domingo, 11 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo entre Mercosul e UE deve ser celebrado

Por O Globo

Em tempos turbulentos, ele representa uma vitória do multilateralismo e uma derrota do protecionismo

Num mundo fraturado pelo protecionismo, é uma resposta histórica corajosa o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja assinatura oficial está prevista para esta semana em Assunção, no Paraguai. Referendado na última sexta-feira pela UE, ele é o maior tratado comercial já firmado, reunindo um mercado com 721 milhões de consumidores e PIB de US$ 22,34 trilhões. O Brasil será sem dúvida um dos principais beneficiários, tanto pelas exportações quanto pelas importações. O acordo prova que, a despeito das medidas protecionistas que proliferam, livre-comércio e multilateralismo estão vivos — e ainda são o melhor caminho para o planeta.

As negociações se arrastavam desde 1999. Sofreram inúmeras reviravoltas devido à pressão de grupos protecionistas, em especial agricultores europeus (os protestos pela Europa mostram que ainda não desistiram). As tratativas ganharam fôlego depois do tarifaço de Donald Trump, que forçou os países prejudicados a buscar novos mercados e alianças estratégicas. Na Europa, a resistência que emperrava o acordo se tornou gradativamente minoritária. A assinatura estava prevista para dezembro, mas acabou adiada em meio às dúvidas da Itália, que exigia salvaguardas mais robustas para os agricultores. Os italianos cederam depois do ataque americano à Venezuela.

A aprovação exigia o voto favorável de 15 dos 27 países da UE, representando ao menos 65% da população. Sem o apoio italiano, os demais países contrários ao acordo — França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda — foram insuficientes para bloquear o aval do Conselho Europeu (a Bélgica se absteve). É esperado que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, participe da cerimônia oficial de assinatura no Paraguai.

Não será o ato final. Ainda é necessário o aval dos parlamentos dos países do Mercosul e do Parlamento Europeu. Não deve haver surpresas, porém, já que o próprio Parlamento Europeu aprovou as salvaguardas ao tratado. As questões de caráter político ainda dependerão da aprovação no Legislativo dos 27 países-membros, mas isso não inviabiliza a parte comercial. No Brasil, ela poderá entrar em vigor tão logo o acordo seja aprovado no Congresso.

Desde o início, nunca foi fácil vencer as resistências. Do lado do Mercosul, protecionistas temiam a competição da indústria europeia. Entre os europeus, a artilharia veio dos agricultores, principalmente franceses, temerosos do vigoroso agronegócio brasileiro e argentino. Tais grupos minoritários, historicamente protegidos por subsídios, supervalorizam os efeitos negativos e ignoram os benefícios à imensa maioria dos consumidores. Está prevista redução tarifária imediata ou gradual, para que haja tempo de se preparar. Estima-se que serão contemplados 91% dos bens e 85% do valor exportado pela UE ao Brasil — e 95% dos bens e 92% do valor das exportações brasileiras.

Além de representar enorme oportunidade para o Brasil, o acordo demonstra o valor econômico e estratégico do livre-comércio. Exportadores terão a chance de explorar novos mercados num momento em que países como os Estados Unidos fecham suas portas. A ciência econômica comprova que economias abertas têm desempenho amplamente superior. Em tempos turbulentos, o acordo representa uma vitória do multilateralismo e uma derrota do protecionismo. Não faltam motivos para celebrá-lo.

Repressão a crimes contra menores requer ação das plataformas digitais

Por o Globo

Denúncias diárias cresceram de 1,6 mil em 2024 para 2,5 mil em 2025, de acordo com Ministério da Justiça

Apesar das leis rigorosas, o Brasil tem falhado tragicamente na defesa de crianças e adolescentes expostos nas redes sociais. Em 2024, o país registrou 593 mil denúncias de exploração e abuso sexual infantil on-line — um caso por minuto —, segundo o último relatório do Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC, na sigla em inglês). No final do ano, a média de denúncias diárias era de 1,6 mil. Em 2025, essa média passou para 2,5 mil, informou à reportagem do GLOBO a secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Lílian Cintra de Melo. A situação é ainda mais crítica levando em conta que deve haver subnotificação razoável. Sem participação mais determinada das plataformas digitais, as leis se revelam ineficazes para proteger os menores.

