domingo, 4 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Zygmunt Bauman

“Nós nos acostumamos a encarar o ser humano apenas como unidade estatística. Não ficamos chocados ao vermos indivíduos como força de trabalho. O poder de compra de uma sociedade ou a capacidade de consumo tornaram-se critérios cruciais para se avaliar o grau de adequação de um país para se associar ao clube do poder, ao qual aplicamos os sonoros títulos de várias organizações internacionais. A questão de saber se você é uma democracia só se torna relevante quando você não tem nenhum poder e, portanto, deve ser controlado por meio de varetas retóricas ou políticas. Se você é rico em petróleo ou pode consumir ou investir muito, isso o absolve de suas falhas em respeitar a política e as sensibilidades morais modernas ou permanecer comprometido com as liberdades civis e os direitos humanos.

*Zygmunt Bauman (1925-2017), Filósofo polonês, foi o grande pensador da modernidade e deixou uma vasta obra. ‘Mal líquido’, p.191. Editora Zahar, 2019.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tirania de Maduro não justifica ataque de Trump

Por O Globo

Violação da soberania venezuelana estimula pretensões imperiais da Rússia sobre Ucrânia ou da China sobre Taiwan

Não faltariam motivos para os venezuelanos celebrarem a queda do ditador Nicolás Maduro. Ele consolidou o regime bolivariano como autocracia corrupta, subjugou Legislativo e Judiciário, sufocou a imprensa profissional, fraudou as últimas eleições para se manter no poder, foi incapaz de recuperar o PIB venezuelano da queda de mais de 70% durante o chavismo (estima-se que mais de metade da população viva em pobreza extrema) e é com frequência citado como violador contumaz de direitos humanos — a última missão da ONU constatou em dezembro um “padrão de uma década de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual” dirigidas contra opositores do regime. Nada disso, contudo, pode servir de justificativa à incursão dos Estados Unidos que o depôs. Trocar Maduro por um futuro incerto não trará alívio ao povo venezuelano.

Razões mais profundas. Por Merval Pereira

O Globo

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada por Trump para a intervenção militar na Venezuela.

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada hoje pelo presidente Trump para a intervenção militar na Venezuela. Embora o narcoterrorismo seja a base das acusações, a questão econômica foi defendida pelo governo americano como razão fundamental para a ação, desde a alegada compensação pela estatização do petróleo, radicalizada pelo governo Hugo Chávez nos anos 2000, até a necessidade de exploração petrolífera mais eficiente devido à politização da PDVSA, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

Ilusionismos. Por Dorrit Harazim

O Globo

Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições na agenda, convém lembrar o poder de manipuladores de massas

Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época (1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de 1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.

É o petróleo, estúpido!. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao justificar derrubada de Maduro, presidente diz que "tomará de volta" o que foi nacionalizado por Chávez

Durou pouco, quase nada, o teatro americano para justificar a intervenção militar na Venezuela. Donald Trump iniciou o pronunciamento de ontem com acusações antigas e não comprovadas de que Nicolás Maduro estaria por trás de um cartel “narcoterrorista”. Minutos depois, escancarou que seu interesse no país é outro. “Vamos tomar o petróleo de volta. Francamente, já deveríamos ter tomado há muito tempo”, declarou.

A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A cifra é estimada em 303 bilhões de barris, o que põe o país à frente de fundadores da Opep como Arábia Saudita e Irã. Por décadas, os recursos do subsolo venezuelano foram explorados por petroleiras dos EUA. Isso começou a mudar em 1976, com a criação da estatal PDVSA. E ficou para trás em 2009, com as nacionalizações de Hugo Chávez.

Lembrai-vos da ‘Pasta Rosa’. Por Elio Gaspari

O Globo

Onde a investigação do Banco Master tem suspeitas e indícios de uma rede de proteção política, no caso da Pasta Rosa eram certezas documentadas

A “Pasta Rosa” foi achada em 1995, no gabinete do banqueiro e ex-ministro Ângelo Calmon de Sá. Com oito centímetros de espessura, ela continha a escrituração do ervanário despejado pela federação dos bancos e pelo Banco Econômico nas últimas eleições à época. Era o sonho do investigador, a clientela da banca ia de Roberto Campos a Antônio Carlos Magalhães. Cerca de 50 políticos passavam pela pagadoria do Banco Econômico.

