sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Na eleição suja de 2026, neodireitas se testam e política adia problemas para 2030, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Campanha começa como se previa, sem ideias e discutida na polícia ou na Justiça

Pleito também é laboratório de líderes digitais para a sucessão de quem se aposenta

A campanha para presidente começou bem. Bem do jeito que se previa. Por ora, é caso de polícia: de questões judiciais, de tentativas de artimanhas judiciais e candidatura pirata. Em São Paulo, se batem direitas que vão disputar a cidade daqui a dois anos, prenúncio de projetos de renovação inevitável de métodos e lideranças políticas no caminho da aposentadoria. Isso tem algum efeito na campanha presidencial.

O inelegível Pablo Marçal, um dia candidato a prefeito de São Paulo, lançou-se a presidente com um truque que pode durar até o início de setembro, quando o TSE deve tirá-lo da disputa oficial. Por ora, essa pessoa apenas está sem acesso a recursos oficiais de campanha, mas terá uns 20 dias de mumunha eleitoral. A avacalhação não tem fim.

Lula precisa de adversário? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na guerra de lama entre os favoritos, Lulinha brilha, mas ‘Dark Horse’ não é ‘página virada’

Os três inquéritos da PF e o envolvimento de Lulinha no escândalo do INSS atingem em cheio Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente e candidato, e aprofundam as divisões do Supremo, jogam dúvidas sobre a PGR e aumentam a pressão sobre a Polícia Federal. De quebra, são um alívio para Flávio Bolsonaro. Com um filho desses, Lula precisa de adversários?

Lulinha é amigo de Roberta Luchsinger, que é amiga e fornecia empréstimos e joias para o Marcola, que é amigo de Lula e, como seu chefe de gabinete no Planalto, recebeu de Roberta uma minuta de contrato, “sem licitação”, para a venda de canabidiol ao governo. Pairando sobre todos, o Careca do INSS, cabeça de um dos maiores escândalos do País.

Estratégia diversionista, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ao discutir exigência de diploma, Moraes e Dino tentam mudar o rumo do debate e fugir das críticas

A estratégia vem sendo utilizada por alguns ministros do Supremo Tribunal Federal em diversas ocasiões. Quando são questionados sobre um ponto sensível, levantam “balões de ensaio” e tentam mudar o rumo do debate público e fugir das críticas.

É exatamente isso que vem sendo feito pelos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino no suposto embate entre o sigilo da fonte e a exigência de diploma para jornalista – só que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O sigilo da fonte está na Constituição e foi violado no caso do blogueiro Luís Pablo, do Maranhão.

Tesouro dos EUA piscou, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a recompra inesperada de seus títulos (treasuries) de longo prazo com o dobro de recursos, coisa de no mínimo US$ 4 bilhões, e divulgou a posição recorde da dívida pública do país, de US$ 40 trilhões, esta já mais ou menos prevista.

O mercado financeiro global foi tomado pela ansiedade. Os preços do ouro saltaram 2,82% num único dia, as cotações do dólar caíram, as Bolsas comemoraram e, como não podia deixar de ser, caiu a remuneração (yield) dos treasuries de longo prazo. Esta manobra do Tesouro diz muita coisa e terá consequências.

A recompra de US$ 4 bi em títulos cujo estoque soma US$ 40 tri é insignificante. Mais significante é a operação em si mesma e o que há por trás dela.

SP vê disputa que o Brasil adiou, por Vera Magalhães

O Globo

Recusa de Lula e Bolsonaro em passar o bastão para Haddad e Tarcísio transfere para o Estado debate sobre os principais temas nacionais

À medida que a campanha se desenrola, vai ficando claro quanto a disputa travada em São Paulo entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad tem mais consistência programática do que aquela de que Lula e Flávio Bolsonaro se escondem e representa o que deveria ser a discussão nacional, não fossem os desígnios em grande medida personalistas do próprio petista e do pai e mentor do senador do PL.

