Campanha tenta sabotar autonomia do Banco Central
Por O Globo
Ataques nas redes sociais e processo indevido
no TCU miram credibilidade da autoridade monetária
A autonomia do Banco Central (BC) foi uma conquista obtida com dificuldade. Sempre sofreu resistência dos interessados em manter a autoridade monetária vulnerável a interferências. A lei garante que o BC é uma autarquia de natureza técnica, cujas decisões devem ser preservadas das pressões políticas. Isso vale tanto para a taxa de juros quanto para medidas destinadas a regular e preservar o sistema financeiro. É, por isso, lamentável a campanha deflagrada contra o BC, tendo como alvo a liquidação do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Não há acaso nas publicações nas redes
sociais que procuram contestar as decisões da autoridade monetária e difundir
versões favoráveis a Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias. Dois
influenciadores admitiram ter recebido propostas milionárias para fomentar uma
versão segundo a qual o BC foi precipitado ao decretar a liquidação, informou a
colunista Malu Gaspar, do GLOBO. A intenção era pôr em xeque a autoridade
monetária. Um deles enviou documentos e mensagens comprovando a oferta de um
certo “Projeto DV”. Nenhum dos dois topou, mas a revelação mostra como funciona
a indústria de versões do meio digital.
Houve um pico de 4.560 ataques on-line ao BC
no dia 27 de dezembro, durante ofensiva contra a liquidação do Master, revelou
levantamento da Federação Brasileira de Bancos divulgado pelo jornal O Estado
de S. Paulo. Os disparos tinham indícios de impulsionamento por robôs. A
tentativa de confundir a opinião pública expõe o vale-tudo que impera nas redes
sociais e demonstra a relevância do jornalismo profissional, fundado em
princípios editoriais sólidos e compromisso com o interesse público, como fonte
de informação confiável para o cidadão. Quem se informa apenas pelas redes se
torna refém de interesses escusos.
É ainda mais lamentável que o questionamento
à atuação do BC vá além do meio digital. Causa estranheza e preocupação o
processo sobre o Master no Tribunal de Contas da União (TCU), sob relatoria do
ministro Jhonatan de Jesus. Depois de intimar a autoridade monetária a prestar
informações, Jhonatan determinou uma inspeção no BC para analisar documentos
que tratam da liquidação. O estranhamento aumentou porque ele admitiu a
possibilidade de reverter parte dos efeitos da liquidação para manter os ativos
do banco liquidado — embora aparentemente depois tenha voltado atrás. Jhonatan
insinuou haver dúvida a respeito de medidas tomadas por unanimidade pelo BC.
Ora, desde o Plano Real instituições financeiras têm enfrentado situações
similares, e o BC tem cumprido seu papel regulador com competência, sem
interferência nem alarde. Acórdãos do próprio TCU e do Supremo Tribunal Federal
deixam claro que não cabe à Corte de contas avaliar o mérito de decisões da
autoridade monetária.
Tais questionamentos, dizem entidades do
setor, criam um precedente que fragiliza a supervisão bancária, compromete a
previsibilidade regulatória e afeta a confiança na estabilidade do sistema
financeiro. Não é à toa que quase 1,5 mil instituições financeiras manifestaram
apoio ao BC. A legislação estabelece que ele tem competência exclusiva no caso
de liquidações bancárias. Em meio à campanha difamatória, estão em jogo a autonomia
da autoridade monetária e a saúde do sistema financeiro — conquistas de que o
Brasil não pode abrir mão.
Vias estreitas e topografia íngreme
dificultam acesso do Estado às favelas
Por O Globo
Um em cada cinco moradores habita ruas que só
podem ser alcançadas a pé, de bicicleta ou de moto
Um em cada cinco moradores de favelas no
Brasil (19%) vive em localidades com vias tão estreitas que só se pode
acessá-las a pé, de bicicleta ou de moto, segundo levantamento do IBGE.
Ambulâncias, viaturas da polícia e do Corpo de Bombeiros, carros de
concessionárias de serviços públicos, caminhões de lixo e ônibus não conseguem
ir aonde são necessários, refletindo uma das muitas faces da desigualdade. Fora
das favelas, apenas 1,4% convive com situação semelhante. A topografia torna a
população naturalmente vulnerável ao domínio de organizações criminosas.
A quantidade de vias estreitas varia de uma
favela a outra, mas há casos em que elas abrangem quase toda a comunidade, como
na Cidade Olímpica, em São Luís (MA), onde 97,8% dos moradores enfrentam
dificuldade. Na favela Sol Nascente, no Distrito Federal, são 95%. No Morro da
Mangueira, Zona Norte do Rio, não mais que 10% dos moradores são servidos por
vias com capacidade para ônibus e caminhões. Na Rocinha, maior favela do país,
82% dos moradores residem em áreas acessíveis somente a pé, de bicicleta ou
moto.