Onde a investigação do Banco Master tem suspeitas e indícios de uma rede de proteção política, no caso da Pasta Rosa eram certezas documentadas. Nos seus dias de fama, a Pasta Rosa parecia instruir uma faxina nas relações dos políticos com a banca. Ilusão democrática. Aos poucos, a Pasta Rosa foi sumindo do noticiário, até virar História.

O risco do ataque vai além de Caracas. Por Míriam Leitão

O Globo

Mantido por fraude e força militar, Maduro era indefensável, mas a arrogância imperialista de Trump é uma ameaça a qualquer país

Quando alguém se coloca como um poder incontrastável, como fez o presidente Donald Trump, todos estão em perigo. Ele ampliou suas ameaças para além de Nicolás Maduro, capturado. Falou de outros governos, inclusive democráticos. Não por acaso Trump, na entrevista que concedeu para falar do ataque militar à Venezuela, fez referências às cidades e aos estados americanos aos quais impôs o envio de forças federais. Ao falar do Congresso , ele disse não ter comunicado antecipadamente, porque eles “vazariam” a informação. A operação foi contra Maduro, mas a ameaça foi bem mais ampla.

Geopolítica da paz pela força. Por Cristina Soreanu Pecequilo

Correio Braziliense

A Venezuela é um pivô para o efeito demonstrativo da contrarreação dos Estados Unidos à presença da China e de seu projeto da Iniciativa do Cinturão e da Rota (ICR) na América Latina

Em 3 de Janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma intervenção militar na Venezuela, retirando do poder e prendendo o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores. Após meses de deslocamento de embarcações dos Estados Unidos ao Caribe e ações militares marítimas, a operação chegou a termo. Sob acusações de patrocinar o narcotráfico e o terrorismo internacional (o narcoterrorismo), Maduro e Flores seguiram para os Estados Unidos em uma embarcação norte-americana, para enfrentar julgamento. Como compreender essa intervenção? Existem projeções possíveis?

Southern Spear e a Lei da Selva. Por Gunther Rudzit

Correio Braziliense

Cuba foi mencionada nominalmente, o que sinaliza que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como precedente

A entrevista concedida por membros do governo de Donald Trump, incluindo o próprio presidente, após a operação militar denominada Southern Spear, foi decisiva para compreender o que tende a vir pela frente no sistema internacional e, em especial, no hemisfério ocidental. Mais do que esclarecer detalhes operacionais, o discurso oficial funcionou como mensagem estratégica, dirigida tanto a aliados quanto a adversários.

O Tio Sam está de volta! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026

O ataque à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro soterram a era chavista no país e abrem uma nova fase de Donald Trump contra o multilateralismo e suas instituições mundo afora. Depois de detonar o sistema internacional de comércio com o tarifaço, ele agora quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras.

Invasão à Venezuela impõe nova era à América do Sul. Por Lucas Pereira Rezende

Folha de S. Paulo

Para o Brasil, fica claro que não será aceito o papel de mediador em questões locais prioritárias para Trump, prejudicando sua liderança regional

Não existe mais em Washington qualquer visão sobre democracia liberal; é a política do poder em sua pura expressão

Muda-se tudo na política sul-americana a partir dos fatos ocorridos neste sábado (3). Mas, mais do que isso, muda-se mais ainda no xadrez da política internacional.

Donald Trump, com a invasão à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Floresambos ilegais sob quaisquer legislações que se escolha, e independentemente do quão urgente fosse o fim do regime autoritário venezuelano, já tem uma guerra —e uma vitória— para chamar de sua.

