terça-feira, 21 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Análise do TCU sobre emendas Pix exige investigação

Por O Globo

Em amostra de 2020 a 2024, oito em dez emendas apresentaram algum indício de irregularidade

A Polícia Federal (PF) deve dar prioridade à análise de auditoria feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as emendas Pix, transferidas diretamente para o caixa de estados e municípios, assim que o plenário da Corte aprová-la em plenário. Oito em dez das emendas examinadas apresentaram algum tipo de irregularidade. Apenas no universo da amostra, existem indícios de problema em R$ 49,1 milhões repassados entre 2020 e 2024. Como a quantia total deve ser muito maior, é urgente investigar, indiciar os suspeitos, condenar os eventuais culpados e garantir o retorno das verbas aos cofres públicos.

Pequeno glossário gramsciano, por Alvaro Bianchi e Daniela Mussi*

Revista Cult

Bloco histórico

O conceito, inspirado na obra de Georges Sorel (1847-1922), foi utilizado por Gramsci para repensar as relações entre estrutura-superestrutura em uma chave anti-economicista. Expressa a unidade entre estrutura e superestrutura, natureza e espírito. No bloco histórico, as forças materiais são o conteúdo e as ideologias, as formas. Mas essa distinção entre forma e conteúdo é apenas didática, uma vez que na realidade histórica as forças materiais não seriam concebidas sem suas formas e as ideologias não teriam eficácia sem essas forças materiais. O conceito de bloco histórico não designa uma aliança de classes ou partidos políticos.

Cultura

Tema persistente nos escritos de Antonio Gramsci, cultura adquiria sentido amplo e uma série de desdobramentos em seu pensamento. Nos artigos de juventude, a cultura aparecia associada à atividade intelectual necessária para o fortalecimento “interior” do ambiente socialista, capaz de superar tanto as reduções neopositivistas do marxismo como o neoidealismo que avançava sobre as ideias de Karl Marx, revisando-as e incorporando-as em um paradigma liberal. Nos cadernos redigidos da prisão encontramos essa concepção ampliada e complexificada, resultado do interesse e contato de Gramsci com a experiência soviética desde 1917, além dos demais desdobramentos da crise aberta com a I Guerra Mundial na Europa, especialmente na Itália sob o fascismo. A cultura passava a ser pensada, ainda, como reforma intelectual e moral, ou seja, como o coração de uma estratégia de organização política. Também era investigada como parte de uma nova historiografia que reconhecia na formação do Estado moderno a unidade contraditória entre as formas da vida e atividade de governados e governantes.

Um presidente de mãos atadas, por Fernando Gabeira

O Globo

No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?

As surpresas do inesperado, por Merval Pereira

O Globo

O ex-presidente Tancredo Neves dizia que Presidência é destino. A História do Brasil está repleta de exemplos da verdade dessa afirmação.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dizia que se tivesse sido eleito prefeito de São Paulo em 1985 — foi derrotado por Jânio Quadros — dificilmente chegaria à Presidência da República em 1994. O mesmo se pode dizer do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Candidato mais provável da direita à sucessão presidencial, foi esnobado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em favor do filho Flávio, e hoje está perto de se reeleger governador no primeiro turno. Com a vitória, mesmo que seja no segundo turno, Tarcísio se verá livre de dois “fantasmas” em 2030. Lula estará fora da disputa presidencial, e provavelmente da política, e Jair Bolsonaro estará enfraquecido com a provável derrota de Flávio, e inelegível, condição que pode se estender até 2060 se considerada também uma condenação criminal posterior.

