quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Um dia para não esquecer. Por Míriam Leitão

O Globo

Quem atacou a democracia brasileira está preso. Quem fez o mesmo nos EUA voltou ao poder e ameaça a ordem global

Há três anos o Brasil viveu uma situação limite, com as sedes dos três Poderes atacadas e vandalizadas. Foi um dia construído durante quatro anos por um presidente que atacava as instituições, sequestrava datas e símbolos da pátria, conspirava com generais, mantinha no palácio uma feroz milícia digital, ameaçava adversários, liberava armas e fazia reuniões nas quais abertamente se falava em virar a mesa enquanto fosse tempo. O dia 8 de janeiro de 2023 não foi um raio num céu azul. Ele foi criado e estimulado pelo governo de Jair Bolsonaro.

Há cinco anos, o Capitólio, sede do Congresso americano, foi invadido e vandalizado. Foi um dia construído por um presidente que nunca acreditou nos limites da democracia americana. Ele mesmo foi para frente dos manifestantes e os mandou para o Capitólio. Foi público, todos ouviram, filmaram e reproduziram.

Neste janeiro de 2026, o presidente que atacou a democracia brasileira está preso, cumprindo pena, depois de ter sido condenado no devido processo legal. Vários dos seus cúmplices estão igualmente condenados. Não todos. Alguns por sorte ou falta de provas escaparam. Mas generais, coronéis, um almirante e civis que ocuparam posições estratégicas estão condenados. Centenas de pessoas que executaram o projeto do 8 de janeiro também tiveram que enfrentar os rigores da lei.

Neste janeiro de 2026, o presidente americano que conspirou e mandou a turba para o Capitólio está de volta ao poder. Impune e imune. Ele não foi alcançado pela Justiça americana. Driblou a todos, anistiou os condenados e mandou reescrever a história do que foi o 6 de janeiro de 2021, dizendo que não ocorreu o que o mundo inteiro viu. Por ter tido a segunda chance de se sentar no gabinete mais poderoso do mundo está aprofundando o projeto desestabilizador. Desrespeita leis internas e rasga o direito internacional. Invade países e avisa que atacará outros. Quando perguntam por que, ele responde que é porque pode e porque quer. E diz que territórios alheios são vitais para a segurança de seu país. Ameaça principalmente os aliados. Os Estados Unidos tinham instituições invejáveis. Tinham. Hoje resta a esperança de que em algum momento reajam.

Esses dois janeiros do passado recente, o nosso e o deles, nos mostram que há a forma certa de reagir ao perigo. O Brasil, felizmente, escolheu o melhor caminho. Não foi, nem tem sido fácil. Só quem não vê os sinais acha que todo o risco está superado. O Congresso, com suas grandes bancadas amorfas ou comprometidas, aprovou um projeto no caminho da anistia. O Brasil que, no passado, a tantos golpistas perdoou, está apenas inaugurando o tempo da punição aos culpados.

Reagir de maneira certa à ameaça contra a democracia exige uma série de decisões corretas na hora precisa. Uma das mais importantes foi a da ministra Rosa Weber, na época presidente do Supremo Tribunal Federal. Numa reunião de representantes dos Três Poderes, no dia seguinte ao 8 de janeiro, Rosa decidiu e comunicou a todos que o relator do processo contra os golpistas seria Alexandre de Moraes. Havia pressões explícitas do Congresso para que não fosse Moraes. Ela decidiu também revestir de muita simbologia a reação do Judiciário. Quis que a recuperação do prédio do Supremo fosse concluída antes da abertura do ano do Judiciário e batizou a cerimônia de “Democracia inabalada”. O que antes era meramente protocolar, se transformou em ato de resistência.

O ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, em 2003, quando começou o processo de demolição da democracia, atacou o Conselho Nacional Eleitoral, mudando os membros do órgão que estabelece as leis eleitorais. No Brasil, o alvo principal de Bolsonaro também foi a Justiça Eleitoral. Por isso houve tantos ataques às urnas eletrônicas, tanta tentativa de espalhar a mentira de que houve fraude, tanto assédio de militares comandados pelo general Paulo Sérgio Nogueira ao TSE. Por isso, também, Donald Trump, sempre alegou que houve fraude nas eleições de 2020. O desmonte da confiança no processo eleitoral é sempre o primeiro passo dos golpistas. É como começam a morrer as democracias.

As lições de 8 de janeiro de 2023 definirão o futuro da República brasileira. O maior risco é esquecermos a gravidade do que aconteceu há três anos. O inimigo da democracia vive da desmemória.

 

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