quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

‘Bondade’ eleitoreira de Lula resulta em má gestão da dívida

Por O Globo

Estímulo à economia atingiu 1,1% do PIB no primeiro semestre, agravando endividamento público

As “bondades” eleitoreiras que o governo anunciou desde o ano passado já resultaram, só no primeiro semestre, em estímulo à economia de R$ 149 bilhões (ou 1,1% do PIB) na forma de empréstimos ou linhas de crédito. O valor, calculado pela consultoria BRCG a pedido da reportagem do GLOBO, representa quase tudo que o governo concedeu em medidas dessa natureza no ano passado.

Como o dinheiro é emprestado a taxas mais baixas do que as pagas pelo Tesouro ao captar recursos no mercado, a generosidade resulta em prejuízo aos cofres públicos. Além disso, o estímulo exerce pressão sobre a inflação, obrigando o Banco Central a manter os juros mais altos do que seria necessário em condições de equilíbrio — e forçando o governo a pagar ainda mais pelo dinheiro que toma emprestado. Tudo somado, a má gestão financeira deverá aumentar a dívida pública em 10 pontos percentuais do PIB ao longo dos quatro anos do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Breve história da política brasileira, de Carneiro Leão a Lula da Silva, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores e velhas oligarquias

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva vai além das conveniências eleitorais da Paraíba. Reproduz o pacto entre o poder central e as oligarquias regionais, pelo qual interesses contraditórios se acomodam em torno da governabilidade e da preservação do poder. É a recidiva da velha “política de conciliação” incorporada ao projeto eleitoral de Lula.

José Honório Rodrigues analisou esse fenômeno em Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-político (Editora Civilização Brasileira), escrito depois do golpe militar de 1964. Discípulo de Capistrano de Abreu, o mestre via a conciliação de maneira crítica: “Os poderes dominantes tiveram sempre força para conter as aspirações profundas de mudança e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema e seus privilégios”.

Para José Honório, a Independência, as revoltas do período regencial, a República e as crises de 1930, 1945, 1961 e 1964 revelavam uma característica recorrente da formação do Brasil: as estruturas do patronato brasileiro demonstram extraordinária capacidade de sobrevivência. “O povo brasileiro é uma vítima, um derrotado no processo histórico.”

Os (poucos) 45 dias que decidem o Brasil, por Mauricio Moura

O Globo

Não foi sempre assim: até a minirreforma eleitoral de 2015, a campanha oficial durava 90 dias.

Todo ciclo eleitoral brasileiro carrega o mesmo paradoxo: escolhemos quem vai administrar bilhões em orçamento público, definir políticas de segurança, saúde e educação para 215 milhões de pessoas, e o fazemos depois de um debate público oficial que dura, na prática, 45 dias. É o tempo que a legislação eleitoral reserva para a propaganda nas ruas antes do primeiro turno, um intervalo que, comparado ao de outras democracias relevantes, é curto até para os padrões de um país que historicamente prefere resolver tudo em cima da hora.

Não foi sempre assim. Até a minirreforma de 2015, a campanha oficial durava 90 dias. A justificativa para o corte foi legítima: reduzir custos, atenuar o desgaste institucional e coibir o abuso do poder econômico e de máquina. Só que a reforma resolveu um problema e criou outro: comprimiu radicalmente o tempo em que o eleitor tem contato formal, regulado e comparável entre propostas de governo, plataformas partidárias e planos de governo. Trocamos excesso de abusos por escassez de deliberação. E muitas vezes mantivemos ou ampliamos certos abusos.

O perigo de relativizar o sigilo da fonte, por Vera Magalhães

O Globo

Decisão de Alexandre de Moraes relativa ao Maranhão ignora instituto garantido pela Constituição e abre precedente perigoso

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de autorizar a busca e apreensão contra um político do Maranhão sob a alegação de que ele foi a fonte para a publicação de reportagens por um blog a respeito do uso de carros oficiais pelo ministro Flávio Dino e sua família coloca em xeque o princípio do direito de jornalistas ao sigilo da fonte, assegurado na Constituição.

