domingo, 26 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante cobertura vacinal global insuficiente

Por O Globo

Brasil tem se recuperado nos últimos anos, mas ainda não atinge as metas em vários imunizantes

São inquietantes os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a cobertura vacinal global. Houve melhora em 2025, mas não o bastante para fazer o mundo voltar às taxas observadas em 2019, antes da pandemia. Uma das referências utilizadas para mensurar o estágio de vacinação de populações é a Vacina Tríplice Bacteriana (DTP). No ano passado, 90% das crianças no mundo receberam pelo menos uma dose e 85% completaram as três previstas. Embora tenha havido melhora na comparação com 2024, a cobertura global se mantém abaixo da registrada em 2019.

Análise das situações: relações de força. Antonio Gramsci*

É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas.  É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios).

[“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua existência.  Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização” (Prefácio à Crítica da economia política )] [23]. 

A América contra si mesma, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo

A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.

Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.

Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A guerra cultural promovida pelo Maga produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.

Trump e Milei em campanha no Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sem coligações internas, Flávio pede ajuda da direita, mas qual direita? A internacional

O senador Flávio Bolsonaro lançou a candidatura à Presidência no seu pior momento, com o barco fazendo água, falta de material e fuga de mão de obra para consertar as avarias. Adernando, sem rumo e sem apoio político interno, ele pediu “união” da direita nacional, mas recorre à ação da direita internacional. Ou, mais diretamente, à ingerência externa nas eleições brasileiras.

A presença de Javier Milei à convenção deste sábado é um troféu dessa estratégia, mas o que mais pesa é a presença oculta de Donald Trump, que atacou o Brasil com mais 37,5% de tarifas e tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para bisbilhotar o processo eleitoral e o TSE, sem sucesso. Não por coincidência, a tentativa ocorre dias depois de Flávio repetir o erro do pai que decretou sua inelegibilidade, reunindo embaixadores estrangeiros para mentir sobre o processo eleitoral e pedir “observadores internacionais” em outubro.

Disputa eleitoral: sobram desafios e faltam ideias, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo

Num quadro global de brutalidade, incerteza econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável, embora distante da meta de 3%.

Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome.

Tempo contra Flavio, por Merval Pereira

O Globo

Ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem a candidatura de Flavio, e essa insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno

A pesquisa do DataFolha que deu uma vitória para o presidente Lula de cinco pontos percentuais sobre Flavio Bolsonaro no segundo turno, portanto fora da margem de erro, teve o dom de dar alento aos dois candidatos. Lula abriu vantagem mais folgada, mas Flavio, apesar de tantos escândalos e brigas domésticas, manteve a competitividade. A pesquisa não pegou a “reconciliação” entre a madrasta Michelle e o candidato do PL, o que pode indicar que Flavio pode melhorar sua posição se recuperar os votos das mulheres e evangélicos que perdeu ao confrontar Michelle.

Flávio Bolsonaro resiste nas cordas, por Elio Gaspari

O Globo

O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos sonhos de Lula

Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu partido, o PL, e só dele. Uma tragédia: o Centrão declarou-se neutro, leia-se aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo dinástico levou a direita para as cordas. O que se apresenta como uma situação de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos seus sonhos.

Em maio Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de 6 pontos (48% a 43%). Um empate técnico, com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição. Em agosto de 1989, Lula patinava e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.

Medo e delírio em Maceió, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-seminarista, tesoureiro de Collor usava citações em latim ao dissertar sobre corrupção

“Na longa noite em que seria morta, Suzana Marcolino foi ao salão de beleza Liu’s, no centro de Maceió, pintou as unhas na cor renda — discreta variação do branco — e pediu um leve corte nos cabelos”. É assim, com tintas de Garcia Márquez, que Xico Sá inicia a crônica de uma morte anunciada: a de Paulo César Farias, o PC. Ele e a namorada Suzana foram encontrados com balas no peito na manhã de 23 de junho de 1996. Era o fim trágico do maior vilão da Nova República: o tesoureiro responsável pela ascensão e queda do presidente Fernando Collor.

