domingo, 12 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Notícias inquietantes para Lula no Datafolha

Por Folha de S. Paulo

Avaliação positiva do governo não supera a negativa nem mesmo entre eleitores mais pobres

Na simulação de segundo turno, há empate com Flávio Bolsonaro, que surge numericamente à frente pela primeira vez

A nova pesquisa do Datafolha traz notícias inquietantes para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a apenas seis meses da disputa presidencial.

Entre os brasileiros aptos a votar, a avaliação do governo petista tem viés de baixa. Ademais, nas simulações de segundo turno, o incumbente aparece empatado com os principais adversários à direita, e Flávio Bolsonaro (PL) se encontra pela primeira vez numericamente à frente.

A “economia do afeto” já não é suficiente para a reeleição de Lula, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governo entra na corrida eleitoral com emprego elevado e programas sociais de grande alcance, mas isso não se traduz em percepção de bem-estar

O cessar fogo no estreito de Ormuz e as negociações entre Estados Unidos e Irã, que ainda não chegaram a um acordo, produziram um alívio no mercado internacional de energia, com reflexos diretos no Brasil. A queda do barril do tipo Brent — que havia ultrapassado US$ 118 no auge da crise — para a casa dos US$ 94 abriu espaço para uma redução, ainda que modesta, no preço dos combustíveis. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o diesel recuou 0,2%, para R$ 7,43, interrompendo uma trajetória de alta que pressionava fortemente a inflação. Trata-se de uma boa notícia para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque o diesel é o principal vetor de transmissão de custos na economia, com impacto no transporte, nos alimentos e nos serviços.

CadÚnico completa 25 anos como eixo da transformação social no Brasil, por Wellington Dias e Rafael Osorio*

Correio Braziliense

Sem informação sobre os mais vulneráveis, o Estado atua no escuro. Com essa informação, é possível direcionar políticas para os públicos mais vulneráveis e as regiões com maior desigualdade

O Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, ou CadÚnico, completa 25 anos em 2026. Desde a sua criação, tornou-se a principal base de identificação da população de baixa renda no país. Hoje, 42,2 milhões de famílias — cerca de 96 milhões de brasileiras e brasileiros — estão nele registradas. Isso representa quase metade da população brasileira, um retrato fiel da diversidade e das desigualdades do nosso país. 

Criado em 2001 como um formulário para beneficiários de todos os programas federais de transferência de renda, o Cadastro Único ganhou escala a partir de 2003, com a criação do Programa Bolsa Família. Até então, cada programa mantinha o próprio registro de beneficiários. A unificação reduziu sobreposições e inconsistências, como resultado atualmente temos uma base de dados robusta e atualizada periodicamente.

Uma nação perigosa? Por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Os pesos e contrapesos da democracia norte-americana hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize

Faltam quase 200 semanas: é assustador Estadão, 13/4/25, A4), foi o título de artigo que publiquei neste espaço, há exatamente um ano, a propósito das primeiras 12 semanas do governo Trump. Já era possível então antever um futuro incerto e perigoso, para os EUA e para o mundo. O panorama é agora ainda mais assustador.

Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norteamericano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.

Miséria de ideias marca início da disputa eleitoral, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Nenhum candidato tentou, ainda, abrir um debate proveitoso sobre qualquer assunto relevante para a vida econômica e para a gestão pública do País

Bocejo vai ser a marca da campanha eleitoral, neste ano, se nenhum desastre, escândalo ou alguma grande surpresa mudar o cenário. Por enquanto, nada ou quase nada aparece, no horizonte político, além do conflito grupal entre bolsonarismo e lulismo ou, numa perspectiva mais ampla, entre direita, esquerda e algum liberalismo conservador ou reformista. Num ambiente menos morno e paradão, as aventuras do senhor Vorcaro seriam noticiadas, quase certamente, com menor destaque. O Brasil já teve escândalos financeiros mais notáveis e com envolvimento de instituições mais poderosas. Apesar de mais interessantes, é melhor evitar sua repetição.

Artemis e o Planeta Trump, Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A Artemis II distrai EUA e mundo, mas não esconde o “admirável mundo novo de Trump”

A Missão Artemis II é um sucesso histórico que vem a calhar para Donald Trump distrair os Estados Unidos e o mundo por algum tempo, mas não anula as suas ações nocivas contra a economia, as regras, a estabilidade e a segurança do planeta onde vivemos e traz aquela dúvida cruel: o que aconteceu com o sistema de pesos e contrapesos da democracia americana?