Minhas regras para a eleição de 2026. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Aconselho não dar ouvidos a ninguém que não as respeite na campanha deste ano

Proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha

Graças ao fracasso do bolsonarismo na eleição de 2022, ao fracasso do bolsonarismo no golpe de 2022-2023, ao fracasso do bolsonarista Luiz Fux no STF e ao fracasso do bolsonarismo na tentativa de mobilizar Donald Trump contra a democracia brasileira, o Brasil terá eleições livres para presidente no final deste ano.

Nessa primeira coluna de 2026, proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha.

Uma instituição que se decompõe. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Câmara tornou-se instrumento de abolição dos valores republicanos em benefício de irmãos e parentes

Seres vivos e civilizações morrem, assim como regimes e instituições, incapazes de autorreflexão: elas não pensam, e sim os indivíduos que as compõem

Ao sancionar o Orçamento de 2026, o presidente da República sanciona também a obscena transição no poder do velho patrimonialismo clientelista para o tribalismo predatório e extrativista das novas gerações, atraídas por Bolsa e fortuna política, agora acoitadas no Parlamento. O império da desfaçatez não comporta uma ética da vergonha na cara: os cortes nas verbas da Capes e do CNPq foram redirecionados para completar os R$ 61,2 bilhões em emendas. Escândalo que passa batido.

As desventuras em série do clã Bolsonaro. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

'Seu Jair' e família colecionam perdas cavadas pelas próprias mãos e a poder de reiterados tiros nos pés

A presença do sobrenome na eleição presidencial seria o último refúgio dos campeões de danos autoinfligidos

Uma das várias questões em aberto sobre a eleição deste ano é se Flávio Bolsonaro (PL) manterá sua candidatura à Presidência da República. Outra diz respeito ao grau de influência do sobrenome do ex-presidente nas disputas país afora e uma terceira tem a ver com o volume de perdas que atingem a família e companhia.

O pai, preso sem chance por ora de cumprir pena em regime domiciliar e apontado nas pesquisas como responsável pelos próprios erros; o primogênito, alvo de enorme rejeição, arrisca-se a perder a renovação quase certa do mandato de senador pelo Rio de Janeiro.

Quem manda agora na Venezuela? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Trump disse que acertou transição com vice, Delcy Rodríguez, para quem a luta continua

Os subs de Maduro, Delcy, general Padrino e Cabello, continuavam no poder até sábado de tarde

Donald Trump diz que os EUA vão "administrar" a Venezuela até uma transição "segura, adequada e criteriosa". Trump entraria em um pântano tal qual Afeganistão e Iraque? Improvável, pois a base popular dele detesta a ideia, que de resto custaria caro.

Como seria, então? Trump disse apenas que Marco Rubio, seu secretário de Estado, ferrabrás da direita, havia conversado com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Nicolás Maduro, presidente-ditador até sexta passada (2). Faz sentido?

Importa, até para discutir consequências do ataque. Por ora, sabe-se que: 1) O império fora da lei de Trump levou Maduro; 2) Houve "recado", como disse Rubio: Trump "não está para brincadeira", alerta para outros governos, pelo menos para aqueles que não têm armas, como as têm China e Rússia; 3) A América Latina pode levar bomba como um Irã e deveria entrar na linha, indicam os americanos.

Poesia | O menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros

 

Música | Roda Viva - Chico Buarque

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas

“Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países..

Aparentemente, esses novos tipos de regimes autoritários não podem ser atribuídos às circunstâncias particulares de uma transição fracassada das formas de governo pós-soviéticas.

Provavelmente, são mais como precursores do desmantelamento, democraticamente legitimado, da democracia mais antiga da Terra e da rápida construção e expansão de uma forma de governo libertário-capitalista, administrada tecnocraticamente. O que estamos observando nos EUA é a mesma transição de um “sistema” para outro — nem mesmo particularmente gradual, mas sim discreta diante de uma oposição mais ou menos paralisada: a última ou penúltima eleição democrática foi o início, há muito anunciado, de uma rápida expansão arbitrária e autocrática de um poder executivo que foi simultaneamente reduzido e expurgado.

