O Globo
O chavismo crepuscular é odiado pela vasta
maioria do povo
Exatos 36 anos depois de Manuel Noriega, Nicolás Maduro seguiu, algemado, para um tribunal dos Estados Unidos. A extração de Noriega exigiu uma invasão militar americana que deixou centenas de mortos, enquanto a captura de Maduro solicitou apenas uma operação cinematográfica de comandos coberta por bombardeios de alvos militares. É prova de que o autodenominado “regime cívico-militar-policial” venezuelano só sabia reprimir civis.
O chavismo crepuscular é odiado pela vasta
maioria do povo. A versão americana de “operação militar especial” foi
celebrada silenciosamente numa Caracas hipnotizada
pelo medo. Trump prometeu que “os Estados Unidos governarão a Venezuela” até
uma “transição segura” de poder, acendendo esperanças talvez ilusórias. Na
sequência, descartou María
Corina Machado, a líder da oposição que conduziu Edmundo González ao
triunfo eleitoral, e sugeriu que a vice Delcy Rodríguez aceitaria uma parceria
subordinada com a Casa Branca.
Trump prefere os cacos de uma ditadura
submissa a um governo legitimado pelo povo. Falta combinar com Delcy. A
ex-chefe do Sebin, a criminosa polícia política chavista, rejeitou a proposta,
ao menos retoricamente. Segundo ela, “nosso único presidente é Nicolás Maduro”.
Logo saberemos até onde o regime está disposto a ceder em nome da sobrevivência
e, especialmente, até onde Trump pretende chegar na restauração da política do
Big Stick.
Lula recuperou uma paixão pelas leis
internacionais que nunca se manifestou no caso da Ucrânia, produzindo
uma nota enfática de condenação do ato imperial americano. Sabe, como qualquer
um, que o secretário de Estado, Marco Rubio acalenta uma versão modernizada da
“teoria do dominó”: depois da Venezuela, Cuba e Nicarágua. A
extrema direita brasileira, cujo padrão intelectual mede-se pela régua de
Eduardo Bolsonaro, clama pela extensão da “diplomacia das canhoneiras” até o Brasil.
O Brasil não é alvo, mas precisa cartografar
um novo mapa de vizinhança. Desabou um objetivo dogmático de política externa:
a ausência de bases militares de potências externas no nosso entorno imediato.
Nos últimos meses, os Estados Unidos firmaram acordos bilaterais de segurança
com Peru, Bolívia, Paraguai, Guiana e Panamá. A Venezuela
sinaliza um novo nível de risco. Nossa melhor defesa é um ataque abrangente —
financeiro, militar e policial — às facções do narcotráfico que operam em
território nacional.
“É o petróleo, estúpido!”, grita a esquerda
brasileira, sempre incapaz de enxergar qualquer coisa além dos tesouros
naturais escondidos abaixo da superfície. Não falta petróleo aos Estados
Unidos. A Chevron opera, sem sanções americanas e com a bênção dos chavistas,
nos campos venezuelanos. Trump almeja, explicitamente, como meta secundária,
ampliar os negócios das empresas petrolíferas americanas na Venezuela. Mas a
meta principal é outra — e está escrita na sua Estratégia de Segurança
Nacional.
“É geopolítica, estúpido!” Trata-se da
Doutrina Monroe 2.0: eliminar os regimes aliados à China e à Rússia no
“Hemisfério Ocidental”. Delcy e a camarilha chavista podem espoliar o povo à
vontade, com a condição de reposicionar a Venezuela na esfera de influência de
Washington.
Don Bacon, deputado republicano de Nebraska,
entendeu as repercussões globais da operação imperial no Caribe:
— Minha maior preocupação é a Rússia agora
usá-la para justificar suas ilegais e bárbaras ações militares contra a Ucrânia
ou a China usá-la para legitimar uma invasão de Taiwan.
Na hora em que rasgam o Direito
Internacional, os Estados Unidos entronizam a política de esferas de
influência.
Rússia e China emitiram notas protocolares de
protesto contra a violação da soberania venezuelana. Seriam, em outras
circunstâncias, meras declarações de impotência. Hoje, porém, representam um
acordo cifrado. “A América para os americanos” desdobra-se na legitimação das
aspirações imperiais das grandes potências. Eis o acordo, numa síntese
cinicamente realista: “A Venezuela inteira para Trump, meia Ucrânia para Putin
— e, mais tarde, a restauração da soberania chinesa em Taiwan”. Maduro vale bem
menos que uma missa.

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