Todo mundo lembra a profusão de vezes em que Lula disse, em 2022, que não disputaria a reeleição e que aquela seria uma eleição de “transição”, cuja circunstância principal era preservar a democracia e derrotar o bolsonarismo. Boa parte do poder de atração que teve sobre o eleitor liberal que já tinha prometido nunca mais votar no PT residiu nesse canto da sereia.

A farsa de Pablo Marçal, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Coach subiu no picadeiro para ajudar Flávio Bolsonaro e promover seus próprios negócios; registro deve ser negado pelo TSE

A nova aventura de Pablo Marçal está com os dias contados. Inelegível até 2032, o coach registrou a candidatura a presidente nos últimos minutos do prazo. Conseguiu tumultuar a disputa, mas deve ser barrado pelo TSE.

Com milhões de seguidores nas redes sociais, Marçal tem a receita para bagunçar o coreto. Em seis dias de campanha, berrou palavrões, insultou jornalistas e chorou num podcast.

Ele reapareceu a bordo de um factoide: declarou R$ 7 bilhões em patrimônio. Depois de ganhar as manchetes, alegou erro ao preencher um formulário. Quem o conhece identificou mais uma pegadinha para causar polêmica e reforçar a imagem de novo rico.

Sigilo de fonte está ameaçado, por Pablo Ortellado

O Globo

STF fez esforço para proteger Dino da acusação de uso indevido de carro funcional

O ministro Alexandre de Moraes deu ordem de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Almeida, que publicou reportagem denunciando uso indevido de carro funcional pela família do ministro Flávio Dino para deslocamentos particulares, inclusive ir à praia. A apreensão do celular dele resultou na violação de seu sigilo de fonte. A medida foi condenada pelos três grandes jornais (O GLOBO, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo) e pelas principais associações jornalísticas.

A investigação contra Luís Pablo foi aberta a pedido do próprio ministro Dino e inicialmente sorteada para o ministro Cristiano Zanin, mas em seguida redistribuída para Alexandre de Moraes sob alegação de que tinha conexão com o inquérito das fake news. Ao autorizar a busca, Moraes registrou que a conduta seguia “modus operandi semelhante” ao da organização criminosa ali investigada — como se uma reportagem sobre carro funcional equivalesse a um ataque à Corte.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rediscutir diploma de jornalismo não tem cabimento

Por O Globo

Causa estranheza a questão ressurgir num momento em que Supremo está desgastado por notícias incômodas

A discussão sobre a obrigatoriedade de diploma para o exercício da profissão de jornalista é anacrônica. Está superada desde pelo menos 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência por 8 votos a 1. Na ocasião, o STF entendeu que ela era inconstitucional, por violar as liberdades de expressão e informação. A tentativa de ressuscitar a questão agora não tem nexo lógico, sentido jurídico ou pertinência histórica numa sociedade que tanto lutou para restabelecer a democracia.

Inexistente em democracias maduras, a obrigatoriedade do diploma foi imposta no Brasil por decreto de 1969, em plena ditadura militar, com o objetivo indisfarçável de controlar quem poderia exercer a profissão. Há mais de 40 anos, felizmente, sopram no país ventos democráticos. Por isso causa estranheza que o debate tenha ressurgido no mesmo Supremo que extinguiu a exigência, em meio ao desgaste provocado na Corte pelo caso do blogueiro maranhense Luís Pablo — alvo de operações da Polícia Federal (PF) determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, sob acusação de perseguição ao ministro Flávio Dino. Nas investigações, Moraes determinou a quebra do sigilo das fontes de Pablo, em violação flagrante ao que ordena a Constituição.

Opinião do – Gilvan Cavalcanti (valores)

“Penso que ser de esquerda, hoje, seria incorporar os valores históricos dos quais ela nasceu: liberdade, democracia, justiça, igualdade, solidariedade, trabalho. Mas, também, acrescentar os novos valores, o abecê do novo século: cidadania, direitos, laicismo, inovação, criatividade, integração, mérito, multiculturalismo, oportunidade, segurança, sustentabilidade e internacionalização. Valores estes, consagrados na Constituição de 1988.

