segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça também deve explicações

Por O Globo

E a razão para isso não tem nada a ver com o pedido para investigar Moraes

O Brasil não tem mais dúvidas de que o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. Há contra ele mais de cinco dezenas de mensagens em que Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, pede ajuda e conselhos. Justamente a ele, cuja mulher assinou um contrato, editado pelo próprio ministro, de R$ 130 milhões para “consultoria estratégica” diante de órgãos públicos fiscalizadores. Ainda não se sabe se Moraes é culpado, mas apenas uma investigação poderá levar a um processo judicial e, eventualmente, a julgamento. Para se defender, ele terá a seu dispor todas as garantias que nosso ordenamento jurídico prevê.

Lula articula neutralidade do Centrão em eventual 2º turno, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Petistas avaliam que PSD, União Brasil e Republicanos devem liberar diretórios

De olho em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula para manter a neutralidade dos principais partidos do Centrão na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, coordenadores petistas vêm conversando com diferentes legendas e trabalham com a avaliação de que PSD, União Brasil e Republicanos não devem declarar apoio nacional ao candidato do PL, deixando diretórios e filiados livres para se posicionar de acordo com as alianças locais.

Republicanos e União já anunciaram neutralidade no primeiro turno. Para o PT, evitar uma adesão formal dessas siglas a Flávio representaria uma vantagem política, porque ajudaria a preservar a disputa aberta pelos votos dos eleitores que escolherem outros candidatos no primeiro turno.

Flávio Bolsonaro ganhou; e agora? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Otimismo do mercado precisa ser ponderado por realidade política em 2027

A pergunta do título é retórica e especulativa. A duas semanas do primeiro turno das eleições, parte significativa dos agentes do mercado financeiro se mostra eufórica com as perspectivas de uma vitória de Flávio Bolsonaro e do fim da era lulista.

Há motivos concretos para não duvidar da eleição do candidato do PL. Embora empatados dentro da margem de erro, Flávio já aparece numericamente à frente de Lula em algumas pesquisas e, considerando que os institutos sempre subestimaram o percentual de votos do bolsonarismo nas eleições, não será surpresa se ele conquistar a Presidência da República.

Contém informação, por Irapuã Santana

O Globo

O consumidor é tão vulnerável a ponto de não entender que a presença de glúten fará mal a quem tem doença celíaca?

Foi marcada para a próxima quarta-feira uma audiência pública no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para “definir se, nas embalagens de alimentos industrializados, a informação ‘contém glúten’ é suficiente ou é necessário acrescentar a expressão ‘o glúten é prejudicial à saúde dos doentes celíacos’ ”.

Não é uma anedota. O segundo tribunal mais importante do país está debruçado sobre um caso com mais de 2.400 páginas, envolvendo pelo menos 43 cidadãos, empresas, associações, autoridades e instituições formalmente mobilizadas para avaliar a expressão “contém glúten”.

Antes que cheguem os americanos, por Miguel de Almeida

O Globo

Os números do Pisa exibem estagnação educacional, enquanto parte da população discute banheiro unissex

Saiu o resultado do Pisa 2025, e o Brasil continuou repetindo sua performance, digo, papelão. Desde a edição de 2015, nada mudou, com o país sem avançar na avaliação. Na matemática, seis países latino-americanos se saem melhor. Friamente: os números revelam estagnação. E não há desculpa, porque os exames envolvem alunos de escolas públicas e das caríssimas privadas.

Não é só um charuto, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Fumar um charuto fornecido por Vorcaro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões do banqueiro com o escritório da mulher do ministro

Mesmo que seja o caso de investigar todos os magistrados cujos nomes aparecem no celular de Daniel Vorcaro, é preciso começar com alguém. E, se adotado o critério de ir dos indícios mais graves para os menos relevantes, o primeiro da fila é certamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A sugestão do ministro Flávio Dino — investigar todos de uma só vez — é para não fazer nada. O Supremo cairia em tumulto processual, dada a quantidade de magistrados citados, nas mais diferentes situações. Fumar um charuto fornecido pelo ex-banqueiro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões assinado por Vorcaro com o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro.

