domingo, 5 de abril de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

I. Alguns pontos preliminares de referencia

§ 12. E preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos.

É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por “folclore”.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente — já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma determinada concepção do mundo —, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paroquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 11 (1932-1933) – Introdução ao estudo da filosofia. Cadernos do Cárcere, v.1 p.93-4. Editora Civilização Brasileira, 2008.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Duvidar de eleições é golpismo de Flávio Bolsonaro

Por Folha de S. Paulo

Filho do ex-presidente mostrou mais uma vez que bolsonarismo moderado é um oxímoro

Nos Estados Unidos, declarou que a disputa presidencial deste ano só será justa se os votos levarem a sua vitória; direita populista degrada debate

Em maio de 2022, durante as tentativas do então presidente Jair Bolsonaro (PL) de desacreditar as eleições brasileiras por meio de ataques às urnas eletrônicas e outras teorias conspiratórias vazias, a Folha registrou neste espaço:

"[Jair Bolsonaro] atiça os ânimos de alguns poucos dispostos a participar de seus ensaios golpistas, que alternam intimidações e recuos enquanto se mantém elevado o risco de derrota em outubro. Trata-se de uma ofensiva estúpida contra uma valiosa conquista nacional e, ao fim e ao cabo, contra todos os eleitores e eleitos do país".

Divagações, por Dorrit Harazim

O Globo

De aparência passiva, o cinismo esconde uma capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade

A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.

A vassalagem do 'Bolsonaro 2.0, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador sugeriu que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele vencer

Flávio Bolsonaro quer convencer o governo americano a interferir na eleição brasileira a seu favor. O filho do capitão fez o pedido no Texas, terra dos caubóis. “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, conclamou, no fim de semana passado. Para o senador, as instituições funcionam quando se dobram ao autoritarismo do pai.

Palavras ao vento, por Merval Pereira

O Globo

A expressão "estar de chico", como Neymar se referiu ao árbitro do jogo com o Remo, segundo gramáticos portugueses, significa estar emporcalhado. Não se usa apenas para mulheres menstruadas e sim para pessoas com aspecto de sujidade.

Quando a fala de Neymar, dizendo em tom de piada crítica que o juiz da partida Santos e Remo “estava de chico”, no sentido de irritadiço, nervoso, provocou enorme polêmica, seria bom atentar para certas nuances da língua portuguesa e, sobretudo, à cultura popular, muito impregnada de um machismo estrutural que se resolverá através da educação, não da repressão. De fato, a expressão “chico” vem do norte de Portugal, onde tem vários significados, entre eles como sinônimo de "porco". Daí a palavra “chiqueiro”.

As alternativas no caso do BRB, por Míriam Leitão

O Globo

O Banco de Brasília é menor que o Master, mas se for liquidado o impacto maior será no setor público. É o primeiro banco estadual a entrar em crise há 30 anos

Banco Central enfrenta um dilema em relação ao Banco de Brasília (BRB). O que fazer se a situação piorar? Desde o Proes, na década de 1990, nenhum banco estadual foi liquidado. Em uma liquidação, o interventor entra no banco, congela os bens e os vende para entregar aos credores. É assim que funciona. Mas no caso do BRB são ativos que pertencem ao povo do Distrito Federal. Há uma discussão jurídica se essa operação seria considerada expropriação de bens públicos. O BC tem instrumental limitado também para socorrer em qualquer emergência porque não pode dar assistência de liquidez. O instrumento para esse fim seria regulamentado pelo Projeto de Lei da Resolução Bancária, mas ele ainda não foi votado.

Lula e a comunicação, por Elio Gaspari

O Globo

Em geral, quando um governo diz que tem um problema de comunicação, o problema está no governo, não na comunicação. Lula 3.0, no entanto, tem um problema de comunicação e ele se chama Lula. O presidente ocupa os espaços do governo com uma agenda repetitiva e arcaica.

Esse sistema malvado fritou o ministro Paulo Pimenta e mostrou a frigideira a Sidônio Palmeira, seu substituto.

Tome-se como exemplo a ida de Lula ao Ceará na terça-feira. No palanque, com um boné do ITA, Lula falou por 27 minutos, tratou de suas realizações na educação, louvou suas greves, o ministro Camilo Santana e a militância política. Maltratou a “elite brasileira”e “os banqueiros da Faria Lima”. Fora dele, tratou do mandato de oito anos dos senadores, da sucessão no governo daquele estado, chamou o ex-governador Ciro Gomes de “destemperado”.