É preciso entender o que os números querem dizer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Por mais essenciais que sejam, estatísticas acabam passando ao largo de quem não tem tempo para dar vida a abstrações

Cada nova edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública merece atenção e esquadrinhamento, sobretudo porque o retrato final continua a apontar para uma sociedade doente — doente de violência. Não foi diferente na semana passada, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Publica divulgou os dados do seu 20º levantamento nacional. No geral, houve melhora considerável: pela primeira vez em duas décadas o número de mortes violentas por 100 mil habitantes ficou abaixo de 20. Em 2017, era bem pior: 31,2 mortes por 100 mil habitantes. Soa pouco? No Japão, esse índice fica em 0,3; na Itália e Coreia do Sul, não chega a 0,7; e nos Estados Unidos, estacionou em torno de 4,0 por 100 mil habitantes.

Sombra de Bolsonaro e Milei refletem isolamento de Flávio, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador assume sobrenome em evento com ares de festa de família, com direito a fantasma digial do pai

Protagonismo inédito a presidente estrangeiro em convenção é coerente com a submissão ao trumpismo

A convenção do PL que ratificou o nome de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência neste sábado (25) foi um espetáculo inusual em que o senador fluminense enfim abraçou seu sobrenome e destacou como grande cabo eleitoral um presidente impopular de nação estrangeira.

Sem grandes novidades retóricas a apresentar, Flávio comandou um evento com ares de festa de família —do tipo lacrimosa para fotos, dado o emprego de lenços para enxugar suas lágrimas em São Paulo.

"Eu sei a responsabilidade que meu sobrenome carrega. Eu te amo [meu pai]", discursou o agora candidato, que enfrenta uma estagnação nas pesquisas eleitorais. No mais recente levantamento do Datafolha, ele marca 32% ante 40% no primeiro turno contra o presidente Lula (PT).

Flávio prova que Ustra e Banco Master são faces da mesma moeda, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Discurso de Flávio Bolsonaro reforça seu alinhamento com a estratégia golpista do pai

Atuação do senador desafia a divisão entre bolsonarismo radical e centrão

Para quem gosta de dividir a direita entre fisiológicos do centrão e radicais bolsonaristas, Flávio Bolsonaro é um problema: é tão golpista quanto o pai e tão, digamos, enrolado quanto os Ciros Nogueiras deste mundo.

Em nome da responsabilidade jurídica, devo dizer que ainda não está provado que Flávio Bolsonaro é ladrão.

Tudo o que sabemos é que Flávio empregava parentes de um miliciano que participavam de um esquema de rachadinha, pagou por uma mansão com empréstimo camarada do Banco de Brasília (o mesmo do caso Master), pediu 130 milhões para o dono do Banco Master para fazer um filme que ninguém até agora explicou como pode custar tudo isso, certificou-se de que o dinheiro circularia pelos Estados Unidos, onde seu irmão Eduardo conspira contra o Brasil, e, descobrimos esta semana, emitiu notas fiscais por serviços prestados ao ecossistema Master.

Mais que nunca, pensar, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

A razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial ao mistério do mundo

As máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica

IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.

O país dividido, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra impacto eleitoral de mudanças sociodemográficas registradas entre 2002 e 2022

Os menos escolarizados apoiam mais o PT; população com ensino médio pende mais para a direita

Vinte anos não é pouco na vida de uma pessoa, mas é um intervalo de tempo relativamente curto na história de um país. É por isso que impressiona quanto o Brasil mudou nas duas décadas que separam a primeira eleição de Lula, em 2002, da mais recente, em 2022. Essas mudanças são o cerne de "O País Dividido", do cientista político Jairo Nicolau.