O avanço dos houthis pressiona Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Guerra de Trump contra o Irã espalha caos pelo Oriente Médio, mas acordo não estabiliza região

Para o governo iraniano, o preço do barril virou instrumento eleitoral. Com a guerra entre Teerã e Washington longe de um desfecho e o Estreito de Ormuz em grande parte fechado, o regime e seus aliados perseguem um objetivo: manter o petróleo o mais caro possível até as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro, para enfraquecer Trump. Assim, maior a chance de os republicanos perderem a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

Essa pressão ganhou um novo instrumento no início de setembro, quando os houthis, grupo rebelde aliado ao Irã, avançaram pela costa oeste do Iêmen, tomaram o porto de Mocha e ocuparam ilhas do Bab al-Mandeb, o estreito que controla o acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. Até o início do conflito, passavam por Ormuz mais de um quarto de todo o petróleo transportado por mar, um quinto do gás natural liquefeito do planeta e de aproximadamente 20% do comércio global de ureia, fertilizante de que o Brasil é um dos maiores compradores.

Flávio e os EUA, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Em 2025, o bolsonarista comemorou tarifas e sanções dos EUA contra o Brasil

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) dedica três páginas para descrever como seria a sua política externa. Em termos econômicos, o foco está na abertura comercial, na atração de investimentos, na retomada da adesão à OCDE e na integração tecnológica com outros mercados. Em contradição com gestos e palavras do candidato nos últimos meses, porém, o texto afirma que a diplomacia não será guiada pela ideologia e que negociará com todos os parceiros, entre os quais a China, a União Europeia e os Estados Unidos, de acordo com a defesa do interesse nacional, não com a “simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”. Certamente é o que a maioria dos eleitores gostaria de escutar.

Suicídio institucional, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O Supremo decidiu não decidir, num momento em que sua reputação está em jogo. Coloca, dessa maneira, toda a sua legitimidade em risco

Embora se possa dizer que o ministro André Mendonça e o grupo que o apoia tenham perdido ao não conseguirem avançar no julgamento do mérito das ações contra o ministro Alexandre de Moraes, uma coisa é certa: o Supremo só perdeu! Perdeu em credibilidade, em confiança da população e no reconhecimento da sociedade. Pode-se ter respeito por uma instituição cujos membros se recusam a julgar um dos seus, como se não fosse um cidadão comum? E o que dirão os eleitores desse país, que prezam as suas instituições e têm uma aversão pela imoralidade?

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O show de horrores no STF confirma nossas piores hipóteses

Não estamos apenas diante do corporativismo, mas de uma estratégia de autoproteção perante a possível composição do próximo Senado ou de cenário pior

Sobre a crise do Supremo já se disse quase tudo. Corremos o risco de apenas recapitular o recente show de horrores. É lamentável que alguns ministros tenham confirmado hipóteses a que cheguei em inúmeras colunas nos últimos anos.

Flávio Dino afirmou que vivemos "o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário no Brasil". Gilmar Mendes, por sua vez, censurou André Mendonça por expor colegas eventualmente envolvidos em ilícitos e disparou que "até a máfia tem ética". A metáfora descreve a omertà, o pacto de silêncio e proteção existente nas organizações criminosas. Quem rompe o pacto e trai a facção sofre ameaças, ostracismo ou coisa pior.

A crise além do Supremo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A crise de credibilidade do STF pode cobrar seu preço em outras instituições

Suspeitas de relações impróprias entre ministros e Daniel Vorcaro precisam ser investigadas

As suspeitas de relações impróprias entre ministros do Supremo e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro precisam ser investigadas, inclusive para que se conclua, se for o caso, que não houve irregularidades. Mas, na sessão em que o STF discutiu como examinar as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, os ministros pareceram mais preocupados em administrar a crise do que em esclarecer as suspeitas.