Quando Trump ameaça o Irã dizendo que “toda uma civilização vai morrer, para nunca mais voltar”, tem alguma coisa de errado aí, muito errado, um cheiro de Hitler no ar, um sinal amarelo (ou vermelho?) para a humanidade. Afora a perplexidade de parte da população civil e da mídia, nada acontece. O sistema de Justiça, as Forças Armadas e o Congresso dão de ombros, como se fosse normal, uma frase “desajeitada” a mais.

O que pode dar errado em Islamabad? Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Superestimarem seus respectivos ganhos na guerra e Trump não conseguir controlar Netanyahu

As negociações entre EUA e Irã têm a melhor composição possível. O que pode dar errado? As partes superestimarem seus respectivos ganhos táticos, militares, políticos e estratégicos na guerra de 40 dias; ou Donald Trump não conseguir controlar Binyamin Netanyahu.

A escolha do vice J.D. Vance prova o desejo de Trump de alcançar um acordo. Além do mandato que a eleição lhe confere, o vice foi quem mais vocalizou oposição à guerra, no processo de decisão.

Todos contra um, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sem rivais no campo progressista, presidente tende a ficar isolado em debates e 2º turno

Rumo à sétima campanha presidencial, Lula deixou escapar uma preocupação com os debates de TV. “Eu não sei quantos candidatos vai ter do lado de lá”, comentou, na quarta-feira. O petista disse que preferia participar de encontros “sem tanta regra”. “Quem sabe não precisa ser todo mundo junto, quem sabe faz uma mistureba?”, sugeriu, em entrevista ao ICL Notícias.

Pela lei eleitoral, outros três pré-candidatos têm lugar garantido nos debates: Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). Eles são filiados a partidos que elegeram ao menos cinco congressistas em 2022. As emissoras também podem convidar representantes de legendas nanicas que pontuarem bem nas pesquisas. Em tese, poderá ser o caso de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).

Com quem será? Por Merval Pereira

O Globo

No STF existe uma disputa antes velada, agora quase escancarada, para saber que grupo controlará a maioria do plenário ou, pelo menos, da Primeira Turma, hoje composta pelos ministros Flavio Dino, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Carmem Lucia e Luis Fux.

Em meio a toda crise institucional que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive, existe uma disputa antes velada, agora quase escancarada, para saber que grupo controlará a maioria do plenário ou, pelo menos, da Primeira Turma, hoje composta pelos ministros Flavio Dino, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Carmem Lucia e Luis Fux. O provável futuro ministro da Casa, Jorge Messias, vai compor esse grupo, pois Fux pediu para sair por divergências com a maioria dele. O indicado pelo presidente Lula está tendo ajuda até mesmo dos ministros indicados por Bolsonaro, como André Mendonça e Nunes Marques, mas conta também com ministros mais ligados a Lula, como Gilmar Mendes.

Vorcaro é um fenômeno antropológico, por Elio Gaspari

O Globo

Entre propinas, festas, milicianos, consultorias e honorários, em três anos, o banqueiro aspergiu, numa conta de padaria, mais de R$ 1 bilhão

Entre propinas, festas, milicianos, consultorias e honorários, em três anos, Daniel Vorcaro aspergiu, numa conta de padaria, mais de R$ 1 bilhão. Contratou serviços de um ex-presidente (Michel Temer, com R$ 10 milhões), dois ex-ministros (Ricardo Lewandowski, do STF, com pelo menos R$ 6,1 milhões e Guido Mantega , da Fazenda, com R$ 14 milhões.) Nessa constelação de notáveis brilha o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes (R$ 80 milhões). Em quatro anos o Master gastou mais de R$ 500 milhões com advogados de 91 bancas.

A milícia privada de Vorcaro custou-lhe R$ 68,66 milhões em 2023. Nas asas de suas empresas voaram pelo menos três ministros do Supremo: Alexandre de Moraes, marido da doutora Viviane, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Este, como relator do caso Master, quis impor sigilo ao processo e tentou blindar a investigação.