São enormes os transtornos. Na Rocinha,
jovens implantaram um “frete humano” para transportar mudanças,
eletrodomésticos e material de construção pelos becos e escadarias. Cidadãos
com dificuldades de locomoção precisam contar com a ajuda e a boa vontade de
vizinhos. O almejado “plano inclinado” da Rocinha, que poderia melhorar a
mobilidade na favela, foi prometido pelo PAC do governo Lula 2, reciclado pelo
PAC do governo Dilma 1 e agora é objeto de um novo PAC. De concreto, existem
apenas alguns pilares da obra inacabada.
Para além dos problemas de mobilidade,
comunidades erguidas de forma desordenada desafiam as estratégias de segurança
pública. São locais quase intransponíveis para a polícia. Quadrilhas de
traficantes e milicianos se aproveitam disso para subjugar moradores e instalar
seu Estado paralelo. O caos urbanístico contribui também para deteriorar as
condições sanitárias. Em 2023, a incidência de tuberculose na Rocinha era dez
vezes a média nacional. As discrepâncias em relação às áreas urbanas formais se
revelam também noutros aspectos. Segundo o IBGE, quase dois terços (64%) dos
moradores de favelas e comunidades residem em locais sem arborização. Calçadas
também são elemento raro na paisagem.
Os dados do Censo evidenciam a necessidade da presença do Estado. Como parte das favelas é dominada por organizações criminosas, deve haver várias frentes de ação. Primeiro, é preciso retomar os territórios e assegurar, com policiamento permanente, que ali vigorem as leis do Estado, e não as do crime organizado. Paralelamente, é preciso reurbanizar, abrir ruas, melhorar a mobilidade, levar serviços públicos e cidadania à população, como ocorreu em diversas experiências internacionais bem-sucedidas. Só assim será possível integrar essas comunidades ao espaço urbano, desfazendo as linhas da cidade partida.
Único lado certo no caso Master é o da
apuração às claras
Por Folha de S. Paulo
Respostas de STF e TCU ao escândalo unem
decisões mal explicadas e intimidações aparentes ao BC
Toffoli viajou com advogado ligado ao caso, e
Moraes não viu anormalidade no contrato milionário do banco com escritório de
sua mulher
Em 18 de novembro, quando o Banco Central liquidou
o Master horas depois de, na noite do dia anterior, a Polícia
Federal haver prendido o controlador da instituição, Daniel
Vorcaro, os elementos de um escândalo financeiro e político já
estavam escancarados.
Fatos incontestáveis: o banco de Vorcaro
recebera em março uma injeção de recursos do BRB, controlado pelo governo do
Distrito Federal, que comprou suas ações sem direito a voto e manteve no posto
o controlador. Uma instituição saudável não precisaria de tal socorro —e não
foi no setor privado que se viabilizou o negócio da China, posteriormente
desautorizado pelo BC.
Conhecem-se de longa data as conexões de
Vorcaro com políticos e autoridades. Poucos dias antes do veto à transação,
líderes da Câmara tentaram aprovar projeto que permitiria ao Congresso demitir
diretores do BC. Pouco depois da liquidação, descobriu-se que fundos
previdenciários estaduais, como os de Rio e Amapá, e municipais fizeram
generosas aplicações no Master.
Para além do que é indesmentível e já
gravíssimo, a PF investiga a venda de carteiras de crédito falsas de R$ 12
bilhões ao BRB, e o BC apontou indícios de fraude em negócios com fundos
administrados por uma gestora suspeita de envolvimento com a facção criminosa PCC.
Diante de tudo isso, a resposta das cortes
brasilienses ao escândalo —que pode custar até R$ 50 bilhões em ressarcimentos
a clientes lesados— está longe de ser tranquilizadora. A começar pelo Supremo
Tribunal, onde o ministro Dias Toffoli decidiu
assumir o caso, que corria em instância inferior, e decretar sigilo sobre ele.
O mesmo Toffoli, que não se sentiu
constrangido por ter viajado em um jato de empresário na companhia
de um advogado ligado ao Master, determinou uma inusitada acareação
entre Vorcaro, o ex-presidente do BRB e um diretor do BC, recuando depois da
estranheza geral.
Tampouco seu colega Alexandre de
Moraes viu alguma anormalidade no contrato de R$ 129 milhões
firmado entre o Master e o escritório de advocacia tocado por sua esposa.