Com trocas de partidos, Câmara confirma hegemonia conservadora, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O controle burocrático dos partidos, o financiamento eleitoral, as emendas impositivas ao Orçamento e a “política como negócio” ditam as regras do jogo

É cada vez mais evidente na política brasileira o descolamento dos partidos de projetos nacionais e sua conversão em máquinas de sobrevivência eleitoral. Esse “transformismo” é um processo político associado ao peso do fundo eleitoral, das emendas parlamentares, da densidade das legendas e às alianças na disputa à Presidência e aos governos estaduais. Esse conjunto explica o troca-troca da janela partidária. Confirma a hegemonia conservadora na Câmara e uma deriva mais à direita do sistema partidário. O PL cresce de 86 para 101 deputados (+15), tornando-se o principal polo de atração de parlamentares. Se for confirmado esse avanço nas eleições, a legenda ampliará seu acesso ao Fundo Eleitoral, ao Fundo Partidário e ao controle de emendas, relatorias e comissões, independentemente do resultado das eleições presidenciais.

Sobre penduricalhos e como as instituições funcionam, por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

Democracia pressupõe assegurar que não haja concentração de poder e que as regras do jogo sejam legítimas para o convívio entre os diferentes

Muitos livros e artigos foram produzidos em busca de explicar por que países são mais ricos que outros. São reflexões históricas profundas, de autores que divergem entre si sobre visões de mundo e que, muitas vezes, não concordam sequer com o caminho a ser trilhado. No entanto, a grande maioria converge no desejo de fortalecer as liberdades e promover prosperidades. Uma dessas correntes acredita que o principal caminho é por meio das instituições. Seu famoso lema é "as instituições importam".

Crime organizado e soberania nacional, por Sergio Fausto*

O Estado de S. Paulo

A gravidade do fenômeno é evidente. Ele corrói o Estado Democrático de Direito e faz da coerção mafiosa moeda corrente no sistema político e na vida econômica

Crime organizado, corrupção, violência e suas relações recíprocas serão tema da campanha eleitoral. É um assunto incontornável. Os últimos tempos têm sido pródigos em revelar a extensão crescente da presença do crime organizado em setores da economia e nas estruturas do Estado. A gravidade do fenômeno é evidente. Ele corrói o Estado Democrático de Direito e faz da coerção mafiosa moeda corrente no sistema político e na vida econômica.

Um fardo para o candidato Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula errou ao colar no STF na fase das vacas gordas e erra ao tentar se descolar na das vacas magras

O presidente Lula errou duas vezes. A primeira, ao colar no Supremo e em Alexandre de Moraes na época das vacas gordas, a da resistência, do julgamento e da condenação de Bolsonaro e generais do golpe. A segunda, agora, ao tentar se descolar da época das vacas magras, com um ministro atrás do outro caindo na esparrela do Master e a imagem do Supremo definhando com a seca.

Fez sentido Lula assumir a liderança pró-democracia contra o quebra-quebra de Planalto, Supremo, Câmara e Senado no fatídico 8/1, reunindo presidentes dos demais Poderes e governadores de toda a Federação para dizer “não”, condenar os atos e atrair a repulsa da população contra a barbárie. Apesar da natural casquinha política, ele estava no seu papel de chefe de Estado e da Nação.

A fragilidade de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Fragilidade política e impulsividade de Trump podem levar a decisões ainda mais erráticas

A derrubada de um caça americano e a destituição do comandante do exército dos EUA introduzem novas fragilidades na condução da campanha no Golfo Pérsico, sobretudo quando Donald Trump demonstra não ter um plano para uma saída politicamente viável dessa guerra. Ele insiste na tese, materialmente falsa, de que obteve mudança de regime no Irã, de que o país está militarmente aniquilado e de que a reabertura do Estreito de Ormuz deve ser tarefa dos países que dependem da energia que transita por lá.

O mundo da Lua e a Terrabrás de Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Protecionismo e guerras são motivos para planos nacionais de desenvolvimento com cuidado

Brasil pode ter papel no negócio de terras raras, mas estatal produtora é ideia temerária

Um país que controla parte relevante do acesso a combustível, fertilizante, mineral crítico ou ao sistema internacional de pagamentos tem poder. Pode não ser ou ficar rico assim, mas pode arrumar lugar melhor em acordos político-econômicos.