Cenário eleitoral começa a se definir com consolidação de candidaturas, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Estruturas de poder, palanques compartilhados, recursos financeiros e tempo de televisão fazem toda a diferença, mas também existe o imponderável, como em 2018

A campanha presidencial entrou numa nova fase. A abertura do período das convenções partidárias, nesta segunda-feira, transforma as pré-candidaturas em candidaturas formais e obriga os partidos a fechar suas alianças, escolher os candidatos a vice e armar os palanques estaduais, que acabam tendo muito peso na disputa pela Presidência. Renan Santos, do Missão, foi o primeiro presidenciável a oficializar seu nome, numa convenção antecipada, realizada ontem, ao lado do militar da reserva Aroldo Medina.

Fora da bolha, eleitor ficou mais sabido e desapegado, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Perfil do TSE mostra eleitorado mais velho, mais escolarizado e mais numeroso em regiões ignoradas pelo noticiário nacional

Há mais brasileiros conectados à internet (168,7 milhões) do que aptos a votar - 158.745.463 segundo os dados do perfil do eleitorado divulgado nesta segunda pelo Tribunal Superior Eleitoral. Não se tire daí a conclusão de que esta eleição será determinada pelas redes sociais.

O jovem que as movimenta estará mais ausente. Dados compilados pela Justiça Eleitoral em São Paulo mostram que, depois de crescer 51% em 2022, quando a cantora Anitta fez uma campanha para que se alistassem, o número de eleitores com menos de 18 anos caiu 23%. Já os idosos, mais distantes das redes, cresceram 13%.

Condenado cá, premiado lá, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ainda brasileiro, conquistou algo mais importante do que um mero troféu decorativo por trabalhar a favor de Donald Trump e dos interesses americanos contra o Brasil. O prêmio de agradecimento foi bem concreto: um green card com o qual pode morar, estudar e trabalhar nos Estados Unidos.

Não é pouca coisa e não é para qualquer um, especialmente nesses tempos de Trump e ICE perseguindo, prendendo, deportando, humilhando e até separando pais de filhos, não de qualquer país, mas daqueles menos brancos e menos chiques. Como os da América Latina e da África, por exemplo.

O mal-estar da República, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Está na praça – sob a categoria tem de ler – o livro-ensaio A Oligarquia dos Poderes, de Joaquim Falcão, um dos intérpretes deste Brasil em que a concertação dissimula o conluio. Parece que Flávio Dino já o leu. Deveria lê-lo – não lhe deixa de ser uma biografia indireta – Gilmar Mendes. Não o lerá Alexandre de Moraes.

São 254 páginas de diagramação arejada, fonte generosa para com os de vista cansada e texto papo reto sobre “a crise da democracia”, esse mal-estar social derivado da percepção difusa de que a elite delegada a nos representar terá corrompido a própria existência, um fim em si mesmo, alargado e aprofundo o fosso que a separa do povo.

“O mal-estar provoca certo desprezo da sociedade pelo Estado. A maioria popular sente.” O autor trata da violação do contrato social, produto do estabelecimento de um sistema trancado em que os donos da República protegeriam uns aos outros. O Poder instrumentalizado, fachada à constituição autoritária de apropriadores, para além da locupletação simples conforme consagrada neste país.

Administrando os casuísmos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão do STF de ir mantendo desembargador à frente do governo fluminense é a melhor para o Rio

O problema é que ela atropela a ordem sucessória prevista na Constituição estadual e na federal

Tá tudo dominado. É pequena a chance de a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) tomar boas decisões. Seria uma temeridade colocar o novo presidente da Casa, que também é candidato a governador, para comandar interinamente o estado após a crise de múltiplas vacâncias.

É provavelmente com base nessas verdades autoevidentes que o STF vem mantendo o presidente do TJ fluminense, desembargador Ricardo Coutoà frente do Palácio Guanabara, em vez do deputado estadual Douglas Ruas. Vale ainda ressaltar que Couto está fazendo um bom trabalho como administrador provisório.

Estilo antigo separa Kassab e Valdemar, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Presidente do PL deu-se mal ao generalizar a ingerência de dirigentes partidários nas emendas

Ficará falando sozinho se os demais colegas negarem a prática, como fez o presidente do PSD

No segundo dos dez dias dados pelo ministro Flávio Dino para que presidentes de partidos digam se interferem, ou não, na destinação de emendas parlamentaresGilberto Kassab (PSD) foi logo negando a prática.