Moraes diz que seus contatos recentes com a cúpula do BC trataram apenas das
sanções a ele impostas e retiradas por Donald Trump.
O BC é ainda mais claramente o alvo do
ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, ex-deputado levado
ao posto pelo Congresso, que determinou
inspeção no órgão —ademais na mira de uma ofensiva de
influenciadores contratados de modo misterioso nas redes sociais— e deixou
implícita a possibilidade de reversão da liquidação.
O caso, a esta altura, tem o potencial de
minar a credibilidade de instituições do Estado brasileiro. É imperativo que
deixe de ser conduzido à base de decisões mal explicadas e intimidações
aparentes. Não se trata de defender este ou aquele; o único lado correto é o da
apuração rigorosa e transparente.
Atraso do ensino é maior onde escola é longe
Por Folha de S. Paulo
Taxa elevada de distorção série-idade em
zonas rurais e ribeirinhas no Norte exige melhorias em transporte
Alunos precisam percorrer longas distâncias
para chegar às escolas; alocação de recursos deve levar em conta discrepâncias
regionais
A distorção série-idade, quando o aluno está
dois ou mais anos abaixo da série esperada para sua idade, é um dos gargalos
da educação brasileira relacionado à
evasão escolar.
As causas do fenômeno incluem entrada tardia
na escola, alfabetização insuficiente no período correto, aprendizagem precária
que gera repetência, políticas de progressão continuada (quando o aluno passa
de ano sem ter sido aprovado) mal implementadas, desigualdades sociais e no
acesso ao ensino.
Este último quesito fica evidente no
levantamento de dados do Inep,
instituto de pesquisas vinculado ao Ministério da Educação (MEC), realizado
pelo portal QEdu. Reforça-se a já conhecida necessidade de alocação racional de
recursos, que leve em conta discrepâncias regionais e características locais,
para beneficiar os estratos mais vulneráveis.
Em 2024, segundo o estudo, a taxa de alunos
com distorção série-idade no ensino fundamental da rede pública em centros
urbanos do país foi de 11,6%, e no ensino médio, de 19%. No entanto, quando
apenas as escolas de zonas rurais e ribeirinhas são avaliadas, os números vão a
16,5% e 29,8%, respectivamente.
Considerando esse recorte afastado das
cidades, há grande diferença em relação ao Norte. Lá, as taxas saltam para
26,4% e 43,2%, enquanto nas demais regiões ficam abaixo da média nacional. O
Nordeste, que vem em seguida, tem 14,4% e 28,7%; já o Sudeste, com 10,2% e
16,3%, é a região mais bem colocada.
Pará (33,2% e
42,2%) e Amazonas (21,5% e 50,6%) apresentam os piores
indicadores do país. A geografia local é o desafio. Nesses vastos estados, os
alunos precisam percorrer longas distâncias, por estradas precárias ou rios,
para chegar às escolas.
Os dados indicam deficiências no transporte
escolar, como frequência intermitente, nessas localidades. Ademais, viagens longas
e cansaço podem afetar o processo de aprendizagem. Tempo e energia que jovens
de estratos pobres se veem obrigados a usar para contribuir com a renda
familiar ou até sobreviver.
Especialistas apontam ainda que a nucleação
(fechar escolas pequenas e concentrar alunos em unidades maiores e distantes)
pode ter aumentado dificuldades.
Segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, em 2025 o governo federal destinou R$ 31,2 milhões para transporte escolar aquaviário a cerca de 400 entes federativos. Se o montante é insuficiente ou está sendo mal gerido, é um problema que precisa ser resolvido pelo poder público nas três esferas.
Farra orçamentária
Por O Estado de S. Paulo
LDO sancionada por Lula projeta R$ 61 bi em
emendas parlamentares em ano eleitoral, ampliando o risco de uso político do
Orçamento e aprofundando uma distorção institucional já conhecida
Sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) projeta R$ 61 bilhões em
emendas parlamentares, que deputados e senadores poderão destinar, em tese, a
projetos e obras de seu interesse em 2026. Trata-se de algo ainda mais grave do
que a mera consumação do crescimento anual dessa anomalia institucional que se
tornou a captura do Orçamento da União por parte do Legislativo.
Em 2025, foram pagos R$ 31,5 bilhões, valor
ligeiramente superior ao ano anterior, mas outros R$ 14,3 bilhões foram
incluídos na rubrica “restos a pagar”, o que significa execução futura.
Entretanto, os números previstos para 2026 se tornam ainda mais inquietantes
pela obviedade sempre perigosa de coincidir com o ano eleitoral, quando a
tentação de converter recursos públicos em ativo político nas urnas se torna
quase irresistível. A combinação de dinheiro abundante, fiscalização frouxa e
calendário eleitoral é conhecida – e danosa.