O país nem tem um organismo dedicado a receber, centralizar as denúncias e convertê-las em ações no campo policial e jurídico. Só agora o Ministério da Justiça, a partir das conclusões de um comitê, reconheceu que o modelo de recepção, análise e encaminhamento de denúncias “é fragmentado, pouco articulado, tecnologicamente defasado e fortemente dependente de cooperação internacional”. Basicamente é o NCMEC, referência na proteção infantil nos Estados Unidos, que encaminha os casos à Polícia Federal. O Ministério da Justiça prevê criar um Centro Nacional de Triagem das denúncias — um passo na direção certa —, para recebê-las e articular a resposta das autoridades. É uma medida necessária, que deve ser posta em prática com urgência.

Com o avanço tecnológico acelerado, acentuado pelas ferramentas de inteligência artificial, legisladores e órgãos reguladores também precisam ficar atentos à necessidade de atualizar o arcabouço jurídico. A vulnerabilidade de crianças e adolescentes é grande. Embora os dados totais de 2024 compilados pelo NCMEC para o mundo todo tenham registrado queda de 43,3% em 2024 (para 20,5 milhões de episódios, em razão de mudança de critérios e à dificuldade de acesso a conteúdos criptografados), os abusos no Brasil cresceram 4,5%.

O aumento pode ser resultado de maior conscientização do problema e do aumento de grupos on-line de monitoramento e denúncia. Mas pode decorrer da maior vulnerabilidade dos menores e da dificuldade de punir os abusadores. Embora seja preciso contar com as informações mais abrangentes para tomar as medidas adequadas, autoridades, escolas e famílias devem atuar com mais energia na defesa dos menores de idade nas redes sociais. É essencial criar mecanismos de pressão para que as próprias plataformas atuem na prevenção, na investigação e na repressão aos conteúdos ilegais. É a forma mais eficaz de proteger as crianças e adolescentes do pior.

Como prosperam parentes de ministros do STF

Por Folha de S. Paulo

Levantamento mostra que familiares dos magistrados que são advogados multiplicam casos nas altas cortes

É difícil afastar a ideia de que quem contrata advogado parente de ministro mira não só um bom serviço, mas a influência do magistrado

Ser indicado a uma das 11 cadeiras do Supremo Tribunal Federal gera um aumento significativo na demanda por serviços dos escritórios de advocacia de parentes dos nomeados. Tal efeito nunca foi exatamente um segredo, mas o economista Bruno Carazza, em coluna no jornal Valor Econômico , levantou números para ilustrá-lo.

Carazza selecionou nove advogados que são cônjuges ou filhos de ministros do STF e comparou o número de processos que eles tinham no Supremo e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) antes e depois das respectivas posses.

No agregado, as ações dos parentes saltaram de 80 para 170 no STF e de 278 para 1.394 no STJ. Note-se que esses resultados tendem a ser conservadores, já que não são considerados os sócios nas firmas de advocacia dos familiares dos magistrados.

É importante ressaltar que a multiplicação das causas não implica cometimento de irregularidades —as motivações que levam um cliente a escolher determinado profissional do direito não constituem ilícito em nenhum país do mundo civilizado.

Entretanto é difícil afastar a ideia de que quem contrata um advogado parente de ministro da mais alta corte constitucional mira não somente a excelência dos serviços jurídicos prestados, mas também a influência do magistrado, o que erode a própria credibilidade do Judiciário.

O problema não é novo e já foi jocosamente chamado de "filhotismo". Nos últimos anos, porém, somou-se ao crônico noticiário sobre luxuosos eventos jurídicos no exterior, aos quais ministros acorrem financiados por empresas com interesses no Supremo, e às revelações sobre relações entre magistrados e partes que ultrapassam os limites da moralidade exigida para o cargo.

São os casos da viagem de Dias Toffoli com advogado ligado ao Banco Master em jato de empresário e do contrato de astronômicos R$ 129 milhões entre a mesma instituição financeira, sobre a qual pesam gravíssimas suspeitas, e o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes.

