domingo, 11 de janeiro de 2026

Trump e o Cartel de los Soles. Por Elio Gaspari

O Globo

Termo foi usado em denúncia americana contra líder venezuelano no passado, mas governo constatou nesta semana que grupo não existe como uma organização real

Entre as acusações dos EUA contra Nicolás Maduro estava a de liderar o Cartel de los Soles no tráfico de drogas e no terrorismo. Ela foi denunciada pelo Departamento de Justiça em 2020 e reiterada em 2025.

O Cartel de los Soles nunca traficou drogas nem praticou atentados. Na verdade, nunca foi um cartel. Tratava-se de uma criação de jornalistas para designar o coração do chavismo.

A atribuição de traficâncias e atentados ao Cartel de los Soles era algo como associar a Banda de Música da União Democrática Nacional, a velha UDN, a atividades culturais, como concertos.

A Banda de Música da UDN foi uma criação da imprensa na segunda metade do século passado para designar um grupo de parlamentares aguerridos que faziam oposição aos governos de Getulio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Depois do sequestro de Maduro, o governo americano reescreveu a acusação, definindo o cartel como um grupo corrupto e clientelista do chavismo. Apesar disso, o secretário de Estado Marco Rubio voltou a repisar a acusação no último dia 4.

Trapalhadas desse tipo dificilmente alterarão o julgamento de Maduro nos Estados Unidos. Ele será condenado, ponto.

Tigre de papel

O comportamento dos hierarcas da ditadura venezuelana depois do sequestro de Nicolás Maduro mostrou que o chavismo era um tigre de papel. Numa linguagem mais clara, um tigre atrás de boquinhas.

O lado americano da intervenção na Venezuela embute um sinal para as burocracias civis e militares latino-americanas.

Turma do Master subiu o tom

Desde o século passado, quando a autoridade monetária liquidava um banco, seus proprietários batalhavam dentro das quatro linhas da legislação. Daniel Vorcaro e a turma do Master mudaram o patamar do litígio.

Na tentativa de anular a legítima intervenção do Banco Central, fulanizaram a questão, puseram um ministro do Supremo no mesmo jatinho do advogado do Master, obtiveram a blindagem das investigações e trouxeram o Tribunal de Contas para o debate. O TCU tem tanto a ver com a liquidação do Master quanto a escola de samba da Mangueira. Até aí, pode-se dizer que foi uma estratégia agressiva, mas era o jogo jogado.

A barreira da legalidade foi rompida quando se viu que 46 perfis de redes sociais fizeram um bombardeio digital com ataques simultâneos contra o Banco Central e investigadores no caso Master.

Segundo a Febraban, no dia 27 de dezembro o bombardeio incluiu 4.560 posts contra o Banco Central, seus diretores e investigadores do caso. Esse tipo de conduta é crime, e a defesa de Vorcaro custou cerca de R$ 2 milhões e mudou o patamar do litígio.

O TCU sabe onde se mete

O presidente do Tribunal de Contas da União quer meter a instituição na omelete do banco Master.

Em 2017, o TCU meteu-se nas investigações de irregularidades praticadas na Petrobras e bloqueou os bens de seis membros do Conselho de Administração da empresa.

Tudo bem. Numa extensa decisão do relator Vital do Rêgo, listou suas vítimas. Antonio Palocci era ministro do Planejamento, Dilma Rousseff era chefe da Casa Civil, dois outros eram empresários e assim estavam qualificados. A quinta vítima chamava-se Gleuber Vieira. Foi mencionado três vezes, sem que fosse revelada sua profissão. Geólogo? Fonoaudiólogo? Vidente?

Gleuber Vieira (1933-2025) era general de quatro estrelas, havia sido comandante do Exército de 1999 a 2003, com 50 anos de serviço, sem nódoa.

O TCU sabe com quem se mete. O bloqueio dos bens dos conselheiros acabou suspenso.

Burro é o Planalto

Lula criou o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente e aproveitou a oportunidade para reclamar da espera a que foi submetido em 2024 quando sofreu uma queda e teve de aguardar três horas por um avião.

O doutor trocou as bolas. Em outubro de 2024 ele levou um tombo no banheiro do Alvorada, foi atendido na unidade de Brasília do Sírio-Libanês e voltou para o palácio. A falta de avião só aconteceu dois meses depois, quando Lula deixou de fazer um exame, teve fortes dores de cabeça e foi necessária a sua transferência para São Paulo.

Esse episódio nada teve a ver com inteligência ou burrice médica. O avião da Presidência demorou três horas porque Lula é chefe de um governo e ocupante de um palácio onde trabalhavam cerca de 3.500 servidores, sem que existisse um protocolo para a hipótese de o presidente vir a precisar de atendimento médico de emergência e de transferência para São Paulo.

A criação de um Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente não resolve o problema. A falta de inteligência não foi médica, foi logística, no seu quadrado.

O sono de Bolsonaro

A Polícia Federal informou ao Supremo Tribunal Federal que não tem condições técnicas para reduzir o barulho do equipamento de ar refrigerado que, segundo Bolsonaro, o impede de dormir.

Mesmo admitindo-se que a situação nada tem a ver com uma premeditação, deve-se lembrar que a supressão do sono era o método da Stasi, o serviço de segurança da Alemanha comunista para quebrar a vontade dos presos.

Sistemas de refrigeração barulhentos são coisa comum. A questão pode ser transferida para médicos especializados em controle do sono de pacientes. Se Bolsonaro passar pelo exame, o Supremo fica diante de outra questão.

Veto de Lula deve cair

Pelo andar da carruagem, o Congresso derrubará o veto de Lula ao projeto de redução das penas de 179 pessoas que estão presas pelas badernas e pela trama golpista de 2022/2023.

Trump na Groenlândia

A ideia trumpista de uma intervenção militar na Groenlândia está fadada ao fracasso, porque seria a desmoralização da aliança militar da Otan e da consequente porteira livre para a Rússia.

Já o capilé de 100 mil dólares para cada habitante do pedaço apoiar a anexação do território será outra conversa.

Com um cheque desse tamanho, a população de vários países preferiria ser anexada aos Estados Unidos.

O poder de Ciro Nogueira

O senador Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, prevaleceu sobre os argumentos do ministro Fernando Haddad e emplacou Otto Lobo na presidência da Comissão de Valores Mobiliários.

Nogueira tem um pé no caso do banco Master e há ainda pegadas de petistas nas trilhas de Daniel Vorcaro.

Centrais reclamam

Cinco centrais sindicais protestaram contra a sanção, por Lula, da lei que proíbe descontos automáticos nos benefícios administrados pelo INSS.

Desde quando se percebeu que havia quadrilhas roubando o dinheiro dos aposentados, nenhuma dessas centrais reclamou.

Assim como não reclamam dos sindicatos a elas filiados que cobram a Contribuição Sindical e não prestam serviço algum às vítimas.

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