O perfil sociodemográfico do país passou por transformações importantes. O Brasil ficou mais velho, mais instruído e menos pobre. O eleitorado feminino se tornou preponderante. A proporção de evangélicos cresceu significativamente, à custa da fatia de católicos. Nicolau mostra, com base empírica e não em achismos, o impacto que essas transformações tiveram no voto.

Candidatos enfrentam o dilema de ir, ou não, aos debates, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Indo, o favorito se arrisca a perder a liderança por obra de ataques, tropeços e imprevistos

Não indo, vira personagem oculto da cadeira vazia e transmite imagem de arrogância e covardia

O dilema é recorrente entre candidatos favoritos nas pesquisas, ainda mais quando presidentes: ir ou não ir aos debates. Portanto, normal que a equipe de Luiz Inácio da Silva (PT) divulgue que ele cogita não ir. Segundo a conta do custo-benefício, o balão serve de ensaio ao teste.

Indo, o candidato se arrisca a tropeços que o façam perder a liderança e aos ataques dos demais oponentes que o coloquem numa posição de isolamento, mas também pode ganhar a parada e consolidar o favoritismo.

Poesia | Grande são os Desertos, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Gal Costa - Folhetim, de Chico Buarque

 

sábado, 25 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova tarifa dos EUA requer aliança do setor privado

Por O Globo

Parceria entre exportadores do Brasil e importadores americanos é a melhor estratégia para pressionar Trump

A política protecionista do presidente americano Donald Trump teve novo capítulo nesta sexta-feira, quando passou a valer uma tarifa de até 12,5% para 60 países, o Brasil inclusive. A alegação é de omissão na imposição e no cumprimento de proibição de importação de produtos feitos a partir de trabalho forçado. O argumento é que parceiros comerciais americanos compram produtos de países com práticas trabalhistas deletérias, incentivando a competição desleal e prejudicando os Estados Unidos.

Entre os atingidos estão Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e a União Europeia (UE). A fragilidade das acusações é evidente, pois a maioria dos atingidos segue as regras internacionais, e não existe uma negligência disseminada em escala global. Para as mercadorias brasileiras, a última sobretaxa se soma aos 25% anunciados na semana passada, também com justificativas débeis. Ao governo brasileiro resta continuar buscando uma negociação aceitável. Os exportadores, porém, têm outra alternativa. Podem considerar a viabilidade de se associar a importadores americanos para questionar as decisões em tribunal nos Estados Unidos ou tomar outras medidas que façam Trump reconsiderá-las.

Morin e o Futuro (I), por Elimar Nascimento

Revista Será?

O Inevitável Transformador

Edgar Morin[1] é claro e contundente sobre os estudos prospectivos. Em geral, estes pecam por fazer previsões lineares que não têm pertinência. Isso pelo simples fato de que o futuro não é a continuidade do presente, sua reprodução ampliada. O futuro é uma trajetória complexa que reúne continuidades, descontinuidades e a criação de novos eventos e processos.

É impossível dizer quais tendências, que verificamos em um determinado momento, existirão após uma década ou menos, e o que de novo irá surgir. Em 1987, ninguém imaginava que a URSS iria ruir dois anos depois e que a Guerra Fria iria se encerrar abruptamente. Quando a internet foi criada, alguns CEOs de empresas de informática diziam que não passava de mais um fracasso tecnológico. Hoje, bilhões de pessoas a utilizam. Em 1980, ninguém previa que a China seria a segunda potência do mundo 35 anos depois.

A fúria dos eleitores ao redor do mundo, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

De Londres a Tóquio, governos estão fracassando em atender às expectativas modernas

A democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade

Nesta semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?

