem é esse mineiro de 61 anos, empresário, formado em Administração na FGV, sem lastro político antes do governo de Minas? Por ora, é seguro dizer que é craque em marketing pessoal, com jeitão de bom moço, sotaque caipira, mangas de camisa, dirige seu próprio carro e mora longe dos palácios. O “povo” adora.
STF e a questão democrática, por Míriam Leitão
O Globo
Os ministros precisam olhar com mais cuidado
para as próprias ações e decisões com o objetivo de proteger a democracia
Quando o STF é atacado dentro do plano de um golpe de Estado é problema de todos e o país precisa se mobilizar em defesa do tribunal. Quando é atacado pelos erros de conduta de seus ministros, eles que se defendam sozinhos. Críticas ao Supremo podem ser um risco institucional, como vimos recentemente na estratégia usada pelo governo Bolsonaro. As dúvidas em relação à conduta dos ministros e seus familiares são legítimas e estamos vendo agora. No meio do caminho, há os oportunistas como Romeu Zema.
Visita real, por Dorrit Harazim
O Globo
O atual ocupante da Casa Branca tem dado
provas de insanidade maior que a do amaldiçoado rei George III
Não é todo dia que um monarca britânico cruza o Atlântico para receber tratamento real na Casa Branca. O primeiro a ser recebido na antiga colônia foi George VI, em 1939, com a fúria nazifascista já em marcha na Europa. Sua sucessora Elizabeth II tratou de estreitar os laços, empreendendo uma visita de Estado a cada 20 anos de seu longo reinado. Dos quatro presidentes dos Estados Unidos que a receberam, ela manifestou apreço nítido apenas por Dwight Eisenhower, com quem trocou receitas de cozinha. De resto, manteve inalterado o sangue azul mesmo quando recebeu o mais improvável dos presentes, cortesia de Richard Nixon: um manual de autoajuda em oratória.
Freada de arrumação, por Merval Pereira
O Globo
A surpreendente performance até agora do
senador Flavio Bolsonaro pegou Lula e os seus sem estruturas de defesa
eficientes
A campanha eleitoral parece ter começado mesmo a partir da disputa entre o candidato Romeu Zema, ex-governador de Minas, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. O episódio parece ter aberto uma imensa avenida por onde pode passar uma candidatura alternativa à polarização entre o presidente Lula e o representante da extrema-direita Flavio Bolsonaro. Enquanto Lula mais uma vez tentará trafegar pela via da união nacional contra o golpismo, Flavio tenta se aproximar da direita moderada, ou do centro político. Ambos trilham um caminho conhecido por todos, pois a maioria do eleitorado é conservador e centrista e esse típico “swing vote” brasileiro é que define a eleição há muito tempo.
A caixinha da repressão, por Bernardo Mello Franco
O Globo
Telegramas reunidos em novo livro revelam que
Fiesp criou falso fundo educacional para financiar centro de tortura
No fim de 1971, o comandante do II Exército,
general Humberto de Sousa Melo, procurou a Fiesp com um pedido. Queria dinheiro
dos empresários paulistas para montar o DOI-Codi, sucessor da Operação
Bandeirante.
O americano Thomas Romanach, presidente da
General Electric do Brasil, foi convidado para as conversas. Entusiasmado com o
que ouviu, recrutou outros executivos de multinacionais para abastecer a
caixinha da repressão.
As reuniões são detalhadas em “Olhares ianques: A ditadura brasileira nos arquivos americanos”, novo livro do historiador Felipe Loureiro. Professor da USP, ele leu centenas de telegramas diplomáticos em busca de novos dados sobre a colaboração entre o empresariado e os porões do regime.
