segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos decepcionam ao desprezar educação

Por O Globo

Brasil não atingirá outro patamar de desenvolvimento sem população preparada para a economia moderna

O período eleitoral traz a eleitores e candidatos a oportunidade de expor sua visão para o futuro do país. É auspicioso que temas importantes como terras-raras, o tarifaço americano, o petróleo na Margem Equatorial, as emendas parlamentares, as altas taxas de juros ou a corrupção tenham entrado na agenda. São assuntos da maior relevância. Infelizmente, o tema mais estratégico para o desenvolvimento do país continua ausente ou em segundo plano: a educação. Nenhuma política industrial, monetária, comercial ou redistributiva tem chance de levar o país a outro patamar de desenvolvimento se a população continuar despreparada para a economia moderna. E a distância para isso continua gigantesca.

Quando a eleição vai engrenar? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Só uma notícia bombástica ou a possibilidade de vitória em primeiro turno de um dos candidatos podem despertar o eleitor da apatia desta campanha

No sábado (29) começou o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV dos candidatos à Presidência da República. Numa campanha que parece ter começado há meses, mas que ao mesmo tempo não engrenou, a propaganda eleitoral é o ato que faltava para sentirmos o clima de eleição. Será?

Além de atingir dezenas de milhões de pessoas que assistem à TV aberta e ouvem rádio, o horário eleitoral também serve para gerar conteúdo para as redes sociais dos candidatos. Mas, pelo visto, a repercussão continua limitada.

Ajuste exige reconstruir arquitetura fiscal do país, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

O problema já não é apenas produzir um resultado primário melhor, mas limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos parafiscais, baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária

A situação das contas públicas do Brasil exige uma mudança significativa na política fiscal a partir de 2027, num ambiente econômico e político extremamente complexo. Há resistência a novos aumentos de impostos, o cenário externo é mais adverso, com juros globais mais altos, e as taxas internas na casa de 10% acima da inflação elevam os gastos financeiros do setor público e prejudicam famílias e empresas endividadas. O ajuste precisa ser amplo, focado nos gastos e liderado pelo Executivo, mas tem de contar com o Congresso e com o Judiciário. Visto de hoje, porém, parece improvável que uma agenda fiscal ambiciosa seja adotada pelo próximo presidente.

Diversidade perde força no mundo corporativo, por Preto Zezé

O Globo

Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela

A ideia de diversidade dos defensores da causa entrou numa encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é constatação. Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre busquei outro caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render, parte do lucro volta para reinvestir.

Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios. Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá lucro.

Ano que vem será de crise ou estelionato eleitoral, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Lula e Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje

O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje, o crescimento constante da dívida pública, equivalente a R$ 10,8 trilhões, ou 82% do PIB. Na entrevista da Globo, escaparam dos números, mas deixaram alguns sinais do que podem fazer.

Lula assegurou, com ênfase:

— Meu compromisso é com o crescimento.

A ideia: com o país crescendo, tudo o mais se resolve.

Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas da eleição nos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

A carne ilumina a servidão voluntária brasileira

O Canadá conta uma história; o Brasil, o reverso dela. Na partida, os dois engajaram-se em negociações comerciais com os Estados Unidos, que implodiram de encontro às exigências imperiais da Casa Branca. Então, um escolheu a via da resistência, ajustando seus atos às palavras, enquanto o outro optou por um servilismo suplicante mascarado por discursos palanqueiros.

As exportações representam quase um terço do PIB canadense — e mais de 70% delas têm os Estados Unidos como destino. O Canadá perde muito, no curto prazo, com a decisão de enfrentar a guerra comercial deflagrada por Trump. Mas, na defesa de seus interesses de longo prazo, a sociedade canadense uniu-se ao redor da estratégia de retaliação, que conta com respaldo de 76% da população.

O pensamento determinista sempre encontra uma justificativa para o poder de quem o formula, por Leandro Karnal

O Estado de S. Paulo

Resta-nos a velha pergunta, agora vestida de geografia: somos livres?