Há duas semanas, escrevi aqui sobre como a crise do Supremo podia transbordar para a eleição e para o TSE. Agora, outro efeito pode aparecer no Superior Tribunal Militar (STM), que ainda precisa decidir se generais, um almirante e o ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado, perderão as patentes.

Brasil, um país dividido, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sofisticado sistema de discriminação racial separa a população em grupos e perpetua tratamento desigual de cidadãos

Até quando vamos insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado?

O Brasil é um país dividido. Não, eu não estou falando das próximas eleições, da polarização política, da ascensão da extrema direita ou do perfil de candidato que reputo merecedor da confiança que será expressa pelo voto dos cerca de 158 milhões de cidadãos aptos a ir às urnas em alguns dias.

Estou falando do sofisticado sistema de discriminação e preconceito racial que separa a população em grupos e perpetua o tratamento desigual dos cidadãos brasileiros. É claro que não há uma divisão formal, mas ela está presente em mecanismos institucionalizados. Só não vê quem não quer.

Defesa necessária, por Fernando Neisser* e Oscar Vilhena Vieira**

Folha de S. Paulo

Não faltam sinais de tentativas de interferência estrangeira no pleito deste ano

A efetividade de nossas estruturas jurídicas depende da mobilização de toda a sociedade

[Resumo] Evidências e ameaças de interferência externa nas eleições do Brasil indicam a articulação de uma rede que funde alinhamento ideológico transnacional, pressão diplomática e desinformação para desequilibrar a disputa e fragilizar a imagem de nossas instituições. Leis brasileiras dispõem de amplo arcabouço para enfrentar o problema, porém não são suficientes. A defesa efetiva da democracia exige o empenho concreto de partidos, autoridades e TSE.

O fantasma da interferência estrangeira em processos eleitorais deixou de ser mera teoria conspiratória ou artefato dos tempos da Guerra Fria para se tornar uma prática corrente em tempos de regressão democrática.

A ascensão de lideranças populistas com tendências autoritárias, o acirramento das disputas geopolíticas, a plataformização do debate público e, mais recentemente, os avanços no campo da inteligência artificial recolocaram a questão da defesa da soberania nacional e popular em novos termos.

A combinação deletéria entre campanhas orquestradas por algoritmos, o uso obscuro de dados pessoais, além do emprego sistemático de deepfake, contribui não apenas para desequilibrar processos eleitorais específicos, mas também para corroer a confiança dos cidadãos em suas instituições.

Muitos são os exemplos de incidentes reais. Nos Estados Unidos, o ciclo eleitoral de 2024 foi novamente marcado por alerta oficiais e a descoberta de dezenas de domínios digitais ligados a campanhas de manipulação orquestradas no Leste Europeu.

Na Eslováquia, as eleições de 2023 foram abaladas pela circulação de áudios forjados na véspera do pleito. Na América Latina, o chamado "Hondurasgate" revelou indícios contundentes de uma rede internacional focada em disseminar desinformação coordenada contra governos recém-eleitos ou em campanha, do México à Colômbia, passando pelo Brasil.

Ainda que se possa discutir a respeito do efeito concreto dessas manipulações no resultado dos pleitos eleitorais, as incertezas geradas sobre a capacidade de os cidadãos determinarem democraticamente o seu destino impõem um dever de precaução a todos aqueles comprometidos com a democracia.

Querem alugar o Brasil? Por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Presidente americano promove virada na política externa com endossos públicos, apoio financeiro e ameaças de sanções

No Brasil, Lula constrói campanha em torno do eixo da soberania nacional, na esperança de unir o eleitorado

(Resumo)Neste seu segundo mandato, o presidente Donald Trump vem promovendo uma transformação na política externa dos EUA ao tentar, de forma velada ou mais explícita, influenciar eleições pelo mundo, sobretudo na América Latina. Essa reedição da Doutrina Monroe, em versão século 21, busca afastar a China da região e garantir o predomínio norte-americano. No caso brasileiro, sucessão de tarifaços, declarações dúbias de Trump e atritos diplomáticos inusuais estimulados pela família Bolsonaro causam apreensão sobre risco de interferência na eleição presidencial, com objetivo de favorecer Flávio.