A época atual é tempo novo, em que o caráter da sociedade - modo de produzir, de consumo, de trabalho, de comunicação, relacionamento de conceber e organizar a vida individual e social - está se modificando profundamente. Em outras palavras, a esquerda deveria ser, na essência, do trabalho, do desenvolvimento sustentável, da cidadania e dos direitos civis, da criatividade, da meritocracia, do saber e da consciência, do indivíduo e laico, da democracia representativa, da integração mundial, interdependência, da paz e segurança.”

Cf. Gilvan Cavalcanti de Melo, "A esquerda democrática, compromisso com o futuro”, in O que é ser esquerda, hoje? org. Francisco Inácio Almeida, Editora. Contraponto e Fundação A. Pereira, Rio de Janeiro-Brasília, 2013, p.268

Poesia | Quando encontrar alguém , de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Dalva de Oliveira - Hino ao amor(Edith Piaf)

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Justiça Eleitoral tem de ser mais célere ao avaliar candidatos

Por O Globo

Apesar de pendências judiciais, nomes como Marçal, Arruda, Cunha e Garotinho registraram candidatura

A pouco mais de um mês das eleições, ainda pairam dúvidas sobre os candidatos que concorrerão. Rostos conhecidos da política obtiveram registro regular de candidatura nos sistemas oficiais, apesar de decisões judiciais que os consideraram inelegíveis — entre eles, o influenciador Pablo Marçal, o ex-governador fluminense Anthony Garotinho e o ex-governador do Distrito Federal (DF) José Roberto Arruda. O registro por si só não significa que estejam aptos a concorrer. Por isso, a Justiça Eleitoral precisa ser ágil na análise desses casos. O eleitor não pode ficar na dúvida sobre a validade do próprio voto.

W.O. em debate deveria custar voto, por Julia Duailibi

O Globo

A ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota

Ser candidato numa eleição significa cumprir algumas obrigações básicas, principalmente quando a candidatura é para inquilino da Presidência da República. Entre os deveres não previstos em lei, está participar de debates. Trata-se não só de demonstração de respeito, mas de evidente obrigação moral com o eleitor. Por isso a ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota para chegar ao poder.

Diploma não é documento, por Merval Pereira

O Globo

Quem faz blogs e se diz jornalista, mas não é, pode ser processado pela lei penal, por injúria, difamação ou qualquer outro crime

A exigência de diploma para jornalistas foi imposta por decreto da Junta Militar em 1969 e vigorou durante 40 anos no Brasil, até que o Supremo Tribunal Federal (STF) a revogou, em 2009, considerando que a proibição de exercer a profissão violava a liberdade de expressão e de informação. Na primeira ocasião, a obrigatoriedade agradava aos que tinham faculdades de jornalismo e atuavam em um mercado de trabalho controlado pelo oficialismo governamental: ministérios, secretarias, sindicatos e associações chapas-brancas.

Mas a exigência tinha também o sentido de controlar quem podia ser jornalista, pois o registro era dado pelo governo, a ditadura militar. Hoje, a situação é mais complexa por causa das redes sociais, que inundam os usuários de informações nem sempre fidedignas, sem o controle de qualidade exigido pelo jornalismo profissional. É uma situação diferente da que tínhamos quando se decidiu que não era preciso ter diploma.

Debate no STF sobre diploma em jornalismo é tentativa de desviar o foco de arbitrariedades, por Malu Gaspar

O Globo

O caso da matéria do blogueiro Luís Pablo sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares de Flávio Dino poderia não ter passado de um entrevero menor, sobre o qual talvez nem mesmo os maranhenses tomassem conhecimento. Mas a reação do ministro e de seus colegas do Supremo Tribunal Federal (STF) transformou o que poderia ter sido no máximo um processo criminal e a prisão de arapongas locais em assunto de alcance nacional, ao chamar a atenção sobre até onde os “supremos” estão dispostos a ir para se manter à margem da lei.