Há uma pergunta que atravessa os séculos e se disfarça em muitas roupagens. Os gregos a conceberam sob o nome de destino. Os medievais a reformularam como Divina Providência. Montesquieu, no século 18, em O Espírito das Leis (1748), já sugeria que o clima determinava as instituições: povos do Sul seriam preguiçosos, os do Norte, vigorosos. No fim do século 19, a tese ganhou sotaque alemão e rosto acadêmico: Friedrich Ratzel, em sua Antropogeografia (dois volumes, 1882 e 1891), sustentou que solo, clima e relevo moldam a história dos povos. Traduzindo para linguagem brutal: diga-me onde você nasceu e eu lhe direi quem você é. Há algo profundamente perturbador nessa afirmação. O mais inquietante é perceber a longevidade da ideia.

O risco Bolsonaro 2.0? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Legado institucional e multipartidarismo no Brasil limitam aventuras autoritárias

Voltou a ganhar força a ideia de que a democracia brasileira estaria novamente em perigo diante de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. O argumento é conhecido: em 2022, teríamos escapado por pouco porque alguns militares se recusaram a embarcar numa aventura golpista. Agora haveria um agravante: diferentemente do pai, Flávio encontraria Donald Trump na Casa Branca.

O risco representado por líderes com inclinações iliberais nunca deve ser desprezado. Berlucchi e Kellam, analisando governos democráticos desde 1970, mostram que populistas no poder estão associados a maior erosão democrática. Mas mostram também que a Presidência, por si só, não basta. A capacidade de transformar intenção em erosão depende dos recursos e constrangimentos encontrados pelo governante.

O bobo da corte e o freio nos dentes, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

No 'modo sobrevivência', a relação com a base parlamentar e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva

Não nos depararemos com a morte da democracia, mas com sua crescente degradação institucional

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento".

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

O avanço da educação étnico-racial, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sei bem que a educação para equidade racial sempre foi um 'não assunto' nas nossas escola

Bastou o Estado agir com propósito para que essa situação começasse a mudar

Agir com propósito impacta diretamente os resultados alcançados em tudo o que se faz na vida. Quando se trata de políticas públicas, não é diferente. Isso fica evidente ao observar o recente avanço na implementação da Lei 10.639/2003, criada para incluir a história e cultura afro-brasileira no currículo oficial da rede nacional de ensino.

Analisando o cenário atual, a constatação óbvia é que a implementação de políticas para educação das relações étnico-raciais no Brasil só foi pra frente por conta da ação dos movimentos sociais negros, o que levou o Ministério da Educação a assumir as rédeas do processo —passados 21 anos da promulgação da lei, é bom lembrar. Mas é aí que entra o propósito.

Socos e canivetes em sala, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A maioria dos professores brasileiros já sofreu violência física ou verbal no ambiente escolar

'Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida de nós?', pergunta uma das agredidas

Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no futuro, basta perguntar aos professores do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.

Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17 anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.

Poesia | Tabacaria, de Fernando Pessoa

 

Música | Jorge Ben e Gal Costa - Que Pena

 

domingo, 30 de agosto de 2026

Opinião do dia | Hannah Arendt - A mentira (Visão geral criada por IA)

Para Hannah Arendt, a mentira é uma ferramenta poderosa, especialmente na política, que pode ser usada para manipular e controlar, mas também para criar e transformar a realidade. Ela distingue entre mentiras tradicionais e mentiras organizadas ou modernas, destacando que a mentira moderna visa a destruição da verdade, enquanto a mentira tradicional busca a ocultação. Arendt também enfatiza o perigo do autoengano, onde o mentiroso se torna vítima das próprias mentiras. 

Elaboração:

  • Mentira como Ferramenta Política:

Arendt defende que a verdade e a política raramente se encontram, e a mentira tem sido utilizada como um meio de manipulação e controle. Ela considera que o mentiroso é um homem de ação, capaz de imaginar e transformar a realidade, enquanto o que fala a verdade, muitas vezes, não é. 

  • Mentira Tradicional vs. Mentira Organizada/Moderna:

Arendt diferencia a mentira tradicional, que visa ocultar a verdade, da mentira organizada ou moderna, que busca a destruição da verdade. Essa distinção é importante para entender a natureza da mentira no contexto político e totalitário. 