Quem ao menos lê jornal sabe disso. Soube do problema de abastecimento de vacina e materiais de saúde, na Covid. Do efeito de guerras frias e quentes dos anos 2020: Rússia contra Ucrânia, EUA contra a China, EUA e Israel contra o Irã e outras.

Flávio Bolsonaro quer comprar golpe com terras raras, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Filho de Jair Bolsonaro também ofereceu a Trump um discurso para eventual intervenção

Se você entendeu o quão escandaloso foi o discurso de Flávio, sugiro não criar expectativas

Em discurso nos Estados UnidosFlávio Bolsonaro prometeu a Donald Trump as terras raras brasileiras como pagamento se a Casa Branca melar as eleições desse ano e lhe entregar a Presidência da República.

O discurso foi feito na CPAC, uma reunião de extrema direita em que candidatos a Marechal Pétain apresentam seus currículos de golpista às autoridades americanas.

As urnas testarão as escolhas de Lula e Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A vontade dos chefes partidários não necessariamente atende às demandas de quem escolhe os candidatos

Ronaldo Caiado e Renan Santos dão à corrida eleitoral um toque de charada ainda a ser desvendada

O "dedazo" eleitoral de Luiz Inácio da Silva (PT) funcionou há 16 anos quando conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff (PT) presidente, mas nem sempre o método da unção deu certo.

No final dos anos 1990, a imposição de uma aliança com Anthony Garotinho (então no PDT) marcou o início da derrocada do PT no Rio de Janeiro, da qual o partido não se recuperou. Garotinho se elegeu e rompeu; em 1998 o pedetista Leonel Brizola foi vice de Lula e a chapa perdeu no primeiro turno.

Homens que odeiam mulheres, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Senado acerta ao equiparar misoginia a racismo e aumentar punição pelo crime

Racialização não se restringe a classificações hierárquicas por cor da pele

São alarmantes as estatísticas de estupros e feminicídios no Brasil. E não cabe perguntar se estaria havendo aumento expressivo de casos ou uma maior exposição midiática, considerando que certas notícias favorecem, mais que outras, impacto emocional e comoção imediata. Na Índia, onde é relevante o número de ataques às mulheres, a mídia é mais lacônica sobre o assunto do que a brasileira. Entre nós, os números são reais e vexaminosos.

A Condessa Sangue, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história de Elizabeth Bathory, acusada de assassinar centenas de virgens

Obra mostra como fake news foram se formando em torno da nobre húngara do século 17

Fake news não foram inventadas por Elon Musk. Elas são uma constante na história. Se há algo que impressiona, é a persistência de seus tropos ao longo dos séculos.

O moderno falso antigo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Com nove sambas inéditos, Chico e Mario Adnet trazem para 2026 o Rio de 1936

'Falso Antigo' recria um passado recheado de surpreendentes temas contemporâneos

Por muitas décadas, aqui no Rio, tem sido assim: onde houver boa música, haverá um Adnet por perto. É uma família que, há três gerações, vive do piano, do violão, do lápis, do microfone, das mesas de som e agora, quem sabe, terá de dar algumas lições à IA. Uns pelos outros, o universo dos Adnet foi de jingles, trilhas para TV e cantar com Tom Jobim até a produção de magníficos discos independentes, a ressurreição da obra de Moacir Santos e a reconstrução de um Jobim sinfônico.

A sanha intervencionista do “Grande Irmão” está longe do fim, por Roberto Amaral *

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países, até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história, desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era  a defesa coletiva contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia global dos EUA no pós-guerra.

Dez anos sem Gullar, dez anos com Gullar, por Ivan Alves Filho

Em 2014, tive a honra de dar a aula inaugural da Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha. Era o início do ano letivo, no mês de outubro, creio eu. O tema da minha intervenção, que durou três ou quatro horas, foi centrado na obra do poeta e ensaísta Ferreira Gullar. Na ocasião, foi projetado um documentário que fiz sobre o nosso Gullar, intitulado A luta poética, no quadro da série Brasileiros e Militantes, produzida pela Fundação Astrojildo Pereira.