Banco Central pede socorro, por Míriam Leitão

O Globo

O sistema financeiro ficou maior e mais complexo, o BC precisa contratar mais, valorizar o servidor, criar um ambiente próprio de IA

A proposta de ampliar a autonomia do Banco Central tem ficado prisioneira dos conflitos. Dias atrás, quase foi tirada de pauta após o PT não gostar da resposta do presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre o seu antecessor. Ele não acusou Roberto Campos Neto no caso Master. Contornada a crise, decidiu-se que o relatório será votado esta semana na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Esse projeto deve ser avaliado pelos seus méritos e em busca de maior eficiência da autoridade monetária. O número de instituições financeiras aumentou muito nos últimos anos, as fraudes estão mais sofisticadas e complexas, o ambiente digital ampliou a exposição a riscos de ataques cibernéticos. O país precisa de mais Banco Central e não menos. A instituição está definhando com a perda gradativa de pessoal.

Haddad foi um bom ministro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Mesmo assim, boa parte da esquerda o chama de neoliberal

Já mercado lamenta que Haddad não tenha feito um ajuste fiscal mais duro

Fernando Haddad fez a reforma tributária que 9 entre 10 economistas achavam necessária para destravar o capitalismo brasileiro. Cobrou imposto dos ricos como nenhum governo de esquerda havia cobrado. Conseguiu entregar desemprego e inflação baixos, crescimento médio maior do que o dos últimos anos e foi o único político brasileiro, pelo que se sabe até agora, que se recusou a conversar com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Fernando Haddad foi, portanto, um bom ministro.

Mesmo assim, boa parte da esquerda o chama de neoliberal, e o mercado lamenta que Haddad não tenha feito um ajuste fiscal mais duro.

Anti-Lula assombra Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Caiado e Zema, na casa dos 5% no primeiro turno, empatam com o presidente na disputa final

Avaliação do governo não é positiva nem entre o eleitorado de menor renda, indica Datafolha

O anti-Lula deve ter 42% dos votos, sugerem dados do DatafolhaRonaldo Caiado (PSD-GO), com 5% dos votos no primeiro turno, e Romeu Zema (Novo-MG), com 4%, iriam a 42% das preferências do eleitorado caso disputassem o segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva. Nessas hipóteses, o presidente ficaria com 45%.

Não dá para cravar que qualquer adversário de Lula consiga dar tamanho salto de votação entre os dois turnos —o Datafolha compôs cenários apenas com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Caiado e Zema. É temerário dizer que Cabo Daciolo (Mobiliza), com 1%, possa se tornar alternativa. Daciolo, do bordão "Glória a Deux", foi candidato a presidente em 2018 e chegou em sexto lugar, vencendo Henrique Meirelles, Marina Silva e Guilherme Boulos.

Dois caminhos para a prosperidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro investiga as causas profundas da divergência Ocidente-Oriente

Organizações baseadas em regras universais deram vantagem à Europa

"Two Paths to Prosperity", de Avner Greif, Joel Mokyr e Guido Tabellini, é uma obra de fôlego, daquelas que encantam os que gostam de entender as causas profundas de fenômenos históricos. O trio de autores se propõe a explicar nada menos do que a Grande Divergência, o processo pelo qual o Ocidente (Europa e EUA) consegue a partir do século 19 superar o Oriente (principalmente a China) em termos de riqueza e desenvolvimento científico.

Pacote pode virar arma eleitoral, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Medidas não deveriam se transformar em arma eleitoral para estimular o consumo a todo custo

Governo turbinou crédito para acelerar PIB; agora, o endividamento dá as caras de forma mais preocupante

No centro da discussão sobre as medidas de combate ao endividamento está o embate crescente no governo Lula neste ano eleitoral sobre o atual patamar da taxa Selic mantido pelo Banco Central –hoje em 14,75%.

O governo considera que o programa Desenrola de renegociação de dívidas –a primeira medida anunciada pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ainda na época da transição– deu certo, mas foi prejudicado pelos juros em nível alto por um tempo prolongado.

