domingo, 11 de janeiro de 2026

Pistas de quem ficou com o dinheiro no fim da ciranda do Master. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Fundos faziam investimentos superfaturados em outros fundos para esconder dinheiro

Questão agora é saber quem estava na ponta do lucro gordo, Vorcaro ou mais poderosos

Banco Master emprestava dinheiro a empresas. Essas empresas investiam em fundos. Por exemplo, fundos administrados pela Reag, aquela gestora investigada pela polícia por administrar dinheiros do PCC ou também de outras empresas criminosas. Ou também em fundos que tinham relações com negócios e propriedades de Daniel Vorcaro.

Esses fundos compravam voluntariamente gato magro por lebre, superfaturados. Isto é, compravam títulos (direitos e dinheiros a receber), como se relatava nestas colunas e como detalhado por colegas desta Folha.

Quem vendia o gato magro a preço de lebre de ouro tinha ganho grande, aplicado em outro fundo, com outros haveres. Quem são os donos finais desses haveres? Laranjas de Vorcaro, suspeitam as instituições oficiais envolvidas na investigação. Ou quem mais? Para onde iria esse dinheiro? Para investimentos imobiliários ou hoteleiro ou de outros serviços de políticos e amigos poderosos? Para empresas de cônjuges dos poderosos? Outras iniciativas financeiras e empresariais, por assim dizer?

Essa é uma questão que, diz o lugar-comum, "tira o sono dos políticos em Brasília" (e de outras capitais, aliás). Outra é saber quem incentivou fundos de aposentadoria de servidores a comprar títulos do Master. Ainda outra, das três maiores é saber por que o BRB, o banco estatal do Distrito Federal, comprava um frango fantasma achando que era uma galinha de ovos de ouro. Isto é, comprava créditos, direitos quaisquer a receber, como o de empréstimos, que não existiam, segundo suspeita que Banco Central levou ao Ministério Público. Enfim, o BRB parecia escalado para engolir um banco fantasma, evitar a bancarrota do dono e apagar os rastros das bandalhas.

Por ora, essa é a parte maior dos indícios de crime. Por isso, tanto se teme que Vorcaro se veja obrigado a fazer delação premiada a fim de escapar de cadeia longa (e, talvez, para preservar um dinheiro, em um processo que pretende condenar o BC por irregularidades). O alto risco de rolo federal, com gente graúda envolvida, motivou a onda de plantação ("fake") e vazamento (real) de notícias, lobby pesado de advogados, campanhas pagas pelas redes de influenciadores etc. Por tudo isso, é intrigante a atitude de Dias Toffoli, do STF, e de Jhonatan de Jesus, do TCU, aquela investida agressiva contra o BC seguida de recuo quando passaram a aparecer indícios graves de bandalha.

O BC continua a analisar o efeito dessas transações na saúde financeira do BRB. Polícia Federal e Ministério Público aprofundam a investigação das denúncias enviadas pelo BC. Mas a bola está também com a Comissão de Valores Imobiliários. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acaba de indicar um novo presidente para a CVM, Otto Lobo, conhecido por decisões controversas na instituição. A intriga engrossa —governo e cúpula da oposição e do Congresso tentam dar um jeito de evitar uma CPI.

Esse escândalo político federal é muito importante e, de resto, rende fofoca animada. Mas se esquece do "filme que deu origem à série": o Master era um morto-vivo pelo menos desde o início de 2025, um zumbi, tanto por irresponsabilidade financeira como por seus haveres fictícios. Para entender o caso e muito mais, é crucial entender como o Master estava quebrado. Assunto para a coluna de amanhã.

 

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