Poesia | A vida não basta | Ferreira Gullar - Poema Sujo

 

Música | Boca Livre - O Trenzinho do Caipira (Villa Lobos, com poema de Ferreira Gullar)

 

sábado, 4 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rombo das estatais tornou-se rotina no governo Lula

Por O Globo

Nos primeiros dois meses do ano, as perdas somaram R$ 4,2 bilhões, quase o total registrado em 2025

Nos primeiros dois meses do ano, as estatais federais registraram um rombo de R$ 4,16 bilhões. Trata-se do pior resultado para o primeiro bimestre desde 2002, quando o Banco Central (BC) deu início à série histórica. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode nem argumentar que foi um lapso. O recorde anterior ocorreu em 2024. De lá para cá, houve um agravante: o buraco tem crescido. O resultado negativo do primeiro bimestre deste ano foi R$ 2,8 bilhões maior que no mesmo período de 2025 e alcançou quase o total registrado ao longo de todo o ano passado, R$ 5,1 bilhões. Levando em conta a resistência do governo em promover a privatização mais óbvia — a dos Correios —, a sangria deverá continuar, deixando ao contribuinte uma conta que agravará a crise fiscal e aumentará ainda mais o endividamento público também recorde (79,2% do PIB).

Horizonte estreito, por Flávia Oliveira

O Globo

O que se vislumbra para outubro é a primeira disputa presidencial sem candidatura feminina desde 2006

Do limiar de abril, o que se vislumbra para outubro é a primeira eleição presidencial sem candidatura feminina desde 2006. Neste século, apenas no primeiro pleito (2002), quando Roseana Sarney desistiu de concorrer, não houve mulher como cabeça de chapa — Rita Camata foi vice de José Serra (PSDB), e Deyse Oliveira de Zé Maria (PSTU). O Brasil teve uma mulher, Dilma Rousseff, duas vezes vencedora (2010 e 2014); candidatas competitivas, caso de Marina Silva (2010, 2014 e 2018) e Simone Tebet (2022); uma dezena de vices com visibilidade, de Rita Camata (2002) a Ana Amélia, Sonia Guajajara, Manoela d’Ávila e Kátia Abreu, todas em 2018. A participação cresceu na esteira da cobrança das feministas por representatividade e sucumbiu à supremacia dos homens de partido.

Tem conserto? Por Eduardo Affonso

O Globo

A Sala Cecília Meireles resiste, serena, blindada por uma couraça que a protege das buzinas e freadas, do funk e do reggaeton

A Sala Cecília Meireles é um remanso à margem daquela corredeira que vem da Riachuelo, deságua na Rua da Lapa, reflui para a Mem de Sá, passa pela Rua do Passeio e sobe para fazer selfies na Escadaria Selarón. A Sala resiste, serena, blindada por uma couraça que a protege das buzinas e freadas, do funk e do reggaeton das JBLs ligadas em volume máximo nas barraquinhas do entorno dos Arcos. Sem saber, coitada, que um novo cavalo de Troia contrabandeou o inimigo lá para dentro.

Por que Moraes não é investigado? Por Thaís Oyama

O Globo

Tecnicamente, a resposta curta é: porque Paulo Gonet, procurador-geral da República, até agora não quis

"As ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas. O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece." Foi com seu estilo costumeiro — muitos adjetivos, nenhum argumento e tom de quem não gostou de ser incomodado — que o ministro Moraes negou, por meio de sua assessoria, ter viajado com a mulher, Viviane Barci, ao menos oito vezes em jatinhos de empresas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A revelação, feita pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pelo Estadão, baseou-se no cruzamento de informações de três bancos de dados de aviação.

Uma campanha paralela, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Deve-se propagar: não vote em quem não destina verba ao ensino integral

Desalento é o sentimento que se espalha diante da certeza de que a crise de nossas instituições não será resolvida por via das eleições.

Há a sensação do “já visto”, dando até certo cansaço antecipado diante das mesmas superficiais promessas dos candidatos, que serão tonitruantes por todos os meios de comunicação. Os candidatos a presidente ou a governador podem até apresentar programa de governo, mas isso não levará a qualquer adesão revestida de entusiasmo.

Compliance zero, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O escritório Barci de Moraes disse, em nota, que “nenhum integrante jamais viajou em aviões de Daniel Vorcaro ou Fabiano Zettel”. Essa é construção defensiva que prospera nas fendas entre pessoas física e jurídica – porque sempre se poderá declarar que o jatinho era de empresa que tinha Vorcaro como sócio, cousa distante, com participação modesta etc.

A globalização não morreu, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A guerra comercial não quebrou o sistema – apenas o obrigou a encontrar novos caminhos

Trump parece ter transformado a política econômica em uma versão moderna do menino que gritava “lobo” (Esopo). Depois de tantos alarmes falsos, o problema não é mais o que se anuncia, mas é a credibilidade de quem anuncia. O interessante na situação atual é ver que, um ano depois de idas e vindas, a liderança perde a credibilidade, mas o sistema não colapsa.