Pressionado diante da divulgação de trocas de mensagens suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes argumentou que o relatório apresentado pelo colega André Mendonça, que trouxe à tona as novas informações, foi uma "farsa" produzida "com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro", para interferir nas eleições que se aproximam.

Independentemente da intenção de Moraes com essa acusação, ela revela o fantasma que assombra o pleito brasileiro desde muito antes do início oficial da campanha: a possibilidade de escalada da interferência do governo Donald Trump para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL) e prejudicar o presidente Lula (PT).

Em outubro do ano passado, durante as negociações após o primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump exigiu que o país permitisse a participação de "dissidentes políticos" nas eleições presidenciais de 2026, como revelou nos últimos dias o jornal O Estado de S. Paulo.

A grave crise no Supremo, que engoliu o debate eleitoral a poucas semanas do primeiro turno, agora serve como pretexto para que o governo americano considere novamente sanções a autoridades brasileiras, como mostrou a Folha.

Poesia | Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Tua Cantiga

 

domingo, 20 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Todos no STF precisam seguir a Constituição

Por O Globo

Alexandre de Moraes tem de ser investigado — todos são iguais perante a lei

Numa de suas falas procrastinatórias na sessão vergonhosa do dia 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Flávio Dino disse que não leva em conta em seus julgamentos o clamor popular. “Não me importa se haverá no meu Instagram ou no meu Facebook milhares de mensagens dizendo da impunidade da corrupção”, afirmou. Não está errado, nenhum juiz deve agir de modo diferente. Dino também assegurou que todos os magistrados têm de seguir apenas a lei. E, de novo, acertou.

Ocorre, porém, que esses argumentos são todos falaciosos. Ninguém pede que a Corte julgue de acordo com a opinião pública. O que se exige é exatamente aquilo que Dino se recusou a fazer: seguir a literalidade de nosso ordenamento jurídico. A Constituição afirma expressamente: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Senadores dirão o que será o amanhã da Presidência e do STF, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Estão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado, duas por estado e pelo Distrito Federal. As pesquisas mostram vantagem expressiva da direita e da centro-direita

Embora não tenha centralidade na decisão da maioria dos eleitores, a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) impactou a disputa pelo Senado, que tem o poder de homologar a indicção de seus magistrados e mesmo aprovar o impeachment. Caso seja reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, terá a possibilidade de indicar mais quatro ministros; Flávio Bolsonaro, se vitorioso, já disse que pretende indicar seis, para essas quatro vagas, e mais duas que pretende abrir com os impeachments dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino.

O Supremo em crise, democracia em risco, por Roberto Amaral*

“O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze ministros, escolhidos dentre os cidadãos com mais de 35 anos de idade e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.” (Constituição Federal, art. 101)
 
O que mais ressalta nessa tragédia é isto: ao invés de estarmos tratando da ameaça eleitoral da extrema-direita, combatendo-a, somos obrigados a nos voltar para a rotina da crise do Poder Judiciário, a um tempo núcleo e expressão da crise política. 

Esta, a que mais nos incomoda, é ainda mais profunda e mais grave do que parece à primeira vista, empobrecida pela miopia crassa da grande imprensa e pelo simplismo dos “especialistas” por ela selecionados. Refiro-me ao desalinho político que, em outubro, pode jogar nosso país e nossa gente em abismo sem fundo. A erosão do STF, portanto, não tem autonomia. Fruto da crise política — a mais profunda nos quadros da República —, põe em risco a democracia. Grave em si mesma, trabalha para convencer o povo, principalmente os mais desvalidos, de que a democracia é um fracasso. Eis como se abre o espaço no qual viceja o discurso, a ideologia do desalento, do desengano, da desesperança. É a promessa do caos.