O caso é intrincado e muitas informações essenciais à sua compreensão permanecem sob sigilo judicial, mas as justificativas para a decisão não parecem suficientes para relativizar um dos mais importantes instrumentos para o exercício da liberdade de imprensa —tão importante que o constituinte fez questão de torná-lo textual.

Diz o artigo 5º, inciso XIV, da Constituição: “É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.

Na revolução sem povo do PCO, verba pública abastece negócios da família, por Bernardo Mello Franco

O Globo

PF apura suspeita de desvio milionário do Fundo Eleitoral; Rui Costa Pimenta se diz vítima de 'perseguição política'

O chamado foi de Rui Costa Pimenta, o eterno presidente do Partido da Causa Operária: “Temos que dizer claramente que o caminho é a revolução”. Em convenção no último sábado, o dirigente pregou a “derrubada da burguesia” e avisou que as eleições “não vão mudar absolutamente nada”. Apesar da descrença no voto, ele anunciou sua quarta candidatura ao Planalto.

Com discurso de extrema esquerda, Pimenta participou das corridas presidenciais de 2002, 2010 e 2014. As massas faltaram ao encontro, e ele terminou todas as disputas em último lugar. Na primeira, recebeu 0,05% dos votos válidos. Nas últimas duas, encolheu para 0,01%. Também ensaiou se candidatar em 2006, mas teve o registro negado pelo TSE. Não havia apresentado prestação de contas da campanha anterior.

Vorcaro desvia o foco das fraudes para a delação, por Elio Gaspari

O Globo

A colaboração do banqueiro quer embaralhar os celulares

A delação premiada é uma prerrogativa da Viúva. Em dezembro de 2008, o FBI prendeu o financista Bernie Madoff, que brilhava sentado numa pirâmide de US$ 65 bilhões. Comparado às conexões de Madoff, Daniel Vorcaro com seu banco Master era um flanelinha. Madoff tinha o que contar, um de seus fundos juntava boa parte da grã-finagem internacional (com alguns brasileiros). Não se conhecem os detalhes de suas conversas com o Ministério Público, mas nem o governo nem ele puseram a carta da delação na mesa.

Novos padrões e métricas para a diplomacia, por Fernando Exman

Valor Econômico

Regras do jogo nas relações internacionais mudaram e os desafios neste campo irão aumentar até as eleições

Está evidente, para autoridades do governo Lula e diplomatas de carreira, que as regras do jogo nas relações internacionais mudaram e os desafios neste campo irão aumentar até as eleições. Os próximos anos também já são dados como um período turbulento e de eventual transição, a depender do destino político de alguns dos líderes estrangeiros responsáveis pelas atuais crises e que já enfrentam problemas de popularidade em seus respectivos países.

Não será uma adaptação trivial para uma tradicional instituição de Estado como o Itamaraty. Seu patrono, o barão do Rio Branco, cunhou conceitos, premissas e condutas até hoje seguidas no Ministério das Relações Exteriores. Práticas que sempre funcionaram, aqui e no exterior, em um ambiente marcado em geral pela cordialidade mesmo em momentos de maior tensão.

No debate do ajuste fiscal, nada é o que parece, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Informações sobre a política fiscal que circulam antes das eleições não contam toda a história

Nos debates sobre as contas públicas no próximo governo, nada é o que parece.

Se algum candidato planeja uma reforma estrutural, como recomenda boa parte dos especialistas, não vai detalhar suas ideias nos palanques. São mudanças impopulares.

Se, ao contrário, promete gastar mais sem cortar do outro lado, vende terrenos na lua ou planta crise. O Orçamento federal está cada vez mais apertado.

Ou seja, as informações sobre a política fiscal que circulam antes das eleições não contam toda a história.

Por exemplo: o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, apareceu na semana passada usando um broche em formato de tesoura. Simbolismos à parte, é bom lembrar que seu pai e guru político, o ex-presidente Jair Bolsonaro, interditou a agenda liberal de sua equipe econômica.

