Folha de S. Paulo
Na ciranda de náufragos, o grito 'todos por
um Toffoli' afunda o STF
Estratégia está mais para cumplicidade do que
colegialidade
Dias Toffoli não entrou para a sauna da promiscuidade judicial no verão passado. Conhecido de outros camarotes, jatinhos e casas de veraneio, Toffoli cultiva a amizade útil, a amizade com vantagem embutida. Da Libertadores a Champions League, do Lide ao Esfera, aceita convites e leva segurança com diárias pagas pelo STF. Tanto faz se o amigo está ou poderá estar na pauta do tribunal ou de sua relatoria.
Amizades artificiais de juízes geram nossa
justa desconfiança das decisões do tribunal. Sobretudo quando não há controle e
transparência. Mesmo que, por hipótese, o mui amigo não influencie a decisão do
ministro, a autoridade do tribunal se corrói. Isso impacta o Estado de Direito.
Pouca coisa é mais elementar no beabá
universal da ética judicial. É consenso entre esquerda e direita, entre norte e
sul, entre leste e oeste. É consenso entre teóricos e práticos do direito no
mundo: o Judiciário deve respeitar normas de conflitos de interesse (traduzidas
em regras de suspeição e impedimento ignoradas no STF). Até há
situações difíceis para detectar conflito de interesse. O caso de Toffoli como
relator da ação do Banco Master não
é uma delas. E nenhuma prova mais é necessária.
Está em curso um movimento de salvação do
ministro. Buscam vender o gesto como salvação do tribunal, até como salvação da
democracia. A operação, contudo, em vez de proteger, ajuda a fazer o contrário.
Edson
Fachin afirmou que "a tentativa de desmoralizar a corte é um
ataque à democracia". O constitucionalismo, porém, ensina outra coisa: a
leniência com a corrupção funcional, essa, sim, ataca a democracia.
Continuar a guardar as costas de Toffoli no
seio do escândalo bancário mais grave de que temos notícia traz riscos
superlativos ao STF. A promiscuidade enfraquece o tribunal e um STF fraco
interessa ao extremismo político. É projeto bolsonarista.
Críticas de amigos da corte pedem um STF
forte para defender a democracia. Ataques de inimigos da corte atiçam o fim do STF
para facilitar o caminho da autocracia. Edson Fachin,
referência de integridade judicial, conhece a distinção entre crítica e ataque,
entre amigo e inimigo. Ao misturar as duas coisas, rifa aliados do STF.
Parece mais cumplicidade que colegialidade.
Está mais para o grito degenerado "todos por um Toffoli" do que para
o imaginário grito institucional "um Toffoli por todos". Lembra mais
uma ciranda de náufragos que coalizão republicana.
A virtude da colegialidade pede renúncia e
desapego. Coloca a instituição acima de individualidades. Exige que a função
pública prevaleça sobre o capricho e a vaidade pessoal. Mas a colegialidade não
pode servir à proteção de inimigos internos.
Toffoli desponta como maior inimigo interno
do tribunal hoje. Precisa ser investigado. Arriscar sobrevivência institucional
para deixar suas transgressões atrás da porta é um gesto de irresponsabilidade.
"Criticar
para defender" foi a primeira coluna que escrevi para a Folha em novembro de 2019.
Interpelar a conduta de ministros do STF continua a ser fundamental para
fortalecer a instituição do STF.

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