Folha de S. Paulo
Ataque dos EUA à Venezuela foi
caricaturalmente imperialista
Ordem internacional multilateral é principal
vítima da aventura de Trump
Com a invasão da
Venezuela pelos Estados
Unidos, a América do
Sul entrou para a lista de regiões onde superpotências se
sentem à vontade para derrubar governos e roubar petróleo.
Se você está animado com essa perspectiva, vá lá checar se o Oriente Médio tem
se destacado por suas democracias estáveis e prósperas.
O ataque americano foi caricaturalmente imperialista. Enquanto Javier Milei celebrava gritando "Libertad, carajo!", Trump admitia candidamente que foi à Venezuela entregar mais "carajo" do que "libertad".
Donald já disse claramente que o governo
americano, e não o povo da Venezuela, ficará no comando por
tempo indeterminado. Avisou que entregará o petróleo venezuelano
para as companhias
petrolíferas americanas. Pouco depois, postou em suas redes sociais
que a Venezuela se comprometeria a comprar
produtos americanos com o dinheiro que ganhasse com petróleo.
Talvez inspirado pela ideia do
"bolsonarismo moderado", Donald Trump instalou
no governo da Venezuela uma "madurista moderada". Como no caso
brasileiro, "moderado" não tem qualquer relação com respeito à
democracia: tanto no caso dos governadores de direita brasileiros quanto no
de Delcy
Rodríguez, quer dizer que eles prometem implementar a política
econômica favorita de quem tem poder suficiente para distribuir crachá de
moderado.
Na verdade, Trump não tinha como evitar um
acordo com os chavistas. Ser quisesse instaurar uma opositora do regime no
poder, teria que ocupar a Venezuela militarmente. Seria caro. Além disso, seria
difícil para um governo democraticamente eleito concordar com a entrega do
petróleo venezuelano a uma potência estrangeira.
Não sabemos quais são as chances de uma
transição para a democracia e para além da tutela americana na Venezuela. Tudo
parece difícil, mas podemos ao menos torcer para que o povo venezuelano consiga
extrair democracia do conflito entre Trump e Maduro. Entendo a escritora
venezuelana María Elena Morán, que, escrevendo
na Folha no
último dia 8 de janeiro, reivindicou o direito de sentir alguma
esperança agora que Maduro caiu.
O que aumentou, em grau ainda difícil de
medir, foi o risco de retrocesso autoritário nos Estados Unidos. Trump
compreende a invasão da Venezuela como parte de uma guerra maior contra
imigrantes e criminosos (que, na sua cabeça, são a mesma coisa). O sequestro de
Maduro será apresentado aos americanos como uma vitória nesse conflito. A
guerra contra os "invasores", defendem os trumpistas mais radicais,
justificaria conferir ao presidente poderes excepcionais.
Mas a principal vítima da aventura
venezuelana de Trump é a ordem internacional multilateral, que já vinha abalada
depois da invasão da
Ucrânia e da tentativa de
anexar Gaza.
Os defeitos da governança global nas últimas
décadas são evidentes, mas abandoná-la sem substituí-la por coisa melhor é um
erro gravíssimo. Sem o multilateralismo, o mundo enfrentará cada vez mais
problemas globais, como pandemias ou mudanças climáticas, sem esforços
coordenados para combatê-los.
Já que há imbecis que não se importam com
nada disso, aqui vai outro argumento: se o mundo for regido apenas pela lei do
mais forte, pagaremos mais impostos para financiar gastos militares crescentes.

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