Eleições são um perigo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Democracias não são conhecidas por favorecer a escolha de governantes sábios

Diluição de responsabilidades e vieses de autosseleção de candidatos estão entre os problemas

Se me pedissem para desenvolver o pior sistema possível para selecionar governantes, eu talvez chegasse às eleições. A lista de problemas que elas engendram é grande.

Pelo lado do eleitor, temos a diluição de responsabilidades. Se você quer um serviço bem-feito, não o encomende a múltiplos prestadores que não podem ser individualmente cobrados por suas ações. Mas é exatamente o que fazemos quando encarregamos um eleitorado, que pode chegar a centenas de milhões nos países mais populosos, de escolher os dirigentes da nação. O próprio eleitor resiste em aderir ao projeto. Ele sabe que o peso de cada voto individual tende à irrelevância e por isso nem se dá ao trabalho de conhecer minimamente as propostas de cada postulante, como exigiria o modelo de democracia racional.

Candidatos criticam, mas não explicam como frear emendas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não há no debate eleitoral uma abordagem consistente sobre o uso abusivo do Orçamento da União

Do jeito que vai, o Congresso acaba capturando a totalidade dos recursos disponíveis para as despesas do país

A escrita corrente na política reza que o marco inaugural do avanço desmedido no uso das emendas parlamentares deu-se na presidência de Eduardo Cunha (Republicanos) e se consolidou na gestão de Arthur Lira (PP) no comando da Câmara dos Deputados.

A história, contudo, traz registro mais antigo. Data do ano 2000 e tem a paternidade do então poderoso e já falecido senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), autor de proposta para tornar todo Orçamento da União impositivo.

Gente de peso nas empresas começa a falar de recessão que economistas ainda não veem, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Arminio Fraga e Alfredo Setúbal alertam para risco de economia abaixo de zero em 2027

Previsões mais pessimistas que chegam ao BC estimam alta do PIB de pelo menos 0,7%

Gente de peso da finança começa a dizer em público que 2027 pode ser de recessão. No final de julho, foi Arminio Fraga, economista, ex-presidente do Banco Central, da Gávea. Nesta semana, foi Alfredo Setúbal, CEO da Itaúsa, "holding" que tem parte do Itaú Unibanco e de um monte de empresas. Disse que o cenário é de "economia bastante desacelerada e podemos ter uma pequena recessão". Fraga parece mais pessimista do que Setúbal.

Entrevista | Esquerda se acostumou a ser pessimista, diz ex-presidente do Parlamento Europeu, por Victor Lacombe

Folha de S. Paulo

Alemão Martin Schulz avalia que medo fortalece extrema direita no mundo todo e chama Lula de político otimista

Para Schulz, 'governo perigoso está hoje em Washington, não em Brasília', e Trump interfere nas eleições do Brasil

O político alemão Martin Schulz, que passou mais de 20 anos no Parlamento da União Europeia e liderou o bloco de esquerda no órgão, acredita que um dos grandes erros de progressistas hoje é ser pessimista —e que Lula vai vencer as eleições deste ano no Brasil porque, ao contrário, investe em uma mensagem otimista.

Para o ex-presidente do Parlamento Europeu, Lula "é alguém que, em toda a vida, não se permitiu ficar cabisbaixo. Por isso creio que seja um bom exemplo para a esquerda", que, segundo ele, "se acostumou a ser pessimista" enquanto a direita "transmite, de alguma forma, otimismo, com o lema: vamos destruir tudo, e aí as coisas vão melhorar".

No Brasil para o aniversário de 50 anos da Fundação Friedrich Ebert, da qual é presidente, Schulz conversou com a Folha sobre a extrema direita no mundo, incluindo o partido AfD (Alternativa para a Alemanha), o governo Friedrich Merz, as eleições brasileiras, e a política externa de Donald Trump.

O espectro que ronda a eleição de 2026, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Escândalos chegam a uma disputa polarizada

Ambiente digital multiplica impactos públicos

Um espectro ronda a eleição presidencial de 2026. Aliás, não um, dois. O primeiro vem do escândalo dos descontos ilegais do INSS. O segundo, das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master. Ambos continuam em desenvolvimento e já alcançaram as duas principais candidaturas. Num país em que a prova de corrupção continua a ser uma arma letal na disputa pelo Executivo, todos sabem que, a qualquer momento, um dos dois escândalos pode desferir o golpe fatal.