O arquivo de Cyro Etchegoyen, por Elio Gaspari
O Globo
São 23 pastas, com
3 mil folhas de documentos, contando parte da carreira do 'Doutor Bruno' na
casa e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE
Três repórteres do
ICL Notícias (Juliana Dal Piva, Chico Otavio e Igor Mello) desvendaram um dos
mistérios dos “anos de chumbo”: a conexão do aparelho repressivo da ditadura
com os serviços de informação da Inglaterra. Conheciam-se algumas pistas, mas a
trinca expôs o monstro nos seus detalhes, na série da reportagens “Bandidos de
Farda”.
Eles trabalharam
em cima do arquivo deixado pelo coronel Cyro Etchegoyen, um dos cabeças do
Centro de Informação do Exército, o CIE, de 1971 a 1974. São 23 pastas, com 3
mil folhas de documentos, contando parte da carreira do “Doutor Bruno” na casa
e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE. A chamada
“Casa da Morte” era uma fábrica de “cachorros”, nome dado aos militantes de
organizações de esquerda que eram presos, soltos e infiltrados na militância.
Quem aceitava o novo papel vivia. Os demais morriam. Estima-se que lá tenham
sido assassinadas 22 pessoas. Só Inês Etienne Romeu (1942-2015) contou o que
viu.
Conheciam-se colaborações dos serviços americanos e franceses. Dos ingleses só se tinham pistas esparsas.
O poeta, o carteiro, o rombo dos Correios e o modelo logístico alemão, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A privatização dos Correios
não é uma questão ideológica, nem a favor, nem contra, decorre de fatores
econômicos, estruturais e políticos que tornam a estatal insustentável
O Carteiro e o Poeta (Il Postino) é um filme de 1995, belíssimo, que se baseia em fatos verídicos: a amizade, numa pequena ilha da Itália, em 1953, entre um carteiro que mal sabe ler e o poeta Pablo Neruda, que o governo italiano aceitou como exilado do Chile, desde que ficasse quieto em lugar distante e não perturbasse. O diretor Massimo Troisi brilha neste seu último filme: morreu do coração, aos 41 anos, em 1994, ano das gravações. A música é do maestro Luís Bacalov, que fez Os Saltimbancos. A fotografia e as locações são espetaculares.
PT coloca comunicação no centro da estratégia eleitoral de 2026
Por Vanilson Oliveira / Correio Braziliense
Partido aposta em narrativa digital e defesa
do legado de governo para enfrentar os adversários
A estratégia eleitoral do Partido dos
Trabalhadores para 2026, um dos temas discutidos durante o 8º Congresso
Nacional do partido é a comunicação, eixo considerado decisivo pela direção da
legenda. O PT, já vem, inclusive, investindo fortemente neste mês de abril em
publicidades na redes sociais, com vídeos que defendem a soberania, o pix,
entre outros temas.
Em meio a um ambiente político marcado por polarização e desinformação, o partido busca estruturar uma rede de divulgação capaz de fortalecer a imagem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sustentar a disputa eleitoral nos próximos meses. O Correio conversou com o presidente do PT, Edinho Silva, que revelou que o desafio central é fazer com que as ações do governo cheguem à população de forma clara.
Como punir a corrupção na Justiça? Por Flávio Dino*
Correio Braziliense
Os agentes públicos, como regra inafastável
no exercício de seus cargos/funções, ou fora deles, devem orientar suas ações
pela probidade, retidão, justiça, integridade, optando pelos caminhos que
melhor alcancem o bem comum
Ingressei na magistratura federal em concurso público realizado em 1993/1994. Em uma análise comparativa entre o ontem e o hoje sobre corrupção no Sistema de Justiça, algo continua igual: a imensa maioria dos integrantes das carreiras jurídicas está longe desse mal, sem "comprar", "vender" ou falsificar decisões, pareceres, indiciamentos etc. Contudo, três aspectos mudaram para pior: o primeiro, a quantidade de casos aumentou; o segundo, esses casos se tornaram mais graves, envolvendo elevados montantes e sofisticadas redes de lavagem (inclusive fundos de mercado); e, por fim, aumentou o exibicionismo dos ímprobos.