Apressou-se em puxar uma fila que provavelmente será seguida pelos demais dirigentes. Deixarão Valdemar Costa Neto (PL) pendurado na escada em que subiu ao tentar, numa entrevista à GloboNews, normalizar a usurpação das direções partidárias de atribuições exclusivas dos donos de mandato legislativo.

Tariflávio é apelido perfeito para quem tem culpa no cartório, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Sanção econômica dos EUA escancara interferência nas eleições

Além de Lula, adversários da candidatura bolsonarista são Trump, Master e Michelle

O período de Copa do Mundo, quando geralmente se espera um refresco nas maquinações políticas, foi devastador para a campanha de Flávio Bolsonaro. Primeiro veio o vídeo da ex-primeira-dama Michelle, horas antes de a seleção brasileira enfrentar a Escócia (acabou vencendo por 3 a 0 e dando uma falsa esperança aos torcedores).

O filho 01 disse que "hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece". Quem dera. Michelle abriu um buraco na candidatura do enteado, afastando o voto evangélico e, sobretudo, o feminino.

The Economist: Ataque ao Pix reforça 'paixão' pelo sistema de pagamento

Por O Globo

Revista britânica afirma que argumentos dos EUA não encontram respaldo em fatos, embora afirme que ele pressiona para baixo as taxas cobradas por empresas de cartões

Pix brasileiro entrou na mira do governo do presidente Donald Trump e foi usado como um dos argumentos para os Estados Unidos aprovarem uma sobretaxa de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil, após a conclusão de uma investigação comercial que durou um ano e que classificou como "injustas" determinadas práticas comerciais adotadas pelo país.

As críticas reforçaram ainda mais o apelo do sistema de pagamento, diz a revista, que cita o fato dele já fazer parte da rotina da população. Cerca de 170 milhões de pessoas ou quase 80% da população usam o sistema de pagamento gratuito e instantâneo.

Tarifas de Trump não vão funcionar e fortalecerão Lula, diz Nobel de Economia, por Mônica Mariotti

BBC News Brasil em Londres

economista americano Paul Krugman publicou um artigo nesta segunda-feira (20/7) no qual afirma que as tarifas impostas pelo governo Donald Trump ao Brasil não vão funcionar — e vão fortalecer o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Usar as tarifas para punir o Brasil por suas conquistas monetárias não terá sucesso", afirma o economista, em artigo publicado no site Substack. Confirmadas na semana passada, as tarifas entram em vigor na próxima quarta-feira (22/07).

Poesia | E agora José? de Carlos Drummond de Andrade. Voz Paulo Autran

 

Música | Maria Bethânia e Lenine - Nem o Sol, nem a Lua, nem Eu (Lenine)

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Proibição de celular nas escolas é um sucesso

Por O Globo

Medida conta com apoio de pais, professores e tem melhorado desempenho dos alunos

Em janeiro de 2025, quando foi sancionada a lei federal que proibiu celulares em salas de aula para fins não pedagógicos, havia dúvidas se a medida, que já vigorava em redes de ensino municipais e estaduais, vingaria. Era nítido o desafio de privar crianças e adolescentes de um de seus bens mais caros e desejados. A julgar por uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Educação (MEC) com diretores de escolas, um ano e meio depois as incertezas se dissiparam. A restrição não apenas obteve adesão significativa, como apresentou resultados auspiciosos.