  • Autoengano:

Arendt destaca o perigo do autoengano, onde o mentiroso se torna vítima de suas próprias mentiras. Ela argumenta que a mentira pode corroer a própria capacidade de distinguir a verdade da falsidade. 

  • Mentira no Totalitarismo:

Arendt analisa como a mentira é utilizada como um instrumento central na propaganda e na doutrinação em regimes totalitários. Ela enfatiza como a mentira organizada é utilizada para moldar a opinião pública e criar um mundo fictício. 

  • Importância da Verdade Factual:

Arendt enfatiza a importância da verdade factual, que depende do testemunho e da observação do mundo, para resistir à mentira. Ela distingue a verdade factual da verdade racional, que é baseada em princípios e conceitos. 

  • Mentira e a Educação:

Arendt reconhece a importância da educação na transmissão do conhecimento e da memória, como um meio de resistir à mentira e à propaganda. Ela argumenta que a educação pode ajudar a proteger o mundo comum e a preservar a verdade. 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa

Por O Globo

Ao jornalismo profissional cabe relatar e esclarecer os fatos; não adivinhá-los

Há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: “O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura”. Vale, porém, aprofundar a questão.

A Lava-Jato foi uma investigação feita por policiais federais e pelo Ministério Público, que resultou em um processo julgado por três instâncias da Justiça. Envolveu cifras bilionárias e confissões da maior parte dos agentes corruptores e daqueles que foram corrompidos. Levou à prisão empresários e pessoas que detiveram cargos públicos, inclusive o próprio presidente Lula, que sempre clamou por sua inocência.

As lições do piano de Thelonious Monk e as entrevistas dos candidatos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As sabatinas não definirão o resultado da eleição, apesar da enorme repercussão. Foram apenas os primeiros compassos de uma campanha sujeita a denúncias, erros, improvisações e mudanças de andamento

A frase “não existem notas erradas; algumas são apenas mais certas do que outras — tudo depende da que vem depois”, também atribuída ao trompetista Miles Davis, traduz com precisão a estética de Thelonious Monk, um dos grandes gênios do jazz e autor de Round Midnight, Straight, No Chaser, Epistrophy, Blue Monk e Misterioso, entre outros clássicos do gênero.

Em termos musicais, significa que uma nota não pode ser julgada isoladamente. Uma dissonância aparentemente equivocada pode adquirir sentido conforme a frase prossegue. A nota seguinte pode resolvê-la, reafirmá-la ou transformar o choque inicial numa tensão deliberada. No jazz, sobretudo na improvisação, o valor de cada som depende de sua relação com o acorde, o ritmo, o silêncio e as notas que vêm antes e depois.

Democracia em questão, por Míriam Leitão

O Globo

A questão democrática segue em jogo nesta eleição, com candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos autoritários

Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional, até sexta, a apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois subestimaram o ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma proposta de extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que tentou o golpe.

Romeu Zema disse que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves atos de conspiração de Jair BolsonaroRenan Santos quer um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e dores.

Desesperança, por Merval Pereira

O Globo

Teremos a primeira eleição desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.

O desânimo com a eleição presidencial deve-se a que ela é a primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em 1989, trouxe a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas Fernando Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de volta do exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com as greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores motivaram-se, cheios de esperanças.

Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.

Flávio Bolsonaro mente e distorce com mais convicção que o pai, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador afrontou os fatos ao falar de golpe, escândalo do Master e relação com miliciano

Flávio Bolsonaro deu uma nova contribuição à teoria de Darwin. Mostrou-se mais assertivo que o pai ao mentir, distorcer e renegar o que já disse. É a evolução da espécie.

Em entrevista à TV Globo, o candidato do PL fingiu desconhecer os fatos que levaram o capitão à cadeia. Descreveu como “golpe da Disney” a conspiração que destruiu as sedes dos Três Poderes e quase arrastou o país para uma nova ditadura.

O senador ainda chamou de petista o ex-comandante da Aeronáutica que, depois de votar em Jair Bolsonaro, recusou-se a manchar a farda para impedir a alternância de poder.