A trilha desse filme segue com as empresas ignorando o discurso e reorganizando as cadeias produtivas e distributivas, os países ignorando as ameaças e firmando novos acordos, mas os mercados reagindo e aumentando os prêmios de risco.

Em nome de Deus, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O secretário fez apelo público ao povo americano por um tipo específico de oração em tempos de guerra

A confusão entre guerra e religião é decisão perigosa. O mundo já experimentou essa mistura na época das Cruzadas, no século 14 e não deu certo. Mas o secretário de Defesa, ou de Guerra, dos Estados Unidos, Pete Hegseth, é religioso que coloca no mesmo nível conceitos de sua Igreja com a ação dos militares norte-americanos por todo o mundo. Ele se julga uma espécie templário redivivo, segundo suas próprias palavras. O secretário, voz ativa junta ao presidente Donald Trump, diz que a guerra demonstra a "força avassaladora" e a "capacidade incomparável" das Forças Armadas dos EUA de fazer chover morte e destruição sobre seus inimigos iranianos "apocalípticos".

O que significa machismo estrutural? Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

As mulheres estão numa situação de desigualdade competitiva, enfrentando desafios institucionais, simbólicos e materiais maiores do que os homens enfrentam. E o pior: precisam lidar com a ideia amplamente difundida de que essa desigualdade é fruto da natureza, e não de uma certa cultura

Sabemos que o machismo é um problema estrutural, mas será que há clareza sobre o que isso significa? Gostaria de propor o debate porque estamos às vésperas da eleição e, se há um cenário em que as desigualdades se manifestam, é na cena política.

Desafios da autocorreção, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Resistência de alguns ministros do STF em reconhecer erros favorece apenas a extrema direita

A crise do Supremo não se solucionará de forma mágica

A resistência de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal em reconhecer erros e corrigir os rumos do tribunal favorece apenas a extrema direita. Depois de anos criticando e fustigando o Supremo por suas acertadas decisões na defesa dos direitos fundamentais e, sobretudo, na responsabilização dos que atentaram contra a democracia, surge agora uma distinta oportunidade de atacar o Supremo. A conduta de alguns de seus ministros tem deixado o tribunal cada vez mais vulnerável. O tema STF concentrará atenções não apenas na disputa presidencial, mas, sobretudo, na corrida pelas cadeiras do Senado.

Falta de oposição causou a decadência política do Rio, por Leonardo Weller*

Folha de S. Paulo

Estado choca o Brasil com uma longa lista de governadores presos e destituídos

Democracias precisam de oposições sérias capazes de pressionar governos a entregarem boas políticas públicas

Rio de Janeiro choca o Brasil. O afastamento de Cláudio Castro repete um padrão, verificado desde os anos 2000, com uma longa lista de governadores presos e destituídos. A economia fluminense tampouco é um bom exemplo. Apesar de contar com o segundo PIB da federação, governos perdulários e flutuações no preço do petróleo levaram o Rio à bancarrota.

Muito se fala na criação de Brasília como causa dessa decadência. Mas a antiga capital federal continuou sediando grandes estatais e autarquias, da Petrobras ao BNDE(S). Já o regime militar ajudou o Rio ao expandir o peso do setor público na economia, criando várias estatais na cidade e transformando a Petrobras em uma gigante. A Ponte Rio-Niterói, à época a maior do mundo, era símbolo daquele projeto de Brasil grande.

No Texas, Flávio Bolsonaro exibe sua vassalagem a Trump, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filho 01 só faltou pedir a anexação do Brasil pelos Estados Unidos

Candidato ao Planalto repete o pai e questiona eleições de 2022

Aluno esforçado das lições marqueteiras, Flávio Bolsonaro desistiu da dancinha ao som do funk "Zero Um, Novo Capitão". Na avaliação de quem cuida de suas redes, imitar a postura tiktoker de Donald Trump não pegou bem. Um político moderado não pode rebolar descendo até o chão.

A ordem é abrir a boca o menos possível, evitar as entrevistas do tipo quebra-queixo, escapar das cascas de banana. Uma palavra sobre o escândalo Master? Nem pensar. A finalidade da estratégia low profile é reprimir a natureza golpista do filho 01.