Não se trata de alarmismo. A experiência
recente mostra que, em anos eleitorais, a execução de emendas costuma ser
acelerada e concentrada no primeiro semestre, antes que as vedações legais
entrem em vigor. Convênios se multiplicam às pressas, obras são anunciadas sem
planejamento adequado e repasses se direcionam a redutos estratégicos. Em vez
de prioridades nacionais, prevalece o cálculo eleitoral.
Em anos de eleição, placas são inauguradas
antes mesmo de as obras começarem, máquinas viram troféus de campanha e
recursos públicos passam a cumprir função simbólica: sinalizar presença
política, mesmo que não resolvam problemas reais. O ritual se repete eleição
após eleição, sempre embalado no discurso da “entrega direta à população”, como
se a pressa eleitoral fosse sinônimo de eficiência administrativa.
O problema se agrava porque o modelo das
emendas parlamentares oferece terreno fértil para esse desvio. A fragmentação
dos recursos e o controle precário permitem que deputados e senadores tratem
verbas federais como extensão de seus mandatos, irrigando bases eleitorais, muitas
vezes sem projeto executivo consistente, sem coordenação entre entes
federativos e sem avaliação de impacto.
O contexto institucional ajuda a explicar a
recorrência desse fenômeno. O Congresso acumulou poderes inéditos sobre o
Orçamento da União, especialmente por meio das emendas impositivas e de
mecanismos que o Supremo Tribunal Federal (STF) já classificou como
inconstitucionais, como o orçamento secreto. Embora a rubrica RP-9 tenha sido
formalmente extinta, sua lógica persiste sob novas formas. Como já advertiu o
STF, a mera troca de nomes não constitucionaliza práticas que violam princípios
básicos da administração pública.
O governo Lula, que prometera acabar com a
perversão da República, optou por manter esse arranjo disfuncional. Ao
sancionar uma LDO que preserva e normaliza o protagonismo parlamentar sobre
fatias crescentes do gasto discricionário, o Executivo reforça um sistema no
qual a governabilidade se compra com cheques públicos – e sem qualquer
escrutínio sólido. A fragilidade da base governista e a fragmentação partidária
transformaram as emendas em moeda corrente da política.
Resultado: parlamentares que não respondem
pela execução de políticas públicas passaram a controlar bilhões de reais,
muitas vezes sem critérios técnicos claros, com transparência limitada e
avaliação precária de resultados. Em ano eleitoral, esse poder se converte em
vantagem competitiva desigual, corroendo o processo democrático e confundindo
ação de Estado com campanha antecipada. Obras se multiplicam sem integração a
políticas estruturantes e prefeitos politicamente alinhados recebem mais do que
municípios com necessidades objetivamente maiores.
Nada disso é inevitável. Mas ignorar o
problema, especialmente em ano eleitoral, é fechar os olhos para um risco
conhecido. O STF já sinalizou disposição para enfrentar o tema das emendas
impositivas em 2026. Até lá, caberia ao Executivo e ao Congresso impor freios,
reforçar controles e conter excessos. O que se vê, porém, é o oposto: a
institucionalização da farra orçamentária.
O fantasma da crise hídrica ronda SP
Por O Estado de S. Paulo
Mesmo após a realização de obras para
integração de sistemas e redução de perdas, reservatórios paulistas voltam a
níveis preocupantes. Segurança hídrica exige gestão rigorosa e consumo
consciente
Há dez anos, uma grave crise hídrica na
Grande São Paulo levou à redução da pressão de água nas torneiras de milhões de
residências, ao desabastecimento da população e ao uso do chamado volume morto
das represas do Sistema Cantareira, com a retirada de água abaixo do nível de
captação regular. Desde então, diversas obras foram realizadas pelo governo do
Estado para integrar sistemas, como a transferência de água do Rio Paraíba do
Sul para o Sistema Cantareira, e para reduzir perdas – que caíram de cerca de 36%
no início dos anos 2010 para 29,4% atualmente, bem abaixo da média nacional, de
37,8%, segundo o Instituto Trata Brasil. Não obstante, o resultado esperado –
ou seja, máxima segurança hídrica no Estado – ainda não foi alcançado.
Apesar de todo o sofrimento imposto aos
paulistas em 2014 e 2015, há trabalho a ser feito, pelo governo e pela
sociedade, para afastar o risco de uma nova crise hídrica. Nunca se captou
tanta água das represas paulistas como agora. Dados da Companhia de Saneamento
Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) mostram que a captação média em 2025
chegou a 71 mil litros por segundo, superando o recorde anterior, de 70 mil
litros por segundo, registrado em 2013 – justamente às vésperas da crise que,
dois anos depois, derrubaria esse volume para apenas 52 mil litros por segundo.