Questionado sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio descreveu o cambalacho como “relação privada”. “Não tem absolutamente nada de irregular”, recitou. O senador simulou esquecer que exerce cargo público e foi flagrado tomando dinheiro de um especialista em corromper autoridades.

Carlos Lacerda e sua máquina do ódio, por Elio Gaspari

O Globo

Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas

Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele 17 incompletos.

Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.

Sobreviver é prova de resistência em Gaza, por Dorrit Harazim

O Globo

Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade

Na semana passada morreu o pintor e escultor palestino Sliman Mansour. Vivera 79 anos. Até o fim, ano após ano, década após década, ele repetia um mesmo mantra:

— A solução de dois Estados independentes, um para a Palestina, outro para Israel, se dará um ano depois da minha morte.

A depender do Estado de Israel, essa fantasia precisa ser enterrada. Mansour fazia parte da geração de artistas gerados na primeira intifada dos anos 1970, que buscou uma linguagem visual para retratar o significado da memória — da memória do que é ser palestino. Um pé de oliveira adquiria a força-símbolo de terra e continuidade, Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade, resistência. Mansour foi quem mergulhou mais fundo nessa busca. Uma colheita na primavera, um vilarejo rural, duas palestinas tocando flauta — a resistência em sua obra é implícita.

Atores e ficção na estreia do horário eleitoral, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro fez o papel de homem de família e o presidente Lula, o de homem das massas

Na estreia da propaganda eleitoral de rádio e TV, Flávio Bolsonaro fez o papel de bom moço, homem de família, enquanto Lula encenou o líder das massas, do “povo”, e, assim, deixou um alerta para a campanha do opositor: Flávio precisa melhorar o conteúdo e a força da mensagem para convencer que é uma opção melhor do que Lula.

Talvez a principal frase de efeito tenha sido de Lula: “Flávio, o pior dos Bolsonaro”, um contraponto, justamente, à versão de que seria o filho primogênito de Jair Bolsonaro seria “o melhor”, “o moderado” ou o “bom moço” da família, como acabara de se apresentar.

Um acordo arriscado na Venezuela, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os Estados Unidos elaboraram um plano para tornar a Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria, na prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória, jurídica e financeira.

A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.

Breve história das reviravoltas no mês final da eleição para presidente, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Votação de líderes e de candidatos no segundo lugar já mudou muito nas pesquisas

Apesar do histórico de mudanças, eleição presidencial de 2026 é parecida com a de 2022

A última fase da campanha começou, com TV e rádio. Falta pouco mais de mês para o primeiro turno. Não raro ocorre mudança relevante na votação de candidatos a presidente nessas semanas. Como em quase toda temporada final de caçada de votos, esta coluna recorda reviravoltas, nota que há a fazer na campanha e enfatiza que pesquisa eleitoral não é previsão de resultado, mas retrato de momento.

A eleição mais parecida com a deste ano é a de 2022. Desde o final de agosto de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva tinha ao menos 45% dos votos, com picos de 48%, segundo o DatafolhaJair Bolsonaro tinha 32% em agosto, 34% em 9 de setembro e aí ficou até o primeiro turno. Na urna, deu 46,3% para Lula (votos totais) e 41,3% para Bolsonaro.

Nas pesquisas de eventual segundo turno (antes, pois, do primeiro), Lula tinha 53% ou 54% dos votos totais (58% dos válidos). Bolsonaro, 38% ou 39%. Na urna, deu 50,9% dos válidos para Lula.

Flávio Bolsonaro renega ajuste fiscal; direita já pode defender a democracia, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Candidato do PL foi à Globo e disse que não vai fazer o que o mercado está pedindo

Além de contas equilibradas, Flávio não conseguiu defender democracia nem soberania

Ô direitista, não precisa pular a coluna. Hoje o tema te interessa.

Não vou falar dos 145 mil mortos por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.

Candidatos que ocultam verdades criam defuntos insepultos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A opção pela mentira e a dissimulação expõe seus autores a se verem despidos da virtude fabricada

Lula e Flávio não respondem honestamente ao público nem afastam os fantasmas que os rodeiam

É direito de todo cidadão, eleitor ou não, cobrar franqueza e objetividade de governantes ou de qualquer um que postule o ofício da representação e, assim, pretenda ter poder de decisão sobre a vida da coletividade —em variados graus.