A circunstância torna-se especialmente explosiva porque esta não é uma eleição normal de conquistar. O país chega à disputa partido ao meio, com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em levantamentos recentes de segundo turno e rejeitados por parcelas enormes do eleitorado. Numa eleição assim, o veto pode importar mais do que o voto. Na impossibilidade de ampliar o próprio eleitorado, as campanhas passam a torcer —e, quando podem, a trabalhar— para que o outro lado seja o mais rejeitado. Uma revelação devastadora de última hora, a associação ao personagem errado e a vaca vai para o brejo.

Lula e a Segurança 24 anos depois, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Plano de segurança do petista repete promessas feitas por sua primeira campanha em 2002

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria reler o documento Projeto Segurança Pública para o País. Editado em 2002, ele defendia a criação dos Conselhos Consultivo de Segurança Pública e de Proteção a Testemunhas, a unificação progressiva das polícias, com corregedorias únicas, bem como academias integradas de formação. Também afirmava ser preciso investir no policiamento comunitário e na criação de um piso nacional para as polícias, assim como aumentar o controle do uso da força letal pelos agentes da lei.

O documento defendia 28 propostas, pregava uma “reforma das polícias”, com a criação de uma Escola Superior de Segurança e Proteção Social. Atacava a corrupção, afirmando que “o grau de promiscuidade das polícias com as organizações criminosas” constituía “também variável decisiva” no quadro de insegurança. E concluía: “ou haverá segurança para todos, ou ninguém estará seguro no Brasil”.

A tomada da IA pela China, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

De chips a modelos de código aberto, a China entrou de vez na corrida pela liderança da inteligência artificial

A China entrou de vez na corrida pela liderança da inteligência artificial: não somente na fabricação de chips e de outros insumos numa cadeia de produção bilionária, em segmentos dominados por empresas coreanas e taiwanesas, mas também no desenvolvimento de modelos de IA de código aberto a preços bem mais baixos que os cobrados pelos rivais americanos OpenAI e Anthropic. Em julho, a estreia na Bolsa de Valores de Xangai da CXMT, maior fabricante chinesa de chips de memória, cujas ações dispararam quase 500% no primeiro pregão, foi o último empurrão que fez o principal índice acionário da Coreia chegar a cair 40% do seu pico em junho.

Poesia | Se eu fosse eu, de Clarice Lispector

 

Música | Teresa Cristina | Show 25 Anos do Museu do Samba

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode haver retrocesso na reforma tributária

Por O Globo

Flávio e Caiado cometem erro grave ao sugerir revisão do modelo de impostos aprovado em 2023

São irresponsáveis as promessas de campanha dos candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) de revisar a reforma tributária. Aprovada em 2023, a unificação dos impostos sobre o consumo deu um primeiro passo para acabar com o pandemônio tributário que sempre caracterizou o Brasil, complicando a vida das empresas e afugentando investidores. Foi resultado de amplo consenso no Congresso, depois de décadas de debates e embates. E previu um período de transição de dez anos, para que todos consigam se adaptar à nova estrutura de impostos. Obviamente, deixou muitos insatisfeitos que, em ano eleitoral, fazem pressão sobre os candidatos para tentar deter os avanços.

A legitimidade democrática desafiada, por Ricardo Marinho*

Que estamos vivendo tempos difíceis para a democracia é algo que percebemos há muito tempo.

Está sob diversos tipos de desafios. Um, por exemplo, advinda da revolução tecnológica que afeta vertiginosa a vida de nossas sociedades, outra diretamente por causa da percepção política dos cidadãos e seus níveis de aprovação e/ou desilusão com o sistema democrático, suas regras e seus valores.

Embora entre aqueles que vivem nesse sistema haja uma maioria que o prefira e o considere o melhor sistema de governo e convivência social que a sociedade criou, essa maioria tem diminuído.