A violência onipresente, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

Estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências

Quando falamos em violência, vem-nos à mente, antes de tudo, a violência explícita, ostensiva, aquela em que o sangue jorra e vidas são destruídas. Guerras, assassinatos, agressões selvagens, armas de fogo, facas, drones e canhões. Nem sempre consideramos as demais formas de violência que se manifestam em nosso cotidiano. A fome é violenta, assim como as desigualdades e a falta de serviços públicos de qualidade. Há outras, aparentemente pequenas. Não as processamos porque estão normalizadas: convivemos com elas como se fossem paisagens ou eventos entranhados no dia a dia. Violências quase invisíveis, às quais nos habituamos a ponto de as desprezarmos como problema.

Rabo preso, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça autorizou a abertura de inquérito para apurar o trânsito dos dinheiros de Vorcaro destinados a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A forma da movimentação dos recursos se encaixa no padrão de dissimulações da rede vorcárica. A PF suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Falamos de US$ 10,6 milhões captados por Flávio Bolsonaro, grana disparada – de fevereiro a maio de 2025 – por meio de empresa de fachada, a Entre, e que chegaria aos EUA pousando no fundo Havengate, administrado por advogado amigo de Eduardo Bolsonaro.

Suas Excelências, os fatos, na crise do tarifaço, por Mauro Vieira*

O Globo

A diplomacia brasileira é conhecida pelo profissionalismo, e já teve êxito na ampliação das exceções ao tarifaço original

Não se espera a unanimidade em regimes democráticos. Mas, diante do novo ataque tarifário dos Estados Unidos contra o Brasil, e suas confessadas motivações políticas desde a carta original do presidente Donald Trump, de julho de 2025, que continha claras ameaças à soberania e à democracia brasileiras e anunciava a abertura da investigação pela seção 301, recém-concluída, não cabem ambiguidades nem falsas equivalências.

O Brasil vem sendo atacado há mais de um ano, e o governo tem sabido defender o interesse nacional com diplomacia e pragmatismo, mas também com firmeza e clareza. E clareza é do que o país mais necessita diante do desafio histórico à soberania brasileira que se tenta impor, de fora para dentro, com ameaças, tarifas e bravatas.

Lula já levou o tetra? Por Thaís Oyama

O Globo

Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelos indecisos

A notícia não é boa para Lula. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, ao mostrar um cenário inalterado em relação a junho, reforçou uma tendência já detectada por outros institutos. Desde maio, diferentes levantamentos vêm registrando desgaste de Flávio Bolsonaro sem um crescimento correspondente de Lula ou dos demais candidatos.

O que a consistência desses dados sugere é que a disputa continua aberta. Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelo contingente de indecisos. Para onde eles migrarão a partir de agora é a questão que pode definir a eleição.

Nunca é só futebol, por Flávia Oliveira

O Globo

Há uma lição que mulheres negras aprendemos e reaprendemos. Recitamos, repetimos e insistimos. Não esquecemos. No discurso tido como marco do feminismo negro, durante uma convenção sobre direitos da mulher nos Estados Unidos, em 1851, Sojourner Truth, negra, ex-escravizada e ativista, provocou:

— E eu não sou uma mulher?

Lélia Gonzalez, mais de um século depois, em “Racismo e sexismo na sociedade brasileira” (1984), avisou:

— O lixo vai falar, e numa boa.

Uma década atrás, foi a vez de Conceição Evaristo desenhar:

— Não escrevemos para adormecer os da casa grande, mas para acordá-los dos seus sonos injustos.

Todo poder corrompe, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. Pequim passou a realizar suas encomendas no Brasil

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.

O recuo de Flávio, o avanço de Michelle, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Michelle Bolsonaro pavimenta sua relevância no campo da direita mais extremada e cria o cenário para, em 2026, congregar políticas mulheres eleitas ou não que ela ajudou a projetar ou fortalecer

A candidatura de Flávio Bolsonaro apresenta sinais de esgotamento. Esta semana, que antecede as convenções partidárias, foi especialmente amarga para o filho do ex-presidente. Desafios em múltiplos flancos contribuíram para o quadro: as revelações relacionadas ao caso Master, a querela com Michelle Bolsonaro e a inabilidade em costurar alianças viáveis com os partidos do Centrão.

