sábado, 24 de janeiro de 2026

Racismo que não se esconde. Por Flávia Oliveira

O Globo

O que era sugerido na campanha, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional

Um ano depois de assumir o segundo mandato à frente da Casa Branca, o racismo de Donald Trump nem sequer ousa esconder seu nome. O supremacismo branco, sempre evidente, tornou-se escancarado. O que era sugerido na campanha presidencial, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional. Apenas nesta semana, por duas vezes, uma na sede do governo, em Washington, outra no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o mandatário dos Estados Unidos abusou de frases depreciativas a imigrantes, em particular aos somalis, novos alvos da tática trumpista de semear na própria base eleitoral a aversão a estrangeiros.

A desonra de Toffoli. Por Thaís Oyama

O Globo

Se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado

Dias Toffoli foi passar uns dias de descanso num resort de luxo na Argentina. Dado que as últimas notícias sobre o ministro do STF envolvem justamente um resort de luxo no Brasil, onde ele desfruta confortos de toda espécie, a escolha do magistrado pode ter sido motivada por duas razões: 1) ele gosta muito de resorts e se interessa também por conhecer estabelecimentos do gênero mundo afora; 2) ele buscou um refúgio fora do país para se proteger da vista de seus conterrâneos, dado que seu nome aparece no noticiário dia sim e outro também, cada vez sob luz pior.

Adeus, María Corina. Por Eduardo Affonso

O Globo

A mais recente aquisição para a minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana

Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas, atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou, apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.

‘Defesa da democracia’ como escudo. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Fazer uma apreciação ética das ligações de Toffoli com o caso Master é o que ajudaria na integridade do STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, quebrou o silêncio sobre as críticas à condução do ministro Dias Toffoli na relatoria do caso Master. Mas surpreendeu até o ambiente jurídico e acadêmico com o tom adotado.

A despeito de uma série de episódios que põem em suspeição o trabalho de Toffoli, o chefe do Judiciário considerou a atuação do magistrado regular. Até aí, o texto segue um script institucional. Estranho seria se Fachin ratificasse, numa nota pública, críticas aos pares.

Um país à margem da lei. Por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Brasil parece incapaz de abraçar um código de conduta

Que Eunices e Sebastianas nos deem forças para buscarmos uma nação melhor

"O Agente Secreto" e "Ainda Estou Aqui" expressam a força do cinema brasileiro. E isso merece muita, mas muita comemoração. Ambos os filmes retratam, no entanto, um país à margem da lei, como "Cidade de Deus" ou "Cabra Marcado para Morrer", também aclamados internacionalmente.

"Ainda Estou Aqui" retrata o arbítrio como política de Estado. A tortura, os desaparecimentos forçados e a perseguição de dissidentes foram transformadas em instrumentos de manutenção de poder. A Constituição foi suspensa por sucessivos atos institucionais, que transferiram o poder aos militares, restringiram direitos e retiraram as ações repressivas do controle judicial. Instituições foram criadas ou receberam expressa determinação para torturar e matar.

Trump e a estratégia do homem louco. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente adota comportamento errático para tornar eventuais blefes mais críveis

Cientistas políticos são céticos em relação à eficácia dessa tática em relações internacionais

Com suas investidas e recuos, Donald Trump se consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos jogos.

Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.

A razão de Trump. Por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Senhor da Casa Branca almeja quebrar instituições sobre as quais se sustenta ordem erguida no pós-guerra

Nova ordem imaginada por Trump é concerto de grandes potências engajadas na delimitação de esferas de influência

As crises da Groenlândia e de Gaza esclarecem o sentido da política global de Trump. Mais que a soberania sobre a ilha ártica ou uma solução geopolítica na Terra Santa, o senhor da Casa Branca almeja quebrar as instituições sobre as quais se sustenta a ordem internacional erguida no pós-guerra. Seus atos conduzem o mundo ao estado hobbesiano da "guerra de todos contra todos".

Cláudio Castro é tragado para o caso Master. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Operação Barco de Papel apura suspeitas de operações financeiras irregulares no Rioprevidência

Castro se junta ao governador Ibaneis Rocha (DF), que bancou a compra do Master pelo BRB, na lista de autoridades que têm muito a explicar

O esquema de fraudes de Daniel Vorcaro arrastou para o centro da crise do Banco Master o governador do Rio, Cláudio Castro, após a operação Barco de Papel, da Polícia Federal, que apura suspeitas de irregularidades no fundo de previdência dos servidores do estado, o Rioprevidência.