Rio de lama e seus afluentes, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Palavra-chave no dia a dia da cidade é caos urbano

Massas eleitorais cariocas são regidas pela lógica do pior

Logo no início da peça "Júlio César", de Shakespeare, um vidente adverte o imperador: "Cuidado com os idos de março", 15 de março no calendário romano. Sem dar atenção à profecia, César é assassinado nesse mesmo dia. Mas não foi preciso áugure nenhum para se prever que março seria um mês ominoso no Rio de Janeiro, tendo em vista os prazos eleitorais de desincompatibilização para a alternância dos titulares no poder. Uma semana depois dos idos, o Rio ficou ao mesmo tempo sem governador, prefeito, chefe de polícia e secretariado. É a cidade do "perdeu!", uma metrópole à matroca.

Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana, por Roberto Amaral*

Aos analistas da crise internacional, a boa prudência aconselha parcimônia na projeção de seus desdobramentos, mesmo no curtíssimo prazo. A promessa de paz, ainda que a tempo medido, um pequeno armistício, uma curta suspensão das hostilidades por breves duas semanas para ensejar um mínimo de diálogo, consumou-se em poucas horas como se tudo não passasse de uma trampa. E não poderia ser diferente, pois um dos principais agentes da guerra e do cessar-fogo, o mais belicoso e o mais poderoso — os Estados Unidos da América do Norte — são um negociador de má-fé, e Israel, seu principal associado nesta guerra suja, é comandado por um criminoso de guerra com mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional, o que ameaça fazer da negociação a ser retomada uma não-negociação, um ilusionismo para acalmar o mercado global em crise e dar fôlego ao complexo industrial dos EUA, metido numa guerra muito mais custosa do que calculara a princípio (se é que houve cálculo), e as forças da ocupação israelense, que um alto comandante chegou a anunciar que estavam próximas da exaustão.

Poesia | Embriaguem-se, de Charles Baudelaire

 

Música | Paulinho da Viola e Lobão - Sinal Fechado (Paulinho da Viola)

 

sábado, 11 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Messias deve ser submetido a arguição rigorosa

Por O Globo

Alcolumbre fez bem em marcar logo sabatina. Senadores devem manter foco no lado técnico, não no político

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não demorou a enviar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria do ex-ministro Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado. A decisão desfez os rumores de que, em meio às rusgas com o Palácio do Planalto, os senadores pudessem empurrar a sabatina para depois das eleições. Seria péssimo para o país, uma vez que o Supremo está com um ministro a menos. A sabatina foi marcada para 29 de abril.

A coreografia do genocídio, por José Eduardo Agualusa

O Globo

O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista

Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”

Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.

Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”

Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.

Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.

Sentido da primavera, 2026, por Eduardo Affonso

O Globo

Há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas

É 1944. Vinícius de Moraes acorda com uma sensação indizível e bebe do copo vazio uma substância violeta, com peso específico de sonho. Era o ar da primavera.

Sente o cheiro da filha — “mistura de talco, suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono”. Depois, o da Praia do Leblon, que não cheirava a rosas: era o esgoto onde se banhavam igualmente a criançada rica e a da Praia do Pinto.

Percebe, também, súbito, um cheiro de nazismo. Branco, inodoro, com laivos de salsicha, chope, cachorro policial, radiotelegrafia e cemitério. Que talvez viesse de algum bar ou café, “desses onde se reúnem nazistas conhecidos e desconhecidos”. Chegam, a seguir, outros cheiros: de amor, solidão, mar, mosca que voeja, madeira, sol, gato. Mas fiquemos neste, o do nazismo.

Morreu de São Paulo, Brasil, por Flávia Oliveira

O Globo

Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos

Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.

O companheiro Alexandre, por Thaís Oyama

O Globo

Presidente tem vários motivos para largar a mão daquele a quem, por mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia

O presidente Lula, em entrevista ao ICL Notícias, referiu-se ao ministro do STF Alexandre de Moraes como “companheiro Alexandre” para, três frases depois, jogar o companheiro Alexandre aos leões. Dois dias após a CPI do Banco Master revelar que o patrimônio do magistrado triplicou desde a sua chegada ao STF — e que só os 17 imóveis que possui com a mulher estão avaliados em R$ 31,5 milhões —, Lula afirmou que quem quer “ficar milionário não pode ser ministro da Suprema Corte”. Disse ainda que “salário de deputado, governador, presidente da República não permite que ninguém seja rico”. E acrescentou: se alguém enriquece durante o mandato, é “porque teve outras coisas para ficar rico”. Um pouco mais e Moraes ficaria tentado a enquadrar Lula num de seus inquéritos imorríveis.