Largada para as convenções partidárias nesta semana, por Renato Souza, Danandra Rocha e Luíza Altoé

Correio Braziliense

A partir desta semana, os partidos começam a anunciar oficialmente as candidaturas e as chapas para as eleições de outubro deste ano, e, com isso, os escolhidos vão mergulhar definitivamente nas campanhas, seja nas ruas, seja na internet a partir de 16 de agosto

Há pouco mais de um mês, a Seleção Brasileira entrou em campo para disputar a taça da Copa do Mundo e tentar conquistar o hexacampeonato de futebol. A frustração veio mais cedo do que se esperava, com a equipe canarinha sendo eliminada ainda nas oitavas de final. Assim que o elenco do Brasil foi desclassificado pela Noruega, no último dia 5, as redes sociais foram inundadas de comentários sobre as eleições. Os internautas diziam que a disputa agora seria nas ruas, nas campanhas e na internet.

No entanto, apesar da antecipação do clima eleitoral, em razão da frustração com o futebol, a corrida para a vaga de presidente da República, assim como de deputados e senadores, começa hoje, com o início das convenções partidárias, fase que marca a entrada oficial dos candidatos, que deixam de ser pré-postulantes aos cargos e mergulham definitivamente na disputa política.

Economia será decisiva para eleições, diz José Guimarães, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ministro atribui melhora de Lula a novos programas do governo, vê Palácio ‘sem crises’ e minimiza tensão com o Senado

O ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, disse ao Valor que as últimas pesquisas eleitorais o convenceram de que a economia terá um peso decisivo na disputa pelo Palácio do Planalto. Ele atribuiu a melhora na aprovação do governo a programas com impacto no bolso do eleitor, como o Desenrola.

Responsável pela articulação política, ele vê mais integração entre o time de ministros que dialoga com o Congresso e classifica a aprovação na Câmara dos Deputados da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 como a principal vitória de sua gestão na pasta. A matéria, no entanto, não avançou no Senado, onde o Executivo ainda enfrenta um clima de tensão desde o afastamento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

Tarifaço amplia crise em pré-campanha de Flávio, por Beatriz Roscoe e Gabriela Guido

Valor Econômico

Parte do entorno do senador avalia que episódios impediram avanço de agenda positiva; time tenta emplacar pauta de propostas, como plano para mulheres

O anúncio do tarifaço dos Estados Unidos na semana passada aprofundou o diagnóstico que já vinha sendo feito por aliados e interlocutores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ): a pré-campanha ao Palácio do Planalto acumula crises e erros desde o lançamento, em dezembro de 2025. A avaliação é que sucessivos erros políticos, falhas de comunicação, dificuldades de articulação e conflitos internos impediram que a pré-campanha conseguisse emplacar uma agenda positiva.

Para essas fontes, a decisão de Flávio de acionar o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) e viajar a Washington para tentar convencer autoridades americanas a reverter a taxa de 25% sobre produtos brasileiros ampliou o desgaste e desviou novamente o foco das propostas que vêm sendo anunciadas por ele.

Ataques a Moraes fragilizam imagem de ‘moderado’, por Tiago Angelo

Valor Econômico

Pré-candidato do PL sobe o tom contra Alexandre de Moraes, diz que não irá ‘abaixar a cabeça’ para ‘tirano nenhum’ e afirma que ministro ‘parece sem alma’ e usado por um ‘demônio’

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) afirmaram em reserva ao Valor que declarações recentes do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre Alexandre de Moraes fragilizam a imagem de que o político é mais “moderado” que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Tarifaço machuca, mas nem tanto, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Efeitos do tarifaço são limitados, e muitos setores compensaram perdas redirecionando exportações

Donald Trump não aliviou e cumpriu a ameaça de sobretaxar nossas exportações. Valendo-se de uma investigação sobre supostas práticas desleais, o órgão de defesa comercial americano aplicou uma tarifa extra de 25% sobre os produtos brasileiros.

É mais um capítulo da novela que começou ainda durante a campanha eleitoral, quando Trump começou seu bullying contra parceiros comerciais. Daí veio o Liberation Day, em 02/04/2025, com a aplicação de tarifas seletivas para cada país, que nos brindou com a alíquota mínima de 10%. Mas em junho de 2025 o presidente americano resolveu apontar seu armamento comercial para o Brasil. Com objetivos políticos e defendendo interesses de grandes empresas, iniciou o processo que agora confirmou a sobretaxa de 25%.