Não se pode estabelecer um paralelo entre as eleições de 2018 e as de 2026: mais dependente de apoio, o filho de Jair Bolsonaro não pode se permitir os excessos que levaram seu pai à presidência. Há dois dias, depois da notícia de que seu escritório de advocacia recebeu uma quantia significativa de empresas ligadas ao Banco Master, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo, pedindo desculpas públicas à ex-primeira-dama.

Compromisso constitucional, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Supremo terá a oportunidade de honrar o compromisso assumido pela nação brasileira com seus povos originários

Regime rigoroso de proteção foi arquitetado para neutralizar as artimanhas legais

Supremo terá a oportunidade, nas próximas semanas, de honrar o compromisso constitucional assumido pela nação brasileira com seus povos originários, ao julgar um conjunto de recursos que definirá o futuro do regime de restituição e preservação das terras indígenas.

Constituição de 1988 reconheceu aos povos indígenas os "direitos originários" sobre as terras que tradicionalmente ocupam, reparando séculos de violência e espoliação. As terras indígenas são "inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis", sendo "nulos e extintos… os atos que tenham por objeto a ocupação" dessas terras. Esse regime rigoroso de proteção foi arquitetado para neutralizar as artimanhas legais daqueles que cobiçam se apropriar das terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas.

'Efeito Gabrielli' mostra o velho na política de Lula, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Durigan foi escalado para atuar como bombeiro após conversas de bastidor de coordenador de programa de governo

Mas se quiser convencer, ministro da Fazenda deveria dar pistas mais claras do que pode vir por aí

Substituto de Fernando Haddad na Fazenda, Dario Durigan atuou como bombeiro na campanha para a reeleição do presidente Lula, na tentativa de apagar os ruídos provocados por conversas de bastidores de representantes da Faria Lima com Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo.

O ministro buscou consertar o "efeito Gabrielli" ao afirmar que o governo não pretende adotar medidas de controle de capitais. Para completar, disse que vai "melhorar o fiscal, custe o que custar" ao defender medidas para conter as despesas obrigatórias.

Farra de Eduardo Cunha vigora há mais de 10 anos no Congresso, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Esquema das emendas tem potencial de ser o maior escândalo de corrupção do país

Deputados e senadores dão uma banana para a sociedade e legislam em causa própria

Fim da escala 6x1PEC da Segurança Pública, projetos sobre criminalização da misoginia, minerais críticos e regulação da inteligência artificial. Pautas importantes e controversas que, com o recesso do Congresso Nacional e o funcionamento reduzido do Legislativo durante a campanha eleitoral, só deverão ser analisadas após o pleito de outubro.

É um retrato do crescimento —cujo combustível é a farra das emendas— do poder do Parlamento, que faz o que quer, muitas vezes legislando em causa própria, sem se importar com o que a sociedade pensa ou deseja.

Peguemos um caso esquecido em meio à avacalhação. Quase um ano depois do motim da Câmara, em reação à prisão domiciliar de Bolsonaro, não houve desfecho para o processo disciplinar contra os deputados Marcel van Hattem (Novo-RS), Zé Trovão (PL-SC) e Marcos Pollon (PL-MS), que ocuparam a mesa diretora da Casa, inviabilizando os trabalhos por cerca de 30 horas.

Na maior auditoria já realizada sobre emendas parlamentares, o Tribunal de Contas da União identificou superfaturamento, indícios de fraude em licitações, pagamentos sem comprovação, desvio de finalidade, falhas de transparência e rastreabilidade. De 100 emendas Pix auditadas, a fiscalização encontrou problemas em 82. O relatório sugere que a PF, o MP e a CGU apurem o esquema criminoso, que revela a degradação das finanças públicas, com potencial de ser o maior escândalo de corrupção da história do país.