Essa tendência descendente quase sempre não resulta de um exercício de reflexão profunda, as respostas nem sempre têm uma relação próxima com a questão; muitas vezes reflete a percepção das pessoas sobre a capacidade do sistema de resolver seus problemas, satisfação e/ou frustração com o cumprimento da promessa de liberdade. igualdade e bem-estar que esperam dela (e nada com cada qual), quando as coisas não vão bem, consideram isso não cumprido e o apego aos seus princípios e valores diminui.

Apoio de Motta a Lula mostra política de conveniência do Republicanos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A escolha obedece à realidade eleitoral da Paraíba. O presidente da Câmara precisa preservar influência, renovar seu mandato e eleger o pai, Nabor Wanderley, para o Senado

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta, à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva expõe a ambiguidade eleitoral do Republicanos. Formalmente, o partido decidiu permanecer neutro na disputa pelo Palácio do Planalto, não indicar o candidato a vice de Flávio Bolsonaro nem integrar nenhuma coligação presidencial. Na prática, liberou seus dirigentes e diretórios estaduais para escolherem publicamente o lado mais conveniente às respectivas circunstâncias locais. É uma salvo-conduto para múltiplas alianças regionais, inclusive com forças antagônicas.

Foi o que permitiu a Hugo Motta anunciar o apoio a Lula sem romper com a direção partidária. “A tendência nossa aqui na Paraíba é que caminhemos com o presidente Lula”, declarou, acrescentando que o petista representa aquilo que seu grupo considera “o melhor para o país”. O presidente da Câmara aguardou deliberadamente a decisão nacional do Republicanos para somente então revelar sua posição. O Republicanos da Paraíba apoiará a reeleição de Lula, segundo Motta.

Mitos e verdades da diplomacia na era da desinformação, por Mauro Vieira*

Correio Braziliense

A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. Os ataques recentes de governantes de turno de países amigos a instituições democráticas brasileiras ilustram a dimensão desse desafio

O recurso à desinformação em massa e ao uso dos algoritmos e das redes sociais como armas a serviço do extremismo político é um desafio persistente para os regimes democráticos e para o exercício da política, tanto no plano interno quanto externo. Esse fenômeno tem em Giuliano da Empoli um dos mais atentos observadores, primeiramente na obra Os engenheiros do caos e, mais recentemente, em A hora dos predadores. A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. 

O Brasil não está sozinho na tensão com os Estados Unidos, por Fernando Gabeira

O Globo

A revogação do visto da embaixadora em Washington é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os EUA vêm tomando

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Reação à altura, por Merval Pereira

O Globo

Concurso para professor da USP é exemplar de como as oligarquias dos três Poderes se ajudam mutuamente para manter o statu quo

Diz-se que a vida imita a arte, mas não é preciso ser artista, apenas um sensível observador, para fazer da arte um reflexo da realidade da vida. O jurista Joaquim Falcão foi premonitório em seu livro recém-lançado “A oligarquia dos poderes”, ao constatar que os interesses particulares dos integrantes dos três Poderes se sobrepõem aos públicos, provocando o que chama de “mal-estar social”. O cidadão comum não tem certeza sobre como as autoridades estatais se relacionam e negociam entre si.

Foi esse mal-estar que produziu uma reação cívica à tentativa de oligarcas do Judiciário de interferir no concurso para professor doutor na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a maior e mais importante universidade pública do Brasil. Criada em 1934, a USP é líder em produção científica na América Latina e destaque em rankings mundiais. O concurso foi anulado porque o candidato vitorioso, Rafael Campos Soares da Fonseca, filho do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Reynaldo Soares da Fonseca, anexou a seu memorial acadêmico cartas de recomendação assinadas por autoridades do Judiciário, incluindo ministros do STF como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Edson Fachin e André Mendonça. Havia também cartas dos ministros do STJ, colegas de seu pai, Ribeiro Dantas e Gurgel de Faria, e outra do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Brasil visto de São Paulo, por Míriam Leitão

O Globo

Os candidatos Tarcísio e Haddad fizeram um debate com estocadas, críticas e divergências, mas com respeito democrático

É um alívio de certa forma acompanhar um debate como o do governador Tarcísio de Freitas e do ex-ministro Fernando Haddad. Estão em campos opostos, mas dialogam. Divergem profundamente, se estocam muitas vezes, mas estão presentes na apresentação de suas propostas e na defesa de seus pontos de vista. Tarcísio, apesar de estar na frente nas pesquisas e ser o incumbente, não fugiu do debate da Band. Haddad, com toda a aversão que tem ao bolsonarista, não trata Tarcísio como inimigo. São adversários, estão numa peleja decisiva para o país, mas os eleitores podem respirar sem o temor de que voe alguma cadeira.