Mulheres e negros unidos contra o retrocesso, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Uma sociedade racista e viciada em desigualdades é resistente a mudanças que visam garantir direitos aos negros e proteção às mulheres

Grupos precisam se unir contra o retrocesso de conquistas civilizatórias alcançadas ao longo de décadas de lutas

Por mais que não seja uma surpresa, dada a trajetória histórica que nos trouxe ao atual patamar de desigualdades nacionais vigentes, a cruzada empreendida por agentes políticos contra as cotas étnico-raciais, a misoginia e a criminalização do racismo são impressionantes.

Se a proposição de um projeto de lei flagrantemente inconstitucional é, por si, uma afronta à democracia, a insistência em contrariar o pacto federativo para fazer valer uma tese que, além de ferir a Constituição, contraria a fartura de dados e evidências sobre a preponderância do fator étnico-racial na estruturação das desigualdades ultrapassa todos os limites da civilidade, da moralidade e do chamado "espírito republicano".

A política da nova opacidade, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Por que o combate à corrupção pelo STF e TCU nas emendas orçamentárias não se volta para essas próprias instituições?

Consolidou-se um modelo em que parlamentares preservam influência sobre o gasto público enquanto reduzem a visibilidade de sua participação.

Por que um parlamentar abriria mão de receber o crédito por uma obra, um hospital ou uma quadra que ajudou a financiar? A pergunta é contraintuitiva. Durante décadas, a ciência política explicou a política distributiva justamente pela busca desse reconhecimento. O deputado destinava recursos ao seu reduto, inaugurava obras e esperava transformar a visibilidade em votos.

Contra a corrupção do outro, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Sob polarização, as instituições passam a ser julgadas por quem elas atingem 

Poucos temas produzem tanto consenso no Brasil quanto o combate à corrupção. Pesquisas de opinião mostram, há décadas, que a maioria dos brasileiros considera a corrupção um dos principais problemas do País. Ainda assim, convivemos com uma sensação permanente de impunidade.

O maior obstáculo ao combate à corrupção talvez não seja apenas a fragilidade das leis ou das instituições. Mas, sim, a incapacidade dos próprios eleitores de julgarem a corrupção com o mesmo critério, independentemente de quem esteja sendo investigado.

Brasil também é protecionista, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

As tarifas de importação são elevadas em relação a outros países emergentes e desenvolvidos

O Brasil é protecionista. Há décadas. Isso significa que as tarifas de importação são elevadas em relação a outros países emergentes e desenvolvidos. Há uma lógica por trás disso. Trata-se de uma vertente de política econômica que, simplificando, indica que o país deve proteger sua indústria da concorrência externa. O objetivo é dar tempo para que a produção local se desenvolva.

Temos um exemplo bem atual: a partir deste mês, todo veículo eletrificado que entrar no Brasil pagará um imposto de importação de 35%. Trata-se de um tarifaço, o nível mais alto permitido pelas regras da Organização Mundial do Comércio.

Rússia lembra que tem a bomba, por Demétrio Magnoli

O Globo

Putin concluiu que só pode triunfar por meio de uma capitulação política dos EUA e da Europa

A revista The Economist publicou, há pouco, um texto de Andrey Melnichenko, magnata russo dos fertilizantes cujas fábricas participam da economia de guerra destinada a sustentar a invasão da Ucrânia. A revista o apresenta como “o homem que mudaria a Rússia” e interpreta seu artigo como “alerta de fadiga ou descontentamento” oriundo da oligarquia econômica russa. Trata-se de um raro equívoco de leitura de um veículo que não pode ser acusado de ingenuidade. De fato, Melnichenko dirige ao Ocidente — aos governos e à opinião pública — uma mensagem cifrada do Kremlin.

