sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A nova pandemia. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ataques e mentiras que ‘viralizam’ nas redes são o novo vírus a favor do crime e de criminosos

O que tem em comum PT, bolsonarismo, governos, oposição, Daniel Vorcaro e tantos poderosos por aí? O uso despudorado da internet, seja com robôs próprios, seja com muitos que se intitulam “influencers” e contam com a má-fé ou a ingenuidade de quem acredita em fake news e espertalhões e são inocentes úteis para massificar mentiras ou meias-verdades maliciosas.

Isso virou uma praga, que distorce a realidade, confunde a sociedade, desqualifica profissionais, autoridades e instituições e ameaça o princípio moral, ou sonho, de que o bem sempre vence o mal. Os ataques são sofisticados e cruéis, inclusive contra jornalistas.

O Banco Master é um exemplo contundente de corrupção, relações promíscuas entre público e privado e de como tudo isso vai parar na internet, numa guerra de versões. Pagar e receber até R$ 2 milhões para propagar mentiras contra o Banco Central é de uma audácia incrível.

Indefensável, Vorcaro não tinha como recorrer a argumentos e dados e decidiu financiar um ataque digital em massa, com ódio e inverdades, em três etapas: pressionar pela venda para lá de suspeita do Master a um banco público, o BRB, de Brasília, evitar a sua liquidação e, por fim, tentar o cancelamento dessa liquidação.

De Vorcaro, pode-se esperar tudo. E dos “influencers”? Estão livres para mentir e manipular por dinheiro? Na propaganda de produtos, de sabonete a carrões, há regras e um selo obrigatório nas diversas mídias, distinguindo conteúdo “patrocinado” de conteúdo jornalístico. No caso deles, não.

Na esfera política, o uso das redes pelo Master corresponde à campanha contra as urnas eletrônicas em 2022, com a participação, inclusive, de um hacker que já tinha sido condenado e preso, mas chegou a frequentar o Alvorada e a Defesa. Num caso, o líder da campanha foi Vorcaro. No outro, Jair Bolsonaro.

Há, ainda, a campanha do deputado bolsonarista Nicolas Ferreira criando o pânico contra mudanças no Pix, com tanta eficácia que o governo atual voltou atrás. Coisa de profissional, Nicolas foi “apenas” o ator.

Há formas e formas de usar a internet para campanhas de ódio, mentira, desqualificação, manipulação da fé, abuso de crianças e propaganda, ora contra vacinas que salvam vidas, ora a favor de falsos medicamentos que ameaçam a saúde. Tanto por IA, com uso de imagem e voz de celebridades, quanto por médicos em carne e osso, o que é ainda mais repugnante.

Quando posts e campanhas do “mal” viram sucesso e impactam o maior número de pessoas, diz-se que “viralizaram”. Boa definição. Esse vírus ou praga se espalha rapidamente e destrói a verdade em favor de criminosos. 

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