Tarcísio não tinha mais a insegurança do debate de 2022, em que ele deu sinais de que não conhecia o estado que ia governar. Não soube dizer onde ficava sua seção de votação. Foi derrotado naquele debate, mas ganhou a eleição. Desta vez, o confronto foi mais equilibrado, com Tarcísio exibindo dados de obras e realizações, ainda que tenha mostrado fraquezas.

Quando se conta com o ovo que a galinha sequer pôs na urna, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Disputa interna no PT e nas corporações sobre um quarto mandato arrisca minar as chances de Lula obtê-lo

A perspectiva de futuro anunciada pela postulação do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais clara nas disputas internas desencadeadas no governo e no PT do que nas propostas protocoladas no TSE.

Quatro vezes maior que aquele apresentado em 2022, o programa é mais uma prestação de contas do que foi feito neste mandato do que um plano de voo para o seguinte. Nenhum candidato faz programa de governo para anunciar desvinculação de gastos mas a promessa de ampliação no alcance e escopo das políticas públicas não é acompanhada dos meios para viabilizá-las no Orçamento da União.

É possível que se queira fazer parte disso retomando um naco dos R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, citadas quatro vezes no programa, mas o insucesso deste intento até aqui recomenda ceticismo. Decantadas reformas, como a administrativa e do Judiciário, não merecem uma única menção. Pela profusão (11 menções) com que a IA é citada, deve haver expectativas, mas sua incorporação à gestão pública produz eficiência, não milagres.

Interpretação alternativa à tradicional visão fiscalista, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Mesmo com esforço fiscal, o elevado custo financeiro continua impulsionando a expansão da dívida

O discurso dominante entre economistas ligados ao mercado diz que os recentes aumentos da dívida pública são consequência direta do excesso de gastos públicos. Há controvérsias. Outros economistas, da área acadêmica, sustentam que essa tendência decorre da elevação exagerada das taxas de juros e da estrutura do sistema financeiro brasileiro.

Um trabalho acadêmico do professor da PUCSP Ernesto A. Moura, mestre em economia política, propõe interpretação alternativa à visão fiscalista tradicional. Ele entende que a dinâmica fiscal brasileira exige analisar conjuntamente política monetária, estrutura bancária, composição da dívida pública e mecanismos de financiamento do desenvolvimento.

Moura observa que a elevação da dívida bruta de 71,7% do PIB em 2022 para 78,7% em 2025 e 81,9% em junho último ocorreu principalmente pelo custo do serviço da dívida, fortemente influenciado pelas altas taxas de juros e pela estrutura do sistema financeiro.

Avanço e estagnação, por Jorge Okubaro

O Estado de S. Paulo

Em média, a despeito da melhora observada nos últimos anos, o ensino no Brasil não tem desempenhado o papel essencial que dele se espera, de oferecer oportunidades de progresso a todos

É auspicioso o avanço do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) anunciado na semana passada pelo Ministério da Educação. Aferido a cada dois anos, o Ideb é o principal indicador da qualidade do ensino brasileiro. Baseia-se nas notas alcançadas pelos estudantes em Português e Matemática e nas informações sobre aprovação e reprovação.