A escolha pela vida pública é livre; já seu exercício implica obrigações entre as quais está no topo da lista a permanente prestação de contas à sociedade dona dos votos e do dinheiro que sustenta a atividade.

A opção pela mentira, a meia-verdade e a dissimulação é caminho de risco; expõe seus autores ao constrangimento de se verem despidos da virtude fabricada.

A náusea no caminho das urnas, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A chamada para o voto de manutenção da democracia debilita-se com a persistente sensação de desamparo

O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência

É oportuna a expressão "baixo astral" para o desalento público com a desmoralização da classe política. "O povo vai meter 300 bandidos no Congresso", diz um presidenciável. "Um manicômio", diagnostica outro, psiquiatra. São sinais do ethos tóxico, agudo diante de eleições cujo parâmetro ético-político é a rejeição dos candidatos. A chamada para o voto de manutenção da democracia representativa debilita-se com a persistente sensação de desamparo social. A saturação dos modelos de governança neoliberal e a decomposição da representação parlamentar suscitam uma insólita náusea coletiva.

A maior de todas as pragas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra que desigualdade econômica preocupa filósofos desde Platão

Outros autores discutidos são Jesus, Hobbes, Rousseau, Adam Smith, Mill e Marx

Gostei de "The Greatest of All Plagues", de David Lay Williams, em que o autor procura mostrar que a preocupação com a desigualdade econômica se faz presente no cânone filosófico do Ocidente há mais tempo e de forma mais fundamental do que muitos poderiam supor.

Para tentar provar sua tese, Williams resgata passagens francamente igualitárias de um pool bem ecumênico de filósofos. São eles PlatãoJesus CristoThomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx. Ok, Cristo entra um pouco de contrabando, já que não é propriamente um filósofo e não deixou obra escrita, mas não vejo maiores problemas nisso.

Poesia | Solidão, de Vinicius de Moraes

 

Música | Simone - O que será (Chico Buarque)

 

sábado, 29 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O partido da mídia

Por CartaCapital

A real oposição entra na campanha

Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.

Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.

Começar de novo, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

Começar de novo não é esperar que o baú dos anos 1980 nos diga o que fazer. É usá-lo como referência

E se de repente alguém virasse a ampulheta e nos projetasse para onde tudo começou? E se insistíssemos numa rota já estabelecida, para reiniciar de onde paramos ou tropeçamos?

Nas eleições de 2026, os candidatos mais fortes querem manter vivo um caminho já trilhado. Lula quer fazer o que não conseguiu em seus três mandatos, mas não deseja voltar às origens, coisa que o levaria às promessas mais “puras” e radicais do PT de 1982. Flávio Bolsonaro, por sua vez, quer dar sequência à herança deixada pela Presidência de seu pai, patrimônio de valor discutível, mas não quer ir muito para trás e se deparar com um vazio improdutivo.

Desafios nacionais, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Falta uma política corajosa para enfrentar os problemas da Amazônia e revertê-los em favor dos brasileiros

A campanha eleitoral esconde os problemas brasileiros. Os candidatos habitam outra realidade. Os debates são vazios, cheios de ideias genéricas e afirmações coléricas sobre questões aleatórias. Um deles mencionou até a possibilidade de o país construir a bomba atômica. Retórica pura. Longe da realidade. Houve candidato que chegou perto. Ronaldo Caiado afirmou que a bandidagem transformou a Amazônia em santuário porque ali os traficantes agem livremente. A região se transformou na Disneylândia dos criminosos.

A fantasia da força contra o crime, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas

Poucos temas são tão caros ao eleitor de 2026 como o tema da segurança pública. Existe uma percepção disseminada de que o avanço da criminalidade está descontrolado: o senso de falta de lei gera um estado de tensão constante, de modo que o eleitor está atemorizado, com medo de sofrer uma violência física ou patrimonial.

É justamente esse estado de angústia que torna o eleitor tão suscetível a discursos eleitorais de combate ao crime. Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas.