Trump está abusando desse poder sem levar em consideração as objeções de um sistema jurídico que agora se encontra em um vácuo e vem sendo gradualmente esvaziado de cima para baixo. O presidente primeiro usurpou poderes legislativos do Congresso com sua rigorosa política tarifária e está tentando restringir gradualmente a independência da imprensa e do sistema universitário. Em seguida, intimidou a oposição por meio do envio não solicitado da Guarda Nacional para grandes cidades como Los Angeles, Washington e Chicago. A mera presença deles sinaliza a disposição do governo de usar o exército — já subjugado em seus altos escalões — contra seus próprios cidadãos, se necessário.”

*Jürgen Habermas (1929), é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pente-fino nos CACs não precisava ter demorado tanto

Por O Globo

Na posse, Lula assinou decretos revogando armamentismo, mas até agora não conseguiu controlar arsenal

No dia de sua posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto revogando atos do governo Jair Bolsonaro que facilitavam o acesso a armas. Até agora, porém, três anos depois, o governo se revelou incapaz de reduzir o arsenal em poder da população. Cadastrados legalmente como colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) se tornaram uma das principais fontes de suprimento dos arsenais do crime organizado. Depois de uma demora injustificável, a Polícia Federal (PF) se prepara enfim para realizar um pente-fino no cadastro de 1,5 milhão de donos de armas que expiram em 2026. Já não era sem tempo.

Bolsonaro estava escrito nas estrelas? Por Thaís Oyama

O Globo

Consultas recentes mostram que ex-presidente expressa crenças, preocupações e ressentimentos de boa parte dos brasileiros

Em 2011, quase ninguém dava bola para Jair Bolsonaro. Desprezado pelos jornais, o deputado do baixo clero contentava-se em ser entrevistado em programas humorísticos e de auditório, cuja audiência ajudava a levantar com respostas do tipo: não, ele não participaria de uma parada gay, acreditava “em Deus e na preservação da família” e não tinha o hábito de promover “maus costumes”. Eram falas sem grandes consequências porque Bolsonaro não era levado a sério —tratava-se praticamente de um zé-ninguém.

E como um zé-ninguém continuava sendo visto por seus pares em Brasília e por boa parte da imprensa quando, no final de 2016, passou a ser recebido nos aeroportos do país por multidões que o carregavam nos ombros e o chamavam de “mito”. Em 2018, candidato a presidente, foi primeiro ridicularizado; depois, subestimado. Com o crescimento de seu nome, analistas entraram em negação. Era uma piada que logo perderia a graça. Uma bolha das redes. Um Cacareco que atingira seu teto.

Nas miudezas, a vida. Por Flávia Oliveira

O Globo

Luiz Antonio Simas, autodefinido como historiador das miudezas, estuda, escreve, ensina sobre foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, cordelistas, meninos descalços, goleiros frangueiros, romances de subúrbio. O rol está em “Pedrinhas miudinhas – Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros” (Mórula, 2013), que voltei a folhear pensando no meu próprio inventário de virada de ano.

O ano de 2026 promete. Por Eduardo Affonso

O Globo

Caso o código de conduta do STF não vingue, a saída pode ser um Supremíssimo, formado por ex-presidentes da Corte aposentados

O ano de 2025 terminou com o pé esquerdo — vide o cancelamento das sandálias que deformam a defesa da democracia, têm cheiro de irresponsabilidade fiscal e não soltam a mão de ninguém (só dos que ousam pensar de forma diferente). É como se os críticos do politicamente correto aprofundassem o gosto pela problematização e, em vez de enxergar racismo, machismo e homofobia em tudo, passassem a farejar viés ideológico. No lugar de Monteiro Lobato, os banidos em 2026 poderão ser Noel Rosa e Vadico — que, com inequívocas segundas intenções, alertaram, 90 anos atrás: Feche a porta da direita/com muito cuidado.