Intervenção do bem no Rio, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Flávio Dino pediu vista. Tem dúvidas. Esperará pelo acórdão do TSE sobre o julgamento que tornou inelegível Cláudio Castro. Pareceu querer respeitar a Justiça Eleitoral. Na prática, faz pressão para que o tribunal entregue cassação que não declarou. É pesada a carga por eleições suplementares diretas. Não descartado que essa carga seja fachada para outra solução. O laboratório do Supremo está ativo.

O império é forte, mas já não resolve, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O dólar continua um instrumento de força, mas não garante a imposição dos interesses dos EUA

Como na saga hollywoodiana, o império ainda tem força para contra-atacar. Mas isso já não decide o rumo da história. A cada escalada do conflito no Irã, o petróleo sobe, os mercados se reposicionam e o poder americano se move com intensidade – sem garantir o desfecho. Os instrumentos centrais desse poder – militar e financeiro – continuam fortes, mas estão ficando menos decisivos. Como argumenta em artigo o Financial Times, a guerra expôs a fragilidade do dólar.

Fundamentalistas americanos, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A confusão entre política e religião fundamentalista modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os conceitos de democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da imposição da força e da negação da diplomacia

Fiz meu mestrado na School of Advanced International Studies (Sais), em Washington, Estados Unidos, nos anos de 1980. Período muito fértil na vida acadêmica. Estudei muito, conversei bastante, frequentei palestras e cheguei a falar para alunos e professores sobre Brasil e suas circunstâncias, porque o país atravessava a imensa dificuldade ocasionada pela doença e morte de Tancredo Neves, depois de ele ter sido eleito presidente da República. Fiz palestra no Clais — Centro de Estudos Latino-americanos e Ibéricos —, em Harvard, sobre o cenário político brasileiro da época.

Trump diz que vai fortalecer economia da Hungria se Orbán vencer eleição

Por Folha de S. Paulo

Governo dos EUA interfere no pleito húngaro para tentar ajudar autocrata, no poder há 16 anos

Presidente diz estar ansioso para 'investir na prosperidade criada pela liderança contínua" de Orbán

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, disse nesta sexta-feira (10) que vai "fortalecer a economia da Hungria" caso o primeiro-ministro Viktor Orbán, que enfrenta uma eleição acirrada neste domingo (12), permaneça no poder.

"Meu governo está pronto para usar todo o poderio econômico dos EUA para fortalecer a economia da Hungria, como fizemos para nossos aliados no passado, se [Orbán] e o povo húngaro precisarem", escreveu Trump em sua plataforma, a Truth Social. "Estamos ansiosos para investir na prosperidade futura gerada pela liderança contínua de Orbán!"

Trata-se da mais recente e flagrante interferência de Trump e seu governo no pleito da Hungria —que, segundo pesquisas, pode acabar com o longo período de Orbán no poder. O autocrata comanda o país do Leste Europeu há 16 anos e transformou suas instituições para permanecer no cargo, aparelhando o Judiciário, alterando regras eleitorais e controlando a imprensa.

Quantos Coringas existem na política no Rio, e quem os chefia? Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Com a bênção do pai, Flávio Bolsonaro quer levar Cláudio Castro ao Senado

Ex-governador, que renunciou para evitar cassação, é responsável pelo vácuo no poder

Postada na quarta (8) —dia em que o STF começou a analisar o modelo para um mandato-tampão no Rio de Janeiro—, a foto mostra o ex-governador Cláudio Castro e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro reunidos na sede do Partido Liberal, em Brasília. Os dois exibem um sorriso amarelo, típico de quem não se suporta, mas precisa manter as aparências. Em segundo plano aparece um boneco de papelão de Bolsonaro, indicando que, mesmo preso, o ex-presidente segue dando as cartas na política fluminense.

Fórum da Liberdade reforça mensagem de união da direita contra Lula

Painel / Folha de S. Paulo

Plateia formada principalmente por jovens ficou entusiasmada com presença de Flavio Bolsonaro

Equipe do filho do ex-presidente ainda acredita que convencerá Romeu Zema a sair vice na chapa

Encerrado nesta sexta-feira (10), o Fórum da Liberdade reforçou a mensagem de união entre liberais e conservadores para derrotar Lula. O recado foi dado, por exemplo, pelo ex-ministro Paulo Guedes, em uma das falas mais aplaudidas do evento, em Porto Alegre.