A marca recente até poderia ser motivo de
comemoração, não fosse a situação sensível dos mananciais que atendem a 22
milhões de pessoas no Estado. Hoje, os sete sistemas da Grande São Paulo –
Cantareira, Alto Tietê, Cotia, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande e São
Lourenço – estão em seu nível mais baixo de armazenamento de água desde aquela
crise hídrica. O ano começa com os mananciais paulistas abastecidos com cerca
de 25% de sua capacidade, aproximadamente, o que prenuncia tempos difíceis.
Ao menos desde meados do ano passado, já se
tinha notícia do risco de esvaziamento acelerado das represas que atendem à
região metropolitana. E os números atestam o porquê da preocupação: responsável
por abastecer 46% da população da Grande São Paulo, o Sistema Cantareira está
perto de atingir o nível crítico de armazenamento – ou seja, quando seu volume
de água fica abaixo de 20% de sua capacidade.
Essa ameaça chega a ser vista do espaço, como
mostrou o Estadão.
Imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram
a diferença entre a quantidade de água nas bacias dos Rios Tietê, Paraná,
Grande e Paranapanema e nos reservatórios que abastecem a região metropolitana.
Enquanto aqueles rios e suas represas exibem fortes manchas pretas, o que
indica grande volume de água armazenado, as represas e os rios do Sistema
Cantareira aparecem com manchas esbranquiçadas, o que confirma o baixo
armazenamento.
Para piorar, nada garante que os
reservatórios serão abastecidos com a mesma velocidade com que se esvaziaram. O
Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)
aponta que, mesmo que o volume de chuvas fique dentro da média histórica nos
próximos meses, o Sistema Cantareira vai terminar o verão de 2026, em março, em
estado de alerta.
A Sabesp produziu informes institucionais que
foram publicados em grandes veículos de comunicação para alertar a população
para o problema e orientar o uso consciente da água. Mas, ao que tudo indica, a
ação parece não ter sido suficiente, haja vista que, segundo a própria empresa,
o aumento da captação foi causado pelo crescimento do consumo da população,
pelo aumento do número de conexões após a privatização e pela baixa quantidade
de chuvas no ano.
São Paulo ainda não está na iminência de
sofrer um colapso hídrico como há dez anos. Mas, para evitá-lo, não resta
alternativa que não o uso prudente da água. Todo o esforço nesse sentido – da
Sabesp, do governo e da população paulista – será bem-vindo para recompor o
volume seguro das represas. Sabe-se que muito foi feito nos últimos anos para
que o Estado não volte a sofrer com o desabastecimento, mas os números atuais
mostram que tais avanços são insuficientes se não seguirem acompanhados de
gestão rigorosa, planejamento de longo prazo e mudança efetiva de comportamento.
Novo ano, velhas propostas
Por O Estado de S. Paulo
Governo Lula não desiste e planeja retomar
discussões sobre a taxação de títulos isentos de impostos
O governo pretende retomar as discussões para
acabar com a isenção de títulos como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA)
e Imobiliário (LCI) e as debêntures incentivadas de infraestrutura, entre
outros. A iniciativa fez parte de uma medida provisória (MP) editada pelo
Executivo em junho e rejeitada pela Câmara em outubro.
Foi uma derrota e tanto para a equipe
econômica, que cedeu até os anéis na tentativa de aprová-la e nem assim
conseguiu debelar a articulação contrária à proposta, liderada pelo governador
de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Mais um ano se inicia, e com ele voltam as
propostas que ficaram para trás.
A estratégia é compreensível. Afinal, dois
meses depois de deixar a medida provisória caducar, o Congresso deu aval a um
projeto de lei com conteúdo quase idêntico ao da MP. Aprovado em dezembro e já
sancionado pela Presidência da República, o texto do projeto de lei
complementar resgatou o aumento da tributação das bets e das fintechs e a
taxação sobre os Juros sobre Capital Próprio (JCP), que também constavam da MP,
e só deixou de fora os títulos isentos.
Nem o Legislativo mudou de ideia sobre o
mérito das propostas em tão pouco tempo, nem a articulação do governo no
Congresso tampouco melhorou de uma hora para outra. A questão é que, sem essas
medidas arrecadatórias, não haveria espaço no Orçamento de 2026 para elevar as
emendas parlamentares ao valor recorde de R$ 61 bilhões. Assim, fechou-se um
acordo que permitiu a aprovação do projeto em menos de 24 horas na Câmara e no
Senado, à revelia do discurso dos parlamentares contrário ao aumento de
impostos.