Polícia não pode ser responsável por tudo, por Preto Zezé

O Globo

Transformamos problemas de saúde, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais

Imagine uma ocorrência de embriaguez e desordem em um sábado à noite. A polícia chega para conter a confusão e encontra uma mulher agredida, crianças vivendo em um ambiente de violência e uma família abandonada pelo poder público. Quando a ocorrência termina e todos chegam à delegacia, aparece uma das grandes distorções do nosso sistema. O homem que provocou a violência passa a responder também como vítima, alegando lesão corporal, invasão de domicílio ou prisão ilegal. A mulher e os filhos, que precisavam da intervenção do Estado para interromper o ciclo de violência, tornam-se testemunhas. E o policial chamado para proteger a família passa a ocupar o banco dos réus. Não discuto a responsabilização de abusos policiais quando eles existem. O que essa situação revela é outra coisa: a ausência das demais políticas públicas empurra a polícia para resolver, sozinha, problemas que nunca foram só policiais.

Poesia | Lola Flores -. Requiem por Frederico Garcia Lorca

 

Música | Joan Manuel Serrat - Cantares - Último concierto en Madrid

 

domingo, 19 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Copa do Mundo sai vitoriosa com diversidade

Por O Globo

Ponto negativo do torneio ocorreu fora de campo, com Fifa cedendo à pressão de Trump por anulação de cartão

Quando a Fifa anunciou a realização da Copa do Mundo de 2026 com 48 seleções — a maior da História — nos Estados Unidos, Canadá e México, havia dúvidas se o aumento do número de participantes, que levaria a campo equipes de pouca ou nenhuma tradição, funcionaria. Depois de 39 dias e mais de cem partidas em que jogadas antológicas de craques como Lionel Messi, Kylian Mbappé, Lamine Yamal, Harry Kane, entre outros, se misturaram a pisadas de bola do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do comandante da Fifa, Gianni Infantino, parece certo que, ao menos dentro de campo, a maratona do futebol passou no teste.

O Brasil entre soberania, democracia e seus velhos problemas sociais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A retaliação de Trump pode fortalecer uma narrativa nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os juros, a qualidade dos serviços e a esperança continuarão orientando o voto

Quem quiser que se iluda, estamos diante de um novo ciclo político de longa duração, no qual os velhos problemas do país já não podem ser enfrentados da mesma forma, num contexto de crise da democracia ocidental, revolução tecnológica e desestruturação dos pactos diplomáticos pós Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o Brasil chega às eleições de 2026, com uma combinação complexa de problemas sociais e econômicos, de radicalização política e de mudança da ordem internacional.

Ninguém pode desconsiderar que o nosso subdesenvolvimento, para usar uma expressão clássica, decorre da baixa produtividade, da desigualdade de oportunidades, da precariedade da educação básica, da expansão do crime organizado, dos deficits de saneamento e de habitação, do alto custo do capital e da fragilidade fiscal. Esse é o diagnóstico que alimenta o debate e divide opiniões por parte de quem busca soluções para o país em bases democráticas.

Ciranda política, por Merval Pereira

O Globo

Vença quem vencer a eleição deste ano, seremos reféns do passado até pelo menos 2030, quando haverá uma nova safra de políticos à disposição dos eleitores.

Vença quem vencer a eleição deste ano, seremos reféns do passado até pelo menos 2030, quando haverá uma nova safra de políticos à disposição dos eleitores, o que não acontece desde 1994, quando Fernando Henrique, um presidente ocasional como ele gosta de se definir, surgiu no cenário nacional fruto de uma visão moderna da política trazida pelo PSDB, que rompeu com o desgastado MDB devido aos mesmos problemas que vivemos hoje, especialmente a corrupção.

