Folha de S. Paulo
O que surpreende no caso Master não é
existência do lobby, mas o fato de ele estar fracassando
Apoio do sistema financeiro ao Banco Central
e jornalismo profissional são parte da explicação
O que surpreende no caso Master não
é que exista um forte lobby para reverter a liquidação
do banco, mas que essa articulação
esteja fracassando. Digo isso porque, no Brasil, lobbies funcionam.
Quem tem alguma dúvida não precisa fazer mais do que olhar para as contas
públicas. Os gastos tributários da União e de estados bateram 6,5% do PIB em 2025 e
devem chegar a 7,1% este ano. Estamos falando de quase R$ 1 trilhão. É claro
que nem todas as isenções e reduções de alíquota são injustificáveis, mas boa
parte delas resulta muito mais de ações orquestradas de grupos de interesse do
que de interesse público genuíno.
Não é por falta de planejamento que o lobby do Master está fazendo água. Ao
contrário, pelo que vimos, o esquema era altamente profissional. Atuou em
várias frentes, buscando influenciar desde ministros do STF e do TCU até
parlamentares e governadores. Até as mídias sociais entraram na onda.
"Influencers" sondados para atuar em favor do Master tinham de
assinar acordos de confidencialidade antes mesmo de saber no que trabalhariam.
O que deu errado? O lobby do Vorcaro bateu
de frente com outro lobby poderoso, que é o dos bancos. O sistema financeiro
ainda tem uma parte hígida e que reconhece a importância da boa regulação. Essa
parte atuou para evitar a desmoralização do Banco Central que
adviria do "salvamento" do Master. Mais: até aqui, são bancões e fintechs
que estão pagando a conta da fraude, via FGC, o fundo privado por eles mantido
que ressarcirá investidores dentro de certos limites.
Não menos importante foi a atuação da imprensa profissional. Se o episódio mostrou que a opinião nas redes sociais é um bem à venda, ele também mostrou que ainda existe jornalismo de verdade, como o exercido por Malu Gaspar e outros repórteres investigativos, que conseguem revelar o que lobbies gostariam de esconder. Lobbies funcionam melhor quando atuam sob o manto da invisibilidade ou pelo menos o da discrição. Essas zonas de penumbra são pouco compatíveis com o interesse público.
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