A disputa oculta da campanha eleitoral, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Disputas internas no STF, alavancadas embate entre inquérito das ‘Fake News’ e aqueles do Master e INSS, induzem o voto do eleitor

A rediscussão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, derrubada pelo Supremo em 2009, em meio a uma campanha eleitoral em que estão em jogo 1.682 mandatos do poder político no país só reforça a percepção, pra lá de majoritária, de que o inquérito das fake news já deveria ter sido encerrado.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, até que tentou. O preâmbulo que fez na sessão da semana passada - “A força do tribunal reside em sua colegialidade, a melhor expressão de solidariedade a seus membros, seja confirmando decisões monocráticas, seja deliberando sobre o destino e a duração das investigações; a Presidência adotará as providências regimentais cabíveis para que essas deliberações ocorram com a brevidade que a matéria exige” - foi entendido como uma tentativa de levar ao plenário a decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre a quebra de sigilo do jornalista Luís Pablo, do Maranhão, mas o alvo de Fachin ia adiante. Mirava o próprio inquérito em que esta decisão se abrigou.

Dificuldade de rolar a dívida, por Míriam Leitão

O Globo

O nó fiscal brasileiro é complexo e nenhum candidato falou ainda como enfrentá-lo de forma convincente

O ministro Dario Durigan disse que as taxas de juros pagas pelo Tesouro para rolar a dívida pública são altas demais e definiu a situação como “inaceitável”. De fato estão altas, mas reduzi-las é um processo que passa pelo controle dos gastos públicos. Há fatos específicos sobre a dívida brasileira. Os investidores querem comprar apenas papel pós-fixado e de período curto, ou seja, LFT atrelada à Selic. Em meio ao calendário eleitoral, os candidatos não fizeram propostas críveis de ajuste nas contas públicas, e a dívida é alta, cara e curta.

O Tesouro precisa rolar de R$ 140 bilhões a R$ 150 bilhões por mês. O problema é que os investidores e os gestores dos investimentos estão pedindo cada vez mais juros para comprar um pré-fixado como uma NTN-B. O Tesouro só consegue vender se aceitar pagar taxas de 8% acima do IPCA.

O peso da incerteza sobre a economia, por Assis Moreira

Valor Econômico

Aumento acentuado da incerteza pode se tornar um “novo normal” globalmente

A incerteza econômica torna-se, cada vez mais, uma característica marcante do ambiente macroeconômico. Ainda mais quando, por exemplo, os “choques de incerteza” fazem parte da prática de Donald Trump e amplificam os temores globalmente de mais contração econômica.

Para compreender o papel e o impacto econômico desse fenômeno particularmente importante no atual ambiente geopolítico, o Banco Central Europeu (BCE) encarregou os economistas Malin Andersson, Alina Bobasu, Lorena Saiz e Stefania Scrofani de preparar uma análise, publicada em seu recente boletim econômico.

Em termos práticos, como notam os autores, a incerteza reflete a falta de clareza sobre variáveis como crescimento futuro, inflação, taxas de juros, emprego, lucros, preços de ativos ou decisões de política pública. Ela pode ter diversas origens e é distinta tanto do risco quanto da confiança.

A disputa pelo poder das big techs chega com tudo às eleições no Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais

A transformação política do Vale do Silício não pode mais ser vista como simples mudança de comportamento de alguns bilionários ou flerte com a extrema-direita americana. Por trás dessa aproximação existe uma disputa sobre quem terá o poder de definir os limites das empresas que controlam plataformas digitais, mecanismos de busca, publicidade, inteligência artificial e parte crescente da circulação de informação.

Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.

