Valor Econômico
Vice-presidente roubou a cena no ato relativo ao 8 de janeiro no Planalto
Conhecido pela discrição, o vice-presidente
Geraldo Alckmin (PSB), quem diria, roubou a cena no ato relativo ao 8 de
janeiro nessa quinta-feira no Palácio do Planalto. No discurso de 6 minutos, o
vice foi ovacionado 5 vezes, recebendo, praticamente, um aplauso por minuto.
Não bastasse a saravaida de palmas, sua fala ainda puxou o coro “sem anistia”,
ao ressaltar que os condenados pela tentativa de golpe de Estado “devem sofrer
o rigor da Justiça e o peso da História”.
Foi uma proeza - sobretudo, diante de uma claque lulista -, para um político que foi quatro vezes governador de São Paulo, e mesmo assim, carregava a pecha de “picolé de chuchu”. Alcunha que, no passado, impuseram até mesmo a Getúlio Vargas, o líder mais longevo da República, famoso pela arte de “tirar as meias sem descalçar os sapatos”.
Os primeiros aplausos vieram na abertura de
sua fala, quando ele se voltou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para
afirmar: “foi a sua liderança que salvou a democracia no Brasil”. Pode-se
argumentar que essa reação partiu de uma audiência repleta de petistas, já que
políticos do Centrão, que integram a base aliada, foram convidados, mas não
compareceram.
A salva de palmas seguinte, entretanto,
ocorreu após a menção ao seu mentor político, o ex-governador de São Paulo e
fundador do PSDB Mário Covas, morto em 2001, a quem Alckmin sucedeu no Palácio
dos Bandeirantes. Segundo ele, Covas - político respeitado até pelos
adversários - dizia que “mulheres e homens públicos podem ser um pouco mais à
direita, um pouco mais à esquerda, mais altos ou mais baixos, mais fortes ou
mais fracos, mas o que os diferencia é quem tem apreço pela democracia, e quem
não tem”.
A avaliação de pessoas próximas do vice é de
que ficou para trás a imagem do “picolé de chuchu”. Após duas derrotas em
disputas presidenciais, ele acabou alcançando projeção nacional como vice de
Lula, passou longe do “vice decorativo”. Como ministro do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, é um dos auxiliares que mais entrega resultados.
Na terça-feira, o ministério mostrou que as exportações brasileiras registraram
recorde histórico, mesmo sob o tarifaço do presidente Donald Trump. As vendas
ao exterior somaram US$ 348,7 bilhões, superando em US$ 9 bilhões o recorde
anterior de 2023.
Mais de uma vez, Lula comparou sua relação
com Alckmin com o vínculo de amizade e confiança que tinha com o vice anterior,
José Alencar, morto em 2011. Em breve, contudo, essa relação será colocada à prova.
Em conversa recente com o núcleo mais próximo
de auxiliares, o presidente queixou-se de que, até agora, não tem palanques
robustos em São Paulo e Minas Gerais, os maiores colégios eleitorais, sempre
decisivos na eleição.
Pré-candidato à reeleição, Lula reclamou
nessa conversa que Alckmin e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT) -
aliados com mais votos em Sâo Paulo - não querem concorrer ao governo, nem
mesmo ao Senado. Em 2022, Haddad foi ao segundo turno contra Tarcísio de
Freitas (Republicanos). Nas pesquisas, Alckmin tem o melhor desempenho contra
Tarcísio.
A nove meses do pleito, Alckmin e a cúpula do
PSB já disseram a Lula que querem a reedição da chapa de 2022. Haddad, por sua
vez, avisou que não quer disputar nenhum cargo, que deseja coordenar o programa
de governo.
Um interlocutor de Alckmin pondera que é
preciso dar tempo ao tempo, e não arrisca afirmar que o vice diria não a Lula
se o presidente pedir, expressamente, que ele concorra ao Palácio dos
Bandeirantes. Poucos aliados disseram “não” a Lula. Um deles foi Jaques Wagner
(PT-BA), quando o petista pediu que o amigo o substituísse na chapa
presidencial em 2018, papel que coube a Haddad. A dúvida, agora, é se Alckmin e
Haddad, um ou outro, sustentarão o “não” a Lula.
Em janeiro de 1930, foi o Correio Paulistano,
jornal oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), que chamou Getúlio de
“chuchu”: “anódino, insípido e inodoro”, publicou o veículo, no dia seguinte ao
primeiro comício do líder gaúcho no Rio de Janeiro. No evento, o caudilho não
se destacou pela oratória eloquente nem pelo gestual expressivo. Mesmo assim,
veio a Revolução de 30, ele assumiu o poder e governou por 15 anos, como
ditador, e retornou anos depois, pelas urnas.
Em 2022, quando se confirmou a chapa oficial
Lula e Alckmin, a campanha lançou uma propaganda mostrando uma panela no fogo,
na qual se preparava uma receita de lulas com chuchu, finalizando com o slogan:
“Essa mistura tem sabor de esperança”. O “picolé de chuchu”, agora, é a
esperança de Lula em São Paulo, com sabor de vitória.
Craque. Pelo terceiro
ano consecutivo, o ministro da Defesa, José Múcio, garantiu a presença dos três
comandantes das Forças no ato do governo relativo ao 8 de janeiro. A proeza
ressoa ainda maior neste ano porque, pela primeira vez, o Supremo Tribunal
Federal (STF) condenou generais de quatro estrelas pela tentativa de golpe de
Estado. A sanção recaiu sobre os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira
e Walter Braga Netto, que já estão cumprindo as penas. O STF absolveu, entretanto,
o general Estevam Theophilo, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres
(Coter).

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