É quando emerge o discurso do totalitarismo. 

Os tempos de Daniel Vorcaro, por Míriam Leitão

O Globo

O rastreamento do dinheiro de Vorcaro está sendo bem sucedido. Ele agora aposta nas confusões do STF e numa troca de governo

O que Daniel Vorcaro não esperava no tempo da economia está virando realidade: o rastreamento do dinheiro externo tem sido bem sucedido e estão sendo encontrados mais ativos do que ele acreditava que o processo de liquidação conseguiria achar. O liquidante contratou empresas especializadas em rastreamento. Foi localizado um fundo que havia recebido fluxo de recursos através de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o mineiro. Os ativos do fundo, na ordem do bilhão, foram congelados e serão usados como pagamento do passivo de Vorcaro. Há outros ativos sendo rastreados.

Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.

Meia-palavra basta, por Merval Pereira

O Globo

Ministros que não se ressentem de elogiar a ética dos mafiosos diante das câmeras de televisão e no plenário do Supremo são contra o Código de Ética proposto por Edson Fachin e Cármem Lúcia

Todos já vimos filmes ou séries sobre grupos criminosos, estrangeiros ou brasileiros, em que as cenas mais perversas surgem com naturalidade. Parece coisa inventada, tamanhos os absurdos narrados. Quem acreditaria que um ministro do Supremo recebe dinheiro para dar sentenças favoráveis ou contrárias, dependendo do cliente? Quem imagina uma prostituta recusando sair com um ministro do STF porque precisaria de um michê dez vezes maior para servir a ele? Quem poderia acreditar que um ministro do Supremo receberia dinheiro através de terceiras pessoas, como um cunhado,, ou um filho, ou uma esposa? Ministro do STF tem dinheiro para ser proprietário de um resort no Paraná?

Precisamos falar sobre Kevin, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Kassio Nunes Marques se declarou impedido no caso Master, mas será o árbitro da eleição

A semana começou com dois ministros do Supremo sob suspeita de receber agrados de Daniel Vorcaro. Terminou com cinco, incluindo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Kassio Nunes Marques foi o destaque da rodada. Seu nome apareceu em mensagens pouco edificantes no celular do dono do Master. Os diálogos tratam de valores, viagens e mulheres. Não necessariamente nessa ordem.

Numa conversa, o banqueiro orienta um auxiliar a alugar a “melhor casa do Rio” para o “ministro KN”, que se hospedaria com o desembargador Newton Ramos e outros convidados.

Falta foco à diplomacia americana, por Elio Gaspari

O Globo

A divulgação dos documentos de outubro do ano passado e de janeiro passado que continham o que seriam as condições para a abertura de negociações comerciais com o Brasil mostra algo inquietante: a diplomacia americana perdeu o foco, virou assembleia estudantil.

O conjunto de condicionantes virou um terreno baldio, fica a impressão de que os diversos lobbies de Washington passavam pelo rascunho e jogavam seus pleitos. A Boeing quer que as empresas aéreas brasileiras só comprem seus produtos. As big techs querem continuar fazendo o que bem entendem e os plantadores de soja querem que o Brasil ajude a “estabilizar o comércio mundial de soja”. Traduzindo: querem que o agro brasileiro ajude a turma da soja americana.

As propostas americanas foram rechaçadas, até porque essas negociações não podem ser conduzidas como pacotes. Cada item é um item e conversa-se devagar. Lidos de uma vez, parecem um instrumento de capitulação.

Os itens que tratam da próxima eleição brasileira são de uma ignorância abissal, como se em Pindorama houvesse um candidato prometendo melar o pleito.

A diplomacia americana já foi outra, ela dava pouco espaço ao improviso, ajudava os lobbies, porém mantinha a elegância.

A diplomacia trumpista é arrogante e vazia. O melhor que se pode fazer nesses casos é ficar longe. Bater boca não adianta nada e tentar negociar a sério poderá ser possível, mas dará muito mais trabalho, pois não havendo foco, não haverá prioridades.