Coronelismo, emenda e voto, por Gaudêncio Torquato

O Estado de S. Paulo

O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel distribui recursos do Orçamento. Permanece a tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política

Em 1949, Victor Nunes Leal publicou uma obra fundamental da ciência política brasileira: Coronelismo, enxada e voto.O livro tornou-se referência para compreender o poder na República Velha e as relações entre Estado, elites rurais e eleitorado. Passadas mais de sete décadas, sua atualidade decorre da sobrevivência da lógica de apropriação do poder que descreveu. A enxada perdeu protagonismo; as emendas parlamentares ganharam posição estratégica. Viveria o Brasil um novo ciclo de neocoronelismo, emenda e voto?

Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo era uma rede de reciprocidades entre o poder local e o poder central. Os coronéis entregavam votos e sustentação política; em troca, recebiam prestígio, favores administrativos, influência e autonomia para controlar seus redutos. O eleitor, frequentemente dependente do chefe político, ocupava posição subordinada. O traço essencial daquele sistema era a confusão entre a res publica e a res privada.

A urbanização, o sufrágio e a Constituição de 1988 desmontaram esse universo rural. O velho coronel perdeu espaço, mas a intermediação política não desapareceu. Apenas se transformou.

O fator redutor, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Ambição e esperteza, associadas uma à outra, subordinam e exploram as demais potencialidades que carregamos. As duas são os únicos traços humanos remunerados pelo capital

Um ser humano pode ser tudo nesta vida. Alguém sozinho, quieto, pacato, um desses tipos que a gente mal nota, pode ter virtudes imensas e defeitos medonhos, num arranjo singular e inconfundível. Para começar a conversa, é bom lembrar que ninguém é puramente virtuoso, ninguém é puro vício. “Não és bom, nem és mau: és triste e humano”, escreveu Olavo Bilac, que, embora tristemente parnasiano, acertou. Qualquer pessoa, mesmo sem ser parnasiana, é um oxímoro ambulante, ainda que não saiba que o mundo lhe “foi contraditório”, na expressão de Carlos Pena Filho. Pode-se ser “ou isto ou aquilo”, à la Cecília Meireles, pode-se ir para lá ou vir para cá, pode-se perguntar sobre “ser ou não ser”, como Hamlet, pode-se até ser e não ser de uma vez só, sem que ninguém perceba.

E que diferença isso faz? Nenhuma. Rigorosamente, nenhuma.

A hora do nervoso para uma turma do STF, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A turma da força no Supremo Tribunal Federal se acha vítima de uma conspiração

Uma parte do STF encara as próximas eleições com evidente apreensão, embora já no anúncio dos resultados de 2022 tivesse se julgado vitoriosa sobre seu principal adversário político. Condição reiterada após o 8 de Janeiro e o julgamento e condenação de Jair Bolsonaro. Qual, então, a razão para o aparente nervosismo?

Na superfície não há alteração no eixo de polarização Lula-Bolsonaro. Nesses quatro anos, a acentuada mudança negativa para os operadores políticos no STF é a compreensão, por parte de vastos setores da sociedade e suas elites (muito além da franja bolsonarista), de que o Supremo deixou de ser uma instituição de Estado. Capturado por integrantes defendendo seus interesses particulares, lícitos ou não.

Lulinha, ‘Dark Horse’, Banco Master, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Investigações alimentam campanhas, mas só terminam após eleições

Os inquéritos sobre Lulinha, Dark Horse e Banco Master, explorados pelas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro, têm potencial para alimentar a polarização política no País, mas pouca chance de produzir efeitos jurídicos a curto prazo. Segundo autoridades com acesso às investigações, o mais provável é que elas terminem somente após as eleições de outubro.

Enquanto isso, as campanhas serão abastecidas por vazamentos e notícias sobre o envolvimento de políticos nos esquemas. O último material que veio à tona beneficia Flávio: mensagens trocadas entre o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e a lobista Roberta Luchsinger, amiga do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente conhecido como Lulinha.

