domingo, 11 de janeiro de 2026

Invasão americana equipara América do Sul ao Oriente Médio. Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ataque dos EUA à Venezuela foi caricaturalmente imperialista

Ordem internacional multilateral é principal vítima da aventura de Trump

Com a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, a América do Sul entrou para a lista de regiões onde superpotências se sentem à vontade para derrubar governos e roubar petróleo. Se você está animado com essa perspectiva, vá lá checar se o Oriente Médio tem se destacado por suas democracias estáveis e prósperas.

O ataque americano foi caricaturalmente imperialista. Enquanto Javier Milei celebrava gritando "Libertad, carajo!", Trump admitia candidamente que foi à Venezuela entregar mais "carajo" do que "libertad".

Donald já disse claramente que o governo americano, e não o povo da Venezuela, ficará no comando por tempo indeterminado. Avisou que entregará o petróleo venezuelano para as companhias petrolíferas americanas. Pouco depois, postou em suas redes sociais que a Venezuela se comprometeria a comprar produtos americanos com o dinheiro que ganhasse com petróleo.

Talvez inspirado pela ideia do "bolsonarismo moderado", Donald Trump instalou no governo da Venezuela uma "madurista moderada". Como no caso brasileiro, "moderado" não tem qualquer relação com respeito à democracia: tanto no caso dos governadores de direita brasileiros quanto no de Delcy Rodríguez, quer dizer que eles prometem implementar a política econômica favorita de quem tem poder suficiente para distribuir crachá de moderado.

Na verdade, Trump não tinha como evitar um acordo com os chavistas. Ser quisesse instaurar uma opositora do regime no poder, teria que ocupar a Venezuela militarmente. Seria caro. Além disso, seria difícil para um governo democraticamente eleito concordar com a entrega do petróleo venezuelano a uma potência estrangeira.

Não sabemos quais são as chances de uma transição para a democracia e para além da tutela americana na Venezuela. Tudo parece difícil, mas podemos ao menos torcer para que o povo venezuelano consiga extrair democracia do conflito entre Trump e Maduro. Entendo a escritora venezuelana María Elena Morán, que, escrevendo na Folha no último dia 8 de janeiro, reivindicou o direito de sentir alguma esperança agora que Maduro caiu.

O que aumentou, em grau ainda difícil de medir, foi o risco de retrocesso autoritário nos Estados Unidos. Trump compreende a invasão da Venezuela como parte de uma guerra maior contra imigrantes e criminosos (que, na sua cabeça, são a mesma coisa). O sequestro de Maduro será apresentado aos americanos como uma vitória nesse conflito. A guerra contra os "invasores", defendem os trumpistas mais radicais, justificaria conferir ao presidente poderes excepcionais.

Mas a principal vítima da aventura venezuelana de Trump é a ordem internacional multilateral, que já vinha abalada depois da invasão da Ucrânia e da tentativa de anexar Gaza.

Os defeitos da governança global nas últimas décadas são evidentes, mas abandoná-la sem substituí-la por coisa melhor é um erro gravíssimo. Sem o multilateralismo, o mundo enfrentará cada vez mais problemas globais, como pandemias ou mudanças climáticas, sem esforços coordenados para combatê-los.

Já que há imbecis que não se importam com nada disso, aqui vai outro argumento: se o mundo for regido apenas pela lei do mais forte, pagaremos mais impostos para financiar gastos militares crescentes.

 

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