Duas palavras, por Dorrit Harazim

O Globo

É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida — ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

A consideração tem pedigree nobilíssimo (Nietzsche) e volta e meia surge na tela de quem navega na web entre citações de autoajuda. Ainda bem, senão seria preciso enfronhar-se na obra possivelmente impenetrável de que foi pinçada (“Schopenhauer como educador”, de 1874). A consideração nietzschiana tem mil e uma utilidades — serve tanto para desancar os juízes do nosso Supremo Tribunal Federal como para, aqui, explicar o dilema que na semana passada incendiou a cena musical planetária.

Lula x Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na reta final das eleições, a polarização Lula versus Bolsonaro virou Lula versus Lula, com Flávio Bolsonaro jogando parado e o candidato a um quarto mandato concentrando todas as atenções e toda a indignação nacional com qualquer coisa que aconteça, inclusive, ou principalmente, os escândalos do Supremo Tribunal Federal (STF).

É surpreendente que os R$ 134 milhões do contrato de Alexandre de Moraes façam mais estrago na campanha de Lula do que os R$ 131 milhões do filme Dark Horse na de Flávio. Um suspeito é ministro do STF que nem sequer foi nomeado por Lula. O outro é, ele próprio, candidato à Presidência.

O Brasil e o mundo, por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países

Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países. Na interligação do nacional e do global se situa o juízo diplomático que está voltado para avaliar perspectivas, possibilidades, dificuldades e resistências.

No entendimento da nossa circunstância diplomática, Helio Jaguaribe aponta que é preciso tanto perceber e analisar o Brasil na perspectiva do mundo, quanto pensar e avaliar o mundo na perspectiva do Brasil. Ambas obedecem a uma dialética de mútua complementariedade que, na sua dinâmica, oferece as indicações de como concretizar necessidades internas em possibilidades externas, em distintas conjunturas históricas.

Sem avanços à vista, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A perda de credibilidade do sistema de Justiça brasileiro e os riscos geopolíticos acarretados pela eleição, seja de Lula ou de Flávio Bolsonaro, inibem investimentos em áreas estratégicas, no momento em que o mundo vive uma revolução tecnológica que aumentará o abismo entre países avançados e os que seguem a reboque, como o Brasil.

Com US$ 77 bilhões, o Brasil é o quinto maior destino de investimento estrangeiro direto (IED), depois de Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e China. Concorrentes diretos, México e Índia receberam em torno de metade desses valores em 2025.

Esses investimentos são atraídos pelo tamanho do mercado, recursos naturais, matriz energética limpa, agronegócio, infraestrutura e oportunidades na transição energética. Tudo isso é bom.

'Dark Horse' foi o caixa 2 do tarifaço, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

É preciso parar de tratar o assunto como a história de um filme ou a discussão sobre as inconsistências no seu financiamento

Coisas parecem claras ao pensar em caso como caixa 2 para desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados para financiar uma tentativa de golpe

Novas evidências sugerem que "Dark Horse" foi o caixa 2 do tarifaço.

Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos na mesma época em que começaram os pagamentos de Daniel Vorcaro para o caixa do filme. Até pouco tempo antes, como mostrou reportagem de Breno Pires na revista piauí de setembro, os esforços de captação de recursos para "Dark Horse" haviam tido pouco sucesso.

Reportagem de Leticia Casado para o UOL em 13 de setembro mostrou que, no celular de Daniel Vorcaro, havia uma mensagem do publicitário Thiago Miranda com o texto "Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme".

Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desgosto antissistêmico, que vem desde 2013, piora com notícias de crime no poder

Mais dificuldades na economia, corrupção e tolerância com autocratas são alerta

O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo?

Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.

Apertemos os cintos; as lideranças sumiram, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não se vê um gesto nem se ouve uma voz capaz de inspirar e dar segurança ao país sobre o rumo a seguir

Enquanto uns se omitem e outros atuam em causa própria, locupletam-se todos e o Brasil que se vire

O cenário de total desacerto que assola a República encontrou o Brasil na orfandade em matéria de lideranças capazes de iluminar um caminho para a saída da crise.

