O Globo
Após contrato de esposa de ministro do STF com banco que é um insulto, minha geração assiste agora ao ocaso da maior democracia do Ocidente
Passei o Natal e o Ano Novo brigando na
internet, porque tive a audácia de observar que talvez seja até legal a esposa
de um ministro do STF ter um contrato de R$ 129 milhões com um banco, mas não
é. E nem ao menos é só questão do dinheiro, embora, claro, qualquer contrato
dessa monta seja por si só suspeito; a sua própria existência é um insulto.
Pra quê? Fui descascada em escala industrial. Me chamaram até de “elite socialista aristocrática do Leblon”, quando todo mundo sabe que sou elite socialista aristocrática da Lagoa. Depois de perder um tempo enorme bloqueando gente grosseira e descontrolada, decidi que, a partir de 2026, só escreveria sobre gatos e livros. A família aplaudiu.
— Faz muito bem — disse a Laura. — Ninguém é
obrigado a ler tanto desaforo.
— Você escreve no Segundo Caderno — disse a
Bia. — Quando a leitora chega lá já passou raiva na Política, na Economia, na
Rio e, dependendo do time, até no Esporte. Todo mundo merece um alívio.
Isso foi no dia 1º. Aí, no dia 3, o Maduro
foi sequestrado.
— Não vai escrever sobre isso, né? — implorou
a Laura. — Não tem um lado que se salve nesse furdunço. Você tem aquela ótima
história do gato italiano...
Pois tenho; mas escrever coluna é um vício
como outro qualquer, e colunista não pode ver o mundo pegando fogo sem querer
assar uma batata nas chamas. Dá para escrever sobre outra coisa que não seja o
incêndio?
Ver Maduro a caminho da prisão teria sido uma
felicidade se ele não tivesse sido levado para lá como foi. Seu sequestro por
Donald Trump, na cara dura, inaugura um novo estilo de fazer política. Ou, mais
exatamente, reedita um estilo antigo, mas com roupas novas; ou roupa nenhuma.
O rei está nu e não faz a menor questão de se
vestir.
Em menos de uma semana, o presidente dos
Estados Unidos, país que até ontem era uma democracia, passou por cima do
Congresso, a quem não comunicou a operação de sequestro (“O Congresso tem
tendência a vazar informações”), ameaçou a nova presidente da Venezuela (“Se
ela não fizer a coisa certa, pagará um preço muito alto, quem sabe maior ainda
do que o do Maduro”) e tocou o terror na Europa (“Precisamos muito da
Groenlândia”).
Em suma: Maduro, a essa altura, é o menor dos
problemas. Vai apodrecer numa prisão supostamente tão ruim quanto as nossas — o
que, para a maioria das pessoas, encerra o assunto. Daqui a alguns meses
ninguém mais vai se lembrar dele, até porque Trump, que perdeu o pouco
constrangimento que ainda tinha, promete um ano movimentado.
Uma reles semaninha de 2026 e o Congresso
americano, que já dava sinais de paralisia, provou-se inútil de vez; a ONU,
desnecessária; a Otan, por um fio.
Oitenta anos de esforçada diplomacia desde o
fim da Segunda Guerra — pensem na quantidade incalculável de reuniões,
discursos, tratados e convenções — acabam de voar pela janela.
A minha geração, que viu o fim da União
Soviética, assiste, agora, ao ocaso da maior democracia do Ocidente.
Fazer o quê? São tempos interessantes demais
para escrever apenas sobre gatos e livros.

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