O Globo
Trump empilhou insultos, amontoou dados
fantasiosos, fez exercício de autoglorificação e recorreu a ameaças pouco
veladas
Davos 2026 foi um espetáculo pouco virtuoso. À exceção do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que emergiu de lá com aura de estadista por fazer uso decente da palavra e respeitar a História, as demais lideranças pareceram figurantes deprimidos e deprimentes. O mundo que conheciam, e onde circulavam com mediocridade altiva, acabou. E o mundo à sua frente, moldado pelos instintos de um homem só — Donald Trump —, lhes reserva futuro inglório se teimarem em se acomodar nele para não perder poderes diminuídos.
É nesse cenário de miséria do pensamento
ocidental que a fala de Carney provocou aplausos de pé, alívio e não pouca
inveja por parte de seus pares. Ex-presidente do Banco Central e expoente par
excellence do establishment liberal de seu país, ele demonstrou que sistemas de
poder existem porque agimos como se existissem. Sem acrimônia nem exageros,
dedicou-se desmontar “a agradável ficção” de uma ordem mundial geriada pela
maior potência global. Recorreu abertamente a um conhecido texto do dissidente
tcheco da era soviética Vaclav Havel sobre o “poder dos sem-poder”:
— Quando você desnuda algo a sua essência e
percebe a realidade por trás da ficção, todo um sistema desmorona.
Não disputou o poderio militar e econômico em
mãos de Trump, até porque seria tolo. Apenas lembrou seus pares que, tal qual o
pequeno comerciante de Havel, “quando uma primeira pessoa cessa de fingir que
acredita no que lhe é imposto, a ilusão começa a fraturar, e todo um sistema de
poder arrisca ruir”:
— Eu tenho algo sobre o qual o poder [de
Trump] repousa: a capacidade de desmontar a crença coletiva — resumiu Carney.
Cabe às potências médias competir menos entre
si e deixar de se dobrar à hegemonia do momento. Ele disse em voz alta o que
todos pensavam e foi ovacionado.
Trump, por seu lado, disse em voz alta o que
todos temiam e recebeu aplausos “polidos”. Embora sua interminável fala não
tivesse nexo nem fio condutor, e ainda tenha exigido espera de hora e meia da
plateia, ele empilhou insultos, amontoou dados fantasiosos, fez exercício de
autoglorificação e recorreu a ameaças pouco veladas. No retorno a Washington,
não levou na bagagem a cobiçada conquista da Groenlândia e pareceu aceitar,
embora a contragosto, que a maior ilha do mundo não é um espaço em branco para
seu mapa-múndi.
A essa semana de lideranças acovardadas e
diplomacia desvertebrada, veio somar-se também a formalização pública do
Conselho de Paz idealizado por Trump e seu genro Jared Kushner há mais de dois
anos. A instituição internacional — presidida pelo próprio Trump em caráter
vitalício — visa a cortar caminhos na solução de conflitos mundiais, a começar
pela reconstrução da terra arrasada de Gaza. Tem como intenção subjacente o
descarte puro e simples da ONU como fórum e agente regulador da paz mundial.
Pouca coisa não é, assim a seco. Também a rápida adesão de países sob regimes
autoritários que se uniram à empreitada deveria ter acendido sinal vermelho na
esfera mais democrática do planeta.
Quanto mais se mergulha na gênese desse
conselho, mais ele adquire contornos de colossal embuste, à imagem de seu
criador. Dele fazem parte o israelense Benjamin Netanyahu, mas nenhum líder
palestino. Estão nele Alexander Lukashenko, homem forte da Bielorrússia, usada
por Vladimir Putin (ele mesmo também integrante) para atacar a Ucrânia. Arábia
Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Catar, a Turquia de Recep Tayyp
Erdogan, a Argentina de Javier Milei, a Hungria de Viktor Orbán e nenhum aliado
ocidental relevante.
Trump ainda pretendeu castigar Carney (pelo
teor do discurso e sobretudo pela ovação de pé recebida pelo canadense em
Davos) cancelando o convite que ele já tivera a péssima ideia de aceitar. Mesmo
o Brasil e Lula demoraram dias para anunciar que declinariam do convite de
participar de um projeto que tem tudo para servir de túmulo final de uma
esperança chamada Palestina.
Hora de reler “The Cruelty is the Point”
(algo como “A crueldade como meta”), publicado nos Estados Unidos quatro anos
atrás. Nele, o premiado jornalista americano Adam Serwer, da revista “The
Atlantic”, demonstra como o passado dos Estados Unidos espelha seu presente
atual e o alto preço pago pelos próprios americanos e pelo resto do mundo que
finge não ser assim.

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