O bafo quente das eleições de 2026, por Ana Dubeux
Correio Braziliense
Proteger a verdade, lutar contra a
desinformação e abraçar valores humanos são missões coletivas na campanha
eleitoral
Já dá para sentir o sopro no cangote, como se
diz no meu Nordeste. O ano voa e as eleições estão logo ali. Se as últimas duas
campanhas eleitorais nos mostraram o poder das redes, das mídias sociais, do
WhatsApp, além do fenômeno das fake news, nesta teremos a avassaladora presença
da inteligência artificial generativa, uma ferramenta incrível, mas também
usada para propagar desinformação em alta escala. Estamos correndo riscos.
Somada à polarização política exacerbada e à exposição ao excesso de informação e a todos os ruídos que isso provoca, a campanha promete ser uma prova de resistência longa, estressante, barulhenta e perigosa. O cenário mundial não é dos melhores e essa energia reverbera, provocando medo e angústia. Aqui, parece que não conseguimos superar a última eleição e já chega a próxima, animada por escândalos político-econômicos e crise institucionais entre Poderes.
Será que é infeliz a nação que precisa de heróis? Por Isabel Lustosa*
Folha de S. Paulo
Conceito inclui uma contradição intrínseca: a
parte humana não está dissociada do caráter extraordinário de seus atos
A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de
seu ídolo, Napoleão, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais
impressionantes
O artigo "’Honrar
heróis’ do passado só disfarça horror antigo" (11/4), do colunista Reinaldo José
Lopes, publicado nesta Folha, trouxe-me à memória a frase final da
peça de Bertolt
Brecht que vi na adolescência, em Fortaleza, encenada no Teatro
Oficina e tendo Renato Borghi no
papel título: "Galileu
Galilei".
A renúncia do astrônomo às teses que vinha difundindo sobre o sistema solar, depois das ameaças da Inquisição, decepcionou seus admiradores. Entre os instrumentos de suplício que lhe mostraram e a defesa de suas descobertas científicas, ele escolheu salvar a pele.
O lugar de Flávio Bolsonaro na história de truques e estelionatos eleitorais do Brasil, por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Candidato chamou de fake news reportagem da
Folha que tratou de seu plano econômico
Quebras de promessas de campanha costumavam
arruinar o prestígio de presidentes
Dias antes de Fernando Collor se sentar na
cadeira de presidente, eu estava em uma fila de banco, como quase todo o mundo
preocupado com mais um pacote econômico por vir. Uma poupança mirrada seria
juntada na conta-corrente ao salário e ao 13º antecipados. Sairia de férias
e temia
confisco.
Perto de mim estava uma senhora miúda, que parecia de poucas posses, de lenço na cabeça como tantas mulheres então chamadas de "crentes". "O senhor acha que o homem [Collor] vai pegar o dinheiro que a gente tem na conta?" —perguntou algo assim. Respondi que temia o sequestro da poupança, mas achava difícil que mexessem "na conta".
Do petrolão ao Master: dez anos do impeachment de Dilma, por Celso Rocha de Barros
Folha de S. Paulo
Uma década depois, a direita novamente
consegue lucrar com a onda da indignação política, mas a manobra é muito mais
impressionante
As perdas causadas pelo Master mal começaram
a ser contabilizadas, e podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma
ordem de grandeza
O caso Master é a melhor festa de aniversário
de dez anos possível para o impeachment de Dilma
Rousseff.
As perdas causadas pelo Master mal começaram a ser contabilizadas, mas já podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma ordem de grandeza do petrolão, que parou o país por dois anos e foi a causa imediata do impeachment de 2016.