Partindo dessa mesma lógica, sob o ponto de
vista do governo, não há por que não tentar rever, novamente, o benefício dado
aos títulos isentos. Se mexer no Imposto de Renda depende do apoio do
Congresso, o que parece improvável em um ano eleitoral, aumentar o IOF sobre
esses papéis pode ser feito por decreto, como o Supremo Tribunal Federal (STF)
reconheceu no ano passado.
O governo argumenta que a isenção desses
títulos está distorcendo o mercado, a ponto de obrigar o Tesouro Nacional a
aumentar a remuneração dos títulos da dívida pública para compensar essa
vantagem – o que parece ser verdade. Mas é inegável que a medida também
aumentaria a arrecadação e ajudaria o governo a cumprir a meta fiscal neste
ano, o que é muito conveniente para um governo com ojeriza a cortes de
despesas.
Sob o ponto de vista eleitoral, é importante
para Lula bater o bumbo sobre sua pretensa responsabilidade fiscal, ainda que
os números digam o oposto. Dados do Banco Central (BC) mostram que a dívida
bruta do governo geral (DGBB) subiu para 79% do Produto Interno Bruto (PIB) em
novembro e atingiu o maior nível desde outubro de 2021, quando estava em 79,5%.
Aumentar as receitas, excluir despesas das regras fiscais e manter inalterada a dinâmica do gasto público já se mostrou uma estratégia insuficiente para reequilibrar as contas públicas. Mas esse é só mais um problema, entre muitos outros, que o governo pretende empurrar para 2027.
Caso Venezuela expõe motivação mercantilista
de Trump
Por Valor Econômico
Está claro que o ataque à Venezuela não visou
a uma troca de regime nem ao restabelecimento da democracia no país
sul-americano
À medida que passam os dias, vão ficando mais
evidentes as motivações da operação militar americana que capturou o
ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas, na madrugada de sábado.
E é provável que muitos que louvaram a retirada do ditador venezuelano acabem
se decepcionando com o propósito mercantilista e “America First” da iniciativa.
Em primeiro lugar, está claro que o ataque à
Venezuela não visou a uma troca de regime nem ao restabelecimento da
democracia. Ou, pelo menos, não imediatamente. Os EUA tiveram uma janela de
oportunidade, com o pânico inicial que se instalou em Caracas, de tentar
derrubar o regime chavista. Não o fizeram. Refutaram entregar o poder à
oposição venezuelana, cuja principal líder, María Corina Machado, foi
descartada por Trump — talvez por ter sido laureada pelo Nobel da Paz tão
desejado pelo americano. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, foi empossada, com
o beneplácito americano e o apoio da cúpula chavista. Ontem, o secretário de
Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou um plano para a Venezuela em três fases —
estabilização do país, recuperação econômica e transição de poder —, mas sem
nenhum detalhe.
Também não se falou mais no combate ao
tráfico de drogas para os EUA, que provavelmente foi apenas o pretexto para a
expressiva mobilização militar americana no Caribe, e a Casa Branca até recuou
na acusação a Maduro de liderar um cartel de drogas. Então, quais foram as
reais motivações por trás de uma operação tão audaz quanto arriscada? Há um
conjunto de objetivos que possivelmente pesaram mais na decisão americana de,
pela primeira vez, atacar um país da América do Sul.
Trump destacou desde o início o seu interesse
pelo petróleo, a commodity que move a economia mundial. “Há muita energia
naquele país”, disse logo após a operação militar. “Precisamos dela para nós.”
Os EUA consomem mais de 20 milhões de b/d de petróleo, e produzem cerca de 13,5
milhões. A diferença precisa ser importada, e Washington busca garantir esse
fornecimento no próprio continente, sem depender de outras regiões. Com a
redução da produção no México, a Venezuela ganha importância nessa equação.
Além disso, apesar dos apelos do presidente (“drill, baby, drill”), a produção
americana subiu pouco em 2025 e pode até cair neste ano, já que a queda da
cotação da commodity nos últimos seis meses desestimula a produção do óleo de
xisto. Garantir petróleo barato da Venezuela ajudaria ainda a conter o repique
de inflação nos EUA, um tema crucial num ano eleitoral. O foco no petróleo
ajuda a explicar a acomodação com Delcy, que é bem conhecida pelas petroleiras
americanas.