A solidão de Flávio B. Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Incentivos institucionais e cálculo político explicam a neutralidade da direita pragmática

Coligações de partidos não definem as escolhas do eleitor, mas têm importantes efeitos indiretos

Aberta a temporada eleitoral, a candidatura de Flávio Bolsonaro vive um paradoxo. Ele é o preferido dos que jogam no campo antipetista. Pesquisa após pesquisa o situa perto —às vezes até empatado— com o presidente Lula. Na sondagem de agosto da Quaest, tem 30% das preferências, contra 39% do incumbente que pleiteia a reeleição. Ao mesmo tempo, o filho do ex-presidente amarga notável isolamento das lideranças do vasto campo das direitas.

Flávio Bolsonaro não logrou construir coligação eleitoral e terminou lançado apenas pela sua legenda, o PL (Partido Liberal). Desde 1989, é a primeira vez que um candidato competitivo não se apoia numa coligação. Até seu pai, um inimigo declarado do "sistema", teve a seu lado, além do PSL (Partido Social Liberal), o pequeno PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). O filho tampouco conseguiu atrair um vice com luz própria, capaz de somar algo a uma disputa que se prevê acirrada. E o alagoano Alfredo Gaspar (PL), político de projeção apenas local, chega à campanha sob o peso de ter de se defender de graves denúncias sobre seu comportamento na vida privada.

Os Bolsonaros são diferentes, você sabe, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Para Flávio Bolsonaro, o 'sistema é podre' e o Brasil 'olha com nojo para Brasília'

A família se proclama 'antissistema', mas faz parte dele há quase 40 anos

Flávio Bolsonaro disse em Copacabana, no domingo (16), que o Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes, você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são "antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.

1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. 2 - Flávio Bolsonaro. Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002, 06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.

Elite não compra pão com o próprio suor, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Relatório da Oxfam expõe como se concentra a riqueza no Brasil

O 1% no topo controla sozinho 37,3% de toda riqueza patrimonial declarada no país

Não fui eu que escrevi isso primeiro, foi Machado de Assis, ou melhor, o Brás Cubas. "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto."

Na divina comédia da burguesia à brasileira –rentista e pouco produtiva— que é Memórias Póstumas, Machado expõe as contradições do andar de cima da sociedade brasileira, de ideias liberais e renda escrava. Por isso, a atriz Fernanda Torres recomendou para que se entenda o Brasil a leitura do clássico machadiano combinada com a dos ensaios de Roberto Schwarz sobre Machado.

Trump tenta dar um jeitinho na alta dos juros e disfarçar que estoura déficit e dívida, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ora se discute se EUA adotariam planos parecidos com o de certa esquerda brasileira

Tesouro americano anuncia que vai intervir mais no mercado de dívida do governo

Juros dos Estados Unidos chegaram ao nível mais alto em quase 20 anos nesta terça (18), contaminando mercados do Ocidente. Nesta quarta, os economistas de Donald Trump anunciaram que vão intervir mais no mercado de títulos da dívida do governo —de juros para prazos mais longos.

O valor é pequeno, tais intervenções não são novidade. Importa é que o governo americano agiu em momento de febre, em que essas taxas de juros poderiam ficar descabeladas. Interessante, discute-se nos EUA se o governo pode adotar medidas que diferem pouco de planos de certa esquerda brasileira.

Entre outros problemas, muito maiores, juros americanos influenciam também o que vai ser das nossas taxas de juros, do real e da Bolsa. Uma alta pode até estourar uma suposta bolha de inteligência artificial (IA).

Poesia | A Mulher e a Casa, de João Cabral de Melo Neto, por Maria Bethânia

 

Música | Chico Buarque - Sob Medida

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise no varejo reflete ambiente hostil de juros altos

Por O Globo

Recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz expõe danos da irresponsabilidade fiscal do governo

No último fim de semana, o Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabraz, dois dos nomes mais tradicionais do varejo brasileiro, entraram com pedido de recuperação judicial por não ter como arcar com o pagamento de dívidas. Há 986 varejistas na mesma situação, alta de 20,4% nos últimos 12 meses, de acordo com o monitor mantido pelas consultorias RGF e Bizdoc. Nos mais variados setores, há 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 233 bilhões de dívidas em atraso, pelos números da Serasa Experian — recorde na série histórica iniciada em 2016. O pano de fundo da crise de endividamento é a economia com juros reais entre os maiores do mundo.