O Congresso (des)controla o Orçamento. De 2015 até o ano passado, as emendas pularam de R$ 5,7 bilhões para R$ 47 bilhões. Como se a fuzarca fosse pouca, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, são suspeitos de atuar no direcionamento de verbas. O ministro Flávio Dino, do Supremo, mandou bloquear R$ 6,1 milhões de Cunha e R$ 119 milhões de Valdemar. Os dois —que não têm mandato!— seriam autores de mais de duas dezenas de repasses.

Não à toa, Eduardo Cunha, durante o governo Temer, foi o principal arquiteto do emendismo.

 

Datafolha: Lula tem 48%, e Flávio Bolsonaro, 43% no segundo turno, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra estabilidade na corrida após mês de más notícias na campanha do filho de ex-presidente

No primeiro turno, presidente marca 40% e senador do PL-RJ, 32%; rivais estão todos embolados abaixo de 4%

Nova pesquisa do Datafolha sobre a corrida pelo Planalto mostra o presidente Lula (PT) com 48% das intenções de voto no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), que marca 43%. O cenário é de estabilidade ante junho, mostrando baixo impacto em intenção de voto da crise política da campanha do senador pelo Rio.

No primeiro turno, o petista marca 40%, ante 32% do primogênito do ex-presidente preso por golpe de Estado Jair Bolsonaro. Apesar de semelhante ao aferido na rodada anterior, a comparação direta não é possível porque a ficha com nome de pré-candidatos mudou, chegando a 12 nomes. Já o tira-teima é comparável.

Em votos válidos, forma de contagem do dia da eleição que exclui brancos e nulos, Lula tem 45% e Flávio, 36%. É preciso 50% mais um voto para vencer, mas o dado precisa ser lido com cautela, pois os 8% de nulo/branco/ninguém apontados agora tendem a cair perto do pleito.

O peso dos houthis, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Com o bloqueio do Estreito de Bab al-Mandab, o grupo iemenita ganhou ainda mais relevância no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio

Antes do genocídio em Gaza, pouco se falava sobre os ­houthis na imprensa ocidental, de modo geral, e na brasileira, em particular. À época, eles dispararam mísseis e drones contra Israel e realizaram bloqueios no Mar Vermelho. Com a guerra no Irã, a mídia voltou a lembrar dos ­houthis, pois o grupo é aliado estratégico do país atacado por Washington e Tel Aviv.

Nos últimos dias, sua importância aumentou ainda mais, já que os houthis anunciaram o bloqueio do Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Trata-se de uma importante rota de escoamento de petróleo, principalmente para a Arábia Saudita. Com a guerra instaurada no Estreito de Ormuz, Bab al-Mandab assumiu uma relevância ainda maior.

Um degrau acima, por Carlos Drummond

CartaCapital

O crescimento do PIB e do emprego melhora a vida de milhões e repercute nas pesquisas eleitorais

Foram 18 meses seguidos de desaprovação do governo Lula superior à aprovação até a quarta-feira 15, quando a pesquisa Quaest apontou uma leve virada, na margem de erro: 48% dos entrevistados tinham uma imagem positiva da administração, contra 47% negativa. O instituto atribuiu os resultados aos efeitos do programa “Desenrola 2”, para renegociação de dívidas, da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais e do avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1.

Esses fatores contribuíram para a mudança, mas um fenômeno mais abrangente teve, entretanto, peso determinante na inversão da avaliação por parte do eleitor, a retomada da mobilidade social. Segundo estudo do economista Waldir Quadros, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Cesit, o governo Lula chegou ao fim do terceiro ano com melhora expressiva nesses indicadores. Os dados da PNAD Contínua anual indicam retração das camadas mais pobres e crescimento dos segmentos médios entre 2022 e 2025.