A divisão do tempo. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O primeiro dia do ano não revela nada além do que vinho e espumante permitem sonhar

Quem dividiu o tempo em parcelas trabalhou com muita inteligência. A cada vencimento de ano, as pessoas renovam esperanças na expectativa de que um novo tempo se inicia. Na verdade, o tempo é contínuo, homens e mulheres caminham irreversivelmente para o fim, coisa difícil de imaginar, perceber e sentir. Melhor não pensar nisso. Ficamos todos mais velhos com o simples andar do relógio. Meia-noite, novo tempo, nova idade e novas expectativas que se baseiam nas realidades anteriores. É melhor ter esperança do que se angustiar com a realidade.

Admiráveis novos terrores. Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Nosso enredo é esse. Lá fora é diferente, e há quem se atreva a dizer que é um pouco pior

A partir de agora, em pleno ano eleitoral, o enredo é conhecido. Se os políticos de centro não forem capazes de encontrar um candidato sério, competente e competitivo, Lula, docemente constrangido, aceitará ser reeleito e quem sabe até pleitear um terceiro e um quarto mandato, como vem se tornando regra na América Latina e até nos Estados Unidos. O quilômetro zero da loucura que estamos vivendo foi lá atrás, em 2002, quando Lula, em vez de celebrar o controle de uma série de superinflações que já duravam 33 anos, qualificou-a como a “herança maldita” de Fernando Henrique Cardoso.

Diretrizes para plano de voo. Por Miguel Reale Junior

O Estado de S. Paulo

Se não for por este caminho, será mais do mesmo em 2026, mas com o dobro do descontentamento manifestado nas ruas em 2013

Dois estudos exigem detida análise para se decifrar o que vem a ser o Brasil dos anos 20 do nosso século: o levantamento sobre valores e crenças dos brasileiros, publicado sob o título Brasil no Espelho (Globo Livros), de Felipe Nunes e O Brasil dos Invisíveis, de Pablo Ortellado e Stephen Hawking, pesquisa da More in Common, com nova perspectiva sobre os segmentos políticos.

Não se trata de espelho a refletir apenas a imagem externa, mas de verdadeira tomografia da alma brasileira. Se por uma ideia se morre, mas por uma crença se vive, conforme Ortega y Gasset, é importante decifrar, com perguntas reveladoras das escolhas valorativas, no que crê a nossa gente.

Sobre a criminalização do BC. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O caso Master não existiria – não como o conhecemos – sem aqueles, os políticos, os eleitos, cujas atividades foram decisivas à prosperidade fraudulenta do banco. Não estamos diante apenas de empreendimento criminoso contra o sistema financeiro. Essa conta não fechará sem corrupções, sem coação – sem gestões de quem controla o poder.

Essa conta avança desviada-distraída, com o Banco Central de repente entre os suspeitos. A desqualificação do BC é estratégia de defesa que se tornou influente. A autoridade monetária não está entre os investigados.

A economia da percepção. Por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A economia sentida (pelo cidadão) pesa mais no voto do que a economia medida pelas estatísticas

Como é usual todo início de ano, tentamos enxergar o que nos espera ao longo dos próximos meses. Uns com visões mais otimistas, outros pintando um quadro com cores mais escuras. Mas, algo é comum – a nossa percepção nem sempre corresponde aos fatos e aos dados, principalmente num mundo digital em que as fake news correm à solta.

Se não seguir rigor técnico, TCU sai desmoralizado no caso Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

O ministro relator Jhonatan de Jesus, do TCU, pode querer matar no peito e dar cautelar suspendendo a liquidação

A decisão de conceder ou não a medida é do relator e pode ser feita em qualquer fase do processo

Relator do processo que apura falhas e omissões no caso Master, o ministro do TCU Jhonatan de Jesus pode até querer matar no peito e dar uma cautelar suspendendo a decisão do Banco Central de liquidar o banco sem a análise da área técnica do tribunal.