Ainda assim, o Ideb não alcançou metas que deveriam ter sido atingidas em 2021 pelo final do ensino fundamental (do 5.º ao 9.º ano) e pelo ensino médio. A pandemia da covid-19 é apontada como a principal causa do atraso. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, diz que o impacto das políticas do governo ainda não foi captado pelo Ideb (relativo a 2025), mas deverá ter reflexo na próxima avaliação. Quanto ao ensino médio, Barchini lembrou que, em 1988, apenas 7% dos matriculados no primeiro ano concluíam o curso; o índice atual é de 80%. “É uma escola tardia no Brasil, a gente está aprendendo a fazer o ensino médio agora.”

Na piscina com o ‘hub’ da corrupção, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Mau exemplo na política é gasolina na fogueira de golpistas e nazistas, numa fusão explosiva

Uma imagem vale mais do que mil palavras? Muitas vezes, sim, como a foto de oito políticos, alegres e sorridentes, alguns de copos nas mãos, refrescando-se na piscina do rancho de um advogado bastante conhecido, e polêmico, que está na mira na Polícia Federal por... lavagem de dinheiro.

Lava-se dinheiro daqui, lambuzam-se biografias dali e la nave va na política, enquanto grupos radicais se multiplicam com rapidez e audácia cada vez maiores, reunindo gente de tendências nazistas, machistas, misóginas e golpistas – e com ânsias de explodir a República.

O retrato da confraria do orçamento secreto, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na piscina, a confraria dos independentes, proprietários de bilhões de reais em emendas

A turma representativa – a democracia representativa dos oligarcas do Congresso – aboletada na piscina. O retrato da confraria dos independentes, os autossuficientes. Independentes da República, no sentido de que à margem dos rigores para com a coisa pública, deputados e senadores, sovacos ao alto, unidos e festivos pela perversão autoritária – a propriedade sobre dezenas de bilhões de reais do Orçamento da União, um fundo eleitoral paralelo – que os desobrigou de fazer política e que consagrou o mandato parlamentar como um fim em si mesmo.

Aprendendo coisa errada, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Indivíduos definem seus padrões de comportamento olhando para os pares

Sucessão de escândalos na alta política mostra persistência da corrupção

Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

Autonomia financeira dá lugar às alianças partidárias, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Novas regras eleitorais e financiamento público desestimulam coligações na disputa à Presidência

Na base do cada um por si no plano nacional, partidos investem nos estados para crescer no Congresso

Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

Para Flávio Bolsonaro, a melhor mulher é sempre um homem, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, senador do PP envolvido na teia Master

Escolha do deputado Alfredo Gaspar evidencia o isolamento da candidatura bolsonarista

A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para companheiro na chapa presidencial mostra que, para Flávio Bolsonaro e sua base mais radicalizada, a melhor mulher é sempre um homem.

Toda a busca de meses por uma vice mulher funcionou como tentativa de ganhar tempo diante dos reveses da campanha bolsonarista —as revelações do caso Dark Horse e a ligação íntima do filho 01 com o empresário picareta Daniel Vorcaro. E sobretudo a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle, alvo de discursos misóginos nas redes.

Poesia | Ponto de Desintoxicação, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Estácio de Sá 2027 | Samba Campeão - SAMIR TRINDADE e cia

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não é um empréstimo qualquer

Por Folha de S. Paulo

Lula relativiza a gravidade do caso envolvendo seu ex-chefe de gabinete, que pediu dinheiro a lobista

Cabe ao líder do Executivo fixar os limites éticos entre o tolerável e o inaceitável na conduta da alta administração pública

Empréstimos já ocuparam lugar de destaque na política brasileira. Em 1992, a chamada Operação Uruguai tentou justificar a origem dos recursos que sustentavam o alto padrão de vida do então presidente Fernando Collor. A versão fracassou e virou símbolo de uma explicação que desperta mais dúvidas do que esclarecimentos.

Cada caso tem particularidades, mas a experiência requer cautela com contratos de mútuo.

O que será do PT após Lula? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Lista de candidatos dá ideia de como será a luta por poder durante a sucessão

Um quadro do antigo programa TV Pirata, humorístico da Rede Globo que fez sucesso no final dos anos 1980, apareceu no meu feed do Instagram nesta semana. Nele, o ator Marco Nanini, interpretando um líder político extremista, comanda o horário eleitoral do fictício Partido Radical Brasileiro (PRB). Após anunciar que sua legenda estava aderindo ao governo, ele é imediatamente interrompido por Ney Latorraca, que denuncia que aquilo seria uma traição aos ideais da agremiação e, por isso, declara fundado o Partido Ultra Radical Brasileiro (PURB).