Não está claro, porém, se as empresas
americanas vão se interessar em investir maciçamente na Venezuela, onde o
ambiente de negócios continua ruim, e o risco, elevado. Recuperar o sucateado
setor de petróleo venezuelano levará tempo e custará dezenas de bilhões de
dólares. Na segunda-feira, Trump sugeriu que poderia reembolsar as companhias
petrolíferas pelos investimentos feitos no país que ele alega — sem qualquer
fundamento na realidade — controlar, ressarcindo-as por seus gastos lá. Ou
seja, em questão de dias, o discurso passou de enormes oportunidades de lucro
para subsidiar os investimentos da indústria petrolífera na Venezuela às custas
dos contribuintes americanos.
O acesso ao petróleo venezuelano renderá
ainda um grande ganho financeiro a um proeminente doador de campanha de Trump,
o bilionário Paul Singer. Em novembro, Singer comprou a Citgo, antiga
subsidiária americana da PdVSA, a estatal petrolífera venezuelana. A Citgo
possui três refinarias na Costa do Golfo, construídas para processar o óleo
venezuelano, e que sofreram com o embargo americano. Agora, com esse óleo
rumando novamente para os EUA, Singer terá um lucro significativo. Sua compra
da Citgo foi incrivelmente oportuna.
O fator político-eleitoral também parece ter
influenciado na decisão de atacar. Trump é um presidente impopular. Segundo a
média das pesquisas compilada pelo site Silver Bulletin, apenas 42% dos
americanos o aprovam, contra 54% que o desaprovam. A operação militar era
arriscada, mas o sucesso pode ajudar a alavancar a imagem do governo e reduzir
a chance de uma derrota nas eleições de novembro para o Congresso. Segundo a
mídia americana, o presidente teme sofrer um terceiro processo de impeachment
caso a oposição democrata consiga a maioria na Câmara em novembro.
A operação militar desviou a atenção pública
nos EUA de dois temas que vêm abatendo a imagem do presidente: o caso Epstein e
dados desfavoráveis na economia, principalmente o aumento do desemprego e a
persistente pressão inflacionária. Esse efeito, porém, tende a ser passageiro.
Outra motivação é geopolítica. Ao intervir na Venezuela, os EUA sinalizam que pretendem, de fato, fazer do continente uma prioridade de política externa, como consta da nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada em dezembro. Trata-se de uma retomada da Doutrina Monroe, da América para os americanos. Isso manda uma mensagem inequívoca a Pequim e Moscou de que a presença chinesa e russa na região será menos tolerada. As bombas americanas em Caracas elevaram o risco para as empresas chineses na América Latina, e isso ameaça condicionar decisões de investimentos, o que pode até afetar o Brasil.
Segurança no trânsito precisa ser compromisso
coletivo
Por Correio Braziliense
Balanços recentes de órgãos voltados à
segurança do tráfego indicam que o que tem acontecido nas estradas brasileiras
está no campo do descompromisso e até mesmo da criminalidade.
Espera-se um aumento de sinistros de trânsito
durante feriados prolongados. Até por uma razão matemática: mais veículos nas
ruas implica em risco maior de adversidades. Mas balanços recentes de órgãos
voltados à segurança do tráfego indicam que o que tem acontecido nas estradas
brasileiras está no campo do descompromisso e até mesmo da criminalidade.
Levantamento divulgado, nesta segunda-feira, pela Polícia Rodoviária Federal
(PRF) sobre o período do réveillon mostra um aumento significativo de mortes
nas rodovias federais do país em relação a 2024 — sobretudo em razão de batidas
frontais de veículos, ocorrência geralmente ligada a imprudências ao volante.
A corporação contabilizou 109 mortes em
acidentes de trânsito entre 30 de dezembro de 2025 e 4 de janeiro último —
número 38% maior que o da Operação Ano Novo de 2024-2025, com 79 óbitos. Não
houve mudanças significativas na quantidade de feridos e acidentes —
respectivamente, 1.315 e 1.152 na contagem mais recente e 1.339 e 1.063 na
anterior —, corroborando a hipótese de que a imprudência imperou nas rodovias
do país nos últimos dias.
As três principais multas lavradas pelos
agentes rodoviários também permitem tal interpretação. São elas: excesso de
velocidade (23.079), não uso de cinto de segurança e equipamentos de proteção
de crianças (3.470) e ultrapassagem proibida (3.438). Minas Gerais, Paraná e
Rio Grande do Sul respondem por boa parte das multas por excesso de velocidade.
Mas cabe lembrar que essa também é prática corriqueira no Distrito Federal.
Reportagem publicada nesta segunda-feira pelo Correio mostra que, ao longo do
ano passado, o Detran/DF aplicou 1.824.106 multas por esse motivo — média de
quase 5 mil por dia.