Bombas contra a ABI e a imprensa que a linha-dura não calou, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar, contra a liberdade de imprensa, e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura

Há 50 anos, a bomba que explodiu na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não tinha como alvo apenas o icônico Edifício Herbert Moses, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro, simbolo do Modernismo brasileiro. Construído entre 1936 e 1938, e projetado pelos Irmãos Roberto, é uma joia da nossa arquitetura, com funcionalidade e plantas livres, além de uma fachada com quebra-sóis em venezianas de concreto para barrar o sol forte e pilotis sem portaria fechada na entrada.

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar contra a liberdade de imprensa e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura. A explosão atingiu o sétimo andar do prédio da ABI, próximo à presidência da entidade, danificando salas, elevadores e outros pavimentos. Não houve feridos, mas os prejuízos foram estimados em cerca de 1 milhão de cruzeiros. Em panfleto deixado no local, a autodenominada Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria e acusou a associação de estar dominada por comunistas.

O conservadorismo empático da classe C, por Renato Meirelles

O Globo

A tia que é contra o aborto e acolheu a sobrinha; não é uma teoria política nem uma plataforma de campanha: é algo que está diante de nós há muito tempo

Vou chamá-la de dona Neusa. Não é uma pessoa. É a soma de muitas mulheres que conheci em 25 anos tentando aprender com o Brasil da maioria.

Ela tem 54 anos, trabalha como auxiliar de cozinha na Zona Leste de São Paulo e frequenta a mesma Assembleia de Deus há décadas. É contra o aborto. Fala isso sem levantar a voz, como quem está dizendo uma coisa sobre a qual nunca teve muita dúvida.

Há dois anos, uma sobrinha de 19 anos apareceu na casa dela depois de ter feito um aborto. Dona Neusa não perguntou muito. Fez chá, emprestou uma calça de moletom, ficou acordada até tarde. A menina chorou. Talvez de medo, culpa, alívio, cansaço. Talvez de tudo isso junto. Dona Neusa não tentou dar nome ao choro. E não contou a ninguém. Nem à irmã. Nem ao pastor.

Marketing político em transe, por Vera Magalhães

O Globo

Crises em várias campanhas mostram impasse em relação a uso de redes, financiamento e impacto da IA

Depois de alguns ciclos eleitorais em que ocupou as manchetes pela relação com escândalos de corrupção, o marketing político volta a movimentar o noticiário às vésperas do início da propaganda eleitoral na TV e no rádio, mas por outra razão: o intenso entra e sai de profissionais em várias campanhas, inclusive presidenciais.

A última troca se deu com a saída do publicitário Paulo Vasconcelos do comando do marketing de Ronaldo Caiado (PSD), anunciada nesta semana. O mesmo movimento já aconteceu, e duas vezes, na cozinha de Flávio Bolsonaro. E as conversas de bastidores dão conta de intensa disputa, com bateção de cabeça, também no Q.G. da campanha de Lula.

Flávio toca um disco velho, por Elio Gaspari

O Globo

2026 não é 2018

Começou uma campanha eleitoral imprevisível e com cheiro de mofo. Lula foi a São Bernardo para relembrar as greves históricas de 1979, e Flávio Bolsonaro retomou o discurso errático de seu pai.

A imprevisibilidade começa quando, segundo a última pesquisa da Quaest, a percentagem de entrevistados que desaprovam o governo (48%) é superior à dos que aprovam (46%). Na realidade, esses números refletem um empate, e esse equilíbrio se repete na liderança de Lula num eventual segundo turno: 43% x 40%. As entrelinhas dessa pesquisa não permitem saber com precisão para onde vão as preferências dos outros candidatos num eventual segundo turno.