Castro, no mínimo, deve explicações por ter mantido no cargo o presidente do fundo, Deivis Marcon Antunes, um dos alvos das investigações e exonerado somente nesta sexta (23) após a operação. Ele está fora do país.

Com Lula, 'ma non troppo'. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Estratégia da campanha é buscar o voto conservador no interior do estado

Na segurança, ideia é criticar influência de políticos ligados a práticas criminosas

Eduardo Paes deixará a prefeitura em 20 de março, antes do prazo previsto na legislação eleitoral, mas a tempo de entregar a chave da cidade ao Rei Momo, curtir alucinadamente quatro dias de Sambódromo e, quem sabe, chorar com a vitória da sua Portela. Será o Carnaval da despedida de quem começa a pré-campanha para ser o governador do Rio de Janeiro como favorito. Até outubro, é fazer com que o salto alto não atrapalhe.

Placas tectônicas. Por André Barrocal e Sergio Lirio

O movimento das forças em Brasília e na Faria Lima em torno do escândalo do banco Master

O crime organizado de colarinho branco está nu, graças ao escândalo do Banco Master, liquidado em novembro pelo Banco Central. O conglomerado do agora ex-banqueiro Daniel Vorcaro sofreu outro golpe na quarta-feira 21, quando o BC anunciou o fechamento do Will, instituição financeira virtual do grupo. Outsider, Vorcaro foi parar no meio do furacão de uma batalha que movimenta interesses gigantescos em Brasília e na Avenida Faria Lima, coração financeiro do País. Uma guerra na qual nem todos os objetivos são nobres. Há quem esteja, de fato, interessado em desbaratar uma fraude de enormes proporções. E há quem, como de costume, tente manipular o rumo das investigações em busca de dividendos eleitorais e financeiros – ao mesmo tempo, se possível.

última campanha eleitoral da vida do presidente Lula terá o combate aos poderosos como bandeira, daí o governo não arredar o pé de levar o caso Master às últimas consequências, doa a quem doer. Com o fantasma de uma improvável delação premiada de Vorcaro a rondar Brasília e deixar a cidade tensa, o Banco Central não recuou e não pretende recuar. Sempre que ocorre uma liquidação, os bens dos donos ficam indisponíveis, não podem ser vendidos até terminar a apuração de responsabilidades pela autoridade monetária. As degolas decretadas pelo BC farão com que o Fundo Garantidor de Crédito desembolse quase 50 bilhões de reais para ressarcir os clientes. O FGC é abastecido com recursos das próprias instituições financeiras, incluídas estatais como o Banco Brasil e a Caixa Econômica Federal. Adendo: os rumores de delação premiada podem ser lidos de distintas maneiras. A ideia de abrir a boca pode mesmo andar pela cabeça do empresário – resta saber o que ele teria a delatar – ou pode configurar-se como um pedido de socorro ao mundo político, no qual Vorcaro cultivou, ao longo do tempo, sólidas e ecumênicas relações.

Gestão temerária. Por Maurício Thuswohl

Loteado pelo União Brasil, o RioPrevidência multiplicou por sete aplicações no Banco Master sem aval do seu Comitê de Investimentos

No emaranhado de operações fraudulentas com Letras Financeiras (LFs) articuladas a partir do Banco Master, destaca-se a irresistível atração que esse tipo de aplicação parece ter exercido sobre diversos institutos de previdência de funcionários públicos estaduais ou municipais. Segundo investigações da Polícia Federal e do Banco Central, 18 dessas instituições investiram, entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, quase 1,9 bilhão de reais no banco controlado por Daniel Vorcaro e liquidado em novembro pelo BC. Como as LFs não estão cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), os servidores correm o risco de jamais reaver os valores investidos.

Com base em informações coletadas no Ministério da Previdência, os investigadores constataram que nenhum dos 18 institutos possuía aplicações vinculadas ao Master antes do período analisado. Em uma lista que inclui fundos mantidos por servidores dos governos de Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima, o destaque absoluto vai para o Rio de Janeiro, já que o RioPrevidência é responsável sozinho por 1,2 bilhão de reais aplicado nas LFs do Master, segundo uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado – o governo fluminense contesta o cálculo e diz que o valor aplicado foi de 960 milhões.