Não se pode perder de vista que esses
flagrantes dependem de aparato técnico, o que faz com que o registro das multas
represente um recorte subestimado do que se passa nas rodovias brasilienses e
do resto do país. Especialistas discutem, inclusive, medidas para conter uma
espécie de normalização de recebimento de multas em razão do excesso de
velocidade. Mesmo fenômeno tem ocorrido em relação à ingestão de álcool antes
de se assumir a direção de um veículo.
Ao Correio, Paulo César Marques, professor de
engenharia de tráfego da Universidade de Brasília (UnB), defende que multas e
outras penalidades sejam acompanhadas de medidas de educação qualificadas.
"Em geral, não devem ser ações destinadas a instruir usuários, como o
senso comum costuma compreendê-las, mas iniciativas que visem a sensibilizar a
população, inclusive criando um ambiente que leve ao constrangimento social de
quem insiste em infringir as regras de conduta", indica.
Há de se reconhecer que mudanças recentes implementadas pelo governo federal focam, entre os objetivos, na melhora da segurança do trânsito — com facilidades para a regularização de não habilitados e gratuidade na renovação da CNH de bons condutores. Além disso, o monitoramento regular das estradas mostra melhora na malha rodoviária brasileira — segundo pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgada em dezembro, 37,9% da extensão pesquisada está em condições ótimas ou boas, contra 33 em 2024; os trechos ruins ou péssimos caíram de 26,6% para 19,1%. Há, dessa forma, uma configuração que, mesmo longe do ideal, tende a favorecer deslocamentos mais seguros. Resta aos condutores se comprometerem com o mesmo propósito.
Uma data a ser lembrada: 8 de janeiro
Por O Povo (CE)
As instituições e o povo brasileiro souberam
dar a resposta adequada, em defesa da democracia e da liberdade
Nesta quinta-feira completam-se três anos de
um dos episódios mais graves acontecidos no Brasil, desde a redemocratização do
País, em 1985.
No dia 8 de janeiro de 2023, manifestantes
bolsonaristas, que estavam acampados em frente ao Quartel-General do Exército
em Brasília, saíram em passeata, que culminou na invasão da sede dos Três
Poderes e na depredação do patrimônio público.
Foi o último ato de uma fracassada tentativa
de golpe de Estado, que havia começado assim que as urnas indicaram a vitória
de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência da República.
A conspiração para quebrar a ordem
democrática foi liderada pelo então presidente Jair Bolsonaro, condenado por
cinco crimes no Supremo Tribunal Federal (STF), entre eles o de comandar uma
organização criminosa armada, tramar pela abolição violenta do Estado
Democrático de Direito e por tentativa de golpe de Estado.
A condenação de Bolsonaro foi considerada
inédita, a primeira vez na história do Brasil que um ex-presidente foi
responsabilizado judicialmente por crimes contra a democracia. Outras duas
dezenas de réus também foram condenados. Entre eles, oficiais de altas patentes
das Forças Armadas.
Para lembrar a data, o governo do presidente
Lula promoverá cerimônia no Salão Nobre do Palácio do Planalto, com atividades
na área externa. O PT também marcou um ato na Praça dos Três Poderes em
Brasília, divulgando vídeo de uma reunião ministerial em dezembro, na qual Lula
manifestou-se sobre o assunto: "Eles querem que o 8 de janeiro caia no esquecimento
e nós queremos que a sociedade não se esqueça nunca que um dia esse país teve
alguém que não soube perder a eleição e resolveu pela forma mais cretina
continuar governando esse país".
O ato golpista no Brasil emulou a invasão do
Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, ocorrida dois anos antes, no
dia 6 de janeiro. A manifestação foi incentivada pelo então presidente Donald
Trump, derrotado em sua tentativa de reeleição por Joe Biden.
É preciso destacar que os invasores do
Capitólio — ação na qual cinco pessoas foram mortas — receberam perdão de
Donald Trump, assim que ele assumiu seu segundo mandato. No Brasil, tanto
líderes quanto os participantes da tentativa de golpe, foram levados à Justiça,
julgados e condenados — e estão cumprindo pena, aqueles considerados culpados
pelo STF.
A data de hoje deveria, portanto, ser
comemorada por todos os democratas — de direita ou de esquerda — e não apenas
pelo governo Lula, que os conspiradores queriam depor. Por óbvio, o golpe, se
tivesse sucesso, não atingiria apenas o PT e seus aliados. Todos os brasileiros
ficariam dominados por um regime autocrático, submetidos à violência típica das
ditaduras.
Felizmente as instituições e o povo brasileiro souberam dar a resposta adequada, em defesa da democracia e da liberdade.

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