TCU busca no Focus culpa pelo custo alto da dívida, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

O risco maior do escrutínio que o ministro Bruno Dantas quer fazer dos dados é o boletim perder a credibilidade que conquistou

O ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas está preocupado com o formato e a governança do boletim Focus, a pesquisa feita pelo Banco Central para captar as expectativas dos agentes privados sobre temas como taxa de juros e inflação.

O risco é o TCU quebrar um termômetro que funciona bem, embora sempre possa ser aperfeiçoado, em vez de atacar as causas que levam a juros e inflação muito altos, que estão relacionadas à má qualidade da política fiscal.

Num voto no processo de contas do governo Lula de 2025, Dantas colocou o Focus entre as prioridades que, no seu entendimento, deveriam merecer um escrutínio. Segundo ele, as expectativas divulgadas, que são colhidas majoritariamente junto a participantes do mercado financeiro, repercutem no custo de financiamento de longo prazo da dívida pública.

Negócios privados com o dinheiro público, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Ficou assim: a sua turma é mais corrupta que a minha. Nessa disputa de quem tem o mais corrupto, os pecados se anulam

A corrupção é tão antiga quanto a administração pública. Mas não se dá sempre da mesma maneira. Há momentos em que prevalece o sentimento de respeito ao bem público. Forma-se um ambiente de honestidade entre os que participam ou se relacionam com os governos e a população em geral. Daí derivam a indignação com o roubo e a vergonha de ser apanhado.

Há momentos em que a roubalheira desanda. Os episódios se multiplicam no noticiário e, pior, o público parece não se importar com isso. Quem é apanhado não se arrepende de seus atos. Ao contrário, mostra-se indignado por ser acusado e responde com desculpas as mais esfarrapadas.

O Brasil vive um desses momentos. Acontece à direita, à esquerda e nesse ajuntamento chamado de Centrão. Tudo diante de um público que ou não se incomoda — “política é assim mesmo” — ou simplesmente perdeu o ânimo de protestar.

Barretão, Cacá Diegues e a ministra, por Miguel de Almeida

O Globo

Com a transformação da criação em catecismo, a arte fica sem seu caráter de inquietude

A ministra da Cultura, a sempre simpática cantora Margareth Menezes, amargou o equívoco de sua política cultural identitária no velório do produtor Luiz Carlos Barreto, o querido Barretão. Diante do corpo do marido, Lucy Barreto fez um discurso emocionado alertando sobre a situação do cinema brasileiro, sua penúria sob as regras ideológicas de produção e o que ela chamou de “cisão”. Apesar de o filho Bruno Barreto tentar segurar o desabafo da mãe, não conseguiu, além de ser repreendido. Lucy, uma das líderes da classe, não precisou descer a detalhes, e todos ali, atores, produtores e roteiristas, principalmente a ministra, entenderam texto e subtexto de suas palavras.

Filtro de relevância no Judiciário é avanço, por Irapuã Santana

O Globo

A existência de filtros recursais pode contribuir para a eficácia do próprio sistema de Justiça

Na semana passada, entrou em vigor a Lei 15.484/2026, que criou mais um requisito para que um recurso seja analisado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com a mudança, a parte deverá demonstrar, em tópico específico, que a controvérsia tem relevância econômica, política, social ou jurídica capaz de ultrapassar os interesses das partes.

Uma questão interessante é que o filtro de relevância do STJ fará com que menos recursos sejam julgados pelo tribunal. Ao contrário do que se possa imaginar, no entanto, a alteração pode melhorar o acesso à Justiça, já que não se confunde com o direito de levar toda controvérsia até a última instância possível, sobretudo quando as partes já passaram por duas instâncias, compostas por, no mínimo, quatro magistrados no total. Esse princípio compreende também o direito de receber do Estado uma resposta adequada, coerente e em tempo razoável.