O conjunto da obra desencadeou um movimento da sociedade para que o STF adote um código de conduta, a exemplo do que já fizeram cortes máximas de outros países, como Alemanha e Estados Unidos. A proposta, embora tenha sido lançada pelo próprio presidente do SupremoEdson Fachin, e conte com apoio de alguns ministros mais discretos, encontra forte resistência no tribunal.

Trata-se de postura altamente danosa para o Judiciário. A legitimidade das decisões do STF depende de que elas sejam percebidas pela população, se não sempre como justas e imparciais, ao menos como não enviesadas. E jamais parecerão assim se os ministros não zelarem pela integridade de sua imagem.

Sem código de conduta e no cenário de acirramento político atual, é possível que surjam projetos de lei para regular essas questões. E será cada vez mais difícil considerá-los desnecessários.

Combater o desmate em várias frentes

Por Folha de S. Paulo

Devastação diminui pelo 3º ano consecutivo na amazônia e no cerrado em 2025, mas queda vem desacelerando

Além da fiscalização do corte raso, usado na agropecuária, é preciso conter degradação florestal e criar incentivos à economia verde

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de 2025 confirmam a trajetória de queda da devastação de áreas verdes na Amazônia Legal e no cerrado durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Entretanto deve-se ressaltar que os números ainda estão altos e que são necessárias mais ações além da fiscalização do corte raso, como conter a degradação florestal e facilitar projetos no âmbito da economia sustentável.

O sistema Deter do Inpe mapeia desmatamentos para avisar rapidamente órgãos de proteção como Ibama e governos estaduais. Já o Prodes gera a estatística oficial, ao medir o espaço de vegetação que foi de fato destruído.

Segundo o Deter, em 2025, a área sob alerta de desmatamento na amazônia foi de 3.817 km², e no cerrado, de 5.369 km² —redução de 8,7% e 9%, respectivamente, em relação ao ano anterior. É o menor indicador da amazônia desde 2017; no cerrado, o mais baixo foi verificado em 2021.

Mas ainda trata-se de devastação significativa. A área total em ambas as regiões é cerca de seis vezes a da cidade de São Paulo.

A do cerrado é maior porque no geral se dá em propriedades privadas, e os estados de Maranhão, Tocantins e Piauí —que com a Bahia compõem a fronteira do agronegócio chamada Matopiba— lideram o ranking no bioma. Na amazônia, quase metade da área desmatada (1.497 km²) está no Mato Grosso.

Em 2018, um ano antes da posse de Jair Bolsonaro (PL), a área no bioma do Norte somava 4.951 km², e saltou a 10.277 km² ao final da sua gestão, em 2022; já na savana brasileira chegou a 5.594 km².

No primeiro ano sob Lula, a área de alerta de desmatamento na amazônia caiu 49,9% em relação a 2022. Em 2024, a redução nos últimos 12 meses foi menor, de 19%, e de apenas 8,7% em 2025. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, essa desaceleração se deve à seca extrema de 2024, que piorou a degradação florestal e facilitou incêndios.

Por isso, além de fiscalizar o corte raso, usado na agropecuária, é preciso conter a degradação que torna a floresta mais inflamável, com medição contínua do fenômeno e combate a garimpo, extração ilegal de madeira e aberturas irregulares de estradas.

Ademais, é preciso dar valor econômico à floresta, com projetos de desenvolvimento e incentivo financeiro para captura natural de carbono —pagar um fazendeiro por reflorestar uma área devastada, por exemplo. São ações que preservam biodiversidade e também ajudam a conter o aquecimento global, já que a vegetação absorve gás carbônico.

O medo dos cidadãos segue sem resposta

Por O Estado de S. Paulo

Saída de Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública expõe a dificuldade do governo de enfrentar a agenda da violência e do crime organizado, topo das preocupações do País

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, anunciou o fim de sua gestão de quase dois anos à frente da pasta. Na carta de demissão que entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alegou razões de caráter pessoal, com a ressalva do que chamou de “limitações políticas, conjunturais e orçamentárias” enfrentadas por ele e sua equipe.