A alegria trágica das ruas, por Muniz Sodré
Folha de S. Paulo
Entre nós, trágica é a absoluta falta de
lucidez das classes dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania
por meio da corrupção do Estado
Violência estrutural e desalento coletivo
atestam que o trágico, além de existencial, é histórico e social
As redes mostraram: em meio ao quase colapso total da infraestrutura civil de Cuba, Chico Buarque, que tinha ido fazer uma gravação, despediu-se num passeio frente ao mar. Dele se aproximou um grupo afro-cubano, desses que povoam as ruas de Havana com instrumentos musicais às mãos. Abraçaram-no efusivamente, pediram que cantasse. Chico soltou a voz em espanhol, acompanhado por eles ao violão e maracas. E de repente parecia que o instante alegre resgatava a nação cubana do infame bloqueio que lhe cerceia há décadas acesso a recursos energéticos, alimentos, vida normal, enfim.
Flávio Bolsonaro tem obstáculos a vencer até as urnas, por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
A vida real impõe grandes desafios aos hoje
favoritos nas intenções de votos para a eleição a presidente
A situação é mais difícil para o filho de
Jair, que enfrenta divergências internas e resistências externas
Enquanto os pretendentes do PT e do PL figuram nas pesquisas como favoritos na eleição presidencial, a vida real impõe desafios às posições hoje de ponta de Luiz Inácio da Silva e Flávio Bolsonaro nas intenções de votos. O ponto de convergência nas dificuldades é a rejeição a ambos.
Queridas ênclises, próclises e mesóclises, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Jânio Quadros me bombardeou por três horas
com dar-lhe-ias, lembrar-me-eis e enviar-vos-emos
Por que matar certas formas de escrever por
serem antigas? Pound propunha fazer do velho o novo
Em 1983, repórter da Folha, fui a Guarujá entrevistar Jânio Quadros. Durante quase três horas de conversa, ele tomou uma garrafa do uísque Cutty Sark, a caubói. Eu, modestamente, dei conta de uma garrafinha gelada da vodca Wiborowa. Depois, Jânio convidou-nos a mim, ao fotógrafo e ao motorista da Folha para almoçar ("Eloá faz questão!"). O rango foi com cerveja e, após a sobremesa, Jânio serviu licores. Como tinha de voltar para o jornal e escrever a matéria, moderei nesses bebericos. Mas Jânio mandou cada gole para dentro e, ao fim da jornada etílica, continuava não apenas sóbrio como, com sua cômica voz de frango, colocando as ênclises, próclises e mesóclises com perfeição.
Angelo Agostini, por Ivan Alves Filho*
Estamos falando de Angelo Agostini, cujos desenhos encantam ainda hoje pelo sopro libertário e alegria do traço. E também pelo pioneirismo tanto estético quanto político. Conforme salientou o respeitado historiador e crítico literário Nelson Werneck Sodré, "suas caricaturas, por vezes contundentes, puseram a nu os traços grotescos da classe dominante brasileira do tempo, suas irremediáveis mazelas, seu atraso insuportável". Autor de exatos 57 livros, versando sobre os mais diferentes domínios do conhecimento humanístico, o mínimo que se pode dizer é que Nelson Werneck Sodré sabia muitíssimo bem o que estava afirmando.
sábado, 25 de abril de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Antagonizar Trump convém a Lula
Por Folha de S. Paulo
Petista, que já se beneficiou da oposição ao
tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã
Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao
conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do
americano
O antiamericanismo, amparado em momentos da
história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América
Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto
o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um
aliado próximo.
Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.
Tempos movediços, por Marco Aurélio Nogueira*
O Estado de S. Paulo
O mundo exige que saibamos pensar, agir e
dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia
A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.
Depois de 16 anos sucessivos no poder, o
primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo
sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar,
flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.
Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.
A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.
O que um editorial não diz, por Vanessa Ribeiro Mateus*
O Estado de S. Paulo
Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo
O debate sobre o regime remuneratório da
magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados,
que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se
a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado
pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao
contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do
mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função
– que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país
de conflitos sociais permanentes.
Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.
Um case do Supremo, por Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo
Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.
Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.