Promessas de políticos. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula disse várias vezes ao longo da campanha de 2022 que seria presidente de um só mandato

Obrigar legalmente candidatos a cumprir promessas não funcionaria, mas eleitor deveria punir pelo voto quem abusa de falsidades

Às 8h21 do dia 25 de outubro de 2022, o perfil oficial de Lula no X (@LulaOficial) cravou: "Eu se eleito serei um presidente de um mandato só. Os líderes se fazem trabalhando, no seu compromisso com a população". Essa, me parece, foi a mais "oficial" das promessas de Lula de que não disputaria a reeleição, mas não a única. Em entrevistas e em outros posts, deu várias declarações com esse mesmo teor. Devemos exigir de políticos que cumpram suas promessas?

A história que Valdemar quer enterrar, mas não consegue. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Fuga de condenado na trama golpista complica o líder do PL

Explorado nas redes, relatório sobre urnas apontava vitória de Bolsonaro em 2022

Único foragido entre dez condenados pela trama golpista que se tornaram alvos de mandados de prisão após a escapada estilo trapalhão de Silvinei Vasquez, o engenheiro Carlos César Moretzsohn Rocha deixou o champanhe de Ano Novo de Valdemar Costa Neto sem borbulhas e com gosto de vinagre.

Ao lado da minuta que previa a prisão de Alexandre de Moraes e a realização de novas eleições, o relatório sobre as urnas eletrônicas do Instituto Voto Legal, de Carlos Rocha, é um dos mais importantes documentos da participação civil na intentona bolsonarista —documento que pode condenar Valdemar.

Entrevista | Público, de fato

Por Fabíola Mendonça / CartaCapital

A saída é “desprivatizar” o sistema de saúde, defende a pesquisadora Lígia Bahia

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisadora Lígia Bahia não vê outra alternativa para a saúde pública no Brasil a não ser a “desprivatização” do setor. A estudiosa reconhece os esforços do governo Lula para retomar projetos praticamente destruídos por seus antecessores, como o Programa Nacional de Imunização, mas afirma que os avanços estão muito aquém da necessidade da população. Na entrevista a seguir, Bahia defende o fortalecimento do SUS a partir de financiamento que priorize uma saúde pública mais igualitária, a partir de programas como o ­Agora Tem Especialistas, recém-lançado pelo Ministério da Saúde. “A saúde, necessariamente, tem de ser política de Estado, não de governo. Entretanto, ela tem sido política de diversos governos, com interrupções. Precisamos caminhar para um sistema mais articulado ­público-privado, mais ‘desprivatizado’ e com maior controle de preços, que não estimulem a desigualdade social.” A pesquisadora ainda fala sobre o impacto da tecnologia no setor, da necessidade de quebra de patentes e defende para um eventual quarto governo Lula que o Ministério da Saúde não seja o único provedor.

Entrevista | A lei da bala

Por Mauricio Thuswohl / CartaCapital

Décadas de arbitrariedade policial não reduziram a violência no País, ao contrário, lamenta Julita Lemgruber

Ex-ouvidora da polícia do Rio de Janeiro e ex-diretora-geral do sistema penitenciário, além de integrante do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça, Julita Lemgruber acumula experiência no “campo de batalha” e na academia. Uma das criadoras, 25 anos atrás, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), pioneiro nos estudos e pesquisas do tema, Lemgruber lamenta, a despeito do excepcional trabalho desenvolvido pela entidade ao longo do tempo, não ter muito a comemorar. “Houve um agravamento dos principais indicadores de criminalidade, aumento dos homicídios, da letalidade policial e do encarceramento”, resume nesta entrevista ao repórter Maurício Thuswohl. “Ao invés de investimentos em polícia técnica e inteligente, apostamos na barbárie.”