Foi um período marcado por sucessivos desgastes, como a fuga, em 2024, de dois detentos ligados ao Comando Vermelho do presídio federal de Mossoró (RN), que expôs fragilidades no sistema prisional federal; a morte de 122 pessoas em uma operação no Rio de Janeiro, conduzida pelo governo estadual contra supostos integrantes da mesma facção, reacendendo o debate sobre o papel da União na coordenação da segurança; e a tentativa de criar um novo arcabouço legal para a área, por meio da chamada PEC da Segurança e do PL Antifacção, ambos ainda sem perspectiva de avanço no Congresso, em boa medida pelo boicote às propostas do governo.

Lula, o PT e a esquerda merecem muitas das críticas que recebem nessa área, ainda que a segurança pública seja, por definição constitucional, prerrogativa dos Estados. Sem Lewandowski – e caminhando para o terceiro titular da pasta em um único mandato –, o País seguirá para mais uma eleição carregando duas certezas incômodas. A primeira é que o medo passou a integrar a paisagem cotidiana: medo da violência difusa, dos assaltos banais, das balas perdidas e do avanço organizado de facções criminosas que controlam territórios e impõem regras à margem do Estado. A segunda é que, apesar da centralidade desse medo, não há no horizonte um debate político minimamente qualificado capaz de aplacá-lo.

Entre o punitivismo raso e a negação ideológica do problema, a segurança pública segue órfã de pensamento estratégico. Essa dissonância ajuda a explicar por que a violência ocupa o topo das preocupações nacionais. Segundo recente pesquisa da Ipsos, 45% dos brasileiros apontam crime e violência como o principal problema do País, à frente de corrupção (36%) e saúde (34%). O dado revela um mal-estar alimentado pela percepção de que o Estado perdeu capacidade de enfrentar tanto a criminalidade cotidiana quanto o crime organizado, hoje sofisticado e transnacional.

O debate público permanece empobrecido, preso a slogans punitivistas de um lado e discursos genéricos de outro. Um vazio estratégico que se torna ainda mais grave em ano eleitoral. Como este jornal já advertiu nesta página, a segurança será um dos temas estruturais mais decisivos em 2026. Enquanto a esquerda fracassou ao relativizar a violência e transformar o criminoso em “oprimido”, a direita instrumentalizou o medo legítimo dos cidadãos com soluções baseadas na força bruta e na retórica da morte. São dois caminhos distintos que não servem ao Brasil.

O fato é que o País não dispõe de uma política nacional consistente de segurança pública. Falta coordenação federativa, metas claras, indicadores confiáveis e avaliação permanente de resultados. Em seu lugar, especialmente no plano federal, acumulam-se ações reativas e anúncios de ocasião, muitas vezes descolados de evidências sobre o que funciona – e o que fracassa – no enfrentamento da criminalidade.

Nesse contexto, ganhou força o debate sobre o desmembramento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, impulsionado pela saída de Lewandowski, historicamente contrário à cisão da pasta. Trata-se de um debate legítimo do ponto de vista administrativo, mas insuficiente do ponto de vista político e estratégico. A criação de uma pasta específica, por si só, não qualificará a visão de Lula nem superará a dificuldade histórica da esquerda em lidar com o tema da segurança pública.

Resta lembrar a Lula e ao PT que enfrentar a violência exige liderança política, coordenação federativa efetiva, fortalecimento das polícias, integração de inteligência, combate ao crime organizado e avaliação rigorosa de políticas públicas. Exige, sobretudo, coragem para romper tabus ideológicos. Se a violência é a maior preocupação nacional, o mínimo que se espera é que ela seja tratada com a prioridade correspondente. O Brasil não precisa de mais retórica, e sim de um empenho nacional à altura do medo real que molda a vida dos brasileiros.

O mundo assombrado pela lei do mais forte

Por O Estado de S. Paulo

Ao agir fora das regras que ajudaram a construir, os EUA enfraquecem o sistema internacional baseado no Direito e recriam o cenário em que soberania e força bruta voltam a se confundir

O que vem primeiro, o Direito ou a força? Essa pergunta retórica adquiriu contornos bastante concretos nos últimos dias, após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro. A ação militar norte-americana se soma a outras recentes intervenções militares fora da lei, e reforça que só uma ação concertada das nações comprometidas com o Direito tem chances de confrontar líderes políticos que se investem de um poder absoluto e arbitrário.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a palavra soberania tem aparecido com frequência nos meios de comunicação mundo afora. No interior de um Estado, ela é entendida como o poder de garantir, em última instância, a eficácia da ordem jurídica desse Estado. Já nas relações internacionais, a soberania de um Estado significa que ele não está sujeito a leis que lhe sejam impostas por outro. Por isso, a princípio, as relações entre eles se desenvolvem à sombra da força.