O encontro mostrou a força de Flávio Bolsonaro (PL) na direita, em um ambiente em tese mais favorável a Romeu Zema (Novo). Sua participação gerou a reação mais entusiasmada da plateia, formada majoritariamente por jovens liberais.

Zema deve manter sua pré-candidatura ao menos até as portas das convenções, no meio do ano. Aliados de Flávio apostam, no entanto, que ele dificilmente resistirá a um eventual convite para ser vice, em nome da união da direita.

O jornalista viajou a convite do Fórum da Liberdade

Sindicalistas entregam 68 pedidos a Lula na marcha em Brasília, por Carlos Petrocilo

Folha de S. Paulo

Entidades esperam reunir 10 mil pessoas na Esplanada no dia 15 de abril

Pauta reúne itens como regulação dos trabalhos por aplicativos e redução dos juros

Em encontro com o presidente Lula na quarta-feira (15) em Brasília, as centrais sindicais vão levar ao governo uma pauta com 68 itens de reivindicações. O documento é assinado pela CUT, Força Sindical, UGT, CTB, NCTS, CSB, Intersindical e Pública.

Dentre elas, 12 são prioritárias. Há itens como fortalecimento das entidades que representam os trabalhadores, a regulação dos trabalhos mediados por aplicativos e a redução da taxa básica de juros diante do endividamento das famílias e empresas, além do fim da escala 6x1.

Nosso Estreito de Ormuz, por Cristovam Buarque

Veja

No Brasil, barramos a formação educacional de toda uma geração

O Brasil percebe o custo do bloqueio no Estreito de Ormuz, que impede o fluxo de navios com petróleo, mas parece não perceber os obstáculos que impedem o fluxo de nossas crianças ao longo da educação de base, dos ensinos fundamental e médio. É corte que subtrai um recurso seminal: o conhecimento. Nosso Estreito de Ormuz interrompe a travessia de 80% dos brasileiros em direção à conclusão do ensino médio com a qualidade necessária para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Assim como o Irã faz com os petroleiros em Ormuz, aqui barramos a formação de nossa população. Barramos o progresso econômico por falta de produtividade, inovação e competitividade. Ficamos presos na armadilha da baixa renda média; barramos o progresso social, impedindo a distribuição da renda conforme o talento desenvolvido. No passado, uma escrava grávida era um navio negreiro levando seu filho para a escravidão; no presente, um brasileiro sem acesso à educação é um navio negreiro levando a si próprio para a escravidão moderna.

Diálogo de gigantes: uma aula de respeito e democracia, por Marcus Pestana

Concluí a leitura de “O Horizonte, conversas sem ruído entre Sanguinetti & Mujica” (Alejandro Ferreiro e Gabriel Pereyra - organizadores, L&PM Editores). Confesso que senti uma ponta de inveja em relação ao Uruguai e seu povo. No Brasil, os espaços de diálogo estão cada dia mais estreitos. As bolhas ideológicas não conversam entre si, não ouvem os argumentos divergentes, digladiam, polarizam de forma estéril, não para fazer do debate um caminho para a construção de consensos, mas para alargar as distâncias e desqualificar os adversários.

10 pontos para dialogar com o conservadorismo sem ceder princípios, por Julio Lopes*

CartaCapital

Políticas econômicas não bastam diante de uma moralidade que estrutura o bolsonarismo

Por que às iniciativas governamentais, evidentemente favoráveis aos interesses econômicos da maioria absoluta da população, como para reduzir oneração dos bens da cesta básica e isentar do imposto sobre a renda até 5 mil reais ao mês, não trouxeram logo um correspondente maior apoio dela ao governo Lula 3?

Porque, além da dimensão econômica, a dimensão moral da política continua sendo tão ou até mais importante no Brasil, há mais de 10 anos. E a moralidade brasileira, apesar de cada vez mais evidentes avanços igualitários nos seus costumes ao longo das décadas após a Constituição de 1988, continua sendo ostensivamente conservadora. Tal qual noutros cantos do Planeta, a maior visibilidade às diferenças humanas, conferida pelas redes sociais, instiga todo conservadorismo habitual, cuja resistência à convivência diferenciada foi a oportunidade política que à direita se aproveitou para radicalizar contra autonomia feminina, segmentos LGBTQIAPN+, religiões e etnias não padronizadas, imigrantes, etc.