Trabalho que mata, por Flávia Oliveira
O Globo
Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a
vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.
O truque do bem, por Thaís Oyama
O Globo
Deputada desloca a discussão de projeto que
defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais
Poucas falácias têm prosperado tanto no
Brasil quanto invocar um princípio universal para legitimar uma causa de
interesse particular. A deputada Erika Hilton, do PSOL, recorre ao expediente
quando diz que os críticos de versões do Projeto de Lei (PL) que criminaliza a
misoginia tentam tirar “o direito das pessoas à informação” e “manipular o
debate contra a luta das mulheres por um país menos violento”.
Ao deslocar a discussão de um projeto que ela defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais (não se tem notícia de que alguém seja contra um país menos violento, contra o direito à informação e a favor do feminicídio), ela rebaixa críticos da proposta à categoria de inimigos da civilidade. Mas não só.
Novíssimo Dicionário de Carioquês, por Eduardo Affonso
O Globo
Graças aos investimentos maciços na
linguagem, a cidade não tem mais mendigos, apenas pessoas em situação de rua
Outono: Espécie de
verão fora de época; definição aplicável também ao inverno e à primavera.
Faixa de pedestre: Pintura decorativa
feita no asfalto para que os pedestres tenham o que admirar enquanto aguardam
que um deus ex-machina providencie a redução do trânsito.
Amendoeira: Árvore fetiche da cidade, cantada em prosa e verso, que tem a dupla vantagem de fornecer frutos de escasso valor nutritivo para a fauna nativa e causar danos permanentes a calçadas, muros e tubulações. Só é removível quando desaba, durante um vendaval, destruindo fiação, veículos e tudo o mais que houver à sua volta.
Candidatos em desfile, por André Gustavo Stumpf
Correio Braziliense
Este é o momento em que as coisas não são
exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a
opinião pública
A campanha eleitoral começa a aparecer no horizonte político brasileiro. De várias maneiras. O ex-governador Romeu Zema, de Minas Gerais, candidatíssimo, abriu o verbo e atacou sem meias palavras os poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Alguns deles, por sua vez, continuaram a exibir argumentos em momento que, dia a dia, se torna mais tenso. O governo Trump, que não perde oportunidade de cometer deslizes, despacha policial brasileiro de volta para casa. O presidente Lula enxerga no episódio momento especial para retaliar. Manda retirar credenciais de policial norte-americano que estava em Brasília. Brigar com Washington rende votos no Brasil.
Juventude, redes e extremismo, por Juliana Diniz
O Povo (CE)
Empresas privadas poderosas, com imensa
capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado
eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a
juventude e a tolerância com a violência
Durante a semana, uma entrevista com o jovem influenciador norte-americano Nick Fuentes viralizou nas redes sociais, alcançando milhões de visualizações não só nos Estados Unidos, mas em países do arco de influência da democracia americana, como o Brasil. Na entrevista, Fuentes é indagado: que direito retiraria das mulheres se tivesse a chance? Sem titubear, ele afirma que começaria pelo direito ao voto.
Não será trivial Lula negar ajuda ao BRB, por Adriana Fernandes
Folha de S. Paulo
Quando governadora do DF formalizar pedido de
aval do Tesouro a empréstimo, presidente será forçado a decidir
Licença é semelhante à que o Tesouro concedeu
aos Correios, estatal com histórico de corrupção e má gestão
Não será trivial para o presidente Lula negar
o aval do Tesouro Nacional ao empréstimo de R$ 6,6 bilhões que o governo
do Distrito
Federal pleiteia junto ao Fundo Garantidor de Crédito para
salvar o BRB em
pleno ano eleitoral.
O senso comum leva a pensar que cabe ao BRB, que se meteu nas falcatruas do Master, sair dessa encrenca sozinho, sem impor ônus à União e ao contribuinte, ou sofrer intervenção do Banco Central.



















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