A finança abarrota os plutocratas, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Em todos os episódios históricos de estouro de bolhas, à derrocada deles seguiu-se a reiteração do poder trilionário

Nos idos de 2018, o ex-presidente democrata Barack Obama prestou homenagem a Nelson Mandela na celebração dos 100 anos de seu nascimento. O líder sul-africano nasceu em 1818 e faleceu em 2013. Obama fez um discurso digno dos melhores pronunciamentos de Franklin Delano ­Roosevelt. Discorreu sobre as transformações ocorridas nos últimos 40 anos na economia e na sociedade globalizadas.

“Praticamente em todos os países”, afirmou, “o poder econômico desproporcional dos que estão por cima lhes outorgou influência desmedida na vida política e na mídia, com capacidade para decidir as políticas prioritárias e os interesses que devem ser menosprezados (…) Nessa nova elite internacional, muitos se consideram progressistas, cosmopolitas e modernos.”

Carta ao futuro presidente, por Murillo de Aragão

Revista Veja

O cenário será ainda mais desafiador que o de 2023

Não é a primeira vez que escrevo uma carta ao futuro presidente. Em 2021, afirmei nesta coluna que o eleito de 2022 teria menos poder — fosse quem fosse. O ambiente institucional havia mudado: orçamento impositivo, emendas turbinadas, autonomia do Banco Central. O mandato iniciado em 2023 encontraria condições muito diferentes das de FHC em 1995 ou de Lula em 2003. A palavra final pertenceria ao Legislativo e ao Judiciário. Sem ainda usar o termo, antecipei os contornos da pentarquia que governa o Brasil — Executivo, Legislativo, Judiciário, Banco Central e mídia.

Realismo, por José Casado

Revista Veja  

Eleitores já não confiam no governo, no Congresso nem no Judiciário

Nunca tantos desconfiaram tanto do governo, do Legislativo e do Judiciário. Há uma miríade de sondagens de opinião demonstrando que, para a maioria dos eleitores, os governos têm sido ruins, o Supremo Tribunal Federal não merece confiança e o Congresso representa mal o povo. Na média, quase sete em cada dez brasileiros que vão às urnas em outubro julgam de forma negativa os políticos, inclusive aqueles que aparecem vestindo togas nos plenários dos tribunais superiores.

Quatro décadas depois da redemocratização, as utopias estão pulverizadas, a conexão dos representantes com os representados está rarefeita e o Estado passou a ser dirigido como se fosse propriedade privada. Esse processo de liquefação política tem contornos bem delineados em dois livros recém-lançados.

De porretes a tarifas, a soberania cerceada, por Roberto Amaral*

Tanto a preeminência inglesa sobre o Brasil quanto, na sua sucessão, o imperialismo estadunidense, que se instala nas primeiras décadas da nossa República — nas pegadas da decadência britânica — para chegar a estes dias com a fúria trumpista, têm sido objeto de estudos e de reflexão mais aprofundada a partir da formação de pesquisadores universitários, fruto da criação de cursos de Ciência Política e Relações Internacionais e, concomitantemente, do maior acesso a documentação.

Ao lado do papel das universidades (vale mencionar a UnB, a PUC-Rio, a USP e o antigo IUPERJ, hoje hospedado na UERJ), é de mencionar o estímulo à pesquisa e às dissertações de mestrado e doutorado, bem como o acesso facilitado a fontes primárias, propiciado pela abertura de arquivos norte-americanos, franceses, ingleses e portugueses. Igual relevância se deve aos intercâmbios internacionais e aos incentivos e bolsas de estudo financiados por agências nacionais, como o CNPq e a Capes, e mesmo por organizações internacionais, caso das Fundações Ford, Rockefeller e Fulbright, além da USAID. Assinale-se, igualmente, ainda neste contexto, a contribuição dos chamados brasilianistas, como Thomas Skidmore, Alfred Stepan, Kenneth Maxwell, Leslie Bethell e Alan K. Manchester.

Consabidamente, parte do financiamento internacional às ciências sociais esteve inserida no contexto da Guerra Fria e da disputa de influência política dos EUA na América Latina. Mesmo assim, muito de relevante foi produzido.