O Estado de S. Paulo
Trump ressuscitou a antiga teoria do Grande
Homem na História, que já andava meio esquecida. Ao mais tardar com o famoso
“Fim da História”, convencionou-se que indivíduos tem peso específico nos
acontecimentos, mas não são capazes de alterar grandes rumos.
Quanto Lula é responsável pelo que o Brasil é (ou Bolsonaro, ou Vargas, ou FHC)? Teria acontecido a Revolução Russa sem Lenin? Ou a chinesa sem Mao? Ou a vitória soviética na Segunda Guerra sem Stalin? Ou teria acontecido essa guerra sem Hitler?
A maneira como Trump age é peculiar em muitos
sentidos (sobretudo por ser errática), mas perfeitamente ajustada a uma super
potência que, principalmente por razões internas, perdeu a capacidade
hegemônica. Trump é o retrato perfeito de um país que rasgou-se nas costuras
sociais, e o que foi um senso coletivo de “nação” compartilhado por todos os
segmentos. Ou seja, seu excepcionalismo.
Os Estados Unidos continuam sendo donos da
moeda de referência, da principal economia, das mais poderosas Forças Armadas e
de grande capacidade de inovação tecnológica. A sua perda de hegemonia é
relativa, mas essa é justamente a questão que importa quando uma super potência
se sente contestada. Perda relativa ao que?
Ao ressurgimento do colosso chinês. Do ponto
de vista geopolítico o que Trump trata de impor como lei da selva nas relações
internacionais é “defensivo” e “isolacionista” no pior sentido da palavra. O
que ele demonstra em relação à China é um reconhecimento da incapacidade de
contê-la ou derrotá-la. Quem sabe, talvez, consiga isso apenas no seu declarado
quintal, a América Latina.
Nesse sentido, é brilhante o papel individual
de Trump em acelerar o declínio relativo americano. Todos os grandes impérios,
formais ou não, lideraram alianças de “iguais” (em termos de valores comuns,
como religião), comerciais e econômicas, militares ou de pura subordinação.
Trump pensa só na última (supondo que tenha meios para subordinar todos ao
mesmo tempo), e despreza os outros fatores.
O Brasil nada enfrentou remotamente parecido
a isso, pois a nós foi agora explicitamente determinado um papel subordinado e
inferior especialmente como fornecedor de recursos naturais que vão de terras
raras a água doce, passando talvez por petróleo. Ainda bem que Trump não dá
bola para coisas como biodiversidade ou transição energética, caso contrário
poderia se interessar pela Amazônia.
Involuntariamente, Trump expôs o que foi a mediocridade de sucessivas gerações de elites brasileiras em “pensar” um país – e seu retrato fiel que é a mediocridade da política brasileira e seus representantes populares. O choque está apenas no começo, e para enfrentá-lo o Brasil terá de deixar de ser uma sociedade invertebrada.

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