Daí o surgimento dos órgãos multilaterais que buscaram, em diversos âmbitos, regular as interações entre os Estados. A Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e outras entidades surgidas a partir da segunda metade do século 20 eram formuladores centrais e respeitados do Direito aplicável a relações interestatais. Eram tempos de crença na democracia liberal e na livre circulação de bens, capitais e pessoas, sob a liderança da potência vitoriosa da guerra fria: os Estados Unidos.

O século 20 foi um período conturbado, marcado por retrocessos importantes (como no meio ambiente) e por crescimentos desiguais, mas também por frutos institucionais relevantes. Como já destacado neste espaço, desde a queda da Cortina de Ferro, “a extrema pobreza caiu de quase 40% da população global para 8,4%; as crianças que morrem antes dos 5 anos, de 9,3% para 3,7%; o analfabetismo, de 25,7% para 13,5%; a mortalidade materna caiu 55%; e a expectativa de vida cresceu de 64 para 73 anos” (ver editorial É preciso revalorizar a globalização, 15/10/2023).

Ocorre que esse não era o fim da História. Neste século 21, a própria História vem sendo progressivamente substituída por narrativas sobre ela. A democracia liberal cede espaço à iliberal; o pluralismo é demonizado pelos nacionalistas, na esteira de imigração e terrorismo; o livre comércio é trocado pelo protecionismo; a integração multilateral é sobrepujada pelo isolacionismo do Estado-nação.

Por essas vias, Donald Trump chega duas vezes à presidência dos Estados Unidos, e seu mais recente ato é uma operação extraterritorial unilateral conduzida sem transparência institucional, à margem do Direito Internacional e, ademais, em flagrante desrespeito à própria ordem jurídica norte-americana.

A falta de base legal para a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, tanto no plano interno como internacional, deve ser ressaltada, pois revela um poder exercido à margem do Direito que assume duas faces distintas, ainda que complementares: a do poder absoluto e a do poder arbitrário. É um poder absoluto porque se viu liberado da obrigação de respeitar as normas do Direito Internacional autorizadoras de intervenções militares do tipo. Afinal, um poder absoluto, por definição, não reconhece leis superiores. E é um poder arbitrário porque teve como fundamento a vontade subjetiva do seu titular, alheia à obrigação de justificar-se com base em critérios coerentes e estáveis dedutíveis do ordenamento – tanto que a própria legislação norte-americana, a que Trump se diz subordinado, foi instrumentalizada para adequar-se aos desígnios belicistas do mandatário.

Enfrentar um poder exercido nesses termos por líderes da envergadura de Donald Trump e Vladimir Putin, entre outros, exige mais do que indignação retórica. Impõe prudência, coordenação estratégica, mecanismos eficazes de dissuasão e, acima de tudo, a atuação conjunta de países que compreendam que o uso unilateral da força apenas favorece aqueles que desprezam a existência de um Direito comum capaz de limitar, disciplinar e legitimar o seu emprego.

Um SUS de contrastes

Por O Estado de S. Paulo

Ranking dos melhores hospitais públicos impõe a necessidade de levar boas práticas a todo o País

O Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross) listou os cem melhores hospitais públicos do Brasil, uma bem-vinda iniciativa de reconhecimento e valorização do Sistema Único de Saúde (SUS). Feito em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o Instituto Ética Saúde (IES), o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), o mapeamento apresentou os finalistas do Prêmio Melhores Hospitais Públicos do Brasil, entre os quais serão escolhidos, em maio, os dez equipamentos mais bem avaliados do País.

Para compor esse seleto rol, o Ibross adotou como critérios a acreditação hospitalar, a taxa de ocupação dos leitos, os indicadores de mortalidade, a quantidade de leitos de Unidade de Terapia Intensiva e o tempo médio de internação. Com base nesses indicadores, o instituto apontou quais são as ilhas de excelência na rede pública de saúde em todo o País. E nada menos do que 30% dos melhores hospitais públicos do Brasil estão no Estado de São Paulo – nove só na capital paulista.