Poesia | O Mar e o Canavial, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Roberta Sá - Eu sambo mesmo

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Manuel Castells* (Democracia e cidadãos)

“Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise. Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

*Manuel Castells (1942), sociólogo e professor Universitário espanhol. ”Ruptura – A crise da democracia liberal”, p. 144. Editora Zahar, 2018

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Educação reprova governo do Rio e aprova o do Pará

O Globo

Escolas fluminenses foram as que mais caíram em ranking; as paraenses, as que mais subiram

No próximo dia 4 de outubro, mais de 150 milhões de brasileiros comparecerão às urnas para escolher deputados distritais e estaduais, vice-governadores, governadores, deputados federais, senadores, vice-presidente e presidente. Os atuais governadores serão candidatos ou apoiarão candidatos à própria sucessão. Antes de votar, portanto, é fundamental o eleitor avaliar o desempenho dos governos estaduais na área mais crítica para o desenvolvimento do país — a educação.

A ONG Todos Pela Educação analisou uma amostra de 16 estados brasileiros cujos governadores estão no poder há mais de quatro anos — nenhum poderá argumentar que não teve tempo de pôr em prática suas ideias para melhorar a educação. As 16 unidades da Federação levadas em conta na análise formam um quadro representativo da situação do ensino médio no Brasil. Há mais de um estado por região: Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro no Sudeste; Paraná e Rio Grande do Sul no Sul; Goiás e Mato Grosso no Centro-Oeste; Paraíba e Rio Grande do Norte no Nordeste; Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins no Norte; além do Distrito Federal. Juntos, são estados onde vive mais da metade da população brasileira.

O monstro que inviabiliza a República. Por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Lutar contra o patrimonialismo é uma agenda essencial para aperfeiçoar a democracia brasileira

O Brasil se modernizou muito desde a redemocratização, mas não eliminou todos os seus elementos de atraso. Um dos que ainda persistem, embora com menos intensidade do que no passado, é o patrimonialismo. Trata-se da dificuldade de separar os espaços público e privado de atuação, criando uma simbiose predatória entre os dois lados do balcão, gerando um monstro com múltiplos membros. A força dele enfraquece a ideia de República, pois os interesses de grupos ou indivíduos se sobrepõem aos da coletividade. Lutar contra ele é uma agenda essencial para aperfeiçoar a democracia brasileira.

Uma oportunidade para jovens do país inteiro. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

‘Prelúdio’, programa criado por Júlio Medaglia, há 20 anos revela talentos da música clássica

Jô Soares fez um esforço para estabelecer um diálogo com o pequeno Guido Sant’Anna, violinista de 8 anos de idade, finalista do programa “Prelúdio”, da TV Cultura de São Paulo de 2014. Perguntava à criança e recebia respostas de criança, não de adulto genial. Guido gostava de subir em árvore na chácara em que morava em Parelheiros, ia à escola no ônibus escolar que levava e trazia as crianças, gostava de jogar bafo de figurinhas com os amigos e colegas sentado no chão.

Jô perguntava sobre o violino ao músico e recebia resposta de violinista conhecedor competente de música nem por isso menos criança.

Refletir sobre o futuro aos 104 anos. Por Andrea Jubé

Valor Econômico

O que o centenário Edgar Morin ensina sobre as lições da História e as múltiplas crises contemporâneas

”A ignorância é a mãe de todos os vícios”, afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos “sabedoria” entre os votos para o ano novo, junto com “saúde, amor e prosperidade”. Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no Brasil, deveríamos acrescentar “serenidade e tolerância”.

Mas, raramente, mencionamos mais “conhecimento” ou “saber”. Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.

Qual circunstância? Por José Francisco Lima Gonçalves

Valor Econômico

Tentar chegar em 2026 com juros e inflação mais baixos, real não tão desvalorizado e emprego em recuperação parece melhor do que tentar esperar que o Congresso ajude decisivamente na arrecadação

A circunstância é sempre peculiar. A atual vem, em parte, de um ciclo político às inversas. O desgoverno de Bolsonaro entregou o Palácio para o centrão e consolidou a demagogia e o oportunismo da política econômica em 2021 e 2022, principalmente. A campanha de 2022 foi marcada, nesse plano, por truques como a desoneração dos combustíveis e outros e pelo adiamento do cumprimento de sentenças judiciais.