O hoje presidente Lula envelheceu no poder, de um renovador apresentado ao eleitorado em 1989 a um velho oligarca que hoje comanda um partido político, o PT, que caminha para a obsolescência assim que seu único líder se retirar da política, pela derrota este ano ou até 2030, ao terminar um possível quarto mandato presidencial. Se alguma intercorrência, de saúde ou política, impedir que termine o eventual mandato, seu substituto será o vice Geraldo Alckmin, outra raposa política vinda dos tucanos para o petismo, capaz de cantar a Internacional Socialista com a mesma entonação monocórdica com que acusava Lula de ter roubado na eleição presidencial que disputaram entre si em 2006.

Novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham critica neoliberalismo e promete guinada à esquerda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Fantasiado de lixeira, candidato de protesto ameaça derrotar líder da ultradireita populista

Nesta segunda-feira, Andy Burnham cruzará os portões do Palácio de Buckingham para uma audiência com o rei. Charles III vai perguntar se o novo líder do Partido Trabalhista aceita formar um governo em seu nome. O rito se repete há mais de três séculos — mas nunca foi encenado tantas vezes em tão pouco tempo.

Ex-prefeito de Manchester, Burnham se tornará o sétimo primeiro-ministro britânico em uma década. A instabilidade começou quando a população da ilha foi às urnas e tomou uma decisão estúpida: abandonar a União Europeia.

Elisabeth, a menina de Renoir, por Elio Gaspari

O Globo

Acaba de sair no Estados Unidos o livro “The Renoir girls”, com a trágica história das irmãs retratadas pelo pintor francês

Um dos mais admirados quadros do Museu de Arte de São Paulo é do pintor francês Renoir: chama-se “Rosa e Azul”. Retrata duas meninas: Alice (a de vestido rosa), de 5 anos, e Elisabeth (de azul), de 6, filhas do casal Louis e Louise Cahen d’Anvers, estrelas da granfinagem parisiense. Renoir recebeu 1.500 francos pelo serviço, não ficou muito satisfeito, mas o quadro foi bem de crítica. Acaba de sair no Estados Unidos o livro “The Renoir girls”, com sua história.

No fim do século XIX os Rothschild, com seu banco e seus castelos, eram conhecidos como os reis dos judeus, e os d’Anvers (também judeus) estavam ligados aos Ephrussi, os reis do trigo. Faziam parte da elite francesa ou supunham fazer parte dela, pois o ranço antissemita sempre estava pronto para mais um bote.

O mais importante sobre o novo tarifaço não é a tarifa, por Matias Spektor*

O Globo

O objetivo não pode ser apenas exportar mais, mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia

O erro mais comum na discussão sobre as novas tarifas americanas contra o Brasil é tratá-las como mais um episódio da turbulenta relação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa dimensão existe. Mas ela esconde a transformação mais importante.

Os Estados Unidos passaram a reorganizar sua política comercial em torno do poder nacional. O comércio tornou-se instrumento de competição estratégica — controles de exportação de tecnologia sensível, exigências de conteúdo local para subsídios industriais, triagem de investimentos por segurança nacional. Quando a Suprema Corte anulou parte das tarifas de 2025, o governo Trump reconstruiu sua política tarifária sobre bases jurídicas mais sólidas. As novas tarifas contra o Brasil são parte dessa estratégia mais ampla.

EUA apostam em testosterona para vencer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Esteroide é a receita de Pete Hegseth para reverter a incapacidade de Trump de ganhar as guerras que inicia

O operador de teleprompter Gabriel Pérez trabalhou para Donald Trump por dez anos. Conseguia engordar o salário de US$ 170 mil anuais fazendo apostas na Kalshi (maior concorrente da Polymarket) sobre a duração, os temas e determinadas palavras que o chefe usaria em discursos. A barbada tinha lucro garantido, pois são notórias a esqualidez, vulgaridade superlativa e previsibilidade do vocabulário de Trump.