O ranking indica a força e a importância do atendimento de saúde universal e gratuito à população. A Constituição de 1988 elevou a saúde ao patamar de direito do cidadão e dever do Estado, invertendo a lógica mercantilista – qual seja, a de que os serviços de saúde eram “produtos” – que prevalecia até então. Desde a promulgação da Lei Maior, houve avanços concretos para a materialização desse direito, não obstante as limitações na oferta de serviços que ainda desafiam a universalidade do SUS.

O mapeamento do Ibross mostrou que equipamentos públicos de alta complexidade e de qualidade comparável a de hospitais de ponta da rede privada foram localizados em todas as regiões do Brasil, tanto em capitais como em cidades do interior. Trata-se de uma evidência concreta de que o SUS, a despeito do subfinanciamento, cumpre sua missão por meio de uma rede capilarizada e com capacidade de resposta às demandas dos cidadãos brasileiros. Mas é possível – e absolutamente necessário – ir além.

A lista dos finalistas ao Prêmio Melhores Hospitais Públicos do Brasil também revelou a existência de lacunas preocupantes no mapa do País. Quatro Estados da Região Norte que sempre aparecem nas piores posições nos rankings de indicadores sociais e econômicos – Acre, Amapá, Rondônia e Roraima – não tiveram um único hospital público bem avaliado. Alagoas, Paraíba e Mato Grosso, este conhecido pela pujança do agronegócio, também não têm hospitais em suas redes públicas capazes de atender bem à população.

Está claro que sobram razões para defender, celebrar e premiar os melhores serviços públicos de saúde do País. Mas o reconhecimento dos pontos de excelência do SUS não pode desviar a atenção de vazios assistenciais inaceitáveis e de disparidades regionais que impõem ação coordenada entre as três esferas da administração, financiamento adequado, boa governança e disseminação das práticas que já deram certo nos Estados mais bem avaliados.

Trump reconfigurou mercado global de energia

Por Correio Braziliense

Ao controlar o petróleo venezuelano, os Estados Unidos reforçam sua capacidade de influenciar o mercado global de energia, conter adversários geopolíticos e intervir diretamente na dinâmica de sua economia interna

A primeira semana da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, sob a liderança de Donald Trump, revelou que não se trata apenas de uma operação militar ou diplomática, mas de uma reconfiguração estratégica do mercado global de energia, com fortes implicações geopolíticas, econômicas e eleitorais. Desde o início, a intervenção foi enquadrada pela Casa Branca como uma ação de "segurança energética" e "estabilização regional", mas seus movimentos concretos indicam um processo de tutela internacional do Estado venezuelano, centrado no controle do petróleo.

O encontro fechado de Trump com cerca de duas dezenas de executivos das maiores petroleiras do mundo simbolizou essa nova fase. Ao exigir investimentos privados da ordem de US$ 100 bilhões, em troca de garantias políticas, jurídicas e militares, o presidente deixou explícito o modelo: o Estado norte-americano oferece proteção e previsibilidade; o capital privado reconstrói e explora. Trata-se de uma lógica clássica de projeção de poder, na qual o risco político é socializado via hegemonia militar, enquanto os lucros permanecem privados.

Essa abordagem responde diretamente ao trauma das nacionalizações promovidas por Hugo Chávez nos anos 2000, que ainda assombram o setor. As exigências por segurança jurídica feitas por empresas como Chevron, ExxonMobil e Repsol mostram que o capital internacional só retornará à Venezuela se houver ruptura definitiva com o modelo chavista e com a antiga PDVSA, hoje associada à ineficiência, corrupção e colapso operacional. Essa ruptura, porém, passa pelas novas relações da Casa Branca com o governo bolivariano da presidente em exercício Delcy Rodriguez, surpreendentemente chancelada por Trump.

No plano operacional, a prioridade imediata foi esvaziar os tanques de petróleo acumulados em razão das sanções, estimados em cerca de 30 milhões de barris. A apreensão de navios e o controle centralizado das vendas indicam que Washington busca não apenas retomar a produção, mas disciplinar a comercialização, interrompendo fluxos paralelos que abasteciam China, Rússia e Cuba a preços descontados. Esse movimento insere a Venezuela diretamente na estratégia global de contenção da influência chinesa e russa no Hemisfério Ocidental.