O Master e o risco sistêmico. Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Quando ocorre uma ruptura dos nexos monetários, a reconstrução exige impedir a desvalorização brutal da riqueza

O noticiário a respeito do Banco Master tem frequentado com assiduidade os ambientes da mídia. As notícias veiculadas nos meios de comunicação podem sugerir aos leitores e telespectadores que o episódio Master se refere apenas a um banco em particular.

liquidação extrajudicial executada pelo Banco Central pretendeu evitar uma grave deterioração do ambiente de confiança e pode ser interpretada de diferentes maneiras, mas o efeito mais imediato e perigoso é evitar o risco de ­desestabilização do sistema financeiro.

O perigo Trump. Por Cláudio Couto

CartaCapital

Se Putin é autoritário e expansionista, o presidente dos Estados Unidos parece ser ainda mais ameaçador, por agir com uma boa dose de irracionalidade

Afirmações categóricas sobre o futuro são sempre arriscadas e, provavelmente, equivocadas. Quando falamos sobre os perigos do presente, na realidade nos referimos ao que está por vir – ou seja, ao futuro. Feita a advertência, arrisco dizer que talvez vivamos o momento mais perigoso da humanidade desde o ocaso da Guerra Fria – e, quiçá, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Desde a vitória dos Aliados sobre o Eixo, o mundo passou por momentos de grande tensão e severos conflitos, como as guerras da Coreia e do Vietnã, além da crise dos mísseis em Cuba. No entanto, ao longo desse período, a institucionalidade internacional construída no pós-Guerra possibilitou certa contenção das grandes potências, cujos líderes se comportavam com alguma racionalidade. Hoje, tanto a institucionalidade quanto a racionalidade são deficitárias.

Pax Americana… Por Jamil Chade

CartaCapital

… Ou o último suspiro de uma hegemonia?

Um ano após tomar posse, Donald Trump quer uma ONU para chamar de sua, sugere que suas­ ambições territoriais não podem ser questionadas, promove uma reviravolta nas alianças tradicionais dos EUA e, acima de tudo, atua para frear a impressão de que governa um país em decadência.

A ordem é a de estabelecer uma espécie de novo status para a Pax Americana, ordenamento global que atenderia aos interesses dos EUA. Mas, entre analistas, diplomatas e mesmo banqueiros, há uma impressão de que, no lugar de força, o que Trump demonstra ao mundo é a fragilidade de uma nação. Numa recente reunião entre financistas suíços, em Genebra, um deles constatou que, se por décadas o dólar era a referência por conta da hegemonia econômica dos EUA, hoje a moeda norte-americana apenas mantém tal status graças à força bélica.

RAUL, uma estrela maior. Por Marcus Pestana

Há homens que lutam um dia, e são bons; há outros que lutam um ano, e são melhores; há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; porém há os que lutam toda a vida, estes são os imprescindíveis”. (Bertolt Bercht)

Raul Jungmann era um desses imprescindíveis. Perdi um dos maiores amigos que fiz na política. Inteligente, competente, humano, coerente, íntegro. Raul era uma referência especial para mim e um dos meus interlocutores mais constantes. Ele teve alta do hospital na sexta, dia 16. Eu tinha combinado de visitá-lo no sábado. Uma gripe radical me impediu. Remarcamos para quarta-feira. Fiquei arrasado. Raul nos deixou na segunda. Não pude ver meu amigo uma última vez.

Pessoalmente, o último encontro foi num sábado de setembro de 2025, quando almoçamos com os jornalistas da Confraria Orlando Brito, no Lake’s. Um grupo de jornalistas da velha guarda e do bom jornalismo, que ele chamava carinhosamente de Butantã. Como queríamos conversar sobre mais uma crise institucional que atormentava a República, saímos de lá e fomos tomar um café na 113 Sul. Depois o levei em casa. Recordo também a bonita homenagem que o IDP fez a ele como Doutor Honoris Causa, em maio de 2025, quando a luta já instalada contra o câncer não o impediu de fazer mais um belo discurso.

Opinião do dia – Antonio Gramsci (A solidez das crenças)

“Referências ao senso comum e a solidez de suas crenças encontram-se frequentemente em Marx. Contudo, trata-se de referências não à validez do conteúdo de tais crenças, mas sim a sua solidez formal e, consequentemente, à sua imperatividade quando produzem normas de conduta. Aliás, em tais referências, está implícita a afirmação da necessidade de novas crenças populares, isto é, de um novo senso comum e, portanto, de uma nova cultura e de uma nova filosofia, que se enraízem na consciência popular com a mesma solidez e imperatividade das crenças tradicionais."

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, 4ª Edição, v,1, p.118. Editora Civilização Brasileira, 2006.

 

Poesia | A vida é pouco ou demais pra mim, de Fernando Pessoa

 

Música | Maria Bethânia - Recife Manhã de Sol