O chefe do Executivo só tem olhos para o umbigo da reeleição; tira o corpo fora e transfere responsabilidade ao presidente do Supremo Tribunal Federal, que é desacatado por seus pares, enquanto o comando do Congresso entrega-se ao exercício da omissão e os governadores se calam. Não é com eles.

Educação tem nome próprio, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Paulo Freire propõe um método de conscientização como centro de sua teoria pedagígica

Foi autor de um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária

Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

Não fale sobre política, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra equívocos de idealizações de inspiração liberal

Autora defende intervenções ambientais para mudar mentalidades

Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica.

Tortas na cara, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A forma ideal de protestar contra alguém sem precisar alvejá-lo com balas de verdade

Noel Godin empastelou Bill Gates, Nicolas Zarkozy, Jean-Luc Godard e Marguerite Duras

Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro, em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 –mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube.

Poesia | Menina e Moça, de Machado de Assis

 

Música | Elis Regina – O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc)

 

sábado, 19 de setembro de 2026

Opinião do dia – Montesquieu*

“Procurando instruir os homens é que poderemos praticar esta virtude geral que compreende amor de todos. O homem, este ser flexível, dobrando-se na sociedade aos pensamentos e impressões de outrem, é igualmente capaz de conhecer sua natureza própria, quando lha mostram, e de perder até o sentimento, quando lho roubam.”

*Montesquieu (1689-1755). ‘O Espírito das leis’ (1748), Prefácio, p. 28. Editora Nova Cultura, 2005 (Tradução de Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues)

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tempos sombrios

Por CartaCapital

O STF curva-se novamente ao golpismo

Foi um dia constrangedor, e não estamos aqui a ratificar a penitência calculada de Cármen Lúcia. Desde a nomeação a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, lá se vão 20 anos, a magistrada não decepciona, sempre enverga o mesmo figurino. Entre o aplauso e o cumprimento do dever, a opção pelo reconhecimento popular é impulso incontrolável. Após o pedido de desculpas “ao povo brasileiro” na terça-feira 15, desfecho de uma jornada deprimente, a ministra está liberada para frequentar, sem temor, a farmácia que tanto gosta de citar nas sessões plenárias. Talvez até ganhe um desconto extra. Sob o restante do País paira, no entanto, o cúmulo-nimbo. “Pior momento de erosão da imagem” do STF, afirma Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo e colunista desta revista, na reportagem “O caldo entorna”, à página 20. “Ratificar um relatório de origem duvidosa e um ministro que julga com suas próprias regras é abrir a porta do tribunal para uma nova aventura autoritária”, alerta Maria Inês Nassif à página 17.

E agora, para onde iremos? Por Marco Aurélio Nogueira

Revista Será?

A boa análise política e sociológica se sustenta em alguns pressupostos “clássicos”: reconhecer e valorizar a relevância das instituições mediadoras e compreender a organização das ideias e dos interesses como fator essencial em sistemas democráticos representativos. A democracia não funciona bem sem que o protagonismo individual – a liderança personalizada – seja mediada por organizações (partidos) e instituições. Também não pode se sustentar se as instituições que devem protegê-la se inviabilizarem. A democracia não pode operar no vácuo, nem se submeter ao capricho das partes, de seus agentes coletivos ou individuais.

Fora daí, estamos num terreno franqueado a aventureiros e livres-atiradores, cada qual com sua dose de egocentrismo, ferocidade e desinteresse público.

Soberania e cidadania em risco, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Não podemos pôr em risco o direito fundamental de determinarmos nosso destino

Na crescente desordem mundial, o poder bruto tem se imposto às regras internacionais

O Brasil se aproxima da mais dramática eleição do ciclo democrático iniciado em 1988.

O que está em jogo não é apenas se o Brasil migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.

Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.