A jogatina do funcionário foi descoberta poucas horas antes da fala presidencial da semana passada, levando à sua demissão. De todo modo, Pérez teria perdido a aposta. O discurso anunciado por Trump como de importância capital e com revelações tonitruantes durou menos de meia hora em horário nobre —uma merreca para a verborragia habitual. Sequer foi transmitido na íntegra por Fox News, ABC e CNN. É possível que o próprio Trump não aguentasse ouvir por mais tempo sua ladainha de que houve fraude na eleição de 2020, em benefício do democrata Joe Biden. Em fala arrastada, listou um cipoal de “evidências novas” de interferência da China, com respingos até contra a infeliz Venezuela, e deu o recado central: diante da falência do sistema eleitoral americano, será preciso antecipar-se às inevitáveis fraudes no pleito de novembro próximo. Tradução: vale tudo para impedir que os democratas reconquistem maioria na Câmara e/ou no Senado, como apontam as pesquisas de opinião mais recentes.

A inegável motivação política de Trump, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Os Bolsonaros atacaram, Lula tentou defender e perdeu. Trump ganhou a guerra

A palavra de ordem na crise das tarifas entre Brasil e EUA é negociação, mas isso depende de algo básico: combinar com os adversários. Não há conversa se um dos lados fecha portas e ouvidos e esse é o caso de Donald Trump e Marco Rubio, que não estavam e não estão dispostos a conversar governo a governo. Quando um não quer, dois não brigam. Quando um não quer, ninguém negocia.

O presidente Lula não passa ileso de críticas, desde que, apesar da “química” com Trump, insistiu em dar caneladas no presidente americano. Uma ou outra eram indispensáveis, mas a insistência foi além do necessário. Isso, porém, não significa que o Brasil não tenha se esforçado para negociar.

O Brasil e outra oportunidade perdida, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Na ofensiva tarifária de Trump a lição para os brasileiros é: não seja eficiente, seja dependente do governo

A tarifa americana de 25% aprofunda a escolha do Brasil de privilegiar setores ineficientes, sacrificar os eficientes, elevar o protagonismo do Estado, intensificar a transferência silenciosa de riquezas para grupos privilegiados e a dependência da China. Antes da ofensiva de Donald Trump, os EUA impunham alíquota média de 3%; a União Europeia, de 4%; o Mercosul, 11%.

Empresas com mais poder político usufruem de proteções ainda maiores: 18% para o etanol, 20% para produtos industrializados, 35% para automóveis e 63% para resinas termoplásticas, se consideradas as ações antidumping.

Ucrânia e Oriente Médio, por Celso Lafer*

O Estado de S. Paulo

O desafio de calibrar as respostas do País a este cenário internacional é a primeira prioridade da política externa brasileira

As guerras, assim como a paz que delas pode resultar, são camaleônicas. Mudam de aspecto e de caráter em função de sua duração, dos beligerantes envolvidos, da pluralidade das armas, das constelações diplomáticas e da dinâmica do poder e da força em ação.

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio têm especificidades próprias e distintos atores. Representam o paradigma do uso da força como meio de solução de tensões e conflitos.

Ambas têm como horizonte uma reconfiguração geopolítica das regiões em que vêm sendo travadas, e vêm tendo um impacto significativo na dinâmica da vida internacional, que vai muito além do de seus espaços próprios.

Lula chama Trump para guerra no teatro do ufanismo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente ganhou o lance do tarifaço, mas corre o risco de passar do ponto na exploração da vitória

O embate da soberania não se sustenta se contraria o interesse nacional e ignora demandas urgentes do país

Flávio Bolsonaro (PL) perdeu de lavada para Luiz Inácio da Silva (PT) no quesito tarifaço e disso deu notícia completa a pesquisa Quaest em que o senador gabaritou negativamente o questionário feito sobre o assunto. O eleitorado deu razão a Lula de A a Z.

No universo da política, a avaliação também foi ruim, a começar pelo candidato que já havia reconhecido o prejuízo no pedido do adiamento para não favorecer o adversário. Quem não criticou, calou, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).