Legado de Ibaneis para Brasília e o BRB é o pior possível, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Situação do BRB se agrava com inação do governo do DF

Ex-governador do DF não conseguirá se distanciar do escândalo Master

Investigado por suspeitas de envolvimento no escândalo Master, Ibaneis Rocha (MDB), ex-governador do Distrito Federal, conseguiu o que queria. Saiu do cargo no último dia 30 para se candidatar ao Senado antes de o BRB ser obrigado a anunciar ao mercado que não iria mais publicar o seu balanço de 2025 dentro do prazo.

Ibaneis conseguiu empurrar a bola para a sua sucessora, a vice-governadora Celina Leão (PP), que também dá sinais de não querer resolver a crise com a urgência necessária para o tamanho do problema do banco.

Equilíbrio fiscal: assunto de todos, por Marcus Pestana

Aproxima-se as eleições e é hora de discutir os desafios e os dilemas nacionais. No entanto, a política econômica, apesar de ser tema central para a vida do País, sempre fica escanteado. Tudo indica que os temas predominantes serão segurança pública e corrupção, a partir dos escândalos do INSS e do Banco Master. A política fiscal é evitada por todos. Nenhum candidato, em plena campanha, vai ser explícito sobre aumento de impostos ou corte de gastos em uma estratégia de ajuste fiscal. Mas, ao assumir, o próximo presidente da República terá um inevitável encontro com o reequilíbrio das contas públicas.

O incêndio na pizzaria, por Murillo de Aragão

Veja

O sistema institucional precisa ser imediatamente depurado

Vivemos em um país onde o Estado é maior que a sociedade e os detentores do poder sempre exerceram contenção de danos em nome da manutenção da institucionalidade e da tutela de nós, a patuleia. Mesmo que custasse atropelar a Constituição, que, nos dias de hoje, nos faz lembrar de como a chamavam no Império: a defunta. Já não há estado de direito nem contenção moral de muitos que dirigem o país. A “Constituição Cidadã” é plena de direitos, parca de obrigações e ineficaz na aplicação de ambos.

Entrevista | “Nunca escolhemos adversários”, diz Edinho Silva, presidente do PT

Sergio Lirio /CartaCapital

A meteórica alta das intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas não surpreende Edinho Silva, presidente do PT. Resultado da “polarização”, afirma o ex-ministro e ex-prefeito de Araraquara, à frente da legenda em mais uma eleição decisiva tanto para o País quanto para o partido. “Sempre tive a leitura de que qualquer candidato que representasse o campo bolsonarista cresceria rapidamente.” O dirigente petista, na entrevista a seguir, nega que a agremiação tenha preferência por outro adversário, minimiza os efeitos da candidatura de Ronaldo Caiado (“é um problema da família Bolsonaro, não nosso”), afirma que a campanha por um quarto mandato do presidente apresentará aos eleitores um programa arrojado e moderno com uma perspectiva de futuro, em especial para as novas gerações, e espera uma mudança do humor da população quando se aproximar a hora da escolha. “No meio do ano, a situação será outra.”

Apenas Flávio, por André Barrocal

CartaCapital

O filho 01 de Bolsonaro veste um figurino que não lhe cabe, enquanto torce pelo incerto engajamento de Tarcísio de Freitas e Donald Trump em sua campanha

Em 4 de abril acaba o mistério: Tarcísio de Freitas continuará governador de São Paulo? Para concorrer à Presidência da República em outubro, o anti-Lula predileto do “mercado”, do empresariado e da grande mídia teria de deixar o cargo até esta data. Vontade de subir a rampa do Palácio do Planalto não lhe faltava, ainda que considerasse o atual chefe da nação um oponente duríssimo de bater. A concessão judicial de prisão domiciliar a Jair Bolsonaro, dez dias antes do fim do prazo para Tarcísio decidir se abandonava São Paulo e alçava voos mais altos, havia realimentado os sonhos do governador. É o que havia confidenciado um dos auxiliares mais próximos dele em conversas com a turma da Avenida Faria Lima, a meca do capital financeiro no Brasil.

Cenário movediço, Aldo Fornazieri

CartaCapital

Há um congestionamento de candidaturas à direita

Com a escolha de Ronaldo Caiado como candidato do PSD, o quadro das candidaturas presidenciais está praticamente definido e o cenário da disputa ganha novos contornos. O quadro revela um Lula olímpico no campo do centro-esquerda, um centro órfão e um enorme congestionamento à direita. O centro poderia ter um representante se Ratinho Júnior ou Eduardo Leite viessem a ser candidatos. Além de Caiado, a direita terá Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos. Outros possíveis candidatos se situarão entre as candidaturas nanicas.