A contrariedade às diferenças emergentes na sociabilidade humana, segundo o Filósofo Ludwig Feuerbach (1804-1872), é a própria condição histórica da Humanidade, à medida que novos seres humanos portam possibilidades diversas das já expressas pelos que os antecedem, inclusive porque são gerados das combinações entre seres humanos anteriores. Neste sentido, o conflito entre costumes precedentes e inéditos desafia progressistas contra conservadores.

Circo, por Pedro Serrano

CartaCapital

Um modelo inquisitorial não se coaduna com o poder investigatório incumbido a uma CPI. Nessa esfera, o parlamentar deve ser um agente dos direitos fundamentais

As Comissões Parlamentares de Inquérito desempenharam, ao longo das últimas décadas, um papel fundamental no fortalecimento da democracia. Por outro lado, não se pode desconsiderar que muitas CPIs se tornaram palcos de espetacularização midiática e de esvaziamento de sentido dos direitos fundamentais.

Na compreensão dos limites constitucionais à atuação das CPIs, podemos classificar os limites constitucionais ao poder parlamentar de investigar em explícitos e implícitos na Constituição. Os limites constitucionais explícitos estão relacionados ao objeto determinado e ao prazo certo. Os limites constitucionais implícitos ao poder parlamentar de investigar, especialmente no que tange ao objeto determinado e ao prazo certo, dizem respeito, no fundo, a um valor essencial da Constituição, qual seja o de vedação à devassa.

Os três mosqueteiros, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Marx, Keynes e Schumpeter contra as mazelas do pensamento único em economia

Os três mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, protegiam a rainha Ana da Áustria contra as intrigas políticas do cardeal Richelieu. Na nossa trilogia, Athos (Marx), Porthos (Keynes), faltava Aramis, o grande economista austríaco Joseph Alois Schumpeter. Cada um, à sua maneira de pensar, forma o trio que combate o pensamento único em economia e procura observar e explicar a economia como um sistema. Em 1942, Schumpeter disse: “A destruição criativa é o fato essencial do capitalismo”. Ele foi ministro das Finanças da Áustria.

Império odiado, por Jamil Chade

CartaCapital

Sob Donald Trump, os EUA experimentam um rápido declínio de sua liderança global

“Tivemos um bom período – cerca de oito décadas –, mas agora está claro que os Estados Unidos deixaram de ser os líderes do mundo livre.” A avaliação foi publicada em 24 de março pelo colunista do The New York Times Carlos Lozada, autor do livro The Washington Book: How to Read Politics and Politicians. Um de seus argumentos é de que parte do que diferentes governos norte-americanos tentaram realizar, ao longo de décadas, foi preservar um recurso essencial, a legitimidade internacional. Lozada conclui o artigo com um alerta: “Podemos estar entrando em um mundo pós-norte-americano, um mundo no qual o significado da América, os princípios e valores que o país sempre representou – às vezes na realidade, às vezes em aspiração – estão desaparecendo”. Mais: “A perda dessa América pode provar-se tão prejudicial, e muito mais duradoura, do que qualquer dano que as incursões de Donald Trump possam causar”.

Uma lenda viva, uma lenda Maya, por Ivan Alves Filho*

Estados Unidos, 1928. Aos três anos de idade, ela foi colocada em um trem de St. Louis para Arkansas, juntamente com o irmão, um ano mais velho, e enviada para a casa dos avós. Aos oito anos, foi estuprada pelo namorado de sua mãe. No seu depoimento, ela mentiu, dizendo que o fato terrível ocorreu apenas uma vez, quando na verdade aconteceu várias vezes. O homem foi condenado a somente um ano de cadeia, mas permaneceu um dia na prisão. Solto, seria assassinado pouco tempo depois. 

Poesia | Não sei. Falta-me um sentido, um tacto, de Fernando Pessoa

 

Música | Falsa Baiana (Geraldo Pereira) - Maria Bethânia & Paulinho da Viola (1973)(ao vivo em Oslo, Noruega)