Ao mesmo tempo, Trump deixou claro o objetivo doméstico da operação. Ao ampliar o acesso dos EUA ao petróleo pesado venezuelano — crucial para o parque de refino norte-americano —, a Casa Branca aposta na redução dos preços dos combustíveis como instrumento de política econômica e eleitoral. Em um contexto de inflação persistente e eleições de meio de mandato no horizonte, gasolina mais barata pode funcionar como um amortecedor social e um ativo político decisivo. Ou seja, a Venezuela financiará a redução da inflação nos Estados Unidos.

A presença ativa do secretário de Estado Marco Rubio reforça o caráter da intervenção: diplomacia, energia e segurança fundidos numa única estratégia. Não se trata de uma reconstrução humanitária, mas de uma reengenharia do Estado venezuelano sob supervisão externa, com o petróleo como eixo estruturante. 

Em síntese, ao controlar o petróleo venezuelano, os Estados Unidos reforçam sua capacidade de influenciar o mercado global de energia, conter adversários geopolíticos e intervir diretamente na dinâmica de sua economia interna. O custo político e institucional dessa tutela ainda incerto é a ruptura com os conceitos de soberania e integridade territorial dos países da América Latina, Canadá e Groenlândia. Essa ambição está plenamente exposta e é muito ameaçadora. 

A nossa violência e a tragédia que segue

Por O Povo (CE)

Os números dos homicídios registrados no Ceará no difícil ano de 2025 foram fechados e estão apresentados à sociedade pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Foram 3.201 mortes violentas no período, configurando um cenário com o qual não podemos estabelecer uma relação de naturalidade, independente do que a estatística informe quando colocada em perspectiva ao lado de outras, igualmente trágicas e até piores, de temporadas anteriores.

Seria enganoso qualquer clima de festa pelo fato de, na comparação com 2024, ter-se dado uma queda de 7,7% nos registros cearenses de homicídios. Alguém dirá, numa matemática simples, que, de qualquer forma, foram próximo de 200 vidas poupadas, se considerado o fato de no ano anterior terem sido 3,2 mil casos de mortes violentas. Não há como aceitar isso, em qualquer circunstância, e o quadro exige ações que busquem uma saída que seja a mais rápida possível.

É injusto, fora do debate legítimo que se encontra estabelecido e do interesse igualmente aceitável de forças de oposição de assumirem o poder, adotar um tom crítico que jogue toda a responsabilidade do cenário nos governantes atuais. Todas não, mas uma parte considerável sim.

Dos que hoje detêm poder no Ceará devem ser cobradas as iniciativas e políticas na área de segurança pública que apontem o caminho de uma mudança, como ponto de partida, mas o envolvimento precisa ser mais amplo, de todos nós, e, inclusive, inclusive, buscando colocar de lado qualquer outro interesse pessoal, particular ou de grupo.

De volta aos números do ano passado, eles são ruins quando nos dispomos a olhá-los sem viés e descolando-os de comparações que parecem pouco úteis quando se busca enxergar um horizonte melhor numa perspectiva de futuro. Aceitável, pelo menos, quando se trata de conviver com a violência nossa de todo dia. Apenas em Fortaleza foram 742 homicídios (11% menos que em 2024), aliás, tendência que a Região Metropolitana que a capital integra não acompanhou e, ao contrário, aqui houve aumento de 5,9% na quantidade de mortes entre um ano e outro. O que só reforça a complexidade da realidade que há diante de nós.

O ano é eleitoral, entre agosto e outubro teremos, certamente, um debate profundo e necessário sobre o quadro, mas, enquanto isso, seria interessante que todas as forças de bem, sejam elas do governo, da oposição ou neutras, encontram-se uma maneira de atuar juntas em favor da sociedade, política à parte. A perda de tempo, neste caso, resulta em mortes e não há como recuperar o prejuízo para famílias e pessoas que perdem entes queridos como resultado de uma realidade que, insista-se, não podemos naturalizar. 

 

 

 

 

 

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