Flávio se nega a prestar contas sobre o dinheiro pedido a Vorcaro para Dark Horse, por Lucas Allabi

O Estado de S. Paulo

Candidato do PL ao Planalto afirma que os recursos para o filme foram recebidos de ‘boa-fé’ e que não foi usada verba pública

O candidato do PL à Presidência disse em sabatina no Jornal Nacional que pediu a Daniel Vorcaro, do Banco Master, “patrocínio” para o filme Dark Horse e não “dinheiro”, e que não assinou contrato.

Em sabatina ontem no Jornal Nacional, da TV Globo, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, se negou a prestar contas sobre o dinheiro recebido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção do filme Dark Horse, que retrata a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo ele, os valores foram recebidos de “boa-fé” e não envolveram recursos públicos. Flávio também voltou a dizer que dará uma anistia ao pai, caso seja eleito.

Durante o programa, ele não apresentou dados de prestação de contas nem sobre o contrato da captação de recursos para o longa-metragem, alegando que os dados são públicos. O candidato havia feito essa promessa em maio.

Flávio Bolsonaro na Globo: Confira a análise da sabatina do candidato do PL

 

Flávio Bolsonaro, no conteúdo, se mostrou cru e pouco crível em entrevista na TV Globo, por Vera Magalhães

O Globo

Na forma, no entanto, candidato do PL à Presidência da República soou palatável e menos inseguro que em momentos menos roteirizados

Flávio Bolsonaro adotou um script de bom moço para se apresentar na TV Globo. Soando completamente ensaiado num minucioso media training, começou se solidarizando com a entrevistadora Renata Vasconcellos pelo que chamou de “grosseria” do presidente Lula na véspera.

Retratou-se sobre as dúvidas que levantou sobre as urnas eletrônicas, repreendeu o irmão Eduardo por ter comemorado o primeiro tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e se esquivou de explicar o destino dos milhões que pediu, cobrou e obteve de Daniel Vorcaro, banqueiro que perpetrou a fraude do Master, sobretudo a parcela paga nos EUA.

No lugar de explicar a relação com Vorcaro, tentou inverter a situação e tecer ilações sobre uma reunião em que Lula, acompanhado do hoje presidente do BC Gabriel Galípolo, recebeu Vorcaro fora da agenda. Segundo ele, nesse encontro que chamou de clandestino Lula teria prometido que, quando Galípolo assumisse o BC, as investigações sobre o Master cessariam —o que não aconteceu; pelo contrário, foi na gestão atual que o banco foi liquidado.

Ambiente digital enfim desperta para a proteção a menores, por Flávia Oliveira

O Globo

Está na lei que as empresas de tecnologia precisam conceber produtos e serviços que sejam seguros para crianças e adolescentes

É verdade que o Brasil, por omissão dolosa do Congresso Nacional, não tem regulação para plataformas digitais. É verdade que o Supremo Tribunal Federal (STF), provocado, julgou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), por não oferecer proteção suficiente nem às pessoas nem à democracia. E impôs às big techs o dever de evitar um punhado de práticas criminosas, incluindo terrorismo, discriminação e discurso de ódio, crimes de gênero contra mulheres, atos antidemocráticos. Mas, no que diz respeito a crianças e adolescentes, o ambiente digital já não é nem território livre, nem refém do Judiciário que legisla.

Quando a corrupção faz a diferença, por Thaís Oyama

O Globo

Na reta final da eleição, quando não houver mais tempo para um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem perde

É mais uma constatação desoladora do que uma coincidência que a primeira pergunta feita ao presidente Lula na sabatina da TV Globo tenha sido sobre corrupção: o mesmo assunto que abriu a entrevista do petista, na mesma emissora, em 2022. Lá, William Bonner perguntou ao então candidato como convenceria o eleitor de que escândalos como o petrolão, ainda fresco, não se repetiriam. Em sua resposta, Lula gabou-se de ter dado liberdade às instituições para investigar o caso, garantiu que quem tivesse cometido erros seria punido e invocou a injustiça de que acredita ter sido alvo na Lava-Jato para defender o benefício da dúvida aos investigados.