O cheiro de mofo vem da escolha de Lula para iniciar a campanha onde começou sua vida pública, há 47 anos. Cheira a mofo a essência do discurso de Flávio em Copacabana, ecoando as falas do pai.

Deus no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidenciáveis usaram e abusaram do nome dEle ao lançar camapanhas

Deus não vota, mas foi arrastado para o centro da corrida presidencial. No domingo que abriu a disputa, os principais candidatos ao Planalto usaram e abusaram do nome dEle. Buscavam atrair o eleitorado religioso, cada vez mais visado pelas campanhas.

Em comício na Vila Euclides, o presidente invocou Deus nada menos do que 11 vezes. “Sou muito agradecido porque Deus sempre foi muito generoso comigo. Deus fez vocês, e vocês fizeram o Lula ser o que ele é”, disse, falando de si mesmo na terceira pessoa.

Em ato na Praia de Copacabana, Flávio Bolsonaro tentou atribuir sua candidatura a um desígnio divino. “Estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou, porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país”, discursou.

As idades do cronista, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Em meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança

É maravilhado, surpreso e assustado que, pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás, fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.

Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.

Adeus à pechincha na feira, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Movimento de queda nos preços dos alimentos deve perder força a partir deste mês

Aqueda nos preços dos alimentos em magnitude maior do que o mercado estimou nos meses de junho e julho foi um dos fatores que mais contribuíram para puxar para baixo a inflação corrente. Essa surpresa levou os investidores a precificar cortes de juros, endossando as últimas decisões do Copom, a despeito de expectativas inflacionárias de longo prazo ainda desancoradas e de elevadas incertezas nos cenários doméstico e externo.

Um pesadelo chamado Lulinha, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Os desdobramentos dos inquéritos envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, preocupam cada vez mais o comando da campanha do presidente Lula à reeleição. A equipe petista não sabe o que está por vir e, para se desviar da crise, aposta no crescimento das denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente, a partir do dia 28, quando começa a propaganda no rádio e na TV.

Nos bastidores da campanha de Lula há um clima de constrangimento e apreensão. “É dolorido para nós”, disse à coluna um dos principais auxiliares do presidente, sob a condição de anonimato. O discurso oficial é que todos serão investigados, “doa a quem doer”. Mas, como na política a melhor defesa sempre parece ser o ataque, a cobrança do governo e do PT se volta agora para o ministro do STF André Mendonça.

Putin e Trump empurram mundo para a bomba, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ações de dirigentes mudam cálculos de países acerca da conveniência de ter armas nucleares

Proliferação aumenta chances de episódios de estresse como a crise dos mísseis de 1962

Eu sou muito novinho, mas a geração de meus pais viveu dias de pânico em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, quando a perspectiva de enfrentamento nuclear entre EUA e URSS não apenas era real como pôde ser acompanhada de perto por jornais e rádio. Eu e meus coetâneos fomos poupados daqueles momentos de tensão, mas ainda crescemos num mundo sobre o qual pairava a ameaça de holocausto atômico.

PT atrela futuro à saudade do passado, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Aposta no culto à personalidade leva à conclusão de que Lula seja o único ativo disponível aos petistas

Trajetória de luta e superação não oferece as respostas necessárias ao enfrentamento dos desafios do país

Luiz Inácio da Silva mais uma vez, e como sempre, cultuou a si no primeiro ato oficial de uma campanha em moto contínuo desde que a anterior oficialmente terminou, em outubro de 2022. Lula, sem dúvida, é o principal ativo do PT; a insistência na exaltação da figura alimenta a suspeita de que seja o único.

O partido se propõe a comandar o país pela sexta vez em 24 anos e o que lhe ocorre fazer para convencer o eleitorado a aderir ao plano é apresentar um muito bem montado e produzido show de sessão nostalgia.